{"id":3394,"date":"2017-04-02T12:11:54","date_gmt":"2017-04-02T15:11:54","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3394"},"modified":"2017-03-30T21:24:48","modified_gmt":"2017-03-31T00:24:48","slug":"o-paradoxo-da-suecia-um-paraiso-da-igualdade-com-uma-enorme-taxa-de-violencia-machista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/04\/02\/o-paradoxo-da-suecia-um-paraiso-da-igualdade-com-uma-enorme-taxa-de-violencia-machista\/","title":{"rendered":"O paradoxo da Su\u00e9cia, um para\u00edso da igualdade com uma enorme taxa de viol\u00eancia machista"},"content":{"rendered":"<p><strong>Silvia Blanco<\/strong> &#8211; A luta pela igualdade se estende por escolas, lares e empresas de um pa\u00eds com uma das maiores taxas de viol\u00eancia contra a mulher da Uni\u00e3o Europeia<\/p>\n<p>S\u00e3o cerca de 15h e Linus Lindberg, advogado de 33 anos, j\u00e1 fez todas as tarefas: arrumou a casa, brincou com o filho Henri, de 13 meses, o alimentou e lavou a lou\u00e7a. Em seguida, ir\u00e1 fazer compras e preparar o jantar para ele e sua parceira, uma psiquiatra de 35 anos que chega \u00e0s 18h em casa. O apartamento que dividem, em um bairro tranquilo de edif\u00edcios e parques nos arredores de Estocolmo, \u00e9 limpado pelos dois. Ela estava de licen\u00e7a nos primeiros meses. Ele terminou um est\u00e1gio pago de dois anos e agora, durante seis meses, passa o dia com o menino e recebe do Estado uma ajuda proporcional \u00e0 sua renda. \u201cDividir nosso tempo com Henri \u00e9 a \u00fanica op\u00e7\u00e3o que contemplamos. Seria muito estranho que somente ela ficasse em casa\u201d, diz Lindberg enquanto segura o beb\u00ea.<\/p>\n<p>Na Su\u00e9cia, as licen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o de maternidade ou de paternidade. S\u00e3o parentais: 480 dias para distribuir de forma flex\u00edvel entre ambos, dos quais 90 s\u00e3o exclusivos para a m\u00e3e, e muitos outros, para o pai. Se um dos dois n\u00e3o usar os dias, ir\u00e1 perd\u00ea-los. \u00c9 a forma adotada pelo pa\u00eds para garantir que o cuidado dos filhos n\u00e3o recaia apenas sobre elas, e \u00e9 uma das medidas que mostram por que a Su\u00e9cia \u00e9 um dos pa\u00edses mais igualit\u00e1rios do mundo.<\/p>\n<p>Aqui as pol\u00edticas para corrigir as desigualdades de g\u00eanero n\u00e3o dependem da vontade de um Governo mais ou menos progressista nem s\u00e3o um acess\u00f3rio do Estado de bem-estar, e sim uma parte estrat\u00e9gica da sua constru\u00e7\u00e3o ao longo de d\u00e9cadas. A consci\u00eancia de g\u00eanero est\u00e1 incorporada em s\u00edmbolos do poder pol\u00edtico \u2014 o Executivo, composto por social-democratas e verdes, se define como feminista \u2014 e permeia empresas, escolas e lares. H\u00e1, no entanto, um buraco negro: os altos \u00edndices de viol\u00eancia machista.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489074838_sumario_normal.jpg?resize=640%2C364\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489074838_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489074838_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489074838_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"feminismo Su\u00e9cia\" width=\"640\" height=\"364\" \/><em><span class=\"foto-texto\">Amanda Lundeteg, que produz a lista negra de empresas cotadas na Bolsa e que n\u00e3o t\u00eam mulheres em sua diretoria ou conselho.