{"id":3451,"date":"2017-04-07T09:02:46","date_gmt":"2017-04-07T12:02:46","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3451"},"modified":"2017-04-05T17:05:01","modified_gmt":"2017-04-05T20:05:01","slug":"brasil-pais-a-deriva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/04\/07\/brasil-pais-a-deriva\/","title":{"rendered":"Brasil, pa\u00eds \u00e0 deriva"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marco Weissheimer &#8211;\u00a0<\/strong>M\u00e1rcio Pochmann dispara: ind\u00fastria est\u00e1 regredindo ao patarmar de 1910 e primarismo das elites lembra a Rep\u00fablica Velha; mas apesar do decl\u00ednio, n\u00e3o surgiu ainda um novo projeto nacional<\/p>\n<p><em>O aspecto mais grave da crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica vivida pelo Brasil hoje \u00e9 que o pa\u00eds est\u00e1 completamente sem rumo, sem nenhum debate sobre um projeto nacional e contaminado pelo curt\u00edssimo prazo. Os setores de petr\u00f3leo e g\u00e1s, constru\u00e7\u00e3o civil, agroneg\u00f3cio e ind\u00fastria automobil\u00edstica, que foram importantes para viabilizar a recupera\u00e7\u00e3o da economia nos anos 2000, nos governos do PT, est\u00e3o gravemente comprometidos e o pa\u00eds est\u00e1 cada vez mais dependente de uma pauta de exporta\u00e7\u00e3o primarizada. Em 2014, a ind\u00fastria representava cerca de 15% do produto nacional. Em 2017, esse n\u00famero deve chegar a algo em torno de 8% a 9% do PIB, o que equivale ao que era o Brasil na d\u00e9cada de 1910. A avalia\u00e7\u00e3o do economista Marcio Pochmann, professor da Unicamp e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA), n\u00e3o recomenda nenhum otimismo sobre o futuro da economia brasileira nos pr\u00f3ximos meses.<\/em><\/p>\n<p><em>Em entrevista ao <strong>Sul21<\/strong>, Pochmann analisa o momento econ\u00f4mico e pol\u00edtico, contextualizando-o na hist\u00f3ria recente do pa\u00eds. Das quatro recess\u00f5es que o capitalismo brasileiro j\u00e1 viveu, ele considera a atual a mais grave do ponto de vista da desorganiza\u00e7\u00e3o do sistema de investimentos no Brasil. Para Pochmann, o governo Temer \u00e9 a \u201cpedra que faltava para retirar as possibilidades da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira\u201d. \u201cO que temos hoje basicamente \u00e9 a for\u00e7a do setor de produ\u00e7\u00e3o agro-mineral e o setor de servi\u00e7os. S\u00e3o setores importantes, mas sem capacidade de permitir um ritmo de expans\u00e3o sustent\u00e1vel para um pa\u00eds com mais de 200 milh\u00f5es de habitantes\u201d, adverte. No plano pol\u00edtico, Marcio Pochmann diz que s\u00f3 h\u00e1 uma sa\u00edda institucional para a atual crise pol\u00edtica, as elei\u00e7\u00f5es em 2018, mas est\u00e1 preocupado com essa possibilidade: \u201cA minha preocupa\u00e7\u00e3o maior \u00e9 se, de fato, n\u00f3s teremos elei\u00e7\u00f5es em 2018\u201d.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea definiria o atual momento econ\u00f4mico que o Brasil est\u00e1 vivendo?<\/strong><\/p>\n<p>Se olharmos do ponto de vista hist\u00f3rico, essa \u00e9 a quarta recess\u00e3o que temos no pa\u00eds desde que o capitalismo aqui se instalou, sendo a terceira do per\u00edodo em que o Brasil se tornou urbano e industrial. Essa \u00e9 a recess\u00e3o mais grave do ponto de vista da desorganiza\u00e7\u00e3o do sistema de investimentos do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 apenas uma recess\u00e3o no sentido da redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de atividade, mas tamb\u00e9m pelo processo de desinvestimento com o fechamento de empresas no pa\u00eds. A ind\u00fastria que, desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 30, havia sido o vetor principal do comando da acumula\u00e7\u00e3o capitalista no Brasil, praticamente vai se desfazer com essa recess\u00e3o. J\u00e1 est\u00e1vamos convivendo com uma fase de descenso da ind\u00fastria. Em 2014, a ind\u00fastria representava cerca de 15% de todo o produto nacional. Em 2017, esse n\u00famero deve chegar a algo em torno de 8% a 9% do PIB, o que equivale ao que era o Brasil na d\u00e9cada de 1910.