{"id":3729,"date":"2017-05-05T09:31:42","date_gmt":"2017-05-05T12:31:42","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3729"},"modified":"2017-05-05T10:16:28","modified_gmt":"2017-05-05T13:16:28","slug":"os-segredos-da-guerrilha-curda-contra-o-isis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/05\/05\/os-segredos-da-guerrilha-curda-contra-o-isis\/","title":{"rendered":"Os segredos da guerrilha curda contra o ISIS"},"content":{"rendered":"<p><b>Dilar Dirik &#8211;\u00a0<\/b>Um ex\u00e9rcito de mulheres. Uma luta constante por autonomia, politiza\u00e7\u00e3o e democracia radical. Uma hip\u00f3tese: s\u00f3 valores anticapitalistas podem vencer, num mundo ca\u00f3tico, a tend\u00eancia ao fascismo<\/p>\n<p>No final de 2014, poucos meses depois de Estado Isl\u00e2mico (ISIS) avan\u00e7ar maci\u00e7amente no S\u00edria e no Iraque, cometendo massacres genocidas e feminicidas, uma luz revolucion\u00e1ria surgiu no horizonte da pouco conhecida cidade de Kobane.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s invadir Mosul, Tel Afar e Sinjar no Iraque, e conquistar vasto territ\u00f3rio na S\u00edria, o ISIS preparou-se para lan\u00e7ar um ataque \u00e0 regi\u00e3o conhecida pelos curdos como Rojava. O que o grupo n\u00e3o previu foi deparar-se com um tipo diferente de inimigo \u2013 uma comunidade organizada e politizada, que estava pronta para defender-se corajosamente por todos os meios, e com uma vis\u00e3o de mundo que vira a ideologia da morte do ISIS de ponta cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ar\u00een M\u00eerkan, uma jovem curda livre e revolucion\u00e1ria, viria a tornar-se o s\u00edmbolo da vit\u00f3ria de Kobane \u2013 a cidade que rompeu o mito do fascismo invenc\u00edvel do ISIS. Guerreira das Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ, na sigla em curdo), Ar\u00een M\u00eerkan explodiu a si mesma em outubro de 2014, pr\u00f3ximo da montanha Mishtenur, criticamente estrat\u00e9gica, para resgatar seus companheiros e companheiras e tomar a posi\u00e7\u00e3o do ISIS. Isso mudou o curso a batalha em favor das For\u00e7as Populares de Defesa (YPG\/YPJ) e outros grupos armados amigos, empurrando o ISIS para a defensiva. Depois de meses de luta incans\u00e1vel, que obrigou a coaliz\u00e3o liderada pelos EUA a oferecer apoio militar a\u00e9reo, Kobane foi libertada.<\/p>\n<p>Quase todos os dias, surgem v\u00eddeos dos moradores das vilas celebrando sua liberta\u00e7\u00e3o das garras do ISIS. As pessoas dan\u00e7am e fumam seus cigarros pela primeira vez novamente. Homens fazem suas barbas com l\u00e1grimas de alegria. Mulheres queimam e pisam em seus v\u00e9us negros e gritam c\u00e2nticos de liberdade. Aos olhos dos lutadores e da comunidade organizada na regi\u00e3o, especialmente mulheres, essa guerra \u00e9pica foi percebida n\u00e3o como um conflito \u00e9tnico ou religioso, mas como uma batalha hist\u00f3rica entre o mal concentrado do estatismo dominado pelos homens, a modernidade capitalista incorporada pelas gangues estupradoras do ISIS, e a alternativa de uma vida livre personificada pelas mulheres liberadas em luta.<\/p>\n<div id=\"attachment_556086\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<p><a href=\"http:\/\/autonomialiteraria.com.br\/loja\/sem%20categoria\/a-revolucao-ignorada-liberacao-da-mulher-democracia-direta-e-pluralismo-radical-no-oriente-medio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-556086\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/capa-internet-2-485x709.png?resize=220%2C322\" alt=\"capa-internet (2)\" width=\"220\" height=\"322\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><em>Dilar Dirik escreve o pref\u00e1cio do livro \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Ignorada\u201d<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>A vit\u00f3ria da Kobane revolucion\u00e1ria