{"id":3237,"date":"2017-03-12T09:43:11","date_gmt":"2017-03-12T12:43:11","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3237"},"modified":"2017-03-09T15:49:36","modified_gmt":"2017-03-09T18:49:36","slug":"canudos-a-cidade-do-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/03\/12\/canudos-a-cidade-do-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"Canudos, a cidade do fim do mundo"},"content":{"rendered":"<p><strong>ANTONIO JIM\u00c9NEZ BARCA<\/strong> &#8211; Depois de renascer de suas cinzas, Canudos foi afogada por uma represa. Esta \u00e9 sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>O trov\u00e3o soa na colina n\u00e3o muito distante do s\u00edtio, e Julio Redondo (camisa suja de terra, fac\u00e3o pendurado no cinto) levanta a cabe\u00e7a espantado dentro de casa. Diz s\u00f3 uma palavra:<\/p>\n<p>\u2013 Chuva.<\/p>\n<p>Fala com emo\u00e7\u00e3o e al\u00edvio. Com a entona\u00e7\u00e3o feliz de quem espera h\u00e1 muito por algu\u00e9m que enfim aparece.<\/p>\n<p>Yamilson Mendes, um guia tur\u00edstico de 35 anos (bon\u00e9 de ciclista, \u00f3culos de sol, bermuda), olha para o velho pastor de 85, \u00e9 contagiado com seu otimismo e acrescenta duas palavras para confirmar a boa not\u00edcia:<\/p>\n<p>\u2013 Chuva, sim.<\/p>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>Saem de casa sem falar, aproximam-se do cercado das cabras e ficam olhando em sil\u00eancio o borbot\u00e3o de nuvens cinzentas e negras que avan\u00e7a envolto num rumor surdo de Canudos encharcando tudo. Est\u00e1 chovendo em dezembro no sert\u00e3o brasileiro. Isso prenuncia uma temporada de chuvas para esta terra condenada \u00e0 seca eterna. Mas nenhum dos dois, nem o temeroso velho sabe-tudo nem o jovem estudioso da hist\u00f3ria de seu povo, se atreve a assegurar isso. Pode ser que chova at\u00e9 fevereiro. Ou pode ser que n\u00e3o chova al\u00e9m desta tarde. Quem sabe? Isso, dizem os dois, s\u00f3 sabe Deus, que esconde as cartas.<\/p>\n<p>A cidade de Canudos fica no interior vazio do Nordeste do Brasil, no meio desta regi\u00e3o arisca e dura, o sert\u00e3o, de uma vegeta\u00e7\u00e3o \u00fanica e singularmente bonita, a caatinga, que aguenta por 11 meses a mordida de um sol incandescente. Mas Canudos \u00e9 famosa por outra coisa: em 1896, um batalh\u00e3o de milhares de camponeses miser\u00e1veis, assolados por esta mesma seca, ajudados por grupos de bandoleiros e capatazes bravos de gado acostumados a lutar e a matar, ergueram-se em armas e enfrentaram a jovem rep\u00fablica brasileira de ent\u00e3o nesta cidade fora de todos os mapas. Liderados por Ant\u00f4nio Conselheiro, para alguns um fan\u00e1tico paranoico e retr\u00f3grado, para outros um santo milagreiro iluminado pela gra\u00e7a divina. O Conselheiro peregrinou durante anos por estradinhas sob esse mesmo sol torturante, de povoado em povoado, consertando igrejas e muros de cemit\u00e9rios, antes de se negar a obedecer a qualquer autoridade, proibir o dinheiro, fundar a nova Canudos e arrastar para a morte a maioria de seus seguidores, que acreditaram cegamente nele at\u00e9 o \u00faltimo dia. Canudos recha\u00e7ou inacreditavelmente tr\u00eas expedi\u00e7\u00f5es militares e s\u00f3 sucumbiu em outubro de 1897 \u00e0 quarta, composta por um ex\u00e9rcito de mais de 4.000 homens, com canh\u00f5es e metralhadoras, vindos de todos os Estados do Brasil. Tudo isso \u00e9 contado num portugu\u00eas primoroso por Euclides da Cunha, que viajou com essa quarta expedi\u00e7\u00e3o, em <em>Os Sert\u00f5es<\/em>, obra essencial da literatura brasileira. E \u00e9 narrado magistralmente por <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/mario_vargas_llosa\/a\">Mario Vargas Llosa<\/a> em <em>A Guerra do Fim do Mundo<\/em>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o recordam, por meio das hist\u00f3rias de seus av\u00f3s, os descendentes dos poucos que conseguiram fugir antes que o \u00faltimo cerco militar atingisse a cidade ou que sobreviveram \u00e0 \u00faltima batalha. Muitos deles \u2013 n\u00e3o todos\u00a0\u2013 continuam a idolatrar o Conselheiro, como fizeram seus tatarav\u00f3s h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, transformando o tempo e a modernidade numa miragem.