{"id":3252,"date":"2017-03-15T09:07:45","date_gmt":"2017-03-15T12:07:45","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3252"},"modified":"2017-03-10T10:09:56","modified_gmt":"2017-03-10T13:09:56","slug":"do-subdesenvolvimentismo-da-burguesia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/03\/15\/do-subdesenvolvimentismo-da-burguesia-brasileira\/","title":{"rendered":"Do subdesenvolvimentismo da burguesia brasileira"},"content":{"rendered":"<p><strong>Igor Fuser &#8211;\u00a0<\/strong>Onze meses ap\u00f3s o golpe, pa\u00eds afundou em recess\u00e3o e retrocessos. N\u00e3o se v\u00ea, entre as elites, o menor arrependimento ou inten\u00e7\u00e3o de alterar o rumo. Por que?<\/p>\n<div>\n<p>O golpe de estado de 17 de abril de 2016 atropelou as ilus\u00f5es de quem acreditava nas virtudes infinitas da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes \u2013 a ideia de que seria poss\u00edvel superar o apartheid social e o subdesenvolvimento no Brasil sem confronto com as elites dominantes, mas apenas por meio do crescimento da economia. No p\u00f3s-golpe, essas mesmas elites demonstram plena convic\u00e7\u00e3o de que agiram corretamente, em defesa dos seus interesses.<\/p>\n<p>Tal como ocorreu em trag\u00e9dias hist\u00f3ricas anteriores, como o golpe de 1964, o campo progressista discutir\u00e1 ainda por muito tempo os fatores e as circunst\u00e2ncias da derrubada de Dilma Rousseff, a come\u00e7ar pelos motivos da espantosa passividade das camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, as mais beneficiadas pelos governos liderados pelo PT.<\/p>\n<p>Outro tra\u00e7o marcante no golpe de 2016 \u2013 tema da presente coluna \u2013 \u00e9 o alto grau de coes\u00e3o que as classes dominantes demonstraram na agressiva ofensiva contra o governo leg\u00edtimo.<\/p>\n<p>Com a \u00f3bvia exce\u00e7\u00e3o dos empreiteiros da engenharia pesada, enrolados na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato (que claramente inclui entre seus objetivos a destrui\u00e7\u00e3o desse setor estrat\u00e9gico da economia nacional), o que se viu na mobiliza\u00e7\u00e3o golpista foi um verdadeiro quem-\u00e9-quem da burguesia brasileira.<\/p>\n<p>L\u00e1 estavam, unidos pelo \u201cfora Dilma\u201d, os banqueiros, os bar\u00f5es do agroneg\u00f3cio, os magnatas da m\u00eddia, os caciques da ind\u00fastria brasileira remanescente, a fina flor do \u201cPIB\u201d nacional de m\u00e3os dadas com os grupelhos fascistas, os pol\u00edticos picaretas e os pit bulls do Judici\u00e1rio. N\u00e3o faltou nem mesmo a rede de lanchonetes Habib\u2019s, hoje tristemente famosa pela morte de um menino numa de suas lojas, que deu um desconto especial aos clientes que comparecessem aos atos pr\u00f3-impeachment.<\/p>\n<p>Na vanguarda, para eliminar eventuais d\u00favidas sobre os interesses de classe em jogo, marchava o pat\u00e9tico pato da Fiesp. Justamente a Fiesp, aquela mesma entidade que, tradicionalmente, \u00e9 vista como principal porta-voz de uma burguesia brasileira, \u201cinterna\u201d como dizem alguns te\u00f3ricos. Por esse termo se costuma designar um segmento da classe dominante supostamente aut\u00f4nomo e portador de interesses pr\u00f3prios, contradit\u00f3rios (dizem) com as prefer\u00eancias do imperialismo estadunidense e dos seus aliados no pa\u00eds.<\/p>\n<p>De acordo com essa teoria, que n\u00e3o se confunde com a f\u00e9 ing\u00eanua da c\u00fapula ex-governista na concilia\u00e7\u00e3o de classes, as gest\u00f5es presidenciais de Lula e Dilma seriam a express\u00e3o pol\u00edtica de uma \u201cfrente neodesenvolvimentista\u201d, articulada em torno de uma \u201cgrande burguesia interna\u201d que estaria gerindo o pa\u00eds em alian\u00e7a com a classe trabalhadora e em conflito com uma chamada \u201cburguesia associada\u201d, neoliberal e pr\u00f3-imperialista.<\/p>\n<p>Enquanto o primeiro grupo burgu\u00eas teria o foco dos seus interesses voltado para o mercado interno e a expans\u00e3o produtiva, o segundo grupo agiria a servi\u00e7o dos interesses externos, do bloqueio a qualquer tipo de desenvolvimento aut\u00f4nomo.<\/p>\n<p>A \u201cgrande burguesia interna\u201d incluiria os maiores grupos econ\u00f4micos de capital nacional em todas as \u00e1reas, desde o agroneg\u00f3cio at\u00e9 empresas financeiras como o Bradesco e o Ita\u00fa, gigantes empresariais como a JBS Friboi, a Votorantim, a Ambev, a Gerdau e a Vale, os grandes grupos de ensino e sa\u00fade privados, al\u00e9m, \u00e9 claro, dos colossos da constru\u00e7\u00e3o civil \u2013 Odebrecht &amp; cia.