{"id":3208,"date":"2017-03-07T09:57:12","date_gmt":"2017-03-07T12:57:12","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3208"},"modified":"2017-03-06T15:00:46","modified_gmt":"2017-03-06T18:00:46","slug":"neoliberalismo-assexualidade-e-desejo-de-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/03\/07\/neoliberalismo-assexualidade-e-desejo-de-morte\/","title":{"rendered":"Neoliberalismo, assexualidade e desejo de morte"},"content":{"rendered":"<p><strong>Juan \u00cd\u00f1igo Ib\u00e1\u00f1ez &#8211;\u00a0<\/strong>Fil\u00f3sofo italiano aponta: obsess\u00e3o pelo sucesso individual e troca dos contatos corp\u00f3reos pelos digitais podem realizar distopia da humanidade insens\u00edvel, para a qual j\u00e1 alertava Pasolini<\/p>\n<p>Uma das met\u00e1foras mais potentes \u2013 e de maior resson\u00e2ncia at\u00e9 nossos dias \u2013 no imagin\u00e1rio de Pier Paolo Pasolini \u00e9 a de \u201cmuta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica\u201d. Trata-se de uma express\u00e3o que o cineasta, escritor e poeta italiano utilizava para ilustrar os efeitos psicossociais produzidos pela transi\u00e7\u00e3o de uma economia de origem agr\u00e1ria e industrial para outra, de corte capitalista e transnacional.<\/p>\n<p>Durante os anos 1970, Pasolini identificou, em seus livros <em>Escritos Cors\u00e1rios<\/em> e <em>Cartas Luteranas,<\/em> uma verdadeira transmuta\u00e7\u00e3o nas sensibilidades de amplos setores da sociedade italiana, em consequ\u00eancia do \u201cnovo fascismo\u201d imposto pela globaliza\u00e7\u00e3o. Acreditava que esse processo estava criando \u2013 fundamentalmente por meio do influxo semi\u00f3tico da publicidade e da televis\u00e3o \u2013 uma nova \u201cesp\u00e9cie\u201d de jovens burgueses, que chamou de \u201cos sem futuro\u201d: jovens com uma acentuada \u201ctend\u00eancia \u00e0 infelicidade\u201d, com pouca ou nenhuma raiz cultural ou territorial, e que estavam assimilando, sem muita distin\u00e7\u00e3o de classe, os valores, a est\u00e9tica e o estilo de vida promovidos pelos novos \u201ctempos do consumo\u201d.<\/p>\n<p>Quarenta anos depois, outro inquieto intelectual de Bolonha \u2013 o fil\u00f3sofo e te\u00f3rico dos meios de comunica\u00e7\u00e3o Franco \u201cBifo\u201d Berardi \u2013 acha que o sombrio diagn\u00f3stico de Pasolini tornou-se prof\u00e9tico, diante da situa\u00e7\u00e3o de \u201cprecariedade existencial\u201d e aumento de transtornos mentais que as mudan\u00e7as neoliberais provocaram.<\/p>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), o suic\u00eddio \u00e9 hoje a segunda causa de morte entre jovens e crian\u00e7as \u2013 a grande maioria do sexo masculino \u2013 entre 10 e 24 anos. Do mesmo modo, a depress\u00e3o \u2013 patologia emocional mais presente no comportamento suicida \u2013 ser\u00e1 em 2020 a segunda forma de incapacidade mais recorrente no mundo.<\/p>\n<p>Berardi acredita que esses dados \u2013 assim como a maioria dos atos violentos produzidos nos \u00faltimos anos, os assassinatos em massa ou os atentados suicidas radicais \u2013 est\u00e3o estreitamente vinculados \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de hipercompeti\u00e7\u00e3o, subsal\u00e1rio e exclus\u00e3o promovidos pelo <em>ethos<\/em> neoliberal. Sugere que ao analisar os efeitos que a economia de mercado tem em nossas vidas, devemos tamb\u00e9m incorporar um elemento novo e transcendente: o modo como os fluxos informativos acelerados a que estamos expostos por meio das \u201cnovas tecnologias\u201d influem em nossa sensibilidade e processos cognitivos.<\/p>\n<p>Esclarecimento: Berardi n\u00e3o \u00e9 nenhum tecn\u00f3fobo ou rom\u00e2ntico dos tempos do capitalismo pr\u00e9-industrial. Compreende \u2013 e utilizou a seu favor \u2013 os avan\u00e7os que a tecnologia introduz em nossas vidas.