{"id":3574,"date":"2017-04-20T09:20:19","date_gmt":"2017-04-20T12:20:19","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3574"},"modified":"2017-04-17T16:24:28","modified_gmt":"2017-04-17T19:24:28","slug":"porque-o-sistema-ainda-vencera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/04\/20\/porque-o-sistema-ainda-vencera\/","title":{"rendered":"Porqu\u00ea o sistema ainda vencer\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><strong>Perry Anderson<\/strong> &#8211;\u00a0Brexit, vit\u00f3ria de Trump, movimentos populistas na Europa: o Ocidente est\u00e1 protestando, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, contra as ortodoxias neoliberais e globalistas dos \u00faltimos 40 anos.<\/p>\n<p>O termo \u201cmovimentos antissist\u00eamicos\u201d era comumente usado h\u00e1 25 anos (1) para caracterizar for\u00e7as de esquerda em revolta contra o capitalismo. Hoje, ainda que n\u00e3o tenha perdido relev\u00e2ncia no Ocidente, seu significado mudou. Os movimentos de revolta que se multiplicaram ao longo da \u00faltima d\u00e9cada j\u00e1 n\u00e3o se rebelam contra o capitalismo, mas o neoliberalismo \u2013 fluxos financeiros desregulamentados, servi\u00e7os privatizados e crescente desigualdade social, variante espec\u00edfica do reinado do capital estabelecido na Europa e na Am\u00e9rica desde os anos 80. A ordem econ\u00f4mica e pol\u00edtica resultante foi aceita de maneira quase indistingu\u00edvel por governos de centro-direita e centro-esquerda, de acordo com o princ\u00edpio central de la pens\u00e9e unique, a senten\u00e7a de Margaret Thatcher de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d. Dois tipos de movimento est\u00e3o agora dispostos contra este sistema; a ordem estabelecida estigmatiza-os, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, com a amea\u00e7a do populismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que esses movimentos surgiram primeiro na Europa que nos EUA. Sessenta anos depois do Tratado de Roma, a raz\u00e3o \u00e9 clara. O mercado comum de 1957, resultado da comunidade do carv\u00e3o e do a\u00e7o do Plano Schuman \u2013 concebido tanto para evitar qualquer revers\u00e3o de um s\u00e9culo nas hostilidades franco-germ\u00e2nicas quanto para consolidar o crescimento econ\u00f4mico p\u00f3s-guerra na Europa ocidental \u2013 foi o produto de um per\u00edodo de pleno emprego e aumento dos rendimentos populares, o enraizamento da democracia representativa e o desenvolvimento dos sistemas de bem-estar social.\u00a0 Seus arranjos comerciais incidiram pouco na soberania dos Estados-na\u00e7\u00e3o que o compunham, os quais foram fortalecidos ao inv\u00e9s de enfraquecidos. Os or\u00e7amentos e as taxas de c\u00e2mbio foram determinados internamente, pelos parlamentos respons\u00e1veis perante os eleitores nacionais, nos quais pol\u00edticas politicamente contrastantes foram vigorosamente debatidas. As tentativas da Comiss\u00e3o em Bruxelas de formar um grupo foram acentuadamente rejeitadas por Paris. N\u00e3o s\u00f3 a Fran\u00e7a sob Charles de Gaulle, mas, na sua forma mais silenciosa, a Alemanha Ocidental sob Konrad Adenauer perseguiu pol\u00edticas externas independentes dos EUA e capazes de desafi\u00e1-los.