{"id":25461,"date":"2026-10-28T13:30:32","date_gmt":"2026-10-28T16:30:32","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25461"},"modified":"2026-10-28T13:12:41","modified_gmt":"2026-10-28T16:12:41","slug":"um-gramsci-para-a-estrategia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/10\/28\/um-gramsci-para-a-estrategia\/","title":{"rendered":"Um Gramsci para a estrat\u00e9gia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mart\u00edn Mosquera e Brais Fernandez<\/strong> &#8211; Num presente marcado pela recomposi\u00e7\u00e3o das direitas e por novos desafios para a esquerda, revisitar Gramsci exige resgatar a for\u00e7a estrat\u00e9gica de seus conceitos. Neste texto, recuperamos a ideia de hegemonia, Estado integral e guerra de posi\u00e7\u00e3o como ferramentas para repensar a estrat\u00e9gia socialista e a quest\u00e3o do poder.<\/p>\n<p>O texto a seguir \u00e9 o pr\u00f3logo de <a href=\"https:\/\/www.sylone.org\/los-usos-de-gramsci-c2x42907706\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"><em>Los usos de Gramsci<\/em><\/a>, de Juan Carlos Portantiero, Sylone e Viento Sur, 2026.<\/p>\n<p><strong>Um legado contestado<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Um espectro ronda o pensamento pol\u00edtico contempor\u00e2neo: o espectro de Gramsci. Quem hoje n\u00e3o se identifica como gramsciano, entre social-democratas, eurocomunistas, populistas, trotskistas, liberais e at\u00e9 mesmo representantes da extrema direita? Quem n\u00e3o acusou seus advers\u00e1rios de abandonar a luta pelo bom senso ou de ignorar a necessidade de construir uma nova hegemonia? Duas consequ\u00eancias decorrem desse fato. A primeira \u00e9 que Gramsci se tornou um ponto de refer\u00eancia transversal em todo o espectro pol\u00edtico, cujos diversos setores encontram em sua fragmentada obra uma contribui\u00e7\u00e3o de tal magnitude que transcende suas origens pol\u00edticas. A segunda \u00e9 que um legado invocado para sustentar posi\u00e7\u00f5es opostas obriga a explicitar a pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria de Gramsci \u00e9, em grande medida, a hist\u00f3ria de seus usos. O mais influente foi tamb\u00e9m o primeiro. Togliatti publicou os\u00a0<em>Cadernos<\/em>\u00a0para legitimar a virada de Salerno e disseminou a imagem de um Gramsci de consenso, um defensor da concilia\u00e7\u00e3o de classes e do pacto nacional. O pr\u00f3prio formato da edi\u00e7\u00e3o serviu nesse sentido. A comiss\u00e3o do Partido Comunista Italiano, presidida por Togliatti, agrupou os cadernos tematicamente, em vez de cronologicamente, facilitando assim uma leitura sistem\u00e1tica, ao custo de apagar os v\u00ednculos entre o pensamento de Gramsci e o contexto que o produziu. Dessa forma, tomou forma a figura de um mito-m\u00e1rtir, cuja autoridade hist\u00f3rica serviu para justificar o abandono da perspectiva revolucion\u00e1ria no presente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa interpreta\u00e7\u00e3o, contudo, n\u00e3o pode ser reduzida a uma simples falsifica\u00e7\u00e3o. O trabalho subsequente de Valentino Gerratana mostrou que manipula\u00e7\u00f5es diretas do texto tiveram pouca consequ\u00eancia.\u00b9 Havia algo mais eficaz: uma cuidadosa orienta\u00e7\u00e3o da leitura, uma sele\u00e7\u00e3o que apresentava Gramsci como um precursor da \u201cdemocracia avan\u00e7ada\u201d e da \u201cvia italiana para o socialismo\u201d promovidos pela lideran\u00e7a do Partido Comunista Italiano.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lucio Magri, um l\u00edder hist\u00f3rico da ala esquerda do partido e fundador do <em>il<\/em>\u00a0<em>manifesto<\/em>, confirma isso citando uma confiss\u00e3o feita pelo pr\u00f3prio Togliatti no final de sua vida: \u201cN\u00f3s, comunistas italianos, temos uma d\u00edvida com Antonio Gramsci. Constru\u00edmos copiosamente sobre ele nossa identidade e estrat\u00e9gia, mas, ao faz\u00ea-lo, o reduzimos \u00e0 nossa medida, \u00e0s necessidades de nossa pol\u00edtica, sacrificando o que ele considerava \u2018muito al\u00e9m\u2019\u201d\u00b2.