{"id":2540,"date":"2016-12-16T15:56:31","date_gmt":"2016-12-16T17:56:31","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2540"},"modified":"2016-12-13T20:07:40","modified_gmt":"2016-12-13T22:07:40","slug":"o-que-e-materialismo-dialetico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/12\/16\/o-que-e-materialismo-dialetico\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 materialismo dial\u00e9tico?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Rob Sewell<\/strong> &#8211;\u00a0As teorias de Marx fornecem ao pensador iniciante uma compreens\u00e3o de forma global. \u00c9 a tarefa de cada trabalhador e estudante conquistar para si as teorias de Marx e Engels, como um pr\u00e9-requisito para a conquista da sociedade pelos trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Marxismo, ou Socialismo Cient\u00edfico, \u00e9 o nome dado ao corpo de ideias primeiramente trabalhadas por Karl Marx (1818 \u2013 1883) e Friedrich Engels (1820 \u2013 1895). Na sua totalidade, estas ideias fornecem uma base te\u00f3rica completa para a luta da classe trabalhadora para chegar \u00e0 forma superior de sociedade humana \u2013 o socialismo.<\/p>\n<p>O estudo do Marxismo recai sobre tr\u00eas principais bases correspondentes \u00e0 Filosofia, \u00e0 Hist\u00f3ria Social e \u00e0 Economia &#8211; Materialismo Dial\u00e9tico, Materialismo \u00a0Hist\u00f3rico e Economia Marxista, respectivamente. Estas s\u00e3o as famosas \u201ctr\u00eas partes constitutivas do Marxismo\u201d como apontadas por Lenin.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie Educa\u00e7\u00e3o para Socialistas foi lan\u00e7ada para promover o estudo do Marxismo. Ela tenciona auxiliar o estudante do Marxismo fornecendo uma introdu\u00e7\u00e3o ao assunto com textos marxistas apropriados que desejamos que abram o apetite para mais leituras e estudos. No primeiro desses guias de estudo, fornecemos uma sele\u00e7\u00e3o de materiais sobre Materialismo Dial\u00e9tico. As outras \u201cpartes constitutivas\u201d, bem como outras quest\u00f5es fundamentais, ser\u00e3o vistas em artigos futuros. Os guias s\u00e3o apropriados para um estudo individual ou como a base para um grupo marxista de discuss\u00f5es.<\/p>\n<p>Para iniciar este estudo sobre o Materialismo Dial\u00e9tico, os editores est\u00e3o publicando um artigo introdut\u00f3rio escrito por Rob Sewell. Embora seja um bom in\u00edcio para o projeto, n\u00e3o existe nenhum substituto daqui em diante para os trabalhos filos\u00f3ficos de Marx, Engels, Lenin, Trotsky, Plekhanov e outros. Infelizmente, Marx e Engels nunca escreveram um trabalho que englobasse todo o materialismo Dial\u00e9tico, embora fosse sua inten\u00e7\u00e3o faz\u00ea-lo. Com sua morte, Engels deixou uma pilha de manuscritos, sobre os quais tencionava trabalhar sobre o materialismo ou ainda, sobre as leis de movimento da natureza, da sociedade humana e do pensamento humano. Estas leis foram mais tarde publicadas como a Dial\u00e9tica da Natureza. Mesmo de um modo ainda cru, n\u00e3o finalizado, estas notas d\u00e3o uma introdu\u00e7\u00e3o brilhante ao m\u00e9todo marxista e sua rela\u00e7\u00e3o com as ci\u00eancias.<\/p>\n<p>O leitor novato n\u00e3o deve se assustar com a dificuldade e as ideias abstratas expressas neste texto. Mesmo sentindo uma dificuldade inicial, a perseveran\u00e7a se pagar\u00e1. O Marxismo \u00e9 uma ci\u00eancia com sua pr\u00f3pria terminologia e exige uma alta demanda do iniciante. Entretanto, qualquer trabalhador e estudante s\u00e9rios sabem que nada vale realmente a pena se n\u00e3o tiver sua parcela de sacrif\u00edcio e luta.<\/p>\n<p>As teorias de Marx fornecem ao pensador iniciante uma compreens\u00e3o de forma global. \u00c9 a tarefa de cada trabalhador e estudante conquistar para si as teorias de Marx e Engels, como um pr\u00e9-requisito para a conquista da sociedade pelos trabalhadores.<\/p>\n<h4>Conte\u00fado<\/h4>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Precisamos de uma Filosofia?<\/p>\n<p>Os limites da l\u00f3gica formal<\/p>\n<p>Materialismo X Idealismo<\/p>\n<p>Dial\u00e9tica e Metaf\u00edsica<\/p>\n<p>A lei da quantidade em qualidade (e vice-versa)<\/p>\n<p>A unidade dos opostos<\/p>\n<p>A nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Hegel e Marx<\/p>\n<p>O ABC do Materialismo Dial\u00e9tico, por Trotsky<\/p>\n<p>De \u2018Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia cl\u00e1ssica\u2019, por Engels<\/p>\n<p>As tr\u00eas fontes e as tr\u00eas partes constitutivas do Marxismo (resumo), por Lenin<\/p>\n<p>Os trabalhos selecionados de Lenin:<\/p>\n<p>&#8211; Volume 38, p. 359 \u2013 Sobre a dial\u00e9tica<\/p>\n<p>&#8211; Volume 38, p. 221 \u2013 Resumo da dial\u00e9tica<\/p>\n<p>Quest\u00f5es sobre o Materialismo Dial\u00e9tico: lista de leituras sugeridas<\/p>\n<p>Reconhecemos que h\u00e1 obst\u00e1culos reais no caminho da luta do trabalhador por teoria. Um homem ou mulher que \u00e9 obrigado a labutar por longas horas no trabalho, que nunca teve o benef\u00edcio de uma boa educa\u00e7\u00e3o e, por consequ\u00eancia, falta o h\u00e1bito da leitura, encontra muita dificuldade em absorver muitas das ideias mais complexas, especialmente no in\u00edcio. No entanto, foi para os trabalhadores que Marx e Engels escreveram, e n\u00e3o para os \u201cinteligentes\u201d acad\u00eamicos. \u201cTodo come\u00e7o \u00e9 dif\u00edcil\u201d n\u00e3o importando de qual ci\u00eancia estamos falando. Para o trabalhador com consci\u00eancia de classe que est\u00e1 preparado para perseverar, uma promessa pode ser feita: uma vez feito o esfor\u00e7o para se familiar com ideias novas e estranhas, as teorias do Marxismo ser\u00e3o consideradas basicamente f\u00e1ceis e lineares.<\/p>\n<p>Uma vez conquistados os conceitos b\u00e1sicos do Marxismo, uma nova concep\u00e7\u00e3o sobre a pol\u00edtica, a luta de classes e todos os aspectos da vida estar\u00e1 aberta.<\/p>\n<p>Como uma introdu\u00e7\u00e3o mais aprofundada \u00e0 dial\u00e9tica, estamos republicando tamb\u00e9m neste artigo o \u2018ABC do Materialismo Dial\u00e9tico\u2019 de Trotsky; tamb\u00e9m de Trotsky, \u2018Um triunfo do Materialismo Dial\u00e9tico\u2019; um excerto de Lenin, \u2018As tr\u00eas fontes e as tr\u00eas partes constitutivas do Marxismo\u2019; os \u2018Elementos da dial\u00e9tica\u2019 de Lenin e, um excerto de Engels, \u2018Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3\u2019.<\/p>\n<p>Para estudos mais aprofundados recomendamos os seguintes trabalhos de Engels, especialmente os cap\u00edtulos 12 e 13 de Anti-Duhring, a introdu\u00e7\u00e3o de \u2018Dial\u00e9tica da Natureza\u2019 e \u2018Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3\u2019.<\/p>\n<p>Aqueles que tencionam uma imers\u00e3o maior devem tentar ler \u2018A concep\u00e7\u00e3o monista da Hist\u00f3ria\u2019 de Plekhanov, \u2018Materialismo e cr\u00edtica emp\u00edrica\u2019 de Lenin, bem como Notas filos\u00f3ficas (Trabalhos selecionados, vol. 38). Embora estes livros n\u00e3o sejam de leitura f\u00e1cil, eles s\u00e3o indubitavelmente recompensantes se estudados com afinco.<\/p>\n<p>Os editores,<\/p>\n<p>Outubro de 2002.<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<h4>Precisamos de uma Filosofia?<\/h4>\n<p>O Socialismo cient\u00edfico ou Marxismo \u00e9 composto de tr\u00eas partes constitutivas: Materialismo Dial\u00e9tico, Materialismo Hist\u00f3rico e Economia Marxista. Este folheto, o primeiro da s\u00e9rie, \u00e9 uma introdu\u00e7\u00e3o aos conceitos do Materialismo Dial\u00e9tico \u2013 o m\u00e9todo do Marxismo.<\/p>\n<p>Para aqueles n\u00e3o iniciados \u00e0 filosofia marxista, o Materialismo Dial\u00e9tico pode parecer conceito obscuro e dif\u00edcil. Entretanto, para aqueles preparados para tirar um tempo para estudar esta nova forma de olhar para as coisas, descobrir\u00e3o uma concep\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que permitir\u00e1 um discernimento e um entendimento dos mist\u00e9rios do mundo em que vivemos. Uma pitada do Materialismo Dial\u00e9tico \u00e9 um pr\u00e9-requisito essencial para entender a doutrina do Marxismo. O Materialismo Dial\u00e9tico \u00e9 a filosofia do Marxismo que nos proporciona uma concep\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e completa do mundo. \u00c9 a pedra filos\u00f3fica \u2013 o m\u00e9todo \u2013 na qual toda a doutrina marxista est\u00e1 fundamentada.<\/p>\n<p>De acordo com Engels, a dial\u00e9tica foi \u201cnossa melhor ferramenta e nossa faca mais afiada\u201d. Da mesma forma para n\u00f3s \u00e9 guia de a\u00e7\u00e3o e das atividades dentro do movimento da classe trabalhadora. \u00c9 como uma b\u00fassola ou um mapa, que nos permite perceber as engrenagens do turbilh\u00e3o de eventos e nos permite compreender os processos internos que d\u00e3o forma ao nosso mundo.<\/p>\n<p>Gostando ou n\u00e3o, conscientemente ou n\u00e3o, todos t\u00eam uma filosofia. Uma filosofia \u00e9 simplesmente um modo de ver o mundo.\u00a0 Sob o capitalismo, sem a nossa filosofia cient\u00edfica, n\u00f3s inevitavelmente adotar\u00edamos a filosofia da classe dominante e os preconceitos da sociedade onde vivemos. \u201cAs coisas n\u00e3o mudar\u00e3o nunca\u201d \u00e9 um dito constante que reflete a inutilidade de tentar modificar as coisas e a necessidade de aceit\u00e1-las como s\u00e3o. Existem outros prov\u00e9rbios tais como \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada de novo a ser inventado\u201d e a \u201cHist\u00f3ria sempre se repete\u201d que refletem o mesmo modo de vista conservador. Tais ideias, explicou Marx, formam um peso esmagador nas consci\u00eancias dos homens e das mulheres.<\/p>\n<p>Da mesma forma como a burguesia na sua revolu\u00e7\u00e3o contra a sociedade feudal desafiou as ideias conservadoras da velha aristocracia feudal, a classe trabalhadora, na sua luta por uma nova sociedade, deve enfrentar a concep\u00e7\u00e3o dominante do seu opressor, a classe capitalista. \u00c9 claro que a classe dominante, por meio de seu monop\u00f3lio do controle dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa: a imprensa, a escola, a universidade e o p\u00falpito, conscientemente justificam seu sistema de explora\u00e7\u00e3o como sendo \u201ca forma natural de sociedade\u201d. A m\u00e1quina de repress\u00e3o do Estado, com seus \u201chomens armados\u201d, n\u00e3o \u00e9 suficiente para manter o sistema capitalista. As ideias dominantes e a moralidade da sociedade burguesa servem como uma defesa vital dos interesses materiais da classe dominante. Sem a ideologia poderosa o sistema capitalista n\u00e3o duraria for tanto tempo.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cDe uma forma ou outra\u201d, diz Lenin, \u201ctoda ci\u00eancia oficial e liberal defende a escravid\u00e3o por sal\u00e1rios&#8230; Esperar que a ci\u00eancia seja imparcial em uma sociedade de escravid\u00e3o por sal\u00e1rios \u00e9 t\u00e3o estupidamente ing\u00eanuo como esperar imparcialidade \u00a0dos industriais na quest\u00e3o: aumentar os sal\u00e1rios diminuindo os lucros\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>A ideologia oficial burguesa conduz uma incans\u00e1vel luta contra o Marxismo, corretamente considerada como mortal para o capitalismo. Os escribas e professores da burguesia estimulam uma corrente cont\u00ednua de propaganda para tentar desacreditar o Marxismo \u2013 particularmente a dial\u00e9tica. Tem sido este especialmente o caso desde a queda do Muro de Berlim e a feroz ofensiva ideol\u00f3gica contra o Marxismo, comunismo, revolu\u00e7\u00e3o e outros. \u201cO Marxismo est\u00e1 morto\u201d, eles repetidamente proclamam como um c\u00e2ntico religioso. Mas o Marxismo se recusa a se ajoelhar diante desses magos! O Marxismo reflete o desejo inconsciente da classe trabalhadora de modificar a sociedade. O seu destino est\u00e1 entrela\u00e7ado com o do proletariado.<\/p>\n<p>Os apologistas do capitalismo, em conjunto com suas sombras no movimento trabalhista, constantemente afirmam que o seu sistema \u00e9 uma forma natural e permanente de sociedade. Por outro lado, a dial\u00e9tica afirma que nada \u00e9 permanente e todas as coisas perecer\u00e3o em algum momento. Uma filosofia assim revolucion\u00e1ria se constitui em uma profunda amea\u00e7a para o sistema capitalista e, portanto, deve ser desacreditada a todo custo. Isto explica a despreparada produ\u00e7\u00e3o de propaganda antimarxista. Mas cada passo adiante na ci\u00eancia e no conhecimento serve para confirmar a corre\u00e7\u00e3o da dial\u00e9tica. Para milh\u00f5es de pessoas a crise crescente do capitalismo demonstra a validade do Marxismo. A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 for\u00e7ando os trabalhadores a procurar uma forma de sair do impasse. \u201cA vida ensina\u201d, lembra Lenin. Atualmente, para usar as famosas palavras do Manifesto Comunista, \u201cum espectro est\u00e1 rondando a Europa, o espectro do comunismo\u201d.<\/p>\n<p>Na luta pela emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, o Marxismo trava uma luta sem tr\u00e9guas contra o capitalismo e sua ideologia, que defende e justifica seu sistema de explora\u00e7\u00e3o, a \u201ceconomia de mercado\u201d. Por\u00e9m, o Marxismo faz mais que isso. O Marxismo fornece \u00e0 classe trabalhadora \u201cuma concep\u00e7\u00e3o integral de mundo inconcili\u00e1vel com qualquer forma de supersti\u00e7\u00e3o, rea\u00e7\u00e3o ou defesa da opress\u00e3o burguesa\u201d. (Lenin) Ele procura revelar as rela\u00e7\u00f5es reais que existem entre o capitalismo e arma a classe trabalhadora com a compreens\u00e3o de como ela pode alcan\u00e7ar sua pr\u00f3pria emancipa\u00e7\u00e3o. O Materialismo Dial\u00e9tico, para usar as palavras do marxista russo Plekhanov, \u00e9 mais que uma concep\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma \u201cfilosofia de a\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<h4>Os limites da l\u00f3gica formal<\/h4>\n<p>Homens e mulheres tentam pensar de uma forma racional. A l\u00f3gica (do grego logos, que significa palavra ou raz\u00e3o) \u00e9 a ci\u00eancia das leis do pensamento. Quaisquer pensamentos que tenhamos, e em qualquer idioma que os expressarmos, eles devem satisfazer as exig\u00eancias da raz\u00e3o. Essas exig\u00eancias deram origem \u00e0s leis do pensamento, aos princ\u00edpios da l\u00f3gica. Foi o fil\u00f3sofo grego Arist\u00f3teles (384 \u2013 322 AC), h\u00e1 mais de dois mil anos, formulou o presente sistema de l\u00f3gica formal \u2013 um sistema que \u00e9 a base das institui\u00e7\u00f5es educacionais at\u00e9 hoje. Ele categorizou o m\u00e9todo de como dever\u00edamos racionalizar corretamente e como os enunciados s\u00e3o combinados para chegar aos julgamentos, e a partir deles, como se chegam \u00e0s conclus\u00f5es. Ele instituiu as tr\u00eas regras b\u00e1sicas da l\u00f3gica: o princ\u00edpio da Identidade (A = A), da N\u00e3o-Contradi\u00e7\u00e3o (A n\u00e3o pode ser A e n\u00e3o A) e do terceiro exclu\u00eddo (A \u00e9 ao mesmo tempo A e n\u00e3o A, n\u00e3o existindo uma alternativa intermedi\u00e1ria).