<\/p>\n<p>O fim dos trinta anos gloriosos trouxe uma grande mudan\u00e7a nessa constru\u00e7\u00e3o. A partir de meados da d\u00e9cada de 1970, o mundo capitalista avan\u00e7ado entrou em uma longa desacelera\u00e7\u00e3o, analisada pelo historiador americano Robert Brenner (2): taxas de crescimento menores e aumentos mais lentos da produtividade, d\u00e9cada a d\u00e9cada, menos emprego e maior desigualdade, pontuadas por recess\u00f5es acentuadas. A partir da d\u00e9cada de 1980, come\u00e7ando no Reino Unido e nos EUA, e gradualmente se espalhando para a Europa, as dire\u00e7\u00f5es pol\u00edticas foram revertidas: os sistemas de assist\u00eancia social foram reduzidos, as ind\u00fastrias e servi\u00e7os p\u00fablicos foram privatizados e os mercados financeiros desregulamentados. O neoliberalismo havia chegado. Na Europa, isso veio ao longo do tempo para assumir uma forma institucional excepcionalmente r\u00edgida: o n\u00famero de Estados membros daquilo que se tornou a Uni\u00e3o Europeia multiplicou-se por quatro, incorporando uma vasta zona de baixos sal\u00e1rios do Leste europeu.<\/p>\n<p><strong>Austeridade draconiana<\/strong><\/p>\n<p>Da uni\u00e3o monet\u00e1ria (1990) para o Pacto de Estabilidade (1997), depois o Ato do Mercado \u00danico (1991), os poderes dos parlamentos nacionais s\u00e3o anulados numa estrutura supranacional de autoridade burocr\u00e1tica protegida da vontade popular, tal como o economista ultraliberal Friedrich Hayek profetizou. Com este mecanismo, a austeridade draconiana poderia ser imposta sobre os eleitores desamparados, sob a dire\u00e7\u00e3o conjunta da Comiss\u00e3o e de uma Alemanha reunificada, agora o estado mais poderoso da Uni\u00e3o, onde os principais pensadores abertamente anunciam sua voca\u00e7\u00e3o para a hegemonia continental. Externamente, durante o mesmo per\u00edodo, a UE e seus membros deixaram de desempenharam qualquer papel significativo no mundo, em desacordo com as diretivas vindas dos EUA, fazendo com que o avan\u00e7o das pol\u00edticas da \u201cneo-guerra fria\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia fosse estabelecido pelos EUA e pago pela Europa.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o \u00e9 de surpreender que as castas cada vez mais olig\u00e1rquicas da UE, desafiando a vontade popular em sucessivos referendos e incorporando diktats nas constitui\u00e7\u00f5es, deveriam gerar muitos movimentos de protesto contra elas. Qual \u00e9 o panorama dessas for\u00e7as? No n\u00facleo pr\u00e9-amplia\u00e7\u00e3o da UE, a Europa ocidental da Guerre Fria (a topografia da Europa ocidental \u00e9 t\u00e3o diferente que se pode ser abandonada para prop\u00f3sitos presentes) , os movimentos de direita dominam a oposi\u00e7\u00e3o ao sistema na Fran\u00e7a (Front National), na Holanda (Partido para a Liberdade, PVV), na \u00c1ustria (Partido Liberdade da \u00c1ustria), na Su\u00e9cia (Democratas Suecos), na Dinamarca (Partido do Povo Dinamarqu\u00eas), na Finl\u00e2ndia (Os Verdadeiros Finlandeses), na Alemanha (Alternativa para a Alemanha, AfD) e na Gr\u00e3-Bretanha (UKIP).