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa opera\u00e7\u00e3o, contudo, teve efeitos contradit\u00f3rios. Ao resgatar Gramsci do esquecimento, apresentou-o ao mundo como um grande pensador. A mesma leitura que o dissolveu na pol\u00edtica consensual do Partido Comunista Italiano o afastou da ortodoxia sovi\u00e9tica e abriu, em outras m\u00e3os, o grande debate sobre a estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria no Ocidente. Dessa contradi\u00e7\u00e3o surgiu o debate gramsciano, no qual este livro interv\u00e9m a partir da perspectiva oposta.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Portantiero e Pasado y Presente<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Juan Carlos Portantiero, juntamente com Jos\u00e9 Aric\u00f3, foi uma das for\u00e7as motrizes por tr\u00e1s de\u00a0<em>Pasado y Presente<\/em>, um dos mais importantes projetos editoriais marxistas em l\u00edngua espanhola. Esse projeto era gramsciano em um sentido quase literal. Ele tornava os principais debates do marxismo europeu acess\u00edveis aos ativistas, tirando o pensamento de esquerda do provincianismo e, ao mesmo tempo, ancorando-o nas forma\u00e7\u00f5es sociais latino-americanas, particularmente na Argentina, evitando todo eurocentrismo ou cosmopolitismo abstrato. Era um projeto que subordinava a teoria \u00e0s exig\u00eancias da an\u00e1lise concreta. Os ensaios reunidos em\u00a0<em>Los usos de Gramsci<\/em> pertencem a esse empreendimento editorial.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro corresponde a um momento preciso de uma trajet\u00f3ria que posteriormente tomaria um rumo diferente. Nos anos seguintes, Portantiero aproximou-se de posi\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas da social-democracia e cada vez mais distantes da perspectiva revolucion\u00e1ria. Seria um erro, contudo, ler retrospectivamente <em>Los usos de Gramsci<\/em>\u00a0sob essa \u00f3tica. A obra conserva a intensidade de uma busca anterior: a de uma estrat\u00e9gia socialista para o Ocidente capaz de lidar com a complexidade do Estado moderno sem abandonar a ruptura com o capitalismo. Sobre esse ponto, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: o Gramsci que Portantiero resgata n\u00e3o \u00e9 um pensador social-democratizante nem um populista\u00a0<em>avant la lettre<\/em>. Seu prop\u00f3sito \u00e9 restabelecer o v\u00ednculo entre o proletariado e a revolu\u00e7\u00e3o, partindo da premissa de que a tarefa hist\u00f3rica da classe trabalhadora n\u00e3o consiste na expans\u00e3o progressiva da democracia liberal, mas sim na abertura da transi\u00e7\u00e3o para o socialismo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os ensaios, contudo, pertencem a dois per\u00edodos distintos. Os dois textos centrais, \u201cOs usos de Gramsci\u201d e \u201cGramsci e a an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o atual\u201d, s\u00e3o anteriores ao golpe de 1976. Os demais foram escritos sob o peso da ditadura e da derrota, quando o pensamento de Portantiero come\u00e7ou a se voltar para outras quest\u00f5es. O cerne do livro reside nos primeiros.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portantiero escreveu esses textos durante a revolta popular que precedeu a ditadura, quando o Cordobazo e a ascens\u00e3o do sindicalismo classista levaram a luta de classes argentina a um ponto de ebuli\u00e7\u00e3o e a quest\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o em uma sociedade complexa deixou de ser puramente te\u00f3rica. O debate global daqueles anos, marcado pelo movimento oper\u00e1rio p\u00f3s-1968, pela virada eurocomunista e por experi\u00eancias como a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos em Portugal e o governo da Unidade Popular no Chile, constitu\u00eda o horizonte mais amplo. Mas o ponto de partida imediato de sua reflex\u00e3o