Kobane foi uma demonstra\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de que a luta contra o ISIS n\u00e3o consistia meramente de armas, mas de uma ruptura radical com o fascismo e as estruturas subjacentes que o tornam poss\u00edvel. Isso requer democracia radical e institui\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas aut\u00f4nomas, especialmente estruturas de mulheres que as posicione em franca oposi\u00e7\u00e3o ao sistema estatal de classe, hierarquia e domina\u00e7\u00e3o. De modo a libertar a sociedade da mentalidade e de sistemas como o ISIS, a autodefesa antifascista necessita ocupar todas as \u00e1reas da vida social \u2013 da fam\u00edlia \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 macroeconomia.<\/p>\n<p><b>Um produto da modernidade capitalista<\/b><\/p>\n<p>Tem havido muitas tentativas de explicar o fen\u00f4meno do ISIS e seu apelo a milhares de jovens, especialmente se considerarmos a brutalidade dos m\u00e9todos da organiza\u00e7\u00e3o. Muitos chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que aqueles que vivem sob o dom\u00ednio do ISIS frequentemente servem o grupo por medo ou por recompensa econ\u00f4mica. Mas, claramente, milhares de pessoas do mundo inteiro juntaram-se voluntariamente ao grupo tir\u00e2nico. Fizeram-no n\u00e3o a despeito, mas precisamente por causa de sua capacidade de cometer as mais impens\u00e1veis crueldades. Parece que n\u00e3o \u00e9 religi\u00e3o, mas um sentido de poder cruel e impiedoso \u2013 mesmo \u00e0 custa da morte \u2013 que irradia do ISIS o que atrai pessoas de todo o mundo para o grupo extremista.<\/p>\n<p>Teorias que apontam um s\u00f3 fator geralmente s\u00e3o incapazes de analisar o contexto pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social que torna poss\u00edvel a emerg\u00eancia de uma doutrina anti-vida como a do Ex\u00e9rcito Isl\u00e2mico. N\u00e3o se trata de isentar de responsabilidade indiv\u00edduos que cometem crimes contra a humanidade. Mas \u00e9 preciso considerar o apelo do ISIS a homens jovens, privados da oportunidade de ser seres humanos decentes e dignos. \u00c9 crucial enxergar o senso de gratifica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea \u2013 em forma de poder autorit\u00e1rio, dinheiro e sexo \u2013 que o ISIS oferece numa sociedade submetida ao c\u00e2ncer do capitalismo patriarcal, que torna a vida sem sentido, vazia e sem esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Patologizar o apelo do ISIS por tr\u00e1s do cen\u00e1rio da chamada \u201cguerra ao terror\u201d, ao inv\u00e9s de situ\u00e1-la no contexto de institui\u00e7\u00f5es de poder e viol\u00eancia mais amplas, n\u00e3o permitir\u00e1 entender o que leva \u201cbons meninos\u201d da Alemanha a viajar para o Oriente M\u00e9dio para tornar-se carrascos. E o ISIS ainda \u00e9 apenas a manifesta\u00e7\u00e3o mais extrema de uma aparente tend\u00eancia apocal\u00edptica global. Com a virada recente, rumo a uma pol\u00edtica autorit\u00e1ria de direita em muitas partes do mundo, uma palavra \u2013 antes considerada banida para sempre da sociedade humana \u2013 entrou novamente em nossa vida cotidiana e nosso l\u00e9xico pol\u00edtico: fascismo.<\/p>\n<p>H\u00e1, claramente, diferen\u00e7as imensas entre os contextos, caracter\u00edsticas e m\u00e9todos dos v\u00e1rios movimentos fascistas. Mas o ISIS \u00e9 um exemplo paradigm\u00e1tico de organiza\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica, pensamento autorit\u00e1rio, sexismo extremo, ret\u00f3rica demag\u00f3gica e recrutamento voltado a capitalizar car\u00eancias, medos ou desejos entre grupos sociais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Talvez possamos pensar o fascismo como express\u00e3o de um sistema, em que os Estados que est\u00e3o no topo do sistema capitalista mundial t\u00eam os meios