{"id":365,"date":"2016-05-21T15:23:04","date_gmt":"2016-05-21T18:23:04","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=365"},"modified":"2016-05-15T21:26:20","modified_gmt":"2016-05-16T00:26:20","slug":"cinco-conflitos-entrelacados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/05\/21\/cinco-conflitos-entrelacados\/","title":{"rendered":"Cinco conflitos entrela\u00e7ados"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pierre Conesa<\/strong>\u00a0&#8211;\u00a0O entusiasmo quase un\u00e2nime dos l\u00edderes pol\u00edticos pela \u201cguerra\u201d traduz um grave desconhecimento da realidade do terreno. Decidido em 2014, depois da tomada de Mossul e na emo\u00e7\u00e3o suscitada pelas decapita\u00e7\u00f5es, o engajamento militar ocidental acrescenta uma quinta camada a uma sobreposi\u00e7\u00e3o de conflitos que inflamam o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.diplomatique.org.br\/upload\/editor\/images\/pkk.jpg?w=640\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>Em\u00a01979, a Revolu\u00e7\u00e3o Iraniana instaurava um regime pol\u00edtico oficialmente \u201cisl\u00e2mico\u201d, mas na realidade exclusivamente xiita. Ela revivia assim uma lenta sedimenta\u00e7\u00e3o, na qual o conflito ancestral entre sunitas e xiitas representa a primeira camada. Quando, depois da tomada de poder em Teer\u00e3, o aiatol\u00e1 Ruhollah Khomeini pediu uma gest\u00e3o coletiva dos locais santos do isl\u00e3, o desafio se mostrou insuport\u00e1vel para a Ar\u00e1bia Saudita. Um ano antes de encontrar a morte perto de Lyon, depois dos atentados de 1995 na Fran\u00e7a, o jovem jihadista Khaled Kelkal declarava ao soci\u00f3logo alem\u00e3o que o interrogava: \u201cO xiismo foi inventado pelos judeus para dividir o isl\u00e3\u201d.<sup>1<\/sup>\u00a0Os wahabitas sauditas t\u00eam o velho h\u00e1bito de massacrar os xiitas, como testemunha desde 1802 a tomada de Kerbala (hoje no Iraque), que se traduz pela destrui\u00e7\u00e3o de santu\u00e1rios e t\u00famulos, entre eles o do im\u00e3 Hussein, e o assassinato de diversos habitantes.<\/p>\n<p>Essa \u201cguerra de religi\u00e3o\u201d esfacela atualmente sete pa\u00edses da regi\u00e3o: Afeganist\u00e3o, Iraque, S\u00edria, Paquist\u00e3o, L\u00edbano, I\u00eamen e Bahrein. Ela surge esporadicamente no Kuwait e na Ar\u00e1bia Saudita. Na Mal\u00e1sia, o xiismo est\u00e1 oficialmente banido. Na escala planet\u00e1ria, os atentados mais aleat\u00f3rios, como os cometidos durante as peregrina\u00e7\u00f5es, matam dez vezes mais mu\u00e7ulmanos do que n\u00e3o mu\u00e7ulmanos, e os tr\u00eas pa\u00edses mais atingidos s\u00e3o Afeganist\u00e3o, Iraque e Paquist\u00e3o. A\u00a0<i>oumma<\/i>, a comunidade dos crentes, que os salafistas jihadistas pretendem defender, recobre hoje um gigantesco espa\u00e7o de enfrentamentos religiosos. Nesse contexto, compreendemos por que Riad mobiliza bem mais facilmente seus avi\u00f5es e suas tropas contra os hutis do I\u00eamen, assimilados aos xiitas, do que para prestar socorro ao regime pr\u00f3-xiita de Bagd\u00e1. N\u00e3o entendemos por que os ocidentais deveriam tomar partido nessa guerra, e com que legitimidade.