{"id":3419,"date":"2017-03-31T21:20:12","date_gmt":"2017-04-01T00:20:12","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3419"},"modified":"2017-03-31T21:16:47","modified_gmt":"2017-04-01T00:16:47","slug":"nao-foi-colombo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/03\/31\/nao-foi-colombo\/","title":{"rendered":"N\u00e3o foi Colombo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fabio Marton<\/strong> &#8211; Os vikings foram os primeiros europeus a pisar no continente. O mist\u00e9rio \u00e9 como e por que eles o abandonaram.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s semanas perdidos no Atl\u00e2ntico, Bjarni Herj\u00f3lfsson e sua tripula\u00e7\u00e3o desembarcaram na Groenl\u00e2ndia, aos trapos. Ele procurava pelos pais, que haviam embarcado com Eric, o Vermelho, para colonizar a ilha. Entre reclama\u00e7\u00f5es dos infort\u00fanios da viagem, na qual ficaram perdidos em meio a nevoeiros e foram jogados para cima e para baixo por tempestades, Bjarni tinha uma revela\u00e7\u00e3o: havia descoberto a Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de pilhagens e conquistas, perder-se no mar era um dos esportes favoritos dos vikings. A pr\u00f3pria Groenl\u00e2ndia havia sido descoberta algumas d\u00e9cadas antes por outro viking perdido no Atl\u00e2ntico e explorada por Eric, o Vermelho, enquanto curtia um ex\u00edlio de tr\u00eas anos por assassinato. Eric ent\u00e3o batizou a ilha de &#8220;Terra Verde&#8221; (Groenland) para atrair colonos. A publicidade n\u00e3o era t\u00e3o enganosa: no ver\u00e3o, nasce musgo e capim nos fiordes (bra\u00e7os de mar). E havia peixes, renas, morsas, focas e ursos polares por perto, que era o que interessava aos vikings.<\/p>\n<p>Bjarni n\u00e3o desceu \u00e0 terra em nenhum ponto da viagem e n\u00e3o fazia ideia da import\u00e2ncia da descoberta. Tampouco os outros vikings: nem ent\u00e3o, nem pelos s\u00e9culos que viriam, eles entenderam que aquelas terras eram um continente desconhecido do resto do mundo. De tudo o que Bjarni falou, s\u00f3 uma palavra chamou a aten\u00e7\u00e3o: &#8220;\u00e1rvores&#8221;. Ele avistou \u00e1rvores nas terras a sudoeste da Groenl\u00e2ndia. Os navios dependiam de madeira e os vikings dependiam dos navios. N\u00e3o havia \u00e1rvores na Groenl\u00e2ndia &#8211; e foi como se ele houvesse encontrado petr\u00f3leo. Assim, o filho mais velho de Eric, Leif, comprou o navio do explorador acidental e partiu para o sudoeste com 35 homens. Era o ano de 999, e come\u00e7ava a primeira tentativa europeia de coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p><strong>Morte e vida americana<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro local avistado, a Ilha de Baffin, no Canad\u00e1, n\u00e3o pareceu muito promissor. S\u00f3 havia gelo e pedras. Leif desceu do navio, s\u00f3 para garantir que fosse o primeiro a p\u00f4r os p\u00e9s no local, e batizou a ilha de Hellulland, &#8220;terra da pedra chata&#8221;. Continuando a viagem, chegou \u00e0 pen\u00ednsula de Labrador, onde achou as prometidas \u00e1rvores, e batizou o lugar de Markland, &#8220;terra da floresta&#8221;. Na Ilha de Newfoundland (Terra Nova), fizeram um acampamento permanente, com casas grandes de pedra e madeira, e continuaram a