foi o movimento de massas argentino, e Portantiero se deparou com um fen\u00f4meno nacional-popular t\u00e3o enigm\u00e1tico quanto poucos: o peronismo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atento ao\u00a0<em>Mezzogiorno<\/em>\u00a0como um problema pol\u00edtico e territorial, ao folclore e \u00e0s diversas formas de cultura popular como reposit\u00f3rios do senso comum subalterno, e aos n\u00facleos de senso comum sedimentados na cultura dos oprimidos, Gramsci ofereceu ferramentas para conceber uma pol\u00edtica capaz de se engajar com fen\u00f4menos populares amb\u00edguos sem se dissolver neles ou rejeit\u00e1-los de maneira sect\u00e1ria. A relev\u00e2ncia dessa perspectiva n\u00e3o se limita ao peronismo da d\u00e9cada de 1970: todo processo hist\u00f3rico real \u00e9 h\u00edbrido, impuro e contradit\u00f3rio. Diante da orienta\u00e7\u00e3o cada vez mais moderada dos partidos comunistas, Portantiero encontrou em Gramsci a possibilidade de abrir um caminho alternativo: o de um analista atento \u00e0s complexidades e ambiguidades dos fen\u00f4menos pol\u00edticos e da cultura popular, que era, ao mesmo tempo, um te\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o no Ocidente, e n\u00e3o um precursor da prud\u00eancia de Togliatti.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os principais partidos comunistas da Europa Ocidental alcan\u00e7aram, naqueles anos, n\u00edveis de influ\u00eancia nunca vistos desde o p\u00f3s-guerra. Herdeiros da abordagem gradualista da Frente Popular, haviam abandonado seu otimismo hist\u00f3rico sem substitu\u00ed-lo por uma perspectiva ofensiva: enquanto para a social-democracia cl\u00e1ssica a revolu\u00e7\u00e3o podia esperar por ser inevit\u00e1vel, para eles ela tinha que esperar por ser improv\u00e1vel. Diante desse gradualismo conservador, uma nova esquerda revolucion\u00e1ria, influenciada pelo trotskismo e pelo mao\u00edsmo, passou a enxergar o reformismo dos principais partidos como um obst\u00e1culo estrutural, em vez de consider\u00e1-los a inevit\u00e1vel representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora. A experi\u00eancia chilena polarizou essa diverg\u00eancia: o Partido Comunista Italiano aproximou-se do Compromisso Hist\u00f3rico, o Partido Comunista Franc\u00eas do Programa Comum, enquanto a esquerda revolucion\u00e1ria interpretou o golpe de Pinochet como a confirma\u00e7\u00e3o do beco sem sa\u00edda do caminho democr\u00e1tico. Um movimento oper\u00e1rio marcado por uma fratura hist\u00f3rica que permanecia aberta desde 1914 enfrentava o mesmo ponto de inflex\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura que Togliatti fez de Gramsci pavimentou o caminho para o eurocomunismo, oferecendo fundamentos intelectuais para uma trajet\u00f3ria gradual rumo ao socialismo, baseada na acumula\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es dentro da democracia vigente e desvinculada de qualquer perspectiva de ruptura. Contudo, nenhuma das alternativas dispon\u00edveis conseguiu resolver o impasse estrat\u00e9gico: enquanto o eurocomunismo consolidava uma guinada social-democrata, o crescente movimento oper\u00e1rio e a Nova Esquerda n\u00e3o encontravam forma de capitalizar politicamente a radicaliza\u00e7\u00e3o. A for\u00e7a do movimento oper\u00e1rio era medida pela solidez de um Estado capitalista que, longe de ruir, se transformava e se adaptava. Revisitar os debates passados \u200b\u200btornou-se, ent\u00e3o, uma necessidade estrat\u00e9gica: seria poss\u00edvel conceber a revolu\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es substancialmente diferentes daquelas que tornaram poss\u00edvel outubro de 1917?