<\/p>\n<p>A segunda guerra \u00e9 a dos curdos para se tornarem mestres de seu destino, em particular contra o Estado turco. Ela surgiu em 1923, nos escombros do Imp\u00e9rio Otomano, com o Tratado de Lausanne, que dividia o Curdist\u00e3o entre os quatro pa\u00edses da regi\u00e3o: Turquia, S\u00edria, Iraque e Ir\u00e3. As diversas revoltas que abalaram o Curdist\u00e3o turco entre 1925 e 1939 foram todas esmagadas por Mustafa Kemal Ataturk. Desde os anos 1960, todos os levantes, na Turquia, no Iraque e no Ir\u00e3, foram afogados no sangue, diante da indiferen\u00e7a da comunidade internacional. Desde 1984, essa guerra causou mais de 40 mil mortes na Turquia, onde 3 mil vilarejos curdos foram destru\u00eddos, com um custo estimado em cerca de US$ 84 bilh\u00f5es.<sup>2<\/sup><\/p>\n<p>Ningu\u00e9m deveria se surpreender com o fato de que Ancara tenha deixado afluir os candidatos jihadistas para as duas principais for\u00e7as nas quais eles se reconhecem, a Frente Al-Nusra e a Organiza\u00e7\u00e3o do Estado Isl\u00e2mico (OEI), j\u00e1 que elas combatem os curdos do Iraque e principalmente da S\u00edria, muito pr\u00f3ximos dos da Turquia. Principal amea\u00e7a para Ancara, o Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o (PKK) continua classificado como grupo terrorista pela Uni\u00e3o Europeia e pelos Estados Unidos, e n\u00e3o pode receber ajuda militar ocidental. \u00danico pa\u00eds da regi\u00e3o a pertencer \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan) e a ter a capacidade de modificar a situa\u00e7\u00e3o militar no campo, a Turquia acabou por se unir \u00e0 coaliz\u00e3o. Mas ela concentra seus meios na retomada dos enfrentamentos com o PKK e n\u00e3o v\u00ea com bons olhos os curdos do Iraque e da S\u00edria que conquistam uma independ\u00eancia de fato.<\/p>\n<p>Terceira guerra em andamento: a que divide os islamitas entre si desde a Guerra do Golfo (1990-1991) e ainda mais desde as revoltas \u00e1rabes. A rivalidade mais conhecida op\u00f5e a Irmandade Mu\u00e7ulmana, apoiada pelo Catar, e os salafistas, apoiados pela Ar\u00e1bia Saudita, no Egito, na L\u00edbia e na Tun\u00edsia. Mais nova \u00e9 a concorr\u00eancia entre, por um lado, a Al-Qaeda e suas deriva\u00e7\u00f5es e, por outro lado, os companheiros de Abou Bakr al-Baghdadi, o chefe da OEI. Ao longo dos primeiros meses de 2014, estes \u00faltimos sobrepujaram a Frente Al-Nusra, filial local da Al-Qaeda na S\u00edria, ao custo de mais de 6 mil mortes.<sup>3<\/sup>\u00a0A proclama\u00e7\u00e3o do \u201ccalifado\u201d suscitou diversas passeatas. Os combatentes estrangeiros da OEI prov\u00eam de uma centena de pa\u00edses. Ao designar Al-Baghdadi como seu inimigo principal, os pa\u00edses ocidentais orientam de maneira decisiva a mobiliza\u00e7\u00e3o dos jihadistas para seu lado.<\/p>\n<p>Enfim, uma das guerras mais assassinas, que fez cerca de 250 mil mortos e milh\u00f5es de refugiados, \u00e9 a conduzida pelo presidente s\u00edrio, Bashar al-Assad, contra todos os seus oponentes.