para impor sua autoridade atrav\u00e9s de pol\u00edticas institucionais, econ\u00f4micas, com\u00e9rcio de armas, hegemonia midi\u00e1tica e cultural \u2013 enquanto outros, em rea\u00e7\u00e3o, dependem de formas mais \u201cprimitivas\u201d de fascismo, como a viol\u00eancia extremista aleat\u00f3ria. H\u00e1 um claro paralelo em como os fascistas, em qualquer lugar, dependem de um ambiente de paranoia, desconfian\u00e7a e medo para fortalecer a m\u00e3o do Estado. Os que desafiam seus inimigos s\u00e3o rotulados ou de \u201cterroristas\u201d, ou de \u201cinimigos de Deus\u201d \u2013 e qualquer a\u00e7\u00e3o para destru\u00ed-los \u00e9 permitida.<\/p>\n<p>A for\u00e7a do fascismo depende da completa falta de rela\u00e7\u00e3o dos governantes com a comunidade em geral. \u00c9 alimentado por um clima em que a comunidade perde sua capacidade de iniciar a\u00e7\u00f5es diretas, expressar a criatividade e desenvolver suas pr\u00f3prias alternativas. Qualquer forma de solidariedade e lealdade dirigida a outra coisa ou pessoa que n\u00e3o seja o Estado deve ser sistematicamente erradicada, para que o cidad\u00e3o isolado e individualizado seja dependente do Estado e de suas institui\u00e7\u00f5es policiais e educacionais.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que um dos pilares mais cr\u00edticos do fascismo \u00e9 o capitalismo, como sistema econ\u00f4mico, ideol\u00f3gico e de intera\u00e7\u00e3o social. No sistema de valores do capitalismo moderno, as rela\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o reduzidas a uma mera intera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, calculada e mensurada pelo interesse e lucro. \u00c9 f\u00e1cil ver a habilidade do capitalismo para dispor de vidas em nome de interesses maiores \u2013 como o ISIS faz paralelamente com as vidas sacrificadas pelo pseudo-califado de estupro, pilhagem e assassinato.<\/p>\n<p><b>Mulheres, a<\/b><b> <\/b><b>mais <\/b><b>antiga colonia<\/b><\/p>\n<p>Ainda mais crucialmente: o fascismo nunca poderia emergir se n\u00e3o fosse pela escraviza\u00e7\u00e3o da mais antiga col\u00f4nia: as mulheres. De todos os grupos oprimidos e brutalizados, as mulheres foram submetidas \u00e0s formas mais antigas de viol\u00eancia institucionalizada. A vis\u00e3o das mulheres como esp\u00f3lios de guerra, ferramentas para servir aos homens como objeto sexual persiste em cada manifesto fascista. A emerg\u00eancia do Estado, juntamente com a fetichiza\u00e7\u00e3o da propriedade privada foi, sobretudo, possibilitada pela submiss\u00e3o das mulheres.<\/p>\n<p>Na verdade, \u00e9 imposs\u00edvel exercer o controle sobre popula\u00e7\u00f5es inteiras ou criar divis\u00f5es sociais profundas sem a opress\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o das mulheres, promovida pela domina\u00e7\u00e3o masculina na hist\u00f3ria escrita, produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica, e na administra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica. O Estado \u00e9 moldado segundo os padr\u00f5es da fam\u00edlia patriarcal e vice e versa. Todas as formas sociais de domina\u00e7\u00e3o s\u00e3o, em alguma medida, reprodu\u00e7\u00f5es de forma mais abrangente, \u00edntima, direta e nociva de escraviza\u00e7\u00e3o \u2013 que \u00e9 a subjuga\u00e7\u00e3o das mulheres em todas as esferas da vida.<\/p>\n<p>Diferentes estruturas e institui\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e hierarquia \u2013 como o capitalismo e o patriarcado \u2013 t\u00eam caracter\u00edsticas distintas, mas o fascismo constitui a inter-rela\u00e7\u00e3o sistematizada entre elas. E \u00e9 a\u00ed que o fascismo e o capitalismo, juntamente com a mais antiga forma de domina\u00e7\u00e3o humana \u2013 o patriarcado \u2013 encontram suas express\u00f5es mais monopolizadas e sistem\u00e1ticas no estado-na\u00e7\u00e3o moderno.