explora\u00e7\u00e3o. Um dia, um escravo de Eric apareceu com um achado surpreendente: uvas, coisa que os vikings s\u00f3 conheciam de pa\u00edses do sul da Europa. Eram da esp\u00e9cie Vitis labrusca (as conhecidas uvas ni\u00e1gara), ruins para vinho, boas para comer. Leif batizou o lugar de Vinland &#8211; terra da uva &#8211; e, na volta, carregou seu navio com as frutas. Em sua primeira viagem \u00e0 Am\u00e9rica, os vikings acharam uvas, \u00e1rvores, salm\u00f5es, clima temperado e belas paisagens canadenses. Era um come\u00e7o promissor.<\/p>\n<div>\n<div><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/orinoco\/media\/\/images\/small\/2017\/03\/04\/cristiano-iv-da-dinamarca.jpg?w=640\" \/><br \/>\n<em>Cristiano IV da Dinamarca\u00a0<\/em><\/div>\n<\/div>\n<p>Em 1492, Colombo chegou ao Caribe pelo meio do Atl\u00e2ntico, uma rota que os escandinavos n\u00e3o seriam capazes de fazer. Oito anos depois, o portugu\u00eas Gaspar Corte Real chegou \u00e0 Groenl\u00e2ndia pelo Atl\u00e2ntico Sul, batizando uma ilha de Terra Nova (da\u00ed o ingl\u00eas &#8220;Newfoundland&#8221;). Um mapa portugu\u00eas de dois anos depois j\u00e1 mostrava a Groenl\u00e2ndia como possess\u00e3o portuguesa, pois ficava a leste da Linha de Tordesilhas. Isso ficou s\u00f3 no papel.<\/p>\n<p>Em 1604, o rei Cristiano IV da Dinamarca enviou uma &#8220;expedi\u00e7\u00e3o de resgate&#8221; &#8211; ele acreditava que ainda havia n\u00f3rdicos morando na Groenl\u00e2ndia. Foi um fracasso, com os navios bloqueados pelo gelo. Em 1721, com Hans Egede, os dinamarqueses conseguiram tomar posse do pa\u00eds novamente, mas s\u00f3 encontraram inu\u00edtes, que mostraram a eles as ru\u00ednas n\u00f3rdicas. Hoje, 89% dos 59 mil groenlandeses s\u00e3o inu\u00edtes. Desde 2009, a Groenl\u00e2ndia \u00e9 um pa\u00eds semiaut\u00f4nomo. A maioria da popula\u00e7\u00e3o apoia a independ\u00eancia total da Dinamarca. Um plebiscito vai resolver a quest\u00e3o em 2017.<\/p>\n<p>Quando Leif retornou \u00e0 Groenl\u00e2ndia, seu irm\u00e3o, Thorvald, preparou a segunda viagem, que come\u00e7ou em 1004. Ap\u00f3s dois anos sem incidentes, Thorvald explorava um fiorde quando topou com uma vis\u00e3o inesperada: tr\u00eas botes de pele, cada um com tr\u00eas homens, se aproximando do navio. Era o primeiro contato entre europeus e nativos da Am\u00e9rica, e n\u00e3o acabou melhor que os posteriores: os vikings capturaram oito dos nove homens e os mataram (sem explicar o motivo). O sobrevivente fugiu. Os europeus continuaram a explora\u00e7\u00e3o e toparam com o que pareciam habita\u00e7\u00f5es. N\u00e3o tiveram tempo de se certificar. Dezenas de botes surgiram no fiorde e come\u00e7aram a disparar flechas contra eles.<\/p>\n<p>Thorvald foi atingido embaixo do bra\u00e7o e morreu pouco depois. Seu \u00faltimo pedido foi que marcassem sua sepultura com duas cruzes, pois era crist\u00e3o. Mesmo com a baixa, os n\u00f3rdicos chamaram os nativos de skraeling, algo como &#8220;fracotes&#8221;. Sobre a identidade dos skraeling, Hans Christian Gullov, do Museu Nacional da Dinamarca, afirma que poderiam tanto ser \u00edndios beothuk quanto paleo-esquim\u00f3s da cultura Dorset, ambos extintos por outros povos americanos.