<\/p>\n<p><b>Quinze no Iraque, cem no I\u00eamen<\/b><\/p>\n<p>A batalha \u00e0 qual se entregam os ocidentais aparece como um novo epis\u00f3dio de uma guerra muito mais antiga, com uma autojustificativa hist\u00f3rica insuport\u00e1vel para as popula\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o. Seria preciso voltar aos Acordos de Sykes-Picot e \u00e0 partilha colonial da regi\u00e3o entre a Fran\u00e7a e o Reino Unido sobre as ru\u00ednas do Imp\u00e9rio Otomano? Seria preciso retornar a Winston Churchill, ent\u00e3o secret\u00e1rio de Guerra do Reino Unido, mandando destruir cidades e vilarejos curdos \u2013 bombardeados com o g\u00e1s qu\u00edmico iperita \u2013 e matar dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o da cidade curda de Souleimanye, ou reprimindo violentamente os xiitas iraquianos entre 1921 e 1925? Como esquecer a Guerra Ir\u00e3-Iraque (1980-1988), na qual ocidentais e sovi\u00e9ticos apoiaram o agressor (Bagd\u00e1) e impuseram um embargo ao agredido (Teer\u00e3)? Barack Obama \u00e9 o quarto presidente norte-americano a enviar bombardeiros ao Iraque, pa\u00eds j\u00e1 ferido por 23 anos de ataques militares ocidentais. Desde o fim da invas\u00e3o norte-americana (2003-2011), cerca de 120 mil civis foram mortos.<sup>4<\/sup>\u00a0Em 2006, a revista m\u00e9dica\u00a0<i>The Lancet<\/i>\u00a0estimava o n\u00famero de mortes imputadas \u00e0 guerra em 655 mil, uma cat\u00e1strofe demogr\u00e1fica se somarmos as 500 mil mortes causadas pelo embargo internacional, entre 1991 e 2002. Segundo as palavras da ex-secret\u00e1ria de Estado Madeleine Albright, em 12 de maio de 1996, no canal CBS, isso \u201cvalia a pena\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, por que os ocidentais interv\u00eam contra a OEI? Para defender princ\u00edpios humanistas? \u00c9 poss\u00edvel duvidar disso quando constatamos que tr\u00eas pa\u00edses da alian\u00e7a continuam a praticar a decapita\u00e7\u00e3o, a lapida\u00e7\u00e3o e a cortar as m\u00e3os dos ladr\u00f5es: o Catar, os Emirados \u00c1rabes Unidos e \u2013 muito acima dos dois primeiros \u2013 a Ar\u00e1bia Saudita. A liberdade religiosa? Ningu\u00e9m ousa exigi-la de Riad, onde um tribunal de segunda inst\u00e2ncia acaba de condenar \u00e0 morte um poeta palestino por apostasia.<sup>5<\/sup>\u00a0Trata-se ent\u00e3o de impedir os massacres? A opini\u00e3o \u00e1rabe tem dificuldade em acreditar nisso quando, dois meses ap\u00f3s os 1,9 mil mortos pelos bombardeios israelenses em Gaza, que haviam deixado as capitais ocidentais estranhamente indiferentes, a decapita\u00e7\u00e3o de tr\u00eas ocidentais bastou para lev\u00e1-los a atacar o norte do Iraque. \u201cMil mortos em Gaza, e ningu\u00e9m faz nada; tr\u00eas ocidentais degolados, e mandam o Ex\u00e9rcito!\u201d, denunciava um site salafista franc\u00f3fono.<\/p>\n<p>Pelo petr\u00f3leo, ent\u00e3o? A maior parte dos combust\u00edveis da regi\u00e3o vai para os pa\u00edses da \u00c1sia, totalmente alheios \u00e0 coaliz\u00e3o. Para estancar o afluxo de refugiados? Mas, neste caso, como aceitar que os riqu\u00edssimos Estados do Golfo n\u00e3o acolham nenhum? Para proteger os \u201cdireitos humanos\u201d defendendo a Ar\u00e1bia Saudita? Riad acaba de demonstrar sua concep\u00e7\u00e3o inovadora desses direitos ao condenar Ali al-Nimr, um jovem manifestante xiita, a ser decapitado e crucificado para que depois seu corpo fosse exposto publicamente at\u00e9 apodrecer.