<\/p>\n<p>Regimes anteriores, ao longo da hist\u00f3ria, tinham caracter\u00edsticas desp\u00f3ticas, mas sempre baseavam-se, para obter legitimidade, em c\u00f3digos morais, teologias religiosas e institui\u00e7\u00f5es divinas ou espirituais. A particularidade do capitalismo moderno \u00e9 despir-se de todas as pretens\u00f5es de moralidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lei e \u00e0 ordem, e expor seu sistemas obscenamente destrutivo.<\/p>\n<p>Sem a hierarquia e hegemonia natural do Estado, que monopoliza o uso da for\u00e7a, da economia, ideologia, informa\u00e7\u00e3o e cultura; sem a onipresen\u00e7a dos aparelhos de seguran\u00e7a que penetram todos os aspecto da vida, da m\u00eddia ao quarto; sem a m\u00e3o disciplinadora do Estado como um Deus na terra, nenhum sistema de explora\u00e7\u00e3o ou viol\u00eancia poderia sobreviver. O ISIS \u00e9 um produto direto de ambos: antigos modelos de hierarquia e viol\u00eancia, assim como o capitalismo moderno e seu pensamento \u00fanico em rela\u00e7\u00e3o a economia. Entender o ISIS \u2013 e o fascismo de forma mais geral \u2013 significa compreender a rela\u00e7\u00e3o entre patriarcado, capitalismo e o Estado.<\/p>\n<p><b>Democracia radical versus totalitarismo extremista<\/b><\/p>\n<p>Se o fascismo \u00e9 combina\u00e7\u00e3o de patriarcado, capitalismo, nacionalismo, sectarismo e autoritarismo estatal como m\u00e9todo, \u00e9 claro que uma luta antifascista relevante deve necessariamente empregar uma mentalidade e \u00e9tica oposta fundamentalmente aos pilares de tais sistema de viol\u00eancia. As for\u00e7as de autodefesa de Rojava tentam fazer exatamente isso.<\/p>\n<p>Desde a libera\u00e7\u00e3o de Kobane, o YPG\/YPJ fortaleceu-se em termos qualitativos e quantitativos, possibilitando \u00e0s guerrilhas conectar dois dos tr\u00eas cant\u00f5es, Jazira e Kobane. Nos est\u00e1gios iniciais da guerra, a esmagadora maioria das for\u00e7as eram curdas, mas a composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica mudou imensamente ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Em outubro de 2015, o YPG\/YPJ juntou-se a um grande n\u00famero de for\u00e7as regionais e criou uma coaliz\u00e3o multi\u00e9tnica. Chama-se For\u00e7as Democr\u00e1ticas da S\u00edria (SDF, em ingl\u00eas). Inclui curdos, \u00e1rabes, s\u00edrios, ass\u00edrios, tchetchenos, turcomenos, circassianos e arm\u00eanios. Busca a cria\u00e7\u00e3o de uma S\u00edria secular, democr\u00e1tica e federal, que n\u00e3o aceite nem a ditadura de Bashar al-Assad, nem oposi\u00e7\u00f5es antidemocr\u00e1ticas, dirigidas a partir do exterior. Embora sob constante ataque pelo ISIS e diversos outros inimigos \u2013 incluindo v\u00e1rias mil\u00edcias isl\u00e2micas, o ex\u00e9rcito s\u00edrio, o Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria e o Estado turco \u2013 as SDF libertaram com sucesso antigas bases do ISIS, como Manbij e Shaddadeh. Agora, lideram a opera\u00e7\u00e3o para liberar Raqqa, considerada capital do Ex\u00e9rcito Isl\u00e2mico. Controlam toda a regi\u00e3o de fronteira ao sul da Turquia, que antes constitu\u00eda a principal rota de suprimeinto para o ISIS em termos de log\u00edstica, muni\u00e7\u00e3o, finan\u00e7as e homens.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a Turquia tomou como miss\u00e3o treinar mil\u00edcias turcomenas obedientes ao Estado turco, bem como for\u00e7as sunitas em geral. O ex\u00e9rcito dos EUA repete constantemente que apoia as SDF por serem \u00e1rabes. Enquanto isso, as for\u00e7as curdas pr\u00f3ximas do Partido Democr\u00e1tico do Curdist\u00e3o, dirigido por Massoud Barzani, no Iraque, tentam construir um ex\u00e9rcito curdo \u00e0 sua imagem. Ou seja, a forma\u00e7\u00e3o intercultural das SDF perturbam n\u00e3o apenas as for\u00e7as hostis \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o curda, mas tamb\u00e9m projetos de nacionalismo curdo estrito.