{"id":3210,"date":"2017-03-07T12:01:10","date_gmt":"2017-03-07T15:01:10","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3210"},"modified":"2017-03-06T15:08:05","modified_gmt":"2017-03-06T18:08:05","slug":"forca-e-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/03\/07\/forca-e-luz\/","title":{"rendered":"For\u00e7a e luz"},"content":{"rendered":"<p><strong>MAURICIO PULS <\/strong>&#8211; Pequenas companhias criadas no s\u00e9culo XIX, em grande parte por empres\u00e1rios ligados ao caf\u00e9, formaram posteriormente o setor el\u00e9trico paulista<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_01-300x244.jpg?resize=300%2C244\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_01-768x624.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_01-610x496.jpg 610w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_01-300x244.jpg 300w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_01.jpg 1000w\" alt=\"Pr\u00e9dio da Companhia \u00c1gua e Luz, em 1901. A empresa concession\u00e1ria estava instalada no centro da capital paulista\" width=\"300\" height=\"244\" \/><\/p>\n<p><em>Pr\u00e9dio da Companhia \u00c1gua e Luz, em 1901. A empresa concession\u00e1ria estava instalada no centro da capital paulista<\/em><\/p>\n<p>Hoje controlado por grandes empresas, o setor el\u00e9trico de S\u00e3o Paulo surgiu no s\u00e9culo XIX gra\u00e7as a dezenas de pequenas companhias fundadas, em boa parte das vezes, por empres\u00e1rios ligados ao cultivo do caf\u00e9. Segundo Gildo Magalh\u00e3es dos Santos Filho, do Departamento de Hist\u00f3ria da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de S\u00e3o Paulo (FFLCH-USP), o mesmo processo ocorreu nos Estados Unidos. \u201cL\u00e1 existiam centenas de pequenas companhias locais, que depois se uniam em grupos que atendiam mais cidades. As pequenas empresas otimizavam a gera\u00e7\u00e3o para mais clientes e as duas, tr\u00eas cidades viravam cinco, depois 10, e as associa\u00e7\u00f5es se transformavam em companhias regionais. Foi exatamente o que aconteceu aqui\u201d, diz o pesquisador, que coordena o projeto tem\u00e1tico \u201cEletromem\u00f3ria II\u201d. \u201cEssa semelhan\u00e7a foi um resultado muito significativo do trabalho, agora em uma segunda fase.\u201d Desde 2007 o grupo de Magalh\u00e3es mapeia os acervos de documentos sobre a hist\u00f3ria da energia el\u00e9trica no estado. O projeto ter\u00e1, ainda, um banco de dados sobre o tema, que ficar\u00e1 dispon\u00edvel para consulta p\u00fablica.<\/p>\n<p>A arquiteta D\u00e9bora de Almeida Nogueira, pesquisadora-colaboradora do Laborat\u00f3rio de Empreendimentos da Universidade Estadual de Campinas (LaborE-Unicamp) e do Eletromem\u00f3ria II, conta que a primeira cidade a inaugurar um sistema de ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica alimentado por uma termel\u00e9trica foi Rio Claro, em 1885. Tr\u00eas anos depois, no dia 5 de dezembro de 1888, os paulistanos acompanharam o acendimento das l\u00e2mpadas na rua Boa Vista, no centro da capital, gra\u00e7as a uma termel\u00e9trica a carv\u00e3o instalada na rua Ara\u00fajo pela empresa concession\u00e1ria \u00c1gua e Luz, que cobria o tri\u00e2ngulo formado pelas ruas S\u00e3o Bento, Direita e Quinze de Novembro, a principal regi\u00e3o comercial da cidade.<\/p>\n<p>Como explica D\u00e9bora, as t\u00e9rmicas tinham um custo inicial inferior ao das hidrel\u00e9tricas, pois estas demandavam a constru\u00e7\u00e3o de barragens. Mas, a longo prazo, sua opera\u00e7\u00e3o se tornava menos vantajosa devido ao pre\u00e7o do carv\u00e3o importado. A primeira hidrel\u00e9trica a entrar em opera\u00e7\u00e3o no estado foi a usina de Monjolinho, em S\u00e3o Carlos, em 1893, seguida nesse mesmo ano pela Luiz de Queiroz, em Piracicaba. At\u00e9 1900, mais nove hidrel\u00e9tricas foram constru\u00eddas \u2013 todas na regi\u00e3o entre Piracicaba e Ribeir\u00e3o Preto. Para a pesquisadora, essa concentra\u00e7\u00e3o indica que os lucros do caf\u00e9 financiaram os investimentos em energia. \u201cDas fam\u00edlias dos cafeicultores provinham os empres\u00e1rios das novas ind\u00fastrias, os acionistas das ferrovias e os concession\u00e1rios na explora\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos\u201d, diz.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_02-715x1024.jpg?resize=300%2C430\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_02-768x1100.