{"id":2871,"date":"2017-01-23T12:44:05","date_gmt":"2017-01-23T14:44:05","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2871"},"modified":"2017-01-12T19:39:06","modified_gmt":"2017-01-12T21:39:06","slug":"2871","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/01\/23\/2871\/","title":{"rendered":"A perman\u00eancia de Hannah Arendt"},"content":{"rendered":"<p><strong>M\u00c1RCIO FERRARI<\/strong> &#8211; Aos 110 anos de seu nascimento, os fundamentos lan\u00e7ados pela pensadora continuam f\u00e9rteis<\/p>\n<p>Passados 110 anos de seu nascimento, completados em 14 de outubro, e 41 anos de sua morte, a pensadora alem\u00e3 Hannah Arendt adquiriu <em>status<\/em> de autor cl\u00e1ssico e desfruta de consenso em torno da import\u00e2ncia de sua obra, segundo Celso Lafer, professor em\u00e9rito da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Lafer foi aluno de Hannah Arendt em 1965 na Universidade Cornell (Estados Unidos), \u00e9poca em que, segundo ele, a pensadora era conhecida, mas controversa, entre outros motivos, por seu diagn\u00f3stico da atua\u00e7\u00e3o de Adolf Eichmann, alto funcion\u00e1rio da Alemanha nazista encarregado da deporta\u00e7\u00e3o em massa de judeus para campos de concentra\u00e7\u00e3o. Para Arendt, o militar era como a pe\u00e7a de uma engrenagem, que agia sem os benef\u00edcios da raz\u00e3o e do pensamento, um homem comum, o que a levou a cunhar a express\u00e3o pela qual \u00e9 mais conhecida do grande p\u00fablico, \u201ca banalidade do mal\u201d.<\/p>\n<p>Sua reflex\u00e3o sobre o julgamento de Eichmann em Israel (1961) foi publicada primeiro como reportagem para a revista <em>New Yorker<\/em> e depois no livro <em>Eichmann em Jerusal\u00e9m<\/em> (1963). Arendt foi acusada de minimizar ou relativizar a crueldade do nazismo, sem que se percebesse a coer\u00eancia de uma obra que teve seu marco fundador no livro <em>As origens do totalitarismo<\/em> (1951), no qual descreveu os regimes nazista e stalinista como voltados para uma domina\u00e7\u00e3o absoluta e que n\u00e3o poderiam ser estudados com refer\u00eancias do passado, dadas suas caracter\u00edsticas in\u00e9ditas.<\/p>\n<p>\u00c9 essa coer\u00eancia, de acordo com Lafer, que hoje se reconhece e permite que sua obra produza reflex\u00f5es em artigos e livros publicados anualmente. O ex-aluno recorre \u00e0s condi\u00e7\u00f5es reunidas pelo cientista pol\u00edtico italiano Norberto Bobbio (1909-2004): sua obra \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o esclarecedora do s\u00e9culo XX, instiga cont\u00ednuas leituras e releituras, e seus conceitos se mant\u00eam v\u00e1lidos para entender o mundo atual. \u201cO que ela escreveu continua reverberando nos problemas com os quais nos defrontamos\u201d, afirma Lafer, ex-presidente da FAPESP.<\/p>\n<p>Os escritos de Arendt hoje n\u00e3o se restringem aos estudos exclusivos sobre teoria pol\u00edtica \u2013 que a pensadora reivindicava como sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o, rejeitando o ep\u00edteto de fil\u00f3sofa \u2013, mas se tornam ferramentas para pensar a educa\u00e7\u00e3o (<a href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/09\/23\/a-crianca-e-o-mundo\/?cat=humanidades\" target=\"_blank\"><em>ver<\/em> Pesquisa FAPESP <em>n\u00ba 247<\/em><\/a>), a condi\u00e7\u00e3o da mulher, as rela\u00e7\u00f5es internacionais ou as institui\u00e7\u00f5es norte-americanas (a pensadora viveu nos Estados Unidos de 1941 at\u00e9 sua morte, em 1975). \u201cO desafio que Hannah Arendt se imp\u00f4s foi como lidar com um mundo que perdeu os andaimes conceituais da tradi\u00e7\u00e3o, sem recorrer ao corrim\u00e3o de conceitos corro\u00eddos pela realidade\u201d, diz Lafer. \u201cVem da\u00ed a import\u00e2ncia da atividade do julgar, em toda sua complexidade, atentando para as singularidades de cada caso, sem subsumi-los a categorias universais.