<\/p>\n<p>Em luta contra diversos inimigos ao mesmo tempo, as SDF s\u00e3o, na verdade, apenas o sistema f\u00edsico de autodefesa de um projeto mais amplo de sociedade contra a ordem capitalista, patriarcal e estatista. Desde que come\u00e7ou a revolu\u00e7\u00e3o em Rojava, em 2012, esfor\u00e7os incans\u00e1veis foram dedicados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma alternativa realista e vi\u00e1vel, que garanta vida ativa \u00e0s diferentes comunidades e grupos da regi\u00e3o. O sistema do confederalismo democr\u00e1tico, no norte da S\u00edra, foi adotado por um coletividade de pessoas de todas as comunidades da regi\u00e3o. Prop\u00f5e um modelo de S\u00edria federada, secular, democr\u00e1tica e com igualdade de g\u00eanero. A popula\u00e7\u00e3o local est\u00e1 mobilizada desde sua base, por meio de estruturas de democracia radical, que come\u00e7am em pequenas comunas de rua.<\/p>\n<p>A partir da proposta de Abdulla \u00d6calan, de um modelo de autonomia democr\u00e1tica [Ler <a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/posts\/o-surpreendente-curdistao-libertario\/\">\u201cO surpreendente Curdist\u00e3o libert\u00e1rio\u201d<\/a>], a vida quotidiana em Rojava \u00e9 organizada por meio da transforma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica numa atividade vital de cada habitante. Ao criar formas alternativas de organiza\u00e7\u00e3o social, por meio de autogest\u00e3o e solidadriedade protegidas por estruturas aut\u00f4nomas de mulheres e jovens, milhares de pessoas converteram-se em agentes ativos de suas pr\u00f3prias vidas.<\/p>\n<p>A democracia radical fortalece os la\u00e7os de solidariedade que o capitalismo tenta t\u00e3o agressivamente romper, para produzir os indiv\u00edduos ego\u00edstas necess\u00e1rios para sua agenda orientada pelos lucros. Por meio de participa\u00e7\u00e3o direta e comunal em todas as esferas da vida, a popula\u00e7\u00e3o local \u2013 organizada em estruturas aut\u00f4nomas e n\u00e3o estatais \u2013 constr\u00f3i sentidos mais profundos de si, da comunidade e das liga\u00e7\u00f5es entre democracia e identidade.<\/p>\n<p>Em Rojava, h\u00e1 liga\u00e7\u00f5es estreitas entre a democracia radical e conceitos de pertencimento e identidade que tomam como ponto de refer\u00eancia valores \u00e9ticos e democr\u00e1ticos, em vez dos mitos nacionalistas em que o fascismo se apoia. Com o paradigma de na\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, como ant\u00eddoto aos nacionalismo do Estado, os protagonistas da revolu\u00e7\u00e3o de Rojava tentam formular uma identidade em torno de princ\u00edpios \u2013 e n\u00e3o de etnicidade. Isso acomoda as diversas identidades, diversifica e protege a democracia e sua nova condi\u00e7\u00e3o de pertencimento. S\u00f3 estas comunidades fortes, baseadas em \u00e9tica e pol\u00edtica \u2013 uma sociedade \u201cmoral-pol\u00edtica\u201d, nas palavras de \u00d6calan \u2013 podem defender a si pr\u00f3prias contra os ataques mentais e f\u00edsicos do inimigo fascista.<\/p>\n<p>A democracia radical precisa necessariamente, portanto, ser internacionalista em perspectiva, enquanto d\u00e1 a todas as identidades o espa\u00e7o necess\u00e1rio para que se organizem e democratizem. A cria\u00e7\u00e3o das SDF, como autodefesa de todos os componentes \u00e9tnicos e culturais da regi\u00e3o, baseia-se na compreendo de que o tempo dos Estados-Na\u00e7\u00f5es passou; e de que uma vida livre n\u00e3o pode ser constru\u00edda por mentalidades nacionalistas \u2013 que est\u00e3o entre as causas da guerra. Al\u00e9m disso, a simples presen\u00e7a de um ex\u00e9rcito aut\u00f4nomo de mulheres \u2013 claramente comprometido com a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres de todas as manifesta\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o masculina \u2013, num mar de viol\u00eancia militarista e patriarcal, constitui o elemento mais anticapitalista e antifascista em Rojava. Os princ\u00edpios que motivam uma mulher a ser militante por um mundo justo e belo, numa sociedade patriarcal e conservadoras, requerem um imenso esfor\u00e7o mental, emocional e f\u00edsico.