<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portantiero responde a essa quest\u00e3o recuperando, neste livro, um Gramsci que n\u00e3o \u00e9 influenciado por interpreta\u00e7\u00f5es eurocomunistas: a conquista da hegemonia \u00e9 a maneira especificamente ocidental de se preparar para a luta revolucion\u00e1ria pelo poder. A guerra de posi\u00e7\u00e3o \u00e9 a transposi\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria para as condi\u00e7\u00f5es ocidentais, distintas daquelas do terreno \u201coriental\u201d onde os bolcheviques atuaram, onde \u201co Estado era tudo\u201d e \u201ca sociedade civil era primitiva e gelatinosa\u201d. Este Gramsci \u00e9 herdeiro dos debates por meio dos quais a Internacional Comunista tentou abordar o problema da revolu\u00e7\u00e3o na Europa Ocidental, especialmente na Alemanha: a frente \u00fanica, o governo oper\u00e1rio e a conquista das massas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>As massas dentro do Estado: Gramsci e Weber<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Na leitura de Portantiero, o ponto de partida do pensamento gramsciano \u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o das massas no Estado. Da\u00ed a import\u00e2ncia de analisar as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e sociedade sob o capitalismo, no momento em que as classes subalternas deixam de ser um objeto passivo do governo. Crise e massas formam, nessa leitura, \u201cum \u00fanico tema contrapont\u00edstico\u201d: \u00e9 a presen\u00e7a das massas como sujeitos que define o car\u00e1ter da crise e a forma que as tentativas de restabelecer a ordem assumem. \u00c9 por isso que Gramsci rejeita a hipostasia das met\u00e1foras de base e superestrutura e prefere a linguagem das rela\u00e7\u00f5es de poder, na qual as classes se tornam sujeitos da a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para avaliar a originalidade dessa interpreta\u00e7\u00e3o, vale a pena analisar a perspectiva de algu\u00e9m que considerou o mesmo limiar sob outro ponto de vista. Em 1917, Max Weber escreveu sobre a crise alem\u00e3 e, al\u00e9m da Alemanha, sobre as transforma\u00e7\u00f5es das formas capitalistas de domina\u00e7\u00e3o. Seu diagn\u00f3stico foi l\u00facido e conservador. O liberalismo tradicional havia morrido porque a rela\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica entre Estado e sociedade civil havia se rompido: a sociedade estava se politizando, enquanto a esfera de tomada de decis\u00f5es se tornava mais aut\u00f4noma e burocratizada. As massas haviam entrado na pol\u00edtica para nunca mais sair.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Weber, o Estado moderno \u00e9 definido por um meio espec\u00edfico: o monop\u00f3lio da coer\u00e7\u00e3o f\u00edsica, organizado na forma de uma corpora\u00e7\u00e3o. Assim como o capital separa o produtor dos meios de produ\u00e7\u00e3o, o Estado moderno separa o funcion\u00e1rio p\u00fablico dos meios de administra\u00e7\u00e3o e concentra a disposi\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico em um \u00fanico \u00e1pice. A burocracia cresce em paralelo com a socializa\u00e7\u00e3o da vida, e com ela torna-se crucial a quest\u00e3o de quem opera essa m\u00e1quina e com qual legitimidade. Os escritos de Weber sobre a reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e constitucional da Alemanha s\u00e3o os textos de um liberal conservador que sabe que as massas n\u00e3o podem mais ser exclu\u00eddas da nova configura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: elas devem ter um lugar, ser canalizadas e guiadas. Sua resposta \u00e9 a democracia plebiscit\u00e1ria, uma lideran\u00e7a capaz de guiar e controlar o aparato burocr\u00e1tico, apoiando-se na legitimidade eleitoral das massas. Weber chega a vislumbrar o horizonte que o perturba: o momento em que algu\u00e9m tentar\u00e1 expropriar esse expropriador dos meios pol\u00edticos. Esse horizonte \u00e9 o ponto em que Gramsci entra em cena.