{"id":3474,"date":"2017-04-11T09:36:43","date_gmt":"2017-04-11T12:36:43","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3474"},"modified":"2017-04-06T13:43:35","modified_gmt":"2017-04-06T16:43:35","slug":"procurem-nas-escolas-professores-que-ainda-nao-tenham-morrido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/04\/11\/procurem-nas-escolas-professores-que-ainda-nao-tenham-morrido\/","title":{"rendered":"&#8220;Procurem nas escolas professores que ainda n\u00e3o tenham morrido&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sara Dias Oliveira &#8211;\u00a0<\/strong>Jos\u00e9 Pacheco, professor, pedagogo, defende uma escola sem turmas, sem ciclos, sem testes, sem chumbos, sem campainhas. Aos cr\u00edticos, pede alternativas e conta hist\u00f3rias de sucesso. Fundou um projeto inovador na Escola da Ponte, em Santo Tirso, em 1976, quando percebeu que n\u00e3o podia continuar a dar aulas. Derrubou paredes, juntou alunos, ergueu um m\u00e9todo em que quem aprende define o seu ritmo de aprendizagem. Foi amea\u00e7ado, ouviu coisas feias, disseram-lhe que quando fosse mais velho iria ganhar ju\u00edzo. Tem agora 65 anos e n\u00e3o mudou de ideias. Continua a acreditar que a escola s\u00e3o pessoas e n\u00e3o um edif\u00edcio de bet\u00e3o. N\u00e3o percebe a insist\u00eancia nos exames, diz que se confunde avalia\u00e7\u00e3o com classifica\u00e7\u00e3o, refere que os chumbos comprovam que o sistema n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463883_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000056-696x447.jpg?resize=640%2C411\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" srcset=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463883_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000056-696x447.jpg 696w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463883_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000056-300x193.jpg 300w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463883_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000056-768x493.jpg 768w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463883_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000056-1024x657.jpg 1024w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463883_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000056-1068x685.jpg 1068w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463883_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000056-655x420.jpg 655w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463883_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000056.jpg 1200w\" alt=\"Jos\u00e9 Pacheco\" width=\"640\" height=\"411\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 12 anos, partiu para o Brasil com o seu projeto na mala. Partiu por duas raz\u00f5es. \u00abPermitir que uma nova equipe da Escola da Ponte continuasse o projeto sem a intromiss\u00e3o de um velho professor e encontrar no Sul a obra de Agostinho da Silva e educadores dispon\u00edveis para se melhorar, melhorando a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e jovens\u00bb, explica. Neste momento, do outro lado do Atl\u00e2ntico, acompanha mais de 100 projetos educativos. O Projeto \u00c2ncora \u00e9 o mais conhecido e j\u00e1 ganhou fama internacional, ap\u00f3s visitas de investigadores estrangeiros. H\u00e1 uma semana, Jos\u00e9 Pacheco esteve em Portugal, em v\u00e1rias cidades \u2013 Almada, Loul\u00e9, Fund\u00e3o, Viseu, Gouveia \u2013 a partilhar ideias, a falar do que sabe, a ouvir alunos, professores, educadores, respons\u00e1veis pol\u00edticos. Partiu depois para o Chile, para fazer forma\u00e7\u00e3o a convite de universidades e do governo chileno. Em meados de abril, regressa ao Brasil para retomar a orienta\u00e7\u00e3o de projetos educativos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-27218 td-animation-stack-type0-1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463836_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000010.jpg?resize=640%2C411\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" srcset=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463836_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000010.jpg 1200w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463836_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000010-300x193.jpg 300w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463836_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000010-768x493.jpg 768w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463836_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000010-1024x657.jpg 1024w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463836_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000010-696x447.jpg 696w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463836_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000010-1068x685.jpg 1068w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463836_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000010-655x420.jpg 655w\" alt=\"O professor Jos\u00e9 Pacheco esteve em Portugal a debater educa\u00e7\u00e3o. Aqui, em Almada, no Instituto Piaget.\" width=\"640\" height=\"411\" \/><\/p>\n<p><em>O professor Jos\u00e9 Pacheco esteve em Portugal a debater educa\u00e7\u00e3o. Na foto, em Almada, no Instituto Piaget.