<\/p>\n<p>\u201cMeu tio, Chiquinho, lutou ao lado de Ant\u00f4nio Conselheiro. Quando eu era crian\u00e7a, enquanto balan\u00e7\u00e1vamos na rede, me cantava can\u00e7\u00f5es da Canudos velha, do tempo dos soldados. Eu lhe perguntava: \u2018Matou muitos com o fac\u00e3o?\u2019. E ele me respondia: \u2018Uns poucos\u2019. Mas n\u00e3o sei se era verdade. E me falava do Conselheiro, de como era bom, que fazia milagres e penit\u00eancias, que as pessoas estavam contentes ao seu lado\u201d. Maria Ant\u00f4nia But\u00e3o, Dona Maria, agora tem 77 anos e olha tamb\u00e9m, com um sorriso ausente, as nuvens que redemoinham em volta da sua casa nesta tarde estranha de vento e chuva. Vive numa ch\u00e1cara min\u00fascula com cabras e um po\u00e7o quase seco muito perto do campo de batalha de Canudos, das primeiras trincheiras, onde n\u00e3o \u00e9 raro at\u00e9 hoje encontrar pentes de balas, bot\u00f5es de fardas e at\u00e9 esqueletos de soldados. Ao redor da casa se estende o mato baixo, salpicado de cactos como arame e de \u00e1rvores peladas, cinzentas e esquel\u00e9ticas da caatinga. Olhando para as nuvens tamb\u00e9m, sentado no ch\u00e3o, apoiado na parede da casa, h\u00e1 um homem de 45 anos. \u00c9 filho de Dona Maria. Uma paralisia lhe vem inutilizando aos poucos as pernas h\u00e1 anos, sem que nenhum m\u00e9dico da regi\u00e3o atine com a doen\u00e7a. Simplesmente as coisas s\u00e3o assim. Agora se arrasta ou a m\u00e3e o leva num piscar de olhos de fora para dentro da casa, de dentro para fora.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Dona Dur\u00fa, cujos av\u00f3s foram combatentes\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/04\/politica\/1486239968_195098_1486244766_sumario_normal.jpg?resize=360%2C540\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/04\/politica\/1486239968_195098_1486244766_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/04\/politica\/1486239968_195098_1486244766_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Dona Dur\u00fa, cujos av\u00f3s foram combatentes\" width=\"360\" height=\"540\" \/><\/p>\n<p><em>Dona Dur\u00fa, cujos av\u00f3s foram combatentes<\/em><\/p>\n<p>O fot\u00f3grafo fica com Dona Maria para a foto um pouco mais tarde. Enquanto isso, ela sugere, seria bom falar com uma amiga sua do povoado: Dona Dur\u00fa. De 81 anos, J\u00falia Maria dos Santos, Dona Dur\u00fa, foi professora leiga (sem diploma) durante metade da vida, ensinando as crian\u00e7as e ler e escrever. Seu av\u00f4 paterno tamb\u00e9m conheceu Ant\u00f4nio Conselheiro. E o pai desse av\u00f4. E duas bisav\u00f3s. Ela se lembra bem das hist\u00f3rias da fam\u00edlia: \u201cUm dia, meu av\u00f4 e meu bisav\u00f4 sa\u00edram de Canudos para conseguir comida. Mas quando tentaram voltar a entrar, o cerco tinha se completado. Minhas bisav\u00f3s ficaram dentro. E quando tudo acabou, os soldados as levaram para a Bahia. Uma puseram para cuidar dos filhos de uns senhores. A outra, para trabalhar no jardim. Mas poucos meses depois lhes perguntaram se queriam voltar para Canudos, mesmo estando destru\u00edda e queimada. Responderam que sim, porque sabiam que seus maridos estavam por aqui. E os encontraram.\u201d Dona Dur\u00fa se levanta para buscar numa c\u00f4moda uma foto de sua bisav\u00f3. Reclama. N\u00e3o pode ficar de p\u00e9 muito tempo. O v\u00edrus <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/chikunguna\/a\">chikungunya<\/a>, um dos transmitidos pelo mosquito respons\u00e1vel tamb\u00e9m pela <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/virus_zika\/a\">zika<\/a> e pela dengue, r\u00f3i-lhe faz tempo as articula\u00e7\u00f5es dos joelhos. \u201cEstas pernas j\u00e1 est\u00e3o gastas\u201d, resume. Depois acrescenta: \u201cAli, em Canudos, com o Conselheiro, a vida era boa, tudo era uni\u00e3o, todo mundo era feliz, n\u00e3o havia brigas, n\u00e3o havia prostitui\u00e7\u00e3o\u201d. Dona Dur\u00fa reproduz em 2017 em uma frase apenas o mesmo relato idealizado do para\u00edso j\u00e1 feito com estupefa\u00e7\u00e3o por Euclides da Cunha em seu tempo, descrito por Vargas Llosa em seu romance; a mesma ideia quase m\u00edstica que levou tantas pessoas dos quatro cantos do sert\u00e3o a se encerrar em Canudos para defender o Conselheiro e seu mundo.