<\/span>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>James Pearse, de 41 anos, n\u00e3o conhece nenhum pai que n\u00e3o tenha tirado a licen\u00e7a por quest\u00f5es de trabalho ou por medo do que sua empresa pudesse pensar. \u201cSe voc\u00ea andar pela rua qualquer segunda-feira de manh\u00e3, ver\u00e1 muitos homens com crian\u00e7as\u201d, diz. Ele \u00e9 brit\u00e2nico, tem um neg\u00f3cio de publicidade e trabalha fora de casa dois dias por semana. O resto do tempo cuida de Dylan, de 1 ano e meio, e de Lily, de 5. \u201cNeste pa\u00eds, a <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/familia\/a\">fam\u00edlia<\/a> \u00e9 sempre mais importante que o trabalho\u201d, diz em uma entrevista no bairro onde mora com sua parceira, Jessica Engstrom, de 39 anos. Ela tamb\u00e9m \u00e9 publicit\u00e1ria e afirma que nas grandes empresas suecas, como o banco para o qual trabalha, h\u00e1 incentivos para que os funcion\u00e1rios cuidem dos filhos. \u201cCompletam a ajuda do Estado com mais 10% quando voc\u00ea est\u00e1 de licen\u00e7a. Assim, voc\u00ea recebe 90% do sal\u00e1rio\u201d, explica.<\/p>\n<section id=\"sumario_7|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Na Su\u00e9cia, o Governo \u00e9 parit\u00e1rio e 44% do parlamento s\u00e3o formados por mulheres. O pa\u00eds tem a taxa mais alta de emprego de mulheres e uma arcebispa como primaz<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Apesar do sistema sueco fazer com que os homens compartilhem a cria\u00e7\u00e3o, ainda s\u00e3o as <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/mujeres\/a\">mulheres<\/a> que utilizam 74% dos dias de licen\u00e7a contra 26% dos utilizados pelos homens. Por isso o Governo introduziu em 2016 a medida corretiva dos 90 dias intransfer\u00edveis, ao inv\u00e9s dos 60 de anos anteriores. \u201cEm um mundo ideal\u201d, diz James, \u201ceu pegaria os mesmos dias que Jessica, mas sendo aut\u00f4nomo, se pego um ano inteiro, perderia meus clientes\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPreciso de um m\u00ednimo de contato com eles\u201d, conta. N\u00e3o \u00e9 perfeito, mas \u00e9 melhor do que, por exemplo, na <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/espana\/a\">Espanha<\/a>, onde morou um tempo. Neste pa\u00eds os pais at\u00e9 ent\u00e3o tinham duas semanas, quatro a partir de 2017; na Su\u00e9cia o conceito foi introduzido em 1974. \u201cA diferen\u00e7a \u00e9 como noite e dia!\u201d, exclama ela. James compara a situa\u00e7\u00e3o com o <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/reino_unido\/a\">Reino Unido<\/a>, onde se ausentar em uma reuni\u00e3o porque o filho est\u00e1 doente e tirar o resto do dia para tomar conta dele ainda \u00e9 estranho. Para os suecos \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078233_sumario_normal.jpg?resize=640%2C386\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078233_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078233_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078233_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"feminismo Su\u00e9cia\" width=\"640\" height=\"386\" \/><em>Jessica cuida de seu filho Dylan<\/em><\/p>\n<p>Depois da Finl\u00e2ndia, a Su\u00e9cia \u00e9 o pa\u00eds mais igualit\u00e1rio da UE e o quarto do mundo ap\u00f3s a Isl\u00e2ndia, a Finl\u00e2ndia e a Noruega, de acordo com a classifica\u00e7\u00e3o anual do Foro Econ\u00f4mico Mundial. Se 1 \u00e9 a igualdade te\u00f3rica social, a Su\u00e9cia est\u00e1 no 0,81 \u2013 a Espanha, por exemplo, est\u00e1 na 29\u00b0 coloca\u00e7\u00e3o do ranking, com 0,73 \u2013. O Executivo \u00e9 parit\u00e1rio, e 44% do Parlamento, feminino. O pa\u00eds n\u00f3rdico possui a mais alta taxa de emprego de mulheres da UE (78%) e at\u00e9 a Igreja sueca (luterana) tem uma mulher como primaz, a arcebispa de Uppsala.