{"id":2911,"date":"2017-01-26T13:04:04","date_gmt":"2017-01-26T15:04:04","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2911"},"modified":"2017-01-25T13:06:58","modified_gmt":"2017-01-25T15:06:58","slug":"a-quem-serve-a-modernidade-liquida-de-bauman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/01\/26\/a-quem-serve-a-modernidade-liquida-de-bauman\/","title":{"rendered":"A quem serve a modernidade l\u00edquida de Bauman?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Zacarias Gama<\/strong> &#8211;\u00a0No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels (2007) afirmam que \u201ctudo que era est\u00e1vel e s\u00f3lido se desmancha no ar\u201d ao demonstrar que a solidez de uma era d\u00e1 lugar a novas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia e rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas em consequ\u00eancia de um movimento dialeticamente revolucion\u00e1rio. A burguesia, como classe revolucion\u00e1ria, n\u00e3o apenas revoluciona o modo de produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es sociais. Sua capacidade de imprimir constantes transforma\u00e7\u00f5es abala a estabilidade e solidez anteriores, imprime constantes transforma\u00e7\u00f5es e submete os seres humanos a um tempo transforma\u00e7\u00f5es e profana\u00e7\u00f5es. A nega\u00e7\u00e3o da ordem anterior abre-se a uma nova ordem de nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o. Todas as cadeias que precisavam ser despeda\u00e7adas, foram despeda\u00e7adas; tudo o que era est\u00e1vel e s\u00f3lido se esfumou para dar lugar a uma nova sociabilidade. Na perspectiva de Zygmunt Bauman a revolucionada modernidade \u00e9 l\u00edquida, ef\u00eamera e irreal. Qualquer tentativa de sua supera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 pior, um aut\u00eantico pastiche.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em sua obra Modernidade L\u00edquida (2001), Bauman, fil\u00f3sofo polon\u00eas rec\u00e9m falecido, atribuiu \u00e0 modernidade contempor\u00e2nea, \u00e0 p\u00f3s-modernidade, a mesma plasticidade dos l\u00edquidos. Ela \u00e9 \u201cleve, l\u00edquida e mais din\u00e2mica que a modernidade \u2018s\u00f3lida\u2019 que suplantou\u201d, flui, vaza, transborda, penetra lugares, contorna o todo e todos, tal como as ondas do mar. O indiv\u00edduo flui ao seu sabor e, ainda que podendo ser responsabilizado por suas a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es, \u00e9 livre para questionar e refletir, reclamar e reivindicar. Seu horizonte \u00e9 repleto de incont\u00e1veis oportunidades e realiza\u00e7\u00f5es; \u00e9 ele que escolhe os seus caminhos sem se preocupar com normas pr\u00e9-estabelecidas, com as metalinguagens, com os governos e l\u00edderes. O seu individualismo atinge a sua maior intensidade, particularmente quando acompanhado das compet\u00eancias de saber ser, estar, aprender e conviver, inclusive em ambientes virtuais complexos, emaranhados e fluidos. Como indiv\u00edduo multifuncional est\u00e1 livre para buscar a sua autorrealiza\u00e7\u00e3o sem ser tolhida por qualquer Grande Irm\u00e3o orwelliano. Todos devem ser igualmente livres para sentir, escolher, consumir e mover-se sem manipula\u00e7\u00f5es e frustra\u00e7\u00f5es. A fluidez do atual modo de produ\u00e7\u00e3o, desse capitalismo tardio, n\u00e3o obstante os seus graus de negatividade, permite que o indiv\u00edduo se capacite, potencialize e consiga com efici\u00eancia a sua autorrealiza\u00e7\u00e3o. As poss\u00edveis frustra\u00e7\u00f5es decorrem da multiplicidade de escolhas, possibilidades, caminhos e horizontes; os bons exemplos podem atenu\u00e1-las.