{"id":2708,"date":"2017-03-17T09:37:15","date_gmt":"2017-03-17T12:37:15","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2708"},"modified":"2017-03-15T12:33:33","modified_gmt":"2017-03-15T15:33:33","slug":"neoliberalismo-a-ideologia-por-tras-de-todos-os-nossos-problemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2017\/03\/17\/neoliberalismo-a-ideologia-por-tras-de-todos-os-nossos-problemas\/","title":{"rendered":"Neoliberalismo, a ideologia por tr\u00e1s de todos os nossos problemas"},"content":{"rendered":"<p><strong>George Monbiot<\/strong> &#8211; Retra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, desastres ambientais e at\u00e9 a ascens\u00e3o de Donald Trump\u200a\u2014\u200ao neoliberalismo desempenhou seu papel em tudo isso. Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil surgir\u00a0uma alternativa?<\/p>\n<p>Imagine se a popula\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica nunca tivesse ouvido falar sobre comunismo. A ideologia que domina nossas vidas, para a maior parte de n\u00f3s, n\u00e3o tem nome. Mencione-a em uma conversa e far\u00e3o cara de interroga\u00e7\u00e3o para voc\u00ea. Mesmo que sua plateia tenha ouvido o termo antes, ela ter\u00e1 trabalho para defini-lo. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 <strong>neoliberalismo<\/strong>?<\/p>\n<p id=\"1291\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Sua anonimidade \u00e9 um sintoma e a causa de seu poder. Ele fez seu papel e um n\u00famero memor\u00e1vel de crises: a de 2007\/2008, a transfer\u00eancia internacional de riqueza e poder, da qual os Panama Papers foram apenas uma amostra, o lento colapso da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, o ressurgimento das crian\u00e7as pobres, a epidemia de solid\u00e3o, o colapso de ecossistemas, a ascens\u00e3o de Donald Trump. Mas reagimos a essas crises como se elas surgissem isoladamente, aparentemente sem saber que todas foram catalisadas ou agravadas pela mesma filosofia, que tem\u200a\u2014\u200aou tinha\u200a\u2014\u200aum nome. Existe poder maior do que operar anonimamente?<\/p>\n<p id=\"4493\">O neoliberalismo se tornou t\u00e3o onipresente que quase nunca o reconhecemos como ideologia. Parecemos aceitar a ideia de que essa f\u00e9 ut\u00f3pica e milenar descreve uma for\u00e7a neutra; uma esp\u00e9cie de lei biol\u00f3gica, como a Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o de Darwin. Mas a filosofia emergiu como uma tentativa consciente de remodelar a vida humana e deslocar o locus do poder.<\/p>\n<p id=\"173a\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">O neoliberalismo v\u00ea a competi\u00e7\u00e3o como a caracter\u00edstica que define as rela\u00e7\u00f5es humanas. Ele define cidad\u00e3os como consumidores, cujas escolhas democr\u00e1ticas s\u00e3o melhor exercidas ao comprar e vender, um processo que premia o m\u00e9rito e pune a inefici\u00eancia. Tamb\u00e9m sustenta a ideia de que \u201co mercado\u201d proporciona benef\u00edcios que nunca seriam alcan\u00e7ados por meio de planejamento.<\/p>\n<p id=\"e8dd\">Tentativas de limitar a competi\u00e7\u00e3o s\u00e3o tratadas como inimigas da liberdade. Impostos e regulamenta\u00e7\u00f5es precisam ser minimizados e servi\u00e7os p\u00fablicos, privatizados. A organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e a negocia\u00e7\u00e3o coletiva pelos sindicatos s\u00e3o retratadas como distor\u00e7\u00f5es do mercado que impedem a forma\u00e7\u00e3o de uma hierarquia natural entre vencedores e perdedores. A desigualdade \u00e9 transformada em virtude: um pr\u00eamio pela utilidade e uma geradora de riqueza, que se espalha para enriquecer a todos. Esfor\u00e7os para criar uma sociedade mais igualit\u00e1ria s\u00e3o contraproducentes e moralmente corrosivos. O mercado garante que todos tenham aquilo que mere\u00e7am.