{"id":308,"date":"2016-05-17T09:29:48","date_gmt":"2016-05-17T12:29:48","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=308"},"modified":"2016-05-12T11:32:37","modified_gmt":"2016-05-12T14:32:37","slug":"a-republica-dos-psicopatas-alemanha-1933-brasil-2016","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/05\/17\/a-republica-dos-psicopatas-alemanha-1933-brasil-2016\/","title":{"rendered":"A Rep\u00fablica dos Psicopatas (Alemanha, 1933 &#8211; Brasil, 2016)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Flavio Aguiar<\/strong> &#8211; Um tema das revoltas de 1968 na Alemanha foi a pergunta: &#8216;o que fizeram durante o nazismo?&#8217; No Brasil em breve perguntaremos &#8216;onde voc\u00ea estava em 2016?&#8217;.<\/p>\n<p>Claro est\u00e1 que nem a Alemanha de 1933, nem a It\u00e1lia de 1922, nem o Portugal salazarista ou a Espanha franquista se equiparam ao Brasil de 2016. Mas se pensarmos nas estruturas do que est\u00e1 acontecendo, sim, se equiparam, por analogia, no que toca \u00e0s din\u00e2micas ps\u00edquicas em jogo.<\/p>\n<p>No Brasil de hoje domina a desfa\u00e7atez escancarada dos golpistas &#8220;de cima&#8221;: Parlamento apalermado, dominado por uma quadrilha de rufi\u00f5es, liderada por um psicopata, Executivo nas m\u00e3os agora de um &#8220;sabonete&#8221;, como a gente dizia, e seboso, ainda por cima; um Judici\u00e1rio ocupado por ousados violadores de qualquer lei ou timoratos defensores das pr\u00f3prias rotas togas, n\u00e3o mais que isto; promotores p\u00fablicos que exercem a magistratura impunemente em proveito pr\u00f3prio e em defesa de privil\u00e9gios pol\u00edticos, como os coron\u00e9is de 54 e os generais de 64; delegados e policiais federais que exercem o poder do distintivo para intimidar os &#8220;conduzidos coercitivamente&#8221;; a m\u00eddia marrom, que se intitula &#8220;grande&#8221;, como sempre insuflando nos seus leitores, apesar de serem cada vez menos, o \u00f3dio, o preconceito, a mentira, baseada na ideia de que se a mentira \u00e9 suficientemente repetida ela vira verdade e, se n\u00e3o engana o tempo todo, engana por tempo suficiente para patrocinar os golpes que ela deseja \u2013 brancos ou sanguin\u00e1rios.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 isso que cola os anos de hoje no Brasil \u00e0 Alemanha de 1933 e anos seguintes. Pode at\u00e9 aproximar. O que cola, mesmo, s\u00e3o os processos que isso recolhe e deflagra. Inclusive os ps\u00edquicos.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica disseminada na Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e seus vazamentos alta e baixamente seletivos para a m\u00eddia galopeira do golpe, das &#8220;dela\u00e7\u00f5es premiadas&#8221;, induziu fortemente uma pr\u00e1tica disseminada entre a direita sequiosa de ter motivos para se livrar das pol\u00edticas de favorecimento do povo e da afirma\u00e7\u00e3o da soberania popular e nacional: as &#8220;agress\u00f5es premiadas&#8221;.<\/p>\n<p>Direitistas de todos os matizes, estimulados por jornalistas criminosos, passaram a estigmatizar o que viam como &#8220;objetos de descarrego&#8221;: a cor vermelha, os petistas, os que criticam a ditadura de 64, de repente comodamente reunidos debaixo do r\u00f3tulo: &#8220;corruptos&#8221;.\u00a0 Mais ou menos como se fazia com as bruxas de antanho ou os judeus de menos antigamente.<\/p>\n<p>O racioc\u00ednio \u00e9 mais ou menos assim: a m\u00eddia diz que alguns petistas foram corruptos; ent\u00e3o, todo o petista \u00e9 corrupto e todo o corrupto \u00e9 petista; se n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o interessa, porque n\u00f3s precisamos construir um bode expiat\u00f3rio vis\u00edvel, porque a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 algo mais dif\u00edcil de combater do que os petistas, que a gente pode cercar na rua, bater neles, insulta-los, a partir da cor vermelha, ou de seu retrato.