\u201d<\/p>\n<p>No lugar de conceitos utilizados de antem\u00e3o, Hannah Arendt prop\u00f4s a experi\u00eancia. Nesse aspecto, foi uma autora privilegiada para a abordagem dos direitos humanos. A pensadora viveu a situa\u00e7\u00e3o de ap\u00e1trida desde que, por ser judia, foi perseguida, presa e destitu\u00edda da nacionalidade alem\u00e3 pelo regime nazista, em 1937, at\u00e9 conseguir a nacionalidade norte-americana, em 1951. N\u00e3o \u00e9 por outro motivo que o Centro de Estudos Hannah Arendt, ligado \u00e0 Faculdade de Direito da USP, escolheu, como tema do col\u00f3quio dedicado a marcar os 110 anos do nascimento da pensadora, o tema <em>A quest\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es e os direitos humanos<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cEla era muito cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos direitos humanos estabelecidos pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa\u201d, diz Laura Mascaro, pesquisadora e coordenadora do centro, ao lado de Claudia Perrone-Mois\u00e9s, professora da Faculdade de Direito da USP. \u201cPara ela, esse conceito estaria vinculado ao pertencimento a um Estado e cessaria na medida em que estrangeiros n\u00e3o fossem mais \u00fateis ao pa\u00eds em que se encontravam, o que levaria ao acolhimento de imigrantes apenas de forma prec\u00e1ria.\u201d Surge da\u00ed o conceito do \u201cdireito a ter direitos\u201d, pr\u00f3prio de toda a humanidade e que deveria ser o fundamento de todo o direito internacional.<\/p>\n<p>Laura \u00e9, com os pesquisadores Luciana Garcia de Oliveira e Thiago Dias da Silva, a respons\u00e1vel pela tradu\u00e7\u00e3o dos artigos reunidos em <em>Escritos judaicos<\/em>, lan\u00e7ado este ano pela primeira vez no Brasil pela editora Manole. S\u00e3o ensaios a respeito de \u201cuma das poucas causas em que ela se engajou, a constru\u00e7\u00e3o da Palestina como um Estado federado binacional\u201d, e relacionados \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de direitos pelo povo judeu, destitu\u00eddo de p\u00e1tria ao longo de s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Segundo Laura, entre outros interesses atuais do texto, Hannah Arendt previa que, sem di\u00e1logos e acordos entre judeus e palestinos, al\u00e9m dos pa\u00edses vizinhos, Israel estaria destinado a se tornar um pa\u00eds em permanente estado de guerra. Sua proposta era a cria\u00e7\u00e3o de um Estado binacional judeu-palestino estruturalmente diferente dos Estados-na\u00e7\u00f5es europeus. Seria uma democracia fundada em governos locais aut\u00f4nomos formados por judeus e \u00e1rabes. As duas partes se organizariam para discutir os problemas comuns, em uma federa\u00e7\u00e3o vertical de diversos n\u00edveis de conselhos.<\/p>\n<p><strong>Mundo compartilhado<\/strong><br \/>\nA ideia da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por meio de um mundo compartilhado era cara a Hannah Arendt e fazia parte da preocupa\u00e7\u00e3o com a necessidade de ampliar a democracia dos Estados modernos. O principal fator para isso seria a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de todo ser humano. \u201cA a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica transborda a ideia de democracia representativa por n\u00e3o se restringir ao campo das inst\u00e2ncias definidas pelo direito\u201d, esclarece Andr\u00e9 Duarte, docente do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), estudioso da obra da alem\u00e3.