<\/p>\n<p>Mas esses dados convivem com outro preocupante: a Su\u00e9cia registra um dos maiores n\u00edveis de viol\u00eancia de g\u00eanero da UE. \u00c9 o que os pesquisadores espanh\u00f3is, o psic\u00f3logo social da Universidade de Val\u00eancia, Enrique Gracia e o epidemiologista da Universidade de Lund Juan Merlo, chamam de paradoxo n\u00f3rdico. Em um trabalho publicado em mar\u00e7o na revista <em>Social Science and Medicine<\/em>, utilizam como base uma pesquisa europeia sobre viol\u00eancia machista de 2014, na qual a Dinamarca, a Finl\u00e2ndia e a Su\u00e9cia lideram a porcentagem de agress\u00f5es (f\u00edsicas e sexuais) a mulheres dentro da rela\u00e7\u00e3o, muito acima da m\u00e9dia europeia. Essa pesquisa \u00e9 a primeira a oferecer dados compar\u00e1veis no \u00e2mbito europeu, ao utilizar a mesma metodologia e as mesmas perguntas, muito espec\u00edficas, em todos os pa\u00edses.<\/p>\n<p>Asa Regn\u00e9r, de 52 anos, ministra da Igualdade, admite que, apesar da consci\u00eancia social e as medidas corretivas realizadas pelo Estado sueco durante muito tempo, a viol\u00eancia contra as mulheres continua sendo uma m\u00e1cula. \u201cN\u00e3o somos um para\u00edso e n\u00e3o alcan\u00e7amos a igualdade\u201d, afirma em espanhol que aprendeu na Bol\u00edvia, onde foi diretora da ONU Mulheres, o \u00f3rg\u00e3o da ONU que trabalha pela equidade das mulheres. \u201cOs n\u00edveis de agress\u00e3o n\u00e3o ca\u00edram na \u00faltima d\u00e9cada. Em sua express\u00e3o mais extrema, os assassinatos, os n\u00fameros est\u00e3o baixando, mas temos 13 mortes por ano em um pa\u00eds de 10 milh\u00f5es de habitantes\u201d. Na Espanha, com uma popula\u00e7\u00e3o de 46,5 milh\u00f5es, 44 mulheres foram assassinadas em 2016.<\/p>\n<p>A ministra da Igualdade descarta que essa viol\u00eancia esteja relacionada com fatores culturais e com a s\u00f3lida tradi\u00e7\u00e3o de acolhida da Su\u00e9cia, onde 20% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 de origem imigrante. \u201c\u00c9 preciso dizer que os n\u00edveis de igualdade que temos foram atingidos com todas as pessoas que vivem aqui\u201d.<\/p>\n<p>Os pesquisadores prop\u00f5em v\u00e1rias linhas de trabalho para compreender o que ocorre. A primeira hip\u00f3tese \u00e9 que nos pa\u00edses n\u00f3rdicos as mulheres conseguiram mais poder e isso suscitaria uma rea\u00e7\u00e3o violenta do mundo mais r\u00edgido e machista. A segunda seria que nesses pa\u00edses se denuncia mais, mas isso, se estiver correto, n\u00e3o quebra o paradoxo. Outra possibilidade est\u00e1 relacionada com um fator de risco que os n\u00f3rdicos possuem, e consiste em um padr\u00e3o de consumo de \u00e1lcool diferente do de outras regi\u00f5es. \u201cN\u00e3o temos resposta, \u00e9 preciso pesquisar\u201d, afirma Gracia.<\/p>\n<p>Asa Regn\u00e9r acredita que uma das ferramentas mais efetivas para se combater a viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 a pedagogia. \u201cApresentamos uma estrat\u00e9gia muito focada na preven\u00e7\u00e3o, sobretudo para trabalhar com os homens jovens, dialogando com eles sobre alternativas \u00e0 viol\u00eancia\u201d, explica. Tamb\u00e9m acabam de iniciar programas de educa\u00e7\u00e3o na igualdade que incluem os cerca de 200.000 refugiados rec\u00e9m-chegados \u00e0 Su\u00e9cia.<\/p>\n<p>O combate contra o sexismo impregna a vida cotidiana dos suecos, da escola \u00e0s empresas. \u00c9 uma sociedade onde surgem debates como o do <em>mansplaining<\/em>, a situa\u00e7\u00e3o em que um homem d\u00e1 explica\u00e7\u00f5es condescendentes e n\u00e3o solicitadas a uma mulher, frequentemente sobre assuntos nos quais ela \u00e9 especialista. A ideia de montar uma linha de telefone para denunciar essa pr\u00e1tica nos escrit\u00f3rios, mesmo tendo durado somente uma semana em novembro, \u00e9 um exemplo do n\u00edvel de reflex\u00e3o sobre g\u00eanero dos suecos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078599_sumario_normal.jpg?resize=640%2C426\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078599_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078599_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078599_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"feminismo