<\/p>\n<p>Na Espanha, Gr\u00e9cia e Irlanda, movimentos de esquerda t\u00eam predominado: Podemos, Syriza e Sinn Fein. A exclusividade \u00e9 a It\u00e1lia que tem tanto um forte movimento antissist\u00eamico de direita na Lega e um movimento ainda maior na divis\u00e3o direita\/esquerda do Movimento 5 Estrelas (M5S); sua ret\u00f3rica extra-parlamentar sobre impostos e imigra\u00e7\u00e3o o coloca \u00e0 direita, em contraste com sua atua\u00e7\u00e3o parlamentar \u00e0 esquerda, de oposi\u00e7\u00e3o consistente \u00e0s medidas neoliberais do governo de Matteo Renzi (particularmente sobre educa\u00e7\u00e3o e desregulamenta\u00e7\u00e3o do mercado laboral), e seu papel central na derrota da tentativa de Renzi de enfraquecer a constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da It\u00e1lia (3). A isso pode ser adicionado o Momentum, que emergiu na Gr\u00e3o-Bretanha por tr\u00e1s do inesperada elei\u00e7\u00e3o de Jeremy Corbyn para a dire\u00e7\u00e3o do Labour Party. Todos os movimentos de direita, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do AfD, precedem o crash de 2008; alguns t\u00eam hist\u00f3rias que remontam a d\u00e9cada de 1970 ou datas mais antigas. A decolagem do Syriza e o nascimento do M5S, Podemos e Momentum s\u00e3o resultados diretos da crise financeira global.<\/p>\n<p>O fato central \u00e9 o maior peso global dos movimentos de direita em rela\u00e7\u00e3o aos de esquerda, tanto em n\u00famero de pa\u00edses onde eles chegaram ao governo quanto em for\u00e7a eleitoral. Ambos s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es \u00e0 estrutura do sistema neoliberal, que encontra sua express\u00e3o mais marcante e mais concentrada na atual UE, com sua ordem fundada na redu\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos; a revoga\u00e7\u00e3o do controle democ\u00e1tico e da representa\u00e7\u00e3o; e desregulamenta\u00e7\u00e3o dos fatores de produ\u00e7\u00e3o. Todos os tr\u00eas elementos est\u00e3o presente em n\u00edvel nacional na Europa, como em qualquer outro lugar, mas s\u00e3o de um grau maior de intensidade no n\u00edvel da UE, tal como atestam a tortura da Gr\u00e9cia, o atropelamento dos referendos e a escalada do tr\u00e1fico humano.\u00a0 Na arena pol\u00edtica, eles s\u00e3o as quest\u00f5es primordiais de interesse popular, dirigindo protestos contra o sistema em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 austeridade, soberania e imigra\u00e7\u00e3o. Os movimentos antissist\u00eamicos s\u00e3o diferenciados pelo peso atribu\u00eddo a cada um \u2013 a qual cor na paleta neoliberal eles direcionam a maior hostilidade.<\/p>\n<p>Movimentos de direita predominam sobre os de esquerda porque desde cedo fizeram a quest\u00e3o imigrat\u00f3ria um assunto de sua propriedade, apostando nas rea\u00e7\u00f5es xen\u00f3fobas e racistas para ganhar mais apoio entre os setores mais vulner\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o. Com a exce\u00e7\u00e3o dos movimentos na Holanda e na Alemanha, que acreditam no liberalismo econ\u00f4mico, eles s\u00e3o tipicamente ligados (na Fran\u00e7a, Dinamarca, Su\u00e9cia e Finl\u00e2ndia) n\u00e3o \u00e0 den\u00fancia, mas \u00e0 defesa do estado de bem-estar social, ao mesmo tempo que reclamam que a chegada de imigrantes minam este estado. Mas seria errado atribuir toda sua vantagem a essa carta; em exemplos importantes \u2013 a Front National (FN) na Fran\u00e7a \u00e9 o mais significativo \u2013\u00a0 eles tamb\u00e9m t\u00eam uma vantagem sobre outras frentes.