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, o estudo da pensadora sobre o<em> modus operandi <\/em>do totalitarismo a fez detectar o estabelecimento da l\u00f3gica de uma ideia \u2013 no caso do nazismo, a superioridade ariana. Essa l\u00f3gica passa a ter condi\u00e7\u00e3o de premissa, o que leva o Estado a prescindir de outros fundamentos, e isso produz solid\u00e3o individualista e desconfian\u00e7a geral na sociedade. \u201cUm Estado n\u00e3o vinculado a fundamentos morais demandaria os espa\u00e7os de compartilhamento, no qual a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica constituiria sua pr\u00f3pria ess\u00eancia\u201d, afirma Duarte. Nem mesmo a liberdade seria uma finalidade em si, mas uma condi\u00e7\u00e3o para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Adriano Correia, professor de \u00e9tica e filosofia pol\u00edtica da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG), lembra que, para Arendt, a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica s\u00f3 se exerce por quem ama o mundo. \u201cUma pol\u00edtica que n\u00e3o \u00e9 amada pelos indiv\u00edduos n\u00e3o abre espa\u00e7o para a participa\u00e7\u00e3o\u201d, explica. Correia \u00e9 autor da revis\u00e3o t\u00e9cnica da nova edi\u00e7\u00e3o (a 13\u00aa) de <em>A condi\u00e7\u00e3o humana<\/em> (1958), lan\u00e7ada em outubro pelo selo Forense Universit\u00e1ria do Grupo Editorial Nacional (Gen), com introdu\u00e7\u00e3o da cientista pol\u00edtica inglesa Margaret Canovan, hoje aposentada. Segundo ele, um dos aspectos fundamentais do livro \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica da autora \u00e0s democracias modernas por terem promovido o primado da economia sobre o campo da pol\u00edtica. Embora Hannah Arendt tenha escrito o livro no per\u00edodo da Guerra Fria, observa Correia, ele tem sido mais discutido ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim (1989), em grande medida devido ao poder alcan\u00e7ado pelo capital internacional.<\/p>\n<p>A fil\u00f3sofa Yara Frateschi, do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp), considera o pensamento pol\u00edtico de Arendt continuamente f\u00e9rtil \u201cporque \u00e9 muito cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao funcionamento da sociedade, mas ao mesmo tempo interessado em seus potenciais\u201d. De acordo com a pesquisadora, a pensadora defende que \u00e9 preciso contrabalan\u00e7ar os conceitos universalistas com as diversidades, os contextos e as especificidades. \u201cPara ela, o universalismo por si s\u00f3 poderia se tornar um fantasma que perpetuaria injusti\u00e7as\u201d, conta.<\/p>\n<p>Segundo Yara, Arendt era uma entusiasta da desobedi\u00eancia civil e via os per\u00edodos revolucion\u00e1rios como prop\u00edcios a experi\u00eancias pol\u00edticas interessantes, mas rejeitava absolutamente a viol\u00eancia pol\u00edtica por ser \u201ca destrui\u00e7\u00e3o de pontes que propiciam a constru\u00e7\u00e3o de acordos e leis para uma vida comum \u2013 toda viol\u00eancia levaria ao perigo da dissolu\u00e7\u00e3o absoluta do indiv\u00edduo, como no totalitarismo\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/12\/16\/a-permanencia-de-hannah-arendt\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00c1RCIO FERRARI &#8211; Aos 110 anos de seu nascimento, os fundamentos lan\u00e7ados pela pensadora continuam f\u00e9rteis Passados 110 anos de seu nascimento, completados em 14 de outubro, e 41 anos de sua morte, a pensadora alem\u00e3 Hannah Arendt adquiriu status de autor cl\u00e1ssico e desfruta de consenso em torno da import\u00e2ncia de sua obra, segundo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2872,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[4],"tags":[23],"class_list":["post-2871","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teoria","tag-personalidade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - 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