<\/p>\n<p>A l\u00f3gica formal vem deixando sua influ\u00eancia por mais de dois mil\u00eanios e foi a base do experimento e dos grandes avan\u00e7os da ci\u00eancia moderna. O desenvolvimento da matem\u00e1tica foi baseado nesta l\u00f3gica. Um mais um \u00e9 igual a dois, n\u00e3o tr\u00eas. \u00c9 imposs\u00edvel ensinar uma crian\u00e7a a somar sem isso. A l\u00f3gica formal pode parecer senso comum e \u00e9 respons\u00e1vel pela execu\u00e7\u00e3o de mil e uma coisas do cotidiano, mas \u2013 e este \u00e9 um grande mas \u2013 tem os seus limites. Ao lidar com o delineamento de processos ou eventos complicados, a l\u00f3gica formal se torna um modo de pensamento totalmente inadequado. Este \u00e9 particularmente o caso ao lidar com movimento, mudan\u00e7a e contradi\u00e7\u00e3o. A l\u00f3gica formal considera as coisas como fixas e sem movimento. \u00c9 claro, isto n\u00e3o nega a utiliza\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da l\u00f3gica formal, ao contr\u00e1rio, mas temos que reconhecer seus limites.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA dial\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o nem misticismo\u201d, escreveu Leon Trotsky, \u201cmas uma ci\u00eancia de formas de nosso pensamento desde que n\u00e3o esteja limitada aos problemas di\u00e1rios da vida, mas tentativas de chegar a uma compreens\u00e3o de processos mais complicados e delineados. A dial\u00e9tica e a l\u00f3gica formal permitem uma rela\u00e7\u00e3o similar entre a matem\u00e1tica avan\u00e7ada e rudimentar\u201d. (O ABC do Materialismo Dial\u00e9tico)<\/p><\/blockquote>\n<p>Com o desenvolvimento da ci\u00eancia moderna, o sistema de classifica\u00e7\u00e3o (de Lineu) teve como base a l\u00f3gica formal onde todas as coisas vivas s\u00e3o divididas em esp\u00e9cies e ordens. Isso foi um grande avan\u00e7o para a biologia em compara\u00e7\u00e3o com o passado. Entretanto, foi um sistema r\u00edgido e fixo, com suas categorias r\u00edgidas que com o passar do tempo mostraram suas limita\u00e7\u00f5es. Darwin, em particular, demonstrou que durante a evolu\u00e7\u00e3o era poss\u00edvel para uma esp\u00e9cie se transformar em outra esp\u00e9cie. Consequentemente, o sistema r\u00edgido de classifica\u00e7\u00e3o teve que ser modificado para permitir esta nova compreens\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>Com efeito, o sistema de l\u00f3gica formal foi destru\u00eddo. Ele n\u00e3o poderia lidar com estas contradi\u00e7\u00f5es. Por outro lado, a dial\u00e9tica \u2013 a l\u00f3gica da mudan\u00e7a \u2013 explica que n\u00e3o existem categorias fixas ou absolutas na natureza ou na sociedade. Engels se divertiu muito ao apontar para o ornitorrinco com p\u00e9s de pato, sua forma de transi\u00e7\u00e3o, e perguntando onde ele se encaixaria no sistema de formas r\u00edgidas!<\/p>\n<p>Somente o Materialismo Dial\u00e9tico pode explicar as leis da evolu\u00e7\u00e3o e da mudan\u00e7a, que v\u00ea o mundo n\u00e3o como um complexo de coisas prontas e acabadas, mas como um complexo de processos que passam por transforma\u00e7\u00f5es ininterruptas de viver e morrer. Para Hegel, a velha l\u00f3gica era exatamente como uma brincadeira de crian\u00e7a que procurava montar figuras com pe\u00e7as de quebra-cabe\u00e7as. \u201cA falha estava no pensamento vulgar\u201d, escreveu Trotsky, \u201cque se fixa no fato de que deseja contentar-se com impress\u00f5es sem movimento de uma realidade que consiste em movimentos eternos\u201d.<\/p>\n<p>Antes de darmos uma olhada nas leis principais do Materialismo Dial\u00e9tico, vamos dar uma olhada nas origens do conceito materialista.<\/p>\n<h4>Materialismo X Idealismo<\/h4>\n<p>\u201cA filosofia do Marxismo \u00e9 o materialismo\u201d, escreveu Lenin. A filosofia propriamente se estrutura em dois grandes campos ideol\u00f3gicos: o materialismo e o idealismo. Antes de prosseguir, estes dois termos precisam ser explicados. De in\u00edcio, materialismo e idealismo n\u00e3o t\u00eam nada em comum com o seu uso cotidiano, onde o materialismo \u00e9 associado com gan\u00e2ncia e fraude material (em resumo, a moralidade presente no capitalismo atual) e o idealismo com grandes ideias e virtude. Muito longe disso!<\/p>\n<p>O materialismo filos\u00f3fico \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o que explica que existe apenas um mundo material. N\u00e3o h\u00e1 c\u00e9u ou inferno. O universo, que sempre existiu e n\u00e3o \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um ser sobrenatural, \u00e9 o processo de um fluxo constante. Os seres humanos s\u00e3o uma parte da natureza, e evolu\u00edram de formas inferiores de vida, cuja origem vem de um planeta sem vida h\u00e1 mais ou menos 3,6 bilh\u00f5es de anos. Com a evolu\u00e7\u00e3o da vida, em um determinado momento, desenvolveram-se animais com um sistema nervoso central e, eventualmente, seres humanos com um c\u00e9rebro maior. Com estes humanos desenvolveu-se o pensamento e a consci\u00eancia humana. O c\u00e9rebro humano \u00e9 capaz de produzir ideias gerais, como por exemplo, o pensamento. A mat\u00e9ria, no entanto, existe desde sempre, e independentemente da mente humana. E dos seres humanos. As coisas v\u00eam existindo muito antes do surgimento de qualquer consci\u00eancia por parte dos organismos vivos.<\/p>\n<p>Para os materialistas n\u00e3o existe consci\u00eancia separada do c\u00e9rebro vivo, sendo este parte do corpo material. Uma mente sem um corpo \u00e9 um absurdo. A mat\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 um produto da mente, mas a mente \u00e9 o maior produto da mat\u00e9ria. As ideias s\u00e3o simplesmente um reflexo do mundo material independente que nos circunda. As coisas refletidas em um espelho n\u00e3o dependem deste reflexo para existirem. \u201cTodas as ideias retiradas da experi\u00eancia, s\u00e3o reflex\u00f5es \u2013 verdadeiras ou distorcidas \u2013 da realidade\u201d, afirma Engels. Ou para usar as palavras de Marx, \u201cA vida n\u00e3o \u00e9 determinada pela consci\u00eancia, mas a consci\u00eancia \u00e9 determinada pela vida\u201d.<\/p>\n<p>Os marxistas n\u00e3o negam que a mente, a consci\u00eancia, o pensamento, a vontade, o sentimento ou as sensa\u00e7\u00f5es sejam reais. O que os materialistas negam \u00e9 que a coisa chamada \u201cmente\u201d exista separadamente do corpo. A mente n\u00e3o \u00e9 distinta do corpo. O pensamento \u00e9 produto do c\u00e9rebro, que \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o do pensamento.<\/p>\n<p>Entretanto, isso n\u00e3o significa que nossa consci\u00eancia seja um reflexo sem vida da natureza. Os seres humanos se relacionam com seus semelhantes, eles t\u00eam consci\u00eancia de seus semelhantes e agem de acordo; por sua vez, o meio reage de volta. Os seres humanos racionalizam e pensam criativamente quando baseados em condi\u00e7\u00f5es materiais. Eles, por sua vez, modificam as condi\u00e7\u00f5es materiais.<\/p>\n<p>Por outro lado, o idealismo filos\u00f3fico afirma que o mundo material n\u00e3o \u00e9 real, mas simplesmente um reflexo do mundo das ideias. Existem diferentes formas de idealismo, mas todas essencialmente explicam que as ideias s\u00e3o prim\u00e1rias e a mat\u00e9ria, se existir de verdade, \u00e9 secund\u00e1ria. Para os idealistas, as ideias s\u00e3o dissociadas da mat\u00e9ria, da natureza. Esta \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o de Hegel da \u2018Ideia absoluta\u2019 ou que recorre a Deus. O idealismo filos\u00f3fico abre o caminho, de uma forma ou outra, para a defesa ou para o apoio da supersti\u00e7\u00e3o e religi\u00e3o. Isto n\u00e3o \u00e9 somente uma concep\u00e7\u00e3o falsa, mas tamb\u00e9m profundamente conservadora, que nos leva \u00e0 conclus\u00e3o pessimista de que nunca poderemos entender \u201cas linhas tortas\u201d do mundo. Enquanto que o materialismo entende que os seres humanos n\u00e3o apenas observam o mundo real, mas podem modific\u00e1-lo; ao fazer isso, eles se modificam.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o idealista do mundo cresceu com a divis\u00e3o entre o trabalho manual e intelectual. Esta divis\u00e3o se constituiu em enorme avan\u00e7o e liberou parte da sociedade do trabalho manual e permitiu que ela tivesse tempo para desenvolver a ci\u00eancia e a tecnologia. Entretanto, quanto mais separadas do trabalho manual, mais abstratas ficam as ideias. E quando os pensadores separam suas ideias do mundo real, eles s\u00e3o incrivelmente consumidos pelo \u201cpensamento puro\u201d abstrato e terminam tendo todos os tipos de fantasias. Atualmente, a cosmologia \u00e9 dominada pelas concep\u00e7\u00f5es complexas da matem\u00e1tica abstrata, que levaram a todo tipo de teorias e devaneios err\u00f4neos: o Big Bang, o in\u00edcio dos tempos, universos paralelos, etc. Cada disrup\u00e7\u00e3o com a pr\u00e1tica leva a um idealismo unilateral.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de materialismo tem uma longa hist\u00f3ria que se estende desde a Gr\u00e9cia antiga de Anax\u00e1goras (500 a 428 a. C) e Dem\u00f3crito (460 a 370 a. C). Com o colapso da Gr\u00e9cia antiga, essa concep\u00e7\u00e3o racional foi varrida de toda \u00e9poca hist\u00f3rica e, somente depois do renascimento do pensamento com o fim da Idade M\u00e9dia crist\u00e3, houve um reavivamento da filosofia e das ci\u00eancias naturais. No s\u00e9culo XVII, o lar do materialismo moderno foi a Inglaterra. \u201cO verdadeiro pai do materialismo ingl\u00eas foi Bacon\u201d, escreveu Marx. O materialismo de Francis Bacon (1561 \u2013 1626) foi ent\u00e3o sistematizado e desenvolvido por Thomas Hobbes (1588 \u2013 1679), cujas ideias foram, por sua vez, desenvolvidas por John Locke (1632 \u2013 1704). Este \u00faltimo pensou ser poss\u00edvel que a mat\u00e9ria poderia ter a faculdade do pensamento. N\u00e3o \u00e9 por acidente que estes avan\u00e7os no pensamento humano coincidiram com o surgimento da burguesia e com grandes avan\u00e7os na ci\u00eancia, particularmente na mec\u00e2nica, astronomia e medicina. Estes grandes pensadores, por sua vez, deram o passo inicial para a brilhante escola francesa de materialistas do s\u00e9culo XVIII, mais notavelmente Ren\u00e9 Descartes (1596 \u2013 1650).<\/p>\n<p>Foi o seu materialismo e o seu racionalismo que se tornou o credo da grande Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789. Estes pensadores revolucion\u00e1rios n\u00e3o reconheciam autoridades externas. Tudo desde a religi\u00e3o at\u00e9 a ci\u00eancia natural, da sociedade \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas estavam sujeitas a cr\u00edticas mais investigativas.<\/p>\n<p>Esta filosofia materialista, consistentemente capitaneada por Holbach (1723 \u2013 1789) e Helvetius, foi uma filosofia revolucion\u00e1ria. \u201cO universo \u00e9 uma vasta unidade de tudo que \u00e9, em todo lugar ele nos mostra somente a mat\u00e9ria em movimento\u201d, afirma Holbach. \u201cIsso \u00e9 tudo que existe e ele exibe somente uma cadeia infinita e cont\u00ednua de causas e a\u00e7\u00f5es; algumas destas causas n\u00f3s conhecemos, desde que atinjam os nossos sentidos; outras n\u00e3o conhecemos, pois atuam sobre n\u00f3s somente por meio das consequ\u00eancias, mais remotas que as causas primeiras\u201d.<\/p>\n<p>Esta filosofia racional foi um reflexo ideol\u00f3gico da luta revolucion\u00e1ria da burguesia contra a igreja, a aristocracia e a monarquia absolutista. Representou um ataque feroz ao Antigo Regime. No final, o reino da raz\u00e3o se tornou nada mais que o reino idealizado da burguesia. A propriedade burguesa se tornou um dos direitos essenciais do homem. Os materialistas revolucion\u00e1rios pavimentaram o caminho para uma nova sociedade burguesa e a domina\u00e7\u00e3o das formas privadas de propriedade. \u201cTempos diferentes, diferentes circunst\u00e2ncias, uma diferente filosofia\u201d, afirmou Denis Diderot (1713 \u2013 1784).<\/p>\n<p>O novo materialismo tendeu, embora um avan\u00e7o revolucion\u00e1rio, a uma rigidez e ser mec\u00e2nico. Estes novos fil\u00f3sofos atacaram a igreja, negaram a autossufici\u00eancia da alma e suportaram que o homem era apenas um corpo material como os animais e os corpos inorg\u00e2nicos. O homem foi pensado como um mecanismo mais complexo e delicado que os outros corpos. De acordo com La Mettrie (1709 \u2013 1751) e seu principal trabalho \u2018O homem, a m\u00e1quina\u2019, \u201cN\u00f3s somos instrumentos providos de sentimento e mem\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Para os materialistas franceses, a origem do conhecimento \u2013 descoberta da verdade objetiva \u2013 fixa-se sobre a a\u00e7\u00e3o da natureza dos nossos sentidos. Os planetas e o local do homem dentro do sistema solar e na natureza eram fixos. Para eles, o mundo tinha a precis\u00e3o de um rel\u00f3gio, onde tudo tinha seu local est\u00e1tico l\u00f3gico e o impulso para o movimento vinha de fora. A abordagem total, enquanto materialista, era mec\u00e2nica e falhou ao retirar a realidade viva do mundo. Ele n\u00e3o poderia considerar o mundo como um processo, como a mat\u00e9ria passando por cont\u00ednuas mudan\u00e7as. Esta fraqueza levou a uma falsa dicotomia entre o mundo material e o mundo das ideias. E este dualismo abriu as portas para o idealismo.<\/p>\n<p>Outros se apegaram a uma concep\u00e7\u00e3o monista de que o universo era um sistema que n\u00e3o era puro esp\u00edrito nem pura mat\u00e9ria. Spinoza foi o primeiro a trabalhar tal sistema. Como ele tinha uma necessidade por um Deus, o universo era um sistema que era totalmente material do fim para o fim.<\/p>\n<h4>Dial\u00e9tica e Metaf\u00edsica<\/h4>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o marxista do mundo n\u00e3o \u00e9 somente materialista, mas tamb\u00e9m dial\u00e9tica. Na sua cr\u00edtica, a dial\u00e9tica \u00e9 mostrada como sendo algo totalmente m\u00edstico e, por esta raz\u00e3o, irrelevante. Mas este n\u00e3o certamente o caso. O m\u00e9todo Dial\u00e9tico \u00e9 simplesmente uma tentativa de entender com mais clareza o mundo real interdependente. A dial\u00e9tica, afirma Engels em Anti-Duhring, \u201cn\u00e3o \u00e9 nada mais que a ci\u00eancia das leis gerais do movimento da natureza, da sociedade humana e do pensamento\u201d. Colocada em termos simples, \u00e9 a l\u00f3gica do movimento.