<\/p>\n<p id=\"1206\" class=\"graf graf--p graf-after--p\">Internalizamos e reproduzimos as cren\u00e7as neoliberais. Os ricos convencem a si mesmos de que adquiriram a riqueza por meio do m\u00e9rito, ignorando as vantagens\u200a\u2014\u200acomo educa\u00e7\u00e3o, heran\u00e7a e classe social\u200a\u2014\u200aque podem ter ajudado a conquist\u00e1-la. Os pobres come\u00e7am a culpar a si mesmos por suas falhas, mesmo quando podem fazer muito pouco para mudar suas realidades.<\/p>\n<p id=\"522a\">Sem contar o desemprego estrutural: se voc\u00ea n\u00e3o tem um emprego, \u00e9 porque \u00e9 incapaz. Sem contar os custos imposs\u00edveis de moradia: se o cart\u00e3o de cr\u00e9dito est\u00e1 estourado, voc\u00ea \u00e9 irrespons\u00e1vel e sem for\u00e7a de vontade. Sem contar que seus filhos n\u00e3o ter\u00e3o mais quadras esportivas na escola: se eles engordarem, a culpa \u00e9 sua. Em um mundo governado pela competi\u00e7\u00e3o, aqueles que falham s\u00e3o denominados e autodenominados como perdedores.<\/p>\n<p id=\"e481\">Entre os resultados, como Paul Verhaeghe relata em seu livro What about me? (E quanto a mim?, em tradu\u00e7\u00e3o livre),\u00a0est\u00e3o a epidemia de automutila\u00e7\u00e3o, os transtornos alimentares, a depress\u00e3o, a solid\u00e3o, a ansiedade e a fobia social (um artigo da Voyager sobre esse problema voc\u00ea pode conferir aqui). Talvez n\u00e3o surpreenda\u00a0que a Gr\u00e3-Bretanha, onde a ideologia neoliberal tem sido rigorosamente aplicada, seja\u00a0a capital europeia da solid\u00e3o. Todos somos neoliberais agora.<\/p>\n<div id=\"hr_288116540\">\n<h2>* * *<\/h2>\n<\/div>\n<section>\n<p id=\"7235\">O termo neoliberal foi cunhado em uma reuni\u00e3o em Paris, em 1938. Entre os participantes, estavam dois homens que posteriormente definiram a ideologia: Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Ambos eram exilados da \u00c1ustria e viam a socialdemocracia, exemplificada pelo New Deal, de Franklin Roosevelt, e o desenvolvimento gradual do Estado de bem-estar social brit\u00e2nico como manifesta\u00e7\u00f5es de coletivismo que ocupavam o mesmo espectro que o nazismo e o comunismo.<\/p>\n<p id=\"c91a\">Em O Caminho da Servid\u00e3o, publicado em 1944, Hayek argumentou que o planejamento governamental, ao esmagar o individualismo, levaria inexoravelmente ao controle totalit\u00e1rio. Assim como o livro Bureaucracy, de Mises, a obra de Hayek citada acima\u00a0foi amplamente lida. Chamaram a aten\u00e7\u00e3o de algumas pessoas muito ricas, que viram naquela filosofia uma oportunidade de se livrar de regulamenta\u00e7\u00e3o e de impostos. Quando, em 1947, Hayek fundou a primeira organiza\u00e7\u00e3o que divulgaria a doutrina neoliberal\u200a\u2014\u200a a Sociedade Mont Pelerin\u200a\u2014\u200aela foi financiada por milion\u00e1rios e suas funda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com a ajuda desses financiadores, Hayek come\u00e7ou a criar o que Daniel Stedman descreve, em Masters of the Universe,\u00a0como \u201cum tipo de neoliberalismo internacional\u201d: uma rede transatl\u00e2ntica de acad\u00eamicos, pessoas de neg\u00f3cios, jornalistas e ativistas. Os patrocinadores abastados do movimento fundaram uma s\u00e9rie de thinktanks que ajudariam a refinar e a promover a ideologia. Entre eles, est\u00e3o o American Enterprise Institute, a Heritage Foundation, o Catho Institute, o Institute of Economic Affairs, o Centre for Policy Studies e o Adam Smith Institute. Eles tamb\u00e9m financiaram cadeiras e departamentos acad\u00eamicos, especialmente nas universidades de Chicago e da Virg\u00ednia.