<\/p>\n<p>Podemos at\u00e9, em 2017, ter uma inflex\u00e3o na recess\u00e3o, mas isso n\u00e3o significa que temos base sustent\u00e1vel para voltar a crescer, pois estamos cada vez mais dependentes de uma pauta de exporta\u00e7\u00e3o primarizada. Al\u00e9m disso, o agroneg\u00f3cio est\u00e1 sendo atingido por uma s\u00e9rie de den\u00fancias. Os setores de petr\u00f3leo e g\u00e1s, constru\u00e7\u00e3o civil, agroneg\u00f3cio e ind\u00fastria automobil\u00edstica, que foram importantes para viabilizar a recupera\u00e7\u00e3o da economia nos anos 2000, nos governos do PT, est\u00e3o muito comprometidos. O Brasil est\u00e1 sem rumo. Talvez essa seja uma das coisas mais graves que estamos enfrentando. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma discuss\u00e3o sobre um projeto nacional. O pa\u00eds est\u00e1 totalmente contaminado pelo curt\u00edssimo prazo.<\/p>\n<p><strong>Qual o impacto que a agenda do governo Temer, com propostas como a da amplia\u00e7\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o e da Reforma da Previd\u00eancia, pode ter nesta conjuntura econ\u00f4mica?<\/strong><\/p>\n<p>O governo Temer \u00e9 composto por duas for\u00e7as que, contraditoriamente, tamb\u00e9m expressam sua fraqueza. Uma \u00e9 a capacidade de organizar uma maioria no \u00e2mbito do Legislativo. Durante o ciclo da Nova Rep\u00fablica, de 1985 para c\u00e1, dificilmente encontraremos um presidente com tanta capacidade de formar uma maioria como vemos agora. Essa maioria se expressa na perspectiva de que o pr\u00f3prio presidente Temer possa evitar a contamina\u00e7\u00e3o da Lava Jato. \u00c9 uma maioria que se organizou muito mais em torno do medo de estar contaminada pelas investiga\u00e7\u00f5es da Lava Jato, com a expectativa de que o governo Temer possa amenizar os efeitos dessa opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De outro lado, h\u00e1 a for\u00e7a que vem de grandes setores econ\u00f4micos e midi\u00e1ticos em torno das reformas neoliberais que estavam planejadas para os anos 90 e que foram interrompidas pelo ciclo de governos do PT. \u00c9 isso que d\u00e1 for\u00e7a ao governo Temer. No entanto, mesmo essa for\u00e7a tem uma fraqueza, na medida que n\u00e3o encaminha um projeto de inser\u00e7\u00e3o do Brasil no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>O que aconteceu semana passada com a aprova\u00e7\u00e3o da lei da terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 express\u00e3o de um pensamento que vem desde os tempos do Imp\u00e9rio. Naquela \u00e9poca, esse setor das elites dominantes achava que as raz\u00f5es do atraso do Brasil estavam relacionadas \u00e0 presen\u00e7a popula\u00e7\u00e3o negra e n\u00e3o ao modelo agr\u00e1rio exportador. A solu\u00e7\u00e3o que eles apresentaram para isso foi implementar um processo de \u201cbranqueamento\u201d da popula\u00e7\u00e3o, com a atra\u00e7\u00e3o de imigrantes europeus. Em 1872, dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o brasileira eram compostos por negros e ind\u00edgenas. Como resultado desse processo, em 1940, cerca de 63% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds j\u00e1 \u00e9 branca.