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_02-346x496.jpg 346w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_02-715x1024.jpg 715w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_02.jpg 1000w\" alt=\"Reportagem de A Gazeta (20\/7\/1965) mostra a constru\u00e7\u00e3o da Cherp: o governo de S\u00e3o Paulo come\u00e7ou a aumentar a gera\u00e7\u00e3o de energia nos anos 1950\" width=\"300\" height=\"430\" \/><\/p>\n<p><em>Reportagem de A Gazeta (20\/7\/1965) mostra a constru\u00e7\u00e3o da Cherp: o governo de S\u00e3o Paulo come\u00e7ou a aumentar a gera\u00e7\u00e3o de energia nos anos 1950<\/em><\/p>\n<p>Isso explicaria por que a luz el\u00e9trica apareceu inicialmente nas cidades do Oeste Paulista, onde estavam as fazendas de caf\u00e9 mais rent\u00e1veis. Foi s\u00f3 a partir de 1900 que a eletricidade come\u00e7ou a chegar \u00e0s zonas cafeeiras mais antigas, no Vale do Para\u00edba, disseminando-se pelas demais regi\u00f5es do estado ap\u00f3s 1910 (168 dos 204 munic\u00edpios paulistas contavam com o servi\u00e7o em 1920). A primeira hidrel\u00e9trica para atender a capital paulista surgiu em 1903, em Santana do Parana\u00edba, e era de grande porte, comparada com as centrais do interior do estado.<\/p>\n<p>Ainda que os produtores de caf\u00e9 estivessem \u00e0 frente de muitos desses empreendimentos, empres\u00e1rios de outros segmentos tamb\u00e9m se interessavam pelo setor energ\u00e9tico. \u201cNo estudo de caso que fizemos em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Pardo vimos que, dos 13 subscritores originais, havia desde imigrantes italianos de baixo estrato, como um sapateiro bem-sucedido, at\u00e9 um fazendeiro de caf\u00e9 que depois comprou as participa\u00e7\u00f5es dos outros. O in\u00edcio da empresa foi at\u00e9 bem democr\u00e1tico\u201d, avalia Magalh\u00e3es. \u201cVerificamos tamb\u00e9m que, para al\u00e9m do conhecido uso da eletricidade para ilumina\u00e7\u00e3o e tra\u00e7\u00e3o el\u00e9trica (bondes e trens), houve desde o in\u00edcio da eletrifica\u00e7\u00e3o uma associa\u00e7\u00e3o direta com a industrializa\u00e7\u00e3o no interior do estado de S\u00e3o Paulo, notadamente nos setores de tecidos, papel e alimentos.\u201d<\/p>\n<p>Embora atra\u00edssem muitos investidores, havia limites \u00e0 expans\u00e3o dessas empresas. Segundo D\u00e9bora, os empres\u00e1rios advindos do caf\u00e9 tinham capital para bancar a eletrifica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o para todo o potencial de aproveitamento, pois s\u00f3 destinavam \u00e0 energia uma parcela de seu capital excedente, j\u00e1 que o grosso do lucro era reinvestido nos cafezais. Al\u00e9m disso, como os fazendeiros n\u00e3o tinham experi\u00eancia nem conhecimento tecnol\u00f3gico do setor, eles tiveram de recorrer \u00e0s empresas estrangeiras, que acabaram se instalando na regi\u00e3o e dominando o mercado.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_03-300x234.jpg?resize=300%2C234\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_03-768x598.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_03-637x496.jpg 637w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_03-300x234.jpg 300w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_03.jpg 900w\" alt=\"Trabalhadores na constru\u00e7\u00e3o de barragem na margem esquerda do rio Paranapanema, em 1926\" width=\"300\" height=\"234\" \/><\/p>\n<p><em>Trabalhadores na constru\u00e7\u00e3o de barragem na margem esquerda do rio Paranapanema, em 1926<\/em><\/p>\n<p>A Light possu\u00eda mais recursos e logo atraiu o apoio da elite paulista. \u201cA Light chegou ao Brasil com a proposta de usar a matriz hidrel\u00e9trica. Como dispunha de dinheiro para investir, ganhou apoio de pol\u00edticos e outros homens p\u00fablicos para seus projetos considerados modernizadores pela elite\u201d, conta Ricardi. De acordo com Alexandre Macchione Saes, professor da Faculdade de Economia, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade (FEA) da USP, sua ascens\u00e3o n\u00e3o se processou sem resist\u00eancia, como mostrou em sua tese de doutorado \u201cConflitos do capital: Light <em>versus<\/em> CBEE [Companhia Brasileira de Energia El\u00e9trica] na forma\u00e7\u00e3o do capitalismo brasileiro (1898-1927)\u201d, defendida no Instituto de Economia da Unicamp, em 2008. A multinacional, no entanto, soube firmar \u201cum amplo sistema de alian\u00e7as e rela\u00e7\u00f5es com grupos pol\u00edticos locais\u201d, em um momento de baixa presen\u00e7a do governo federal no qual as concess\u00f5es de energia estavam nas m\u00e3os das C\u00e2maras Municipais.