{"id":285,"date":"2023-10-04T12:11:53","date_gmt":"2023-10-04T15:11:53","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=285"},"modified":"2023-10-02T19:25:04","modified_gmt":"2023-10-02T22:25:04","slug":"deus-nao-morreu-ele-tornou-se-dinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/10\/04\/deus-nao-morreu-ele-tornou-se-dinheiro\/","title":{"rendered":"\u201cDeus n\u00e3o morreu. Ele tornou-se Dinheiro\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Peppe Salv\u00e0<\/strong> &#8211;\u00a0Entrevista com Giorgio\u00a0Agamben<\/p>\n<p>\u201cO capitalismo \u00e9 uma religi\u00e3o, e a mais feroz, implac\u00e1vel e irracional religi\u00e3o que jamais existiu, porque n\u00e3o conhece nem reden\u00e7\u00e3o nem tr\u00e9gua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia \u00e9 o trabalho e cujo objeto \u00e9 o dinheiro\u201d, afirma\u00a0<strong>Giorgio Agamben<\/strong>, em entrevista concedida a\u00a0Peppe Salv\u00e0\u00a0e publicada por\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ragusanews.com\/articolo\/28021\/giorgio-agamben-intervista-a-peppe-sava-amo-scicli-e-guccione\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ragusa News<\/a>, 16-08-2012.<\/p>\n<p>Giorgio Agamben\u00a0\u00e9 um dos maiores fil\u00f3sofos vivos. Amigo de\u00a0Pasolini<strong>\u00a0<\/strong>e de\u00a0Heidegger,\u00a0foi definido pelo\u00a0<em>Times<strong>\u00a0<\/strong><\/em>e pelo\u00a0<em>Le Monde<\/em>\u00a0como uma das dez mais importantes cabe\u00e7as pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo per\u00edodo de f\u00e9rias em\u00a0Scicli, na Sic\u00edlia, It\u00e1lia, onde concedeu a entrevista.<\/p>\n<p>Segundo ele, \u201ca nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governabilidade que se define como democr\u00e1tica, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em\u00a0Atenas\u201d. Assim, \u201ca tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo,\u00a0 aquilo que at\u00e9 agora hav\u00edamos definido com a express\u00e3o, de resto pouco clara em si mesma, \u201cvida pol\u00edtica\u201d, afima\u00a0Agamben.<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de\u00a0<strong>Selvino\u00a0 J. Assmann<\/strong>, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina \u2013 UFSC [e tradutor de tr\u00eas das quatro obras de Agamben publicadas pela Boitempo], para o\u00a0site do\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/512966-giorgio-agamben\">Instituto Humanitas Unisinos<\/a><\/em>.<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p><strong>O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a \u00fanica sa\u00edda tanto da cat\u00e1strofe\u00a0 financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na It\u00e1lia. A convoca\u00e7\u00e3o de Monti era a \u00fanica sa\u00edda, ou poderia, pelo contr\u00e1rio, servir de pretexto para impor uma s\u00e9ria limita\u00e7\u00e3o \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cCrise\u201d e \u201ceconomia\u201d atualmente n\u00e3o s\u00e3o usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restri\u00e7\u00f5es que as pessoas n\u00e3o t\u00eam motivo algum para aceitar. \u201cCrise\u201d hoje em dia significa simplesmente \u201cvoc\u00ea deve obedecer!\u201d. Creio que seja evidente para todos que a chamada \u201ccrise\u201d j\u00e1 dura dec\u00eanios e nada mais \u00e9 sen\u00e3o o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.<\/p>\n<p>Para entendermos o que est\u00e1 acontecendo, \u00e9 preciso tomar ao p\u00e9 da letra a ideia de<strong>\u00a0<\/strong>Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo \u00e9, realmente, uma religi\u00e3o, e a mais feroz, implac\u00e1vel e irracional religi\u00e3o que jamais existiu, porque n\u00e3o conhece nem reden\u00e7\u00e3o nem tr\u00e9gua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia \u00e9 o trabalho e cujo objeto \u00e9 o dinheiro.\u00a0 Deus n\u00e3o morreu, ele se tornou Dinheiro.