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio para muitos que n\u00e3o vivemos em um mundo est\u00e1tico. De fato, tudo na natureza est\u00e1 em um estado de constante mudan\u00e7a. \u201cO movimento \u00e9 o modo de exist\u00eancia da mat\u00e9ria\u201d, afirma Engels. \u201cNunca, em nenhum lugar, existiu mat\u00e9ria sem movimento ou pode existir\u201d. A Terra gira continuamente em torno de seu eixo e, por sua vez, gira em torno do Sol. Isto resulta em dia e noite e nas diferentes esta\u00e7\u00f5es que experimentamos ao longo do ano. N\u00f3s nascemos, crescemos, ficamos velhos e, por fim, morremos. Tudo est\u00e1 em movimento, mudando, crescendo e desenvolvendo ou decaindo e desaparecendo. Todo equil\u00edbrio \u00e9 somente relativo e somente tem sentido em rela\u00e7\u00e3o com outras formas de movimento.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando n\u00f3s consideramos e refletimos sobre a natureza como um todo, na hist\u00f3ria da humanidade ou na nossa pr\u00f3pria atividade intelectual, primeiramente vemos uma figura de um entrela\u00e7amento sem fim de rela\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es, trocas e combina\u00e7\u00f5es, nas quais nada permanece o que, onde ou como era, mas tudo se move, muda, torna-se um ser e morre\u201d, lembra Engels. \u201cEntretanto, n\u00f3s vemos primeiramente a figura como um todo, com as suas partes individuais estacionadas, mais ou menos no fundo; observamos os movimentos, as transi\u00e7\u00f5es, as conex\u00f5es antes de ver as coisas que se movem, se combinam e s\u00e3o conectadas. Esta primitiva, ing\u00eanua, por\u00e9m intrinsecamente correta concep\u00e7\u00e3o de mundo \u00e9 a da filosofia da Gr\u00e9cia antiga e foi primeiramente formulada por Her\u00e1clito: tudo \u00e9 e n\u00e3o \u00e9; tudo \u00e9 fluido, tudo est\u00e1 em constante mudan\u00e7a, constante transforma\u00e7\u00e3o em ser e morrendo\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os gregos fizeram uma s\u00e9rie de descobertas revolucion\u00e1rias e avan\u00e7os nas ci\u00eancias naturais. Anaximandro fez um mapa do mundo e escreveu um livro sobre cosmologia, do qual apenas fragmentos sobreviveram. O mecanismo de Antic\u00edtera, como \u00e9 chamado, parece ser os restos de um rel\u00f3gio planet\u00e1rio datando at\u00e9 o primeiro s\u00e9culo antes de Cristo. Dado aos limitados conhecimentos da \u00e9poca, muitos foram antecipa\u00e7\u00f5es e adivinha\u00e7\u00f5es inspiradas. Sob uma sociedade escravista, estas brilhantes inven\u00e7\u00f5es poderiam n\u00e3o ter sido utilizadas produtivamente e foram simplesmente reconhecidas como brinquedos para divers\u00e3o. Os avan\u00e7os reais na ci\u00eancia natural aconteceram em meados do s\u00e9culo XV. Os novos m\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o significaram a divis\u00e3o da natureza em suas partes individuais, permitindo que os objetos e os processos fossem classificados. Como isso produziu uma massiva quantidade de dados, os objetos foram analisados separadamente e n\u00e3o no seu ambiente vivo. Isso produziu um m\u00e9todo metaf\u00edsico, r\u00edgido e estreito de pensamento que se tornou a marca do empirismo. \u201cOs fatos\u201d se tornaram todos os recursos que importavam. \u201cAgora, o que eu desejo, s\u00e3o os Fatos. Ensine aos meninos e meninas somente os Fatos. Somente os Fatos s\u00e3o desejados na vida\u201d, afirma o personagem dickensoniano Thomas Gradgrind em Hard Times.<\/p>\n<p>\u201cAo metaf\u00edsico, as coisas e seus reflexos mentais, as ideias, s\u00e3o isolados; devem ser considerados um ap\u00f3s o outro e separadamente; s\u00e3o objetos de uma investiga\u00e7\u00e3o fixa, r\u00edgida e dadas de uma vez por todas\u201d, afirma Engels. \u201cEle pensa em ant\u00edteses absolutamente irreconcili\u00e1veis. Sua comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 \u2018sim, sim, n\u00e3o, n\u00e3o\u2019; tudo quanto for maior que a vinda do mal\u201d. Para ele uma coisa existe ou n\u00e3o existe; uma coisa n\u00e3o pode ser ao mesmo tempo ela mesma ou outra coisa. Positivo e negativo excluem-se mutuamente, causa e efeito ficam em uma r\u00edgida ant\u00edtese uma com a outra.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u00c0 primeira vista, este modo de pensar parece muito iluminado, pois ele \u00e9 muito pr\u00f3ximo do chamado senso comum. S\u00f3 parece com o senso comum, pessoa t\u00e3o respeit\u00e1vel que \u00e9, no reino pessoal de suas quatro paredes, que tem aventuras maravilhosas e diretamente se arrisca no amplo mundo da pesquisa. E o modo metaf\u00edsico de pensar, justific\u00e1vel e necess\u00e1rio, pois \u00e9 um n\u00famero de dom\u00ednios cuja extens\u00e3o varia de acordo com o n\u00famero de um objeto em particular de investiga\u00e7\u00e3o; mais cedo ou mais tarde atinge um limite quando fica parcial, restrito, abstrato, perdido em contradi\u00e7\u00f5es insol\u00faveis. Na contempla\u00e7\u00e3o das coisas individuais, ele se esquece da conex\u00e3o entre elas; na contempla\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, esquece-se do in\u00edcio e do fim da exist\u00eancia; do repouso, esquece-se da mudan\u00e7a. Ele n\u00e3o pode ver as madeiras pelas \u00e1rvores\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Engels continua a explicar que, para os prop\u00f3sitos do dia a dia, n\u00f3s sabemos se um animal est\u00e1 morto ou vivo. Por\u00e9m, num exame mais aproximado, somos for\u00e7ados a reconhecer que esta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o simples e direta. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma quest\u00e3o complexa. Ainda h\u00e1 v\u00edvidos embates, mesmo hoje, se a vida come\u00e7a no \u00fatero da m\u00e3e. Da mesma forma, \u00e9 igualmente dif\u00edcil dizer qual \u00e9 o exato momento quando a morte ocorre, pois a fisiologia prova que a morte n\u00e3o \u00e9 um ato instant\u00e2neo simples, mas um processo prolongado. Nas brilhantes palavras do fil\u00f3sofo grego Her\u00e1clito, \u201c\u00c9 a mesma coisa em n\u00f3s que est\u00e1 viva ou morta, dormindo e acordada, jovem e velha, cada uma muda de lugar e se torna a outra. N\u00f3s pisamos e n\u00e3o pisamos na mesma faixa, n\u00f3s somos e n\u00e3o somos\u201d.<\/p>\n<p>Nem tudo \u00e9 o que parece ser na superf\u00edcie das coisas. Cada esp\u00e9cie, cada aspecto de vida org\u00e2nica, \u00e9 a cada momento o mesmo e n\u00e3o \u00e9 o mesmo. Ele se desenvolve assimilando a mat\u00e9ria do nada e, simultaneamente, descarta outra mat\u00e9ria indesejada; algumas c\u00e9lulas morrem continuamente, enquanto outras s\u00e3o renovadas. Ap\u00f3s um tempo, o corpo \u00e9 completamente transformado, renovado de cima abaixo. Entretanto, cada entidade org\u00e2nica \u00e9 ela mesma e, no entanto, uma outra coisa diferente.<\/p>\n<p>Este fen\u00f4meno n\u00e3o pode ser explicado pelo pensamento metaf\u00edsico ou pela l\u00f3gica formal. Esta abordagem \u00e9 incapaz de explicar a contradi\u00e7\u00e3o. Esta realidade contradit\u00f3ria n\u00e3o entra no reino da raz\u00e3o do senso comum. A dial\u00e9tica, por outro lado, compreende as coisas na sua conex\u00e3o, desenvolvimento e movimento. No que se refere a Engels, \u201cA natureza \u00e9 a prova da dial\u00e9tica\u201d.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 como Engels descreveu o rico processo de mudan\u00e7a no seu livro \u201cDial\u00e9tica da natureza\u201d:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA mat\u00e9ria se move em um ciclo eterno, completa sua trajet\u00f3ria em um per\u00edodo t\u00e3o vasto que, comparativamente, o nosso ano terrestre \u00e9 nada; em um ciclo onde o per\u00edodo de maior desenvolvimento, nominalmente o per\u00edodo da vida org\u00e2nica com sua realiza\u00e7\u00e3o coroada \u2013 a autossufici\u00eancia; \u00e9 um espa\u00e7o compar\u00e1vel a um minuto da hist\u00f3ria da vida e da autossufici\u00eancia; em um ciclo onde cada forma particular de vida da exist\u00eancia da mat\u00e9ria \u2013 seja o sol ou uma nebulosa, um animal em particular ou uma esp\u00e9cie de animais, uma combina\u00e7\u00e3o ou uma decomposi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica &#8211; est\u00e1 igualmente em transi\u00e7\u00e3o; em um ciclo onde nada \u00e9 eterno, exceto a mudan\u00e7a eterna, o eterno movimento da mat\u00e9ria e das leis do movimento e da mudan\u00e7a. Entretanto, n\u00e3o importa a frequ\u00eancia ou a incompassividade que este ciclo possa durar em tempo e espa\u00e7o, n\u00e3o importa que os incont\u00e1veis s\u00f3is e terras morram e surjam, n\u00e3o importa quanto se tenha que esperar em um sistema solar aparecerem condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis em um planeta para existir vida org\u00e2nica, n\u00e3o importa quantos seres morram e surjam antes que, no seu meio, desenvolvam-se animais com c\u00e9rebros pensantes que os permita encontrar um ambiente propicio \u00e0 vida, seja somente por um curto per\u00edodo, n\u00f3s, no entanto, temos a garantia de que a mat\u00e9ria em todas as suas mudan\u00e7as permanece eternamente a mesma, que nem um dos seus atributos pode perecer e, que, a mesma quantidade necess\u00e1ria de ferro que compele a destrui\u00e7\u00e3o da maior florada de mat\u00e9ria \u2013 o esp\u00edrito pensante \u2013 tamb\u00e9m necessita o seu renascimento em qualquer outro lugar, em qualquer outro momento\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma nova e radical filosofia alem\u00e3 surgiu juntamente com, e seguindo, a filosofia francesa do s\u00e9culo XVIII. Com Emmanuel Kant, o \u00e1pice desta filosofia foi simbolizado pelo sistema de George F. Hegel, que tinha grande admira\u00e7\u00e3o pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Hegel, embora um idealista foi a mente mais enciclop\u00e9dica de sua \u00e9poca. Sua grande contribui\u00e7\u00e3o foi o resgate do modo Dial\u00e9tico de pensar desenvolvido originalmente pelos fil\u00f3sofos gregos antigos h\u00e1 mais ou menos dois mil anos.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAs mudan\u00e7as no ser consistem n\u00e3o somente no fato de que uma quantidade se torne em outra quantidade, mas tamb\u00e9m que a qualidade se torne em quantidade, e vice-versa\u201d, escreveu Hegel. \u201cCada transi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria representa uma interrup\u00e7\u00e3o e d\u00e1 ao fen\u00f4meno um novo aspecto, qualitativamente distinto do anterior. Assim a \u00e1gua quando congelada fica s\u00f3lida, n\u00e3o gradualmente&#8230; mas de uma vez; uma vez chegado ao ponto de congelamento, ela poder\u00e1 ainda permanecer um l\u00edquido se mantiver uma condi\u00e7\u00e3o tranquila e, ent\u00e3o, o m\u00ednimo choque ser\u00e1 suficiente para de repente se tornar s\u00f3lida&#8230; Em um mundo de fen\u00f4menos morais&#8230; Onde acontecem as mesmas mudan\u00e7as de quantidade para qualidade e as diferen\u00e7as nas qualidades tamb\u00e9m s\u00e3o fundadas em diferen\u00e7as de quantidades. Assim, um pouco menos, um pouco mais, constitui-se aquele limite acima do qual a frivolidade cessa e aparece algo um pouco diferente, crime&#8230;\u201d (Ci\u00eancia da L\u00f3gica)<\/p><\/blockquote>\n<p>Os trabalhos de Hegel est\u00e3o repletos de refer\u00eancias e exemplos da dial\u00e9tica. Infelizmente, Hegel n\u00e3o foi somente um idealista, mas escreveu na mais obscura e obtusa moda imagin\u00e1vel, tornando suas palavras dif\u00edceis de ler. Lenin, ao reler Hegel em seu ex\u00edlio durante a Primeira Guerra Mundial, escreveu \u201cEu sou um general tentando ler Hegel materialmente: Hegel \u00e9 materialismo que permaneceu na sua cabe\u00e7a (de acordo com Engels) \u2013 isto \u00e9 dizer, eu separo a maior parte sobre Deus, o Absoluto, a Ideia Pura, etc.\u201d Lenin ficou bastante impressionado com Hegel e, apesar de seu idealismo, mais tarde recomendou que os jovens comunistas estudassem seus escritos.<\/p>\n<p>Os jovens Marx e Engels foram seguidores do grande Hegel. Eles aprenderam muito com o mestre. Ele abriu seus olhos para uma nova concep\u00e7\u00e3o de mundo por meio da dial\u00e9tica. Ao abra\u00e7ar a dial\u00e9tica, Hegel liberou a Hist\u00f3ria da metaf\u00edsica. Para a dial\u00e9tica n\u00e3o h\u00e1 nada final, absoluto ou sagrado. Ela revela o car\u00e1ter transit\u00f3rio de tudo. Entretanto, Hegel foi limitado pelo seu conhecimento, pelo conhecimento de sua \u00e9poca e pelo fato de que ele era um idealista. Ele observou com aten\u00e7\u00e3o os pensamentos dentro do c\u00e9rebro n\u00e3o, mais ou menos, como figuras abstratas de coisas e processos reais, mas como realiza\u00e7\u00f5es da \u201cIdeia Absoluta\u201d, existente desde a eternidade. O idealismo de Hegel se tornou realidade em sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ainda assim, Hegel sistematicamente delineou as leis importantes da mudan\u00e7a, citadas anteriormente.