<\/em><\/p>\n<p><strong>Em 1976, no rescaldo da liberdade, criou com duas colegas o projeto pioneiro \u00abFazer a Ponte na Escola da Ponte\u00bb. Sem turmas, sem testes, sem ciclos, sem campainhas. Chamaram-lhe louco quando dizia que era poss\u00edvel derrubar paredes e juntar alunos? <\/strong><br \/>\nConfesso que, nos idos de 1976, estava quase a desistir de ser professor. Sentia que \u00abdando aula\u00bb estava a excluir gente. Percebi que n\u00e3o devia continuar, mas n\u00e3o sabia fazer mais nada. A Ponte surgiu, talvez n\u00e3o por acaso, para me dar uma \u00faltima oportunidade. Era uma escola como qualquer outra, escola p\u00fablica degradada, que albergava as chamadas \u00abturmas do lixo\u00bb, maioritariamente constitu\u00eddas por jovens de 14, 15 anos, que n\u00e3o sabiam ler nem escrever, e que batiam nos professores. Ali, encontrei duas pessoas, que faziam as mesmas perguntas: \u00abporque \u00e9 que dou as aulas t\u00e3o bem dadas e h\u00e1 alunos que n\u00e3o aprendem?\u00bb<\/p>\n<p><strong>E ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAconteceu algo inusitado. \u00c9ramos profissionais competentes, mas depar\u00e1vamo-nos com a falta de um compromisso \u00e9tico com a profiss\u00e3o. Se o modo como a escola funcionava negava a muitos seres humanos o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poderia continuar a ser gerida desse modo. Se o modo como trabalh\u00e1vamos n\u00e3o lograva assegurar a aprendizagem a todos os alunos, n\u00e3o poder\u00edamos insistir nesse modo de ensinar. Quando modificamos o modo, asseguramos a todos o direito de serem s\u00e1bios e felizes. Come\u00e7\u00e1mos a receber alunos expulsos e evadidos de outras escolas, alunos a quem chamavam \u00abdeficientes\u00bb. Chamaram-nos loucos, lun\u00e1ticos e outros ep\u00edtetos que, por pudor, n\u00e3o reproduzo. Quando fiz as primeiras interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, mais do que dizerem que o projeto era um arroubo de jovem professor, diziam-me que, quando eu fosse mais velho, iria ganhar ju\u00edzo. E os detratores agiram de forma violenta, expl\u00edcita. Um dia, talvez eu conte a hist\u00f3ria da Escola da Ponte. Ela foi feita de sofrimento e resili\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Foi assim t\u00e3o dif\u00edcil?<\/strong><br \/>\nNo decurso de mais de quatro d\u00e9cadas, foi muita a maldade humana que determinou as a\u00e7\u00f5es dirigidas contra a Ponte. Da destrui\u00e7\u00e3o da nossa horta \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do hospital de animais, que as crian\u00e7as cuidavam com tanto desvelo, a\u00e7\u00f5es levadas a cabo por criminosos a soldo de pol\u00edticos locais, que pintaram com o sangue das v\u00edtimas na parede da escola: \u00abMorte ao professor.\u00bb Do lan\u00e7amento de panfletos, na calada da noite, contendo acusa\u00e7\u00f5es falsas, at\u00e9 \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de boatos em jornais. Do terrorismo verbal, via telefone, at\u00e9 \u00e0 agress\u00e3o f\u00edsica. O sofrimento maior foi termos descoberto que muitos desses ataques eram provenientes de escolas pr\u00f3ximas. Apercebemo-nos que o maior aliado de um professor \u00e9 o outro professor, mas, tamb\u00e9m, que o maior inimigo de um professor que ouse fazer diferente para melhor \u00e9 o professor da escola do lado.<\/p>\n<p><strong>Quando chegou \u00e0 Escola da Ponte, ficou com uma \u00abturma do lixo\u00bb. Foi a\u00ed que percebeu que estava tudo errado? <\/strong><br \/>\nNa Escola da Ponte, a decis\u00e3o de mudar foi de origem \u00e9tica. Encontrei jovens analfabetos que tinham sido ensinados do modo que eu antes ensinava. Se eu continuasse a trabalhar do modo como, at\u00e9 ent\u00e3o, havia trabalhado, aqueles jovens continuariam sem saber ler. Tomei consci\u00eancia de que, dando aula, eu n\u00e3o conseguiria ensin\u00e1-los. Na \u00e9poca, nem da exist\u00eancia de um Piaget t\u00ednhamos conhecimento. Agimos por intui\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, movidos pelo amor que t\u00ednhamos (como qualquer professor tem) pelos alunos.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abQualquer pessoa minimamente avisada, minimamente conhecedora dos ainda ocultos saberes das ci\u00eancias da educa\u00e7\u00e3o \u2013 bode expiat\u00f3rio de todos os males que apoquentam a educa\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds \u2013 sabe que a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa por mais exames.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Diz que numa aula n\u00e3o se aprende nada, que os exames s\u00e3o o m\u00e9todo mais fal\u00edvel que existe, que chumbar \u00e9 a prova que a escola n\u00e3o funciona. O que pode ser diferente? Como se avalia um aluno?<\/strong><br \/>\nA afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 radical. Mas toda a regra tem exce\u00e7\u00e3o. Aprendi Franc\u00eas escutando aula, porque me apaixonei pela professora. A aprendizagem \u00e9 antropof\u00e1gica. N\u00e3o se aprende o que o outro diz, apreendemos o outro. Um professor n\u00e3o ensina aquilo que diz, transmite aquilo que \u00e9. Poder\u00e1 acontecer aprendizagem em sala de aula, se forem criados v\u00ednculos e esses v\u00ednculos n\u00e3o s\u00e3o apenas afetivos, tamb\u00e9m s\u00e3o do dom\u00ednio da emo\u00e7\u00e3o, da \u00e9tica, da est\u00e9tica\u2026 O que dizer da avalia\u00e7\u00e3o? Que quase n\u00e3o existe, nas escolas. Um ministro de m\u00e1 mem\u00f3ria introduziu mais exames no sistema. Mais exames n\u00e3o melhoram o sistema, porque n\u00e3o \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o com o term\u00f3metro que faz baixar a temperatura. O teste \u00e9 o instrumento de avalia\u00e7\u00e3o mais fal\u00edvel que existe. Conceber itens de teste, garantir fidelidade e tudo mais \u00e9 um exerc\u00edcio extremamente rigoroso, assim como assegurar que as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o as mesmas para todos quando se aplica o teste. Al\u00e9m disso, corrigir o teste tamb\u00e9m introduz uma subjetividade enorme. Esses instrumentos de avalia\u00e7\u00e3o apenas \u00abprovam\u00bb a capacidade de acumula\u00e7\u00e3o cognitiva, de armazenamento de informa\u00e7\u00e3o em mem\u00f3ria de curto prazo, para debitar no exame e esquecer.