<\/p>\n<p>Desde o final dos anos 1960, liderou diversos projetos de comunica\u00e7\u00e3o alternativa, tais como a revista cultural <a href=\"https:\/\/it.wikipedia.org\/wiki\/A\/traverso\">A\/traverso<\/a>, \u00a0a R\u00e1dio Alice (uma das primeiras emissoras livres da Europa), a TV Orfeu (a primeira televis\u00e3o comunit\u00e1ria da It\u00e1lia). Participou de programas educativos da R\u00e1dio e Televis\u00e3o Italiana (RAI) ligados ao funcionamento e efeitos das novas tecnologias. Al\u00e9m disso, \u201cBifo\u201d foi um observador atento de fen\u00f4menos contraculturais como o ciberpunk, ou as possibilidades futuras de governos tecnofascistas.<\/p>\n<p>Sua carreira foi fortemente marcada pelo compromisso pol\u00edtico. Foi membro ativo \u2013 desde a Universidade de Bolonha, onde graduou-se em Est\u00e9tica \u2013 da revolta de Maio de 68. No in\u00edcio dos anos 70, esteve vinculado ao movimento de esquerda extraparlamentar \u201c<a href=\"http:\/\/https\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Opera%C3%ADsmo\">Poder Oper\u00e1rio<\/a>\u201d. Posteriormente \u2013 no come\u00e7o dos 80, durante seu ex\u00edlio na Fran\u00e7a \u2013 frequentou Michel Foucault e trabalhou junto com F\u00e9lix Guattari no campo disciplinar ent\u00e3o nascente da esquisoan\u00e1lise. Berardi \u00e9 autor de mais de vinte livros, entre os quais destacam-se <em>El Alma del Trabajo: desde l\u00e1 alienaci\u00f3n a la autonomia<\/em> (A alma do trabalho: da aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 autonomia), <em>Generaci\u00f3n post-alfa. Patolog\u00edas e imaginarios en el semiocapitalismo<\/em> (Gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-alfa. Patologias e imagin\u00e1rios no semiocapitalismo), <em>H\u00e9roes: asesinato de masa y suicidio<\/em> (Her\u00f3is: assassinato de massa e suic\u00eddio) e <em>Fenomenolog\u00eda del fin<\/em> (Fenomenologia do fim). Segue a entrevista.<\/p>\n<p><strong>Em seus \u00faltimos trabalhos, voc\u00ea disse que o efeito das tecnologias digitais, a mediatiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o e as condi\u00e7\u00f5es de vida que o capitalismo financeiro produz est\u00e3o estreitamente vinculados ao crescimento das patologias da esfera afetivo- emocional, assim como de suic\u00eddios em n\u00edvel mundial. Disse inclusive que estamos diante de uma verdadeira \u201cmuta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica\u201d da sensibilidade. De que maneira esses fen\u00f4menos est\u00e3o relacionados ao aumento de suic\u00eddios e de patologias ps\u00edquicas?<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se naturalmente de um processo muito complicado que n\u00e3o pode ser reduzido a linhas de determina\u00e7\u00e3o simples. A combina\u00e7\u00e3o dessas condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, sociais, comunicacionais pode produzir \u2013 e de fato produz, em um grande n\u00famero de casos \u2013 uma condi\u00e7\u00e3o de individualiza\u00e7\u00e3o competitiva e de isolamento ps\u00edquico que provoca uma extrema fragilidade, a qual se manifesta \u00e0s vezes como predisposi\u00e7\u00e3o ao suic\u00eddio.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode ser acaso o fato de que nos \u00faltimos quarenta anos o suic\u00eddio tenha crescido enormemente (em particular entre os jovens). Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, trata-se de um aumento de 60%. \u00c9 enorme. Trata-se de um dado impressionante, que precisa ser explicado em termos psicol\u00f3gicos e tamb\u00e9m em termos sociais. Quando li pela primeira vez essa informa\u00e7\u00e3o, me perguntei: o que aconteceu nos \u00faltimos 40 anos? A resposta \u00e9 clara. Ocorreram duas coisas. A primeira foi que Margaret Thatcher declarou que a sociedade n\u00e3o existe, que s\u00f3 h\u00e1 indiv\u00edduos e empresas em permanente competi\u00e7\u00e3o \u2013 em guerra permanente, digo eu. A segunda \u00e9 que, nas ultimas d\u00e9cadas, a rela\u00e7\u00e3o entre os corpos se fez cada vez mais rara, enquanto a rela\u00e7\u00e3o entre sujeitos sociais perdia a corporeidade, mas n\u00e3o a comunica\u00e7\u00e3o. <strong>O interc\u00e2mbio comunicacional tornou-se puramente funcional, econ\u00f4mico, competitivo.<\/strong> O neoliberalismo foi, em minha opini\u00e3o, um incentivo maci\u00e7o ao suic\u00eddio. O neoliberalismo \u2013 mais a mediatiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais \u2013 produziu um efeito de fragiliza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e de agressividade econ\u00f4mica claramente perigosa e no limite do suic\u00eddio.<\/p>\n<p><strong>Qual o sentido profundo do que disse Margareth Thatcher?<\/strong><\/p>\n<p>Quando Margareth Thatcher disse que n\u00e3o se pode definir nada nem ningu\u00e9m como sociedade, que s\u00f3 h\u00e1 indiv\u00edduos e empresas que lutam por seu proveito, para o sucesso econ\u00f4mico competitivo, declarou algo com enorme pot\u00eancia destrutiva. O neoliberalismo, a meu ver, produz um efeito de destrui\u00e7\u00e3o radical do humano. A ditadura financeira de nossa \u00e9poca \u00e9 o produto da desertifica\u00e7\u00e3o neoliberal. A financeiriza\u00e7\u00e3o da economia \u00e9 fundada sobre uma dupla abstra\u00e7\u00e3o. O capitalismo sempre se fundou sobre a abstra\u00e7\u00e3o do valor de troca (abstra\u00e7\u00e3o que esquece e anula o car\u00e1ter \u00fatil e concreto do produto). Mas a valoriza\u00e7\u00e3o financeira n\u00e3o precisa passar pela produ\u00e7\u00e3o \u00fatil. O capitalista industrial, para acumular capital, tem de produzir objetos \u2013 autom\u00f3veis, petr\u00f3leo, \u00f3culos, edif\u00edcios. J\u00e1 o capital financeiro n\u00e3o precisa produzir nada. A acumula\u00e7\u00e3o do capital financeiro n\u00e3o se faz por meio de um produto concreto, mas t\u00e3o somente atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o virtual do pr\u00f3prio dinheiro.<\/p>\n<p><strong>Nesse cen\u00e1rio, que peculiaridades voc\u00ea observa nas formas como nos relacionamos com nosso trabalho \u2013 diferentemente, por exemplo, do caso de um trabalhador industrial dos anos 70 \u2013, que nos deixa t\u00e3o expostos \u00e0 satura\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica expressa em seus livros?<\/strong><\/p>\n<p>O movimento dos trabalhadores do s\u00e9culo passado tinha como objetivo principal a redu\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho, a emancipa\u00e7\u00e3o do tempo de vida. A precariza\u00e7\u00e3o e o empobrecimento produzido pela ditadura neoliberal produziram um efeito paradoxal. A tecnologia reduz o tempo de trabalho necess\u00e1rio, mas o capital codifica o tempo liberado como parado e o sanciona, reduzindo a vida das pessoas a uma condi\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria material. Em consequ\u00eancia, as pessoas jovens s\u00e3o continuamente obrigadas a buscar um emprego que n\u00e3o podem encontrar, a n\u00e3o ser em condi\u00e7\u00f5es de precariedade e subsal\u00e1rio. O efeito emocional \u00e9 ansiedade, depress\u00e3o e paralisia do desejo. A condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria transforma os outros em inimigos potenciais, em competidores.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem analisado com regularidade as formas como as tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o e o uso que delas fazemos interagem com as condi\u00e7\u00f5es de vida instauradas pelo capitalismo. Qual papel pensa que cumprem as redes sociais, no marco de uma sociedade com um tipo de capitalismo altamente desregulado? De que maneira os efeitos que esse sistema econ\u00f4mico produz em nossas vidas s\u00e3o complementares ou se relacionam com o uso que fazemos desse tipo de plataformas digitais?