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se Weber era o Marx da burguesia, Portantiero prop\u00f5e ver Gramsci como o \u201cWeber das classes subalternas\u201d: algu\u00e9m que compreendeu plenamente essas transforma\u00e7\u00f5es e as considerou a partir da perspectiva dos oprimidos. Se a domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta mais apenas pela coer\u00e7\u00e3o silenciosa do mercado ou pela repress\u00e3o estatal, mas precisa, antes, produzir ativamente consenso, abre-se um terreno no qual os dominados podem contest\u00e1-la. Enquanto Weber busca garantir a estabilidade da ordem burguesa, Gramsci questiona como construir uma hegemonia das classes subalternas. E isso tem uma consequ\u00eancia estrat\u00e9gica. Se a pol\u00edtica deve ser concebida como a constru\u00e7\u00e3o de uma lideran\u00e7a intelectual e moral sobre toda a sociedade, essa lideran\u00e7a n\u00e3o se constr\u00f3i em um terreno abstrato de uma luta de ideias, mas sim dentro de um conjunto de institui\u00e7\u00f5es e se condensa, em \u00faltima inst\u00e2ncia, no aparato estatal. O Estado n\u00e3o pode mais ser entendido como o mero vigia noturno do liberalismo. \u00c9 algo completamente diferente, e Gramsci dedica algumas das melhores p\u00e1ginas de seus\u00a0<em>Cadernos do c\u00e1rcere<\/em>\u00a0\u00e0 compreens\u00e3o dessa \u201coutra coisa\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>O Estado integral e a guerra de posi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Na reconstru\u00e7\u00e3o de Portantiero, essa \u201coutra coisa\u201d \u00e9 o Estado integral, um conceito que Peter Thomas, e antes dele Christine Buci-Glucksmann em seu c\u00e9lebre estudo sobre Gramsci e o Estado, consideram a principal contribui\u00e7\u00e3o de Gramsci para o marxismo.\u00b3 O Estado n\u00e3o aparece aqui como um mero instrumento, mas como o conjunto de atividades por meio das quais uma classe dominante mant\u00e9m seu dom\u00ednio e conquista o consentimento ativo dos governados. Ele abrange duas dimens\u00f5es: a sociedade pol\u00edtica, onde se concentra o aparato de coer\u00e7\u00e3o, e a sociedade civil, a rede de institui\u00e7\u00f5es na qual a hegemonia se organiza. Esta \u00faltima, longe de constituir o dom\u00ednio liberal da liberdade, integra a estrutura ampliada do Estado e contribui para mold\u00e1-lo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui come\u00e7am as conclus\u00f5es estrat\u00e9gicas. Se o poder da burguesia repousa sobre uma densa rede de fortalezas institucionais, n\u00e3o pode ser conquistado em um \u00fanico dia. Gramsci ent\u00e3o tra\u00e7a a distin\u00e7\u00e3o entre a guerra de movimento, o ataque frontal que triunfou na R\u00fassia em 1917, onde a sociedade civil era fluida e o Estado todo-poderoso, e a guerra de posi\u00e7\u00e3o, o longo processo que cabe ao Ocidente, onde o robusto tecido da sociedade civil est\u00e1 por tr\u00e1s do Estado. Para Gramsci, a guerra de posi\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o da hegemonia designam o mesmo processo: a forma que a estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria assume quando precisa se desenrolar em Estados complexos, profundamente enraizados na sociedade civil. Gramsci, assim, adota, contra a t\u00e1tica de \u201cclasse contra classe\u201d imposta pela Internacional no final da d\u00e9cada de 1920, o conselho do L\u00eanin tardio, que havia instado os comunistas a estudarem as especificidades do Ocidente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A burguesia testou suas pr\u00f3prias respostas a esse desafio, e a hist\u00f3ria as revelou antes que a teoria pudesse conceitu\u00e1-las plenamente. Entre as duas guerras mundiais, o antigo Parlamento liberal perdeu sua capacidade de mediar os conflitos de uma sociedade organizada em grandes partidos, sindicatos e grupos de interesse. Gramsci compreendeu as respostas burguesas a essa crise sob a categoria de revolu\u00e7\u00e3o passiva: processos de moderniza\u00e7\u00e3o de cima para baixo que incorporam parcialmente as demandas das classes subordinadas, neutralizando sua iniciativa aut\u00f4noma.