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 ent\u00e3o o modelo de avalia\u00e7\u00e3o que preconiza?<\/strong><br \/>\nA avalia\u00e7\u00e3o praticada na Ponte e no Projeto \u00c2ncora \u00e9 aquela que a lei estabelece: avalia\u00e7\u00e3o formativa, cont\u00ednua e sistem\u00e1tica. Em muitas escolas aplica-se o teste e d\u00e1-se uma nota sem saber o que se faz. H\u00e1 quem confunda avalia\u00e7\u00e3o com classifica\u00e7\u00e3o e d\u00ea a nota a partir dos resultados dos testes. Eu sei que se alega considerar uma percentagem da nota dada a partir da avalia\u00e7\u00e3o de atitudes. Por\u00e9m, n\u00e3o se apresenta os instrumentos de avalia\u00e7\u00e3o que permitam medir atitudes como a autonomia ou a criatividade. Diria que essa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 feita a \u00abolh\u00f3metro.\u00bb O ex-ministro Mar\u00e7al Grilo afirmou que \u00abas provas globais come\u00e7am a ser in\u00fateis.\u00bb Qualquer pessoa minimamente avisada, minimamente conhecedora dos ainda ocultos saberes das ci\u00eancias da educa\u00e7\u00e3o \u2013 bode expiat\u00f3rio de todos os males que apoquentam a educa\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds \u2013 sabe que a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa por haver mais exames. Se quisermos falar de avalia\u00e7\u00e3o em linguagem de gente, poder\u00edamos dizer que a quase exclusiva utiliza\u00e7\u00e3o de um mesmo tipo de instrumento de avalia\u00e7\u00e3o tem sido respons\u00e1vel por graves erros. Atenda-se ao exemplo do candidato a Medicina que, por uma cent\u00e9sima, n\u00e3o acedeu ao curso desejado.<\/p>\n<p><strong>Mas a verdade \u00e9 que a avalia\u00e7\u00e3o em Portugal continua a assentar toda ela em teste e exames. <\/strong><br \/>\nE os fervorosos defensores dos in\u00fateis exames saber\u00e3o em que consiste assegurar a validade ou a fidelidade de um item? Saber\u00e3o aquilatar da subjetividade da corre\u00e7\u00e3o de uma prova de exame? Ter\u00e3o conhecimento das grosseiras fraudes que os exames engendram? Ter\u00e3o passado, alguma vez, pela ang\u00fastia da espera, foram afetados por uma ansiedade geradora de bloqueios? Os debutantes e amadores das coisas da Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o leram nos jornais \u2013 que literatura especializada n\u00e3o ter\u00e3o lido, a avaliar pelos disparates que v\u00e3o debitando na comunica\u00e7\u00e3o social \u2013 not\u00edcias de frequentes e abissais altera\u00e7\u00f5es de pontua\u00e7\u00e3o que decorrem da reaprecia\u00e7\u00e3o de recursos? Na avalia\u00e7\u00e3o que ainda vamos tendo por hegem\u00f3nica, \u00e9 bem vis\u00edvel a ancestral pr\u00e1tica seletiva. O ensino em massa \u00e9 coerente com uma avalia\u00e7\u00e3o em massa. Os professores lamentam o disp\u00eandio de tempo posto na corre\u00e7\u00e3o de exames e alegam que o minist\u00e9rio os explora como m\u00e3o-de-obra barata. O minist\u00e9rio, por sua vez, gasta fortunas em comiss\u00f5es a quem compete elaborar os testes e coordenar o servi\u00e7o de exames, em viaturas e seguran\u00e7as que transportam envelopes lacrados como se fossem as joias da coroa. Se outra raz\u00e3o n\u00e3o houvesse para acabar de vez com exames, uma se imporia. Associada \u00e0 ideia de exame h\u00e1 sempre a probabilidade de utiliza\u00e7\u00e3o de \u00abcopian\u00e7os\u00bb. Para cada sala de exame que se preze, s\u00e3o escalados professores que, pressupostamente, s\u00e3o o garante de que os examinados n\u00e3o \u00abcopiam\u00bb. Os \u00abvigilantes\u00bb partem, pois, do pressuposto de que todo o aluno \u00e9, at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, potencialmente desonesto. Haver\u00e1 princ\u00edpio mais antipedag\u00f3gico que este?<\/p>\n<p><strong>O que defende esbarra num sistema ancorado em avalia\u00e7\u00f5es, notas, m\u00e9dias. O discurso pol\u00edtico assente no rigor e exig\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o o convence? <\/strong><br \/>\nO sistema somos n\u00f3s. Que rigor e que exig\u00eancia existem num modelo educacional no qual alunos do s\u00e9culo XXI s\u00e3o \u00abensinados\u00bb por professores do s\u00e9culo XX, que recorrem a pr\u00e1ticas oriundas do s\u00e9culo XIX? Rigor e exig\u00eancia existir\u00e3o em escolas onde se d\u00ea a todos condi\u00e7\u00f5es de acesso, e a cada um, condi\u00e7\u00f5es de sucesso.<\/p>\n<p><strong>E como se chega a\u00ed?