<\/p>\n<h4>A lei da quantidade em qualidade (e vice-versa)<\/h4>\n<blockquote><p>\u201cTem-se dito que n\u00e3o h\u00e1 saltos repentinos na natureza e \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o comum que as coisas t\u00eam sua origem por meio de progressos ou atrasos graduais\u201d, afirma Hegel. \u201cPor\u00e9m, existe tamb\u00e9m algo como a transforma\u00e7\u00e3o repentina da quantidade para qualidade. Por exemplo, a \u00e1gua n\u00e3o se torna s\u00f3lida gradualmente ao ser congelada, fica primeiro mole e, depois, obt\u00e9m a rigidez do gelo, mas se solidifica de uma vez. Se a temperatura for abaixada para um determinado grau, a \u00e1gua se transforma em gelo, por exemplo, a quantidade \u2013 o n\u00famero de graus de temperatura \u2013 \u00e9 transformada em qualidade \u2013 a mudan\u00e7a de estado da natureza da coisa\u201d. (L\u00f3gica)<\/p><\/blockquote>\n<p>Este \u00e9 o marco da compreens\u00e3o da mudan\u00e7a. A mudan\u00e7a ou a evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o acontecem gradativamente em uma linha reta. Marx comparou a revolu\u00e7\u00e3o social com uma toupeira que muito ocupada cava sua toca debaixo da terra, fica invis\u00edvel por longos momentos, mas intermitentemente mina a velha ordem e, mais tarde, emerge a luz numa repentina\u00a0 reviravolta. At\u00e9 mesmo Charles Darwin acreditava que sua teoria da evolu\u00e7\u00e3o fosse essencialmente gradual e que as falhas nos registros f\u00f3sseis n\u00e3o representassem quebras ou saltos na evolu\u00e7\u00e3o e, que mais tarde, seriam \u201cpreenchidas\u201d por novas descobertas. Nisso Darwin estava errado. Atualmente, novas teorias, essencialmente dial\u00e9ticas, adiantaram-se em explicar os saltos na evolu\u00e7\u00e3o. Stephen J. Gold e Niles Eldredge chamaram sua teoria dial\u00e9tica da evolu\u00e7\u00e3o de \u201cequil\u00edbrio pontuado\u201d. Eles explicaram que existiram longos per\u00edodos de evolu\u00e7\u00e3o onde n\u00e3o ocorreram aparentes mudan\u00e7as, e ent\u00e3o, de repente, nova(s) forma(s) de vida surge(m). Em outras palavras, diferen\u00e7as quantitativas permitiram uma mudan\u00e7a qualitativa, dando origem a novas esp\u00e9cies. O desenvolvimento \u00e9 caracterizado por quebras na continuidade, saltos, cat\u00e1strofes e revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O surgimento de um organismo unicelular nos oceanos da Terra h\u00e1 mais ou menos 3,6 bilh\u00f5es de anos foi um salto qualitativo na evolu\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria. A \u201cExplos\u00e3o Cambriana\u201d, mais ou menos 600 milh\u00f5es de anos, um novo salto qualitativo adiantou a evolu\u00e7\u00e3o, quando a vida multicelular complexa com partes r\u00edgidas explodiu na cena da vida do planeta. No Paleoz\u00f3ico inferior, mais ou menos de 400 a 500 milh\u00f5es de anos, surgiu o primeiro peixe vertebrado. Esta forma revolucion\u00e1ria se tornou dominante e avan\u00e7ou at\u00e9 os anf\u00edbios (que viviam na terra ou na \u00e1gua), at\u00e9 os r\u00e9pteis e finalmente at\u00e9 as criaturas de sangue quente: p\u00e1ssaros e mam\u00edferos. Tais saltos evolucion\u00e1rios culminaram nos seres humanos que possuem a capacidade de pensar. A evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo longo onde uma acumula\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as dentro e fora dos organismos leva a um salto, qualitativamente um estado mais avan\u00e7ado de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Assim como as press\u00f5es colossais subterr\u00e2neas que se acumulam e periodicamente arrebentam a crosta terrestre na forma de terremotos, as mudan\u00e7as graduais na consci\u00eancia dos trabalhadores levam a uma explos\u00e3o na luta de classes. Uma greve em uma f\u00e1brica n\u00e3o \u00e9 causada por \u201cagitadores\u201d de fora, mas \u00e9 produzida por um ac\u00famulo de mudan\u00e7as dentro da f\u00e1brica que finalmente faz com a for\u00e7a de trabalho entre em greve. A \u201ccausa\u201d da greve pode ser alguma coisa pequena e acidental, uma pausa para o caf\u00e9, por exemplo, mas que se tornou \u201ca \u00faltima gota no copo\u201d, para usar uma express\u00e3o popular (dial\u00e9tica). Tornou-se o catalisador de tanto mudan\u00e7as qualitativas quanto quantitativas.<\/p>\n<p>Atualmente, uma s\u00e9rie de vit\u00f3rias eleitorais da esquerda dentro dos sindicatos brit\u00e2nicos \u00e9 o produto de um longo ac\u00famulo de descontentamento dentro da hierarquia dos sindicatos. Vinte anos de amargos ataques \u00e0 classe trabalhadora resultaram nestas mudan\u00e7as nas lideran\u00e7as dos sindicatos. Apenas aqueles armados com a filosofia marxista puderam prever este desenvolvimento, que tem por base a situa\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a objetiva. Estas mudan\u00e7as de humor, que aconteceram nos sindicatos, inevitavelmente ser\u00e3o refletidas dentro do Partido Trabalhista em um determinado est\u00e1gio que resultar\u00e1 na demiss\u00e3o da ala direita liderada por Blair. Os ultraesquerdistas nas bordas do movimento trabalhista v\u00eam continuamente considerando o Partido Trabalhista como algo que nunca pode ser mudado. Eles s\u00e3o incapazes de pensar dialeticamente e t\u00eam uma concep\u00e7\u00e3o emp\u00edrica e formal que somente v\u00ea a superf\u00edcie da realidade. Eles falham ao desenhar uma distin\u00e7\u00e3o entre a apar\u00eancia e a realidade \u2013 entre a apar\u00eancia imediata evidente \u00e0 observa\u00e7\u00e3o e os processos, as interconex\u00f5es e as leis escondidas, que est\u00e3o por baixo dos fatos observ\u00e1veis. Em outras palavras, eles s\u00e3o cegos aos processos subterr\u00e2neos que ocorrem na frente dos seus olhos. \u201cOs partid\u00e1rios de Blair dominam o Partido Trabalhista!\u201d eles exclamam e jogam suas m\u00e3os para o alto em desespero. Eles est\u00e3o sob o encantamento da l\u00f3gica formal e n\u00e3o entendem o processo em andamento que inevitavelmente minar\u00e1 o movimento de Blair e levar ao seu colapso, como o dia vem depois da noite. Da mesma forma que desconsideraram as alas direitistas no passado, eles desconsideram o Partido Trabalhista hoje. Na base dos eventos e das press\u00f5es dos movimentos \u00e0 esquerda nos sindicatos, o Partido Trabalhista, dadas as suas ra\u00edzes nos sindicatos, ir\u00e1 inevitavelmente seguir em uma igual dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx reafirmou que a tarefa da ci\u00eancia \u00e9 sempre se mover do conhecimento imediato das apar\u00eancias para a descoberta da realidade, da ess\u00eancia, das leis abaixo das apar\u00eancias. O Capital de Marx \u00e9 um \u00f3timo exemplo deste m\u00e9todo. \u201cO modo de pensar dos economistas vulgares\u201d, escreveu Marx para Engels, \u201cderiva do fato que \u00e9 sempre somente a forma imediata nas qual as rela\u00e7\u00f5es aparecem que s\u00e3o refletidas no c\u00e9rebro e n\u00e3o suas conex\u00f5es internas\u201d. (27 de junho de 1867)<\/p>\n<p>O mesmo poderia ter sido dito daqueles que no passado descreveram a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como \u201ccapitalismo de estado\u201d. O estalinismo n\u00e3o tinha em comum com o socialismo; era um regime repressivo onde os trabalhadores tinham menos direitos que no ocidente. Entretanto, ao inv\u00e9s de uma an\u00e1lise cient\u00edfica da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, eles simplesmente a pronunciaram como capitalista de estado. Como Trotsky explicou, os te\u00f3ricos do capitalismo de estado olhavam a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como olhos da l\u00f3gica formal. Era branco ou preto. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ou era um magn\u00edfico estado socialista, como os estalinistas diziam ou deveria ser um (Estado) capitalista de estado. Este pensamento \u00e9 puro formalismo. Eles nunca entenderam a possibilidade de degenera\u00e7\u00e3o do estado dos trabalhadores em uma variante deformada do governo dos prolet\u00e1rios, como explicado por Trotsky. \u00c9 claro que a revolu\u00e7\u00e3o, por causa de seu isolamento em um pa\u00eds atrasado, passou por um processo de degenera\u00e7\u00e3o. Entretanto, enquanto a economia planificada nacionalizada resistiu, nem tudo estava perdido. A burocracia n\u00e3o era uma nova classe dominante, mas um parasita que cresceu no Estado, que usurpou o poder pol\u00edtico. Somente uma nova revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica poderia eliminar a burocracia e reintroduzir a democracia dos sovietes e dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Os apoiadores do capitalismo de estado se amarram em n\u00f3s, confundindo a contrarrevolu\u00e7\u00e3o com revolu\u00e7\u00e3o e vice-versa. No Afeganist\u00e3o, eles apoiaram um fundamentalismo mujahideen reacion\u00e1rio como \u201clutadores da liberdade\u201d contra o \u201cimperialismo\u201d russo. Com o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o movimento para restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo a partir de 1991 em diante, eles permaneceram neutros face a real contrarrevolu\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<h4>A unidade dos Opostos<\/h4>\n<blockquote><p>\u201cA contradi\u00e7\u00e3o, entretanto, \u00e9 a fonte de todo movimento e vida, somente at\u00e9 o ponto que cont\u00e9m uma contradi\u00e7\u00e3o tudo pode ter movimento, for\u00e7a e efeito\u201d. (Hegel) \u201cEm resumo\u201d, afirma Lenin, \u201ca dial\u00e9tica pode ser definida como a doutrina de uni\u00e3o dos opostos. Isso encarna a ess\u00eancia da dial\u00e9tica&#8230;\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O mundo em que vivemos \u00e9 uma uni\u00e3o de contradi\u00e7\u00f5es ou uma uni\u00e3o de opostos: frio-quente, luz-escurid\u00e3o, capital-trabalho, nascimento-morte, riqueza-pobreza, positivo-negativo, crescimento-crise, pensamento-realidade, finito-infinito, repuls\u00e3o-atra\u00e7\u00e3o, esquerda-direita, em cima-embaixo, evolu\u00e7\u00e3o-revolu\u00e7\u00e3o, chance-necessidade, venda-compra, e assim por diante.<\/p>\n<p>O fato de que duas polaridades de uma ant\u00edtese contradit\u00f3ria podem conviver como um todo \u00e9 tido na sabedoria popular como um paradoxo. O paradoxo \u00e9 um reconhecimento que duas considera\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias, ou opostas, possam ser verdadeiras. Este \u00e9 um reflexo no pensamento de uma unidade de opostos no mundo material.<\/p>\n<p>Movimento, espa\u00e7o e tempo s\u00e3o nada mais que o modo de exist\u00eancia da mat\u00e9ria. O movimento, como explicamos, \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o \u2013 estar em um lugar e em outro ao mesmo tempo. \u00c9 uma unidade de opostos. \u201cO movimento significa estar neste lugar e n\u00e3o estar, esta \u00e9 a continuidade do espa\u00e7o-tempo \u2013 e isto \u00e9 que torna o primeiro movimento poss\u00edvel\u201d. (Hegel)<\/p>\n<p>Para entender algo, a sua ess\u00eancia, \u00e9 necess\u00e1rio procurar estas contradi\u00e7\u00f5es internas. Sob determinadas circunst\u00e2ncias, o universal \u00e9 individual e o individual \u00e9 o universal. As coisas se transformam nos seus opostos \u2013 a causa se torna no efeito e o efeito se torna causa \u2013 \u00e9 por isso que elas meramente se conectam \u00e0 cadeia intermin\u00e1vel no desenvolvimento da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u201cO negativo \u00e9 igual \u00e0 mesma quantidade do positivo\u201d, afirma Hegel. O pensamento Dial\u00e9tico \u00e9 \u201ccompreender a ant\u00edtese em sua unidade\u201d. De fato Hegel vai al\u00e9m:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a raiz de todo movimento e vitalidade e somente at\u00e9 o ponto em que cont\u00e9m uma contradi\u00e7\u00e3o que algo se move e tem impulso e criatividade&#8230; Algo se move, n\u00e3o porque est\u00e1 aqui em um ponto no tempo e depois em outro, mas porque em um e no mesmo ponto no tempo ele est\u00e1 aqui e n\u00e3o aqui e neste aqui \u00e9 ambos: sim e n\u00e3o. N\u00f3s devemos conceder aos antigos Dial\u00e9ticos as contradi\u00e7\u00f5es que eles provaram estar em movimento, mas n\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o existe movimento, mas sim que aquele movimento \u00e9 a pr\u00f3pria contradi\u00e7\u00e3o existente\u201d. No entanto para Hegel, algo est\u00e1 vivo at\u00e9 o ponto que contenha contradi\u00e7\u00e3o, o que fornece o automovimento.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os atomistas gregos adiantaram a teoria revolucion\u00e1ria de que a mat\u00e9ria \u00e9 formada por \u00e1tomos, considerada a menor parte da mat\u00e9ria. A palavra grega \u00e1tomo significa indivis\u00edvel. Esta foi uma intui\u00e7\u00e3o brilhante. A ci\u00eancia do s\u00e9culo XX provou que tudo \u00e9 composto por \u00e1tomos, embora tenha sido subsequentemente descoberto que part\u00edculas ainda menores existiam. Todo \u00e1tomo possui um n\u00facleo no seu centro, composto por part\u00edculas subat\u00f4micas chamadas pr\u00f3tons e n\u00eautrons. Orbitando o n\u00facleo existem as part\u00edculas chamadas el\u00e9trons. Todos os pr\u00f3tons carregam uma carga el\u00e9trica positiva e, portanto, repele outras cargas positivas, mas est\u00e3o grudados por um forte tipo de energia conhecido como for\u00e7a nuclear. Isso mostra que tudo que existe tem como base uma unidade de opostos e t\u00eam automovimento de \u201cimpulso e atividade\u201d, para usar as palavras de Hegel.<\/p>\n<p>Em humanos, o n\u00edvel de a\u00e7\u00facar no sangue \u00e9 essencial para a vida. N\u00edveis muito altos podem resultar em coma diab\u00e9tico, n\u00edveis muito baixos e a pessoa fica incapaz de comer. O n\u00edvel seguro \u00e9 regulado pela taxa que o a\u00e7\u00facar \u00e9 lan\u00e7ado na corrente sangu\u00ednea pela digest\u00e3o dos carboidratos, pela taxa de armazenamento que o glicog\u00eanio, a gordura ou a prote\u00edna s\u00e3o convertidos em a\u00e7\u00facar, e pela taxa que o uso \u00e9 aumentado pelo lan\u00e7amento de insulina pelo p\u00e2ncreas. Se ela cair, mais a\u00e7\u00facar \u00e9 lan\u00e7ado no sangue ou a pessoa fica com fome e consome uma fonte de a\u00e7\u00facar. Nesta autorregula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as opostas, de respostas positivas e negativas, o n\u00edvel do sangue \u00e9 mantido entre limites toler\u00e1veis.<\/p>\n<p>Lenin explica esse automovimento em uma nota quando diz \u201ca dial\u00e9tica \u00e9 o ensinamento que mostra como os opostos podem ser e se tornar id\u00eanticos \u2013 sob quais condi\u00e7\u00f5es eles s\u00e3o id\u00eanticos, transformando-se um no outro \u2013 porque a mente humana os considera n\u00e3o como mortos, r\u00edgidos, mas como vivos, condicionais, m\u00f3veis, transformando-se um no outro\u201d.<\/p>\n<p>Lenin tamb\u00e9m deu muita import\u00e2ncia \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o como for\u00e7a motriz do desenvolvimento.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u00c9 de conhecimento p\u00fablico que, em uma determinada sociedade, as lutas de alguns de seus membros conflitam com as lutas de outros, que a vida em sociedade \u00e9 cheia de contradi\u00e7\u00f5es e que a hist\u00f3ria revela uma luta entre as na\u00e7\u00f5es e sociedades e, por outro lado, uma altern\u00e2ncia de per\u00edodos de revolu\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o, guerra e paz, estagna\u00e7\u00e3o e r\u00e1pido progresso ou decl\u00ednio\u201d. (Lenin, Tr\u00eas partes constitutivas do Marxismo).<\/p><\/blockquote>\n<p>Isso \u00e9 mais bem ilustrado pela luta de classes. O capitalismo requer uma classe capitalista e uma classe trabalhadora. A luta pelo mais-valor criado pelos trabalhadores e apropriado pelos capitalistas leva uma irreconcili\u00e1vel luta que fornecer\u00e1 a base para uma eventual supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e a resolu\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o por meio da aboli\u00e7\u00e3o das classes.<\/p>\n<h4>A nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>O padr\u00e3o geral do desenvolvimento hist\u00f3rico n\u00e3o \u00e9 o de uma linha reta para cima, mas de uma complexa intera\u00e7\u00e3o onde cada passo adiante s\u00f3 \u00e9 conseguido ao custo de um passo parcial para tr\u00e1s. Estas regress\u00f5es, por sua vez, s\u00e3o remediadas no pr\u00f3ximo est\u00e1gio do desenvolvimento.<\/p>\n<p>A lei da nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o explica a repeti\u00e7\u00e3o em um n\u00edvel mais alto de determinadas caracter\u00edsticas e propriedades do n\u00edvel mais baixo e o aparente retorno das caracter\u00edsticas passadas. Existe uma constante luta entre a forma e o conte\u00fado e entre o conte\u00fado e a forma, resultando em uma divis\u00e3o eventual da velha forma e a transforma\u00e7\u00e3o do conte\u00fado.