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O New Deal, o reformismo trabalhista e os pactos social-democratas entre capital e trabalho s\u00e3o express\u00f5es dessa l\u00f3gica: transforma\u00e7\u00f5es reais que atenuam a press\u00e3o revolucion\u00e1ria sem alterar as rela\u00e7\u00f5es de classe. O fascismo foi uma forma alternativa e extrema de responder \u00e0 mesma crise. Em vez de absorver parcialmente as demandas das classes subordinadas, destruiu a autonomia pol\u00edtica da classe trabalhadora e reorganizou autoritariamente sua integra\u00e7\u00e3o ao Estado por meio da organiza\u00e7\u00e3o corporativista e da mobiliza\u00e7\u00e3o plebiscit\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Hegemonia e seus mal-entendidos<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">O conceito de hegemonia tem estado no centro de grande parte do debate em torno do legado de Gramsci. Perry Anderson, em sua c\u00e9lebre\u00a0obra <em>Antinomias<\/em>, argumenta que Gramsci estava errado ao localizar o consenso na sociedade civil, porque o que \u00e9 espec\u00edfico do Ocidente reside na peculiaridade de sua sociedade pol\u00edtica. No capitalismo avan\u00e7ado, o Estado representativo, a democracia burguesa, constitui \u201co principal cadeado ideol\u00f3gico do capitalismo ocidental\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cr\u00edtica tem algum m\u00e9rito. As institui\u00e7\u00f5es representativas possuem peso e subst\u00e2ncia reais pr\u00f3prios, algo que Gramsci n\u00e3o teorizou completamente, e a hegemonia burguesa \u00e9 amplamente determinada por essa configura\u00e7\u00e3o institucional. Mas Anderson paga por essa percep\u00e7\u00e3o com um dualismo que o pr\u00f3prio conceito de Estado integral desmantela. Sua obje\u00e7\u00e3o trata a sociedade civil e a sociedade pol\u00edtica como locais alternativos de hegemonia, quando o Estado integral designa precisamente a sua unidade. A hegemonia opera por meio do Estado que as articula e \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, protegida pelo monop\u00f3lio da viol\u00eancia concentrado na sociedade pol\u00edtica. Gramsci desconsidera parcialmente a especificidade da democracia representativa, mas a separa\u00e7\u00e3o r\u00edgida introduzida por Anderson perde de vista o cerne de sua contribui\u00e7\u00e3o: a an\u00e1lise da interpenetra\u00e7\u00e3o entre o Estado e a sociedade civil.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mesmo conceito nos permite distanciar-nos da leitura de Gramsci feita por Ernesto Laclau. Vale a pena reconhecer um ponto forte: Laclau aprofundou a ideia de que a hegemonia \u00e9 lideran\u00e7a cultural e moral tanto quanto lideran\u00e7a pol\u00edtica, especificando as formas que a dimens\u00e3o simb\u00f3lica de toda luta pol\u00edtica assume. Mas ele radicalizou esse aspecto a ponto de transformar qualquer constru\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica em um horizonte puramente discursivo. A centralidade da classe trabalhadora foi dilu\u00edda em uma pluralidade de posi\u00e7\u00f5es de sujeito, enquanto as restri\u00e7\u00f5es estruturais do capitalismo perderam peso na an\u00e1lise. A hegemonia gramsciana, por outro lado, opera sobre condi\u00e7\u00f5es objetivas que nenhuma articula\u00e7\u00e3o de significado pode suprimir e mant\u00e9m uma \u00e2ncora de classe que Laclau dilui. Se o capitalismo \u00e9 uma estrutura social organizada em torno da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, a posi\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora dificilmente pode ser irrelevante para uma estrat\u00e9gia voltada \u00e0 sua supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u00faltima an\u00e1lise, Anderson e Laclau erram por caminhos opostos: Anderson divide o que Gramsci concebeu como unidade; Laclau hipostasia a dimens\u00e3o simb\u00f3lica e dissolve as \u00e2ncoras materiais e econ\u00f4micas. Em ambos os casos, perde-se a articula\u00e7\u00e3o gramsciana entre coer\u00e7\u00e3o, consenso e rela\u00e7\u00f5es de classe, que molda o Estado integral.