<\/strong><br \/>\n\u00c9 incontorn\u00e1vel falar do n\u00f3 g\u00f3rdio da mudan\u00e7a das pr\u00e1ticas escolares: a forma\u00e7\u00e3o de professores, que continua imersa em equ\u00edvocos. Continuamos cativos de um modelo de forma\u00e7\u00e3o cartesiano. Sabemos que um formador n\u00e3o ensina aquilo que diz, mas transmite aquilo que \u00e9, veicula compet\u00eancias de que est\u00e1 investido. Mas ainda h\u00e1 quem ignore a exist\u00eancia do princ\u00edpio do isomorfismo na forma\u00e7\u00e3o, quem creia que a teoria precede a pr\u00e1tica, quem considere o formando como objeto de forma\u00e7\u00e3o, quando deveria ser tomado como sujeito em autotransforma\u00e7\u00e3o, no contexto de uma equipa, com um projeto. Prevalecem pr\u00e1ticas carentes de comunica\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica, culturas de forma\u00e7\u00e3o individualistas, de competitividade negativa, de que est\u00e1 ausente o trabalho em equipa. Venho repetindo que a profiss\u00e3o de professor n\u00e3o \u00e9 um ato solit\u00e1rio, mas solid\u00e1rio. Que o trabalho em equipa pressup\u00f5e um permanente conv\u00edvio, estabilidade e lealdade a valores e princ\u00edpios de um projeto. Isso n\u00e3o acontece numa escola de tempo parcial. Porqu\u00ea 50 (ou duas vezes 45) minutos de aula, se a aprendizagem acontece 24 horas por dia? Porqu\u00ea 200 dias letivos, se nos educamos nos 365 (ou 366) dias de cada ano?<\/p>\n<blockquote><p>\u00abAs escolas s\u00e3o pessoas, mas o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o cr\u00ea que uma escola \u00e9 um edif\u00edcio. E uma cren\u00e7a n\u00e3o se discute, deve ser respeitada. Por\u00e9m, cren\u00e7as e \u00abachismos\u00bb n\u00e3o dever\u00e3o ser suportes de pol\u00edtica educativa.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O pa\u00eds alimenta um sistema de ensino baseado na burocracia? O Governo fala em dar mais autonomia \u00e0s escolas, em flexibiliza\u00e7\u00e3o de curr\u00edculos, em mais aulas experimentais\u2026<\/strong><br \/>\nUrge acabar com o experimentalismo. Alunos e professores n\u00e3o podem ser tratados como cobaias de laborat\u00f3rio. Acredito nos professores e parto daquilo que eles s\u00e3o para que se sintam seguros no processo de mudan\u00e7a. Aproveito a sua forma\u00e7\u00e3o experiencial. Concedo todo o tempo necess\u00e1rio e condi\u00e7\u00f5es de autotransforma\u00e7\u00e3o. Talvez apenas seja preciso que os professores, para al\u00e9m de serem competentes, sejam \u00e9ticos para que a mudan\u00e7a se opere. Mas \u00e9 verdade que o pa\u00eds alimenta um sistema de ensino baseado na burocracia. Recordo um lament\u00e1vel epis\u00f3dio. No fim de um ano letivo, com assiduidade plena e significativas aprendizagens realizadas, os alunos da escola de Monsanto \u00abreprovaram por excesso de faltas.\u00bb. Eu sei que parece mentira, mas aconteceu\u2026 As escolas s\u00e3o pessoas, mas o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o cr\u00ea que uma escola \u00e9 um edif\u00edcio. E uma cren\u00e7a n\u00e3o se discute, deve ser respeitada. Por\u00e9m, cren\u00e7as e \u00abachismos\u00bb n\u00e3o dever\u00e3o ser suportes de pol\u00edtica educativa. Autorit\u00e1ria e arrogantemente, burocratas enquistados no sistema educativo imp\u00f5em pr\u00e1ticas desprovidas de fundamento cient\u00edfico, ou legal (ter\u00e3o lido o artigo 48\u00ba da Lei de Bases?). Ousam tomar insanas decis\u00f5es, como o desprop\u00f3sito da reprova\u00e7\u00e3o por excesso de faltas, porque est\u00e3o conscientes da impunidade dos seus atos e contam com o obsceno sil\u00eancio dos pedagogos. A que faltas se refere o minist\u00e9rio, dado que os alunos estiveram em situa\u00e7\u00e3o de ensino dom\u00e9stico e at\u00e9 estiveram dentro de um edif\u00edcio, a que o minist\u00e9rio chama escola? Conseguir\u00e1 o minist\u00e9rio explicar por que raz\u00e3o alunos com 100% de assiduidade reprovam, enquanto outros jovens aprendem fora do edif\u00edcio da escola?<\/p>\n<p><strong>Conte l\u00e1 essa hist\u00f3ria.<\/strong><br \/>\nTudo come\u00e7ou em 2014, quando uma escola acabada de inaugurar foi encerrada pelo Minist\u00e9rio de Educa\u00e7\u00e3o. Os pais dos alunos optaram pelo ensino dom\u00e9stico, o agrupamento de escolas deu luz verde ao processo e as crian\u00e7as foram acompanhadas por duas professoras. Por\u00e9m, no primeiro dia de aulas do ano letivo seguinte, os pais foram informados de que o minist\u00e9rio n\u00e3o reconhecia a avalia\u00e7\u00e3o positiva aos alunos, atribu\u00edda pelas docentes. O minist\u00e9rio considerava ilegal a situa\u00e7\u00e3o dos alunos, enquanto a Comiss\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o de Crian\u00e7as afirmava que o alegado \u00ababandono escolar\u00bb n\u00e3o fora provado. Os pais dos alunos pediram nova transfer\u00eancia dos seus filhos para o ensino dom\u00e9stico, pedido que, garantem, foi aceite. E, enquanto o caso n\u00e3o se resolve, uma escola rec\u00e9m-inaugurada, e que custou cem mil euros, est\u00e1 fechada. As crian\u00e7as s\u00e3o transportadas para a sede do munic\u00edpio, que dista trinta quil\u00f3metros de Monsanto. S\u00e3o duas viagens di\u00e1rias impostas por burocratas, que \u00abacham\u00bb que as crian\u00e7as devem estar fechadas no interior de um edif\u00edcio a que chamam escola, numa sala de aula com x metros quadrados de \u00e1rea, durante x n\u00famero de horas em x dias ditos letivos. Desfecho do lament\u00e1vel epis\u00f3dio: a ignor\u00e2ncia \u00e9 atrevida e triunfou. Provavelmente, aqueles que det\u00eam o poder de decidir confundem escola com edif\u00edcio escolar. Relativamente a Monsanto: saber\u00e3o o significado de avalia\u00e7\u00e3o formativa, cont\u00ednua e sistem\u00e1tica? \u00c0 luz da ci\u00eancia produzida, desde h\u00e1 um s\u00e9culo, a express\u00e3o \u00abreprovar por faltas\u00bb \u00e9 uma obscenidade. Ser\u00e3o analfabetos funcionais? Certamente ter\u00e3o lido o artigo 48 da Lei de Bases, mas foram incapazes de interpretar o seu significado.