{"id":25450,"date":"2026-10-21T12:21:54","date_gmt":"2026-10-21T15:21:54","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25450"},"modified":"2026-10-21T10:24:05","modified_gmt":"2026-10-21T13:24:05","slug":"o-bolsonarismo-e-as-geografias-da-destruicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/10\/21\/o-bolsonarismo-e-as-geografias-da-destruicao\/","title":{"rendered":"O bolsonarismo e as geografias da destrui\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Bruno Malheiro<\/strong> &#8211; Em artigo do especial Lula \u00d7 Bolsonaro 2026, Bruno Malheiro, ge\u00f3grafo e professor da Universidade Federal do Par\u00e1, analisa a pol\u00edtica para a Amaz\u00f4nia dos dois \u00faltimos presidentes e explica o que est\u00e1 em jogo nestas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O bolsonarismo n\u00e3o nasceu nas urnas. Antes de se tornar for\u00e7a eleitoral, j\u00e1 se constitu\u00eda nas fronteiras do capitalismo brasileiro pela expans\u00e3o de uma racionalidade territorial que subordinava a terra, a natureza e as rela\u00e7\u00f5es sociais \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o privada, legitimando a destrui\u00e7\u00e3o dos bens comuns e desqualificando outras formas de organizar a vida. Em 2018, os mapas da soja, da pecu\u00e1ria e da minera\u00e7\u00e3o convergiam com aqueles em que Jair Bolsonaro obtinha seus melhores resultados eleitorais. N\u00e3o era coincid\u00eancia cartogr\u00e1fica: essas fronteiras articulavam-se a circuitos pol\u00edticos e culturais \u2013 de festas agropecu\u00e1rias a clubes de tiro e redes religiosas \u2013 que difundiam a defesa irrestrita da propriedade, a promessa da prosperidade e o empreendedorismo de si. A homogeneiza\u00e7\u00e3o das paisagens pelas commodities alcan\u00e7ava tamb\u00e9m os comportamentos e as narrativas sociais, fragilizando v\u00ednculos com a terra, com a mem\u00f3ria e com a vida coletiva. Afinal, o \u201cagro\u201d tornou-se \u201cpop\u201d e passou a ocupar lugar central na produ\u00e7\u00e3o de sentidos no Brasil.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia \u00e9 a express\u00e3o mais brutal dessa racionalidade territorial. Florestas derrubadas, rios contaminados, territ\u00f3rios invadidos e povos expulsos ou assassinados n\u00e3o s\u00e3o desvios do desenvolvimento, mas resultados de processos que subordinam a vida \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o privada e desqualificam outras formas de organizar o territ\u00f3rio. Esses processos sustentam rela\u00e7\u00f5es de poder que ampliaram a for\u00e7a, a capilaridade e a legitimidade da extrema direita, encontrando nas elei\u00e7\u00f5es de 2018 uma via de acesso ao Estado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_331582\" class=\"wp-caption aligncenter\" aria-describedby=\"caption-attachment-331582\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-331582 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/WhatsApp-Image-2026-10-16-at-17.51.55.jpeg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/WhatsApp-Image-2026-10-16-at-17.51.55.jpeg 1182w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/WhatsApp-Image-2026-10-16-at-17.51.55-300x300.jpeg 300w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/WhatsApp-Image-2026-10-16-at-17.51.55-1024x1024.jpeg 1024w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/WhatsApp-Image-2026-10-16-at-17.51.55-150x150.jpeg 150w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/WhatsApp-Image-2026-10-16-at-17.51.55-768x768.jpeg 768w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/WhatsApp-Image-2026-10-16-at-17.51.55-600x600.jpeg 600w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/WhatsApp-Image-2026-10-16-at-17.51.55-100x100.jpeg 100w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/WhatsApp-Image-2026-10-16-at-17.51.55-1024x1024-47x48.jpeg 47w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/WhatsApp-Image-2026-10-16-at-17.51.55-1024x1024-72x72.jpeg 72w, \" alt=\"\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-331582\" class=\"wp-caption-text c007\">Ilustra: Lila Cruz<\/figcaption><\/figure>\n<p><b>O governo Bolsonaro e a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia como pol\u00edtica de Estado<\/b><\/p>\n<p>Entre 2019 e 2022, essas geografias ganharam escala de Estado, fazendo da Amaz\u00f4nia um laborat\u00f3rio de experimenta\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria. A flexibiliza\u00e7\u00e3o das normas ambientais, o enfraquecimento da fiscaliza\u00e7\u00e3o, os ataques aos direitos territoriais e a legitima\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia em defesa da propriedade privada ampliaram as condi\u00e7\u00f5es para a destrui\u00e7\u00e3o. No per\u00edodo, o desmatamento acumulado na Amaz\u00f4nia Legal chegou a 45.612 km\u00b2 segundo o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amaz\u00f4nia Legal por Sat\u00e9lite (Prodes), do Inpe (2022). A pol\u00edtica agr\u00e1ria favoreceu a inser\u00e7\u00e3o de terras no mercado e processos de reconcentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, enquanto Funai, Ibama e ICMBio eram enfraquecidos e a agenda ambiental, militarizada. O garimpo ilegal avan\u00e7ou em territ\u00f3rios ind\u00edgenas, articulado ao crime organizado e amparado pela toler\u00e2ncia estatal. A trag\u00e9dia Yanomami sintetizou essa pol\u00edtica: mais de 20 mil garimpeiros invadiram seu territ\u00f3rio, agravando a contamina\u00e7\u00e3o dos rios, as doen\u00e7as, a fome e as mortes diante da omiss\u00e3o do governo.<\/p>\n<p>Na Amaz\u00f4nia, essa ofensiva articulou setores das oligarquias tradicionais a novos atores pol\u00edticos vinculados \u00e0s frentes econ\u00f4micas predat\u00f3rias, inclusive ilegais e ligadas ao crime organizado, que converteram interesses econ\u00f4micos em for\u00e7a eleitoral sob a bandeira do bolsonarismo. O or\u00e7amento secreto fortaleceu grupos e lideran\u00e7as locais, ampliando a capilaridade da extrema-direita pelo interior da regi\u00e3o. Essa consolida\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se apoiou na viol\u00eancia pol\u00edtica, nos ataques \u00e0 imprensa e na intimida\u00e7\u00e3o de opositores, que restringiram o pensamento cr\u00edtico e dificultaram a organiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de esquerda. A experi\u00eancia amaz\u00f4nica revela, assim, como o projeto bolsonarista reconfigurou o patrimonialismo brasileiro, aproximou interesses privados de uma agenda autorit\u00e1ria e estreitou as condi\u00e7\u00f5es de exerc\u00edcio da democracia.<\/p>\n<p><b>O governo Lula, a Amaz\u00f4nia e a persist\u00eancia do bolsonarismo<\/b><\/p>\n<p>Lula venceu as elei\u00e7\u00f5es de 2022 por uma pequena margem. Seu governo reconstruiu institui\u00e7\u00f5es, retomou pol\u00edticas p\u00fablicas, recomp\u00f4s capacidades estatais e recolocou a prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia na agenda federal. O Brasil tamb\u00e9m recuperou espa\u00e7o no multilateralismo, buscou defender seus interesses diante de diferentes blocos, sem alinhamento a um \u00fanico centro de poder, orienta\u00e7\u00e3o relevante em um cen\u00e1rio internacional marcado por guerras e disputas geopol\u00edticas. Na Amaz\u00f4nia, o desmatamento caiu de 9.064 km\u00b2 em 2023 para 5.731 km\u00b2 em 2025 (INPE\/PRODES, 2025). A fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental foi retomada, opera\u00e7\u00f5es de desintrus\u00e3o enfrentaram invas\u00f5es em terras ind\u00edgenas e os direitos territoriais voltaram \u00e0 agenda p\u00fablica. Ibama, ICMBio e Funai tamb\u00e9m passaram por processos de recomposi\u00e7\u00e3o institucional. Houve, portanto, um freio \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar dos avan\u00e7os na prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, o primeiro turno de 2026 evidencia a perman\u00eancia da for\u00e7a eleitoral e territorial do bolsonarismo. Em 2018 e 2022, as \u00e1reas de expans\u00e3o da soja, da agropecu\u00e1ria, da minera\u00e7\u00e3o e do desmatamento se sobrepuseram geograficamente \u00e0s de maior vota\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro. Na Amaz\u00f4nia, em 2022, ele venceu em munic\u00edpios que concentravam, juntos, 70% das \u00e1reas desflorestadas nas tr\u00eas d\u00e9cadas anteriores.1 Em 2026, estudos distintos voltaram a identificar as geografias do bolsonarismo. Marcela Vecchione