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/15031759\/CON6055.jpg?resize=640%2C427\" width=\"640\" height=\"427\" \/><em>Kim Kataguiri, do MBL, com o empres\u00e1rio Jorge Gerdau: o surgimento do MBL est\u00e1 ligado diretamente a think tanks neoliberais, mais especificamente a Atlas Network, dos irm\u00e3os Koch<\/em><\/p>\n<p id=\"7a6c\">\u00c0 medida que evoluiu, o neoliberalismo se tornou mais estridente. A opini\u00e3o de Hayek de que governos devem regulamentar a concorr\u00eancia para evitar monop\u00f3lios deu lugar\u200a\u2014\u200aentre ap\u00f3stolos como Milton Friedman\u200a\u2014\u200a\u00e0 cren\u00e7a de que o poder oriundo do monop\u00f3lio poderia ser visto como um reconhecimento pela efici\u00eancia.<\/p>\n<p id=\"c64a\">Algo aconteceu durante essa transi\u00e7\u00e3o: o movimento perdeu o nome. Em 1951, Friedman ficava satisfeito ao se descrever como neoliberal. Mas, pouco depois, o termo come\u00e7ou a desaparecer. Estranhamente, mesmo que a ideologia tenha se tornado mais n\u00edtida e o movimento mais coerente, o nome perdido n\u00e3o foi substitu\u00eddo por uma alternativa.<\/p>\n<p id=\"c723\">A princ\u00edpio, apesar da abund\u00e2ncia de seu financiamento, o neoliberalismo permaneceu como ideia secund\u00e1ria. O consenso do p\u00f3s-guerra era universal: o receitu\u00e1rio econ\u00f4mico de John Maynard Keynes foi amplamente adotado, o pleno emprego e a redu\u00e7\u00e3o da pobreza eram objetivos em comum entre Estados Unidos e a maior parte da Europa ocidental. Os percentuais do topo da tabela de impostos eram altos e os governos n\u00e3o se constrangiam em ter em vista resultados sociais, desenvolvendo novos servi\u00e7os p\u00fablicos e redes de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p id=\"ba53\">Em 1970, no entanto, quando as pol\u00edticas keynesianas come\u00e7aram a ruir e as crises econ\u00f4micas atingiram os dois lados do Atl\u00e2ntico, as ideias neoliberais come\u00e7aram a ficar em voga. Como salientado por Friedman, \u201cquando chegar o momento em que for necess\u00e1rio mudar(\u2026) existe uma alternativa pronta para ser usada\u201d. Com a ajuda de jornalistas simp\u00e1ticos \u00e0 ideia e conselheiros pol\u00edticos, elementos do neoliberalismo, especialmente suas recomenda\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica monet\u00e1ria, foram adotados por Jimmy Carter, nos Estados Unidos e por Jim Callaghan, na Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>Depois que Margareth Thatcher e Ronald Reagan assumiram o poder, o restante do pacote foi adotado: redu\u00e7\u00e3o massiva de impostos para os ricos, esmagamento dos sindicatos, desregulamenta\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o, outsourcing e concorr\u00eancia em servi\u00e7os p\u00fablicos. Por meio do FMI, Banco Mundial, Tratado de Maastricht e Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, as pol\u00edticas neoliberais foram impostas\u200a\u2014\u200afrequentemente sem consentimento democr\u00e1tico\u200a\u2014\u200aem grande parte do mundo. O mais not\u00e1vel foi sua ado\u00e7\u00e3o entre partidos que antes pertenciam \u00e0 esquerda: o Partido Trabalhista (Reino Unido) e os Democratas (EUA), por exemplo. Como observa Stedman, \u201c\u00e9 dif\u00edcil pensar em outra utopia t\u00e3o completamente implementada\u201d.