<\/p>\n<p><strong>Se \u00e9 como diz, como foi isso poss\u00edvel?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 cerca de uma d\u00fazia de anos, e com burocr\u00e1ticos argumentos, um ministro de m\u00e1 mem\u00f3ria tentou destruir o projeto da Escola da Ponte. Os sindicatos, a universidade e a sociedade civil impediram que essa obscenidade ministerial obtivesse \u00eaxito. Na presente situa\u00e7\u00e3o, os professores portugueses permitiram que o autoritarismo imperasse e que crit\u00e9rios de natureza pedag\u00f3gica fossem desprezados. Permaneceram ap\u00e1ticos. Mais uma vez, nada fizeram para acabar com a impunidade. \u00c9 estranho e pesado esse obsceno sil\u00eancio. O professor assume dignidade profissional, sendo aut\u00f3nomo-com-os-outros. Porque um professor n\u00e3o ensina aquilo que diz, transmite aquilo que \u00e9. E enquanto o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o n\u00e3o se pautar por crit\u00e9rios de natureza pedag\u00f3gica, enquanto a burocracia prevalecer em detrimento da pedagogia, os professores continuar\u00e3o a ser considerados os \u00abbodes expiat\u00f3rios\u00bb dos males do sistema. Faltar\u00e1 apenas que os professores sejam, efetivamente, cr\u00edticos, reflexivos das suas pr\u00e1ticas. Que, na rela\u00e7\u00e3o com qualquer parceiro, se elimine o per\u00edodo letivo, o trimestre, o ano letivo.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abA velha escola h\u00e1 de parir uma nova educa\u00e7\u00e3o. Mas as dores do parto ser\u00e3o intensas, enquanto as \u201cnaturaliza\u00e7\u00f5es\u201d, as \u201ccertezas\u201d, as cren\u00e7as ministeriais, a tecnocracia e a burocracia continuarem a prevalecer em dom\u00ednios onde deveria prevalecer a pedagogia.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Quarenta anos depois, a Escola B\u00e1sica da Ponte tem nota m\u00e1xima na avalia\u00e7\u00e3o externa do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Os alunos, em conjunto com os tutores, definem quinzenalmente objetivos de aprendizagem e s\u00e3o avaliados \u00e0 medida que aprendem. Seria poss\u00edvel disseminar este projeto em Portugal? <\/strong><br \/>\nN\u00e3o diria disseminar, mas inspirar. S\u00e3o j\u00e1 muitas as escolas portuguesas que se inspiraram nas pr\u00e1ticas da Ponte para mudar as suas pr\u00e1ticas. Na Ponte de h\u00e1 40 anos, as salas de aula foram substitu\u00eddas por espa\u00e7os de \u00ab\u00e1rea aberta.\u00bb Depois, deram lugar a aprendizagens em m\u00faltiplos espa\u00e7os sociais (edif\u00edcio da escola inclu\u00eddo), num an\u00fancio da possibilidade de conceber novas constru\u00e7\u00f5es sociais de aprendizagem. No edif\u00edcio da escola, nas pra\u00e7as, nas empresas, nas igrejas, nas bibliotecas p\u00fablicas, e centros culturais, pass\u00e1mos a contemplar um novo modo de desenvolvimento curricular, duas vias complementares de um mesmo projeto: um curr\u00edculo subjetivo, um projeto de vida pessoal, a partir de talentos cedo revelados; um curr\u00edculo de comunidade, baseado em necessidades, desejos da sociedade do entorno. S\u00e3o muitos e diversos os caminhos de mudan\u00e7a, sendo urgente que os educadores compreendam o que significa o termo \u00abcurr\u00edculo\u00bb. \u00c9 preciso experimentar um novo modo de organiza\u00e7\u00e3o, em equipas de pessoas aut\u00f3nomas e respons\u00e1veis, todas cuidando de si mesmas e de todo o resto, numa escola realmente \u00abp\u00fablica\u00bb. N\u00e3o negando o potencial da raz\u00e3o e da reflex\u00e3o, juntar-lhe as emo\u00e7\u00f5es, os sentimentos, as intui\u00e7\u00f5es e as experi\u00eancias de vida. E uma escuta que, para al\u00e9m do seu significado metodol\u00f3gico, ter\u00e1 de ser humanamente significativa e de assentar numa deontologia de troca \u00abganha-ganha.\u00bb As escolas poder\u00e3o desenvolver um curr\u00edculo mais adequado \u00e0s novas compet\u00eancias e exig\u00eancias do s\u00e9culo XXI. A velha escola h\u00e1 de parir uma nova educa\u00e7\u00e3o. Mas as dores do parto ser\u00e3o intensas, enquanto as \u00abnaturaliza\u00e7\u00f5es\u00bb, as \u00abcertezas\u00bb, as cren\u00e7as ministeriais, a tecnocracia e a burocracia continuarem a prevalecer em dom\u00ednios onde deveria prevalecer a pedagogia.<\/p>\n<p><strong>Tem sido um trabalho de parto muito demorado\u2026<\/strong><br \/>\nCreio que ainda n\u00e3o \u00e9 consensual, mas \u00e9 incontorn\u00e1vel. A Ponte provou a possibilidade de uma escola onde todos aprendam e sejam felizes. Operou uma rutura total com o velho e obsoleto modelo educacional, que ainda prospera na maioria das escolas. Garante o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, que a maioria das escolas recusa. E numa escola da rede p\u00fablica! Os efeitos do projeto que relat\u00f3rios de comiss\u00f5es de avalia\u00e7\u00e3o independentes atestam s\u00e3o bem melhores do que os obtidos pelas escolas ditas \u00abnormais\u00bb. Esses resultados constam de relat\u00f3rios de avalia\u00e7\u00e3o externa, elaborados por equipas nomeadas pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o produto de uma avalia\u00e7\u00e3o isenta e