<\/strong><\/p>\n<p>As redes sociais s\u00e3o, ao mesmo tempo, uma expans\u00e3o enorme \u2013 virtualmente infinita \u2013 do campo de estimula\u00e7\u00e3o, uma acelera\u00e7\u00e3o do ritmo do desejo e, ao mesmo tempo, uma frustra\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, uma protela\u00e7\u00e3o infinita do prazer er\u00f3tico, embora nos \u00faltimos anos tenham sido criadas redes sociais que t\u00eam como fun\u00e7\u00e3o direta o convite sexual. N\u00e3o creio que as redes (nem a tecnologia em geral) possam ser consideradas como causa da deserotiza\u00e7\u00e3o do campo social, mas creio que as redes funcionam no interior de um campo social deserotizado, de tal maneira que confirmam continuamente a frustra\u00e7\u00e3o, enquanto reproduzem, ampliam e aceleram o ritmo da estimula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante considerar o seguinte dado: no Jap\u00e3o, 30% dos jovens entre 18 e 34 anos n\u00e3o tiveram nenhuma experi\u00eancia sexual, e tampouco desejam t\u00ea-la. Por sua vez, David Spiegelhalter, professor da Universidade de Cambridge, escreveu em <em>Sex by Numbers<\/em> que a frequ\u00eancia dos encontros sexuais foi reduzida a quase metade, nos \u00faltimos vinte anos. As causas? Estresse, digitaliza\u00e7\u00e3o do tempo de aten\u00e7\u00e3o, ansiedade. Isso produziu o surgimento do que, para Spiegelhalter, \u00e9 a \u201csingle society\u201d [sociedade solteira], quer dizer, uma sociedade associal, na qual os indiv\u00edduos est\u00e3o por demais ocupados em buscar trabalho e relacionar-se digitalmente para encontrar corpos er\u00f3ticos com os quais se relacionar.<\/p>\n<p><strong>Nesta mesma linha de an\u00e1lise, voc\u00ea tamb\u00e9m disse que as formas de relacionamento com as novas tecnologias afetam os paradigmas do humanismo racionalista cl\u00e1ssico, em particular nossa capacidade de pensar criticamente. Considerando isso, de que maneira as din\u00e2micas <em>multitasking<\/em> [tarefas simult\u00e2neas], ou abertura de janelas de aten\u00e7\u00e3o hipertextuais podem chegar a deformar as formas sequenciais de elabora\u00e7\u00e3o mental?<\/strong><\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o alfab\u00e9tica possui um ritmo que permite ao c\u00e9rebro uma recep\u00e7\u00e3o lenta, sequencial, revers\u00edvel. S\u00e3o estas as condi\u00e7\u00f5es da cr\u00edtica, que a modernidade considera condi\u00e7\u00e3o essencial da democracia e da racionalidade. Por\u00e9m, o que significa \u201ccr\u00edtica\u201d? No sentido etimol\u00f3gico, cr\u00edtica \u00e9 a capacidade de distinguir, particularmente, de diferenciar entre a verdade e a falsidade das afirma\u00e7\u00f5es. Quando o ritmo da afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 acelerado, a possibilidade de interpreta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das afirma\u00e7\u00f5es reduz-se a um ponto de aniquilamento. McLuhan escreveu que quando a simultaneidade substitui a sequencialidade \u2014 ou seja, quando a afirma\u00e7\u00e3o se acelera sem limites \u2014 a mente perde sua capacidade de discrimina\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, passando daquela condi\u00e7\u00e3o a uma neomitol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Apesar do d\u00e9ficit comunicacional ao qual muitos especialistas atribu\u00edram a derrota de Hillary Clinton e, concretamente, \u00e0 sua postura ante o estilo confrontador e \u201cpoliticamente incorreto\u201d que Trump utilizou para enfrentar temas vinculados com as guerras culturais, esta \u201credu\u00e7\u00e3o da capacidade cr\u00edtica\u201d que