<\/p>\n<p>A uni\u00e3o monet\u00e1ria \u00e9 o exemplo mais \u00f3bvia. A moeda \u00fanica e o banco central, concebido em Maastricht, fizeram a imposi\u00e7\u00e3o da austeridade e da nega\u00e7\u00e3o da soberania popular num \u00fanico sistem. Movimentos de esquerda deveriam atacar isso t\u00e3o veementemente quanto qualquer movimento de direita, se n\u00e3o mais. Mas as solu\u00e7\u00f5es que eles prop\u00f5em s\u00e3o menos radicais. \u00c0 direita, a FN e a Lega possuem rem\u00e9dios claros para as tens\u00f5es da moeda \u00fanica e para a imigra\u00e7\u00e3o: sair do euro e parar os fluxos migrat\u00f3rios. \u00c0 esquerda, com exce\u00e7\u00f5es isoladas, nunca se fizeram exig\u00eancias t\u00e3o inequ\u00edvocas. No m\u00e1ximo, os substitutos s\u00e3o ajustes t\u00e9cnicos na moeda \u00fanica, complicados para ter maior apelo popular e vagas alus\u00f5es embara\u00e7osas \u00e0s cotas; nem chega perto de ser t\u00e3o intelig\u00edvel para os eleitores como as proposi\u00e7\u00f5es diretas da direita.<\/p>\n<p><strong>O desafio da crescente imigra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A imigra\u00e7\u00e3o e a uni\u00e3o monet\u00e1ria criaram dificuldades especiais para a esquerda por raz\u00f5es hist\u00f3ricas. O tratado de Roma foi fundado sobre a promessa de livre movimenta\u00e7\u00e3o de capitais, commodities e m\u00e3o-de-obra dentro de um mercado comum europeu. Enquanto a Comunidade Europeia estava confinada aos pa\u00edses da Europa ocidental, os fatores de produ\u00e7\u00e3o onde a mobilidade mais importava foram o capital e as commodities: a imigra\u00e7\u00e3o pelas fronteiras dentro da comunidade era geralmente bastante modesta. Mas, no final da d\u00e9cada de 1960, o trabalho imigrante de ex-col\u00f4nias africanas, asi\u00e1ticas e caribenhas, e de regi\u00f5es semi-coloniais do ex-Imp\u00e9rio Otomano, j\u00e1 foi significativo em n\u00fameros. A extens\u00e3o da UE para a Europa oriental aumentou ent\u00e3o consideravelmente a imigra\u00e7\u00e3o dentro do bloco. Finalmente, as aventuras neo-imperais nas ex-col\u00f4nias mediterr\u00e2neas \u2013 a blitz militar na L\u00edbia e a propaganda na guerra civil na S\u00edria \u2013 levaram grandes ondas de refugiados para a Europa, juntamente com o terror de retalia\u00e7\u00e3o por parte de militantes da regi\u00e3o onde o Ocidente permanece acampado como senhor supremo, som suas bases, bombardeiros e for\u00e7as especiais.<\/p>\n<p>Tudo isso acendeu a xenofobia: os movimentos anti-sist\u00eamicos da direita se alimentaram dela, e os movimentos da esquerda a combateram, leais \u00e0 causa de um internacionalismo humano. Os mesmos apegos subjacentes levaram a maioria da esquerda a resistir a qualquer pensamento de acabar com a uni\u00e3o monet\u00e1ria, como uma regress\u00e3o a um nacionalismo respons\u00e1vel pelas cat\u00e1strofes passadas da Europa. O ideal da unidade europeia permanece para eles um valor cardinal. Mas a atual Europa de integra\u00e7\u00e3o neoliberal \u00e9 mais coerente do que qualquer uma das alternativas hesitantes que at\u00e9 agora propuseram. Austeridade, oligarquia e mobilidade dos fatores de produ\u00e7\u00e3o formam um sistema interligado. A mobilidade dos fatores n\u00e3o pode ser separada da oligarquia: historicamente, nenhum eleitorado europeu foi consultado sobre a chegada ou a escalada do trabalho estrangeiro; isso sempre ocorreu por detr\u00e1s de suas costas. A nega\u00e7\u00e3o da democracia, que se tornou a estrutura da UE, excluiu desde o in\u00edcio qualquer posi\u00e7\u00e3o na composi\u00e7\u00e3o da sua popula\u00e7\u00e3o. A rejei\u00e7\u00e3o desta Europa por movimentos da direita \u00e9 politicamente mais consistente do que a rejei\u00e7\u00e3o pela esquerda, outra raz\u00e3o para a vantagem da direita.