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>De qual Gramsci a esquerda precisa hoje?<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Este Gramsci, o estrategista da hegemonia, \u00e9 tamb\u00e9m o pensador da derrota. Sua obra madura responde ao fracasso do ciclo que come\u00e7ou com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa e terminou com a ascens\u00e3o do fascismo. A partir dessa avalia\u00e7\u00e3o, ele relan\u00e7a o debate estrat\u00e9gico. Nossa situa\u00e7\u00e3o guarda algumas semelhan\u00e7as com aquela. O longo ciclo que come\u00e7ou em 1968 culminou, ap\u00f3s as derrotas oper\u00e1rias da d\u00e9cada de 1980, a ofensiva neoliberal e a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em uma derrota hist\u00f3rica para o movimento oper\u00e1rio. O neoliberalismo fragmentou a classe trabalhadora e a decomp\u00f4s politicamente, enquanto o colapso sovi\u00e9tico desencadeou uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o duradoura cujos efeitos persistem at\u00e9 hoje. A essa decomposi\u00e7\u00e3o soma-se agora um per\u00edodo reacion\u00e1rio e uma ofensiva autorit\u00e1ria. Mesmo assim, o impulso para a reorganiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as populares n\u00e3o desapareceu.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse impulso exige uma estrat\u00e9gia. A quest\u00e3o que Portantiero encontrou em Gramsci volta a ser relevante para a esquerda hoje: como contestar o poder em complexos Estados capitalistas, onde a domina\u00e7\u00e3o se organiza como hegemonia por meio do Estado integral. As duas respostas predominantes j\u00e1 demonstraram suas limita\u00e7\u00f5es. A confian\u00e7a na acumula\u00e7\u00e3o parlamentar resultou na administra\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ordem que buscava superar; o recuo para a batalha cultural leva a uma guerra de narrativas sem uma luta efetiva pelo poder social e pol\u00edtico. A perspectiva gramsciana nos obriga a articular a forma\u00e7\u00e3o de uma vontade coletiva com sua orienta\u00e7\u00e3o para a conquista do poder. Dentro dessa estrutura, a guerra de posi\u00e7\u00e3o mant\u00e9m seu significado revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, Gramsci deixa um legado necessariamente incompleto. A guerra de posi\u00e7\u00e3o, a hegemonia e o Estado integral abrem um novo caminho para a reflex\u00e3o estrat\u00e9gica, mas constituem apenas o seu in\u00edcio. Gramsci pensava num contexto marcado pela crise da ordem liberal e pela ascens\u00e3o do fascismo, n\u00e3o pela estabiliza\u00e7\u00e3o das democracias capitalistas do p\u00f3s-guerra nem pela sua muta\u00e7\u00e3o em formas h\u00edbridas como o que Poulantzas chamou de \u201cestatismo autorit\u00e1rio\u201d. A quest\u00e3o de como contestar o poder nesses cen\u00e1rios permaneceu sem solu\u00e7\u00e3o, e \u00e9 essa quest\u00e3o que a esquerda ainda enfrenta.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na d\u00e9cada de 1970, Poulantzas revisitou um dos problemas deixados em aberto pelo pensamento gramsciano. Se o Estado integral se ramifica na sociedade civil por meio de suas institui\u00e7\u00f5es, a rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m funciona no sentido inverso: a sociedade civil penetra e transforma o Estado, e as lutas travadas nessa arena deixam sua marca nele. Apesar de seu car\u00e1ter capitalista, o Estado incorpora, portanto, conquistas populares obtidas ao longo de mais de um s\u00e9culo de luta: sistemas p\u00fablicos de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, liberdades democr\u00e1ticas e direitos trabalhistas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como n\u00e3o pode ser reduzido ao mero vigia noturno do liberalismo ou a um bando de homens armados, deve ser concebido como um campo contradit\u00f3rio, atravessado pela luta de classes. Assim, uma estrat\u00e9gia socialista deve operar tanto dentro quanto