<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>No plano militar, as contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o ainda mais evidentes. Hoje, apenas os avi\u00f5es ocidentais realmente bombardeiam a OEI. Os Estados Unidos empregam cerca de quatrocentos avi\u00f5es, e a Fran\u00e7a, uns quarenta, dentro da opera\u00e7\u00e3o \u201cChammal\u201d, com a chegada do porta-avi\u00f5es\u00a0<i>Charles de Gaulle<\/i>.<sup>7<\/sup>\u00a0A Ar\u00e1bia Saudita disp\u00f5e de cerca de quatrocentos avi\u00f5es de combate, mas s\u00f3 utiliza uns quinze no Iraque, ou seja, o mesmo que a Holanda e a Dinamarca reunidas. Por outro lado, no I\u00eamen, cerca de uma centena de avi\u00f5es sauditas participam dos bombardeios da coaliz\u00e3o dos dez pa\u00edses \u00e1rabes sunitas contra os hutis (xiitas), organizada por Riad. Dez pa\u00edses \u00e1rabes contra os xiitas do I\u00eamen, cinco contra a OEI: estranho desequil\u00edbrio! E \u00e9 realmente contra os hutis que Riad mobiliza todas as suas for\u00e7as, e n\u00e3o contra a Al-Qaeda na Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica (AQPA), da qual se reivindicava pertencente Cherif Kouachi, o autor dos atentados contra o\u00a0<i>Charlie Hebdo<\/i>\u00a0em Paris. O antigo diretor da CIA David Petraeus qualificava a organiza\u00e7\u00e3o como o \u201cramo mais perigoso\u201d da nebulosa de mesmo nome, e ela tomou o controle de Aden, a segunda maior cidade do I\u00eamen.<\/p>\n<p>A partir de agora, a OEI atingiu tr\u00eas objetivos estrat\u00e9gicos. Em primeiro lugar, ela aparece como defensora dos sunitas oprimidos na S\u00edria e no Iraque. Suas v\u00edtimas s\u00e3o em 90% dos casos mu\u00e7ulmanas. No Afeganist\u00e3o, no Iraque, na S\u00edria e no Paquist\u00e3o, as v\u00edtimas dos atentados s\u00e3o primeiro os xiitas, depois os \u201cmaus mu\u00e7ulmanos\u201d \u2013 em particular os sufis \u2013 e os representantes dos regimes \u00e1rabes e, em \u00faltimo lugar somente, membros de minorias religiosas ou ocidentais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a OEI conseguiu deslegitimar a Al-Qaeda e seu ramo local na S\u00edria, a Frente Al-Nusra. Os chamados do sucessor de Osama bin Laden, Ayman al-Zawahiri, notificando Al-Baghdadi para se submeter \u00e0 sua autoridade, traduzem uma impot\u00eancia pat\u00e9tica. O somat\u00f3rio das deser\u00e7\u00f5es no seio dos grupos jihadistas mostra a nova din\u00e2mica criada pela OEI.<\/p>\n<p><b>Califa dever\u00e1 desafiar a Ar\u00e1bia Saudita<\/b><\/p>\n<p>Por fim, a OEI se tornou o inimigo n\u00famero um do Ocidente. Este deu in\u00edcio a uma \u201ccruzada\u201d contra ela, sem dizer esse nome, mas que pode facilmente ser apresentada como tal pelos propagandistas do jihad. A opera\u00e7\u00e3o norte-americana \u201cInherent Resolve\u201d (\u201cDetermina\u00e7\u00e3o Absoluta\u201d) re\u00fane principalmente doze pa\u00edses da Otan (mais a Austr\u00e1lia), e a alian\u00e7a restabelecida com a R\u00fassia refor\u00e7ar\u00e1 ainda mais o car\u00e1ter de \u201cfrente crist\u00e3\u201d que a propaganda da internet sabe utilizar t\u00e3o bem. Segundo uma peti\u00e7\u00e3o on-line assinada por 53 membros do clero saudita, os ataques a\u00e9reos russos visavam \u201ccombatentes da guerra santa na S\u00edria\u201d que \u201cdefendem a na\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana em sua totalidade\u201d. E, se os combatentes forem vencidos, \u201cos pa\u00edses do isl\u00e3 sunita cair\u00e3o todos, uns ap\u00f3s os outros\u201d.