{"id":2930,"date":"2018-01-16T09:25:55","date_gmt":"2018-01-16T11:25:55","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2930"},"modified":"2018-01-11T11:33:36","modified_gmt":"2018-01-11T13:33:36","slug":"estudo-mostra-papel-da-imprensa-na-manutencao-do-trafico-escravista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2018\/01\/16\/estudo-mostra-papel-da-imprensa-na-manutencao-do-trafico-escravista\/","title":{"rendered":"Estudo mostra papel da imprensa na manuten\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico escravista"},"content":{"rendered":"<p><strong>Reda\u00e7\u00e3o<\/strong> &#8211;\u00a0Pesquisa detalha a\u00e7\u00e3o de conservadores na pol\u00edtica e nos jornais pela continuidade da importa\u00e7\u00e3o de escravos<\/p>\n<p>Em 7 de novembro de 1831, no primeiro ano do per\u00edodo regencial, a Assembleia Geral decretou e a Reg\u00eancia sancionou uma lei proibindo o tr\u00e1fico de escravos africanos para o Brasil. A lei, bastante expl\u00edcita em seu\u00a0texto, declarava livres todos os escravos vindos de fora do Imp\u00e9rio e impunha penas bastante duras \u00e0queles que os haviam importado. A interpreta\u00e7\u00e3o corrente na historiografia \u00e9 a de que essa lei, precedida por um tratado com a Inglaterra que impunha prazo final para o tr\u00e1fico, foi feita \u201cpara ingl\u00eas ver\u201d, isto \u00e9, para acalmar a press\u00e3o externa e deixar internamente tudo na mesma.<\/p>\n<p>Tal ponto de vista foi contestado pelo livro\u00a0<em>Imprensa e escravid\u00e3o: pol\u00edtica e tr\u00e1fico negreiro no Imp\u00e9rio do Brasil (Rio de Janeiro, 1822-1850)<\/em>, de Alain El Youssef, publicado com o\u00a0apoio da Fapesp\u00a0(Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>\u201cAntes de a lei entrar em vigor, houve uma grande intensifica\u00e7\u00e3o da importa\u00e7\u00e3o de escravos, porque os senhores sabiam que a determina\u00e7\u00e3o da Reg\u00eancia em abolir o tr\u00e1fico era real. E, quando a lei foi aplicada, o tr\u00e1fico realmente entrou em curva descendente e quase terminou. Ele foi sendo retomado aos poucos, a partir de 1834 e 1835. O que eu procurei mostrar foi que a imprensa teve um papel fundamental nessa retomada. E n\u00e3o s\u00f3 na retomada, como tamb\u00e9m na manuten\u00e7\u00e3o desse tr\u00e1fico ilegal por cerca de 15 anos, at\u00e9 1850\u201d, disse Youssef \u00e0 Ag\u00eancia Fapesp.<\/p>\n<p>Seu livro resultou de\u00a0pesquisa\u00a0tamb\u00e9m apoiada pela Fapesp, na qual ele consultou todos os jornais publicados no Rio de Janeiro entre 1822, data da Independ\u00eancia, e 1850, data final do tr\u00e1fico negreiro transatl\u00e2ntico, para verificar qual o papel exercido pela imprensa, tanto na cr\u00edtica quanto na defesa da importa\u00e7\u00e3o de africanos. \u201cConstatei uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre os artigos publicados na imprensa e os debates realizados no parlamento imperial. Ao mesmo tempo em que defendiam o tr\u00e1fico no parlamento, os conservadores utilizavam os jornais para justificar o contrabando de escravos e combater aqueles que o criticavam\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>\u201cPercebi tamb\u00e9m uma grande sintonia entre a defesa do tr\u00e1fico veiculada pela imprensa e o desenvolvimento da economia cafeicultora \u2013 uma sintonia principalmente com os cafeicultores do Vale do Para\u00edba, cuja atividade estava em plena expans\u00e3o desde o final da d\u00e9cada de 1820. Para tocar essa expans\u00e3o, eles precisavam incorporar cada vez mais m\u00e3o de obra \u00e0s suas fazendas. Os conservadores se uniram a esses senhores, e, juntos, conseguiram transformar a lei que aboliu o tr\u00e1fico em letra morta durante 15 anos, desde 1835, quando esse grupo se comp\u00f4s e surgiu com for\u00e7a pol\u00edtica, at\u00e9 1850, data em que o tr\u00e1fico terminou de fato\u201d, informou o pesquisador.