<\/p>\n<p>Este processo inteiro pode ser caracterizado como uma espiral, onde o movimento retorna \u00e0 posi\u00e7\u00e3o onde come\u00e7ou, por\u00e9m em um n\u00edvel mais alto. Em outras palavras, o progresso hist\u00f3rico \u00e9 obtido por meio de uma s\u00e9rie de contradi\u00e7\u00f5es. A nega\u00e7\u00e3o do est\u00e1gio anterior n\u00e3o quer dizer sua total elimina\u00e7\u00e3o. O est\u00e1gio suplantado n\u00e3o \u00e9 totalmente varrido do mapa.<\/p>\n<p>\u201cO modo capitalista de apropria\u00e7\u00e3o que deriva do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o e, portanto, da propriedade privada capitalista, \u00e9 a primeira nega\u00e7\u00e3o da propriedade individual com base nas horas de trabalho de um sujeito. Mas a produ\u00e7\u00e3o capitalista gera, inevitavelmente por um processo natural, a sua pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o. \u00c9 a nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o\u201d, lembrou Marx no volume um de O Capital.<\/p>\n<p>Engels d\u00e1 uma s\u00e9rie de exemplos para ilustrar a nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o em seu livro Anti-D\u00fcring. \u201cVamos considerar um gr\u00e3o de cevada. Milhares destes gr\u00e3os s\u00e3o mo\u00eddos, fervidos e fermentados para ent\u00e3o serem consumidos. Por\u00e9m, se um destes gr\u00e3os de cevada encontrar as condi\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o normais, se ele cair em um solo apropriado, com a influ\u00eancia do calor e da umidade uma transforma\u00e7\u00e3o ocorrer\u00e1, ele germinar\u00e1; o gr\u00e3o como tal deixa de existir, ele \u00e9 negado e no seu lugar aparecer\u00e1 uma planta que dele nasceu, a nega\u00e7\u00e3o do gr\u00e3o. Mas qual \u00e9 o processo normal da vida deste gr\u00e3o? Ele cresce, floresce, \u00e9 fertilizado e, finalmente, produz mais gr\u00e3os de cevada e, t\u00e3o logo esteja maduro o talo morre que \u00e9 por sua vez a sua nega\u00e7\u00e3o. Como resultado desta nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o n\u00f3s temos novamente o gr\u00e3o original de cevada, mas n\u00e3o um s\u00f3, mas dez, vinte ou trinta dobrados\u201d.<\/p>\n<p>A cevada vive e se desenvolve para retornar ao seu ponto inicial \u2013 mas em um n\u00edvel mais alto. Uma semente produziu v\u00e1rias outras. Tamb\u00e9m com o tempo, as plantas se desenvolveram qualitativamente bem como quantitativamente. Sucessivas gera\u00e7\u00f5es mostraram varia\u00e7\u00f5es e se tornaram mais adaptadas ao seu ambiente.<\/p>\n<p>Engels d\u00e1 mais um exemplo do mundo dos insetos. As borboletas, por exemplo, nascem do ovo por meio da nega\u00e7\u00e3o do ovo, passam por determinadas transforma\u00e7\u00f5es at\u00e9 alcan\u00e7ar a maturidade sexual, acasalam e s\u00e3o, por sua vez, negadas, morrendo t\u00e3o logo o processo de acasalamento tenha sido completado e a f\u00eamea tenha posto numerosos ovos.<\/p>\n<h4>Hegel e Marx<\/h4>\n<p>Hegel, que tinha um gigantesco intelecto, iluminou v\u00e1rios assuntos. \u00c9 um d\u00e9bito ao qual Marx repetidas vezes reconheceu. \u201cA mistifica\u00e7\u00e3o que a dial\u00e9tica sofreu nas m\u00e3os de Hegel n\u00e3o obscurece o fato de ter sido ele o primeiro a apresentar suas formas gerais de trabalho de uma maneira intelig\u00edvel e consciente\u201d, afirma Marx. No entanto, o sistema filos\u00f3fico de Hegel foi um gigantesco aborto. Sofreu de incur\u00e1veis contradi\u00e7\u00f5es internas. A sua concep\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria \u00e9 evolucion\u00e1ria, pois n\u00e3o h\u00e1 nem come\u00e7o, nem fim. Contudo, o seu sistema proclamou-se como sendo a verdade absoluta, uma completa contradi\u00e7\u00e3o das leis da dial\u00e9tica. Enquanto Hegel defendia o <em>status quo<\/em> na Alemanha, a dial\u00e9tica abra\u00e7ava uma vis\u00e3o revolucion\u00e1ria de constante mudan\u00e7a. Para Hegel, todo o que era real era racional. Mas usando a dial\u00e9tica hegeliana, tudo o que era real se tornava irracional. Tudo o que existe merece perecer. Nisto repousa o significado da filosofia hegeliana.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para essa contradi\u00e7\u00e3o levou de volta ao materialismo, mas n\u00e3o o velho materialismo mec\u00e2nico, mas um com base nas novas ci\u00eancias e avan\u00e7os. \u201cO materialismo surgiu novamente enriquecido por todas as aquisi\u00e7\u00f5es do idealismo. A mais importante destas aquisi\u00e7\u00f5es foi o m\u00e9todo Dial\u00e9tico, o exame do fen\u00f4meno no seu desenvolvimento, na sua origem e na sua destrui\u00e7\u00e3o. O g\u00eanio que representou esta nova dire\u00e7\u00e3o de pensamento foi Karl Marx\u201d, escreveu Plekhanov. Estimulados pelos desenvolvimentos revolucion\u00e1rios na Europa em 1830-31, a Escola Hegeliana dividiu-se em centro, direita e esquerda.<\/p>\n<p>O mais proeminente representante da esquerda hegeliana foi Ludwig Feuerbach que enfrentou a velha ortodoxia, especialmente a religi\u00e3o, e colocou o materialismo no centro das coisas novamente. \u201cA natureza n\u00e3o tem fim, nem come\u00e7o. Tudo est\u00e1 em uma eterna intera\u00e7\u00e3o, tudo em causa e efeito, tudo completo e rec\u00edproco&#8230;\u201d escreve Feuerbach, adicionando que l\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 lugar para Deus. \u201cOs crist\u00e3os arrancam o esp\u00edrito, a alma, o homem de seu corpo e fazem deste esp\u00edrito desencarnado o seu Deus\u201d. Apesar das limita\u00e7\u00f5es de Feuerbach, Marx e Engels deram as boas vindas ao novo avan\u00e7o com entusiasmo.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPor\u00e9m, enquanto isso\u201d, notou Engels, \u201ca Revolu\u00e7\u00e3o de 1848 impulsionou toda filosofia para tr\u00e1s t\u00e3o sem cerim\u00f4nia quanto Feuerbach foi tamb\u00e9m deixado para tr\u00e1s\u201d. Restou a Marx e a Engels aplicar consistentemente a dial\u00e9tica ao novo materialismo, produzindo o Materialismo Dial\u00e9tico. Para eles, a nova filosofia n\u00e3o era uma filosofia abstrata, mas diretamente conectada \u00e0 pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cA dial\u00e9tica se reduz \u00e0 ci\u00eancia das leis gerais do movimento, ambos do mundo exterior como do pensamento humano \u2013 dois conjuntos de leis que s\u00e3o id\u00eanticas em subst\u00e2ncia, mas diferem nas suas express\u00f5es at\u00e9 o ponto que a mente humana pode aplic\u00e1-las conscientemente, enquanto que na natureza e para a maior parte da hist\u00f3ria humana, estas leis se afirmam inconscientemente, na forma de necessidade externa, no meio de uma infinita s\u00e9rie de acidentes aparentes\u201d. (Engels)<\/p><\/blockquote>\n<p>Nem Marx ou Engels deixaram um livro que englobasse toda a dial\u00e9tica. Marx estava ocupado com O Capital. Engels tencionava escrev\u00ea-lo, por\u00e9m foi surpreendido pela necessidade de terminar O Capital ap\u00f3s a morte de Marx. Engels, entretanto, escreveu at\u00e9 que satisfatoriamente sobre o assunto em Anti-D\u00fcring e Dial\u00e9tica da Natureza. Lenin comentou: \u201cSe Marx n\u00e3o nos legou uma \u201cL\u00f3gica\u201d (com letra mai\u00fascula), ele deixou uma l\u00f3gica do Capital e isto deve ser usado de forma completa. Em O Capital, Marx aplicou em l\u00f3gica cient\u00edfica simples, a dial\u00e9tica e a teoria do conhecimento do capitalismo (as tr\u00eas palavras n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias: s\u00e3o uma e a mesma coisa) que usou tudo que havia de valor em Hegel e o que foi desenvolvido posteriormente\u201d.<\/p>\n<p>Atualmente, um pequeno n\u00famero de cientistas, principalmente das ci\u00eancias naturais, tomou conhecimento da dial\u00e9tica, o que abriu os seus olhos para os problemas em suas \u00e1reas de especializa\u00e7\u00e3o. Este relacionamento entre a ci\u00eancia e o Materialismo Dial\u00e9tico foi inteiramente discutido no livro de Alan Woods e Ted Grant, Reason in Revolt. Eles mostram, como Engels, que a natureza \u00e9 completamente dial\u00e9tica. Al\u00e9m de Stephen J. Gould e Niles Eldredge, Richard Levins e Richard Lewontin, que se consideram materialistas dial\u00e9ticos, eles tamb\u00e9m escreveram sobre a aplica\u00e7\u00e3o da dial\u00e9tica no campo da biologia no seu livro The Dialectical Biologist:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO que caracteriza o mundo Dial\u00e9tico em todos os seus aspectos, como descrevemos, \u00e9 que ele est\u00e1 constantemente em movimento. As constantes se tornam vari\u00e1veis, as causas se tronam efeitos e os sistemas se desenvolvem, destruindo as condi\u00e7\u00f5es que as criaram. Mesmo os elementos que parecem estar est\u00e1veis em um equil\u00edbrio din\u00e2mico de for\u00e7as podem ficar desequilibrados, da mesma forma que uma protuber\u00e2ncia cinza de metal de um tamanho cr\u00edtico se torna uma bola de fogo mais brilhante que milhares de s\u00f3is. Ainda assim o movimento n\u00e3o \u00e9 constrangido e uniforme. Os organismos se desenvolvem e se diferenciam e, ent\u00e3o, morrem e se desintegram. Esp\u00e9cies nascem, mas invariavelmente se tornam extintas. Mesmo no mundo f\u00edsico simples, n\u00f3s desconhecemos movimento uniforme. O desenvolvimento de sistemas ao longo do tempo, ent\u00e3o, parece ser a consequ\u00eancia de for\u00e7as e movimentos opostos.<\/p>\n<p>O surgimento de for\u00e7as opostas criou o mais debatido e dif\u00edcil, entretanto central, conceito na dial\u00e9tica, o princ\u00edpio da contradi\u00e7\u00e3o. Para alguns, a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 somente um princ\u00edpio epistemol\u00f3gico. Ela descreve como compreendemos o mundo por meio de teorias ant\u00e9ticas que, em contradi\u00e7\u00e3o umas \u00e0s outras e em contradi\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno observado, levam a uma nova vis\u00e3o da natureza. A teoria de Kuhn (1962) da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tem um destes sabores de contradi\u00e7\u00e3o e resolu\u00e7\u00e3o cont\u00ednuas, chegando a uma nova contradi\u00e7\u00e3o. Para outros, a contradi\u00e7\u00e3o se torna uma propriedade ontol\u00f3gica pelo menos da exist\u00eancia social humana. Para n\u00f3s, a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 somente epist\u00eamica e pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m ontol\u00f3gica no seu sentido mais amplo. As contradi\u00e7\u00f5es entre for\u00e7as est\u00e3o em todo lugar na natureza, n\u00e3o somente nas institui\u00e7\u00f5es sociais humanas. Esta tradi\u00e7\u00e3o da dial\u00e9tica retorna a Engels (1880) que escreveu, na Dial\u00e9tica da Natureza, que \u2018para mim n\u00e3o se poderia questionar a constru\u00e7\u00e3o de leis da dial\u00e9tica da natureza, por\u00e9m de descobri-las nela e desenvolv\u00ea-las dela\u2019\u201d. (The Dialectical Biologist, p. 279)<\/p><\/blockquote>\n<p>Os marxistas sempre real\u00e7aram a unidade da teoria e da pr\u00e1tica. \u201cOs fil\u00f3sofos sempre interpretaram o mundo, de v\u00e1rias formas; o ponto, entretanto, \u00e9 mud\u00e1-lo\u201d, como apontou Marx na sua tese sobre Feuerbach. \u201cSe a verdade \u00e9 abstrata, ela n\u00e3o deve ser verdadeira\u201d, afirma Hegel. Toda verdade \u00e9 concreta. Temos que ver as coisas para elas existirem, com uma vis\u00e3o para compreender o seu desenvolvimento contradit\u00f3rio escondido. Isso nos d\u00e1 importantes conclus\u00f5es, especialmente para aqueles que lutam para mudar a sociedade. Ao contr\u00e1rio dos socialistas ut\u00f3picos, que viam o socialismo como uma ideia maravilhosa, os marxistas veem o desenvolvimento do socialismo como surgindo das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo. A sociedade capitalista preparou a base material para uma sociedade sem classes com o alto desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e a divis\u00e3o mundial do trabalho. Trouxe a exist\u00eancia da classe trabalhadora, cuja exist\u00eancia \u00e9 conflitante com o capitalismo. Na base da experi\u00eancia, ela ser\u00e1 completamente consciente da sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade e ser\u00e1 transformada, nas palavras de Marx, de uma \u201cclasse nela mesma\u201d para uma \u201cclasse por ela mesma\u201d.<\/p>\n<p>A dial\u00e9tica tem por base o determinismo, mas nada tem em comum com o fatalismo que nega a exist\u00eancia de acidentes na natureza, na sociedade e no pensamento. O determinismo dial\u00e9tico afirma a unidade da necessidade e acidente e explica a necessidade expressa nela mesma por meio do acidente. Todos os eventos t\u00eam causa, eventos necess\u00e1rios e acidentes necess\u00e1rios tamb\u00e9m. Se n\u00e3o existissem leis causais na natureza, tudo estaria em um estado de total caos. Seria uma posi\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel onde nada existiria. Assim, tudo depende de tudo, como numa corrente cont\u00ednua de causa e efeito. Eventos particulares sempre t\u00eam um acaso ou car\u00e1ter acidental, mas eles surgem como resultado de uma necessidade mais profunda. De fato, a necessidade se manifesta por meio de uma s\u00e9rie de acidentes. Sem d\u00favida, os acidentes acontecem, mas a coisa essencial \u00e9 descobrir quais leis determinam esta necessidade profunda.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da observa\u00e7\u00e3o superficial, tudo pode parecer acidental ou aberto ao acaso. Isto pode parecer especialmente quando n\u00e3o temos conhecimento das leis que governam o acaso e suas interconex\u00f5es. \u201cOnde na superf\u00edcie o acaso tem controle, ele \u00e9 realmente governado por leis internas e escondidas e que somente devemos descobri-las\u201d, relembrou Engels sobre Ludwig Feuerbach.<\/p>\n<p>Na natureza, a evolu\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria segue um determinado caminho, entretanto como, quando e de qual forma ela \u00e9 realizada depende de circunst\u00e2ncias acidentais. Por exemplo, se a vida foi criada ou n\u00e3o na Terra depende de uma s\u00e9rie de fatores acidentais, como a presen\u00e7a de \u00e1gua, diferentes elementos qu\u00edmicos, a dist\u00e2ncia entre o Sol, uma atmosfera, etc. \u201c\u00c9 da natureza da mat\u00e9ria avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de seres pensantes\u201d, afirma Engels, \u201cconsequentemente tamb\u00e9m, isso necessariamente ocorre quando as condi\u00e7\u00f5es (n\u00e3o necessariamente id\u00eanticas em todos os lugares e \u00e9pocas) est\u00e3o presentes&#8230; o que \u00e9 mantido como necess\u00e1rio \u00e9 composto de puro acidente e, o t\u00e3o chamado acidental, \u00e9 a forma onde a necessidade se esconde\u201d.