Su\u00e9cia\" width=\"640\" height=\"426\" \/><em><span class=\"foto-texto\">Duas crian\u00e7as pintam em uma escola<\/span><\/em><\/p>\n<p>O projeto partiu de um dos principais sindicatos do pa\u00eds, o Unionen. Cristina Knight, uma publicit\u00e1ria especializada no tema, respondeu a dezenas de chamadas em tr\u00eas dias. \u201cMuitas mulheres estavam agradecidas por se falar desse tema. Ficaram aliviadas em saber que o <em>mansplaining<\/em> que sofreram diversas vezes n\u00e3o eram imagina\u00e7\u00f5es e paranoias suas; tamb\u00e9m aconteceu com outras\u201d, conta. Por exemplo, lembra de uma mulher na casa dos trinta anos que dizia se sentir anulada por seus chefes porque n\u00e3o a escutavam. Se tentava expressar suas iniciativas, a neutralizavam dando-lhe explica\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias, ou dizendo que se acalmasse. \u201cMeu conselho foi que n\u00e3o abordasse o assunto em grupo, mas indo em um por um para contar-lhes como se sentia\u201d, explica Knight.<\/p>\n<section id=\"sumario_8|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">A ministra da Igualdade admite que um aspecto n\u00e3o tem melhorado: a viol\u00eancia contra as mulheres. \u201cAs agress\u00f5es n\u00e3o diminu\u00edram na \u00faltima d\u00e9cada\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Mas nem tudo foi t\u00e3o construtivo nessa experi\u00eancia telef\u00f4nica. O respons\u00e1vel de pol\u00edticas de g\u00eanero do sindicato, Peter Tai Christensen, afirma que, nas tr\u00eas primeiras horas de chamadas, todas as que atendeu foram masculinas: \u201cAlguns estavam bravos com a campanha. Ocorreu uma esp\u00e9cie de ataque organizado contra a linha\u201d, conta. \u201cOutros diziam que a igualdade j\u00e1 havia sido conquistada, que j\u00e1 n\u00e3o era preciso falar sobre o assunto, e v\u00e1rios nos criticaram porque diziam que existiam problemas mais importantes\u201d. A campanha do sindicato se completou com hist\u00f3rias em quadrinhos nas <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/redes_sociales\/a\">redes sociais<\/a>.<\/p>\n<p>Entre o cat\u00e1logo de situa\u00e7\u00f5es, est\u00e1 a chamada <em>Voc\u00ea deve ser a ajudante<\/em> \u2013 um homem confunde uma mulher com a faxineira, apesar dela ser a respons\u00e1vel pela confer\u00eancia que est\u00e1 prestes a come\u00e7ar \u2013. \u201cO sexismo se tornou mais sutil, e o humor \u00e9 uma forma de ajudar a reconhecer os mecanismos que utiliza\u201d, explica Christensen. \u201cN\u00f3s nos inspiramos em experi\u00eancias pessoais\u201d, acrescenta a roteirista Ana Werkell, de 29 anos. \u201cQuer\u00edamos frisar como as mulheres s\u00e3o tratadas de um modo diferente no trabalho. \u00c9 algo estrutural\u201d, conta.<\/p>\n<p>Em outro lado da cidade, a sede da funda\u00e7\u00e3o Albright fica em um edif\u00edcio luxuoso, com janelas enormes dando vista para o mar. Sua diretora, Amanda Lundeteg, de 32 anos, explica que come\u00e7ou a se dar conta da diferen\u00e7a de tratamento entre os g\u00eaneros quando estudava economia, e decidiu fazer alguma coisa em rela\u00e7\u00e3o a isso. Algo pol\u00eamico e provocador. Com sua pequena equipe, ela se dedica hoje a produzir uma lista negra anual. Dela constam as empresas com presen\u00e7a na Bolsa que n\u00e3o possuem mulheres em sua diretoria ou conselho de administra\u00e7\u00e3o. Figurar nesta lista n\u00e3o \u00e9 nada confort\u00e1vel na Su\u00e9cia. \u201cAs empresas sentem claramente a press\u00e3o\u201d, diz ela. \u201cVamos \u00e0s universidades e dizemos aos estudantes: \u2018vejam s\u00f3, estas s\u00e3o as empresas nas quais voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o querer trabalhar\u2019. Isso irrita os