<\/p>\n<p>Segundo a lei de 1831, o africano que aportava em territ\u00f3rio brasileiro era considerado livre, n\u00e3o podendo, portanto, ser escravizado. O que Youssef evidenciou em seu estudo foi como os conservadores, por meio da imprensa, justificaram para o eleitorado a manuten\u00e7\u00e3o da propriedade ilegal desses africanos, escravizados a despeito da lei. \u201cA intersec\u00e7\u00e3o de minha pesquisa, focada na imprensa, com a de outro historiador,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/59908\/tamis-peixoto-parron\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">T\u00e2mis Peixoto Parron<\/a>, que estudou o debate sobre o tr\u00e1fico no parlamento imperial, mostra como esse grupo pr\u00f3-tr\u00e1fico, que atuava no parlamento, atuava na imprensa tamb\u00e9m, fazendo com que os discursos parlamentares chegassem ao restante da sociedade de forma mais r\u00e1pida, ampla e eficiente\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>No campo conservador, o campe\u00e3o da defesa do tr\u00e1fico foi o deputado Bernardo Pereira de Vasconcelos (1795 \u2013 1850), representante dos interesses dos grandes fazendeiros e um dos personagens mais influentes do per\u00edodo imperial. Destacou-se tamb\u00e9m na defesa do tr\u00e1fico a chamada \u201cTrindade Saquarema\u201d, que constitu\u00eda o n\u00facleo do Partido Conservador, fundado por volta de 1835 sob a denomina\u00e7\u00e3o de Regresso. Compunham a tr\u00edade Hon\u00f3rio Hermeto Carneiro Le\u00e3o (Marqu\u00eas de Paran\u00e1), Paulino Soares de Souza (Visconde de Uruguai) e Joaquim Jos\u00e9 Rodrigues Torres (Visconde de Itabora\u00ed). \u201cNa d\u00e9cada de 1830, esses conservadores aglutinaram-se em torno do jornal\u00a0O Sete d\u2019Abril, que mantinha v\u00ednculo muito estreito com Bernardo Pereira de Vasconcelos. Na d\u00e9cada de 1840, organizaram-se em torno do jornal\u00a0O Brasil, dirigido por Justiniano Jos\u00e9 da Rocha, um dos mais destacados redatores do per\u00edodo\u201d, detalhou Youssef.<\/p>\n<p>Exemplo do combate ideol\u00f3gico travado pelos conservadores na imprensa foi a \u201cnot\u00edcia\u201d, veiculada por\u00a0<em>O Sete d\u2019Abril<\/em>, acusando os advers\u00e1rios do tr\u00e1fico de receberem dinheiro do exterior: \u201cSaibam estes abalizados Pais da P\u00e1tria\u201d, escreveu o redator com ironia, \u201cque Governos estrangeiros, profundamente convencidos de que os produtos de suas col\u00f4nias n\u00e3o podem concorrer nos mercados com os brasileiros, e que n\u00e3o h\u00e1 outro meio sen\u00e3o encarecer a estes pelo alto pre\u00e7o de bra\u00e7os livres em vastos, f\u00e9rteis e n\u00e3o povoados Estados, t\u00eam resolvido remunerar os que promoverem a extin\u00e7\u00e3o da escravatura no Brasil com a quantia de 50:000$000 de r\u00e9is (\u2026)\u201d [O Sete d\u2019Abril, 03\/11\/1835, trecho citado no livro].<\/p>\n<p>Meses mais tarde, assumindo um tom \u00e9pico, o jornal clamava abertamente pela revoga\u00e7\u00e3o da lei que proibiu o tr\u00e1fico: \u201cFez-se uma lei 10 vezes mais dura, mais fatal mesmo que o famoso Tratado [com a Inglaterra]; lei que passou na efervesc\u00eancia das paix\u00f5es, no del\u00edrio da Revolu\u00e7\u00e3o, na exalta\u00e7\u00e3o dos Partidos, na desloca\u00e7\u00e3o de todas as coisas e no devaneio de todas as ideias; lei que pode produzir um inc\u00eandio em todo o Brasil; lei que anima a dela\u00e7\u00e3o, que d\u00e1 ao roubo a cor da virtude, ao crime o gesto da legalidade; falamos da lei de 7 de novembro de 1831, origem de muitos males presentes e futuros, e a cujo respeito j\u00e1 diversas Representa\u00e7\u00f5es subiram \u00e0 Assembleia Geral Legislativa e \u00e0 Assembleia Provincial do Rio de Janeiro\u201d [O Sete de Abril, 27\/07\/1836, trecho citado no livro]<\/p>\n<p>As for\u00e7as contr\u00e1rias ao tr\u00e1fico tiveram grande protagonismo no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1830, quando a importa\u00e7\u00e3o de escravos realmente caiu bastante. Esse grupo estava ligado ao Partido Moderado, surgido no fim do Primeiro Reinado, tendo \u00e0 frente o padre Diogo Ant\u00f4nio Feij\u00f3 (1784 \u2013 1843), que foi regente do Imp\u00e9rio, e o poeta, jornalista, livreiro e pol\u00edtico Evaristo da Veiga (1799 \u2013 1837), fundador e editor de\u00a0A Aurora Fluminense, um dos principais jornais da d\u00e9cada de 1830 no Brasil. \u201cParcela significativa dos moderados se inspirava fortemente nos abolicionistas brit\u00e2nicos. Naquele momento, a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o n\u00e3o fazia parte de seu horizonte de expectativas, mas seus protagonistas defenderam com unhas e dentes o fim do tr\u00e1fico e o cumprimento do tratado internacional e da lei nacional a esse respeito\u201d, destacou o pesquisador.