<\/p>\n<p>\u00c9 muito subversivo enfrentar o s\u00edmbolo dominante do homem, para vencer o patriarcado. Mas estes atos precisam ser acompanhados por uma revolu\u00e7\u00e3o social mais ampla. Organizando-se em cooperativas, comunas e assembleias, as mulheres conseguiram tornar-se a for\u00e7a mais vibrante e revolucion\u00e1ria em Rojava \u2013 as garantidoras da liberdade. Embora a domina\u00e7\u00e3o masculina ainda n\u00e3o tenha sido superada, as mulheres j\u00e1 estabeleceram uma cultura pol\u00edtica geral que n\u00e3o normaliza o patriarcado e que respeita incondicionalmente os mecanismos de decis\u00e3o das mulheres.<\/p>\n<p>O YPJ destaca que a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 a maneira mais direta de lutar contra o fascismo de cor religiosa, a modernidade capitalista e outras formas de autoritarismo. A opera\u00e7\u00e3o C\u00f3lera do Eufrates para libertar Raqqa, onde o ISIS ainda mant\u00e9m milhares de mulheres como escravas sexuais, \u00e9 liderada por uma mulher curda de nome Rojda Felat. As cenas de lutadoras doYPJ sendo abra\u00e7adas e beijadas por mulheres que foram for\u00e7adas a viver sob o jugo do ISIS por anos ajudar\u00e3o um dia a construir a hist\u00f3ria do s\u00e9culo XXI no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p><b>Internacionalismo antifascista<\/b><\/p>\n<p>A imagem p\u00fablica das for\u00e7as armadas de Rojava mudou abruptamente, aos olhos de partes da esquerda, ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o de Kobane. Embora tenha sido inegavelmente uma batalha heroica, vencida por uma comunidade organizada e pelo poder de mulheres livres, a simpatia generalizada dissipou-se no mesmo momento em que estas for\u00e7as receberam apoio a\u00e9reo da coaliz\u00e3o liderada pelos Estados Unidos. Por terem figurado, durante muito tempo, entre as maiores v\u00edtimas do imperialismo no Oriente M\u00e9dio, os curdos e seus vizinhos n\u00e3o precisavam de nenhum esclarecimento a mais sobre os males do imp\u00e9rio. Os genoc\u00eddios e massacres cometidos contra eles por for\u00e7as imperialistas seguem vivos na mem\u00f3ria. Mas vis\u00f5es de mundo dogm\u00e1ticas e bin\u00e1rias, e cr\u00edticas obtusas n\u00e3o apresentam nenhuma alternativa vi\u00e1vel \u00e0s pessoas que lutam por suas vidas. Mais importante: n\u00e3o salvam vidas.<\/p>\n<p>Para as pessoas cujas fam\u00edlias estavam sendo massacradas pelo ISIS, a facilidade com que alguns grupos de esquerda no Ocidente pareciam rejeitar ajuda militar, em favor de no\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas de pureza revolucion\u00e1ria, era no m\u00ednimo incompreens\u00edvel. A defesa de um aiti-imperialismo incondicional, quando afastada da exist\u00eancia humana real e das realidades concretas, \u00e9 um luxo pelo qual apenas os que est\u00e3o muito distantes do trauma da guerra podem pagar. Conscientes dos perigos de ser instrumentalizadas e em seguida abandonadas, por grandes pot\u00eancias como os EUA e a R\u00fassia \u2013 mas bloqueadas entre a cruz e a espada \u2013 a prioridade\u00a0das SDF foi e ainda \u00e9 sobreviver e eliminar as amea\u00e7as mais imediatas \u00e0 exist\u00eancia de centenas de milhares de pessoas, nas vastas faixas de territ\u00f3rio controladas.