<\/p>\n<p>Fora as matan\u00e7as, as not\u00edcias n\u00e3o pareceram ruins para o comerciante Thorfinn Karlsefni. Ele se casou com a vi\u00fava de Thorvald, Gudrid, e organizou a terceira expedi\u00e7\u00e3o. Karlsefni tamb\u00e9m encontrou os skraeling, desta vez no acampamento em Vinland. Os nativos espalharam objetos sobre o ch\u00e3o, dando a entender que queriam com\u00e9rcio. As mulheres trouxeram queijo e manteiga, o neg\u00f3cio foi aceito, e os grupos se separaram sem incidentes. Apesar da promessa de paz, Karlsefni construiu pali\u00e7adas em volta do acampamento. Durante o inverno, chegou o filho do casal, o primeiro descendente de europeus a nascer na Am\u00e9rica. Na outra esta\u00e7\u00e3o, os \u00edndios reapareceram. Um deles tentou roubar uma arma de um servo de Karlsefni, que reagiu \u00e0 moda viking, com a espada &#8211; o incidente deu in\u00edcio a uma batalha, mas os vikings conseguiram expulsar os nativos e se bandear de volta para a Groenl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Houve uma quarta e \u00faltima expedi\u00e7\u00e3o. Dessa vez, os vikings n\u00e3o precisaram de ajuda dos skraeling para morrer. A filha de Eric, Freydis, se desentendeu com os integrantes de uma equipe rival, dizendo que s\u00f3 ela podia usar os pr\u00e9dios do acampamento, propriedade de seu irm\u00e3o. Os rivais se conformaram em fazer mais casas. Ap\u00f3s outra discuss\u00e3o, Freydis resolveu matar todo mundo &#8211; quando seus subalternos recusaram-se a executar as mulheres, ela pediu um machado e resolveu a situa\u00e7\u00e3o sozinha. Matar \u00edndios n\u00e3o merecia coment\u00e1rio, mas, dessa vez, o relato n\u00e3o ignorou que o ato foi visto como um grande mal na Groenl\u00e2ndia, uma mancha na reputa\u00e7\u00e3o dos descendentes de Freydis. Assim, entre serem mortos pelos nativos ou por eles mesmos, os n\u00f3rdicos deixaram a coloniza\u00e7\u00e3o do Novo Mundo para outros europeus, s\u00e9culos depois. Mas n\u00e3o foi o fim de sua presen\u00e7a na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p><strong>Das sagas para a Hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Tudo o que voc\u00ea leu at\u00e9 agora vem da Saga dos Groenlandeses, livro escrito na Isl\u00e2ndia por volta de 1200. A mesma hist\u00f3ria \u00e9 contada na Saga de Eric, o Vermelho, com alguns detalhes distintos. Durante os s\u00e9culos 18 e 19, as sagas come\u00e7aram a ser traduzidas para l\u00ednguas n\u00f3rdicas modernas e depois para o ingl\u00eas, franc\u00eas e alem\u00e3o, dando origem a uma certa &#8220;vikingmania&#8221;. Os feitos n\u00f3rdicos foram saudados por gente como o escritor noruegu\u00eas Henrik Ibsen (Os Guerreiros em Helgeland, 1857) e o compositor alem\u00e3o Richard Wagner (O Anel dos Nibelungos, 1874). Na \u00e9poca surgiu o estere\u00f3tipo do viking de elmo chifrudo &#8211; que existiu entre n\u00f3rdicos na Antiguidade, mas j\u00e1 abandonado na Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Em 1837, o historiador dinamarqu\u00eas Carl Christian Rafn escreveu Antiquaes America, primeiro trabalho acad\u00eamico desbancando a primazia de Colombo. No livro, Rafn apontava uma torre de pedra em Rhode Island (EUA) como uma igreja de vikings crist\u00e3os. Em 1898, uma pedra r\u00fanica foi encontrada no Minnesota, a milhares de quil\u00f4metros do litoral canadense. A pedra era uma fraude e a torre, depois de escavada, s\u00f3 rendeu artefatos do s\u00e9culo 17. No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, a maioria dos historiadores estava c\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s narrativas das sagas. Os amadores n\u00e3o desistiram. Em 1914, o empres\u00e1rio William F. Munn, de Newfoundland, escreveu artigos apontando o extremo norte da ilha como o local onde os vikings aportaram.