{"id":25416,"date":"2026-10-05T12:45:33","date_gmt":"2026-10-05T15:45:33","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25416"},"modified":"2026-10-04T14:48:17","modified_gmt":"2026-10-04T17:48:17","slug":"crises-da-imaginacao-progressista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/10\/05\/crises-da-imaginacao-progressista\/","title":{"rendered":"Crises da imagina\u00e7\u00e3o progressista"},"content":{"rendered":"<p><strong>Kalil de Oliveira Rodrigues<\/strong>\u00a0&#8211; O surgimento de lideran\u00e7as autorit\u00e1rias \u00e9 consequ\u00eancia de um cen\u00e1rio de manipula\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e esvaziamento do debate program\u00e1tico. A supera\u00e7\u00e3o dessa crise exige que as artes recuperem a capacidade de imaginar futuros coletivos, em vez de se limitarem a comercializar traumas pessoais.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica \u00e9 encena\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, virou um picadeiro em que lideran\u00e7as disputam a opini\u00e3o p\u00fablica a partir do riso, do esc\u00e1rnio. Constatar o elemento teatral da pol\u00edtica, por\u00e9m, costuma ser tarefa dos c\u00ednicos, aqueles que demonizam a atividade humana por excel\u00eancia acusando-a de teatro de marionetes.<\/p>\n<p>\u00c9 fora dessa l\u00f3gica, no entanto, que afirmo que pol\u00edtica \u00e9 encena\u00e7\u00e3o. Na verdade, tudo que corresponde \u00e0 vida social \u00e9 encenado, ainda que inconscientemente. Os estudos de g\u00eanero, por exemplo, est\u00e3o avan\u00e7ados na hip\u00f3tese de que a performance orienta as maneiras de ser no mundo, como mostra Judith Butler.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica institucional, o esquema \u00e9 parecido. Basta ver as in\u00fameras imagens de bolsonaristas ajoelhados rezando ao Deus neopentecostal dentro dos parlamentos brasileiros. A performatividade, no entanto, \u00e9 comum a todos os espectros ideol\u00f3gicos. Afinal, o populismo, t\u00e3o demonizado, \u00e9 g\u00eanero discurso e n\u00e3o programa partid\u00e1rio, segundo Maria Esperanza Casullo.<\/p>\n<p>Quando o ent\u00e3o candidato Luiz In\u00e1cio Lula da Silva apareceu no debate presidencial de 2022 da TV Bandeirantes usando broche de campanha de combate \u00e0 viol\u00eancia sexual contra menores, ele performou ser contra a pedofilia, contrapondo-se ao ent\u00e3o presidente Jair Bolsonaro, que disse que \u201cpintou um clima\u201d com meninas venezuelas de 14 e 15 anos. Sintetizando, \u00e9 prov\u00e1vel, visto o hist\u00f3rico, que o petista realmente rechace a pedofilia \u2013 nem toda performance \u00e9 falsa. Agora, a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi encenada. Era uma mensagem clara aos eleitores de que ele demoniza a viol\u00eancia sexual e, de forma subliminar ma non troppo, acusar o advers\u00e1rio de ter postura oposta. Tudo isso \u00e9 v\u00e1lido. Faz parte do jogo.<\/p>\n<p>No passado, este tipo de estrat\u00e9gia na pol\u00edtica era quase exclusividade dos per\u00edodos eleitorais. Com a comunica\u00e7\u00e3o digital, as campanhas se tornaram permanentes. E para fazer campanhas, grupos com mais or\u00e7amento contratam consultores, que se valem de diversas metodologias quantitativas e qualitativas das ci\u00eancias sociais para tra\u00e7arem diagn\u00f3sticos da opini\u00e3o p\u00fablica. O r\u00e1pido desenvolvimento tecnol\u00f3gico torna os resultados mais precisos ano a ano.<\/p>\n<p>Com as informa\u00e7\u00f5es, os profissionais desenvolvem estrat\u00e9gias para conquistar objetivos, mitigando poss\u00edveis impactos negativos e ressaltando aspectos positivos. Criam-se linhas narrativas. Em outras palavras, planejamentos estrat\u00e9gicos que guiar\u00e3o a encena\u00e7\u00e3o do candidato ao longo do per\u00edodo pr\u00e9-estabelecido \u2013 ou at\u00e9 os grupos focais mostrarem que tais discursos perderam a validade. As narrativas valem-se da po\u00e9tica, de recursos liter\u00e1rios para obterem seus resultados. \u00c9 performance, mas \u00e9 como se Shakespeare tivesse \u00e0 m\u00e3o ferramentas de an\u00e1lise de dados avan\u00e7ad\u00edssimas.