<strong>Internacionaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nO historiador Alexandre Ricardi, orientando de doutorado de Magalh\u00e3es na FFLCH e integrante do Eletromem\u00f3ria, estudou durante seu mestrado o principal exemplo da internacionaliza\u00e7\u00e3o do capital no setor e detalhou o processo de organiza\u00e7\u00e3o da Companhia \u00c1gua e Luz, a partir de 1886. Ele explica que, apesar de contar com grandes empres\u00e1rios e pol\u00edticos em sua diretoria, a \u00c1gua e Luz n\u00e3o conseguiu o capital necess\u00e1rio para erguer uma hidrel\u00e9trica, o que barrou a expans\u00e3o da empresa. \u201cEles j\u00e1 tinham a posse da cachoeira do Rasg\u00e3o e a escritura de compromisso de compra da cachoeira de Pau d\u2019Alho, no rio Tiet\u00ea. Eram necess\u00e1rios 13 mil contos de r\u00e9is para as obras, mas a diretoria s\u00f3 conseguiu 2 mil contos\u201d, afirma. Diante disso, em 1909 os ativos e passivos da \u00c1gua e Luz foram definitivamente incorporados \u00e0 contabilidade da Light and Power, empresa de capital canadense, que j\u00e1 detinha desde 1900 o controle acion\u00e1rio da companhia paulista.<\/p>\n<p>Em 1927, quando a Light j\u00e1 tinha consolidado seu dom\u00ednio na capital e no Vale do Para\u00edba, a norte-americana American &amp; Foreign Power (Amforp, do grupo General Electric) desembarcou no Brasil e, em tr\u00eas anos, comprou 22 concession\u00e1rias no Oeste Paulista e em outros estados. Naquela \u00e9poca, as perspectivas das duas empresas estrangeiras eram bastante promissoras: as concess\u00f5es de energia valiam por at\u00e9 90 anos e as tarifas podiam ser reajustadas quando a taxa de c\u00e2mbio se desvalorizava.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_04-690x1024.jpg?resize=300%2C445\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_04-768x1140.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_04-334x496.jpg 334w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_04-202x300.jpg 202w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_04-690x1024.jpg 690w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_04.jpg 1000w\" alt=\"As primeiras hidrel\u00e9tricas paulistas a entrar em opera\u00e7\u00e3o foram Monjolinho (acima), em S\u00e3o Carlos, e a de Luiz de Queiroz, em Piracicaba, ambas em 1893\" width=\"300\" height=\"445\" \/><\/p>\n<p><em>As primeiras hidrel\u00e9tricas paulistas a entrar em opera\u00e7\u00e3o foram Monjolinho (acima), em S\u00e3o Carlos, e a de Luiz de Queiroz, em Piracicaba, ambas em 1893<\/em><\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 promoveu mudan\u00e7as no setor. Em 1934 Get\u00falio Vargas instituiu o C\u00f3digo de \u00c1guas, que limitou as concess\u00f5es a 30 anos e mudou o c\u00e1lculo das tarifas, restringindo a remunera\u00e7\u00e3o do capital das empresas a 10% ao ano. Nesse cen\u00e1rio, tanto a Light como a Amforp reduziram drasticamente seus investimentos, e os blecautes foram se tornando cada vez mais frequentes. Como ressalta Marcelo Squinca da Silva no livro <em>Energia el\u00e9trica \u2013 Estatiza\u00e7\u00e3o e desenvolvimento, 1956-1967<\/em> (Alameda, 2011), o estado ent\u00e3o assumiu o \u00f4nus de ampliar a gera\u00e7\u00e3o de energia, mas deixou a distribui\u00e7\u00e3o \u2013 o setor mais lucrativo \u2013 com o setor privado.<\/p>\n<p>Em 1951, o governo paulista come\u00e7ou a construir hidrel\u00e9tricas no rio Paranapanema; em 1955 criou a Companhia Hidrel\u00e9trica do Rio Pardo (Cherp) e, em 1961, as Centrais El\u00e9tricas do Urubupung\u00e1. Essa mudan\u00e7a foi analisada pelo historiador Renato de Oliveira Diniz em tese defendida na FFLCH em 2011. \u201cO que justifica uma mudan\u00e7a de rumo, de estatal para privado ou de privado para estatal, \u00e9 a quest\u00e3o do financiamento\u201d, diz Diniz, que dirigiu a Funda\u00e7\u00e3o Energia e Saneamento e trabalhou na diretoria de Comunica\u00e7\u00e3o e Rela\u00e7\u00f5es Institucionais da CPFL Energia (sucessora da Amforp), com sede em Campinas. \u201cNo momento da estatiza\u00e7\u00e3o havia uma demanda crescente por energia, mas n\u00e3o havia investimentos, por falta de interesse do setor privado estrangeiro e de recursos do setor privado nacional. Ent\u00e3o o estado entrou para construir esse parque energ\u00e9tico.