<\/p>\n<p>Historiadores mais desavisados escreveram que as \u201ccausas\u201d da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato de um pr\u00edncipe real em Sarajevo. Para um marxista, este evento foi um acidente hist\u00f3rico, no senso de que esta chance serviu como pretexto, ou catalisou, o conflito mundial que se tornou inevit\u00e1vel pelas contradi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas e militares do imperialismo. Se o assassino n\u00e3o tivesse obtido \u00eaxito, ou se o pr\u00edncipe real nunca tivesse nascido, a guerra ainda teria acontecido por outros pretextos diplom\u00e1ticos ou outros. A necessidade seria expressa por meio de um \u201cacidente\u201d diferente.<\/p>\n<p>Nas palavras de Hegel, tudo o que existe, existe da necessidade. Mas, igualmente, tudo o que existe deve perecer, ser transformado em outra coisa. Assim, o que \u00e9 \u201cnecess\u00e1rio\u201d em um tempo e espa\u00e7o se torna \u201cdesnecess\u00e1rio\u201d em outro. Tudo gera o seu oposto, que \u00e9 destinado a super\u00e1-lo e neg\u00e1-lo. Esta \u00e9 a verdade dos indiv\u00edduos vivos bem como das sociedades e da natureza em geral.<\/p>\n<p>Cada tipo de sociedade humana existe porque \u00e9 necess\u00e1rio no exato momento quando surgem: \u201cNunca nenhuma ordem social desapareceu antes de todas as for\u00e7as produtivas que existiam nela estarem desenvolvidas: e as novas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o nunca apareceram antes das condi\u00e7\u00f5es materiais de sua exist\u00eancia estarem maduras no \u00fatero da velha sociedade. Consequentemente, a humanidade sempre assume os problemas que pode resolver, dessa forma, ao olhar para o problema de forma mais apurada, descobriremos que o problema s\u00f3 surge quando as condi\u00e7\u00f5es materiais necess\u00e1rias para a sua solu\u00e7\u00e3o j\u00e1 existem ou, no m\u00ednimo, est\u00e3o em processo de forma\u00e7\u00e3o\u201d. (Marx, Cr\u00edtica \u00e0 Economia Pol\u00edtica)<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o, no seu tempo, foi um grande avan\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 servid\u00e3o. Foi o est\u00e1gio necess\u00e1rio para o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, da cultura e da sociedade humana. Como Hegel explicou brilhantemente: \u201cFoi por meio da escravid\u00e3o que o homem se tornou livre\u201d.<\/p>\n<p>Da mesma forma o capitalismo foi originalmente uma necessidade e um est\u00e1gio progressivo na sociedade humana. Entretanto, como o comunismo primitivo, a escravid\u00e3o e o feudalismo, o capitalismo h\u00e1 muito deixou de representar um sistema social necess\u00e1rio e progressista. Ele naufragou diante das suas profundas contradi\u00e7\u00f5es inerentes e foi condenado a ser superado pelas for\u00e7as crescentes da nova sociedade dentro da antiga, representadas pelo proletariado moderno. A propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e o estado-na\u00e7\u00e3o, que no in\u00edcio representaram um grande avan\u00e7o, agora servem apenas para acorrentar e minar as for\u00e7as produtivas e para amea\u00e7ar todos os ganhos conquistados em s\u00e9culos de desenvolvimento humano.<\/p>\n<p>O capitalismo \u00e9 agora um sistema social completamente degenerado, que deve ser superado e substitu\u00eddo pelo seu oposto, o socialismo, se a cultura humana desejar sobreviver. O Marxismo \u00e9 determinista, mas n\u00e3o fatalista. Homens e mulheres constroem a hist\u00f3ria. A transforma\u00e7\u00e3o da sociedade s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada por homens e mulheres conscientes de sua capacidade de luta por emancipa\u00e7\u00e3o. Esta luta de classes n\u00e3o \u00e9 pr\u00e9-determinada. Quem vencer\u00e1 depende de v\u00e1rios fatores, e uma classe crescente e progressista tem muitas vantagens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 antiga, for\u00e7a decr\u00e9pita de rea\u00e7\u00e3o. Mas ultimamente, o resultado deve depender de qual lado tem a maior vontade, a maior organiza\u00e7\u00e3o e a lideran\u00e7a mais talentosa e resoluta.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria do socialismo marcar\u00e1 um novo e qualitativo diferente est\u00e1gio da hist\u00f3ria humana. Para ser mais preciso, ela marcar\u00e1 o final da pr\u00e9-hist\u00f3ria da ra\u00e7a humana e iniciar\u00e1 uma nova hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Entretanto, por outro lado, o socialismo marca o retorno da forma mais antiga de sociedade humana \u2013 o comunismo tribal \u2013 mas em um n\u00edvel mais alto, que ficar\u00e1 acima de todos os enormes ganhos de milhares de anos de sociedade de classes. A nega\u00e7\u00e3o do comunismo primitivo por uma sociedade de classes \u00e9, por sua vez, negada pelo socialismo. A economia de superabund\u00e2ncia se tornar\u00e1 poss\u00edvel pela aplica\u00e7\u00e3o de um planejamento consciente na ind\u00fastria, nas ci\u00eancias e nas t\u00e9cnicas estabelecidas pelo capitalismo, em uma escala mundial. Por sua vez, isso tornar\u00e1 redundante de uma vez por todas a divis\u00e3o do trabalho, a diferencia\u00e7\u00e3o entre trabalho manual e trabalho intelectual, entre campo e cidade, da luta de classes que causa desperd\u00edcio e barbarismo e permitir\u00e1 \u00e0 ra\u00e7a humana finalmente empenhar todos os seus recursos para conquistar a natureza: para usar a famosa frase de Engels \u201co avan\u00e7o do homem do reino da necessidade para o reino da liberdade\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>O ABC do materialismo Dial\u00e9tico<\/strong><\/p>\n<h4>Por Leon Trotsky<\/h4>\n<p>A dial\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, muito menos misticismo, mas uma ci\u00eancia das formas de pensamento at\u00e9 o ponto que n\u00e3o est\u00e1 limitada aos problemas di\u00e1rios da vida, por\u00e9m tenta chegar a um entendimento dos mais complicados e definidos processos. A dial\u00e9tica e a l\u00f3gica formal comportam um relacionamento similar ao da matem\u00e1tica simples e avan\u00e7ada.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou tentar aqui rascunhar a subst\u00e2ncia do problema de uma forma muito concisa. A l\u00f3gica aristot\u00e9lica de um silogismo simples come\u00e7a da proposi\u00e7\u00e3o de que \u201cA\u201d \u00e9 igual a \u201cA\u201d. Este postulado \u00e9 aceito como um axioma para uma multitude de a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas humanas e generaliza\u00e7\u00f5es elementares. Por\u00e9m, na realidade \u201cA\u201d n\u00e3o \u00e9 igual a \u201cA\u201d.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 f\u00e1cil de provar se observarmos estas duas letras sob uma lente \u2013 elas s\u00e3o diferentes uma da outra.<\/p>\n<p>Mas, ningu\u00e9m pode objetar, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o tamanho ou a forma das letras, pois s\u00e3o somente s\u00edmbolos para quantidades iguais: por exemplo, um quilo de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>A obje\u00e7\u00e3o est\u00e1 comparada ao ponto; na realidade um quilo de a\u00e7\u00facar nunca \u00e9 igual a um quilo de a\u00e7\u00facar \u2013 uma balan\u00e7a mais precisa sempre mostra uma diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Novamente algu\u00e9m pode objetar: mas um quilo de a\u00e7\u00facar \u00e9 igual a ele mesmo. Nada disso \u00e9 verdade \u2013 todos os corpos mudam ininterruptamente em tamanho, peso, cor, etc. eles nunca s\u00e3o iguais a eles mesmos.<\/p>\n<p>Um sofista responder\u00e1 que um quilo de a\u00e7\u00facar \u00e9 igual a ele mesmo \u201cem um determinado momento\u201d. Aparte os extremamente d\u00fabios valores pr\u00e1ticos deste \u2018axioma\u2019, ele tamb\u00e9m n\u00e3o resiste a uma cr\u00edtica te\u00f3rica. Como podemos conceber a palavra \u2018momento\u2019? Se for um infinitesimal intervalo de tempo, ent\u00e3o um quilo de a\u00e7\u00facar \u00e9 sujeito durante o curso do \u2018momento\u2019 a mudan\u00e7as inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ou se for o \u2018momento\u2019 uma abstra\u00e7\u00e3o puramente matem\u00e1tica, ou seja, um momento zero? Contudo, tudo existe no tempo, e a pr\u00f3pria exist\u00eancia \u00e9 um processo ininterrupto de transforma\u00e7\u00e3o, o tempo \u00e9 consequentemente um elemento fundamental da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Assim, o axioma \u201cA\u201d \u00e9 igual a \u201cA\u201d significa que uma coisa \u00e9 igual a ela mesma se ela n\u00e3o muda, ou seja, se ela n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Ao primeiro olhar, poderia parecer que estas sutilezas s\u00e3o in\u00fateis. Na realidade elas s\u00e3o decisivamente significantes. O axioma \u201cA\u201d \u00e9 igual a \u201cA\u201d parece, por um lado, o ponto de sa\u00edda para todo o nosso conhecimento; por outro, ponto de sa\u00edda para todos os erros em nosso conhecimento.<\/p>\n<p>Utilizar impunemente o axioma \u201cA\u201d \u00e9 igual a \u201cA\u201d s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel dentro de alguns limites. Quando as quantidades que mudaram em \u201cA\u201d s\u00e3o desprez\u00edveis para a tarefa em quest\u00e3o, podemos ent\u00e3o presumir que \u201cA\u201d \u00e9 igual a \u201cA\u201d. Este \u00e9, por exemplo, a forma com que o comprador e o vendedor consideram um quilo de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>N\u00f3s consideramos da mesma forma a temperatura do Sol. At\u00e9 recentemente, fizemos o mesmo com o poder de compra do d\u00f3lar. Por\u00e9m, mudan\u00e7as quantitativas acima de determinados limites se convertem em qualitativas. Um quilo de a\u00e7\u00facar subjetivado \u00e0 a\u00e7\u00e3o da \u00e1gua ou do querosene deixa de ser um quilo de a\u00e7\u00facar. Um d\u00f3lar no abra\u00e7o do presidente deixa de ser um d\u00f3lar. Determinar no momento certo o ponto cr\u00edtico onde as quantidades se tornam qualidades \u00e9 uma das tarefas mais importantes e mais dif\u00edceis em todas as esferas do conhecimento, incluindo na Sociologia.<\/p>\n<p>Todo trabalhador sabe que \u00e9 imposs\u00edvel fazer dois objetos absolutamente iguais. Na coloca\u00e7\u00e3o dos eixos m\u00f3veis nos rolamentos, um pequeno desvio \u00e9 aceito nos rolamentos desde que n\u00e3o ultrapassem determinados limites (isso se chama toler\u00e2ncia). Observando as normas de toler\u00e2ncia, os rolamentos s\u00e3o considerados iguais (\u201cA\u201d \u00e9 igual a \u201cA\u201d). Quando se excede a toler\u00e2ncia, a quantidade ultrapassa a qualidade, em outras palavras, os rolamentos s\u00e3o considerados inferiores ou in\u00fateis.<\/p>\n<p>O nosso pensamento cient\u00edfico \u00e9 apenas uma parte da nossa pr\u00e1tica geral, inclusive as t\u00e9cnicas. Para conceitos tamb\u00e9m existe uma \u201ctoler\u00e2ncia\u201d que \u00e9 estabelecida n\u00e3o pela l\u00f3gica formal de que o axioma \u201cA\u201d \u00e9 igual a \u201cA\u201d, mas pela l\u00f3gica dial\u00e9tica partindo do axioma que tudo est\u00e1 em constante mudan\u00e7a. O \u201csenso comum\u201d \u00e9 caracterizado pelo fato que ele sistematicamente excede a \u201ctoler\u00e2ncia\u201d dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>O pensamento vulgar opera tais conceitos como capitalismo, moral, liberdade, governo dos trabalhadores, etc., como abstra\u00e7\u00f5es fixas, presumindo que o capitalismo \u00e9 igual ao capitalismo, a moral \u00e9 igual \u00e0 moral, etc. O pensamento Dial\u00e9tico analisa todas as coisas e fen\u00f4menos nas suas cont\u00ednuas mudan\u00e7as, enquanto determina nas condi\u00e7\u00f5es materiais daquelas mudan\u00e7as o limite cr\u00edtico onde o \u201cA\u201d deixa de ser \u201cA\u201d, quando o governo dos trabalhadores deixa de ser um governo dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A falha fundamental do pensamento vulgar reside no fato de que ele deseja se contentar com impress\u00f5es im\u00f3veis da realidade, o que consiste no movimento eterno. O pensamento dial\u00e9tico d\u00e1 aos conceitos, por meio de aproxima\u00e7\u00f5es, corre\u00e7\u00f5es, concretiza\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas uma riqueza de conte\u00fado e flexibilidade, eu diria at\u00e9 uma sucul\u00eancia, que em uma determinada extens\u00e3o as traz pr\u00f3ximas ao fen\u00f4meno vivo. N\u00e3o o capitalismo, mas um determinado capitalismo em um determinado n\u00edvel de desenvolvimento. N\u00e3o um governo dos trabalhadores em geral, mas um determinado governo dos trabalhadores em um pa\u00eds atrasado em um cerco imperialista, etc.<\/p>\n<p>O pensamento dial\u00e9tico est\u00e1 relacionado com o pensamento vulgar da mesma forma que o cinema est\u00e1 para uma fotografia. O cinema n\u00e3o invalida a fotografia, por\u00e9m combina uma s\u00e9rie delas de acordo com a lei do movimento. A dial\u00e9tica n\u00e3o nega o silogismo, mas nos ensina a combinar silogismos de uma forma a trazer a nossa compreens\u00e3o mais pr\u00f3xima \u00e0 realidade eternamente em mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Hegel em sua \u201cL\u00f3gica\u201d estabeleceu uma s\u00e9rie de leis: mudan\u00e7a da quantidade para qualidade, desenvolvimento por meio de contradi\u00e7\u00f5es, conflito de forma e conte\u00fado, mudan\u00e7a de possibilidade para inevitabilidade, etc., que s\u00e3o t\u00e3o importantes para o pensamento te\u00f3rico quanto o simples silogismo para as tarefas mais elementares.<\/p>\n<p>Hegel escreveu antes de Darwin e antes de Marx. Grato ao poderoso impulso dado ao pensamento pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, Hegel antecipou o movimento geral da ci\u00eancia. Mas como era apenas uma antecipa\u00e7\u00e3o, mesmo realizada por um g\u00eanio, ela recebeu de Hegel um car\u00e1ter idealista. Hegel operou com sombras ideol\u00f3gicas como a \u00faltima realidade. Marx demonstrou que o movimento dessas sombras ideol\u00f3gicas refletiu nada mais que o movimento de corpos materiais.<\/p>\n<p>Chamamos de materialismo dial\u00e9tico porque suas ra\u00edzes n\u00e3o est\u00e3o nem no c\u00e9u muito menos nas profundezas de nosso \u201clivre arb\u00edtrio\u201d, mas na realidade objetiva, na natureza. A consci\u00eancia cresceu fora da inconsci\u00eancia, a psicologia fora da fisiologia, o mundo org\u00e2nico fora do inorg\u00e2nico, o sistema solar fora da nebulosa.<\/p>\n<p>Nos degraus desta escada do desenvolvimento, as mudan\u00e7as quantitativas foram transformadas em qualitativas. O nosso pensamento incluindo o dial\u00e9tico \u00e9 uma das formas de express\u00e3o da mat\u00e9ria em mudan\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 lugar dentro deste sistema para Deus, nem para o Diabo, nenhuma alma imortal ou normas imortais de leis e moral. A dial\u00e9tica do pensamento, tendo crescido fora da dial\u00e9tica da natureza, possui consequentemente o car\u00e1ter materialista.