e Rafaella Pinto2 relacionaram a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria em im\u00f3veis acima de mil hectares \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da vota\u00e7\u00e3o de Lula em rela\u00e7\u00e3o a 2022, sobretudo nas fronteiras de expans\u00e3o da soja. Marco Ant\u00f4nio Faganello,3 por sua vez, observou perdas mais acentuadas de Lula em munic\u00edpios menores, onde o agroneg\u00f3cio tem maior peso econ\u00f4mico. Em conjunto, esses estudos refor\u00e7am a compreens\u00e3o do bolsonarismo como for\u00e7a eleitoral sustentada por uma racionalidade territorial que permanece ativa na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>A recomposi\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e das pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o ambiental no governo Lula demonstrou que \u00e9 poss\u00edvel frear a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Mas esses avan\u00e7os n\u00e3o dissolveram as bases territoriais que sustentam o bolsonarismo. As elei\u00e7\u00f5es de 2026 colocam o pa\u00eds diante de uma encruzilhada territorial, geopol\u00edtica e clim\u00e1tica: o poss\u00edvel retorno de um projeto que fez da destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia uma forma de governo amea\u00e7a a exist\u00eancia da floresta e de seus povos, a soberania nacional diante dos riscos de subordina\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos e o equil\u00edbrio clim\u00e1tico do planeta, para o qual a Amaz\u00f4nia contribui por meio da regula\u00e7\u00e3o de importantes ciclos biogeoqu\u00edmicos.<\/p>\n<p><b>Resistir ao bolsonarismo e pensar desde a Amaz\u00f4nia<\/b><\/p>\n<p>A disputa eleitoral \u00e9 decisiva para impedir que o bolsonarismo amplie seu controle sobre o Estado. As mobiliza\u00e7\u00f5es recentes de estudantes e trabalhadores nas ruas e nas redes deram sinais de uma nova for\u00e7a pol\u00edtica, que precisa sobreviver \u00e0 urg\u00eancia eleitoral e se constituir como for\u00e7a coletiva duradoura. Nos territ\u00f3rios amaz\u00f4nicos e nos demais biomas atravessados pela destrui\u00e7\u00e3o ambiental, povos e comunidades enfrentam as for\u00e7as territoriais que sustentam o bolsonarismo. \u00c9 no encontro entre essas diferentes formas de mobiliza\u00e7\u00e3o que se pode fortalecer a resist\u00eancia \u00e0 extrema direita e enfrentar suas bases territoriais e subjetivas.<\/p>\n<p>O bolsonarismo instrumentalizou a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia como forma de exerc\u00edcio do poder e de organiza\u00e7\u00e3o do Estado. Mas as lutas ind\u00edgenas, quilombolas, camponesas, ribeirinhas e extrativistas, em di\u00e1logo com as mobiliza\u00e7\u00f5es por direitos e democracia, afirmam outras formas de conceber o Estado, a pol\u00edtica e nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo. \u00c9 pela experi\u00eancia territorial dessas resist\u00eancias que n\u00e3o apenas enfrentamos as geografias da morte que sustentam o bolsonarismo, mas tamb\u00e9m encontramos geografias capazes de projetar outros mundos e manter abertos os horizontes que ainda precisamos construir.<\/p>\n<p><b>Bruno Malheiro<\/b> \u00e9 ge\u00f3grafo, doutor em Geografia e professor do Instituto de Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Par\u00e1. Um dos autores de <i>Horizontes amaz\u00f4nicos<\/i>, autor de <i>Geografias do Bolsonarismo<\/i>, corroteirista do document\u00e1rio <i>Pisar suavemente na terra<\/i> e autor do \u00e1lbum musical <i>Segura o c\u00e9u<\/i>.<\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\">Fonte: O bolsonarismo e as geografias da destrui\u00e7\u00e3o &#8211; Le Monde Diplomatique &#8211; Link da mat\u00e9ria: https:\/\/diplomatique.org.br\/o-bolsonarismo-e-as-geografias-da-destruicao\/<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Malheiro &#8211; Em artigo do especial Lula \u00d7 Bolsonaro 2026, Bruno Malheiro, ge\u00f3grafo e professor da Universidade Federal do Par\u00e1, analisa a pol\u00edtica para a Amaz\u00f4nia dos dois \u00faltimos presidentes e explica o que est\u00e1 em jogo nestas elei\u00e7\u00f5es. O bolsonarismo n\u00e3o nasceu nas urnas. 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