fora do Estado: transformando e expandindo as conquistas populares que ele incorpora, enquanto simultaneamente constr\u00f3i uma for\u00e7a aut\u00f4noma capaz de transbordar as institui\u00e7\u00f5es existentes em tempos de crise e fraturar seu n\u00facleo de classe. As formas concretas dessa estrat\u00e9gia n\u00e3o podem ser predeterminadas: devem ser desenvolvidas a partir de novas experi\u00eancias hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es socialistas tamb\u00e9m permanece em aberto. Gramsci n\u00e3o desenvolveu uma teoria do Estado p\u00f3s-ruptura. A quest\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es representativas ficou sem solu\u00e7\u00e3o: seu pensamento n\u00e3o delineia claramente quais elementos da democracia representativa devem ser preservados e transformados, nem como combin\u00e1-los com formas de democracia direta ou poder no local de trabalho. Restam pistas dispersas: o lema \u201cRep\u00fablica Federal dos Oper\u00e1rios e Camponeses\u201d, que articulava uma alternativa constituinte ao Estado liberal italiano, ou suas reflex\u00f5es sobre a Assembleia Constituinte como o momento em que a lideran\u00e7a intelectual e moral de um bloco hist\u00f3rico se cristaliza em uma arquitetura institucional. Mas n\u00e3o h\u00e1 uma elabora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar em uma democracia socialista exige ir al\u00e9m. Uma transi\u00e7\u00e3o para o socialismo deve preservar e radicalizar os mecanismos representativos herdados, ainda que transformados e em rela\u00e7\u00e3o a outras formas de poder popular. Nenhuma sociedade complexa pode ser governada unicamente por meio de mobiliza\u00e7\u00e3o permanente. Representa\u00e7\u00e3o, pluralismo, liberdades civis e mecanismos de controle do poder t\u00eam uma hist\u00f3ria ligada \u00e0 sociedade burguesa, mas n\u00e3o se limitam a ela. Constituem tamb\u00e9m conquistas hist\u00f3ricas sem as quais dificilmente se sustentar\u00e1 uma forma duradoura de autogoverno. Como articular essas ideias com formas de poder popular e democracia no local de trabalho \u00e9 uma das tarefas estrat\u00e9gicas que a esquerda anticapitalista ainda precisa resolver.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ler Gramsci hoje com essa perspic\u00e1cia exige, em \u00faltima an\u00e1lise, duas coisas. A primeira \u00e9 o rigor hist\u00f3rico e filol\u00f3gico no tratamento de sua obra. A segunda \u00e9 o esfor\u00e7o de pensar al\u00e9m dela: historicizar seus conceitos e traduzi-los para um presente que n\u00e3o \u00e9 mais o seu, sem fingir que nada mudou. A classe trabalhadora n\u00e3o \u00e9 mais a mesma dos anos 1930, e as democracias capitalistas se transformaram. Gramsci continua sendo um campo de debate, mas para n\u00f3s, ele \u00e9, acima de tudo, uma ferramenta para uma esquerda que precisa repensar a estrat\u00e9gia socialista e a quest\u00e3o do poder em condi\u00e7\u00f5es adversas. A\u00ed reside a import\u00e2ncia pol\u00edtica de reeditar este livro hoje.<\/p>\n<p>Mart\u00edn Mosquera \u00e9 graduado em filosofia, professor da Universidade de Buenos Aires, membro do conselho editorial da Revista Intersecciones e militante da Democracia Socialista.<\/p>\n<p>Brais Fernandez \u00e9 membro editorial da Viento Sur e um ativista no Anticapitalistas na Espanha.<\/p>\n<p>Fonte: Um Gramsci para a estrat\u00e9gia &#8211; Link da mat\u00e9ria: https:\/\/jacobin.com.br\/2026\/10\/um-gramsci-para-a-estrategia\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mart\u00edn Mosquera e Brais Fernandez &#8211; Num presente marcado pela recomposi\u00e7\u00e3o das direitas e por novos desafios para a esquerda, revisitar Gramsci exige resgatar a for\u00e7a estrat\u00e9gica de seus conceitos. Neste texto, recuperamos a ideia de hegemonia, Estado integral e guerra de posi\u00e7\u00e3o como ferramentas para repensar a estrat\u00e9gia socialista e a quest\u00e3o do poder. 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