<\/p>\n<p><strong>N\u00edveis recordes de descontentamento dos eleitores<\/strong><\/p>\n<p>A chegada do M5S, Syriza, Podemos e AfD marcou um salto no descontentamento popular na Europa. As pesquisas agora registram n\u00edveis recordes de insatisfa\u00e7\u00e3o com a UE. Mas, \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda, o peso eleitoral dos movimentos anti-sist\u00eamicos permanece limitado. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es europeias, os tr\u00eas resultados mais bem sucedidos para a direita \u2013 UKIP, FN e Partido Popular Dinamarqu\u00eas \u2013 foram cerca de 25% dos votos. Nas elei\u00e7\u00f5es nacionais, o valor m\u00e9dio na Europa Ocidental para todas as for\u00e7as de direita e esquerda combinadas \u00e9 de cerca de 15%. Essa percentagem do eleitorado representa pouca amea\u00e7a ao sistema; 25% pode representar uma dor de cabe\u00e7a, mas o \u2018perigo populista\u2019 do alarme midi\u00e1tico permanece at\u00e9 hoje muito modesto. Os \u00fanicos casos em que um movimento anti-sist\u00eamico chegou ao poder, ou parecia que poderia faz\u00ea-lo, s\u00e3o aqueles em que um deliberado super-ganho de assentos, atrav\u00e9s de um pr\u00eamio eleitoral destinado a favorecer o establishment, teve um efeito reverso; ou como na Gr\u00e9cia ou na It\u00e1lia, esses movimentos arriscaram-se a participar desse jogo.<\/p>\n<p>Na realidade, h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre o grau de desilus\u00e3o popular com a UE neoliberal do presente \u2013 no \u00faltimo ver\u00e3o, maiorias na Fran\u00e7a e na Espanha expressaram sua avers\u00e3o a ela, e mesmo na Alemanha, apenas a metade dos questionados apresentam uma vis\u00e3o positiva sobre o bloco \u2013 e a extens\u00e3o do apoio \u00e0s for\u00e7as que se posicionam contra ela. A indigna\u00e7\u00e3o e o desgosto com o que se transformou a UE \u00e9 comum, mas h\u00e1 algum tempo o determinante fundamental dos padr\u00f5es eleitorais na Europa tem sido e continua a ser o medo. O status quo s\u00f3cio-econ\u00f4mico \u00e9 amplamente detestado. Mas \u00e9 regularmente ratificado nos pleitos com a reelei\u00e7\u00e3o dos partidos respons\u00e1veis por essa situa\u00e7\u00e3o, por temores de que perturbar o status e alarmar os mercados traria ainda mais mis\u00e9ria. A moeda comum n\u00e3o acelerou o crescimento na Europa e ingligiu graves dificuldades aos pa\u00edses do sul. Mas a perspectiva de uma sa\u00edda aterroriza mesmo aqueles que sabem at\u00e9 agora o quanto eles sofreram com isso. O medo supera a raiva. Da\u00ed a aquiesc\u00eancia do eleitorado grego na capitula\u00e7\u00e3o do Syriza em Bruxelas, os reves do Podemos na Espanha, as dificuldades do Parti de Gauche na Fran\u00e7a. O sentido subjacente \u00e9 o mesmo em todo lugar. O sistema est\u00e1 mal. Afront\u00e1-lo \u00e9 arriscar-se a uma repres\u00e1lia.<\/p>\n<p>O que, ent\u00e3o, explica o Brexit? Imigra\u00e7\u00e3o massiva \u00e9 outro temor em toda a UE, e foi explorado no Reino Unido na campanha pelo Leave, no qual Nigel Farage foi um porta-voz e organizador h\u00e1bil, juntamente com os proeminentes Conservadores. Mas a xenofobia por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 suficiente para compensar o medo de crise econ\u00f4mico. Na Inglaterra, como em toda a parte, a avers\u00e3o aos imigrantes tem crescido \u00e0 medida que governos sucessivos mentiram sobre as escalas da imigra\u00e7\u00e3o. Mas se o referendo sobre a UE tivesse apenas sido uma disputa entre esses medos, como o establishment pol\u00edtico pretendia que fosse, o Remain teria vencido indubitavelmente por uma margem consider\u00e1vel, como ocorreu em 2014 com o referendo sobre a independ\u00eancia escocesa.