\u201d Os pesados investimentos estatais criaram as condi\u00e7\u00f5es para que S\u00e3o Paulo ampliasse seu parque industrial. \u201cDepois que a Cesp [Companhia Energ\u00e9tica de S\u00e3o Paulo] construiu as usinas de Jupi\u00e1 e Ilha Solteira, S\u00e3o Paulo chegou a gerar 50% da energia el\u00e9trica do Brasil. O reflexo disso foi a industrializa\u00e7\u00e3o\u201d, complementa Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>As encomendas do setor p\u00fablico possibilitaram a consolida\u00e7\u00e3o das grandes empreiteiras de capital nacional. Como esclarece Diniz, at\u00e9 a Rep\u00fablica Velha (1889-1930) a constru\u00e7\u00e3o civil era dominada por empresas estrangeiras: \u201cOs projetos de engenharia em geral eram feitos no exterior. Os escrit\u00f3rios nacionais intermediavam a contrata\u00e7\u00e3o e depois supervisionavam a execu\u00e7\u00e3o. A partir dos anos 1950 as empresas nacionais passaram a projetar e executar as obras. Deixaram ent\u00e3o de ser empresas regionais e ganharam dimens\u00e3o nacional\u201d.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_05-300x190.jpg?resize=300%2C190\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_05-768x486.jpg 768w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_05-784x496.jpg 784w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_05-300x190.jpg 300w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_05-1024x648.jpg 1024w, http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/084_Eletricidade_252_05.jpg 1200w\" alt=\"Painel de controle em m\u00e1rmore de Carrara, de 1912, da usina Santa Alice, em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Pardo: ainda em funcionamento\" width=\"300\" height=\"190\" \/><\/p>\n<p><em>Painel de controle em m\u00e1rmore de Carrara, de 1912, da usina Santa Alice, em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Pardo: ainda em funcionamento<\/em><\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es do projeto Eletromem\u00f3ria n\u00e3o se limitam \u00e0 parte econ\u00f4mica. Tamb\u00e9m s\u00e3o analisados os aspectos culturais da eletrifica\u00e7\u00e3o. \u201cA usina Santa Alice, em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Pardo, de 1907, \u00e9 um museu vivo\u201d, ressalta Magalh\u00e3es. \u201cEla opera com os equipamentos daquela \u00e9poca, n\u00e3o foi repotenciada, tem o painel todo em m\u00e1rmore de Carrara, e o rel\u00f3gio original, da Siemens, continua funcionando.\u201d Esse patrim\u00f4nio tem grande potencial de aproveitamento tur\u00edstico e museol\u00f3gico. \u201cO problema \u00e9 que poucos d\u00e3o valor para o patrim\u00f4nio industrial\u201d, queixa-se. Segundo ele, o pr\u00f3prio Conselho de Defesa do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico, Arqueol\u00f3gico, Art\u00edstico e Tur\u00edstico (Condephaat) reluta em considerar usinas como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico. \u201cA usina de Corumbata\u00ed, em Rio Claro, \u00e9 a \u00fanica tombada pelo estado. As secretarias municipais de Cultura em geral n\u00e3o se movimentam para isso.\u201d<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es igualmente chama a aten\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o ambiental. \u201cEm grande parte das localidades onde ficam essas usinas o entorno foi devastado, substitu\u00eddo por planta\u00e7\u00f5es e pastagens, mas a \u00e1rea da hidrel\u00e9trica est\u00e1 preservada, inclusive a mata natural\u201d, diz. \u201cAs pequenas centrais s\u00e3o muito bonitas. A usina Esmeril, em Patroc\u00ednio Paulista, tem uma cachoeira de 90 metros. D\u00e1 para andar por cinco minutos a partir da casa de for\u00e7a e chegar a um lago formado pela cachoeira e s\u00f3 se v\u00ea natureza em volta\u201d, conta. A linda paisagem, segundo ele, hoje n\u00e3o \u00e9 vista por quase ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2017\/02\/13\/forca-e-luz\/?cat=humanidades<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAURICIO PULS &#8211; Pequenas companhias criadas no s\u00e9culo XIX, em grande parte por empres\u00e1rios ligados ao caf\u00e9, formaram posteriormente o setor el\u00e9trico paulista Pr\u00e9dio da Companhia \u00c1gua e Luz, em 1901. 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