{"id":2971,"date":"2017-02-01T18:02:30","date_gmt":"2017-02-01T20:02:30","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2971"},"modified":"2017-02-01T17:51:30","modified_gmt":"2017-02-01T19:51:30","slug":"licoes-da-crise-do-sindicalismo-dos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/02\/01\/licoes-da-crise-do-sindicalismo-dos-eua\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es da crise do sindicalismo dos EUA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Reginaldo Moraes <\/strong>&#8211; O que os sindicatos brasileiros podem aprender com seus cong\u00eaneres norte-americanos sobre a organiza\u00e7\u00e3o do precariado e dos empregados terceirizados<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas hist\u00f3rias sobre o sindicalismo norte-americano. Algumas foram at\u00e9 popularizadas em filmes que mostram tra\u00e7os de gangsterismo, penetra\u00e7\u00e3o da m\u00e1fia etc. Mesmo quem conhece apenas superficialmente aquele mundo (me incluo neste universo), sabe da tradi\u00e7\u00e3o \u201capol\u00edtica\u201d dos sindicatos, do controle estrito que os \u201cstaffs\u201d de dirigentes \u201ct\u00e9cnicos\u201d mant\u00eam, subordinando a participa\u00e7\u00e3o e a mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores ao ritual das negocia\u00e7\u00f5es fechadas com o patronato.<\/p>\n<p>Nem t\u00e3o apol\u00edtico \u00e9 esse sindicalismo. Desde os anos 1930, quando a classe trabalhadora branca foi beneficiada pela legisla\u00e7\u00e3o de Franklin D. Roosevelt, os sindicatos t\u00eam sido um elemento fundamental nas coliga\u00e7\u00f5es do Partido Democrata. E desde os anos 1950, sobretudo, a central sindical AFL-CIO tem se alinhado fortemente com a pol\u00edtica externa norte-americana, nos seus tra\u00e7os mais imperialistas.<\/p>\n<p>A atitude \u201cnegociadora\u201d e desmobilizadora foi relativamente bem-sucedida nos chamados \u201cvinte e cinco anos gloriosos\u201d do p\u00f3s-guerra, o per\u00edodo em que o capitalismo norte-americano cresceu como nunca. As gigantescas corpora\u00e7\u00f5es ianques vendiam muito dentro do pa\u00eds e tamb\u00e9m no mercado externo, n\u00e3o apenas por meio da exporta\u00e7\u00e3o, mas pela implanta\u00e7\u00e3o de uma enorme rede de subsidi\u00e1rias de suas manufaturas em todo o mundo. A classe trabalhadora passou a ser integrada numa hipot\u00e9tica \u201cclasse m\u00e9dia\u201d por meio de um consumo sofisticado, de h\u00e1bitos e valores cuidadosamente cultivados pela m\u00eddia, pela publicidade e por uma \u201creligi\u00e3o da prosperidade\u201d e do sucesso individual. Comprava casa pr\u00f3pria, autom\u00f3veis, eletrodom\u00e9sticos, educa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Para aqueles que trabalhavam em grandes corpora\u00e7\u00f5es, o emprego era mais do que emprego, era uma carreira ascendente, de longa dura\u00e7\u00e3o, bons sal\u00e1rios e benef\u00edcios indiretos (plano de sa\u00fade e de previd\u00eancia, sobretudo). Farta bibliografia tem mostrado como as fr\u00e1geis pol\u00edticas p\u00fablicas de bem-estar dos EUA foram contornadas por uma esp\u00e9cie de \u201cEstado de bem-estar privado\u201d, organizado em torno do emprego nas grandes corpora\u00e7\u00f5es, um \u201cWelfare State\u201d dependente desse v\u00ednculo trabalhista. Tudo parecia indicar que, na p\u00e1tria do capital, a classe trabalhadora tinha encontrado seu lugar ao sol. Tranquilo, sem sustos. S\u00f3 que n\u00e3o.<\/p>\n<p>No fim dos anos 1960, havia sinais de rachaduras s\u00e9rias nesse edif\u00edcio. E nos anos 1970 explodiram an\u00e1lises fortes apontando para o \u201cdecl\u00ednio americano\u201d e o eventual surgimento de uma nova pot\u00eancia hegem\u00f4nica, o Jap\u00e3o. N\u00e3o vamos entrar no debate sobre o declinismo, se a decad\u00eancia era real e em qual medida, quais suas causas e fatores determinantes. Esse debate, ainda que relevante, nos desviaria de nosso tema imediato. O importante \u00e9 registrar que, de fato, o ch\u00e3o se movimentava no mercado de trabalho e tinha impactos decisivos na vida da classe trabalhadora e nos seus sindicatos.