<\/p>\n<p><strong>Influ\u00eancia inglesa<\/strong><\/p>\n<p>Entre 1849 e 1850, a frota da Royal Navy, a marinha real brit\u00e2nica, aportou no Rio de Janeiro, pressionando os pol\u00edticos brasileiros a acabarem de vez com o tr\u00e1fico negreiro. Existe um grande debate sobre as verdadeiras motiva\u00e7\u00f5es do firme posicionamento da Inglaterra contra o tr\u00e1fico. \u201cA explica\u00e7\u00e3o tradicional, de que a Inglaterra queria gerar um mercado para os seus produtos, e de que os escravos transformados em trabalhadores livres participariam da composi\u00e7\u00e3o da massa de consumidores, parece insuficiente\u201d, ponderou Youssef.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, seria necess\u00e1rio repensar as motiva\u00e7\u00f5es brit\u00e2nicas a partir de outros componentes, como, por exemplo, a forte influ\u00eancia das sociedades antiescravistas sobre a opini\u00e3o p\u00fablica brit\u00e2nica. A primeira delas, <em>The Anti-Slavery Society (Society for the Mitigation and Gradual Abolition of Slavery Throughout the British Dominions<\/em>), fundada em 1823 por William Wilberforce, Thomas Clarkson e outros, combateu pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no \u00e2mbito dos dom\u00ednios ingleses. E a <em>British and Foreign Anti-Slavery Society<\/em>, que resultou da reformula\u00e7\u00e3o da primeira, em 1839, ampliou o foco para a aboli\u00e7\u00e3o em escala mundial. Eram grupos humanit\u00e1rios, com forte motiva\u00e7\u00e3o religiosa, como bem o mostram alguns\u00a0documentos\u00a0da \u00e9poca.<\/p>\n<p>\u201cEm 1846, a Inglaterra decretou que todos os gr\u00e3os e produtos similares adquiridos no mercado mundial entrariam no territ\u00f3rio brit\u00e2nico sem pagamento de imposto. Essa lei, de cunho liberal, acabou incentivando algumas produ\u00e7\u00f5es escravistas em outros cantos do mundo. Os casos cl\u00e1ssicos foram o a\u00e7\u00facar, produzido com trabalho escravo em Cuba, e o caf\u00e9, produzido com trabalho escravo no Brasil. Diante disso, determinados grupos antiescravistas passaram a exigir que o pa\u00eds tomasse alguma iniciativa no campo militar, porque, pela via diplom\u00e1tica, estava claro que o tr\u00e1fico n\u00e3o terminaria. Como o escravismo cubano estava protegido pelos Estados Unidos, j\u00e1 ent\u00e3o uma na\u00e7\u00e3o poderosa, e com a qual a Inglaterra n\u00e3o queria conflito, a press\u00e3o brit\u00e2nica voltou-se para o Brasil, que n\u00e3o estava plenamente integrado \u00e0 esfera de influ\u00eancia norte-americana, n\u00e3o dispunha de um sistema militar expressivo e ainda orbitava fortemente na zona de influ\u00eancia inglesa\u201d, explicou o pesquisador.<\/p>\n<p>Que o tr\u00e1fico s\u00f3 tenha de fato terminado a partir da press\u00e3o militar brit\u00e2nica, quase duas d\u00e9cadas depois de sua aboli\u00e7\u00e3o formal, \u00e9 uma prova da for\u00e7a dos conservadores na pol\u00edtica interna brasileira. \u201cO que os saquaremas fizeram, e isso tem uma conex\u00e3o direta com sua atua\u00e7\u00e3o na imprensa, foi silenciar todas as opini\u00f5es contr\u00e1rias ao tr\u00e1fico nos espa\u00e7os p\u00fablicos do Imp\u00e9rio. Entre 1837 e 1849, eles criaram uma esp\u00e9cie de consenso e as vozes que tentaram se levantar contra ele foram rapidamente abafadas. Defender projetos conservadores \u00e9 um dado de longa dura\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria da imprensa brasileira. Os principais jornais do pa\u00eds apenas tiveram tend\u00eancia mais progressista em momentos hist\u00f3ricos espec\u00edficos, como na d\u00e9cada de 1880, quando o discurso abolicionista predominou na imprensa brasileira\u201d, concluiu Youssef.<\/p>\n<p>http:\/\/painelacademico.uol.com.br\/painel-academico\/8336-estudo-mostra-papel-da-imprensa-na-manutencao-do-trafico-escravista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reda\u00e7\u00e3o &#8211;\u00a0Pesquisa detalha a\u00e7\u00e3o de conservadores na pol\u00edtica e nos jornais pela continuidade da importa\u00e7\u00e3o de escravos Em 7 de novembro de 1831, no primeiro ano do per\u00edodo regencial, a Assembleia Geral decretou e a Reg\u00eancia sancionou uma lei proibindo o tr\u00e1fico de escravos africanos para o Brasil. 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