<\/p>\n<div id=\"hr_643121103\">\n<p>* * *<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/a\/a6\/Nation_150th_in_Seattle_-_Naomi_Klein_05A_%2822198412286%29_%282%29.jpg\" width=\"200\" height=\"260\" \/><\/p>\n<p><em>A escritora, jornalista e ativista canadense Naomi Klein<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p id=\"8fad\">Pode parecer estranho que uma doutrina que incentiva o poder de escolha e a liberdade tenha sido promovida com o slogan \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d. Mas, como dito por Hayek em uma visita a Pinochet, no Chile\u200a\u2014\u200aum dos primeiros pa\u00edses em que o programa foi completamente aplicado\u200a\u2014\u200a\u201cminha prefer\u00eancia pende mais a uma ditadura liberal que a um governo democr\u00e1tico desprovido de liberalismo\u201d. A liberdade oferecida pelo neoliberalismo, que parece t\u00e3o atraente quando descrita em termos gerais, se revela uma liberdade para os peixes gra\u00fados, n\u00e3o para os pequenos.<\/p>\n<\/section>\n<section>\n<div>\n<div>\n<p>Estar livre de sindicatos e de negocia\u00e7\u00f5es coletivas significa liberdade para diminuir sal\u00e1rios. Estar livre de regulamenta\u00e7\u00e3o significa liberdade para poluir rios, colocar em perigo os trabalhadores, impor lucros abusivos e fazer engenharia financeira. Estar livre de impostos significa estar livre da distribui\u00e7\u00e3o de riqueza que tira as pessoas da pobreza.<\/p>\n<p>Como Naomi Klein documenta em The Shock Dotrine (A Doutrina do Choque, em tradu\u00e7\u00e3o livre), te\u00f3ricos neoliberais defenderam o uso de crises para impor pol\u00edticas impopulares enquanto a popula\u00e7\u00e3o estivesse distra\u00edda, como ap\u00f3s o golpe de Pinochet, a guerra do Iraque e o \u00a0furac\u00e3o Katrina, que Friedman descreveu como \u201cuma oportunidade de reformar radicalmente o sistema educacional\u201d em Nova Orleans.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/ditadura-pinochet.jpg?resize=640%2C322\" sizes=\"auto, (max-width: 1052px) 100vw, 1052px\" srcset=\"http:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/ditadura-pinochet.jpg 1052w, http:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/ditadura-pinochet-300x151.jpg 300w, http:\/\/voyager1.net\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/ditadura-pinochet-768x387.jpg 768w\" alt=\"Ditadura Pinochet\" width=\"640\" height=\"322\" \/><em>Naomi Klein relata que te\u00f3ricos neoliberais defenderam o uso de crises, como o p\u00f3s-golpe de Pinochet, para impor pol\u00edticas impopulares enquanto a popula\u00e7\u00e3o estivesse distra\u00edda<\/em><\/p>\n<p id=\"2d9f\">Nos lugares onde as pol\u00edticas neoliberais n\u00e3o podem ser impostas domesticamente, s\u00e3o impostas internacionalmente por meio de disputas comerciais que incorporam a \u201csolu\u00e7\u00e3o de controv\u00e9rsias entre investidores e Estado\u201d: tribunais estrangeiros em que as corpora\u00e7\u00f5es podem pressionar pela remo\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00f5es sociais e ambientais. Quando os parlamentos votaram para restringir a venda de cigarro, proteger o abastecimento de \u00e1gua das empresas de minera\u00e7\u00e3o, congelar as contas de energia ou impedir as empresas farmac\u00eauticas de extorquir o Estado, as empresas moveram processos, muitas vezes bem-sucedidos. A democracia ficou reduzida a teatro.