<sup>8<\/sup><\/p>\n<p>A contraestrat\u00e9gia militar dos sauditas n\u00e3o deixa nenhuma ambiguidade no ar: ela \u00e9 essencialmente orientada em sua luta contra os xiitas. Riad, como as outras capitais do Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo, n\u00e3o pode considerar a OEI a principal amea\u00e7a, sob pena de se ver contestada por sua pr\u00f3pria sociedade. A interven\u00e7\u00e3o militar saudita no Bahrein em 2012 visava quebrar o movimento de contesta\u00e7\u00e3o republicano, principalmente xiita, que amea\u00e7ava a monarquia sunita dos Al-Khalifa. No I\u00eamen, a opera\u00e7\u00e3o \u201cTempestade Decisiva\u201d, lan\u00e7ada em mar\u00e7o de 2015, visava restabelecer o presidente Mansur al-Hadi, deposto pela rebeli\u00e3o huti. Evidentemente, para Riad est\u00e1 fora de quest\u00e3o enviar sua infantaria contra a OEI enquanto 150 mil homens s\u00e3o empregados na fronteira com o I\u00eamen.<\/p>\n<p>No entanto, o pr\u00f3ximo objetivo da OEI deveria ser conquistar a legitimidade religiosa de seu \u201ccalifa\u201d, que se autodenominou \u201cIbrahim (Abrah\u00e3o) al-Muminim (\u201ccomandante dos crentes\u201d, t\u00edtulo da \u00e9poca ab\u00e1ssida) Abu Bakr (nome do primeiro califa) al-Baghdadi al-Husseini al-Quarashi (nome da tribo do Profeta)\u201d. Uma verdadeira competi\u00e7\u00e3o foi iniciada contra a outra pot\u00eancia que pretende encabe\u00e7ar a<i>\u00a0oumma<\/i>\u00a0e representar o isl\u00e3: a Ar\u00e1bia Saudita est\u00e1 sendo de agora em diante contestada no terreno. Para ganhar, Al-Baghdadi deve desafiar o \u201cdefensor dos locais santos\u201d. Podemos ent\u00e3o pensar que no fim, uma vez que todas as zonas xiitas forem reduzidas, o \u201ccalifa\u201d vai mirar a Ar\u00e1bia Saudita.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o as prov\u00e1veis consequ\u00eancias para a Europa? Depois dos refugiados afeg\u00e3os, iraquianos e s\u00edrios, ela deve rapidamente ver a chegada dos refugiados do I\u00eamen. Pa\u00eds mais populoso do que a S\u00edria, ele n\u00e3o pode evacuar seus habitantes para os pa\u00edses fronteiri\u00e7os, todos membros da coaliz\u00e3o que o bombardeia. Desde 2004, a guerra j\u00e1 fez mais de 340 mil deslocados, dos quais 15% vivem em campos, segundo o Escrit\u00f3rio de Coordena\u00e7\u00e3o nos Casos Humanit\u00e1rios das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Al\u00e9m disso, o I\u00eamen acolhe 246 mil refugiados, 95% deles somalianos. Os pa\u00edses do Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo mostrar\u00e3o o mesmo ego\u00edsmo que durante o \u00eaxodo s\u00edrio, quer dizer, nenhum lugar oferecido aos refugiados. Resta ent\u00e3o a Europa.