empres\u00e1rios, que nos chamam para tentar nos convencer a tir\u00e1-los da lista pois investem muito dinheiro na sua promo\u00e7\u00e3o como empregadores. Iniciamos h\u00e1 cinco anos com 100 empresas na lista negra e agora s\u00e3o 77, dentro de um grupo bem maior de empresas analisadas\u201d, explica. No pa\u00eds, 20% das diretorias e 32% dos conselhos de administra\u00e7\u00e3o de empresas incluem mulheres. \u201cNesse ritmo, n\u00e3o haver\u00e1 paridade nos cargos executivos at\u00e9 2040. Mas na <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/alemania\/a\">Alemanha<\/a>, por exemplo, onde acabamos de abrir uma filial, as mulheres est\u00e3o em apenas 6%. A Su\u00e9cia est\u00e1 10 anos \u00e0 frente\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O Governo sueco prop\u00f4s um sistema de cotas para equilibrar essa divis\u00e3o de poder dentro das empresas presentes na Bolsa. Em meados de janeiro, por\u00e9m, ele sofreu uma derrota no Parlamento, e teve de retirar a proposta. O objetivo era chegar a 40% de presen\u00e7a feminina at\u00e9 2019 no caso das diretorias at\u00e9 2019, mas, caso isso fosse atingido, n\u00e3o se poderia impor o mesmo por lei. Esta \u00e9 uma das quest\u00f5es colocadas pela ministra da Igualdade, Asa Regn\u00e9r. \u201dA experi\u00eancia sueca com a quest\u00e3o da igualdade de g\u00eanero \u00e9 que \u00e9 preciso tomar decis\u00f5es pol\u00edticas. As coisas n\u00e3o mudam por si s\u00f3s\u201d, afirma.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078730_sumario_normal.jpg?resize=640%2C426\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078730_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078730_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489078730_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"feminismo Su\u00e9cia\" width=\"640\" height=\"426\" \/><em><span class=\"foto-texto\">Asa Regn\u00e9r, 52 anos, ministra da Igualdade da Su\u00e9cia. Regn\u00e9r afirma que, para diminuir a desigualdade entre g\u00eaneros, \u00e9 preciso adotar medidas pol\u00edticas: \u201cAs coisas n\u00e3o mudam por si s\u00f3s\u201d<\/span><\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o tr\u00eas da tarde, e v\u00e1rios pais aguardam a sa\u00edda de seus filhos na escola infantil Egalia, no bairro de lojas de design e restaurantes <em>cool<\/em> do distrito de S\u00f6dermalm, localizado em uma das ilhas que comp\u00f5em Estocolmo. A escola, voltada para crian\u00e7as entre um e seis anos de idade, \u00e9 conhecida como uma institui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero neutro, uma experi\u00eancia ainda minorit\u00e1ria at\u00e9 mesmo na Su\u00e9cia. Ela \u00e9 p\u00fablica \u2013bancada pela prefeitura, mas com os pais contribuindo tamb\u00e9m com cerca de 100 euros (320 reais), incluindo alimenta\u00e7\u00e3o&#8211;, e nela s\u00e3o refor\u00e7ados \u2013de forma exagerada, na vis\u00e3o de algumas pessoas\u2014os princ\u00edpios de igualdade ensinados normalmente em todas as escolas. Na Egalia, os bonecos n\u00e3o t\u00eam sexo. S\u00e3o de pano, brancos e negros, e seus rostos t\u00eam express\u00e3o de sorriso, choro ou raiva, para que se trabalhem as emo\u00e7\u00f5es. Em uma outra sala, h\u00e1 um p\u00f4ster mostrando diferentes grupos familiares: alguns t\u00eam dois pais ou duas m\u00e3es, outro tem uma m\u00e3e e um filho; outro tem um pai, uma m\u00e3e e dois beb\u00eas&#8230; O que se pretende com esse cartaz \u00e9 falar em termos de fam\u00edlias, e n\u00e3o de pais e m\u00e3es. <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/05\/13\/internacional\/1463152693_471444.html\">Os banheiros n\u00e3o t\u00eam portas<\/a>, e s\u00e3o de uso misto. A diretoria, Lotta Rajalin, 58 anos, finlandesa, come\u00e7ou essa experi\u00eancia em 1998. \u201cN\u00e3o trabalhamos apenas a quest\u00e3o dos g\u00eaneros\u201d, explica ela, na sala de reuni\u00f5es. \u201cInclu\u00edmos todos os valores democr\u00e1ticos. As pe\u00e7as de Lego que utilizamos t\u00eam velhos, jovens, pessoas de diferentes etnias, com diferentes habilidades\u201d, conta.