<\/p>\n<p>&#8220;A modernidade l\u00edquida se move com rapidez, as persist\u00eancias se derretem e, como diz Sennett (2000), at\u00e9 o car\u00e1ter se deixa corroer. Os compromissos perdem for\u00e7a. A mobilidade no mundo do trabalho leva \u00e0 perda de la\u00e7os de amizade&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, por\u00e9m, lugares para os planos de longo prazo. A modernidade l\u00edquida se move com rapidez, as persist\u00eancias se derretem e, como diz Sennett (2000), at\u00e9 o car\u00e1ter se deixa corroer. Os compromissos perdem for\u00e7a. A mobilidade no mundo do trabalho leva \u00e0 perda de la\u00e7os de amizade. As hist\u00f3rias se constroem a cada novo posto de trabalho. Os colegas de trabalho s\u00e3o igualmente colaboradores com pequenos la\u00e7os de comprometimento com a empresa. A lealdade da modernidade s\u00f3lida gera desconfian\u00e7as nos locais de trabalho. Nestes tempos a flexibilidade dos contratos de trabalho ocasiona satisfa\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas como forma de supera\u00e7\u00e3o das inseguran\u00e7as. \u00c9 um tempo de carpe diem; pode ser que amanh\u00e3 tudo j\u00e1 seja tarde. O termo cloakroom, usado por Bauman, cont\u00e9m a ideia de indiv\u00edduos se fantasiando e assumindo comportamentos que variam conforme as ocasi\u00f5es espetaculares e durante os seus tempos de ocorr\u00eancia, apesar dos riscos de solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Bauman nos deixa em um m\u00eas de janeiro abrasador e sem transparecer o que nos espera de positivo ap\u00f3s a derrubada de uma Presidente legitimamente eleita, com mais de 54 milh\u00f5es de votos. Seu legado \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o bastante peculiar do mundo e serve para inclui-lo entre os todos outros grandes fil\u00f3sofos que interpretaram o mundo. Da mesma forma que outros criticou a raz\u00e3o, o Estado e a organiza\u00e7\u00e3o social da modernidade e lhes atribuiu graus de domestica\u00e7\u00e3o dos homens e dos seus instintos e criatividade. Tal legado, contudo, segue o mesmo curso de tantos outros que, como disse Perry Anderson (1999), tamb\u00e9m se \u201ctornou apan\u00e1gio da direita, do conservadorismo\u201d, [admitindo que] n\u00e3o podia haver nada mais que o capitalismo\u201d. Para Anderson, ali\u00e1s, o p\u00f3s-modernismo n\u00e3o vai al\u00e9m de \u201cuma senten\u00e7a contra as ilus\u00f5es alternativas\u201d. Uma senten\u00e7a igualmente imobilizante, que gera vazios, aus\u00eancias e alheamentos e \u00e9 incapaz de responder a quest\u00e3o relevante j\u00e1 levantada por Japiassu (2001): \u201ca quem compete a responsabilidade de pensar a sociedade mundial que se encontra em gesta\u00e7\u00e3o? \u201d<\/p>\n<p>O velho Marx de fato estava certo. N\u00e3o basta interpretar o mundo de maneiras diferentes. Deixar de pensar as formas de transform\u00e1-lo pode t\u00e3o somente gerar conforma\u00e7\u00f5es e conformismos. Afinal de contas, as performances moment\u00e2neas e passageiras da p\u00f3s-modernidade raramente v\u00e3o al\u00e9m do espet\u00e1culo in\u00f3cuo. Tudo se mant\u00e9m liquido servindo ideologicamente \u00e0 reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva do capitalismo tardio.<\/p>\n<p>http:\/\/carosamigos.com.br\/index.php\/artigos-e-debates\/8989-a-quem-serve-a-modernidade-liquida-de-bauman<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zacarias Gama &#8211;\u00a0No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels (2007) afirmam que \u201ctudo que era est\u00e1vel e s\u00f3lido se desmancha no ar\u201d ao demonstrar que a solidez de uma era d\u00e1 lugar a novas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia e rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas em consequ\u00eancia de um movimento dialeticamente revolucion\u00e1rio. 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