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s v\u00e1rias escava\u00e7\u00f5es que encontraram apenas vest\u00edgios ind\u00edgenas, em 1960 o casal de arque\u00f3logos noruegueses Helge e Anne Ingstad acharam o que parecia ser o contorno de pr\u00e9dios n\u00f3rdicos sob a grama, em L&#8217;Anse aux Meadows, uma vila de pescadores. O an\u00fancio da descoberta, no ano seguinte, foi recebido com ceticismo &#8211; mas um estudo mais aprofun-dado do local, nos anos 60 e 70, trouxe resultados surpreendentes. Em L&#8217;Anse aux Meadows havia, sim, uma vila n\u00f3rdica, constru\u00edda por volta do ano 1000, que foi habitada por n\u00e3o mais de 20 anos. O local n\u00e3o tinha os elementos de um povoamento definitivo, como cemit\u00e9rio ou igreja. Em vez disso foram encontrados forjas, serralherias e armaz\u00e9ns. A conclus\u00e3o: era o acampamento de Leif Ericsson. As sagas estavam certas. &#8220;As hist\u00f3rias sobre as viagens s\u00e3o muito rea-listas e nunca foram consideradas mitol\u00f3gicas&#8221;, afirma o historiador G\u00edsli Sigurdsson, da Universidade da Isl\u00e2ndia. &#8220;As sagas cont\u00eam mem\u00f3rias sobre personagens e eventos reais, apesar de que isso pode n\u00e3o ter ocorrido exatamente como contado.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Falta de adapta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A Saga de Eric, o Vermelho, deixa claro que a raz\u00e3o do abandono do acampamento eram os skraelings hostis. Mas isso n\u00e3o quer dizer que eles abandonaram a Am\u00e9rica completamente. &#8220;Temos ind\u00edcios que os n\u00f3rdicos da Groenl\u00e2ndia mantiveram contato com a Am\u00e9rica. Encontramos no povoamento ocidental fibras de pelo de bis\u00e3o e urso marrom, provavelmente da Am\u00e9rica, datados de depois de 1200&#8221;, diz a arque\u00f3loga Jette Arneborg, do Museu Nacional da Dinamarca. A coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica ocorreu no mesmo per\u00edodo em que os vikings deixavam de ser vikings. Um dos primeiros pr\u00e9dios constru\u00eddos na Groenl\u00e2ndia foi uma igreja &#8211; pela mulher crist\u00e3 de Eric. Antes de ir ao Canad\u00e1, Leif Ericsson havia se convertido e recebido a miss\u00e3o de converter a Groenl\u00e2ndia. Os n\u00f3rdicos foram absorvidos na diplomacia, pol\u00edtica e cultura europeia &#8211; houve at\u00e9 sagas em latim.