{"id":2679,"date":"2016-12-26T12:53:11","date_gmt":"2016-12-26T14:53:11","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2679"},"modified":"2016-12-26T11:03:17","modified_gmt":"2016-12-26T13:03:17","slug":"a-vida-em-roma-antiga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/12\/26\/a-vida-em-roma-antiga\/","title":{"rendered":"A vida em Roma antiga"},"content":{"rendered":"<p><strong>Reinaldo Jos\u00e9 Lopes<\/strong> &#8211; Um retrato do cotidiano da primeira megal\u00f3pole<\/p>\n<p>Ruas repletas de pessoas, a maioria suja e malvestida. Casas min\u00fasculas amontoam-se pelas ladeiras. Crian\u00e7as e mendigos esmolam por toda parte. Muitos pobres dormem ao relento, em frente a com\u00e9rcios, mercados e fontes. Nos muros, propagandas pol\u00edticas e declara\u00e7\u00f5es de amor. A sujeira contrasta com modernos e bel\u00edssimos pr\u00e9dios de m\u00e1rmore, endere\u00e7o de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Nas regi\u00f5es mais nobres da cidade, constru\u00e7\u00f5es majestosas e imponentes abrigam as fam\u00edlias ricas e seus escravos. Dentro dos palacetes, n\u00e3o raro as festas, com fartura de comida e bebida, evoluem para uma orgia.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, Nova D\u00e9lhi, Cidade do M\u00e9xico? Nada disso. Falamos de Roma, por volta do s\u00e9culo 2, a capital do imp\u00e9rio mais importante e poderoso que o mundo j\u00e1 conheceu. Em seu \u00e1pice, ela era quase id\u00eantica \u00e0s metr\u00f3poles atuais (mas sem a polui\u00e7\u00e3o no ar, claro). Ali\u00e1s, Roma era ainda mais apinhada que os exemplos anteriores: no ano 200 alcan\u00e7ou 1 milh\u00e3o de habitantes e sua densidade demogr\u00e1fica atingiu 66 mil pessoas por km2 (hoje, a cidade mais apertada do mundo \u00e9 Mumbai, na \u00cdndia, com 29650 pessoas por km2).<\/p>\n<p>Mesmo superpovoada e tumultuada, Roma nunca sofreu de baixa auto-estima. Prova disso era o costume de come\u00e7ar as proclama\u00e7\u00f5es oficiais com a express\u00e3o latina Urbi et Orbi, ou seja, \u201c\u00e0 cidade e ao mundo\u201d. Era como se aquele formigueiro humano, sozinho, tivesse tanto peso quanto todo o resto do planeta junto \u2013 o que n\u00e3o estava assim t\u00e3o longe da verdade. A cidade parecia uma miniatura do mundo: a primeira megal\u00f3pole da Hist\u00f3ria tinha gente de todas as ra\u00e7as e l\u00ednguas, al\u00e9m de ser rica e exuberante. E um bocado bagun\u00e7ada e perigosa.<\/p>\n<p class=\"destaque\"><strong>Expans\u00e3o in\u00e9dita<\/strong><\/p>\n<p>Mas calma l\u00e1. Roma nem sempre foi um gigante urbano. Tudo parece ter come\u00e7ado de forma modesta l\u00e1 pelo s\u00e9culo 8 a.C., quando uma ou mais aldeias foram fundadas por tribos latinas (povo indo-europeu que falava l\u00ednguas ancestrais do latim) nas colinas perto do rio Tibre. O vilarejo que surgiu a\u00ed tornou-se agr\u00edcola e aparentemente logo come\u00e7ou a manter boas rela\u00e7\u00f5es comerciais com seus vizinhos. \u201cJ\u00e1 no s\u00e9culo 6 a.C. h\u00e1 sinais de contato com os gregos e com os etruscos [povo que dominava o centro-norte da It\u00e1lia]\u201d, diz Isabelle Pafford, professora de estudos cl\u00e1ssicos da Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley, Estados Unidos. Nobres etruscos teriam fundado uma dinastia, mas foram expulsos. Por volta de 500 a.C., nascia a Rep\u00fablica Romana.