<\/p>\n<p>E a gente pode fazer tudo com eles: se recusar a atender seus filhos, se formos m\u00e9dicos, insulta-los nas ruas, bater nos seus cachorros, expuls\u00e1-los de hospitais, de restaurantes, etc. Por que essa agress\u00e3o \u00e9 &#8220;premiada&#8221;? Porque ela \u00e9 impune. Com &#8220;eles&#8221;, voc\u00ea pode fazer o que quiser, nada vai acontecer.<\/p>\n<p>Pode extravasar, pode liberar seu \u00f3dio, seus preconceitos, tudo. Substitua as palavras &#8220;petista&#8221;, &#8220;esquerdista&#8221; etc., por &#8220;judeu&#8221;, &#8220;cigano&#8221;, &#8220;homossexual&#8221;, &#8220;social-democrata&#8221;, &#8220;liberal&#8221; &#8220;comunista&#8221; etc. \u2013 a estrutura \u00e9 a mesma. S\u00f3 que hoje, como na Alemanha de 1933, ningu\u00e9m est\u00e1 pensando no etc. Vamos a isso.<\/p>\n<p>H\u00e1 um romance que deveria ser lido nestes momentos. Infelizmente, n\u00e3o h\u00e1 tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas que eu conhe\u00e7a. Em alem\u00e3o, ele se chama <i>Jeder starbt f\u00fcr sich allein<\/i>, que pode ser traduzido mais ou menos por &#8220;Cada um morre sozinho e por si&#8221;, e \u00e9 de um autor chamado Hans Fallada, pseud\u00f4nimo de Rudolf Wilhelm Friedrich Ditzen (1893-1947). O autor teve outro romance traduzido, grande sucesso nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940, <i>Kleiner Mann &#8211; was nun?<\/i>, que Erico Verissimo, o tradutor, converteu em <i>E agora, seu mo\u00e7o?<\/i>, em 1937, e que agora tem uma nova edi\u00e7\u00e3o, <i>E agora, Z\u00e9 Ningu\u00e9m?<\/i><\/p>\n<p>Aquele romance ganhou dois nomes em diferentes vers\u00f5es para o ingl\u00eas: <i>Alone in Berlin<\/i> e <i>Every Man Dies Alone<\/i>. \u00c9 baseado na hist\u00f3ria real de um casal que, durante a Segunda Guerra, se dedicou a escrever cart\u00f5es postais antinazistas e a distribu\u00ed-los por pr\u00e9dios e ruas de Berlim, meio ao acaso.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram militantes pol\u00edticos. O que aconteceu a eles foi o trauma provocado pela morte do irm\u00e3o da mulher no front de batalha. Escreviam, sobretudo, que Hitler mentia, o regime era opressivo, o nazismo era insuport\u00e1vel. Foram pegos, condenados \u00e0 morte, executados. Depois da guerra, Fallada recebeu os informes sobre o caso e escreveu o romance em 24 dias, antes de morrer de causas naturais.<\/p>\n<p>No romance, o casal original (Otto e Elise Hampfel) se torna Otto e Anne Quangel, e o morto passa a ser seu filho. Ao seu lado, enfrentamos o mundo nazista, feito tanto da oper\u00edstica e bufa tragicidade de seus l\u00edderes (no Brasil de hoje dir\u00edamos, comicidade tr\u00e1gica) quanto da pequena mesquinhez das injusti\u00e7as cotidianas: as den\u00fancias, as agress\u00f5es contra judeus, a soberba dos que acham donos do espa\u00e7o, e assim por diante, tudo disfar\u00e7ado ou pintado com as cores de se acreditar na &#8220;limpeza da p\u00e1tria&#8221;, mais ou menos como hoje.<\/p>\n<p>Um detalhe importante \u00e9 que os cart\u00f5es do casal s\u00e3o, na verdade, in\u00f3cuos. Deixados em pr\u00e9dios privados ou p\u00fablicos, escrit\u00f3rios, reparti\u00e7\u00f5es, s\u00e3o entregues \u00e0 Gestapo assim que descobertos. Motivo: quem os descobre entra em p\u00e2nico, pela simples posse deles, e os &#8220;descarrega&#8221; de imediato para a pol\u00edcia pol\u00edtica. N\u00e3o basta, por exemplo, destru\u00ed-los: \u00e9 preciso dar mostra de &#8220;bom comportamento&#8221;. Gra\u00e7as ao que j\u00e1 se chamou de &#8220;medo ininterrupto&#8221;.