{"id":3049,"date":"2017-02-11T15:30:58","date_gmt":"2017-02-11T17:30:58","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=3049"},"modified":"2017-02-11T14:35:36","modified_gmt":"2017-02-11T16:35:36","slug":"tortuosos-caminhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/02\/11\/tortuosos-caminhos\/","title":{"rendered":"Tortuosos caminhos"},"content":{"rendered":"<p><strong>C\u00c9SAR BENJAMIN<\/strong> &#8211; Aproveitando o ano eleitoral, o presidente Fernando Henrique anunciou o apoio do governo federal a um conjunto de medidas politicamente corretas, com destaque para o reconhecimento civil da uni\u00e3o de pessoas de mesmo sexo e a reserva, para negros, de 20% das vagas no servi\u00e7o p\u00fablico. A primeira medida, proposta h\u00e1 alguns anos pela ent\u00e3o deputada Marta Suplicy, \u00e9 um avan\u00e7o: duas pessoas adultas podem decidir quem desejam amar e com quem v\u00e3o viver, e qualquer uni\u00e3o est\u00e1vel deve ser geradora de direitos, respeitando-se a vontade expressa por ambas as partes. A mesma clareza n\u00e3o se aplica, a meu ver, \u00e0 segunda medida, tamb\u00e9m defendida por grande parte da esquerda. \u00c9 que o combate ao racismo frequentemente envereda por tortuosos caminhos.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do conceito de \u201cra\u00e7as humanas\u201d foi o empreendimento mais importante da ci\u00eancia europeia no s\u00e9culo XIX. Nessa \u00e9poca, uma parafern\u00e1lia de m\u00e9todos estat\u00edsticos e de sistemas de medi\u00e7\u00e3o de cada parte do corpo lan\u00e7ou as bases de uma antropologia f\u00edsica que tentou classificar os grandes grupos humanos de modos que estabeleciam correla\u00e7\u00f5es entre caracter\u00edsticas aparentes e aptid\u00f5es. O trabalho consumiu d\u00e9cadas, envolveu cientistas prestigiosos e produziu grande quantidade de resultados num\u00e9ricos aparentemente respeit\u00e1veis, com suas respectivas interpreta\u00e7\u00f5es. O sentido desse esfor\u00e7o era \u00f3bvio. Ele visava a estabelecer bases biol\u00f3gicas que legitimassem a expans\u00e3o colonial das pot\u00eancias europeias, ent\u00e3o em pleno vapor. O colonialismo passava a ser uma express\u00e3o da supremacia natural de povos mais aptos.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XX, com o desenvolvimento da gen\u00e9tica e da biologia molecular, o estudo do corpo humano ultrapassou larga- mente os aspectos morfol\u00f3gicos mais aparentes, como a cor da pele, que serviram de base para as classifica\u00e7\u00f5es anteriores. Passamos a comparar os organismos a partir do conhecimento de estruturas muito mais \u00edntimas e mais fundamentais. Os resultados demoliram as bases conceituais das pesquisas anteriores. Ficou demonstrado que, ao longo da evolu\u00e7\u00e3o, os grupos humanos conservaram uma semelhan\u00e7a espantosa. Compartilham a mesma heran\u00e7a, com varia\u00e7\u00f5es insignificantes.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as gen\u00e9ticas que se encontram entre duas pessoas escolhidas aleatoriamente em um mesmo grupo (dois nigerianos, por exemplo) n\u00e3o diferem estatisticamente das diferen\u00e7as existentes entre duas pessoas de distintos grupos (um nigeriano e um sueco, por exemplo). Do ponto de vista gen\u00e9tico e bioqu\u00edmico n\u00e3o se descobriu nenhum crit\u00e9rio v\u00e1lido para juntar e separar as pessoas. Criou-se um consenso de que as diferen\u00e7as observ\u00e1veis na linguagem, nos costumes, nos valores, nos atributos morais, nas atitudes est\u00e9ticas, etc., n\u00e3o s\u00e3o biologicamente determinadas.