<\/p>\n<div><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/adm.carascloud.com\/orinoco\/media\/\/images\/large\/2016\/12\/12\/cicero.jpg?w=640\" \/><\/div>\n<div><em>O fil\u00f3sofo C\u00edcero discursando para o senado, na \u00e9poca da Rep\u00fablica<\/em><\/div>\n<p>Aproveitando-se da falta de um poder hegem\u00f4nico pr\u00f3ximo e das eternas brigas que dividiam as cidades-estado italianas, a rep\u00fablica se organizou militarmente. Virou, nos s\u00e9culos seguintes, senhora da It\u00e1lia inteira, incorporando cidades e cidad\u00e3os. Primeiro foram a Espanha e a Sic\u00edlia. Depois, a bacia do Mediterr\u00e2neo toda. No s\u00e9culo 1 a.C., o general J\u00falio C\u00e9sar obteve a conquista da G\u00e1lia, atual Fran\u00e7a (veja a expans\u00e3o do imp\u00e9rio na p\u00e1g. 32). A essa altura, n\u00e3o havia mais nada de republicano em Roma. Otaviano, sobrinho-neto de C\u00e9sar, tornou-se o primeiro imperador romano com o nome de Augusto. At\u00e9 68, o poder ficou com sua fam\u00edlia, que ampliou os dom\u00ednios, mas se mostrou corrupta, violenta e autorit\u00e1ria. Depois da morte de Nero, os imperadores passaram a ser pessoas escolhidas por m\u00e9rito, e n\u00e3o por parentesco.<\/p>\n<p>Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, a estrat\u00e9gia deu certo. As disputas internas enfraqueceram e, sob o comando de Trajano, ex-general que reinou de 98 a 117, Roma alcan\u00e7ou o auge de seu poderio militar e econ\u00f4mico. Ele liberou presos pol\u00edticos, tratou com defer\u00eancia o Senado, anexou a D\u00e1cia (atual Rom\u00eania e partes de outros pa\u00edses do Leste Europeu) e chegou, com seus ex\u00e9rcitos, at\u00e9 Susa (no Ir\u00e3 de hoje). Qual o segredo de Roma? \u201cO \u00eaxito do imp\u00e9rio por tanto tempo deve-se a seu car\u00e1ter assimilador\u201d, afirma o historiador Pedro Paulo Funari, professor da Universidade Estadual de Campinas e autor de A Vida Quotidiana na Roma Antiga. \u201cMesmo os povos vencidos acabavam inclu\u00eddos como aliados ou romanos. Assim, as pessoas \u2013 ou as elites, ao menos \u2013 participavam do imp\u00e9rio. Al\u00e9m disso, a sa\u00fade financeira dele dependia do com\u00e9rcio, que era favorecido pela cria\u00e7\u00e3o de mercados conectados por seu dom\u00ednio.\u201d<\/p>\n<p class=\"destaque\"><strong>Do ber\u00e7o ao t\u00famulo<\/strong><\/p>\n<p class=\"destaque\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/adm.carascloud.com\/orinoco\/media\/\/images\/large\/2016\/12\/12\/forum-romano.jpg?w=640\" \/><br \/>\n<em>Ilustra\u00e7\u00e3o do f\u00f3rum romano<\/em><\/p>\n<p class=\"destaque\">Mesmo t\u00e3o cosmopolita, Roma enfrentava problemas inerentes a sua \u00e9poca. Nascer no imp\u00e9rio, mesmo em seu auge, n\u00e3o era tarefa f\u00e1cil. Por volta do s\u00e9culo 2, a taxa de mortalidade infantil era de 400 para cada 1000 beb\u00eas (hoje, a pior taxa do mundo \u00e9 a do pa\u00eds africano N\u00edger, com 150 mortes para cada grupo de 1000). Num lugar onde as mulheres eram encaradas como propriedade de seus pais ou esposos, a que conseguisse dar \u00e0 luz tr\u00eas filhos vivos ganhava independ\u00eancia legal. O \u00edndice de abandono das crian\u00e7as rec\u00e9m-nascidas tamb\u00e9m era alt\u00edssimo: ultrapassava os 20% entre os s\u00e9culos 1 e 3. Os motivos para abandonar um filho variavam de algum defeito f\u00edsico ao simples fato de ele ser do sexo feminino, j\u00e1 que os filhos homens eram mais valorizados por manterem a linhagem da fam\u00edlia. \u201c\u00c9 preciso separar o que \u00e9 bom do que n\u00e3o pode servir para nada\u201d, escreveu o fil\u00f3sofo S\u00eaneca, no s\u00e9culo 1. As crian\u00e7as chegavam a ser enjeitadas at\u00e9 por raz\u00f5es pol\u00edticas: conta-se (embora n\u00e3o haja comprova\u00e7\u00e3o) que, quando o imperador Nero matou sua pr\u00f3pria m\u00e3e, Agripina, algu\u00e9m abandonou um beb\u00ea com um cartaz: \u201cN\u00e3o te crio com medo de que mates tua m\u00e3e\u201d.