<\/p>\n<p>Havia outros fatores. Depois de Maastricht, a classe pol\u00edtica brit\u00e2nica recusou a camisa de for\u00e7a do euro, apenas para perseguir um neoliberalismo nativo mais dr\u00e1stico do que qualquer outro do continente: primeiramente, a arrog\u00e2ncia financeirizada do New Labour, mergulhando a Inglaterra numa crise banc\u00e1ria antes de qualquer outro pa\u00eds europeu e, depois, um governo Liberal-Conservador com uma austeridade mais dr\u00e1stica do que qualquer outra gerada sem constrangimento externo da Europa. Economicamente, os resultados dessa combina\u00e7\u00e3o s\u00e3o peculiares. Nenhum outro pa\u00eds europeu ficou t\u00e3o polarizado por regi\u00f5es, entre uma metr\u00f3pole cheia de bolhas e bols\u00f5es de alta renda em Londres e no sudeste, e um norte e nordeste desindustrializado e empobrecido onde os eleitores sentiram que tinham pouco a perder se optassem pelo Leave (crucialmente, uma perspectiva mais abstrata que abandonar o euro), seja l\u00e1 o que acontesse com a City e os investimentos estrangeiros. O medo contou menos que o desespero.<\/p>\n<p>Politicamente, tamb\u00e9m, nenhum outro pa\u00eds europeu tem t\u00e3o flagrantemente manipulado um sistema eleitoral: UKIP foi o maior partido brit\u00e2nico individual em Estrasburgo sob representa\u00e7\u00e3o proporcional em 2014, mas um ano depois, com 13% dos votos, ganhou apenas uma cadeira simples no Westminster, enquanto o Partido Nacional Escoc\u00eas (SNP), com menos de 5% dos votos, ficou com 55 assentos. Sob os regimes intercambi\u00e1veis dos Trabalhistas e dos Conservadores, produzidos por esse sistema, os eleitores da base da pir\u00e2mide desertaram das urnas. Mas de repente concedida, uma vez, uma real escolha num referendo nacional, eles retornaramo com for\u00e7a para proferir seu veredito sobre as desola\u00e7\u00f5es de Tony Blair, Gordon Brown e David Cameron.<\/p>\n<p>Finalmente, e de forma decisiva, veio a diferen\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica separando o Reino Unido do continente. Por s\u00e9culos, o pa\u00eds n\u00e3o foi somente um imp\u00e9rio que abteu qualquer rival europeu culturalmente, mas ao contr\u00e1rio da Fran\u00e7a, Alemanha, It\u00e1lia ou a maioria do restante do continente, n\u00e3o sofreu derrota, invas\u00e3o ou ocupa\u00e7\u00e3o em qualquer guerra mundial. Logo, a expropria\u00e7\u00e3o dos poderes locais por uma burocracia na B\u00e9lgica causou mais atritos que em qualquer outro lugar: por que deveria uma estado que por duas vezes rejeitou o poder de Berlim se submeter a uma intromiss\u00e3o de Bruxelas ou Luxemburgo? Quest\u00f5es de identidade poderiam superar as quest\u00f5es de interesse mais facilmente que no resto da UE. Assim, a f\u00f3rmula normal \u2013 medo de uma repres\u00e1lia econ\u00f4mica supera o medo de uma imigra\u00e7\u00e3o massiva \u2013 falhou, deformada por uma combina\u00e7\u00e3o de desespero econ\u00f4mico e amor-pr\u00f3prio nacional.