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o conceito de \u201cra\u00e7as humanas\u201d foi remetido ao museu onde est\u00e3o expostas \u00e0 galhofa as afirma\u00e7\u00f5es de que a Terra \u00e9 plana, de que habitamos o centro do Universo, de que os corpos graves tendem ao repouso e outras ideias que (des)organizaram o pensamento da humanidade ao longo da hist\u00f3ria. Afirmou-se, em seu lugar, a unidade essencial da nossa esp\u00e9cie. \u00c9 claro que isso n\u00e3o esgota o problema. Pois, apesar de cientificamente inepto \u2014 por n\u00e3o corresponder a nada que exista no mundo biol\u00f3gico \u2014, aquele conceito continua a existir como fato ideol\u00f3gico e cultural. Creio que pelo menos tr\u00eas motivos ajudam a entender por que este cad\u00e1ver permanece insepulto e continua a perambular pelo mundo.<\/p>\n<p>O primeiro: a classifica\u00e7\u00e3o de grupos humanos tendo como base a cor da pele (e outros atributos associados, como a forma do cabelo) \u00e9 vis\u00edvel aos olhos e, como tal, \u201cevidente\u201d. Brancos s\u00e3o brancos e negros s\u00e3o negros. Por\u00e9m, h\u00e1 muito tempo a ci\u00eancia aprendeu a desconfiar de \u201cevid\u00eancias\u201d. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 \u201cevidente\u201d que o Sol gira em torno da Terra? N\u00e3o \u00e9 \u201cevidente\u201d que a Terra \u00e9 plana? O processo de conhecimento \u00e9 sempre a supera\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias. O mesmo ocorreu neste caso. O que determina a cor de uma pessoa \u00e9 a quantidade de uma prote\u00edna, chamada melanina, que todos temos na pele. Assim, quando usamos a cor da pele como crit\u00e9rio de classifica\u00e7\u00e3o, estamos afirmando que as pessoas devem ser agrupadas e separadas conforme a quantidade de melanina que seu organismo produz. Mas a melanina \u00e9 apenas um dos 80 mil ou 100 mil (n\u00e3o se sabe muito bem) diferentes tipos de prote\u00ednas que comp\u00f5em nosso corpo. Surge a quest\u00e3o: por que ela, e n\u00e3o outra prote\u00edna qualquer, deve ser usada como refer\u00eancia?<\/p>\n<p>Seguindo essa trilha, a ci\u00eancia contempor\u00e2nea obteve resultados surpreendentes. Se usarmos a melanina como crit\u00e9rio classificador, os suecos Johansson e Peter pertencer\u00e3o a uma \u201cra\u00e7a\u201d, enquanto os nigerianos Kumbere e Tongo pertencer\u00e3o a outra. Mas, se usarem outra prote\u00edna qualquer, nada impede que Johansson e Kumbere integrem a mesma \u201cra\u00e7a\u201d, pela semelhan\u00e7a de sua composi\u00e7\u00e3o bioqu\u00edmica nesse aspecto, ao passo que Peter e Tongo integrem uma outra. O mesmo procedimento pode repetir-se quantas vezes se desejar, gerando infinitos rearranjos quando se lida com a humanidade como um todo. Havendo uma in- finidade de \u201cra\u00e7as\u201d poss\u00edveis, \u00e9 claro que n\u00e3o h\u00e1 \u201cra\u00e7a\u201d nenhuma.<\/p>\n<p>Um segundo motivo para a sobreviv\u00eancia ideol\u00f3gica desse conceito \u00e9 que tal classifica\u00e7\u00e3o, como outras, corresponde a interesses. Pois o ato de classificar \u00e9 tamb\u00e9m, necessariamente, um ato de hierarquizar: o grupo que inventa a classifica\u00e7\u00e3o ocupa, invariavelmente, o topo da escala. (Nenhuma classifica\u00e7\u00e3o reflete \u201co real\u201d; todas s\u00e3o inven\u00e7\u00f5es, mais \u00fateis ou menos \u00fateis.)<\/p>\n<p>O terceiro motivo \u00e9 um pouco chocante: a ideia de que existam ra\u00e7as humanas, dotadas de diferentes aptid\u00f5es, n\u00e3o contraria nenhuma lei da biologia. Portanto, n\u00e3o \u00e9 absurda. Quando popula\u00e7\u00f5es de uma mesma esp\u00e9cie se separam no espa\u00e7o e se reproduzem isoladas ao longo de muitas gera\u00e7\u00f5es, elas tendem a acumular diferen\u00e7as, que podem inscrever-se em seus c\u00f3digos gen\u00e9ticos e, no longo prazo, resultar em ra\u00e7as diferentes. Isso ocorreu em muitas esp\u00e9cies animais (pastores alem\u00e3es e pequineses s\u00e3o diferentes ra\u00e7as de uma mesma esp\u00e9cie) e tamb\u00e9m come\u00e7ou a ocorrer na esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>A partir de um contingente origin\u00e1rio da \u00c1frica, o <em>H<\/em><em>o<\/em><em>mo\u00a0<\/em><em>s<\/em><em>a<\/em><em>p<\/em><em>iens<\/em> se espalhou pelo mundo, e seus subgrupos come\u00e7aram a\u00a0acumular diferen\u00e7as. Se o isolamento demorasse muito