<\/p>\n<p>Mas tem mais. O t\u00edtulo do romance s\u00f3 se explicita ao se considerar que, ao lado do casal Quangel, o outro protagonista \u00e9 o policial da Gestapo encarregado de elucidar o caso: o comiss\u00e1rio Escherich, um investigador civil que foi parar na <i>Geheime Staatspolizei<\/i>, mais conhecida por aquela sigla. At\u00e9 mesmo o n\u00famero de p\u00e1ginas da edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 \u00e9 equ\u00e2nime: 50% dedicadas ao casal e seu mundo, e 50% ao comiss\u00e1rio.<\/p>\n<p>Escherich \u00e9 um policial met\u00f3dico. Quer descobrir os autores do &#8220;crime&#8221; atrav\u00e9s do m\u00e9todo e da investiga\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica. Mas os seus chefes n\u00e3o. Querem a\u00e7\u00e3o, resultados imediatos, pancadaria eventualmente. Isso cria muitas tens\u00f5es para ele. Diga-se de passagem, que ele n\u00e3o tem a menor simpatia pelos criminosos que investiga. E tem simpatia por sua fun\u00e7\u00e3o, seu m\u00e9todo, seu car\u00e1ter de policial &#8220;correto&#8221;. Despreza a tortura, como &#8220;ineficaz&#8221;. Mas termina at\u00e9 se valendo dela, n\u00e3o para obter informa\u00e7\u00f5es, mas para satisfazer os chefes e continuar no caso.<\/p>\n<p>Com tal personagem, Fallada constr\u00f3i uma fina par\u00f3dia de um romance policial. O detetive \u00e9, na verdade, o criminoso, o agente do crime que vai ser cometido. Os supostos &#8220;criminosos&#8221; s\u00e3o, na verdade, as v\u00edtimas, e o que vamos assistir \u00e9 um &#8220;assassinato judicial&#8221;, perfeitamente dentro da lei, da ordem e dos bons costumes.<\/p>\n<p>Mais ou menos o que est\u00e1 acontecendo hoje no Brasil com a presidenta. A inocente vai para a fogueira, estilo Joana D\u2019Arc (capa do <i>Estad\u00e3o<\/i>, que acho que nem se deu conta da canoniza\u00e7\u00e3o que promoveu), a bandidagem \u00e9 que a condena &#8220;legalmente&#8221;. Al\u00e9m disto, o casal \u00e9 que \u00e9 descrito, naquele mundo, como &#8220;anormal&#8221;, &#8220;psic\u00f3tico&#8221;, &#8220;amea\u00e7ador&#8221;, desequilibrado, por desafiar os poderes vigentes ou por denegar seus ditames.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda algo mais profundo, que vemos no destino do policial, ao lado dos protagonistas da rebeldia. Para executar suas fun\u00e7\u00f5es, ele precisa construir uma carapa\u00e7a extremamente r\u00edgida que o proteja da realidade. No seu caso, isso nem se transforma em \u00f3dio, mas em desprezo em rela\u00e7\u00e3o a seus objetos, os investigados. Ele precisa construir uma nega\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da realidade, chamar de crime o que n\u00e3o \u00e9 crime, chamar de loucura o que \u00e9 raz\u00e3o, chamar de nada o que \u00e9 tudo, a humanidade dos supostos &#8220;criminosos&#8221;.<\/p>\n<p>Algo parecido acontece hoje com os que negam a exist\u00eancia de um golpe. Esgrimem uma m\u00e1-f\u00e9 que vai terminar por engoli-los. Uma parte vai esgrimir essa m\u00e1-f\u00e9 at\u00e9 o fim da vida, inutilizando sua capacidade de pensar, mais ou menos como acontece com os hoje &#8220;saudosos de 64&#8221;. Outra parte vai cair na ressaca, quando as trag\u00e9dias come\u00e7arem a ser vomitadas nas suas portas, inutilizando seu pensamento tamb\u00e9m por longo tempo. Qual ser\u00e1 o percentual de ambas as partes? Imposs\u00edvel saber.<\/p>\n<p>Escherich confronta seu destino em dois cap\u00edtulos. No primeiro, \u00e9 brutalizado por seus superiores por sua &#8220;inefici\u00eancia&#8221;. Apanha, rola escada abaixo, sangra. Para continuar no caso, desce mais um degrau na escala humana, denunciando um inocente como culpado, s\u00f3 para se manter no caso, que quer elucidar.