<\/p>\n<p>Outro paradoxo do neoliberalismo \u00e9 que a competi\u00e7\u00e3o global se baseia na quantifica\u00e7\u00e3o e na compara\u00e7\u00e3o universal. O resultado \u00e9 que os trabalhadores, os candidatos a postos de trabalho e os servi\u00e7os de todo tipo est\u00e3o sujeitos a um tipo de avalia\u00e7\u00e3o e monitoramento mesquinho e sufocante, destinado a identificar os vencedores e punir os perdedores. A doutrina proposta por Mises, que nos livraria do pesadelo burocr\u00e1tico de um planejamento central, na verdade, criou um.<\/p>\n<p id=\"8b56\">O neoliberalismo n\u00e3o foi concebido como um esquema de extors\u00e3o, mas rapidamente se tornou um. O crescimento econ\u00f4mico tem sido, de maneira not\u00f3ria, mais lento na era neoliberal (desde 1980, na Inglaterra e nos Estados Unidos) do que nas d\u00e9cadas anteriores. Mas n\u00e3o para os muito ricos. A desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o de renda e de riqueza, depois de 60 anos de decl\u00ednio, aumentou rapidamente nesta era, em virtude do enfraquecimento dos sindicatos, da redu\u00e7\u00e3o de impostos, do aumento dos ganhos com renda, da privatiza\u00e7\u00e3o e da desregulamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o ou a comercializa\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos como fornecimento de energia, \u00e1gua, metr\u00f4 e trens urbanos, educa\u00e7\u00e3o, estradas e pris\u00f5es permitiram \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es colocar ped\u00e1gios na frente de ativos essenciais e cobrar aluguel pelo uso, seja pelos cidad\u00e3os ou pelo governo. Rentabilidade \u00e9 outro nome para um dinheiro que n\u00e3o vem do trabalho. Quando se paga um pre\u00e7o exagerado por uma passagem de metr\u00f4, apenas parte da tarifa remunera os operadores pelo valor gasto em combust\u00edvel, sal\u00e1rios, estoque operacional e outros gastos. O restante vem do fato de voc\u00ea n\u00e3o ter escolha.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-RyIq45e3ZJQ\/WDyUUfheqYI\/AAAAAAAAAYo\/NrFSRN2ErzUkH5_8vDbu-Dl2BVYHlt5vwCLcB\/s1600\/cslim.jpg?resize=640%2C213&#038;ssl=1\" width=\"640\" height=\"213\" \/><em>No M\u00e9xico, Carlos Slim obteve o controle de quase todo o servi\u00e7o de telefonia fixa e m\u00f3vel, e logo se tornou o homem mais rico do mundo<\/em><\/p>\n<p id=\"e4d6\">Aqueles que s\u00e3o donos e operam os servi\u00e7os privatizados ou semi-privatizados do Reino Unido fazem enormes fortunas ao investir pouco e cobrar muito. Na R\u00fassia e na \u00cdndia, oligarcas adquiriram ativos do Estado por meio de leil\u00f5es. No M\u00e9xico, Carlos Slim obteve o controle de quase todo o servi\u00e7o de telefonia fixa e m\u00f3vel, e logo se tornou o homem mais rico do mundo.<\/p>\n<p id=\"23a0\">A financeiriza\u00e7\u00e3o, como observada por Andrew Sayer em Why We Can\u2019t Afford the Rich (Por que n\u00e3o podemos bancar os ricos, em tradu\u00e7\u00e3o livre), teve impacto similar. \u201cComo alugu\u00e9is\u201d, argumenta, \u201cjuros s\u00e3o rendimentos que se acumulam sem nenhum esfor\u00e7o\u201d. \u00c0 medida que pobres ficam mais pobres e ricos ficam mais ricos, os ricos adquirem um controle crescente sobre outro ativo essencial: o dinheiro. O pagamento de juros, esmagadoramente, \u00e9 uma transfer\u00eancia de dinheiro dos pobres para os ricos. Como os pre\u00e7os dos im\u00f3veis e a retirada do financiamento estatal enchem as pessoas de d\u00edvidas (pense na mudan\u00e7a de bolsas de estudos por empr\u00e9stimos educacionais), bancos e seus executivos t\u00eam ganhos substanciais.