<\/p>\n<p>O que os profissionais da comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica chamam de \u201ccampanha permanente\u201d \u00e9, na realidade, o auge do que Walter Benjamin chamou de \u201cestetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica\u201d. O fil\u00f3sofo alem\u00e3o argumenta que a reprodutibilidade t\u00e9cnica atrofia a aura da obra de arte, isto \u00e9, a dist\u00e2ncia contemplativa entre o emissor e o receptador da obra de arte.<\/p>\n<p>Com isso, o objeto art\u00edstico perderia sua autenticidade, transformando a fun\u00e7\u00e3o social da arte, o culto, fundando-se \u00e0 pol\u00edtica. Essa transposi\u00e7\u00e3o teria criado a cultura de massas. Sem aura, a arte torna-se mero entretenimento servindo a fins mercadol\u00f3gicos. O p\u00fablico passaria, portanto, a cultuar o produto exposto.<\/p>\n<p>O fascismo, ent\u00e3o, se aproveitaria de tal din\u00e2mica para corromper a massa, apagando a forma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia de classe. Assim, \u201co fascismo caminha diretamente em dire\u00e7\u00e3o a uma estetiza\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica. Com D\u2019Annunzio a decad\u00eancia penetrou a pol\u00edtica; com Marinetti, o futurismo; e com Hitler, a tradi\u00e7\u00e3o de Schwabling\u201d. Tudo isso culminou, para Benjamin, em guerra. O manifesto de Marinetti, inclusive, referencia a guerra como objetivo est\u00e9tico.<\/p>\n<p>A reprodutibilidade t\u00e9cnica a que Walter Benjamin se refere \u00e9 a fotografia e, principalmente, o cinema. No s\u00e9culo 21, os servi\u00e7os de intelig\u00eancia artificial e o predom\u00ednio da comunica\u00e7\u00e3o digital \u2013 mediada pelas Big Techs do Vale do Sil\u00edcio \u2013 elevou a reprodu\u00e7\u00e3o ao m\u00e1ximo de sua efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Em 2007, Steve Jobs apresenta a primeira vers\u00e3o do iPhone, ainda rudimentar. No ano seguinte, Barack Obama \u00e9 eleito presidente dos Estados Unidos, sendo pioneiro no uso das redes sociais digitais em campanhas. Em 2016, menos de dez anos depois, os smartphones j\u00e1 estavam nas m\u00e3os de quase toda a totalidade dos eleitores estadunidenses. E \u00e9 nesse ano que este pa\u00eds elege o populista de extrema direita Donald Trump, abrindo margem para l\u00edderes autorit\u00e1rios. Em 2022, a Open AI lan\u00e7a o ChatGPT, mudando para sempre a (re)produ\u00e7\u00e3o intelectual humana. Em 2026, enquanto escrevo essa disserta\u00e7\u00e3o, o mundo vive em hegemonia fascista. Gaza e Ucr\u00e2nia ardem no seio de uma batalha que \u00e9, antes de tudo, est\u00e9tica.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Escutei um rapaz conversando com um amigo nos corredores da universidade. \u201cA arte nunca foi t\u00e3o acess\u00edvel. Nunca houve tantas pessoas consumindo arte\u201d, disse ele, e a frase permaneceu reverberando em mim, que ouvi a conversa de escanteio. Todos est\u00e3o conectados, assistindo a filmes e s\u00e9ries, ouvindo m\u00fasicas nas plataformas de streaming. Com o Instagram e TikTok, a imagem se tornou permanente na vida das massas. Com isso, argumenta-se que h\u00e1 hegemonia progressista no campo das artes (ol\u00e1, olavistas), afinal temas ditos identit\u00e1rios parecem ganhar algum tipo de tra\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os intelectualizados.