<\/p>\n<p>Passado esse primeiro e duro desafio, a crian\u00e7a livre de nascimento e de boa fam\u00edlia tinha sua educa\u00e7\u00e3o entregue a um par de escravos. O disciplinador pedagogo, geralmente um escravo idoso e severo, n\u00e3o hesitava em usar o chicote. Uma escrava de origem grega (para ensinar a l\u00edngua cultural desde o ber\u00e7o), a maternal nutriz, amamentava o beb\u00ea. Os escravos ensinavam meninos e meninas a ler e os educavam at\u00e9 a puberdade, quando s\u00f3 os garotos continuavam seus estudos com literatura cl\u00e1ssica, mitologia e ret\u00f3rica: o ideal da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era aprender uma profiss\u00e3o, mas ser capaz de impressionar em debates p\u00fablicos ou disputas judiciais.<\/p>\n<p>Entre os romanos n\u00e3o existia maioridade aos 18 anos \u2013 o rapaz s\u00f3 era considerado emancipado se seu pai morresse. A rigor, todos os bens de um romano com genitor vivo podiam ser administrados por seu pai, segundo a lei, mesmo que ele se casasse. O casamento, por sua vez, n\u00e3o tinha nada de rom\u00e2ntico: costumava ser um acordo entre fam\u00edlias. Os rapazes uniam-se por volta dos 20 anos e as meninas, aos 14, embora n\u00e3o fosse incomum elas se casarem aos 12. Os homens tinham certa prefer\u00eancia por noivas virgens. Se isso ocorresse, na noite de n\u00fapcias, ele se limitava a fazer sexo anal com ela, para n\u00e3o apavor\u00e1-la.<\/p>\n<p>S\u00f3 os libertinos eram dados a lux\u00farias como fazer amor em pleno dia (o costume era esperar a noite cair) ou com a mulher de seios de fora (elas quase nunca se despiam completamente). Mesmo porque fazer sexo s\u00f3 pelo prazer n\u00e3o era coisa que os homens faziam com suas esposas \u2013 o objetivo da rela\u00e7\u00e3o sexual no casamento era procriar. Livrar-se do c\u00f4njuge, por outro lado, era simples: bastava um dos dois querer. Havia maridos que nem sabiam que estavam divorciados: suas esposas simplesmente voltavam para a casa dos pais e n\u00e3o avisavam. Assim como a taxa de separa\u00e7\u00f5es, o \u00edndice de amantes era elevad\u00edssimo.<\/p>\n<p>A expectativa de vida durante o Imp\u00e9rio Romano era muito baixa: girava em torno dos 30 anos. As p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de higiene contribu\u00edam para a transmiss\u00e3o de doen\u00e7as, e mortes por enfermidades ou ferimentos hoje considerados simples eram um bocado comuns. A medicina era t\u00e3o prec\u00e1ria que, nos primeiros anos do imp\u00e9rio, os chefes de fam\u00edlia acreditavam deter todo o conhecimento necess\u00e1rio para curar seus parentes usando ervas medicinais. E, diferentemente dos gregos, que valorizavam os m\u00e9dicos, para os romanos a profiss\u00e3o era considerada inferior \u2013 e relegada a escravos, libertos e estrangeiros.