mais tempo, provavelmente produziria \u201cra\u00e7as\u201d humanas. Mas, nossa esp\u00e9cie \u00e9 muito recente, e sua divis\u00e3o em subgrupos isolados n\u00e3o foi suficientemente longa. A humanidade cresceu, se multiplicou, se deslocou e ocupou todo o planeta. A hist\u00f3ria produziu logo um grande reencontro. Com ele, o interc\u00e2mbio gen\u00e9tico voltou a prevalecer amplamente, interrompendo a incipiente tend\u00eancia anterior. Reiniciou-se um processo de homogeneiza\u00e7\u00e3o, antes que se formassem ra\u00e7as diferentes. Nossa unidade humana fundamental \u00e9 um fato hist\u00f3rico, e n\u00e3o uma imposi\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica ou uma lei biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A fus\u00e3o de subgrupos humanos, acelerada na modernidade, foi mais radical no Brasil do que em qualquer outra parte do mundo. Sociedade recente, nascemos no exato momento em que o reencontro se acelerou. Dadas as caracter\u00edsticas da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa e nosso papel na divis\u00e3o mundial do trabalho, fomos levados a realizar um monumental processo de miscigena\u00e7\u00e3o, que predominou sobre outras tend\u00eancias. Processo, \u00e9 claro, assim\u00e9trico, como todos os demais, em uma sociedade de resto t\u00e3o desigual.<\/p>\n<p>Como resultado, n\u00e3o somos nem brancos, nem negros \u2014 somos mesti\u00e7os. Biol\u00f3gica e culturalmente mesti\u00e7os. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, a tentativa de constituir uma identidade baseada na \u201cra\u00e7a\u201d \u00e9 especialmente reacion\u00e1ria. A afirma\u00e7\u00e3o, que tantas vezes j\u00e1 ouvi, de que o Brasil \u00e9 o pa\u00eds mais racista do mundo \u00e9 uma pat\u00e9tica manifesta\u00e7\u00e3o de nosso esporte nacional favorito \u2014 falar mal de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Os elementos culturais e ideol\u00f3gicos racistas, que subsistem entre n\u00f3s, n\u00e3o interromperam nem conseguir\u00e3o interromper o processo de constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mesti\u00e7a, cuja unidade tem sido dada pela bela capacidade de criar e recriar uma cultura de s\u00edntese. Mesmo assim, aqueles elementos precisam ser combatidos. Mas, definir quotas ser\u00e1 o melhor caminho? Devemos fixar o que n\u00e3o \u00e9 fixo, separar o que n\u00e3o est\u00e1 separado? Quem \u00e9 negro e quem \u00e9 branco no Brasil? Onde est\u00e1 a fronteira entre ambos? E os brancos pobres, que s\u00e3o muitos, como ficam?<\/p>\n<p>Melhor do que copiar tamb\u00e9m nisso os Estados Unidos \u2014 uma sociedade multi\u00e9tnica, mas, ao contr\u00e1rio da nossa, n\u00e3o essencialmente mesti\u00e7a \u2014, seria, por exemplo, garantir uma escola p\u00fablica universal, gratuita e de boa qualidade, onde todas as crian\u00e7as convivessem juntas e recebessem a mesma educa\u00e7\u00e3o funda- mental. Crian\u00e7as que brincam em <em>p<\/em><em>l<\/em><em>a<\/em><em>y-grounds<\/em>, viajam em auto- m\u00f3veis vedados e estudam em escolas particulares, altamente seletivas, tendem a crescer com medo e raiva dos diferentes. Crian\u00e7as que frequentam espa\u00e7os p\u00fablicos e t\u00eam amigos de todas as cores dificilmente ser\u00e3o adultos racistas.<\/p>\n<p>Publicado em <em>C<\/em><em>a<\/em><em>r<\/em><em>os<\/em><em> Amigos<\/em> n. 63, junho de 2002. Este artigo iniciou uma pol\u00eamica que teve continua\u00e7\u00e3o em outro breve texto, intitulado \u201cRacismo\u00a0n\u00e3o\u201d, tamb\u00e9m publicado neste livro.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00c9SAR BENJAMIN &#8211; Aproveitando o ano eleitoral, o presidente Fernando Henrique anunciou o apoio do governo federal a um conjunto de medidas politicamente corretas, com destaque para o reconhecimento civil da uni\u00e3o de pessoas de mesmo sexo e a reserva, para negros, de 20% das vagas no servi\u00e7o p\u00fablico. 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