<\/p>\n<p>Se os n\u00f3rdicos fugiram dos skraeling ao sul, logo tiveram de se entender com eles na Groenl\u00e2ndia &#8211; que, vale lembrar, \u00e9 parte da Am\u00e9rica. Os esquim\u00f3s modernos, ou inu\u00edtes, come\u00e7aram a se expandir a partir do Alasca perto do ano 1000. Por volta de 1200, estavam na Ilha de Ellesmere, e logo depois montaram acampamento na Groenl\u00e2ndia, ao norte de \u00e1reas habitadas por vikings. A rela\u00e7\u00e3o deve ter ido bem, ao menos no come\u00e7o: mais de 200 artefatos n\u00f3rdicos foram encontrados em ru\u00ednas inu\u00edtes, al\u00e9m de esculturas que parecem representar europeus. &#8220;Os dois grupos tiveram contato por s\u00e9culos. Mas viviam suas pr\u00f3prias vidas e se encontravam apenas em locais de com\u00e9rcio&#8221;, diz Gullov. O n\u00famero de artefatos inu\u00edtes em ru\u00ednas n\u00f3rdicas \u00e9 muito menor, o que parece mostrar que os n\u00f3rdicos exportavam tudo o que compravam dos inu\u00edtes &#8211; marfim de morsa e peles.<\/p>\n<p><strong>Colombo na Isl\u00e2ndia<\/strong><\/p>\n<div><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/orinoco\/media\/\/images\/small\/2017\/03\/04\/colombo-em-acao.jpg?w=640\" \/><br \/>\n<em>Uma vis\u00e3o romantizada do navegador genov\u00eas<\/em><\/div>\n<p>Segundo a biografia de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo escrita por seu filho Ferdinando, o pai visitou a Isl\u00e2ndia em 1477. Nem a biografia ou qualquer coisa que ele tenha dito indicam que ouviu falar das sagas, mas Ferdinando informa que Colombo ficou intrigado com a localiza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, mais a oeste do que os antigos mapas baseados em Ptolomeu sugeriam. O historiador Paolo Taviani (1912-2001) acreditava que Colombo ouviu hist\u00f3rias da coloniza\u00e7\u00e3o. De qualquer forma, morreu dizendo que havia chegado \u00e0 \u00c1sia &#8211; foi outro italiano, Am\u00e9rico Vesp\u00facio, quem primeiro afirmou que se tratava de outro continente, ap\u00f3s visitar a regi\u00e3o com portugueses e espanh\u00f3is. O cart\u00f3grafo alem\u00e3o Martin Waldseem\u00fcller trocou tudo e achou que Vesp\u00facio era o descobridor &#8211; batizando a Am\u00e9rica em homenagem ao navegador errado. De qualquer forma, Vesp\u00facio merece o cr\u00e9dito por ter sido o primeiro a entender o contexto das terras americanas &#8211; um continente, um Novo Mundo.<\/p>\n<p>Os n\u00f3rdicos continuaram na Groenl\u00e2ndia at\u00e9 o s\u00e9culo da descoberta de Colombo. Se Markland e Vinland eram terras mais habit\u00e1veis, havia raz\u00f5es econ\u00f4micas para permanecerem naquele ambiente hostil: o com\u00e9rcio de marfim de morsa e peles de foca e rena (ou caribu). Quando chegaram, a regi\u00e3o era 1\u00ba C mais quente que hoje, j\u00e1 que vivia-se o Per\u00edodo Quente Medieval. Eles trouxeram gado, cavalos, ovelhas e cabras, que alimentavam com a grama da tundra, no ver\u00e3o, ou feno, estocado para o inverno. Em anos bons, era poss\u00edvel plantar cevada e trigo, o que n\u00e3o durou muito. Em 1250, o livro noruegu\u00eas O Espelho Real descrevia a Groenl\u00e2ndia como &#8220;o lugar onde ningu\u00e9m nunca viu p\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O clima come\u00e7ou a esfriar no s\u00e9culo 13, na Pequena Era do Gelo, que duraria at\u00e9 o come\u00e7o do atual aquecimento, no s\u00e9culo 19. O legista Niels Lynnerup, da Universidade de Copenhague, estudou esqueletos n\u00f3rdicos encontrados na Groenl\u00e2ndia: &#8220;No come\u00e7o, eles tinham uma dieta diversificada, de gado e ovelhas. Mais tarde, dependiam de foca&#8221;. O frio n\u00e3o era o \u00fanico problema. Ap\u00f3s