<\/p>\n<p class=\"destaque\"><strong>Bacanais dos bacanas<\/strong><\/p>\n<div><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/adm.carascloud.com\/orinoco\/media\/\/images\/large\/2016\/12\/12\/mural-pompeia-dionisio.jpg?w=640\" \/><\/div>\n<div><em>Baco em afresco de Pomp\u00e9ia<\/em><\/div>\n<p>Como v\u00e1rias das metr\u00f3poles atuais, a capital do Imp\u00e9rio Romano era cheia de contrastes. Os aristocratas viviam em vers\u00f5es luxuosas da domus, a tradicional casa da nobreza romana, que possu\u00eda \u00e1gua corrente e piscinas aquecidas. Os v\u00e1rios c\u00f4modos da resid\u00eancia, como salas de jantar e escrit\u00f3rios, ficavam em torno de um p\u00e1tio central, o atrium. Era nos escrit\u00f3rios que o rico romano antenado estudava os fil\u00f3sofos da moda, como Epicteto ou Epicuro. Um h\u00e1bito difundido entre os aristocratas era o de promover enormes festas em suas casas \u2013 uma forma de medir o prest\u00edgio de um nobre. Nelas, comia-se e bebia-se muito: o costume era servir cerca de sete pratos, que inclu\u00edam iguarias ex\u00f3ticas como l\u00edngua de passarinho. Os banquetes costumavam ter motivos religiosos. Para os romanos \u2013 cuja religi\u00e3o era uma mistura de mitos gregos, estruscos e latinos, al\u00e9m de cren\u00e7as que assimilavam dos povos conquistados \u2013, era normal essas festas terminarem em orgias, j\u00e1 que deuses como Baco, do vinho, simbolizavam desregramento.<\/p>\n<p>Do lado de fora das mans\u00f5es, o sossego era quebrado por bandos de jovens conhecidos como collegia juvenum. Filhos de fam\u00edlias ricas, adoravam uma arrua\u00e7a e, para se divertir, invadiam e quebravam lojas, montavam violentas torcidas organizadas e at\u00e9 realizavam estupros coletivos de prostitutas. \u201cVolta do teu jantar o mais cedo poss\u00edvel, pois um grupo muito excitado de jovens das melhores fam\u00edlias saqueia a cidade\u201d, diz o personagem de um texto da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Por outro lado, a grande massa de pobres da cidade \u2013 desempregados, pequenos comerciantes e imigrantes \u2013 vivia em apertadas insulae (\u201cilhas\u201d em latim), pr\u00e9dios de apartamentos com at\u00e9 nove andares feitos de materiais fr\u00e1geis como madeira e tijolos secos ao sol. O t\u00e9rreo normalmente era ocupado por quitandas ou outras lojas. \u201cAs diferen\u00e7as sociais em Roma n\u00e3o foram maiores que em outras sociedades. Mas havia pol\u00edticas p\u00fablicas que visavam os mais pobres. Milhares deles recebiam trigo a pre\u00e7os subsidiados e existia um minist\u00e9rio voltado ao abastecimento da popula\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o professor Funari.<\/p>\n<p>Nos bairros populares do monte Aventino, lixo e dejetos, feitos em penicos, eram despejados na rua, da janela. Quem preferisse poderia usar uma latrina p\u00fablica, onde as pessoas ficavam sentadas, com a t\u00fanica arriada, \u00e0 vista de todos. No fim, a chuva carregava tudo para a cloaca maxima, sofisticado sistema de esgotos subterr\u00e2neos que usava a \u00e1gua que sa\u00eda dos banhos e fontes p\u00fablicas para carregar os detritos at\u00e9 o rio Tibre. No miser\u00e1vel bairro da Suburra, oper\u00e1rios ou desocupados bebiam em tavernas um vinho intrag\u00e1vel, quase um vinagre, dissolvido em \u00e1gua. Por seguran\u00e7a ou por pura pompa, abastados s\u00f3 passeavam por l\u00e1 (e pelo resto da cidade) aboletados em liteiras e precedidos por um s\u00e9quito de escravos. Como n\u00e3o havia pol\u00edcia, eles tamb\u00e9m faziam as vezes de guarda pessoal.