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 mentira em partes, visto que as redes operam em bolhas, evidenciando aquilo que o p\u00fablico quer ver \u2013 mesmo que seja para odiar. Por\u00e9m, caso fosse verdadeiro, elas funcionam a partir da l\u00f3gica do consumo. Os algoritmos entregam ao p\u00fablico aquilo que tem fun\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica, tudo se torna pasteurizado. Um lan\u00e7amento parece ser sempre o mesmo. O p\u00fablico de Taylor Swift celebra os relan\u00e7amentos de \u00e1lbuns da cantora como se fossem novidade.<\/p>\n<p>O fascismo contempor\u00e2neo aproveita, ent\u00e3o, a corros\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o social da arte, como apontava Walter Benjamin, culminando na aus\u00eancia de consci\u00eancia de classe, para estetizar sua pr\u00e1tica pol\u00edtica. Propagam-se, ent\u00e3o, narrativas populistas que dividem a sociedade entre um povo oprimido e uma elite opressora, composta por vil\u00f5es caricatos (o bilion\u00e1rio judeu, a l\u00e9sbica feminista, o terrorista imigrante). Os salvadores seguem perfeitamente a jornada do her\u00f3i. Deus opera pelas m\u00e3os de Donald Trump, Javier Milei \u00e9 o le\u00e3o que veio para devorar a casta, Jair Bolsonaro \u00e9 o mito que, com m\u00e3os de ferro, salvar\u00e1 o Brasil da corrup\u00e7\u00e3o e do progressismo desmoralizante. Para n\u00f3s, os antifascistas, chega a ser engra\u00e7ado descrever essas estrat\u00e9gias. E o desconforto c\u00f4mico que sentimos \u00e9 pela inautenticidade. Afinal, tudo isso \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica \u00e9 encena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAssim configura-se a estetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica operada pelo fascismo. A ele o comunismo responde com a politiza\u00e7\u00e3o da arte\u201d, analisa Benjamin. Ele infelizmente n\u00e3o sobreviveu ao nazismo, suicidando-se na fronteira da Fran\u00e7a para evitar ser enviado a um campo de concentra\u00e7\u00e3o. O que derrotou o fascismo foram os ex\u00e9rcitos, n\u00e3o a politiza\u00e7\u00e3o da arte. Esta serviu no processo de desnazifica\u00e7\u00e3o. Mas interpreto a senten\u00e7a de Benjamin ainda na etapa de disputa, quando o fascismo busca consolidar-se. A\u00ed sim a politiza\u00e7\u00e3o da arte \u00e9 capaz de fazer frente a estetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Acontece que, neste tempo, no s\u00e9culo 21, \u00e9 ingenuidade falar em comunismo. Ao ser perguntada sobre a maior conquista de seu governo, Margareth Thatcher respondeu que \u00e9 Tony Blair e o novo Trabalhismo ingl\u00eas. Isto \u00e9, a esquerda tornou-se neoliberal, mas com verniz progressista, diria Nancy Fraser. E assim \u00e9 poss\u00edvel afirmar que houve intensa politiza\u00e7\u00e3o da arte justamente no sentido neoliberal. O que \u00e9 mais individual do que o eu? E quais s\u00e3o os romances em destaque no mercado, nas listas de recomenda\u00e7\u00f5es? A grande tend\u00eancia da literatura contempor\u00e2nea s\u00e3o as \u201cautofic\u00e7\u00f5es\u201d, trabalhos autobiogr\u00e1ficos com alto componente narc\u00edsico em que, quase sempre, as narra\u00e7\u00f5es s\u00e3o sobre as dores, as lutas \u2013 mas, note-se, sempre individuais. Edouard Louis fala da sua homofobia sofrida. Annie Ernaux fala do seu aborto. \u00c9 l\u00f3gico que s\u00e3o experi\u00eancias com forte componente universal. Os leitores, ent\u00e3o, se identificam com as narrativas do eu. A politiza\u00e7\u00e3o da arte \u00e9, ent\u00e3o, uma politiza\u00e7\u00e3o conservadora. N\u00e3o aponta para mudan\u00e7as estruturais, n\u00e3o imagina o futuro, mas instiga o ressentimento de seu p\u00fablico.<\/p>\n<p>Com isso, o progressismo monetiza traumas, colocando-se sempre na posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima. E a v\u00edtima, que passa a vida toda ressentida sem agir, n\u00e3o \u00e9 mais do que um ser impotente. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais consci\u00eancia de classe, apenas glorifica\u00e7\u00e3o da dor, a aceita\u00e7\u00e3o do lugar de derrotado. Territ\u00f3rio f\u00e9rtil para o fascimo.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo\u201d, sentencia Mark Fisher. A quest\u00e3o \u00e9 que com a reprodutibilidade t\u00e9cnica, imaginar tornou-se ato desnecess\u00e1rio. Tudo \u00e9 literal, tudo \u00e9 biogr\u00e1fico, ainda que fantasioso. \u00c9 miss\u00e3o do nosso tempo, portanto, mostrar que \u00e9 poss\u00edvel um futuro melhor, mais justo. Cabe \u00e0 literatura e \u00e0s artes imaginar o amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Por outro lado, esta arte n\u00e3o deve ser panflet\u00e1ria. Jacques Ranci\u00e8re classifica a forma propagandista de se fazer arte como parte de um \u201cregime \u00e9tico\u201d. A proposta, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um movimento art\u00edstico que defina quem s\u00e3o os bons e os maus \u2013 isso a autofic\u00e7\u00e3o vitimista j\u00e1 faz.<\/p>\n<p>Leitores s\u00e3o capazes de, por seu pr\u00f3prio sentido \u00e9tico, identificarem os conflitos sociais narrados. A miss\u00e3o \u00e9tica da arte, esta sim, com alto car\u00e1ter revolucion\u00e1rio, \u00e9 t\u00e3o somente imaginar e oferecer ferramentas po\u00e9ticas e met\u00e1foras para tanto. Mostrar que \u00e9 poss\u00edvel imaginar, esperan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Kalil de Oliveira Rodrigues \u00e9 jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina com interc\u00e2mbio na Universidade de Buenos Aires, \u00e9 mestrando pela Escola de Jornalismo da Universidade Aut\u00f4noma de Madri e do jornal El Pa\u00eds. Foi rep\u00f3rter da Folha de S.Paulo, onde come\u00e7ou como trainee, e colaborou com ve\u00edculos como a revista piau\u00ed, o Estado de Minas, UOL, Portal Catarinas, canais de televis\u00e3o e esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio da Argentina etc.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica. Tradu\u00e7\u00e3o de Gabriel Vallad\u00e3o Silva. Porto Alegre: L&amp;PM, 2018.<\/p>\n<p>BUTLER, Judith P. Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato Aguiar. 16. ed. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2018.<\/p>\n<p>CASULLO, Mar\u00eda Esperanza. \u00bfPor qu\u00e9 funciona el populismo? El discurso que sabe construir explicaciones convincentes de un mundo en crisis. Buenos Aires: Siglo XXI Editores, 2019.<\/p>\n<p>ERNaux, Annie. O acontecimento. Tradu\u00e7\u00e3o de Mar\u00edlia Garcia. S\u00e3o Paulo: F\u00f3sforo, 2022.<\/p>\n<p>FISHER, Mark. Realismo capitalista: \u00e9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Tradu\u00e7\u00e3o de Rodrigo Gonsalves, Jorge Adeodato e Maikel da Silveira. S\u00e3o Paulo: Autonomia Liter\u00e1ria, 2020.<\/p>\n<p>LOUIS, \u00c9douard. Mudar: m\u00e9todo. Tradu\u00e7\u00e3o de Mar\u00edlia Garcia. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2023.<\/p>\n<p>RANCI\u00c8RE, Jacques. A partilha do sens\u00edvel: est\u00e9tica e pol\u00edtica. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00f4nica Costa Netto. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2009.<\/p>\n<p>Fonte: Crises da imagina\u00e7\u00e3o progressista &#8211; Le Monde Diplomatique &#8211; Link da mat\u00e9ria: https:\/\/diplomatique.org.br\/crises-da-imaginacao-progressista\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kalil de Oliveira Rodrigues\u00a0&#8211; O surgimento de lideran\u00e7as autorit\u00e1rias \u00e9 consequ\u00eancia de um cen\u00e1rio de manipula\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e esvaziamento do debate program\u00e1tico. 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