a Primeira Cruzada, em 1096, foram abertos caminhos para a \u00c1sia e a \u00c1frica, que permitiram a entrada de marfim de elefante na Europa. O marfim de morsa, bem menor, foi se tornando cada vez menos interessante. Em 1361, o bispo Ivar Bardson visitou as ru\u00ednas do povoamento ocidental, que chegou a abrigar 20% da popula\u00e7\u00e3o da Groenl\u00e2ndia (no auge, 5 mil pessoas). Ele culpou os skraeling &#8211; os inu\u00edtes, neste caso &#8211; pela destrui\u00e7\u00e3o. No fim, ningu\u00e9m mais ouviu falar de n\u00f3rdicos na ilha.<\/p>\n<p>Historiadores apontam o fim da coloniza\u00e7\u00e3o viking por volta de 1450 &#8211; se eles foram mortos ou incorporados pelos inu\u00edtes, ou simplesmente partiram, ainda \u00e9 um mist\u00e9rio. Segundo o historiador Thomas McGovern, da Universidade da Cidade de Nova York, eles desperdi\u00e7aram uma chance ao n\u00e3o copiar o estilo de vida dos inu\u00edtes, com tecnologias adequadas para o inverno e a neve. &#8220;Os groenlandeses decidiram evitar a inova\u00e7\u00e3o, enfatizar suas tradi\u00e7\u00f5es e morrer pelo que consideravam seus valores&#8221;, escreveu McGovern, em The Demise of Norse Greenland (O Fim da Groenl\u00e2ndia N\u00f3rdica).<\/p>\n<p><strong>O modo de vida dos n\u00f3rdicos<\/strong><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/orinoco\/media\/\/images\/small\/2017\/03\/04\/lanse-aux-meadows.jpg?w=640\" \/><br \/>\n<em>Reconstru\u00e7\u00e3o em L&#8217;Anse aux Meadows<\/em><\/p>\n<p>\u25ba\u00a0Objetos do cotidiano: n\u00e3o usavam chap\u00e9u com chifres nem bebiam em canecas feitas de caveira &#8211; mas canecas de chifre eram comuns. Seu drinque favorito era a cerveja &#8211; o vinho era visto como um produto de luxo vindo do sul. Eles usavam roupas de l\u00e3, adornadas com abotoaduras e joias decoradas com motivos animais. Entre seus passatempos favoritos estavam dados e xadrez, com pe\u00e7as de marfim de morsa. Do mesmo material, ou de osso, faziam instrumentos musicais, como flautas.<\/p>\n<p>\u25ba\u00a0Viking:\u00a0era uma profiss\u00e3o. O guerreiro que adentrava os mares em busca de aventuras e riquezas. \u00c0s vezes, nem usavam de viol\u00eancia, optando pelo com\u00e9rcio &#8211; de produtos do norte ou de coisas adquiridas&#8230; daquele jeito que fez sua fama. Os povos do norte chamavam a si pr\u00f3prios pelo nome do pa\u00eds: dinamarqueses, suecos, noruegueses. Neste caso, os primeiros colonizadores eram vikings. Os exploradores que continuaram na Groenl\u00e2ndia eram apenas noruegueses.<\/p>\n<p>\u25ba\u00a0As mulheres\u00a0desfrutavam de muito mais liberdade em rela\u00e7\u00e3o a outros povos europeus do per\u00edodo. Podiam ser donas de propriedade, como navios, e tinham a alternativa de pedir div\u00f3rcio.<\/p>\n<div><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/orinoco\/media\/\/images\/small\/2015\/04\/20\/vikings.jpg?w=640\" \/><\/div>\n<p>\u25ba\u00a0Homens do mar: as embarca\u00e7\u00f5es vikings tinham por volta de 20 m e uma tripula\u00e7\u00e3o de 40 pessoas, mas podiam ser maiores, com at\u00e9 32 m em alguns navios de propriedade real. Com vento de popa, podiam chegar a 15 n\u00f3s (27 km\/h) de velocidade &#8211; o dobro da velocidade de uma caravela da \u00e9poca de Colombo. Sua