<\/p>\n<p>Desde a metade dos anos 1970, come\u00e7a uma fase de reformas macroecon\u00f4micas liberais (privatiza\u00e7\u00f5es, desregulamenta\u00e7\u00f5es) e de reengenharia das empresas. Fragmenta\u00e7\u00e3o, outsourcing e terceiriza\u00e7\u00f5es s\u00e3o acompanhadas de transplantes de f\u00e1bricas para lugares com menos sindicatos e menos legisla\u00e7\u00e3o, os estados do sul, primeiro, depois o M\u00e9xico, a \u00c1sia etc. E cidades industriais inteiras viraram o \u201ccintur\u00e3o da ferrugem\u201d.<\/p>\n<p>Cresceram cada vez mais os \u201cMacjobs\u201d, empregos tempor\u00e1rios e prec\u00e1rios, sem direitos e sem benef\u00edcios indiretos, mal remunerados, nos quais se amontoam jovens, mulheres e imigrantes. E cada vez mais claramente se constr\u00f3i quase uma ex-classe ou subclasse, a antiga \u201cwhite working class\u201d que um dia fora convencida de que era parte da \u201cclasse m\u00e9dia\u201d.<\/p>\n<p>Nesse terreno, os sindicatos \u201cnegociadores\u201d perderam terreno. Quase n\u00e3o t\u00eam o que nem como negociar. E cada vez mais assistem ao desaparecimento de suas bases de representa\u00e7\u00e3o, que escorrem entre os dedos dos dirigentes, acomodados e burocratizados. Em 1980, cerca de 25% dos trabalhadores eram sindicalizados, com percentual ainda maior na manufatura. Em 2010, o percentual havia baixado para perto de 12%. Na manufatura, a queda era ainda maior.<\/p>\n<p>Nesse quadro aparecem os primeiros sinais de renova\u00e7\u00e3o nos sindicatos e na AFL-CIO, que, em 1995, tem, pela primeira vez, uma chapa de oposi\u00e7\u00e3o vencendo a disputa. Os rachas e cis\u00f5es se sucedem. E nas tentativas de respostas \u00e0 crise econ\u00f4mica e ao d\u00e9ficit de representa\u00e7\u00e3o, surgem algumas pol\u00edticas de organiza\u00e7\u00e3o inovadoras, participacionistas. E v\u00e1rias delas apontam para a tentativa de ampliar as bases dos sindicatos atingindo os n\u00e3o organizados e os aparentemente \u201cn\u00e3o organiz\u00e1veis\u201d, os prec\u00e1rios, os tempor\u00e1rios, os imigrantes.<\/p>\n<p>As tentativas levam \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um sindicalismo de novo tipo, envolvido com movimentos populares e comunit\u00e1rios, o \u201csocial movementunionism\u201d. As iniciativas s\u00e3o emp\u00edricas, na base da tentativa e erro. Algumas perduram, outras desaparecem. E a maioria encontra um obst\u00e1culo relevante: atentam para o \u201corganizacionismo\u201d, a amplia\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o, mas nem sempre se d\u00e3o conta da dimens\u00e3o pol\u00edtica estrat\u00e9gica: a ado\u00e7\u00e3o de um posicionamento de classe, mais cr\u00edtico com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologia patronal e \u00e0s pol\u00edticas do Estado norte-americano.<\/p>\n<p>Mesmo as correntes renovadoras da AFL-CIO, p\u00f3s-1995, vacilam em se distanciar da pol\u00edtica globalista e hegemonista do Estado norte-americano e das corpora\u00e7\u00f5es. Ainda s\u00e3o hipnotizadas pela ideologia do capital e dos pol\u00edticos \u201cglobalistas\u201d do Partido Democrata.<\/p>\n<p>Nossas lideran\u00e7as e estrategistas sindicais poderiam aprender muita coisa com o \u201csocial movementunionism\u201d, a organiza\u00e7\u00e3o dos n\u00e3o-organizados e a politiza\u00e7\u00e3o das demandas para al\u00e9m dos limites corporativos da \u201ccategoria\u201d. T\u00e1 faltando um pouco de classe no nosso meio.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"odlIGe9SRB\"><p><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/brasil-debate\/licoes-da-crise-do-sindicalismo-dos-eua\/\">Li\u00e7\u00f5es da crise do sindicalismo dos EUA<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Li\u00e7\u00f5es da crise do sindicalismo dos EUA&#8221; &#8212; CartaCapital\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/brasil-debate\/licoes-da-crise-do-sindicalismo-dos-eua\/embed\/#?secret=odlIGe9SRB\" data-secret=\"odlIGe9SRB\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reginaldo Moraes &#8211; O que os sindicatos brasileiros podem aprender com seus cong\u00eaneres norte-americanos sobre a organiza\u00e7\u00e3o do precariado e dos empregados terceirizados H\u00e1 muitas hist\u00f3rias sobre o sindicalismo norte-americano. 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