<\/p>\n<p id=\"8d0f\">Sayer argumenta que as \u00faltimas quatro d\u00e9cadas t\u00eam se caracterizado pela transfer\u00eancia de riqueza n\u00e3o apenas dos pobres para os ricos, mas entre os pr\u00f3prios ricos: daqueles que lucram produzindo bens ou servi\u00e7os para aqueles que lucram controlando ativos j\u00e1 existentes e colhendo rendimentos, juros e ganhos de capital. A receita produtiva foi substitu\u00edda pela receita n\u00e3o produtiva.<\/p>\n<p id=\"af6f\">Pol\u00edticas neoliberais s\u00e3o acometidas em toda parte por fracassos de mercado. Agora, n\u00e3o apenas os bancos s\u00e3o grandes demais para falhar, como tamb\u00e9m as corpora\u00e7\u00f5es encarregadas em fornecer servi\u00e7os p\u00fablicos. Conforme\u00a0Tony Judt apontou, em Ill Fares the Land, Hayek esqueceu de que n\u00e3o se pode permitir que servi\u00e7os nacionais de vital import\u00e2ncia entrem em colapso, o que significa que a concorr\u00eancia n\u00e3o pode seguir seu curso natural. Os neg\u00f3cios ficam com os lucros e o Estado, com os riscos.<\/p>\n<p id=\"2d4a\">Quanto maior o fracasso, mais extremista se torna a ideologia. Governos utilizam crises neoliberais tanto como desculpa quanto como oportunidade para cortar impostos, privatizar os servi\u00e7os p\u00fablicos remanescentes, diminuir a teia de prote\u00e7\u00e3o social, desregulamentar corpora\u00e7\u00f5es e regulamentar novamente os cidad\u00e3os. O Estado auto-odioso crava seus dentes em cada \u00f3rg\u00e3o do setor p\u00fablico.<\/p>\n<p id=\"7e7c\">Talvez o impacto mais perigoso do neoliberalismo n\u00e3o sejam as crises econ\u00f4micas que ele causa, mas as crises pol\u00edticas. \u00c0 medida que o poder do Estado \u00e9 diminu\u00eddo, nossa habilidade de mudar o rumo de nossas vidas por meio do voto tamb\u00e9m retrai. Em vez disso, a teoria neoliberal assegura que as pessoas possam expressar suas escolhas por meio do consumo. Mas algumas pessoas t\u00eam mais dinheiro para gastar do que outras. Na democracia do consumidor ou do acionista, os votos n\u00e3o s\u00e3o distribu\u00eddos igualmente. O resultado \u00e9 a perda de poder dos pobres e da classe m\u00e9dia. \u00c0 medida que partidos de direita e anteriormente de esquerda adotam pol\u00edticas neoliberais semelhantes, a perda de poder se transforma em perda de direitos. Um grande n\u00famero de pessoas tem sido exclu\u00eddo da pol\u00edtica.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-BoJOYYD1Mes\/WDyWuTSmHSI\/AAAAAAAAAY0\/aC5RPDzqQGEgoabIK4WfL9yx5zDtYbWiACLcB\/s1600\/trumpence.jpeg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" width=\"640\" height=\"427\" \/><em>Slogans, s\u00edmbolos e sensa\u00e7\u00f5es\u2026 Donald Trump<\/em><\/p>\n<section>\n<div>\n<div>\n<p id=\"0f77\">Chris Hedges observa que \u201cos movimentos fascistas constru\u00edram suas bases n\u00e3o a partir das pessoas politicamente ativas, mas das inativas, os \u2018derrotados\u2019 que sentem, \u00e0s vezes corretamente, que n\u00e3o t\u00eam voz ou um papel na pol\u00edtica\u201d. Quando o debate pol\u00edtico n\u00e3o dialoga conosco, as pessoas se tornam suscet\u00edveis a slogans, s\u00edmbolos e sensa\u00e7\u00f5es. Aos admiradores de Trump, por exemplo, fatos e argumentos parecem irrelevantes.