\u00a0 O Banco \u2013 com os seus cinzentos funcion\u00e1rios e especialistas \u2013 assumiu\u00a0 o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o cr\u00e9dito (at\u00e9 mesmo o cr\u00e9dito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a f\u00e9 \u2013 a escassa, incerta confian\u00e7a \u2013 que o nosso tempo ainda traz consigo. Al\u00e9m disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religi\u00e3o, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atr\u00e1s: \u201csalvar o euro a qualquer pre\u00e7o\u201d. Isso mesmo, \u201csalvar\u201d \u00e9 um termo religioso, mas o que significa \u201ca qualquer pre\u00e7o\u201d? At\u00e9 ao pre\u00e7o de \u201csacrificar\u201d vidas humanas? S\u00f3 numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirma\u00e7\u00f5es t\u00e3o evidentemente absurdas e desumanas.<\/p>\n<p><strong>A crise econ\u00f4mica que amea\u00e7a levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condi\u00e7\u00e3o de crise de toda a modernidade?<\/strong><\/p>\n<p>A crise atravessada pela Europa n\u00e3o \u00e9 apenas um problema econ\u00f4mico, como se gostaria que fosse vista, mas \u00e9 antes de mais nada uma crise da rela\u00e7\u00e3o com o passado. O conhecimento do passado \u00e9 o \u00fanico caminho de acesso ao presente. \u00c9 procurando compreender o presente que os seres humanos \u2013 pelo menos n\u00f3s, europeus \u2013 s\u00e3o obrigados a interrogar o passado.\u00a0 Eu disse \u201cn\u00f3s, europeus\u201d, pois me parece que, se admitirmos que a palavra \u201cEuropa\u201d tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, n\u00e3o pode ser nem pol\u00edtico, nem religioso e menos ainda econ\u00f4mico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu \u2013 \u00e0 diferen\u00e7a, por exemplo, dos asi\u00e1ticos e dos americanos, para quem a hist\u00f3ria e o passado t\u00eam um significado completamente diferente \u2013 pode ter acesso \u00e0 sua verdade unicamente atrav\u00e9s de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O passado n\u00e3o \u00e9, pois, apenas um patrim\u00f4nio de bens e de tradi\u00e7\u00f5es, de mem\u00f3rias e de saberes, mas tamb\u00e9m e sobretudo um componente antropol\u00f3gico essencial do homem europeu, que s\u00f3 pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Da\u00ed nasce a rela\u00e7\u00e3o especial que os pa\u00edses europeus (a\u00a0It\u00e1lia, ou melhor, a\u00a0Sic\u00edlia, sob este ponto de vista \u00e9 exemplar) t\u00eam com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas cidades, \u00e0s suas obras de arte, \u00e0 sua paisagem: n\u00e3o se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e dispon\u00edveis; trata-se, isso sim, da pr\u00f3pria realidade da Europa, da sua indispon\u00edvel sobreviv\u00eancia. Neste sentido, ao destru\u00edrem, com o cimento, com\u00a0 as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores n\u00e3o nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa pr\u00f3pria identidade. A pr\u00f3pria express\u00e3o \u201cbens culturais\u201d \u00e9 enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse poss\u00edvel liquidar e por \u00e0 venda a pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos, um fil\u00f3sofo que tamb\u00e9m era um alto funcion\u00e1rio da Europa nascente,\u00a0Alexandre Koj\u00e8ve, afirmava que o\u00a0<em>homo sapiens<\/em>\u00a0havia chegado\u00a0 ao fim de sua hist\u00f3ria e j\u00e1 n\u00e3o tinha nada diante de si a n\u00e3o ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade p\u00f3s-hist\u00f3rica (encarnado pela\u00a0<em>american way of life<\/em>) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerim\u00f4nias do ch\u00e1, esvaziadas, por\u00e9m, de qualquer significado hist\u00f3rico). Entre uma<strong>\u00a0<\/strong>Am\u00e9rica do Norte\u00a0integralmente re-animalizada e um\u00a0Jap\u00e3o<strong>\u00a0<\/strong>que s\u00f3 se mant\u00e9m humano ao pre\u00e7o de renunciar a todo conte\u00fado hist\u00f3rico, a\u00a0Europa<strong>\u00a0<\/strong>poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da hist\u00f3ria, porque \u00e9 capaz de confrontar-se com a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria na sua totalidade e capaz de alcan\u00e7ar, a partir deste confronto, uma nova vida.<\/p>\n<p><strong>A sua obra mais conhecida, <em>Homo Sacer<\/em>, pergunta pela rela\u00e7\u00e3o entre poder pol\u00edtico e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual \u00e9 o ponto de media\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre os dois p\u00f3los?