<\/p>\n<p><strong>O pulo dos EUA no escuro<\/strong><\/p>\n<p>Essas eram tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es nas quais um candidato presidencial dos Republicanos dos EUA de antecedentes e temperamento in\u00e9ditos \u2013 abomin\u00e1vel para opini\u00e3o bipartid\u00e1ria mainstream, sem qualquer disposi\u00e7\u00e3o de se conformar com c\u00f3digos aceitos de conduta civil e pol\u00edtica, odiados por muitos de seu atual eleitorado \u2013 poderia apelar para os suficientemente desconsiderados trabalhadores brancos do cintur\u00e3o da ferrugem a fim de vencer a elei\u00e7\u00e3o. Como na Gr\u00e3-Bretanha, o desespero superou a apreens\u00e3o em regi\u00f5es prolet\u00e1rias desindustrializadas. A\u00ed tamb\u00e9m, muito mais crua e abertamente, num pa\u00eds com uma hist\u00f3ria mais profunda de racismo nativo, imigrantes foram denunciados e barreiras, f\u00edsicas e processuais, foram demandadas. Sobretudo, o imp\u00e9rio n\u00e3o era uma mem\u00f3ria distante do passado mas um atributo v\u00edvido do presente e uma reclama\u00e7\u00e3o natural ao futuro, mas tinha sido descartado por aqueles no poder em nome de uma globaliza\u00e7\u00e3o que significou ru\u00edna e humilha\u00e7\u00e3o para seu pa\u00eds. O slogan de Donald Trump foi \u201cFazer a Am\u00e9rica Grande Novamente\u201d \u2013 pr\u00f3spero ao descartar os fetiches do livre movimento de mercadorias e de trabalho, e vitorioso em ignorar os obst\u00e1culos e as cren\u00e7as do multiletarismo: ele n\u00e3o estava errado ao proclamar que seu triunfo foi um grande Brexit. Foi muito mais que uma revolta espetacular, uma vez que n\u00e3o ficou confinado a uma quest\u00e3o \u00fanica (para a maioria do povo, simb\u00f3lica), e esteva desprovida de qualquer respeitabilidade do establishment ou b\u00ean\u00e7\u00e3o editorial.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria de Trump colocou a elite pol\u00edtica europeia, centro-direita e centro-esquerda unidos, em uma consterna\u00e7\u00e3o ultrajada. Quebrar as conven\u00e7\u00f5es estabelecidas sobre imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 ruim o suficiente. A UE pode ter tido poucos escr\u00fapulos na transfer\u00eancia de refugiados para a Turquia de Recep Tayep Erdogan, com suas dezenas de milhares de prisioneiros, tortura policial e suspens\u00e3o do que se passa dentro do Estado Democr\u00e1tico de Direito; ou na coloca\u00e7\u00e3o de arames farpados na fronteira norte da Gr\u00e9cia para manter os imigrantes trancados nas ilhas do Egeu. Mas a UE, respeitando seu decoro democraico, nunca glorificou suas exclus\u00f5es. A falta de inibi\u00e7\u00e3o de Trump nesses assuntos n\u00e3o afeta diretamente a UE. A sua rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologia do livre tr\u00e2nsito de fatores de produ\u00e7\u00e3o, seu aparentemente desrespeito desaberto pela OTAN e seus coment\u00e1rios sobre uma atitude menos beligerante com a R\u00fassia s\u00e3o o que causa uma preocupa\u00e7\u00e3o muito mais s\u00e9ria. Se qualquer um daqueles elementos \u00e9 mais do que um gesto que logo ser\u00e1 esquecido, como muitas das suas promessas dom\u00e9sticas, permanece algo a ser comprovado. Mas sua elei\u00e7\u00e3o cristalizou uma diferen\u00e7a significativa entre um n\u00famero de movimentos antissist\u00eamicos de direita ou de centro amb\u00edguo e partidos da esquerda do establishment, rosa ou verde. Na Fran\u00e7a e It\u00e1lia, movimentos de direita t\u00eam consistentemente se oposto \u00e0s pol\u00edticas de uma \u201cnova guerra fria\u201d e \u00e0s aventuras militares aplaudidas pelos partidos de esquerda, incluindo a blitz na L\u00edbia e as san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia.<\/p>\n<p>O referendo brit\u00e2nico e a elei\u00e7\u00e3o dos EUA foram convuls\u00f5es antissist\u00eamicos da direita, embora flanqueadas por surtos antissist\u00eamicss de esquerda (o movimento de Bernie Sanders nos EUA e o fen\u00f4meno Corbyn no Reino Unido), menores em escala, quando n\u00e3o menos esperados. Quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias de Trump ou do Brexit \u00e9 algo que permanece indeterminado, embora sem d\u00favida mais limitado que predi\u00e7\u00f5es correntes. A ordem estabelecida est\u00e1 longe de ser batida em qualquer pa\u00eds e, como a Gr\u00e9cia mostrou, \u00e9 capaz de absolver e neutralizar revoltas de qualquer dire\u00e7\u00e3o com velocidade impressionante. Entre os anticorpos j\u00e1 gerados est\u00e3o os simulacros yuppie dos avan\u00e7os populistas (Albert Rivera, Emmanuel Macron na Fran\u00e7a), atacando os bloqueios e corrup\u00e7\u00f5es do presente, e prometendo uma pol\u00edtica mais limpa e mais din\u00e2mica do futuro, para al\u00e9m dos partidos decadentes.<\/p>\n<p>Para as movimentos antissist\u00eamicos do esquerda em Europa, a li\u00e7\u00e3o dos anos recentes \u00e9 clara. Se eles n\u00e3o quiserem ser ultrapassados pelos movimentos de direita, n\u00e3o podem ser menos radicais no ataque ao sistema e devem ser mais coerentes em sua oposi\u00e7\u00e3o. Isso significa enfrentar a probabilidade da UE estar agora t\u00e3o firmemente no caminho da depend\u00eancia, enquanto uma constru\u00e7\u00e3o neoliberal, que reform\u00e1-la n\u00e3o \u00e9 algo mais seriamente conceb\u00edvel.\u00a0 Teria de ser desfeita antes que qualquer coisa melhor fosse constru\u00edda, seja rompendo com a atual UE, seja reconstruindo a Europa em outros marcos, lan\u00e7ando Maastricht \u00e0s chamas. A menos que haja uma crise econ\u00f4mica muito mais profunda, \u00e9 pouco prov\u00e1vel qualquer uma das alternativas.<\/p>\n<p><em>Perry Anderson leciona hist\u00f3ria na UCLA e publicou recentemente <\/em>The H-Word: Peripetia of Hegemony, <em>ed.Verso, Londres, 2017.<\/em><\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p>(1) Por Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi e outros.<\/p>\n<p>(2) Robert Brenner, The Economics of Global Turbulence: the Advanced Capitalist Economies from Long Boom to Long Downturn 1945-2005, Verso, New York, 2006.<\/p>\n<p>(3) Raffaele Laudani, \u2018Renzi\u2019s fall and Di Battista\u2019s rise\u2019, Le Monde diplomatique, Edi\u00e7\u00e3o Inglesa, January 2017.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> Le Monde Diplomatique Inglesa (https:\/\/mondediplo.com\/2017\/03\/02brexit)<\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o do original (em ingl\u00eas) para o portugu\u00eas:<\/strong> Charles Rosa \u2013 Observat\u00f3rio Internacional da Funda\u00e7\u00e3o Lauro Campos<\/p>\n<p>http:\/\/www.laurocampos.org.br\/2017\/03\/09\/porque-o-sistema-ainda-vencera\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perry Anderson &#8211;\u00a0Brexit, vit\u00f3ria de Trump, movimentos populistas na Europa: o Ocidente est\u00e1 protestando, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, contra as ortodoxias neoliberais e globalistas dos \u00faltimos 40 anos. 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