<\/p>\n<figure id=\"attachment_370360\" class=\"wp-caption alignleft\">Na d\u00e9cada de 1920, come\u00e7a a ocorrer uma rea\u00e7\u00e3o de diversos segmentos da sociedade que se expressou, entre outras coisas, no movimento tenentista. Esse movimento sustentou que o problema do Brasil n\u00e3o era racial ou demogr\u00e1fico, mas sim a falta de um projeto de pa\u00eds, e a sa\u00edda seria a industrializa\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o de um mercado de trabalho. Ent\u00e3o, come\u00e7amos a ter desde 1920 a organiza\u00e7\u00e3o lenta e gradual de um mercado de trabalho. A CLT de 1943 \u00e9 um marco neste processo, pois consolida mais de 15 mil leis que existiam at\u00e9 ent\u00e3o, de forma dispersa. De 1943 para c\u00e1, tivemos tr\u00eas movimentos de flexibiliza\u00e7\u00e3o da CLT que nunca foi muito bem aceita, em primeiro lugar pelos agraristas. Em 1943, a CLT foi aprovada apenas para trabalhadores urbanos. Naquela d\u00e9cada, de cada dez trabalhadores, um estava na cidade. O restante estava no campo. A CLT s\u00f3 vai come\u00e7ar a incorporar trabalhadores rurais a partir do Estatuto do Trabalhador Rural em 1963 e depois, mais tarde, na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que n\u00e3o agradou muitos setores que sempre tentaram desconstitu\u00ed-la.<\/figure>\n<p>O primeiro movimento de flexibiliza\u00e7\u00e3o da CLT ocorreu no golpe de 1964 com a introdu\u00e7\u00e3o, por exemplo, do Fundo de Garantia por Tempo de Servi\u00e7o, que consolida a enorme rotatividade do mercado de trabalho. Tamb\u00e9m foi interrompida a estabilidade no emprego. Somos um pa\u00eds com uma das mais altas taxas de rotatividade no trabalho. Mais da metade da popula\u00e7\u00e3o ocupada \u00e9 demitida a cada ano no Brasil. Esse foi o \u00fanico momento em que a flexibiliza\u00e7\u00e3o da CLT coincide com a expans\u00e3o do emprego que ocorreu no processo do chamado milagre econ\u00f4mico. Obviamente, a expans\u00e3o do emprego tem a ver com o crescimento da economia e n\u00e3o com a flexibiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O segundo movimento de flexibiliza\u00e7\u00e3o ocorreu nos anos 1990 com os governos de Collor e Fernando Henrique Cardoso. Tivemos a\u00ed um processo que n\u00e3o se limitou \u00e0 flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho, envolvendo tamb\u00e9m outros aspectos da economia. A\u00ed n\u00e3o tivemos crescimento do emprego, mas sim uma substitui\u00e7\u00e3o do emprego tradicional por um emprego mais precarizado, sobretudo com a terceiriza\u00e7\u00e3o das atividades meio. Isso fez, por exemplo, que uma categoria como a dos banc\u00e1rios que, em 1985, tinha em torno de um milh\u00e3o de trabalhadores e cerca de 200 mil terceirizados passasse a ter hoje menos de 400 mil trabalhadores e um milh\u00e3o e quatrocentos mil trabalhadores terceirizados. Uma parte importante do mercado de trabalho foi reconfigurada por esse processo de terceiriza\u00e7\u00e3o que se inicia sobretudo nos anos 90.<\/p>\n<p>Agora, estamos vendo um terceiro movimento de flexibiliza\u00e7\u00e3o da CLT que se d\u00e1 num quadro recessivo e que, possivelmente, n\u00e3o dever\u00e1 ter um impacto positivo no n\u00edvel de emprego, mas sim o rebaixamento das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Os empres\u00e1rios, em uma situa\u00e7\u00e3o como essa em que n\u00e3o h\u00e1 grande demanda por seus produtos, buscam sobretudo redu\u00e7\u00e3o de custos. Como vivemos em um pa\u00eds com taxas de juros extremamente elevadas, que tem crescido em termos reais n\u00e3o obstante a taxa Selic ter ca\u00eddo nominalmente, e com um sistema tribut\u00e1rio com problemas, a redu\u00e7\u00e3o de custos \u00e9 o caminho mais f\u00e1cil que os empres\u00e1rios v\u00e3o buscar para enfrentar a crise.