<\/strong><\/p>\n<p>Minhas investiga\u00e7\u00f5es mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separa\u00e7\u00e3o entre vida nua (a vida biol\u00f3gica, que, na\u00a0Gr\u00e9cia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi exclu\u00edda da pol\u00edtica e, ao mesmo tempo, foi inclu\u00edda e capturada atrav\u00e9s da sua exclus\u00e3o. Neste sentido, a vida nua \u00e9 o fundamento negativo do poder. Tal separa\u00e7\u00e3o atinge sua forma extrema na biopol\u00edtica moderna, na qual o cuidado e a decis\u00e3o sobre a vida nua se tornam aquilo que est\u00e1 em jogo na pol\u00edtica. O que aconteceu nos estados totalit\u00e1rios do s\u00e9culo XX reside no fato de que \u00e9 o poder (tamb\u00e9m na forma\u00a0 da ci\u00eancia) que decide, em \u00faltima an\u00e1lise, sobre o que \u00e9 uma vida humana e sobre o que ela n\u00e3o \u00e9. Contra isso, se trata de pensar numa pol\u00edtica das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separ\u00e1vel da sua forma, que jamais seja vida nua.<\/p>\n<p><strong>O mal-estar, para usar um eufemismo, com que\u00a0 o ser humano comum se p\u00f5e frente ao mundo da pol\u00edtica tem a ver especificamente com a\u00a0 condi\u00e7\u00e3o italiana ou \u00e9 de algum modo inevit\u00e1vel?<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAcredito que atualmente estamos frente a um fen\u00f4meno novo que vai al\u00e9m do desencanto e da desconfian\u00e7a rec\u00edproca entre os cidad\u00e3os e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que est\u00e1 acontecendo \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o radical das categorias com que est\u00e1vamos acostumados a pensar a pol\u00edtica. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democr\u00e1tica, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em\u00a0Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais\u00a0 econ\u00f4mico e funcional \u00e9 provado pelo fato de que foi adotado tamb\u00e9m por aqueles regimes que at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s eram ditaduras. \u00c9 mais simples manipular a opini\u00e3o das pessoas atrav\u00e9s da m\u00eddia e da televis\u00e3o do que dever impor em cada oportunidade as pr\u00f3prias decis\u00f5es com a viol\u00eancia. As formas da pol\u00edtica por n\u00f3s conhecidas \u2013 o Estado nacional, a soberania, a participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, os partidos pol\u00edticos, o direito internacional \u2013 j\u00e1 chegaram ao fim da sua hist\u00f3ria. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a pol\u00edtica tem hoje a forma de uma \u201ceconomia\u201d, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que at\u00e9 agora hav\u00edamos definido com a express\u00e3o, de resto pouco clara em si mesma, \u201cvida pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p><strong>O estado de exce\u00e7\u00e3o, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o car\u00e1ter de normalidade, mas os cidad\u00e3os ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. \u00c9 poss\u00edvel atenuar esta sensa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos h\u00e1 dec\u00eanios num estado de exce\u00e7\u00e3o que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia\u00a0 em que a crise se tornou a condi\u00e7\u00e3o normal. O estado de exce\u00e7\u00e3o \u2013 que deveria sempre ser limitado no tempo \u2013 \u00e9, pelo contr\u00e1rio, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democr\u00e1ticos. Poucos\u00a0 sabem que as normas introduzidas, em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a, depois do\u00a011 de setembro\u00a0(na It\u00e1lia j\u00e1 se havia come\u00e7ado a partir dos anos de chumbo) s\u00e3o piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de\u00a0Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exce\u00e7\u00e3o que nunca foi revogado. E certamente ele n\u00e3o dispunha das possibilidades de controle (dados biom\u00e9tricos, videoc\u00e2meras, celulares, cart\u00f5es de cr\u00e9dito) pr\u00f3prias dos estados contempor\u00e2neos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidad\u00e3o um terrorista virtual. Isso n\u00e3o pode sen\u00e3o piorar e tornar imposs\u00edvel\u00a0 aquela participa\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas pra\u00e7as e cujas estradas s\u00e3o controladas por videoc\u00e2meras n\u00e3o \u00e9 mais um lugar p\u00fablico: \u00e9 uma pris\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A\u00a0 grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder pol\u00edtico poder\u00e1 trazer-nos esperan\u00e7as de que, dizendo-o de forma banal,\u00a0 o futuro ser\u00e1 melhor do que o presente?