atestam a elevada qualidade das aprendizagens realizadas pelos alunos. Diz-nos o \u00faltimo dos relat\u00f3rios de avalia\u00e7\u00e3o que, quando transitam para outras escolas, os alunos da Ponte alcan\u00e7am melhores notas do que os alunos de outras escolas conseguem alcan\u00e7ar. E, se no dom\u00ednio cognitivo isso acontece, muito mais significativos s\u00e3o os n\u00edveis de desenvolvimento s\u00f3cio-moral. \u00c9 grande a preocupa\u00e7\u00e3o com a vertente \u00e9tica, e sabemos que o desenvolvimento est\u00e9tico anda ao lado do desenvolvimento cognitivo, sendo mutuamente influenciados. N\u00e3o fragmentamos os saberes: estudos realizados com adultos formados ao longo dos \u00faltimos 30 anos demonstram que todos os nossos ex-alunos s\u00e3o pessoas socialmente integradas e realizadas. Talvez possa acrescentar que a Escola da Ponte provou que \u00e9 poss\u00edvel outra educa\u00e7\u00e3o, aliando excel\u00eancia acad\u00e9mica \u00e0 inclus\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>Em Cotia, cidade perto de S\u00e3o Paulo, no Brasil, criou uma escola que tem uma tenda de circo com oficinas de skate, kart, azulejos, m\u00fasica, para crian\u00e7as dos 12 aos 14 anos que vivem em favelas. Como se ensina em contextos de vulnerabilidade social, econ\u00f3mica, cultural?<\/strong><br \/>\nFui para o Sul apenas porque precisava de me afastar de uma escola onde labutei durante mais de trinta anos, para que novas equipas continuassem o projeto. Acredito nos professores. E encontrei no Brasil, como havia encontrado em Portugal, muitos professores que possuem os dois requisitos b\u00e1sicos da profiss\u00e3o: compet\u00eancia e \u00e9tica. Acompanho os seus projetos e com eles aprendo. Isso basta-me. \u00c9 preciso apenas que haja gente, educadores conscientes da necessidade e possibilidade de mudan\u00e7a, que se constituam numa equipa de projeto. Que saibam escutar sonhos e necessidades da comunidade em que estejam inseridos. E que ajam em fun\u00e7\u00e3o da lei e da ci\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 duas escolas iguais, nem acredito em modelos. Portanto, n\u00e3o existe a possibilidade de surgirem projetos iguais. Aquilo que \u00e9 afim entre os projetos \u00e9 a rutura com uma tradi\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica e burocr\u00e1tica. S\u00e3o escolas que, com prud\u00eancia (crian\u00e7as n\u00e3o cobaias de laborat\u00f3rio), ousam reconfigurar as suas pr\u00e1ticas, assumir formas espec\u00edficas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho escolar, em dispositivos de rela\u00e7\u00e3o, nas atitudes do dia-a-dia, que viabilizam pr\u00e1ticas de educa\u00e7\u00e3o integral. Outra semelhan\u00e7a \u00e9 o fato de essas escolas cumprirem, efetivamente, os seus projetos pol\u00edtico-pedag\u00f3gicos.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abO despertar da aten\u00e7\u00e3o do professor ser\u00e1 o despertar da aten\u00e7\u00e3o do aluno. As escolas disp\u00f5em de excelentes professores a trabalhar do modo errado. E acontece o inevit\u00e1vel: doen\u00e7as profissionais, idas ao psiquiatra, burnout\u2026\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O Governo acaba de tra\u00e7ar o que deve ser o perfil dos alunos \u00e0 sa\u00edda da escolaridade obrigat\u00f3ria: jovens perseverantes, com pensamento cr\u00edtico, que querem aprender mais. \u00c9 este o caminho? <\/strong><br \/>\n\u00c9 um dos caminhos a partir de uma boa proposta que, em boa hora, o secret\u00e1rio de Estado, Jo\u00e3o Costa, lan\u00e7ou. Que n\u00e3o se suspenda esta medida de pol\u00edtica educativa. Que n\u00e3o se hipoteque mais uma possibilidade de mudan\u00e7a a troco de votos nas aut\u00e1rquicas\u2026 As mudan\u00e7as dever\u00e3o partir, simultaneamente, das escolas e do poder p\u00fablico. E s\u00e3o precisos muitos anos para que se consolidem. Nos \u00faltimos anos, apesar da profus\u00e3o de tentativas de reforma, programas, projetos, congressos, cursos e afins, n\u00e3o se logrou melhorar a qualidade da educa\u00e7\u00e3o nacional. Mas Portugal tem tudo aquilo que precisa. E esse desiderato ser\u00e1 alcan\u00e7ado quando as escolas deixarem de estar cativas de um modelo educacional obsoleto e de uma gest\u00e3o burocratizada, na qual os crit\u00e9rios de natureza administrativa se sobrep\u00f5em a crit\u00e9rios de natureza pedag\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>O que diria a uma crian\u00e7a de seis anos antes de entrar na escola? E a um jovem que acaba o 12.\u00ba ano?<\/strong><br \/>\nTenho netos dessa idade e n\u00e3o sei o que lhes dizer.<\/p>\n<p><strong>E o que diria aos pais que t\u00eam um filho que vai entrar na escola e aos pais que tem um filho que saiu da escola e n\u00e3o quer ir para a universidade?