<\/p>\n<figure id=\"attachment_370355\" class=\"wp-caption alignright\"><figcaption class=\"wp-caption-text\"><\/figcaption><\/figure>\n<p>Os impactos dessas medidas na demanda ser\u00e3o desfavor\u00e1veis, o que pode comprometer ainda mais uma poss\u00edvel recupera\u00e7\u00e3o da economia brasileira. H\u00e1 outros componentes que podem afetar essa possibilidade de recupera\u00e7\u00e3o. Tivemos agora esse epis\u00f3dio envolvendo o agroneg\u00f3cio e a ind\u00fastria da carne. Estamos com problemas s\u00e9rios envolvendo as administra\u00e7\u00f5es municipais e estaduais. Al\u00e9m disso, se as terceiriza\u00e7\u00f5es aprovadas agora forem implementadas muito rapidamente, isso pode resultar no rebaixamento da taxa de sal\u00e1rios, comprometendo o consumo. Essa conjun\u00e7\u00e3o de fatores pode fazer com tenhamos, em 2017, um terceiro ano recessivo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea referiu que a participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria na composi\u00e7\u00e3o do PIB brasileiro regrediu ao est\u00e1gio de 1910. H\u00e1 quem diga que a decis\u00e3o aprovada na C\u00e2mara dos Deputados liberando as terceiriza\u00e7\u00f5es inclusive nas atividades fim significa o cumprimento do projeto de FHC de \u201cvirar a p\u00e1gina do getulismo\u201d. \u00c9 isso o que est\u00e1 acontecendo, de fato?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s temos uma polariza\u00e7\u00e3o que \u00e9 recorrente desde a Independ\u00eancia. \u00c9 uma disputa sobre o comando do desenvolvimento brasileiro. Essa polariza\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 presente em 1822 com Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio que defendia que o Brasil n\u00e3o podia ser apenas um pa\u00eds rural e agr\u00e1rio e precisava ter uma base urbana e industrial. Ao longo do Imp\u00e9rio, por\u00e9m, a ind\u00fastria brasileira nunca teve for\u00e7a, com exce\u00e7\u00e3o de algumas iniciativas pontuais. Com a Rep\u00fablica, ela passa a contar com o apoio de abolicionistas, como Rui Barbosa, que tem uma perspectiva urbana e industrial. No primeiro governo da Rep\u00fablica Velha, Rui Barbosa chega a tentar um ensaio desenvolvimentista com base industrial a partir de uma pol\u00edtica de expans\u00e3o do cr\u00e9dito, que n\u00e3o tem sucesso. A partir da\u00ed, temos mais algumas d\u00e9cadas da Rep\u00fablica Velha sustentada no agrarismo.<\/p>\n<p>A crise de 29, a revolu\u00e7\u00e3o de 30 e o movimento tenentista abrem outra perspectiva para o Brasil, colocando a industrializa\u00e7\u00e3o no centro da agenda do governo. As For\u00e7as Armadas desempenham um papel importante neste processo, pois se d\u00e3o conta que, sem ind\u00fastria, elas tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e3o capacidade de exercer as fun\u00e7\u00f5es que imaginam ser fundamentais. A partir de 30, temos um projeto vitorioso que vem at\u00e9 a d\u00e9cada de 80, quando come\u00e7a a sofrer constrangimentos.<\/p>\n<p>Acredito que o governo Temer, de certa maneira, \u00e9 a pedra que faltava para retirar as possibilidades da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira. Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o teremos ind\u00fastria. N\u00e3o teremos industrializa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma coisa um pouco diferente. At\u00e9 a d\u00e9cada de 30, o Brasil tinha ind\u00fastrias tamb\u00e9m. Havia a ind\u00fastria da banha, ind\u00fastria aliment\u00edcia, ind\u00fastrias de bens de consumo n\u00e3o dur\u00e1veis. Mas n\u00e3o existia industrializa\u00e7\u00e3o que \u00e9 a centralidade da ind\u00fastria do ponto de vista da acumula\u00e7\u00e3o de capital. \u00c9 ela que, ao expandir o seu pr\u00f3prio setor, contamina v\u00e1rios outros setores da atividade econ\u00f4mica. O que temos hoje basicamente \u00e9 a for\u00e7a do setor de produ\u00e7\u00e3o agro-mineral e o setor de servi\u00e7os. S\u00e3o setores importantes, mas sem capacidade de permitir um ritmo de expans\u00e3o sustent\u00e1vel para um pa\u00eds com mais de 200 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>Essa fase de descenso da ind\u00fastria \u00e9 uma longa fase de