voc\u00ea identifica influenciou no resultado das elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses tem se falado muito da comunica\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-verdade no contexto das elei\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos, que levaram um racista a ganhar a presid\u00eancia. Por\u00e9m, eu n\u00e3o acredito que o problema verdadeiro esteja no circuito da comunica\u00e7\u00e3o. A mentira sempre foi normal dentro da comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O verdadeiro problema \u00e9 que as mentes individuais e coletivas perderam sua capacidade de discrimina\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, de autonomia ps\u00edquica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Embora alguns especialistas reduzam a import\u00e2ncia do termo \u201cnativos digitais\u201d (dizendo que n\u00e3o passa de uma met\u00e1fora que fala mais do poder desproporcional que cedemos \u00e0s novas tecnologias do que dos efeitos reais que estas t\u00eam sobre os indiv\u00edduos), o conceito guarda uma significativa rela\u00e7\u00e3o com a \u201cmuta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica\u201d que voc\u00ea identifica nos jovens da primeira gera\u00e7\u00e3o conectiva. Que valor voc\u00ea atribui ao conceito de \u201cnativos digitais\u201d e como pode se relacionar com a no\u00e7\u00e3o criada por Marshall McLuhan de \u201cgera\u00e7\u00f5es p\u00f3s-alfab\u00e9ticas\u201d que voc\u00ea tem retomado em alguns de seus livros?<\/strong><\/p>\n<p>Em absoluto, n\u00e3o creio que a express\u00e3o \u201cnativo digital\u201d seja meramente metaf\u00f3rica. Pelo contr\u00e1rio, trata-se de uma defini\u00e7\u00e3o capaz de nomear a muta\u00e7\u00e3o cognitiva contempor\u00e2nea. A primeira gera\u00e7\u00e3o conectiva, aquela que aprendeu mais palavras por meio de uma m\u00e1quina do que pela voz da m\u00e3e, encontra-se numa condi\u00e7\u00e3o verdadeiramente nova, sem precedentes na hist\u00f3ria do ser humano. \u00c9 uma gera\u00e7\u00e3o que perdeu a capacidade de valoriza\u00e7\u00e3o afetiva da comunica\u00e7\u00e3o, e que se v\u00ea obrigada a elaborar os fluxos semi\u00f3ticos em condi\u00e7\u00f5es de isolamento e de concorr\u00eancia. Em seu livro <em>L\u2019ordine simbolico della madre (<\/em>A ordem simb\u00f3lica da m\u00e3e), a fil\u00f3sofa italiana Luisa Muraro argumenta que a rela\u00e7\u00e3o entre significante e significado \u00e9 garantida pela presen\u00e7a f\u00edsica e afetiva da m\u00e3e.<\/p>\n<p>O sentido de uma palavra n\u00e3o se aprende de maneira funcional, mas afetiva. Eu sei que uma palavra possui um sentido \u2014 e que o mundo como significante possui um sentido \u2014 porque a rela\u00e7\u00e3o afetiva com o corpo de minha m\u00e3e me introduz \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o como um ato essencialmente afetivo. Quando a presen\u00e7a afetiva da m\u00e3e torna-se rara, o mundo perde calor semi\u00f3tico, e a interpreta\u00e7\u00e3o fica cada vez mais funcional, fr\u00edgida. Naturalmente, aqui n\u00e3o me refiro \u00e0 m\u00e3e biol\u00f3gica, nem \u00e0 fun\u00e7\u00e3o materna tradicional, familiar. Estou falando do corpo que fala, estou falando da voz. Pode ser a voz do tio, da av\u00f3 ou de um amigo. A voz de um ser humano \u00e9 a \u00fanica forma de garantir de maneira afetiva a consist\u00eancia sem\u00e2ntica do mundo. A rarefa\u00e7\u00e3o da voz transforma a interpreta\u00e7\u00e3o num ato puramente econ\u00f4mico, funcional e combinat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Em seu livro <em>A linguagem e a morte \u2013 um semin\u00e1rio sobre o lugar da negatividade<\/em>, Giorgio Agamben diz que a voz \u00e9 aquilo que vincula o corpo (a boca, a garganta, os pulm\u00f5es, o sexo) ao sentido. Se substituirmos a voz por uma tela, o sentido er\u00f3tico, afetivo e concreto do mundo se desvanece e ficamos s\u00f3s, tr\u00eamulos e desprovidos da garantia de que o mundo seja algo carnalmente concreto. O mundo torna-se puramente fantasmal, matem\u00e1tico, frio.