<\/strong><br \/>\nQue procurem nas escolas professores que ainda n\u00e3o tenham morrido. E que com eles colaborem, para bem dos seus filhos. No in\u00edcio do projeto da Ponte, compreendendo o medo e respeitando a atitude conservadora daqueles que n\u00e3o queriam mudar, come\u00e7\u00e1mos um trabalho \u00e0 parte. Inicialmente os alunos reagiam mal, porque era mais c\u00f3modo ouvir aula do que trabalhar em pesquisa, em projeto. Depois foram os professores das outras escolas que come\u00e7aram a criar-nos dificuldades. Os pais dos alunos manifestavam d\u00favidas e receios, apenas desfeitos quando os seus filhos obtiveram excelentes resultados em provas nacionais e vestibulares. Os pais s\u00e3o pessoas inteligentes e amam os filhos. Os professores s\u00e3o pessoas inteligentes e amam os alunos. Est\u00e3o do mesmo lado. Se explicamos aos pais, numa linguagem que eles entendem, que aula n\u00e3o tem que existir, que prova n\u00e3o prova nada, que o fundamental n\u00e3o precisa ser separado do resto, enfim, os pais entendem. Melhor que isso, no caso da Escola da Ponte, os pais entenderam t\u00e3o bem que defendem o modelo e s\u00e3o eles que dirigem a escola. A quest\u00e3o \u00e9 que quem sabe de pedagogia s\u00e3o os professores. \u00c9 essa a grande distin\u00e7\u00e3o. Uma escola tem que ser gerida pela pedagogia, mas quem deve administrar financeiramente \u00e9 a comunidade, atrav\u00e9s das fam\u00edlias e dos pais. Os pais t\u00eam direito de ficar em d\u00favida. Querem a escola para os filhos que foi a escola deles. Mas se os pais forem esclarecidos e virem resultados apoiam e defendem os projetos. Foi isso o que aconteceu na Escola da Ponte. Ela \u00e9 dirigida pelos pais. N\u00e3o tem diretor.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 bons e maus alunos?<\/strong><br \/>\nSomos todos bons e maus alunos. H\u00e1 boas e m\u00e1s pr\u00e1ticas. E se identificamos necessidades especiais nos alunos, reconhe\u00e7amos necessidade nos professores. Se \u00e9 verdade que h\u00e1 dificuldades de aprendizagem, tamb\u00e9m haver\u00e1 as de ensinagem. E n\u00e3o h\u00e1 alunos deficientes, mas pr\u00e1ticas deficientes.<\/p>\n<p><strong>Um professor n\u00e3o ensina aquilo que diz, transmite aquilo que \u00e9. A frase \u00e9 sua. Mas h\u00e1 professores desmotivados, desanimados, \u00e0 espera que a reforma chegue rapidamente\u2026 <\/strong><br \/>\nOs alunos aprendem o professor. O despertar da aten\u00e7\u00e3o do professor ser\u00e1 o despertar da aten\u00e7\u00e3o do aluno. As escolas disp\u00f5em de excelentes professores a trabalhar do modo errado. E acontece o inevit\u00e1vel: doen\u00e7as profissionais, idas ao psiquiatra, burnout\u2026<\/p>\n<p><strong>As novas tecnologias vieram para ficar. Devem ou n\u00e3o estar nas escolas? Como \u00e9 que os pais devem lidar com o \u00abv\u00edcio\u00bb do filho estar sempre agarrado a um tablet, a um computador, a videojogos?<\/strong><br \/>\nCom ou sem novas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, a escola precisa ser reinventada. Mas do modo como as novas tecnologias est\u00e3o sendo introduzidas nas escolas, temo que se transformem em panaceias, que apenas sirvam para congelar aulas em computadores, aulas que os alunos, acostumados ao imediatismo e \u00e0 velocidade dessas tecnologias, acriticamente consumam, sem resqu\u00edcios de coopera\u00e7\u00e3o com o aluno vizinho, dependentes de v\u00ednculos afetivos prec\u00e1rios, estabelecidos com identidades virtuais. A Internet \u00e9 generosa na oferta de informa\u00e7\u00e3o. Basta clicar para repetir, at\u00e9 que a mat\u00e9ria seja compreendida. Tudo aquilo que um professor pode \u00abensinar\u00bb numa aula est\u00e1 plasmado, de modo mais atraente, na tela de um computador. Os professores do \u00abfuturo\u00bb ir\u00e3o manter-se ancorados em aulas obsoletas servidas por lousas digitais ou ir\u00e3o atualizar-se? Ir\u00e3o replicar aulas congeladas no YouTube e em tablets, ou ir\u00e3o usar o digital ao servi\u00e7o da humaniza\u00e7\u00e3o da escola? \u00c9 evidente. As novas tecnologias s\u00e3o incontorn\u00e1veis. A Internet n\u00e3o \u00e9 uma ferramenta, \u00e9 uma sociedade. Apenas ser\u00e1 necess\u00e1rio saber o que fazer com as novas tecnologias. \u00c9 certo que as escolas se t\u00eam enfeitado de novas tecnologias, mas sem lograr intensificar a comunica\u00e7\u00e3o e a pesquisa. O modo como as escolas utilizam a Internet fomenta imbecilidade e solid\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A distin\u00e7\u00e3o entre ensino p\u00fablico e ensino privado, na maior parte dos indicadores educativos, \u00e9 regra no nosso pa\u00eds. Essas compara\u00e7\u00f5es fazem sentido?<\/strong><br \/>\nAs compara\u00e7\u00f5es e os rankings s\u00e3o disparates. Nem vale a pena comentar.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abOs professores portugueses deveriam procurar caminhos de alforria cient\u00edfica e a sua maioridade educacional, sem prescindir do que venha do estrangeiro. Novidades importadas n\u00e3o passam de inova\u00e7\u00f5es requentadas.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Muitos professores t\u00eam de andar com a casa \u00e0s costas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acabar com as f\u00f3rmulas que colocam docentes t\u00e3o longe das suas fam\u00edlias?<\/strong><br \/>\nSer\u00e1 poss\u00edvel evitar que os professores andem com a casa \u00e0s costas quando se substituir o velho modelo por novas constru\u00e7\u00f5es sociais de aprendizagem. Algo dif\u00edcil dado que professor \u00e9 a \u00fanica profiss\u00e3o em que o est\u00e1gio \u00e9 feito antes de tirar o curso. Fazem 12 anos a ouvir aulas, entram na faculdade e ouvem aulas, e v\u00e3o dar aulas. Podem at\u00e9 ouvir falar dos Piagets da vida, mas os est\u00e1gios s\u00e3o feitos em escolas tradicionais, onde est\u00e3o excelentes professores tradicionais que trabalham no paradigma do s\u00e9culo XIX ou XVIII.<\/p>\n<p><strong>Portugal habituou-se a olhar para os exemplos educativos da Europa do Norte. \u00c9 tempo de olhar para outros lados?