decad\u00eancia do Brasil. A hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Brasil \u00e9 permeada de ciclos econ\u00f4micos. Tivemos os ciclos do pau-brasil, da cana de a\u00e7\u00facar, do ouro, do caf\u00e9 e assim por diante. A industrializa\u00e7\u00e3o possivelmente tenha se transformado num ciclo que teve seu auge e, a partir dos anos 80, vem apresentando sinais de decad\u00eancia. Com o governo Temer, creio que n\u00e3o teremos mais condi\u00e7\u00f5es de ter industrializa\u00e7\u00e3o porque o que vai sobrar ser\u00e3o algumas ind\u00fastrias sem capacidade de oferecer ao pa\u00eds um projeto de desenvolvimento sustent\u00e1vel de longo prazo.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia a capacidade das for\u00e7as pol\u00edticas e sociais que apoiaram os governos Lula e Dilma para enfrentar as medidas que vem sendo aprovadas pelo governo Temer e suas conseq\u00fc\u00eancias?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acredito que o cen\u00e1rio que estou descrevendo at\u00e9 aqui seja algo definitivo. \u00c9 uma avalia\u00e7\u00e3o do momento que estamos vivendo, mas \u00e9 poss\u00edvel virar essa p\u00e1gina e reconstituir a maioria pol\u00edtica que viabilizou a vit\u00f3ria longeva de uma frente liderada pelo Partido dos Trabalhadores. Mas essa maioria que garantiu a governabilidade para repor aquilo que o neoliberalismo havia retirado nos anos 90 foi muito fragmentada. N\u00e3o foi uma maioria constitu\u00edda para fazer uma reforma profunda no capitalismo brasileiro. O que garantiu a vit\u00f3ria ao PT em 2002, al\u00e9m das for\u00e7as tradicionais de esquerda, foi a amplia\u00e7\u00e3o da base pol\u00edtica de apoio. Fizeram parte dessa amplia\u00e7\u00e3o setores da \u00e1rea industrial que foram penalizados nos anos 90, uma classe m\u00e9dia que tamb\u00e9m n\u00e3o teve benef\u00edcios nas reformas dos anos 90, uma parte do agroneg\u00f3cio, o setor exportador. O que soldava essa alian\u00e7a era a reposi\u00e7\u00e3o daquilo que havia sido perdido nos anos 90, n\u00e3o mais do que isso.<\/p>\n<p>De certa maneira, essa agenda foi cumprida. Houve reposi\u00e7\u00e3o de renda, de emprego, do n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica. O que, talvez, os nossos governos n\u00e3o tenham conseguido fazer foi ter transformado essa maioria pol\u00edtica numa maioria capaz de fazer as reformas que se imaginava serem necess\u00e1rias. N\u00e3o que n\u00e3o tenham ocorrido algumas tentativas para isso. No in\u00edcio do governo do presidente Lula, dois projetos tinham por orienta\u00e7\u00e3o uma reorganiza\u00e7\u00e3o dessa maioria pol\u00edtica para sustentar a\u00e7\u00f5es muito mais avan\u00e7adas. O primeiro foi o F\u00f3rum do Trabalho, que contou com a presen\u00e7a de representantes do capital, do trabalho e do governo com o objetivo de reformular a estrutura de representa\u00e7\u00e3o de interesses dos sindicatos no Brasil. Em 1989, cerca de um ter\u00e7o dos trabalhadores brasileiros era filiada a algum sindicato. Com as pol\u00edticas dos anos 90, esse \u00edndice caiu para algo em torno de 16% ou 17% da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o foi poss\u00edvel construir neste F\u00f3rum algo que modernizasse as rela\u00e7\u00f5es entre capital e trabalho. N\u00e3o saiu dali nenhum projeto de lei, nada. O que tivemos foi a manuten\u00e7\u00e3o das estrutura sindical, inclusive incorporando as centrais sindicais no sistema de financiamento via contribui\u00e7\u00e3o sindical. N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o avan\u00e7amos como comprometemos o que havia de novo na estrutura sindical herdada dos anos 40. Ou seja, n\u00e3o se conseguiu fazer da classe trabalhadora organizada uma vanguarda da defesa das reformas que o Brasil precisava. Isso fez com que tiv\u00e9ssemos uma expans\u00e3o