<\/p>\n<p>O darwinismo, que explica a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies por meio de transforma\u00e7\u00f5es quantitativas para qualitativas, foi o maior triunfo da dial\u00e9tica em todo o campo da mat\u00e9ria org\u00e2nica. Outro grande triunfo foi a descoberta da tabela peri\u00f3dica dos elementos qu\u00edmicos e, posteriormente, a transforma\u00e7\u00e3o de um elemento em outro. Estas transforma\u00e7\u00f5es (esp\u00e9cies, elementos, etc.) est\u00e3o intimamente ligadas com as quest\u00f5es de classifica\u00e7\u00e3o, t\u00e3o importante quanto nas ci\u00eancias naturais e sociais. O sistema de Lineu (s\u00e9culo XVIII), utilizando como ponto de vista a imutabilidade das esp\u00e9cies, foi limitado \u00e0 descri\u00e7\u00e3o e \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o das plantas de acordo com suas caracter\u00edsticas externas.<\/p>\n<p>O per\u00edodo de inf\u00e2ncia da bot\u00e2nica \u00e9 an\u00e1logo ao per\u00edodo de inf\u00e2ncia da l\u00f3gica, pois as formas de nosso pensamento se desenvolvem como tudo que vive. Somente com o rep\u00fadio da ideia de esp\u00e9cies fixas, somente com o estudo da hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o das plantas e sua anatomia foi preparada a base para uma classifica\u00e7\u00e3o realmente cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Marx, que ao contr\u00e1rio de Darwin foi um dial\u00e9tico consciente, descobriu a base para a classifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica das sociedades humanas no desenvolvimento de suas for\u00e7as produtivas e da estrutura das rela\u00e7\u00f5es de propriedade, que constitui a anatomia da sociedade. O Marxismo substituiu a classifica\u00e7\u00e3o vulgar das sociedades e estados, que at\u00e9 hoje ainda floresce nas universidades, pela classifica\u00e7\u00e3o do Materialismo Dial\u00e9tico. Somente utilizando o m\u00e9todo de Marx \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel determinar ambos os conceitos de governo dos trabalhadores e o momento de sua queda.<\/p>\n<p>Tudo isso, como vemos, n\u00e3o cont\u00e9m nada \u201cmetaf\u00edsico\u201d ou \u201cescol\u00e1stico\u201d, como a presun\u00e7\u00e3o ignorante afirma. A l\u00f3gica dial\u00e9tica expressa as leis do movimento no pensamento cient\u00edfico contempor\u00e2neo. A luta contra o Materialismo Dial\u00e9tico ao contr\u00e1rio expressa um conservador passado distante da pequena burguesia, o autoconceito de universidade rotineira&#8230; uma fagulha de esperan\u00e7a para o p\u00f3s-vida.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>De \u2018Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia alem\u00e3 cl\u00e1ssica\u2019<\/strong><\/p>\n<h4>Por Frederick Engels<\/h4>\n<p>Afora a dissolu\u00e7\u00e3o da escola hegeliana, entretanto, uma outra tend\u00eancia se desenvolveu, sendo a \u00fanica que realmente rendeu frutos. E esta tend\u00eancia \u00e9 essencialmente conectada ao nome de Marx.<\/p>\n<p>A separa\u00e7\u00e3o da filosofia hegeliana foi aqui tamb\u00e9m o resultado de um retorno ao ponto de vista materialista. Isso significa que estava voltada para compreender o mundo real \u2013 natureza e hist\u00f3ria \u2013 tal como ela se apresenta a qualquer um que se aproxime sem as no\u00e7\u00f5es idealistas pr\u00e9-concebidas. Decidiu-se, sem perd\u00e3o, sacrificar qualquer idealismo que n\u00e3o pudesse harmonizar com os fatos concebidos por eles mesmos e n\u00e3o em uma interconex\u00e3o fant\u00e1stica. E o materialismo significa muito mais que isso. Mas aqui a concep\u00e7\u00e3o materialista de mundo foi levada muito a s\u00e9rio pela primeira vez e foi executada consistentemente \u2013 pelo menos nas suas caracter\u00edsticas b\u00e1sicas \u2013 em todos os dom\u00ednios do conhecimento conhecido.<\/p>\n<p>Hegel n\u00e3o foi simplesmente abandonado. Pelo contr\u00e1rio, o seu lado revolucion\u00e1rio deu in\u00edcio, como descrito acima, ao m\u00e9todo dial\u00e9tico. Mas, na forma hegeliana n\u00e3o era poss\u00edvel utilizar este m\u00e9todo. De acordo com Hegel, a dial\u00e9tica \u00e9 o pr\u00f3prio desenvolvimento do conceito. O conceito absoluto n\u00e3o apenas existe \u2013 desconhecido aqui \u2013 desde a eternidade, tamb\u00e9m \u00e9 a alma viva atual de todo o mundo existente. Desenvolve-se por meio de est\u00e1gios preliminares que s\u00e3o tratados por completo na \u201cL\u00f3gica\u201d que est\u00e3o completamente inclu\u00eddos nela. Depois, ela se \u201caliena\u201d ao mudar para natureza, onde, sem a consci\u00eancia de si mesma, distinta como uma necessidade natural, ela encontra um novo desenvolvimento e, finalmente, retorna como a consci\u00eancia do homem de si mesmo. Esta autoconsci\u00eancia depois se elabora novamente em uma forma crua at\u00e9 que finalmente o conceito absoluto novamente retorna a si mesmo completamente na filosofia hegeliana. De acordo com Hegel, entretanto, o desenvolvimento da dial\u00e9tica aparente na natureza e na hist\u00f3ria \u2013 ou seja, a interconex\u00e3o causal do movimento progressivo do menor para o maior afirmando-a por meio de movimentos de zig e zag e retrocesso tempor\u00e1rio \u2013 \u00e9 somente uma c\u00f3pia [Abklatsch] do automovimento do conceito que vai at\u00e9 a eternidade, ningu\u00e9m sabe onde, mas todos os eventos independentemente de qualquer pensamento do c\u00e9rebro humano. Esta pervers\u00e3o ideol\u00f3gica tinha que acabar. Tomamos novamente uma vis\u00e3o materialista dos pensamentos nas nossas cabe\u00e7as, guardando-as como imagens [Abbilder] das coisas reais ao inv\u00e9s de guard\u00e1-las como coisas reais de imagens deste ou daquele conceito absoluto. Portanto, a dial\u00e9tica reduziu a si mesma como a ci\u00eancia das leis gerais do movimento, de ambos o mundo externo e o pensamento humano \u2013 dois conjuntos de leis que s\u00e3o id\u00eanticas em subst\u00e2ncia, mas que diferem nas suas express\u00f5es at\u00e9 o ponto que a mente humana possa aplic\u00e1-las conscientemente, enquanto que na natureza e tamb\u00e9m at\u00e9 agora para a maior parte da hist\u00f3ria humana, estas leis se afirmam inconscientemente na forma de necessidade externa no meio de uma s\u00e9rie intermin\u00e1vel de acidentes aparentes. Assim, a pr\u00f3pria dial\u00e9tica dos conceitos se tornou mero reflexo consciente do movimento dial\u00e9tico do mundo real e, portanto, a dial\u00e9tica de Hegel estava invertida, ou ainda, sem a sua cabe\u00e7a, onde se repousava e colocada sobre seus p\u00e9s. E este Materialismo Dial\u00e9tico, que por anos foi a nossa melhor ferramenta de trabalho e nossa mais afiada arma, foi notavelmente descoberta n\u00e3o somente por n\u00f3s, mas tamb\u00e9m, independentemente de n\u00f3s e at\u00e9 mesmo de Hegel, pelo trabalhador alem\u00e3o, Joseph Dietzgen.<\/p>\n<p>Dessa forma, entretanto, o lado revolucion\u00e1rio da filosofia hegeliana foi novamente tomado e, ao mesmo tempo, liberado de seus enfeites idealistas dos quais Hegel houvera prevenido sua execu\u00e7\u00e3o consistente. O grande pensamento b\u00e1sico \u00e9 que o mundo n\u00e3o pode ser compreendido como um complexo de coisas prontas e acabadas, mas como um complexo de processos, onde as coisas parecem est\u00e1veis somente como imagens em nossas mentes; os conceitos passam por uma mudan\u00e7a ininterrupta de nascimentos e mortes, onde apesar de acidentalmente aparente e do retrocesso tempor\u00e1rio, um desenvolvimento progressivo se afirma no final \u2013 este pensamento fundamental permitiu, especialmente desde o tempo de Hegel, t\u00e3o afirmativamente a consci\u00eancia ordin\u00e1ria que ela \u00e9 agora raramente contradita. Entretanto, conhecer este pensamento fundamental em palavras e, aplic\u00e1-lo na realidade em detalhes a cada dom\u00ednio da investiga\u00e7\u00e3o, s\u00e3o duas coisas diferentes. Se, no entanto, a investiga\u00e7\u00e3o sempre proceder deste ponto de vista, a demanda por solu\u00e7\u00f5es finais e verdades eternas cessar\u00e1 para sempre; algu\u00e9m tem consci\u00eancia da limita\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria de todo conhecimento adquirido pelo fato de que \u00e9 condicionado pelas circunst\u00e2ncias nas quais foi adquirido. Por outro lado, ningu\u00e9m se permite ser imposto por ant\u00edteses, insuper\u00e1veis pela ainda comum e velha metaf\u00edsica, entre o verdadeiro e o falso, o bom e o mau, o id\u00eantico e o diferente, o necess\u00e1rio e o acidental. Todos sabem que estas ant\u00edteses t\u00eam somente uma validade relativa, que o que \u00e9 reconhecido agora como verdade tem tamb\u00e9m o seu falso lado latente que se manifestar\u00e1 mais tarde, bem como aquilo que agora \u00e9 tido como falso tamb\u00e9m tem seu lado verdadeiro por virtude de ter sido previamente tido como verdadeiro. Todos sabem que o que \u00e9 mantido como necess\u00e1rio \u00e9 composto por puros acidentes e que o chamado acidental \u00e9 termo onde a necessidade se esconde \u2013 e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>O velho m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o e pensamento que Hegel chama \u201cmetaf\u00edsico\u201d, que preferiu investigar as coisas como dadas, fixas e est\u00e1veis, um m\u00e9todo de rel\u00edquias e que ainda assombra fortemente as mentes das pessoas, foi historicamente justific\u00e1vel em sua \u00e9poca. Era necess\u00e1rio investigar primeiro as coisas antes de ser poss\u00edvel examinar os processos. Era preciso conhecer primeiro o que algo foi em particular para ser poss\u00edvel observar as mudan\u00e7as internas. E esse foi o caso com as ci\u00eancias naturais. A velha metaf\u00edsica, que aceitava as coisas como objetos finalizados, surgiu de uma ci\u00eancia natural que investigou as coisas vivas e mortas como objetos finalizados. Mas quando esta investiga\u00e7\u00e3o progrediu tanto que se tornou poss\u00edvel dar o passo adiante, ou seja, passar para a investiga\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica das mudan\u00e7as \u00e0s quais estas coisas est\u00e3o sujeitas na natureza, o \u00faltimo momento da velha metaf\u00edsica tamb\u00e9m golpeou o reino da filosofia. E de fato, enquanto as ci\u00eancias naturais foram predominantemente, at\u00e9 o final do \u00faltimo s\u00e9culo, uma ci\u00eancia de coletas, a ci\u00eancia dos processos, da origem das coisas finalizadas, no nosso s\u00e9culo \u00e9 essencialmente uma ci\u00eancia da sistematiza\u00e7\u00e3o, uma ci\u00eancia dos processos, da origem e do desenvolvimento destas coisas e da interconex\u00e3o que liga todos estes processos naturais em um grande todo. A fisiologia, que investiga os processos que ocorrem nos organismos das plantas e dos animais; a embriologia, que lida com o desenvolvimento de organismos individuais dos germes at\u00e9 a maturidade; a geologia, que investiga a forma\u00e7\u00e3o gradual da superf\u00edcie da Terra \u2013 todas elas s\u00e3o filhas do nosso s\u00e9culo.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>As tr\u00eas origens e partes constitutivas do Marxismo (resumo)<\/strong><\/p>\n<h4>Por Lenin<\/h4>\n<p>A filosofia do Marxismo \u00e9 o materialismo. Por toda a hist\u00f3ria recente da Europa e particularmente do final do s\u00e9culo XVIII na Fran\u00e7a, que foi o palco da batalha decisiva contra todo o tipo de lixo medieval, contra a servid\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es e nas ideias, o materialismo provou-se ser a \u00fanica filosofia consistente, a verdade para todos os ensinamentos das ci\u00eancias naturais, hostil a todas as supersti\u00e7\u00f5es, hipocrisias, etc. Os inimigos da democracia tentaram, entretanto, com toda sua energia, \u201csuperar\u201d, minar e difamar o materialismo e defender v\u00e1rias formas de idealismos filos\u00f3ficos que sempre levaram, de uma forma ou outra, \u00e0 defesa e ao apoio da religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx e Engels sempre defenderam o materialismo filos\u00f3fico das mais determinadas maneiras e repetidamente explicaram o profundo erro de cada desvio desta base. Seus conceitos s\u00e3o mais precisa e completamente expostos nas palavras de Engels, Ludwig Feuerbach e Anti-D\u00fcring, os quais, como o Manifesto Comunista, s\u00e3o livros de cabeceira para todo trabalhador consciente.<\/p>\n<p>Entretanto, Marx n\u00e3o parou no materialismo do s\u00e9culo XVIII, deu um avan\u00e7o na filosofia. Ele o enriqueceu pelas conquistas da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3 especialmente pelo sistema de Hegel, que por sua vez levou ao materialismo de Feuerbach. Destes, a maior conquista \u00e9 a dial\u00e9tica, por exemplo, a doutrina do desenvolvimento ao seu m\u00e1ximo, \u00e0 sua forma mais profunda, livre de sua parcialidade \u2013 a doutrina, tamb\u00e9m, da relatividade do conhecimento humano que nos forneceu uma reflex\u00e3o do eterno desenvolvimento da mat\u00e9ria. As \u00faltimas descobertas das ci\u00eancias naturais \u2013 o r\u00e1dio, os el\u00e9trons, a transmuta\u00e7\u00e3o dos elementos \u2013 s\u00e3o uma not\u00e1vel confirma\u00e7\u00e3o do materialismo Dial\u00e9tico de Marx, apesar das doutrinas dos fil\u00f3sofos burgueses com seus \u201cnovos\u201d retornos ao velho e carcomido idealismo.<\/p>\n<p>Ao se aprofundar e desenvolver o materialismo filos\u00f3fico, Marx chegou \u00e0 sua conclus\u00e3o, ele estendeu sua percep\u00e7\u00e3o da natureza \u00e0 percep\u00e7\u00e3o da sociedade humana. O materialismo hist\u00f3rico de Marx representou a maior conquista do pensamento cient\u00edfico.<\/p>\n<p>O caos e a arbitrariedade, que at\u00e9 ent\u00e3o reinavam nos conceitos da hist\u00f3ria e da pol\u00edtica, foram substitu\u00eddos por uma teoria cient\u00edfica estritamente consistente e harmoniosa, que mostra como uma ordem mais elevada de vida social se desenvolve a partir de outra em consequ\u00eancia do crescimento das for\u00e7as produtivas \u2013 como o capitalismo, por exemplo, cresceu a partir da servid\u00e3o.<\/p>\n<p>Da mesma forma que a cogni\u00e7\u00e3o humana reflete a natureza (por exemplo, desenvolvimento da mat\u00e9ria) que existe independentemente dele, tamb\u00e9m a cogni\u00e7\u00e3o social do homem (por exemplo, os v\u00e1rios conceitos e doutrinas filos\u00f3ficas, religiosas, pol\u00edticas, etc.) reflete a ordem econ\u00f4mica da sociedade. As institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o uma superestrutura na funda\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Vemos, por exemplo, que as v\u00e1rias formas pol\u00edticas dos estados da Europa moderna servem aos prop\u00f3sitos de estreitar a domina\u00e7\u00e3o da burguesia sobre o proletariado.