<\/p>\n<p><strong>Em seu livro <em>Her\u00f3is<\/em>, voc\u00ea se concentra no crescente fen\u00f4meno de suic\u00eddios a n\u00edvel mundial e relaciona-o com os crimes de massas que presenciamos no final dos anos 1990 \u2014 como os massacres em Columbine ou Virginia Tech \u2014 at\u00e9 chegar a epis\u00f3dios recentes, como o do piloto suicida da Germanwings, ou o atentado no Bataclan. O que a hist\u00f3ria de vida dos agressores destes crimes te diz das condi\u00e7\u00f5es existenciais nos tempos do capitalismo financeiro? De que forma esses epis\u00f3dios nos falam do esp\u00edrito de nossos tempos?<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que a financeiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente o suic\u00eddio da humanidade. Em todos os n\u00edveis: a devasta\u00e7\u00e3o do meio ambiente, a devasta\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, o empobrecimento, a privatiza\u00e7\u00e3o, provocam medo do futuro e depress\u00e3o. Basicamente, a acumula\u00e7\u00e3o financeira alimenta-se por meio da destrui\u00e7\u00e3o daquilo que foi a produ\u00e7\u00e3o industrial no passado. Como pode o capital investido ser incrementado nos tempos do capitalismo financeiro? Somente atrav\u00e9s da destrui\u00e7\u00e3o de alguma coisa. Destruindo a escola voc\u00ea incrementa o capital financeiro. Destruindo um hospital, incrementa-se o capital financeiro. Destruindo a Gr\u00e9cia, incrementa-se o capital do Deutsche Bank. \u00c9 um suicidio, n\u00e3o no sentido metaf\u00f3rico, mas no material.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, n\u00e3o me parece t\u00e3o incompreens\u00edvel que os jovens se suicidem numa situa\u00e7\u00e3o similar. Al\u00e9m disso, a impot\u00eancia pol\u00edtica que o capitalismo financeiro produz, a impot\u00eancia social e a precariedade, impulsa jovens desesperados a atuarem numa forma que parece (e que de fato \u00e9) ser o \u00fanico jeito de obter algo: matando pessoas casualmente e matando a si mesmos. Trata-se da \u00fanica a\u00e7\u00e3o eficaz, porque matando obtemos vingan\u00e7a, e matando obtemos a liberta\u00e7\u00e3o do inferno que o capitalismo financeiro tem produzido.<\/p>\n<p>Pouco tempo atr\u00e1s, em junho de 2016, um jovem palestino chamado Mohammed Nasser Tarayah, de 17 anos, matou uma menina judia de 13 anos com uma faca e, posteriormente, foi assassinado de maneira previs\u00edvel por um soldado israelense. Antes de sair de sua casa para ir matar \u2014 e se matar \u2014 escreveu em seu Facebook: \u201cA morte \u00e9 um direito, e eu reivindico esse direito\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o palavras horr\u00edveis, por\u00e9m, muito significativas. Significam que a morte lhe parecia a \u00fanica forma de se libertar do inferno da viol\u00eancia israelense e da humilha\u00e7\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o de oprimido.<\/p>\n<p><strong>A n\u00edvel mundial, a taxa de homens que se suicida \u00e9 quatro vezes maior que a de mulheres que incorrem na mesma pr\u00e1tica, embora segundo a OMS, elas tentem em mais ocasi\u00f5es. Da mesma forma, n\u00e3o temos visto casos de assassinatos em massa realizados por mulheres. Ao que voc\u00ea atribui que tanto os suic\u00eddios, como os crimes de massas, sejam protagonizados quase exclusivamente por homens? De que forma o capitalismo os compele a reproduzirem tais n\u00edveis de impot\u00eancia, viol\u00eancia e autodestrui\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A viol\u00eancia