<\/p>\n<p id=\"5680\">Judt explica que, quando a intera\u00e7\u00e3o predominante entre as pessoas e o Estado foi transformada em nada al\u00e9m de autoridade e obedi\u00eancia, a \u00faltima for\u00e7a que nos unia era\u00a0o poder do Estado. \u00c9 mais prov\u00e1vel que o totalitarismo temido por Hayek surja quando os governos, ao perder a autoridade moral oriunda da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos, sejam reduzidos a \u201cencurralar, amea\u00e7ar e, finalmente, for\u00e7ar as pessoas a obedec\u00ea-los\u201d.<\/p>\n<div id=\"hr_626641372\">\n<h2>* * *<\/h2>\n<\/div>\n<p>Do mesmo modo que o comunismo, o neoliberalismo \u00e9 uma divindade que fracassou. Mas a doutrina ap\u00e1tica ainda rasteja, e um dos motivos \u00e9 seu anonimato. Ou melhor, um conjunto de anonimatos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<section>\n<div>\n<div>\n<p id=\"6d21\">A doutrina invis\u00edvel da m\u00e3o invis\u00edvel \u00e9 promovida por patrocinadores an\u00f4nimos. Muito lentamente, come\u00e7amos a descobrir os nomes de alguns deles. Descobrimos que o Institute of Economic Affairs, que tem discutido veementemente na m\u00eddia contra a regulamenta\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de tabaco, \u00e9 financiado secretamente pela British American Tobacco desde 1963. Descobrimos que Charles e David Koch, dois dos homens mais ricos do mundo, fundaram o instituto que iniciou o movimento do Tea Party. Descobrimos que Charles Koch, ao criar um de seus thinktanks, disse que \u201cpara evitar cr\u00edticas indesej\u00e1veis, n\u00e3o se deve dar ampla divulga\u00e7\u00e3o ao modo como a organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 controlada e administrada\u201d.<\/p>\n<p id=\"2914\">Frequentemente, as palavras utilizadas pelo neoliberalismo mais ofuscam do que esclarecem. \u201cO mercado\u201d parece um sistema natural que atua em n\u00f3s igualmente, como a gravidade ou a press\u00e3o atmosf\u00e9rica. Mas ele \u00e9 repleto de rela\u00e7\u00f5es de poder. O \u201cdesejo do mercado\u201d tende a significar o que corpora\u00e7\u00f5es e seus chefes desejam. \u201cInvestimento\u201d, como observa Sayer, significa duas coisas bastante diferentes: uma \u00e9 o financiamento de atividades produtivas e \u00fateis \u00e0 sociedade; a outra \u00e9 a compra de ativos j\u00e1 existentes para extrair deles rendimentos, juros, dividendos e ganhos de capital. Usar o mesmo nome para atividades distintas \u201ccamufla as fontes de riqueza\u201d, nos fazendo confundir extra\u00e7\u00e3o de riqueza com gera\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/p>\n<p id=\"d16c\">Um s\u00e9culo atr\u00e1s, os novos ricos eram desaprovados por herdeiros de grandes fortunas. Empreendedores buscavam aceita\u00e7\u00e3o social fazendo-se passar por rentistas. Hoje, a rela\u00e7\u00e3o se inverteu: rentistas e herdeiros se travestem de empreendedores. Eles alegam ter produzido a pr\u00f3pria riqueza.<\/p>\n<p id=\"aefd\">Esses anonimatos e confus\u00f5es se encaixam com perfei\u00e7\u00e3o \u00e0 aus\u00eancia de nomes e lugares do capitalismo moderno: o modelo de franquias que assegura que funcion\u00e1rios n\u00e3o saibam para quem eles trabalham; as empresas registradas por meio de uma teia de offshores t\u00e3o complexa que nem a pol\u00edcia consegue descobrir os reais benefici\u00e1rios; os arranjos tribut\u00e1rios que tapeiam os governos; os produtos financeiros que ningu\u00e9m entende.