de 22 milh\u00f5es postos de trabalho sem que esse crescimento implicasse um crescimento da taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o. De cada dez trabalhadores que conquistaram um posto de trabalho, apenas dois se filiaram a algum sindicato. Um governo de esquerda pressup\u00f5e a exist\u00eancia de uma base oper\u00e1ria forte. Como dizia L\u00eanin, o partido tem que ficar \u00e0 esquerda do governo e \u00e0 direita do movimento social (sindical). Esse setor deveria ter tido um protagonismo para empurrar o governo na dire\u00e7\u00e3o das reformas necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>A outra tentativa foi tornar os miser\u00e1veis um ator pol\u00edtico relevante. A concep\u00e7\u00e3o inicial do projeto Fome Zero n\u00e3o era a de construir uma pol\u00edtica para os pobres, mas sim com os pobres, que buscasse a emancipa\u00e7\u00e3o dessas pessoas. Isso faria delas atores relevantes na disputa de projetos para a sociedade. Uma vez que eles s\u00e3o, proporcionalmente, os que mais pagam impostos no pa\u00eds e os que menos recebem contrapartidas do Estado, poderiam ser os grandes defensores de uma reforma tribut\u00e1ria justa no pa\u00eds. A implanta\u00e7\u00e3o do projeto Fome Zero deparou-se com uma s\u00e9rie de obst\u00e1culos, entre eles, a rea\u00e7\u00e3o dos prefeitos que n\u00e3o aceitaram perder a capacidade de subordinar os pobres.<\/p>\n<p>Pela concep\u00e7\u00e3o original do projeto, quem faria o cadastramento dos poss\u00edveis beneficiados dos programas seriam os pr\u00f3prios miser\u00e1veis, por meio de um processo de auto-organiza\u00e7\u00e3o. Isso retiraria da Prefeitura o poder de cadastrar. A rea\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o grande que a alternativa acabou sendo abandonar o projeto Fome Zero e instalar o Bolsa Fam\u00edlia, que \u00e9 um programa extraordin\u00e1rio do ponto de vista de colocar recursos na m\u00e3o das pessoas muito pobres que s\u00f3 conheciam o Estado pela presen\u00e7a da pol\u00edcia. Esse programa teve um impacto muito grande na pobreza, mas a estrutura de domina\u00e7\u00e3o dos miser\u00e1veis se manteve praticamente a mesma. Quem controla os pobres, em \u00faltima inst\u00e2ncia, segue sendo a prefeitura, os poderes locais. Isso fez com que esse universo de pessoas beneficiadas n\u00e3o se transformasse em um segmento que pudesse liderar um processo de reformas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de os pobres n\u00e3o se tornarem um ator pol\u00edtico relevante, se instalou entre eles uma disc\u00f3rdia. Muitas vezes, benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia achavam que benefici\u00e1rios do Fies n\u00e3o deveriam receber a bolsa, ou estudantes benefici\u00e1rios do Fies eram contra o Bolsa Fam\u00edlia e assim por diante. N\u00e3o houve uma identifica\u00e7\u00e3o do ponto de vista de uma disputa pol\u00edtica sobre o sentido desse processo de inclus\u00e3o social, que foi significativo. Ent\u00e3o, o governo e as for\u00e7as que o apoiavam n\u00e3o conseguiram mudar a sua base de apoio. Uma vez completada a agenda de recuperar o que havia sido perdido nos anos 90, fomos perdendo esses setores at\u00e9 chegar ao golpe que temos hoje.<\/p>\n<p>\u00c9 um movimento pendular. Nada impede que, daqui um ano e pouco, os prejudicados pelas reformas do Temer venham a recompor uma nova maioria para um futuro governo de reconstru\u00e7\u00e3o do Brasil. N\u00e3o vejo isso como algo inalcan\u00e7\u00e1vel. A minha preocupa\u00e7\u00e3o maior \u00e9 se, de fato, n\u00f3s teremos elei\u00e7\u00f5es em 2018. Em 1964, importantes lideran\u00e7as democr\u00e1ticas como Ulysses Guimar\u00e3es e Juscelino Kubitschek apoiaram o golpe que dep\u00f4s o presidente Jo\u00e3o Goulart, que tinha uma condi\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel de enfrentar as elei\u00e7\u00f5es no ano seguinte. O golpe de 64 seria uma maneira de fazer uma limpeza e depois se faria uma nova elei\u00e7\u00e3o em 65. Ocorre que n\u00e3o houve elei\u00e7\u00e3o em 65. Ser\u00e1 que esse conjunto de for\u00e7as que aprova qualquer coisa hoje no Legislativo na expectativa de que o governo Temer possa oferecer alguma seguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o, e o setor econ\u00f4mico que v\u00ea neste governo a \u00fanica possibilidade de fazer as reformas que foram barradas pelo voto, v\u00e3o entregar facilmente o poder para um novo governo que pense completamente diferente essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>A crise que o Brasil vive hoje tem uma sa\u00edda institucional, que \u00e9 a elei\u00e7\u00e3o de 2018, com chance de o PT ou uma frente de esquerda venc\u00ea-la. Mas talvez possa n\u00e3o haver 2018.<\/p>\n<p><strong>Considerando essa compara\u00e7\u00e3o com 64, h\u00e1 um ator importante que est\u00e1 em relativo sil\u00eancio na crise atual, que s\u00e3o as for\u00e7as armadas, que inclusive t\u00eam alguns projetos seus sendo amea\u00e7ados pelo governo Temer como \u00e9 o caso do submarino nuclear. Na sua opini\u00e3o, h\u00e1 alguma mudan\u00e7a qualitativa no papel das for\u00e7as armadas em rela\u00e7\u00e3o aquele de 1964?<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s o golpe de 64 houve um processo de despolitiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas. Nos anos 50 e 60, as for\u00e7as armadas eram muito politizadas. Essa caracter\u00edstica, se n\u00e3o foi eliminada, perdeu import\u00e2ncia. A impress\u00e3o que eu tenho \u00e9 que as for\u00e7as armadas podem assumir um papel mais ativo no caso de uma amea\u00e7a constitucional, alguma coisa identificada como insurrei\u00e7\u00e3o ou desorganiza\u00e7\u00e3o do sistema de seguran\u00e7a. N\u00e3o me parece que elas possam repetir uma iniciativa como a de 64 at\u00e9 porque o cen\u00e1rio internacional est\u00e1 bastante conturbado.<\/p>\n<p>No governo Obama, deu-se uma presen\u00e7a muito grande dos Estados Unidos na retomada da lideran\u00e7a no interior da Am\u00e9rica Latina. O protagonismo assumido pelo Brasil certamente n\u00e3o contou com a aprova\u00e7\u00e3o do governo norte-americano. Agora, por\u00e9m, os Estados Unidos vivem problemas muito mais significativos e est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de maior insulamento, olhando para os seus problemas. O governo Trump n\u00e3o parece muito preocupado com outras realidades, diferentemente da pol\u00edtica externa do governo Obama. Ent\u00e3o, o apoio externo que os golpistas tiveram em 64 n\u00e3o me parece estar materializado hoje. Alem disso, nem \u00e9 preciso recorrer ao golpe cl\u00e1ssico para evitar que ocorram elei\u00e7\u00f5es em 2018. H\u00e1 outras formas como estamos vendo agora. Estamos vivendo um golpe e n\u00e3o estamos mais vivendo dentro da normalidade democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>http:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/capa-outras-midias\/brasil-pais-a-deriva\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marco Weissheimer &#8211;\u00a0M\u00e1rcio Pochmann dispara: ind\u00fastria est\u00e1 regredindo ao patarmar de 1910 e primarismo das elites lembra a Rep\u00fablica Velha; mas apesar do decl\u00ednio, n\u00e3o surgiu ainda um novo projeto nacional O aspecto mais grave da crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica vivida pelo Brasil hoje \u00e9 que o pa\u00eds est\u00e1 completamente sem rumo, sem nenhum debate [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2420,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-3451","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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