<\/p>\n<p class=\"destaque\"><strong>Os prazeres da vida<\/strong><\/p>\n<p>Roma era uma cidade insalubre. Mas os romanos se esfor\u00e7avam para manter a pr\u00f3pria higiene. A pr\u00e1tica dos banhos era amplamente difundida, e tanto ricos como pobres freq\u00fcentavam as termas. Nelas, havia piscinas de \u00e1gua fria, banheiras de \u00e1gua quente, salas com vapor e ambientes para pr\u00e1tica de gin\u00e1stica \u2013 homens e mulheres usavam espa\u00e7os diferentes. Nos imensos complexos, relaxava-se, faziam-se neg\u00f3cios e discutiam-se pol\u00edtica e filosofia. \u201cNada \u00e9 mais doce que o gongo, sinalizando a abertura dos banhos\u201d, dizia o senador e pensador C\u00edcero no s\u00e9culo 1 a.C.<\/p>\n<div><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/adm.carascloud.com\/orinoco\/media\/\/images\/large\/2016\/12\/12\/ruinas-romanas.jpg?w=640\" \/><\/div>\n<div><em>A decad\u00eancia de Roma em escultura de areia contempor\u00e2nea<\/em><\/div>\n<p>A nobreza e a grande massa popular tamb\u00e9m se misturavam nas famosas corridas de bigas do Circo M\u00e1ximo ou nas populares lutas de gladiadores, que se enfrentavam na arena (\u201careia\u201d, em latim, por causa do sedimento que recobria o cen\u00e1rio). O principal palco dessas lutas, o Coliseu, foi conclu\u00eddo pelo imperador Tito no ano 80 e possu\u00eda uma organiza\u00e7\u00e3o de fazer inveja aos atuais est\u00e1dios de futebol brasileiros: tinha um sistema de coberturas retr\u00e1teis contra a chuva e o sol excessivo e os vomitoria, sa\u00eddas que davam acesso direto aos assentos ou ao exterior e permitiam esvaziar o local em minutos, sem tumulto.<\/p>\n<p>Os jogos eram patrocinados pelos imperadores ou por outros membros endinheirados da nobreza. A entrada era paga, mas os pre\u00e7os, m\u00f3dicos. \u201cOs espet\u00e1culos podiam ter um vi\u00e9s pol\u00edtico para angariar votos, mas eram muito mais que isso\u201d, diz a historiadora Renata Senna Garraffoni, da Universidade Federal do Paran\u00e1 e autora de Gladiadores na Roma Antiga. \u201cEram lugares de encontro entre as pessoas comuns e expressavam a identidade do povo romano, seus valores culturais, como a rela\u00e7\u00e3o com os deuses, com a vida e a morte, suas id\u00e9ias de virtude, de guerra, de combate.\u201d<\/p>\n<p>As brigas, por\u00e9m, n\u00e3o eram t\u00e3o sangrentas assim. Como os gladiadores eram profissionais valiosos, os derrotados eram poupados com freq\u00fc\u00eancia da morte. \u201cMuitos viveram v\u00e1rios anos e at\u00e9 se aposentaram, tornando-se instrutores de jovens gladiadores\u201d, diz Renata. Diversos deles viravam celebridades, objetos de desejo das damas mais assanhadas da nobreza. Declara\u00e7\u00f5es de amor eram feitas a eles nas paredes romanas. Os muros, por sinal, recebiam outros tipos de inscri\u00e7\u00e3o: propaganda pol\u00edtica, an\u00fancios de com\u00e9rcio e simples provoca\u00e7\u00f5es entre desafetos. Sutileza n\u00e3o era o forte romano. Um dos grafites, por exemplo, traz: \u201cMar\u00edtimo pratica o cunil\u00edngua por quatro asses [dinheiro da \u00e9poca], mas s\u00f3 aceita virgens: batamos, ent\u00e3o, em outra porta\u201d.<\/p>\n<p>Em Roma, era comum homens trocarem beijo na boca como demonstra\u00e7\u00e3o de amizade. O \u00f3cio era praticado pelos ricos durante a tarde inteira: eles s\u00f3 liam, escreviam, conversavam. Viver de renda era mais glamoroso que trabalhar. A propina era praticada em todas as inst\u00e2ncias e o enriquecimento de pol\u00edticos, absolutamente normal (ainda que muitos o condenassem). H\u00e1 quem critique Roma por seu imperialismo ou por manter uma economia sustentada pela m\u00e3o-de-obra escrava. O que ningu\u00e9m pode contestar \u00e9 que a civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o ber\u00e7o das na\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias e diversos outros pa\u00edses colonizados por elas, inclusive o nosso. E que foi com Roma que aprendemos, bem ou mal, a ser como somos. \u2022<\/p>\n<hr id=\"null\" \/>\n<div class=\"box\">\n<h4 class=\"titulo\">Linha do Tempo: vida e morte<br \/>\nComo o Imp\u00e9rio Romano nasceu, cresceu e foi derrotado<\/h4>\n<p class=\"destaque\">753 a.C.