<\/p>\n<p>Essas e outras empresas, favorecidas com linhas de cr\u00e9dito e todo tipo de apoio oficial, amealharam, de fato, lucros fabulosos no ciclo de governos progressistas. Por\u00e9m em momento algum mostraram qualquer compromisso ou apoio ativo ao projeto pol\u00edtico liderado pelo PT. Aceitaram todas as benesses, pressionaram (em geral, com sucesso) por vantagens setoriais aqui e ali. Mas no campo pol\u00edtico se limitaram, nos melhores casos, a tolerar os governos \u201cde esquerda\u201d como uma extravag\u00e2ncia tempor\u00e1ria numa trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de cinco s\u00e9culos de poder irrestrito da elite dominante.<\/p>\n<p>Houve quem encarasse essa postura pragm\u00e1tica como express\u00e3o de uma s\u00f3lida alian\u00e7a de classes, o que explicaria a relativa estabilidade pol\u00edtica naquele per\u00edodo, apesar da permanente campanha midi\u00e1tica anti-PT e anti-governo.<\/p>\n<p>Quando surgiu a oportunidade, a burguesia agiu em bloco para golpear a democracia. Se algu\u00e9m ainda tem alguma d\u00favida, recomendo que leia a\u00a0<a href=\"http:\/\/apublica.org\/2016\/08\/como-as-federacoes-empresariais-se-articularam-pelo-impeachment\/\">bela reportagem<\/a>\u00a0da jornalista Aline Maciel, da\u00a0<em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em>, sobre o envolvimento ativo das entidades representativas da ind\u00fastria brasileira, em n\u00edvel nacional e nos estados mais importantes, para pressionar os parlamentares indecisos nas v\u00e9speras da vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados (25\/08\/2016).<\/p>\n<p>Muita coisa aconteceu nos onze meses que se passaram depois daquele dia de inf\u00e2mia. Ministros do desgoverno golpista ca\u00edram e foram trocados em meio a den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o.\u00a0Um deles chegou a comparar o n\u00facleo do poder pol\u00edtico em Bras\u00edlia a uma suruba.\u00a0A\u00a0economia mergulhou de vez na recess\u00e3o.\u00a0A\u00a0soberania nacional est\u00e1 sendo desmantelada e a imensa riqueza do pr\u00e9-sal entregue de bandeja \u00e0s empresas estrangeiras.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se verifica no seio da burguesia brasileira o menor sinal de arrependimento, a menor inten\u00e7\u00e3o de alterar o rumo do retrocesso em curso. Algu\u00e9m ousaria, nesse cen\u00e1rio, profetizar a reconstitui\u00e7\u00e3o da \u201cfrente neodesenvolvimentista\u201d? Dif\u00edcil.<\/p>\n<p>De concreto, o que se v\u00ea nos meios empresariais, al\u00e9m do entusiasmo pela destrui\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas, pelo desmonte da previd\u00eancia p\u00fablica e pelo congelamento dos investimentos sociais, s\u00e3o, no m\u00e1ximo, queixas pontuais, sem maior relev\u00e2ncia no cen\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A mesma Fiesp que liderou as multid\u00f5es de verde-amarelo na Avenida Paulista agora reclama do desmonte das pol\u00edticas de \u201cconte\u00fado local\u201d na explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal. Mas sua insatisfa\u00e7\u00e3o fica por a\u00ed mesmo, sem qualquer desdobramento pr\u00e1tico, sem ao menos a inten\u00e7\u00e3o de inserir esse assunto na agenda pol\u00edtica geral (quem quiser conferir, olhe o site da entidade).<\/p>\n<p>A burguesia, como classe, v\u00ea os seus interesses essenciais contemplados pelo retrocesso hist\u00f3rico que o governo golpista tenta impor \u00e0 sociedade brasileira. Nunca teve interesse genu\u00edno no projeto (neo) desenvolvimentista defendido pelo PT, por setores da burocracia estatal e sindical e por alguns intelectuais independentes, como Luiz Carlos Bresser-Pereira.<\/p>\n<p>Desde sua ascens\u00e3o \u00e0 classe dirigente, na primeira metade do s\u00e9culo 20, a burguesia brasileira tem clara consci\u00eancia de que seu futuro est\u00e1 associado \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperialista e \u00e0 inser\u00e7\u00e3o numa ordem mundial capitalista sob hegemonia dos EUA.<\/p>\n<p>Os burgueses brasileiros \u2013 isto est\u00e1 no seu DNA \u2013 desconfiam dos projetos de desenvolvimento nacional porque sentem que esse caminho os levaria a se marginalizar do sistema imperialista ao qual associam sua exist\u00eancia e seu futuro. Odeiam os trabalhadores, desprezam os pobres e t\u00eam dificuldade at\u00e9 mesmo em assumir plenamente uma identidade nacional brasileira.<\/p>\n<p>\u201cQueremos o nosso pa\u00eds de volta\u201d, gritavam, nas ruas. Agora o t\u00eam, espero que n\u00e3o por muito tempo. Dessa gente, nada de bom se pode esperar.<\/p>\n<p>http:\/\/jornalggn.com.br\/blog\/jose-carlos-lima\/do-subdesenvolvimentismo-da-burguesia-brasileira-por-igor-fuser<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Igor Fuser &#8211;\u00a0Onze meses ap\u00f3s o golpe, pa\u00eds afundou em recess\u00e3o e retrocessos. N\u00e3o se v\u00ea, entre as elites, o menor arrependimento ou inten\u00e7\u00e3o de alterar o rumo. Por que? 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