<br \/>\n<\/strong><br \/>\nOtimismo e pessimismo n\u00e3o s\u00e3o categorias \u00fateis para pensar. Como escrevia\u00a0Marx<strong>\u00a0<\/strong>em carta a\u00a0Ruge: \u201ca situa\u00e7\u00e3o desesperada da \u00e9poca em que vivo me enche de esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p><strong>Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a aula que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclus\u00e3o que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indica\u00e7\u00e3o\u00a0 de como sair do xeque-mate no qual a arte contempor\u00e2nea est\u00e1 envolvida.<br \/>\n<\/strong><br \/>\nTrata-se de uma homenagem a\u00a0Piero Guccione\u00a0e a\u00a0Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situa\u00e7\u00e3o da arte hoje em dia \u00e9 talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na rela\u00e7\u00e3o com o passado, de que acabamos de falar. O \u00fanico lugar em que o passado pode viver \u00e9 o presente, e se o presente n\u00e3o sente mais o pr\u00f3prio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado \u00e9 a figura eminente, se tornam lugares problem\u00e1ticos. Em uma sociedade\u00a0 que j\u00e1 n\u00e3o sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a\u00a0Cila\u00a0do museu e a\u00a0Caribdis\u00a0da mercantiliza\u00e7\u00e3o. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que s\u00e3o os museus de arte contempor\u00e2nea, as duas coisas coincidem.<\/p>\n<p>Duchamp\u00a0talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem sa\u00edda em que a arte se meteu. O que faz\u00a0Duchamp\u00a0quando inventa o\u00a0<em>ready-made<\/em>? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanit\u00e1rio, e, introduzindo-o num museu, o for\u00e7a a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente \u2013 a n\u00e3o ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa \u2013 na realidade nada alcan\u00e7a aqui a presen\u00e7a: nem a obra, pois se trata de um\u00a0 objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a opera\u00e7\u00e3o art\u00edstica, porque n\u00e3o h\u00e1 de forma alguma uma\u00a0<em>poiesis<\/em>, produ\u00e7\u00e3o \u2013 e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um ir\u00f4nico nome falso o vaso sanit\u00e1rio n\u00e3o age como artista, mas, se muito, como fil\u00f3sofo ou cr\u00edtico, ou, conforme gostava de dizer\u00a0Duchamp, como \u201calgu\u00e9m que respira\u201d, um simples ser vivo.<\/p>\n<p>Em todo caso, certamente ele n\u00e3o queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercantiliza\u00e7\u00e3o. \u00a0Voc\u00eas sabem: o que de fato aconteceu \u00e9 que um conluio, infelizmente ainda ativo, de h\u00e1beis especuladores e de \u201cvivos\u201d transformou o\u00a0<em>ready-mad<\/em>e em obra de arte. E a chamada arte contempor\u00e2nea nada mais faz do que repetir o gesto de\u00a0Duchamp, enchendo com n\u00e3o-obras e performances em museus, que s\u00e3o meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, que, assim como o dinheiro, j\u00e1 alcan\u00e7aram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o da arte contempor\u00e2nea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: \u201cDeus n\u00e3o morreu. Ele tornou-se Dinheiro\u201d | Entrevista com Giorgio Agamben \u2013 Blog da Boitempo &#8211; https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2012\/08\/31\/deus-nao-morreu-ele-tornou-se-dinheiro-entrevista-com-giorgio-agamben\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peppe Salv\u00e0 &#8211;\u00a0Entrevista com Giorgio\u00a0Agamben \u201cO capitalismo \u00e9 uma religi\u00e3o, e a mais feroz, implac\u00e1vel e irracional religi\u00e3o que jamais existiu, porque n\u00e3o conhece nem reden\u00e7\u00e3o nem tr\u00e9gua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia \u00e9 o trabalho e cujo objeto \u00e9 o dinheiro\u201d, afirma\u00a0Giorgio Agamben, em entrevista concedida a\u00a0Peppe Salv\u00e0\u00a0e publicada por\u00a0Ragusa News, 16-08-2012. 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