<\/p>\n<p>Segundo a tradi\u00e7\u00e3o romana, a cidade foi fundada pelos g\u00eameos R\u00f4mulo e Remo em 753 a.C. A data, por\u00e9m, coincide com os vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos de um vilarejo criado por pastores e lavradores latinos.<\/p>\n<p class=\"destaque\">509 a.C.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o uma monarquia, os latinos de Roma a tornam uma rep\u00fablica. Em 202 a.C., domina a cidade africana de Cartago e suas possess\u00f5es na Espanha e na Sic\u00edlia, al\u00e9m de diversos reinos gregos.<\/p>\n<p class=\"destaque\">58-44 a.C.<\/p>\n<p>J\u00falio C\u00e9sar conquista a G\u00e1lia e \u00e9 declarado ditador perp\u00e9tuo pelo Senado, mas \u00e9 morto. Ap\u00f3s uma guerra civil, Otaviano vira imperador. Entre 27 a.C. e 14 d.C., ele consolida os dom\u00ednios no Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p class=\"destaque\">116<\/p>\n<p>Com Trajano, o imp\u00e9rio alcan\u00e7a sua extens\u00e3o m\u00e1xima: 6,5 milh\u00f5es de km2, do norte da Inglaterra ao Egito e partes do atual Iraque. O auge dura at\u00e9 o fim do s\u00e9culo 3, quando revoltas militares e invas\u00f5es de povos (chamados b\u00e1rbaros) come\u00e7am a corro\u00ea-lo.<\/p>\n<p class=\"destaque\">313<\/p>\n<p>Constantino confere liberdade religiosa ao imp\u00e9rio. Cada vez mais pr\u00f3ximo da Igreja crist\u00e3 (foi batizado antes de morrer), lan\u00e7a as bases para transformar o cristianismo em religi\u00e3o oficial. Ele funda a nova capital, Constantinopla.<\/p>\n<p class=\"destaque\">395<\/p>\n<p>Ao morrer, o imperador Teod\u00f3sio divide os dom\u00ednios de Roma em Imp\u00e9rio do Ocidente (cuja primeira capital era Mil\u00e3o) e Imp\u00e9rio do Oriente (com capital em Constantinopla), governados por seus filhos Arc\u00e1dio e Hon\u00f3rio, respectivamente.<\/p>\n<p class=\"destaque\">476<\/p>\n<p>R\u00f4mulo Aug\u00fastulo, \u00faltimo imperador do Ocidente, \u00e9 deposto por Odoacro, chefe dos h\u00e9rulos, povo de origem germ\u00e2nica, um dos v\u00e1rios que invadiram Roma. \u00c9 o fim do controle romano na Europa Ocidental. O Imp\u00e9rio do Oriente cai apenas em 1453.<\/p>\n<hr id=\"null\" \/>\n<h4 class=\"titulo\">Tipos romanos<br \/>\nQuem eram os personagens que circulavam pela efervescente capital do imp\u00e9rio<\/h4>\n<h4>Senador<br \/>\nS\u00f3 nobres tinham os melhores cargos no funcionalismo p\u00fablico. E ser membro do Senado (que chegou a ter 1000 homens) era a mais alta posi\u00e7\u00e3o. Os senadores eram consultores do imperador e governavam as principais prov\u00edncias.<\/h4>\n<p class=\"destaque\">Escravo<br \/>\nProvinha de v\u00e1rias frentes: povos vencidos nas guerras de expans\u00e3o, v\u00edtimas de tr\u00e1fico nas fronteiras, filhos de escravos e crian\u00e7as abandonadas ou pobres vendidas por seus pais. Mas Roma permitia que seus escravos comprassem a pr\u00f3pria liberdade.