<\/p>\n<p>No segundo, que \u00e9 o verdadeiramente demolidor, confronta-se com o verdadeiro &#8220;culpado&#8221;, Otto Quangel. O reconhecimento do quanto Quangel (que est\u00e1 longe de ser um her\u00f3i, \u00e9 muito mais um anti-her\u00f3i) manteve sua humanidade intacta \u00e9 insuport\u00e1vel para ele, e a constata\u00e7\u00e3o de que toda a nega\u00e7\u00e3o que construiu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade externa terminou por atingir sua realidade interna, corroendo-a e destruindo-a. E ele se mata. Seus superiores o consideram um mero &#8220;desertor&#8221;.<\/p>\n<p>Claro: trata-se de um romance. O policial real, que investigou o caso e descobriu o casal, chamado P\u00fcschel, sobreviveu \u00e0 guerra, mas depois dela desapareceu. Confinou-se a um anonimato. O que pode ter sido uma condena\u00e7\u00e3o pior do que o destino de Escherich, como personagem.<\/p>\n<p>Um outro aspecto a considerar est\u00e1 naquilo que chamei de &#8220;assassinato judicial&#8221;. Era o m\u00e9todo nazista, de Roland Freisler, mas n\u00e3o s\u00f3. Era tamb\u00e9m o do estalinista Andrei Vychinsky, e o de Joseph McCarthy. Consiste em fazer uma usurpa\u00e7\u00e3o de papeis, em que o &#8220;camisa nera&#8221; de Curitiba, os promotores do Minist\u00e9rio P\u00fablico, o Procurador Geral da Rep\u00fablica e at\u00e9 mesmo a PF se tornaram mestres, sen\u00e3o doutores. Assim: o juiz passa a ser promotor tamb\u00e9m; o promotor passa a ser juiz; o Procurador passa a ser tudo isto junto, e os policiais mais ainda. O parlamentar passa a ser carrasco antes do julgamento.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed qualquer um em mesa de restaurante, sagu\u00e3o de hospital ou meio da rua se arvora a ser tudo tamb\u00e9m, juiz, policial, promotor, j\u00fari, tudo. E se d\u00e1 o direito de vaiar, expulsar, bater\u2026 ou prender.<\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\"><b>Querem ver?<\/b><\/p>\n<p class=\"texto_detalhe\">Examinemos o comportamento do comandante da TAM que ontem (10) foi confrontado por manifestantes antigolpe de um lado, e uma reclama\u00e7\u00e3o por parte de dois deputados golpistas no voo, de outro. Que fez ele? Liberou os deputados e deteve as manifestantes at\u00e9 a chegada da PF, que as re-deteve por mais uma hora. Ou seja, ele julgou o caso, e deu senten\u00e7a. Libertou as &#8220;v\u00edtimas&#8221;, na verdade os culpados, deteve as &#8220;infratoras&#8221;, na verdade as v\u00edtimas de um estupro legal de seus direitos.<\/p>\n<p>Em conjunto, esse processo de nega\u00e7\u00e3o da realidade se volta primeiro para fora. Nega a realidade e a humanidade do outro. Mas ele tem um pre\u00e7o para dentro, que termina por ser cobrado. O psicopata cl\u00e1ssico \u00e9 o que volta ao local do crime porque acha que n\u00e3o foi ele que cometeu o crime ou que o que fez n\u00e3o foi um crime, embora dentro dele bruxuleie uma culpa que o arrasta \u00e0 autocondena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este psicopata pol\u00edtico do s\u00e9culo 21 brasileiro est\u00e1 assassinando o pa\u00eds que lhe deu ber\u00e7o e n\u00e3o vai ter para onde voltar. N\u00e3o sei qual destino antever, se o de Escherich ou o de P\u00fcschel. Que nenhum deles lhe seja leve.<\/p>\n<p>Aqui na Alemanha houve muitos P\u00fcschel. Tanto que um dos temas das revoltas de 1968 foi a pergunta: &#8220;Papai, mam\u00e3e, vov\u00f4, vov\u00f3, tio, tia, onde estavam e o que fizeram durante o nazismo?&#8221; Uma capa de sil\u00eancio envolvia tudo.<\/p>\n<p>Da mesma forma haver\u00e1 a pergunta: onde voc\u00eas estavam em 2016? E ela vai vir muito mais r\u00e1pido. Talvez no ano que vem.<\/p>\n<p>http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/A-Republica-dos-Psicopatas-Alemanha-1933-Brasil-2016-\/4\/36093<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Flavio Aguiar &#8211; Um tema das revoltas de 1968 na Alemanha foi a pergunta: &#8216;o que fizeram durante o nazismo?&#8217; No Brasil em breve perguntaremos &#8216;onde voc\u00ea estava em 2016?&#8217;. 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