<\/p>\n<p>Da velha Canudos n\u00e3o resta nada. Foi reduzida a cinzas depois da guerra. Os sobreviventes \u2013 os av\u00f3s de Dona Maria, de Dona Dur\u00fa e outros tantos \u2013 regressaram meses depois e ergueram uma nova cidade sobre os alicerces da anterior. Mas no in\u00edcio dos anos 50 o Governo brasileiro construiu uma represa que a cobriu por inteiro. A nova Canudos foi edificada de novo, a v\u00e1rios quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, \u00e0 margem do lago. Hoje \u00e9 uma cidade de mais de 15.000 habitantes, com casas de alvenaria habitadas por pessoas am\u00e1veis, com uma avenida asfaltada, uma feira \u00e0s sextas, uma minipraia com quiosque, ruas de terra e um banco sem dinheiro depois que os encarregados, fartos, decidiram retirar os fundos h\u00e1 um ano e meio, depois de sofrer quatro ataques quase seguidos de quadrilhas de ladr\u00f5es vindas de fora. Yamilson Mendes, o guia tur\u00edstico, bisneto de uma sobrevivente da guerra, est\u00e1 convencido de que o Governo construiu a represa sem pedir permiss\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para, entre outras coisas, afundar a cidade velha e sua mem\u00f3ria nas \u00e1guas do lago. \u201cNem o fogo nem a \u00e1gua conseguiram apagar nossa hist\u00f3ria. Minha bisav\u00f3, que visitou o cemit\u00e9rio pouco antes de ficar submerso para sempre, dizia que seus mortos iam morrer duas vezes.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">\u201cNem o fogo nem a \u00e1gua conseguiram apagar nossa hist\u00f3ria. Minha bisav\u00f3, que visitou o cemit\u00e9rio pouco antes de ficar submerso para sempre, dizia que seus mortos iam morrer duas vezes\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Mas a represa trouxe \u00e1gua abundante o ano inteiro para uma parte da popula\u00e7\u00e3o. S\u00f3 uma parte: v\u00e1rios milhares de pessoas, como Dona Maria e Julio Redondo, o pastor de cabras, vivem em ch\u00e1caras isoladas que dependem de po\u00e7os artesanais quase sempre ag\u00f4nicos e, desde que foi instaurado o sistema no Governo Lula, dos carros-pipa mantidos pelo Ex\u00e9rcito, que passam uma vez por m\u00eas e que, apesar de tudo, s\u00e3o insuficientes. Tamb\u00e9m veio com a represa\u00a0 \u2013junto com a estrada que chegou h\u00e1 uma dezena de anos \u2013 uma planta\u00e7\u00e3o rent\u00e1vel e organizada de bananeiras, que constitui a principal fonte de riqueza da comarca, junto com a tradicional venda de carne de cabra. H\u00e1 pizzarias no centro da cidade. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m mulheres que gastam o domingo de manh\u00e3 caminhando pelo acostamento da estrada por v\u00e1rios quil\u00f4metros para recolher (e carregar na cabe\u00e7a na volta) as mangas maduras que caem na \u00e1rea das bananeiras e s\u00e3o necess\u00e1rias em casa.<\/p>\n<p>Yamilson, o guia, leitor de Vargas Llosa, n\u00e3o se convence totalmente sobre a localiza\u00e7\u00e3o da represa. Nesta tarde, enquanto chove, contempla o lago \u2013 e imagina a cidade submersa nele \u2013 de um mirante situado numa colina na periferia da cidade, perto de uma grande est\u00e1tua do Conselheiro erguida h\u00e1 anos e com vista para todo o vale. N\u00e3o \u00e9 a \u00fanica homenagem nesta terra ao personagem que Euclides da Cunha, entre muitos outros, tachou de lun\u00e1tico. O homem que no Rio e na Bahia foi injuriado e descrito como um inimigo declarado do Brasil \u00e9 enaltecido na terra em que morreu. A guerra de Canudos \u00e9 resumida muitas vezes como o confronto entre a religiosidade cega em busca de milagres, personificada por este santarr\u00e3o, de quem vivia com a desgra\u00e7a nas costas e os que quiseram impor o progresso e a racionalidade do novo s\u00e9culo \u00e0 base dos tiros de canh\u00e3o.