constru\u00e7\u00e3o simples deixava um bom espa\u00e7o para carga. As desvantagens ficavam por conta da prec\u00e1ria navega\u00e7\u00e3o: eles n\u00e3o tinham mapas ou b\u00fassolas, usavam apenas o Sol, estrelas e pontos de refer\u00eancia para se guiar. Bastava um nevoeiro para ficarem perdidos &#8211; o que, como vimos, \u00e0s vezes se transformava em vantagem. Os barcos vikings usavam cascos trincados &#8211; cada t\u00e1bua era presa \u00e0s t\u00e1buas adjacentes, diferente de uma caravela, em que as t\u00e1buas s\u00e3o paralelas e presas ao esqueleto. Elas, assim, se tornavam parte da estrutura de sustenta\u00e7\u00e3o, dispensando um esqueleto pesado &#8211; era a raz\u00e3o de sua grande velocidade e maior capacidade de carga. Antes do uso do velame triangular das caravelas, remar era a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o quando o vento era contr\u00e1rio. Os remadores costumavam ser poupados se o plano era atacar &#8211; n\u00e3o adiantaria nada ter um ex\u00e9rcito exausto. Como os demais europeus medievais, os n\u00f3rdicos achavam que o mundo era um c\u00edrculo com centro em Jerusal\u00e9m, cercado por oceanos cheios de monstros. Sem aceitar que havia um novo continente, acreditavam que a Groenl\u00e2ndia era uma pen\u00ednsula da Europa, e Vinland, uma pen\u00ednsula sa\u00edda da \u00c1frica.<\/p>\n<p>\u25ba\u00a0As sagas: s\u00e3o relatos \u00e9picos em prosa, presentes nas culturas n\u00f3rdica e germ\u00e2nica, sobre as viagens dos vikings ou outras aventuras. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a maioria foi escrita por padres, a classe alfabetizada, l\u00e1 como no resto da Europa. Eles se baseavam na tradi\u00e7\u00e3o oral pag\u00e3.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/orinoco\/media\/\/images\/small\/2017\/03\/04\/aldeia-inuite.jpg?w=640\" \/><\/p>\n<p>\u25ba\u00a0Os inu\u00edtes: tamb\u00e9m conhecidos como esquim\u00f3s (alguns deles odeiam o nome, outros aceitam), s\u00e3o um povo do Canad\u00e1, Alasca e Groenl\u00e2ndia, origin\u00e1rio da Sib\u00e9ria (R\u00fassia). Extrem\u00f3filos humanos, t\u00eam uma dieta praticamente carn\u00edvora e s\u00e3o considerados a cultura tradicional mais bem-adaptada ao frio. Apesar dos relatos de hostilidade, as rela\u00e7\u00f5es entre eles e os vikings parecem ter sido principalmente amig\u00e1veis &#8211; eles se interessavam pelos objetos dos europeus e os retrataram em esculturas. Os europeus parecem ter sido indiferentes e s\u00f3 se interessado em comprar peles deles. Quando foram contactados novamente, durante as Grandes Navega\u00e7\u00f5es, segundo os relatos da \u00e9poca, trataram os europeus com familiaridade.<\/p>\n<p>http:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/civilizacoes\/nao-foi-colombo.phtml#.WN7wUjvyvDe<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabio Marton &#8211; Os vikings foram os primeiros europeus a pisar no continente. O mist\u00e9rio \u00e9 como e por que eles o abandonaram. Ap\u00f3s semanas perdidos no Atl\u00e2ntico, Bjarni Herj\u00f3lfsson e sua tripula\u00e7\u00e3o desembarcaram na Groenl\u00e2ndia, aos trapos. Ele procurava pelos pais, que haviam embarcado com Eric, o Vermelho, para colonizar a ilha. 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