<\/p>\n<p>Enquanto alguns no Ocidente adotam uma atitude realista de solidariedade com as SDF \u2013 que compreendem as dimens\u00f5es da luta e trabalham em meio a contradi\u00e7\u00f5es \u2013 outros tomam a suposta \u201ccolabora\u00e7\u00e3o com o imperialismo\u201d como pretexto para recusar-se a reconhecer qualquer dos elementos positivos que a revolu\u00e7\u00e3o em Rojava pode aportar, num contexto de guerra e caos. \u00c9 claro: nenhuma vit\u00f3ria revolucion\u00e1ria nos s\u00e9culos anteriores foi pura ou perfeita. Mas o dogmatismo sect\u00e1rio em que parte da esquerda ocidental permanece mergulhado \u2013 sobre a quest\u00e3o da S\u00edria em geral, e Rojava em particular \u2013 diz muito mais sobre o pr\u00f3prio estado da esquerda que sobre as realidades da resist\u00eancia antifascista concreta.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil rejeitar qualquer forma de autoridade e poder quando elas est\u00e3o muito longe do alcance dos revolucion\u00e1rios. Mas \u00e9 indispens\u00e1vel conceitualizar o poder \u2013 e a autoridade, quando necess\u00e1rio \u2013 revolucion\u00e1rios para proteger milh\u00f5es de pessoas. Instituir um sistema de libera\u00e7\u00e3o, sem cair nas armadilhas do autoritarismo, exige ter coragem e assumir riscos. Enquanto as conquistas revolucion\u00e1rias n\u00e3o eliminarem o per\u00edodo de autoritarismo, coopta\u00e7\u00e3o imperialista e trai\u00e7\u00e3o, as mentalidades hier\u00e1rquicas, a corrup\u00e7\u00e3o e os abusos prevalecer\u00e3o.<\/p>\n<p>Os governos envolvidos na guerra contra o ISIS contribu\u00edram para o caos por meio de suas pr\u00f3prias pol\u00edticas, a\u00e7\u00f5es de guerra e com\u00e9rcio de armas. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, eles compartilham a mesma mentalidade que anima o ISIS. N\u00e3o ser\u00e3o jamais os que derrotar\u00e3o o Estado Isl\u00e2mico. Os principais inimigos do ISIS s\u00e3o precisamente os que o enfretam a partir de uma forma radicalmente distinta de conceber a vida. Derrotar o extremismo autorit\u00e1rio s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por meio da democracia radical e da liberta\u00e7\u00e3o das mulheres. Nesse contexto, as SDF travam uma das mais importantes lutas antifascistas de nosso tempo \u2013 e precisam ser apoiadas.<\/p>\n<p>A morte heroica de Ar\u00een M\u00eerkan foi um hino \u00e0 vida, \u00e0 liberdade, \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres. Sua a\u00e7\u00e3o generosa de solidariedade com seu povo e a liberdade das mulheres foi uma afronta radical n\u00e3o apenas ao ISIS, mas \u00e0s pr\u00f3prias mentalidades em que se baseia o capitalismo global: a fetichiza\u00e7\u00e3o do lucro e o individualismo. Num mundo que coisifica as mulheres, Ar\u00een M\u00eerkan usou seu corpo como fronteira final contra o fascismo.<\/p>\n<p>A batalha de Kobane estimulou o imagin\u00e1rio criativo das pessoas em todo o mundo. Revelou que uma sociedade politicamente consciente e organizada pode, mesmo com meios limitados, derrotar as armas mais pesadas, as ideologias mais sombrias e os inimigos mais terr\u00edveis. A tarefa dos antifascistas deve ser nunca render-se \u00e0s institui\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias, e buscar os meios de defender a comunidade. Para homenagear revolucion\u00e1rias heroicas como Ar\u00een M\u00eerkan, a luta antifascista precisa dizer; <i>j\u00e1 basta.<\/i><\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"8R0K7k71Mz\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/os-segredos-da-guerrilha-curda-contra-o-isis\/\">Os segredos da guerrilha curda contra o ISIS<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Os segredos da guerrilha curda contra o ISIS&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/os-segredos-da-guerrilha-curda-contra-o-isis\/embed\/#?secret=4NcnBDfBpz#?secret=8R0K7k71Mz\" data-secret=\"8R0K7k71Mz\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dilar Dirik &#8211;\u00a0Um ex\u00e9rcito de mulheres. 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