<a class=\"enlace\" title=\"ver fotogaler\u00eda\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/02\/04\/album\/1486241306_007332.html#1486241306_007332_1486241505\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Julio Redondo, pastor de cabras\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/04\/politica\/1486239968_195098_1486242002_sumario_normal.jpg?resize=640%2C426\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/04\/politica\/1486239968_195098_1486242002_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/04\/politica\/1486239968_195098_1486242002_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2017\/02\/04\/politica\/1486239968_195098_1486242002_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Julio Redondo, pastor de cabras\" width=\"640\" height=\"426\" \/><\/a><em>Julio Redondo, pastor de cabras<\/em><\/p>\n<p>Na \u00e1rea h\u00e1 escolas batizadas com o nome de Ant\u00f4nio Conselheiro. E romarias anuais realizadas em sua mem\u00f3ria. No museu local dedicado \u00e0 guerra de Canudos existe outra est\u00e1tua dele, e a seu p\u00e9 h\u00e1 uma placa que lista e chama de her\u00f3is os principais defensores da cidade frente ao Ex\u00e9rcito regular da Rep\u00fablica, incluindo os bandoleiros e criminosos que decidiram p\u00f4r suas armas e sua destreza assassina a servi\u00e7o de seu caudilho, louco ou n\u00e3o. N\u00e3o muito longe dali, uma antiga capela conserva o crucifixo restaurado de madeira, de mais de tr\u00eas metros de altura, que o Conselheiro mandou erguer em 1896 e que at\u00e9 a tomada da cidade esteve na frente da principal igreja de Canudos. Ao lado da cruz algu\u00e9m deixou p\u00e9s esculpidos na madeira: o ex-voto de uma promessa cumprida por um santo a que esse algu\u00e9m pediu que lhe curasse uma doen\u00e7a na perna.<\/p>\n<p>Em outra ch\u00e1cara afastada, Solange, a rezadeira, de 75 anos, se dedica a aliviar no jardim os males de seus pacientes \u00e0 base de calma, ora\u00e7\u00f5es e toques das m\u00e3os. Nesta tarde atende a uma mulher de cerca de 30 anos cujos olhos doem. Num quarto guarda as estatuetas dos santos cat\u00f3licos herdadas de sua m\u00e3e e de sua av\u00f3, tamb\u00e9m rezadeiras. Num arm\u00e1rio com chave do dormit\u00f3rio coleciona duas centenas de livros sobre espiritismo.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html izquierda\"><a name=\"sumario_5\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<p class=\"texto_grande\">Bastar\u00e1, como na previs\u00e3o de Dona Maria, que siga caindo esta chuva que todos comentam nesta tarde para que tudo reverdeje, para que a natureza escondida exploda.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>\u2013 Canudos \u00e9 triste e h\u00e1 por aqui muitas pessoas mortas atuando. \u00c0s vezes incomodam, mas \u00e9 preciso saber tratar com elas. Eu poderia ser milion\u00e1ria, mas n\u00e3o sou materialista. Gosto de viver aqui, mas se um dia me disserem para ir embora, irei, sem olhar para tr\u00e1s, como a tartaruga.<\/p>\n<p>Depois, como tantas outras pessoas desta cidade, especialmente mulheres, conta a desgra\u00e7a que a aflige:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sei por que meu filho se suicidou. Por que foi para <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sao_paulo\/a\">S\u00e3o Paulo<\/a> e se matou l\u00e1. Ainda me pergunto.<\/p>\n<p>Dona Maria se aprontou para sua foto. Prev\u00ea, enquanto sorri, que se chover um pouco mais em poucos dias o deserto imenso avistado da colina de sua casa florescer\u00e1. A selva baixa e metalizada, os galhos espinhentos dos arbustos e as \u00e1rvores an\u00e3s que comp\u00f5em a caatinga parecem mortos, torrados por um sol de mais de 300 dias. Mas chegando perto e partindo um ramo qualquer se descobre que est\u00e3o s\u00f3 dormindo. Pode servir como met\u00e1fora desta terra e desta gente. Bastar\u00e1, como na previs\u00e3o de Dona Maria, que siga caindo esta chuva que todos comentam nesta tarde para que tudo reverdeje, para que a natureza escondida exploda.<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/02\/04\/politica\/1486239968_195098.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANTONIO JIM\u00c9NEZ BARCA &#8211; Depois de renascer de suas cinzas, Canudos foi afogada por uma represa. Esta \u00e9 sua mem\u00f3ria. O trov\u00e3o soa na colina n\u00e3o muito distante do s\u00edtio, e Julio Redondo (camisa suja de terra, fac\u00e3o pendurado no cinto) levanta a cabe\u00e7a espantado dentro de casa. Diz s\u00f3 uma palavra: \u2013 Chuva. 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