<\/p>\n<p>Compreendemos melhor por que a alian\u00e7a faz uma guerra para a qual n\u00e3o pode fixar um objetivo estrat\u00e9gico claro: cada um de seus aliados est\u00e1 em conflito com outro. As interven\u00e7\u00f5es no Iraque, na S\u00edria, no Mali ou no Afeganist\u00e3o se parecem com o tratamento de met\u00e1stases; o c\u00e2ncer salafista tem seu lar nos pa\u00edses do Golfo, protegidos pelas for\u00e7as ocidentais. Pode-se destruir a OEI sem refor\u00e7ar outros movimentos jihadistas, o regime de Al-Assad ou Teer\u00e3? A guerra ser\u00e1 longa e imposs\u00edvel de ganhar, pois nenhum dos aliados regionais enviar\u00e1 tropas ao solo, o que poderia amea\u00e7ar seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia ocidental, fundada nos bombardeios e na forma\u00e7\u00e3o de combatentes locais, fracassou na S\u00edria e no Iraque, assim como no Afeganist\u00e3o. E esse fracasso traduz o car\u00e1ter fundamentalmente ex\u00f3geno dos objetivos europeus e norte-americanos nas crises internas ao mundo \u00e1rabo-mu\u00e7ulmano. Quanto mais o engajamento militar se acentuar, mais o risco terrorista vai aumentar, ante o enfrentamento previs\u00edvel e destruidor que deveria por fim opor a OEI e a Ar\u00e1bia Saudita. Ser\u00e1 que essa guerra \u00e9 \u201cnossa\u201d?<\/p>\n<p class=\"textoTimes12Autor\">Pierre Conesa \u00e9 antigo alto-funcion\u00e1rio da Otan. Autor, entre outros, de <em>M\u00e9caniques du chaos: bushisme, prolif\u00e9ration et terrorisme<\/em>, editora L&#8217;aube, La Tour d&#8217;Aigues, 2007.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Kurdishstruggle\/cc<\/p>\n<p>1 Ler Akram Belka\u00efd, \u201cL\u2019obsession des complots dans le monde arabe\u201d [A obsess\u00e3o dos compl\u00f4s no mundo \u00e1rabe],\u00a0<i>Le Monde diplomatique<\/i>, jun. 2015.<\/p>\n<p>2 Ler Allan Kaval, \u201cLes Kurdes, combien de division?\u201d [Os curdos, quantas divis\u00f5es?],\u00a0<i>Le Monde diplomatique<\/i>, nov. 2014.<\/p>\n<p>3 Segundo o Observat\u00f3rio S\u00edrio dos Direitos do Homem, citado pelo\u00a0<i>Le Monde<\/i>, 25 jun. 2014.<\/p>\n<p>4 Conta estabelecida pelo site .<\/p>\n<p>5 Segundo a organiza\u00e7\u00e3o Human Rights Watch, citada por Reuters, 20 nov. 2015.<\/p>\n<p>6 \u201cUn jeune de 21 ans risque la d\u00e9capitation\u201d [Um jovem de 21 anos pode ser decapitado], Anistia Internacional, Londres, 24 set. 2015.<\/p>\n<p>7 Segundo o ministro da Defesa, a opera\u00e7\u00e3o mobiliza 3,5 mil homens, 38 avi\u00f5es de combate e diversos meios de log\u00edstica e prote\u00e7\u00e3o. [\u201c\u2018Chammal\u2019: situa\u00e7\u00e3o em 19 de novembro\u201d]. Dispon\u00edvel em: .<\/p>\n<p>8 \u201cDes religieux saoudiens appellent au jihad contre Assad et ses alli\u00e9s\u201d [Religiosos sauditas chamam ao jihad contra Al-Assad e seus aliados],\u00a0<i>L\u2019Orient Le Jour<\/i>, Beirute, 6 out. 2015.<\/p>\n<p>http:\/\/www.diplomatique.org.br\/artigo.php?id=1990<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pierre Conesa\u00a0&#8211;\u00a0O entusiasmo quase un\u00e2nime dos l\u00edderes pol\u00edticos pela \u201cguerra\u201d traduz um grave desconhecimento da realidade do terreno. Decidido em 2014, depois da tomada de Mossul e na emo\u00e7\u00e3o suscitada pelas decapita\u00e7\u00f5es, o engajamento militar ocidental acrescenta uma quinta camada a uma sobreposi\u00e7\u00e3o de conflitos que inflamam o territ\u00f3rio. 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