competitiva, a ansiedade que essa viol\u00eancia implica, \u00e9 uma transla\u00e7\u00e3o de uma ansiedade sexual que \u00e9 unicamente masculina. As mulheres s\u00e3o v\u00edtimas da viol\u00eancia financeira, bem como da vingan\u00e7a masculina e terrorista contra a viol\u00eancia financeira. A cultura feminista pode considerar-se a \u00fanica forma cultural e existencial que poderia criar lugares ps\u00edquicos e f\u00edsicos de autonomia frente \u00e0 agress\u00e3o econ\u00f4mica e \u00e0 agress\u00e3o terrorista suicida. Por\u00e9m, hoje, quando falamos de suic\u00eddio, cabe ressaltar que n\u00e3o estamos falando do velho suic\u00eddio rom\u00e2ntico, que significava um desespero amoroso, uma tentativa de vingan\u00e7a de amor, um excesso de puls\u00e3o er\u00f3tica. Falamos de um suic\u00eddio frio, de uma tentativa de fugir da depress\u00e3o e da frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Para finalizar, poderia nos falar de poss\u00edveis pr\u00e1ticas que proponham solu\u00e7\u00f5es, ou das potencialidades que voc\u00ea enxerga nesta gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-alfab\u00e9tica? Em seu livro <em>Her\u00f3is<\/em> voc\u00ea retoma o interessante conceito de \u201ccaosmose\u201d, criado por F\u00e9lix Guattari, o qual sup\u00f5e um tipo de inst\u00e2ncia est\u00e9tico-\u00e9tica de supera\u00e7\u00e3o que daria sentido ao contexto de super-estimula\u00e7\u00e3o e precariedade existencial que voc\u00ea v\u00ea em nossos tempos\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Guattari falava de \u201cespasmo ca\u00f3smico\u201d para entender uma condi\u00e7\u00e3o de sofrimento e de caos mental que pode ser solucionada somente atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de uma nova condi\u00e7\u00e3o social, de uma nova rela\u00e7\u00e3o entre o corpo individual, o corpo c\u00f3smico e o corpo dos demais. Somente a liberta\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o capitalista, somente a liberta\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o laboral prec\u00e1ria, e somente a liberta\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia generalizada, poderia abrir um horizonte p\u00f3s-suicida.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos nacionalistas racistas \u201ctrumpistas\u201d, em quase todos os pa\u00edses do mundo, me faz pensar que estamos cada vez mais longe de uma possibilidade similar, e que, aos poucos, estamos nos aproximando do suic\u00eddio final da humanidade. Eu sinto muito, mas, neste momento, n\u00e3o vejo uma perspectiva de caosmose, somente uma de espasmo final. Mas isso \u00e9 o que eu consigo entender, e est\u00e1 claro que meu entendimento \u00e9 muito parcial.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"OuLShIcTer\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/neoliberalismo-assexualidade-e-desejo-de-morte\/\">Neoliberalismo, assexualidade e desejo de morte<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Neoliberalismo, assexualidade e desejo de morte&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/neoliberalismo-assexualidade-e-desejo-de-morte\/embed\/#?secret=0q6InhYz7D#?secret=OuLShIcTer\" data-secret=\"OuLShIcTer\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juan \u00cd\u00f1igo Ib\u00e1\u00f1ez &#8211;\u00a0Fil\u00f3sofo italiano aponta: obsess\u00e3o pelo sucesso individual e troca dos contatos corp\u00f3reos pelos digitais podem realizar distopia da humanidade insens\u00edvel, para a qual j\u00e1 alertava Pasolini Uma das met\u00e1foras mais potentes \u2013 e de maior resson\u00e2ncia at\u00e9 nossos dias \u2013 no imagin\u00e1rio de Pier Paolo Pasolini \u00e9 a de \u201cmuta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica\u201d. 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