<\/strong><br \/>\nPortugal n\u00e3o precisa ir ao estrangeiro procurar as suas solu\u00e7\u00f5es. Elas est\u00e3o c\u00e1 dentro. Quais s\u00e3o hoje os autores que influenciam as escolas? Vygotsky, Piaget? Onde est\u00e3o os portugueses? Nunca vi Agostinho da Silva numa sala de aula. A Finl\u00e2ndia extinguiu a Inspe\u00e7\u00e3o de Ensio e os exames, mas esque\u00e7am a Finl\u00e2ndia. Dai aten\u00e7\u00e3o ao que se passa nos col\u00e9gios jesu\u00edtas da Catalunha. A Europa do Norte e os Estados Unidos s\u00e3o pr\u00f3digos na divulga\u00e7\u00e3o de absurdos e a \u00faltima \u00abinova\u00e7\u00e3o\u00bb veiculada pelos media foi a da aula invertida. O que vem a ser isso? Nas palavras do seu \u00abcriador\u00ab, flipped classroom, ou sala de aula invertida, \u00e9 o nome que se d\u00e1 ao m\u00e9todo que inverte a l\u00f3gica de organiza\u00e7\u00e3o da sala de aula. Os alunos aprendem o conte\u00fado no aconchego dos seus lares, digerindo videoaulas e jogos. Na sala de aula, fazem exerc\u00edcios. Diz-nos a media especializada que o trabalho de pares foi inventado h\u00e1 cerca de vinte anos. Vinte anos? H\u00e1 quase um s\u00e9culo, o Vygotsky dizia-nos que a aprendizagem \u00e9 resultante de um processo interativo. Tamb\u00e9m sabemos que, h\u00e1 mais de trinta anos, o Papert escreveu sobre o assunto. E que, h\u00e1 cerca de quarenta anos, o trabalho de pares era pr\u00e1tica comum no quotidiano de uma escolinha de Portugal, muito antes de um professor de F\u00edsica o ter \u00abinventado.\u00bb Os professores portugueses deveriam procurar caminhos de alforria cient\u00edfica e a sua maioridade educacional, sem prescindir do que venha do estrangeiro. Novidades importadas n\u00e3o passam de inova\u00e7\u00f5es requentadas.<\/p>\n<p><strong>Acredita numa nova constru\u00e7\u00e3o social de aprendizagem. O que \u00e9 que isso implica?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 quarenta anos, a Ponte provou a possibilidade de romper com o ciclo vicioso da reprodu\u00e7\u00e3o, conseguiu que uma maioria de alunos oriundos da pobreza alcan\u00e7asse a excel\u00eancia acad\u00e9mica e a inclus\u00e3o social. O essencial ser\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de reelabora\u00e7\u00e3o da cultura pessoal e profissional dos educadores. Isso compete a uma forma\u00e7\u00e3o, que, ainda e infelizmente, peca por defeito. Estou a falar de projetos que produzem excel\u00eancia acad\u00e9mica e inclus\u00e3o social e onde n\u00e3o h\u00e1 organiza\u00e7\u00e3o por idades. Onde as escolas n\u00e3o t\u00eam casa de banho do aluno separada de casa de banho do professor, onde os auxiliares de a\u00e7\u00e3o educativa ensinam a limpar aqueles que sujam, onde a educa\u00e7\u00e3o acontece. Onde n\u00e3o h\u00e1 aulas, nem turmas, nem anos, que s\u00e3o dispositivos sem sentido nenhum, sem fundamenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Concebeu-se uma nova constru\u00e7\u00e3o social de aprendizagem onde todos aprendem e s\u00e3o felizes. Isso \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463845_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000026.jpg?resize=640%2C411\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" srcset=\"http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463845_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000026.jpg 1200w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463845_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000026-300x193.jpg 300w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463845_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000026-768x493.jpg 768w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463845_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000026-1024x657.jpg 1024w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463845_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000026-696x447.jpg 696w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463845_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000026-1068x685.jpg 1068w, http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/files\/2017\/03\/27463845_BINARY_GI19032017NUNOPINTOFERNANDES000000026-655x420.jpg 655w\" alt=\"27463845_binary_gi19032017nunopintofernandes000000026\" width=\"640\" height=\"411\" \/><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Pacheco<\/strong> nasceu no Porto, \u00e9 mestre em Educa\u00e7\u00e3o da Crian\u00e7a pela Universidade do Porto. Em 2004, foi eleito comendador da Ordem da Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica pelo ent\u00e3o Presidente da Rep\u00fablica Jorge Sampaio. Foi eletricista, estudou engenharia e mudou-se para o ensino. Foi professor prim\u00e1rio e universit\u00e1rio. \u00abEm mi\u00fado, vivia num meio pobre, era (e continuo) estr\u00e1bico e, por isso, sofria bullying e era exclu\u00eddo. Fui para o ensino por vingan\u00e7a e fiquei na educa\u00e7\u00e3o por amor.\u00bb Em Portugal, no meio de uma agenda completamente preenchida, tirou alguns momentos para responder a esta entrevista por email.<\/p>\n<p>http:\/\/www.noticiasmagazine.pt\/2017\/jose-pacheco\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sara Dias Oliveira &#8211;\u00a0Jos\u00e9 Pacheco, professor, pedagogo, defende uma escola sem turmas, sem ciclos, sem testes, sem chumbos, sem campainhas. Aos cr\u00edticos, pede alternativas e conta hist\u00f3rias de sucesso. 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