<\/p>\n<p>Os professores v\u00eam de diversos pa\u00edses, t\u00eam idades muito diferentes entre si e tamb\u00e9m existem muitos homens cumprindo a fun\u00e7\u00e3o de cuidador, o que n\u00e3o \u00e9 comum nesse ciclo no restante do pa\u00eds. Para se referir aos alunos, usam-se palavras que incluem todos eles \u2013grupo, por exemplo\u2014ou o g\u00eanero neutro em termos lingu\u00edsticos \u2013em sueco, se usa o pronome <em>hen<\/em>\u2014em vez do masculino ou do feminino. \u201cMas as crian\u00e7as podem usar o pronome que quiser\u201d, relativiza Rajalin. Um dos princ\u00edpios da Egalia \u00e9 n\u00e3o atribuir caracter\u00edsticas determinadas para meninas ou meninos pelo simples fato de ser uma coisa ou outra. Quando se pergunta a Rajalin o que significa essa quest\u00e3o de g\u00eanero neutro para al\u00e9m da linguagem, ela responde com firmeza: \u201cN\u00f3s n\u00e3o a chamamos desse jeito. As pessoas interpretam equivocadamente o nosso trabalho. Nesta escola, n\u00f3s trabalhamos com o g\u00eanero cultural, contra os estere\u00f3tipos\u201d. O m\u00e9todo foi criticado por aqueles que acreditam que esse tipo de abordagem confunde as crian\u00e7as. Rajalin pega um papel com um c\u00edrculo dividido ao meio. Do lado esquerdo dele, est\u00e3o adjetivos e substantivos que costumam ser associados \u00e0s mulheres: joias, <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/11\/18\/ciencia\/1416328918_518343.html\">a cor rosa<\/a>, sensibilidade, bonitas. \u00c0 direita, os para eles: roupa confort\u00e1vel, fortes, valentes, tecnologia. \u201cO que n\u00f3s fazemos nesta escola \u00e9 apagar a linha do meio, essa que divide o c\u00edrculo\u201d, explica.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489079031_sumario_normal.jpg?resize=640%2C366\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489079031_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489079031_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079_1489079031_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"feminismo Su\u00e9cia\" width=\"640\" height=\"366\" \/><em><span class=\"foto-texto\">Os bonecos sem g\u00eanero da escola infantil Egalia, em Estocolmo<\/span><\/em><\/p>\n<p>\u00c0 sa\u00edda, os pais aguardam. Como Mikael, de 24 anos. Ele \u00e9 estudante de medicina e dentro de um m\u00eas substituir\u00e1 sua mulher na licen\u00e7a-maternidade\/paternidade. \u201cA igualdade \u00e9 importante para n\u00f3s. Ela reflete a nossa mentalidade e os papeis de cada um, e queremos come\u00e7ar logo\u201d, explica. Outra m\u00e3e, Kristine, de 42 anos, agente policial, conta que toda manh\u00e3 faz um percurso de 30 minutos para trazer seu filho de dois anos. \u201c\u00c9 uma escolha. N\u00e3o \u00e9 a creche mais pr\u00f3xima\u201d, afirma. Aqui existe diversidade e <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ninos\/a\">crian\u00e7as<\/a> com fam\u00edlias de v\u00e1rios tipos. \u201cO meu tem duas m\u00e3es, e o mundo de hoje \u00e9 assim\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/03\/09\/eps\/1489066869_454079.html?rel=mas<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Silvia Blanco &#8211; A luta pela igualdade se estende por escolas, lares e empresas de um pa\u00eds com uma das maiores taxas de viol\u00eancia contra a mulher da Uni\u00e3o Europeia S\u00e3o cerca de 15h e Linus Lindberg, advogado de 33 anos, j\u00e1 fez todas as tarefas: arrumou a casa, brincou com o filho Henri, de 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