<\/p>\n<p class=\"destaque\">Gladiador<br \/>\nOs homens que lutavam entre si ou com animais eram estrangeiros capturados em guerras, criminosos ou livres em situa\u00e7\u00e3o desesperadora. Ser gladiador era uma forma de buscar dinheiro e gl\u00f3ria. H\u00e1 ind\u00edcios de que eles eram um tanto gorduchos.<\/p>\n<p class=\"destaque\">Matrona<br \/>\nAs mulheres ricas tinham liberdade para visitar as amigas e podiam, com a ajuda de tutores homens, administrar seus pr\u00f3prios bens e at\u00e9 processar desafetos. As vi\u00favas de classe alta, em especial, conseguiam escolher a dedo seus amantes.<\/p>\n<p class=\"destaque\">Soldado<br \/>\nSer soldado, na \u00e9poca da Rep\u00fablica, era restrito aos homens que possu\u00edssem terras. Mas, no imp\u00e9rio, as imbat\u00edveis legi\u00f5es aceitavam qualquer romano. Embora a vida fosse brutal, para muitos era uma oportunidade de sair da pobreza.<\/p>\n<p class=\"destaque\">Comerciante<br \/>\nOs padeiros, a\u00e7ougueiros, tintureiros e taberneiros, entre v\u00e1rios outros, geralmente pertenciam \u00e0s camadas mais pobres ou eram escravos libertos \u2013 trabalhar diretamente com o com\u00e9rcio era considerado indigno dos ricos.<\/p>\n<hr id=\"null\" \/>\n<h4 class=\"titulo\">N\u00f3s, romanos<br \/>\nRoma nos deixou sua l\u00edngua, sua religi\u00e3o e seu direito<\/h4>\n<p>Os romanos vieram, viram e venceram durante s\u00e9culos. E ainda hoje marcam a hist\u00f3ria do Ocidente. A come\u00e7ar por nosso idioma. A presen\u00e7a de Roma em boa parte da Europa e a integra\u00e7\u00e3o dos povos dominados levaram ao fim de l\u00ednguas nativas e \u00e0 instala\u00e7\u00e3o do latim. O chamado latim vulgar, uma variante mais simples, deu origem a l\u00ednguas como o espanhol, o portugu\u00eas, o franc\u00eas, o italiano e o romeno. S\u00e3o 700 milh\u00f5es de pessoas que falam as l\u00ednguas-filhas do latim. Muitos dos pa\u00edses que integraram o imp\u00e9rio tamb\u00e9m herdaram o intrincado direito romano, um sistema legal t\u00e3o r\u00edgido que ainda \u00e9 a base da legisla\u00e7\u00e3o em pa\u00edses como o Brasil. As institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00f3lidas de Roma (da \u00e9poca da rep\u00fablica) tamb\u00e9m inspiraram fil\u00f3sofos iluministas e revolucion\u00e1rios do s\u00e9culo 18: influenciados por essas id\u00e9ias, Estados Unidos e Fran\u00e7a se autoproclamaram rep\u00fablicas e criaram senados. Outro legado romano foi a maneira como contamos os dias do ano. Foi J\u00falio C\u00e9sar que instituiu o ano de 12 meses, 365 dias e um dia extra a cada quatro anos. Por\u00e9m a maior de todas as heran\u00e7as terminou sendo uma velha arquiinimiga do imp\u00e9rio: a Igreja. A partir do s\u00e9culo 4, quando o imp\u00e9rio se converteu \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 (depois de muita persegui\u00e7\u00e3o), o cristianismo se solidificou e hoje tem 2,1 bilh\u00f5es de fi\u00e9is no mundo inteiro.<\/p>\n<p>http:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/antiguidade\/a-vida-em-roma-antiga.phtml#.WGEUPBsrLIV<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reinaldo Jos\u00e9 Lopes &#8211; Um retrato do cotidiano da primeira megal\u00f3pole Ruas repletas de pessoas, a maioria suja e malvestida. Casas min\u00fasculas amontoam-se pelas ladeiras. Crian\u00e7as e mendigos esmolam por toda parte. Muitos pobres dormem ao relento, em frente a com\u00e9rcios, mercados e fontes. Nos muros, propagandas pol\u00edticas e declara\u00e7\u00f5es de amor. 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