<\/p>\n<p id=\"970f\">O anonimato do neoliberalismo \u00e9 ferozmente assegurado. Os influenciados por Hayek, Mises e Friedman tendem a rejeitar o termo, alegando\u200a\u2014\u200acom alguma raz\u00e3o\u200a\u2014\u200aque hoje ele \u00e9 utilizado pejorativamente. Mas n\u00e3o oferecem um substituto. Alguns descrevem a si mesmos como liberais cl\u00e1ssicos ou libert\u00e1rios, mas essas descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o enganosas e, curiosamente, tentam desviar a aten\u00e7\u00e3o das pessoas ao sugerir que n\u00e3o h\u00e1 nada novo em O Caminho da Servid\u00e3o, Bureaucracy ou no cl\u00e1ssico de Friedman, Capitalismo e Liberdade.<\/p>\n<div id=\"hr_421417525\">\n<h2>* * *<\/h2>\n<\/div>\n<p>Por todas essas raz\u00f5es, h\u00e1 algo admir\u00e1vel no projeto neoliberal, pelo menos em seus est\u00e1gios iniciais. Foi uma filosofia diferenciada e inovadora, promovida por uma rede coesa de pensadores e ativistas com um plano de a\u00e7\u00e3o claro. Foi paciente e persistente. O Caminho da Servid\u00e3o se tornou o caminho para o poder.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<section>\n<div>\n<div>\n<p id=\"e355\">O triunfo neoliberal \u00e9 tamb\u00e9m reflexo da falha da esquerda. Quando o liberalismo econ\u00f4mico levou \u00e0 cat\u00e1strofe em 1929, Keynes criou uma teoria econ\u00f4mica abrangente para substitu\u00ed-la. Quando a gest\u00e3o keynesiana da demanda chegou ao limite nos anos 1970, n\u00e3o havia alternativa dispon\u00edvel. Mas quando o neoliberalismo se esfacelou em 2008, n\u00e3o havia nada. \u00c9 por isso que este zumbi ainda caminha. A esquerda e o centro n\u00e3o produzem nenhum arcabou\u00e7o econ\u00f4mico h\u00e1 80 anos.<\/p>\n<p id=\"cefd\">Cada evoca\u00e7\u00e3o de Lord Keynes \u00e9 um reconhecimento do fracasso. Propor solu\u00e7\u00f5es keynesianas para as crises do s\u00e9culo 21 significa ignorar tr\u00eas problemas \u00f3bvios: \u00e9 dif\u00edcil mobilizar pessoas em torno de ideias; as falhas expostas nos anos 1970 n\u00e3o desapareceram; e, o mais importante, elas n\u00e3o tratam nossa situa\u00e7\u00e3o mais grave \u2013 a crise ambiental. O keynesianismo\u00a0baseia-se em est\u00edmulo ao consumo para promover crescimento econ\u00f4mico. O consumo e o crescimento econ\u00f4mico s\u00e3o os motores da destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n<p>O que a hist\u00f3ria do keynesianismo e do neoliberalismo nos mostra \u00e9 que n\u00e3o basta se opor a um sistema falido. Uma alternativa coerente precisa ser proposta. Para o Partido Trabalhista (Reino Unido), para os Democratas (Estados Unidos) e para a esquerda em geral, a tarefa central deve ser o desenvolvimento de um programa Apollo econ\u00f4mico, uma tentativa consciente de projetar um novo sistema, ajustado \u00e0s demandas do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>http:\/\/voyager1.net\/economia-politica\/a-ideologia-por-tras-de-todos-os-problemas\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>George Monbiot &#8211; Retra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, desastres ambientais e at\u00e9 a ascens\u00e3o de Donald Trump\u200a\u2014\u200ao neoliberalismo desempenhou seu papel em tudo isso. Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil surgir\u00a0uma alternativa? Imagine se a popula\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica nunca tivesse ouvido falar sobre comunismo. 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