<\/p>\n<p>A filosofia de Marx completa-se no materialismo filos\u00f3fico que forneceu \u00e0 humanidade e, especialmente \u00e0 classe trabalhadora, um poderoso instrumento de conhecimento.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Obras selecionadas de Lenin<\/strong><\/p>\n<p><strong>Volume 38, p. 359:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sobre a quest\u00e3o da dial\u00e9tica.<\/strong><\/p>\n<p>A divis\u00e3o de um \u00fanico todo e a cogni\u00e7\u00e3o de suas partes contradit\u00f3rias \u00e9 a ess\u00eancia (uma das \u201cess\u00eancias\u201d, um dos principais, sen\u00e3o as principais caracter\u00edsticas ou recursos) da dial\u00e9tica. \u00c9 precisamente como Hegel, da mesma forma, colocou o problema.<\/p>\n<p>A corre\u00e7\u00e3o deste aspecto do conte\u00fado da dial\u00e9tica deve ser testada pela hist\u00f3ria da ci\u00eancia. Este aspecto da dial\u00e9tica (por exemplo, em Plekhanov) geralmente recebe uma aten\u00e7\u00e3o inadequada: a identidade de opostos \u00e9 retirada do total de exemplos (\u201cpor exemplo, uma semente\u201d, \u201cpor exemplo, comunismo primitivo\u201d. O mesmo \u00e9 verdade para Engels. Mas \u00e9 \u201cno interesse da populariza\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d) e n\u00e3o como uma lei da cogni\u00e7\u00e3o (e como uma lei do mundo objetivo).<\/p>\n<p>Na Matem\u00e1tica: + e \u2013, diferencial e integral;<\/p>\n<p>Na Mec\u00e2nica: a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>Na F\u00edsica: eletricidade positiva e negativa;<\/p>\n<p>Na Qu\u00edmica: a combina\u00e7\u00e3o e dissocia\u00e7\u00e3o de \u00e1tomos;<\/p>\n<p>Nas Ci\u00eancias Sociais: a luta de classes.<\/p>\n<p>A identidade dos opostos (seria mais correto, talvez, dizer sua \u201cunidade\u201d, apesar de que a diferen\u00e7a entre os termos identidade e unidade n\u00e3o \u00e9 particularmente importante aqui. Em um certo senso ambos est\u00e3o corretos) \u00e9 o reconhecimento (descoberta) do contradit\u00f3rio, mutuamente exclusivo, tend\u00eancias opostas e todos os fen\u00f4menos e processos da natureza (inclusive mente e sociedade). A condi\u00e7\u00e3o para o conhecimento de todos os processos do mundo nos seus \u201cpr\u00f3prios movimentos\u201d, no seu desenvolvimento espont\u00e2neo, na sua vida real, \u00e9 o conhecimento como uma unidade de opostos. Desenvolvimento \u00e9 a \u201cluta\u201d dos opostos. As duas concep\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas (ou duas poss\u00edveis? Ou duas historicamente observ\u00e1veis?) do desenvolvimento (evolu\u00e7\u00e3o) s\u00e3o: desenvolvimento como aumento ou diminui\u00e7\u00e3o e desenvolvimento como uma unidade de opostos (a divis\u00e3o de uma unidade em opostos mutuamente exclusivos e sua rela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca!).<\/p>\n<p>Na primeira concep\u00e7\u00e3o de movimento, movimento pr\u00f3prio, sua for\u00e7a atuante, sua fonte, seu motivo, permanece na sombra (ou sua origem \u00e9 feita externamente \u2013 Deus, sujeito, etc.). Na segunda concep\u00e7\u00e3o a aten\u00e7\u00e3o principal \u00e9 dirigida precisamente ao conhecimento da fonte do \u201cpr\u00f3prio\u201d movimento.<\/p>\n<p>A primeira concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem vida, \u00e9 p\u00e1lida e seca. A segunda \u00e9 viva. A segunda sozinha fornece a chave para o \u201cpr\u00f3prio movimento\u201d de tudo que existe, ela fornece sozinha a chave para os \u201csaltos\u201d, para as \u201cquebras de continuidade\u201d, \u201cpara a transforma\u00e7\u00e3o no oposto\u201d, para a destrui\u00e7\u00e3o do velho e o aparecimento do novo.<\/p>\n<p>A unidade (coincid\u00eancia, identidade, a\u00e7\u00e3o igual) de opostos \u00e9 condicional, tempor\u00e1ria, transit\u00f3ria, relativa. A luta de opostos mutuamente exclusivos \u00e9 absoluta, tanto quanto o desenvolvimento e o movimento s\u00e3o absolutos.<\/p>\n<p>Nota: A distin\u00e7\u00e3o entre subjetivismo (ceticismo, sofisma, etc.) e a dial\u00e9tica, incidentalmente, \u00e9 aquela na dial\u00e9tica (objetiva) a diferen\u00e7a entre o relativo e o absoluto \u00e9 ela mesma relativa. Para o subjetivismo e o sofisma, o relativo s\u00f3 \u00e9 relativo e exclui o absoluto.<\/p>\n<p>Em O Capital, Marx analisa o mais simples, a mais ordin\u00e1ria e fundamental, a mais comum rela\u00e7\u00e3o cotidiana da sociedade burguesa, uma rela\u00e7\u00e3o encontrada bilh\u00f5es de vezes, a troca de mercadorias. Nesta an\u00e1lise muito simples do fen\u00f4meno (nesta \u201cc\u00e9lula\u201d da sociedade burguesa) revelam-se todas as contradi\u00e7\u00f5es (ou germens de todas as contradi\u00e7\u00f5es) da sociedade moderna. A exposi\u00e7\u00e3o subsequente mostra o desenvolvimento (ambos crescimento e movimento) destas contradi\u00e7\u00f5es e desta sociedade na soma de suas partes individuais. Do seu in\u00edcio ao seu fim.<\/p>\n<p>O mesmo deve ser o m\u00e9todo de exposi\u00e7\u00e3o (ou estudo) da dial\u00e9tica em geral (para Marx, a dial\u00e9tica da sociedade burguesa \u00e9 somente um caso particular da dial\u00e9tica). Para come\u00e7ar com o que \u00e9 mais simples, mais ordin\u00e1rio, mais comum, etc. com qualquer preposi\u00e7\u00e3o: as folhas das \u00e1rvores s\u00e3o verdes, John \u00e9 homem, Fido \u00e9 um cachorro, etc. Aqui j\u00e1 temos a dial\u00e9tica (como o g\u00eanio de Hegel a concebeu), o indiv\u00edduo \u00e9 universal.<\/p>\n<p>Consequentemente, os opostos (o indiv\u00edduo \u00e9 oposto ao universo) s\u00e3o id\u00eanticos: o indiv\u00edduo existe somente na conex\u00e3o que leva ao universo. O universo existe somente no indiv\u00edduo e por meio do indiv\u00edduo. Cada indiv\u00edduo \u00e9 (de uma forma ou outra) um universo. Cada universo \u00e9 (um fragmento, ou um aspecto, ou a ess\u00eancia de) um indiv\u00edduo. Cada universo s\u00f3 aproximadamente abrange todos os objetos individuais. Todo indiv\u00edduo entra incompletamente dentro do universo, etc., etc. Cada indiv\u00edduo \u00e9 conectado por milhares de transi\u00e7\u00f5es com outros tipos de indiv\u00edduos (coisas, fen\u00f4menos, processos), etc. Aqui j\u00e1 temos os elementos, os germens, os conceitos de necessidade, de conex\u00e3o objetiva na natureza, etc. Aqui j\u00e1 temos o contingente e o necess\u00e1rio, o fen\u00f4meno e a ess\u00eancia; quando dizemos John \u00e9 homem, Fido \u00e9 um cachorro, esta \u00e9 uma folha de uma \u00e1rvore, etc., estamos desconsiderando v\u00e1rios atributos como contingentes; separamos a ess\u00eancia da apar\u00eancia e contrapomos o \u00fanico ao outro.<\/p>\n<p>Assim, em qualquer proposi\u00e7\u00e3o, podemos (e devemos) divulgar como em um \u201cn\u00facleo\u201d (c\u00e9lula) os germens de todos os elementos da dial\u00e9tica e, desse modo, apresenta que a dial\u00e9tica \u00e9 uma propriedade de todo o conhecimento humano em geral.<\/p>\n<p>E as ci\u00eancias naturais nos mostram (e aqui novamente deve ser demonstrado em qualquer simples inst\u00e2ncia) a natureza objetiva com as mesmas qualidades, a transforma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo em universo, do contingente dentro do necess\u00e1rio, transi\u00e7\u00f5es, modula\u00e7\u00f5es e a conex\u00e3o rec\u00edproca dos opostos. A dial\u00e9tica \u00e9 a teoria do conhecimento (de Hegel e) do Marxismo. Este \u00e9 o \u201caspecto\u201d da mat\u00e9ria (n\u00e3o \u00e9 \u201cum aspecto\u201d, mas a ess\u00eancia da mat\u00e9ria) a qual Plekhanov, para n\u00e3o falar de outros marxistas, n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O conhecimento \u00e9 representado na forma de uma s\u00e9rie de c\u00edrculos por Hegel (veja \u201cL\u00f3gica\u201d) e pelos modernos epistem\u00f3logos das ci\u00eancias naturais, o ecl\u00e9tico e inimigo do hegelianismo (que ele n\u00e3o entendeu!!!), Paul Volkmann.<\/p>\n<p>\u201cC\u00edrculos\u201d em filosofia: uma cronologia de pessoas \u2013 essencial? N\u00e3o!<\/p>\n<p>Antigo: de Dem\u00f3crito a Plat\u00e3o e a dial\u00e9tica de Her\u00e1clito.<\/p>\n<p>Renascen\u00e7a: Descartes contra Gassendi (Spinoza?)<\/p>\n<p>Moderno: Holbach \u2013 Hegel (via Berkeley, Hume, Kant).<\/p>\n<p>Hegel \u2013 Feuerbach \u2013 Marx<\/p>\n<p>A dial\u00e9tica \u00e9 um conhecimento multifacetado e vivo (com o n\u00famero de faces eternamente crescendo), com um infinito n\u00famero de matizes de cada abordagem e aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade (com um sistema filos\u00f3fico crescente dentro de cada matiz) \u2013 aqui temos um conte\u00fado imensuravelmente rico comparado ao materialismo metaf\u00edsico, cujo azar fundamental \u00e9 a sua inabilidade de aplicar a dial\u00e9tica \u00e0 teoria da reflex\u00e3o, ao processo de desenvolvimento do conhecimento.<\/p>\n<p>O idealismo filos\u00f3fico \u00e9 somente absurdo do ponto de vista do materialismo metaf\u00edsico cru e simples. Do ponto de vista do Materialismo Dial\u00e9tico, por outro lado, o idealismo filos\u00f3fico \u00e9 um desenvolvimento unilateral e exagerado (infla\u00e7\u00e3o, distens\u00e3o) de um dos recursos, aspectos, facetas do conhecimento, em uma diviniza\u00e7\u00e3o absoluta, divorciado da mat\u00e9ria e da natureza. O idealismo \u00e9 um obscurantismo clerical. Verdade. Mas o idealismo filos\u00f3fico \u00e9 (\u201cmais corretamente\u201d e \u201cal\u00e9m de\u201d) uma estrada para o obscurantismo clerical por meio de uma das sombras do infinitamente complexo do conhecimento (dial\u00e9tico) humano.<\/p>\n<p>O conhecimento humano n\u00e3o \u00e9 (ou n\u00e3o segue) uma linha reta, mas uma curva que se aproxima infinitamente de uma s\u00e9rie de c\u00edrculos, uma espiral. Qualquer fragmento, segmento, se\u00e7\u00e3o desta curva pode ser transformado (transformado unilateralmente) em um linha independente, completa e reta que, ent\u00e3o, (se algu\u00e9m n\u00e3o ver a madeira das \u00e1rvores) leva ao atoleiro, ao obscurantismo clerical (onde est\u00e1 ancorado pelos interesses de classe da classe dominante). Retilinearidade e unilateridade, fossiliza\u00e7\u00e3o e petrifica\u00e7\u00e3o, subjetivismo e cegueira subjetiva \u2013 e eis as ra\u00edzes epistemol\u00f3gicas do idealismo. E o obscurantismo clerical (= idealismo filos\u00f3fico), \u00e9 claro, tem ra\u00edzes epistemol\u00f3gicas, ele n\u00e3o \u00e9 sem fundamento; \u00e9 uma flor est\u00e9ril indubitavelmente, mas uma flor est\u00e9ril que cresce na \u00e1rvore viva do conhecimento humano vivo, f\u00e9rtil, genu\u00edno, poderoso, onipotente, objetivo e absoluto.<\/p>\n<p><strong>Volume 38, p. 221 \u2013 222<\/strong><\/p>\n<p><strong>Resumo da dial\u00e9tica<\/strong><br \/>\n<strong>Por Lenin<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>A determina\u00e7\u00e3o do conceito externo a si mesmo (a coisa como ela mesma deve ser considerada em suas rela\u00e7\u00f5es e em seu desenvolvimento).<\/li>\n<li>A natureza contradit\u00f3ria da como ela mesma (o outro dela mesma), as for\u00e7as contradit\u00f3rias e tend\u00eancias em cada fen\u00f4meno.<\/li>\n<li>A uni\u00e3o de an\u00e1lise e s\u00edntese.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Estas s\u00e3o, aparentemente, os elementos da dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>Estes elementos podem ser apresentados em grandes detalhes como segue:<\/p>\n<ol>\n<li>A objetividade da considera\u00e7\u00e3o (nem exemplos, nem diverg\u00eancias, mas a Coisa-Nela-Mesma).<\/li>\n<li>A totalidade das numerosas rela\u00e7\u00f5es desta coisa com outras.<\/li>\n<li>O desenvolvimento desta coisa (o fen\u00f4meno, respectivamente), seu pr\u00f3prio movimento, sua pr\u00f3pria vida.<\/li>\n<li>As tend\u00eancias contradit\u00f3rias internas (e lados) nesta coisa.<\/li>\n<li>A coisa (fen\u00f4meno, etc.) como a soma e unidade dos opostos.<\/li>\n<li>A luta, respectivamente o desdobramento, destes opostos, esfor\u00e7os contradit\u00f3rios.<\/li>\n<li>A uni\u00e3o de an\u00e1lise e s\u00edntese \u2013 a quebra das partes separadas e a totalidade, a soma destas partes.<\/li>\n<li>As rela\u00e7\u00f5es de cada coisa (fen\u00f4meno, etc.) n\u00e3o s\u00e3o somente numerosas, mas gerais e universais. Cada coisa (fen\u00f4meno, etc.) est\u00e1 conectada com a outra.<\/li>\n<li>N\u00e3o somente os opostos, mas as transi\u00e7\u00f5es de cada determina\u00e7\u00e3o, qualidade, recurso, lado, propriedade em cada outro [dentro do seu oposto?].<\/li>\n<li>O processo infind\u00e1vel de descoberta de novos lados, rela\u00e7\u00f5es, etc.<\/li>\n<li>O processo infind\u00e1vel de aprofundamento do conhecimento humano da coisa, dos fen\u00f4menos, dos processos, etc., da apar\u00eancia \u00e0 ess\u00eancia e \u00e0 ess\u00eancia menos profunda a mais profunda.<\/li>\n<li>Da coexist\u00eancia a casualidade e de uma forma de conex\u00e3o e rec\u00edproca depend\u00eancia a uma outra, mais profunda, de uma forma mais geral.<\/li>\n<li>A repeti\u00e7\u00e3o em um est\u00e1gio mais alto de determinados recursos, propriedades, etc., do mais baixo.<\/li>\n<li>O aparente retorno ao velho (a nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o).<\/li>\n<li>A luta do conte\u00fado com a forma e inversamente. O descarte da forma, a transforma\u00e7\u00e3o do conte\u00fado.<\/li>\n<li>A transi\u00e7\u00e3o da quantidade em qualidade e vice-versa (15 e 16 s\u00e3o exemplos do 9).<\/li>\n<\/ol>\n<p>Em resumo, a Dial\u00e9tica pode ser definida como a doutrina da unidade de opostos. Isto encorpa a ess\u00eancia da Dial\u00e9tica, mas requer explica\u00e7\u00f5es e desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>Quest\u00f5es sobre o Materialismo Dial\u00e9tico<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>Por que a classe trabalhadora precisa de uma filosofia?<\/li>\n<li>O \u201csenso comum\u201d \u00e9 uma filosofia?<\/li>\n<li>O que \u00e9 materialismo?<\/li>\n<li>O que \u00e9 idealismo?<\/li>\n<li>A teoria da evolu\u00e7\u00e3o de Darwin \u00e9 correta?<\/li>\n<li>O que significa metaf\u00edsica?<\/li>\n<li>Como definir a dial\u00e9tica?<\/li>\n<li>O que estava errado com o velho materialismo?<\/li>\n<li>O que \u00e9 l\u00f3gica formal?<\/li>\n<li>Um quilo de a\u00e7\u00facar \u00e9 igual a um quilo de a\u00e7\u00facar?<\/li>\n<li>Por que os trabalhadores \u00e0s vezes aceitam ataques nos seus termos e condi\u00e7\u00f5es, e depois fazem greve por causa de um intervalo para o caf\u00e9, tempo para banho ou outras coisas \u201cpequenas\u201d?<\/li>\n<li>A hist\u00f3ria se repete?<\/li>\n<li>A Primeira Guerra Mundial foi causada pelo assassinato de um pr\u00edncipe em Sarajevo? Qual foi o papel do incidente na hist\u00f3ria?<\/li>\n<li>Voc\u00ea pode estar em dois lugares ao mesmo tempo?<\/li>\n<li>Qual a grande contribui\u00e7\u00e3o de Hegel para a filosofia?<\/li>\n<li>Qual a contribui\u00e7\u00e3o de Marx e Engels para a filosofia?<\/li>\n<li>Por que se pode dizer que a natureza \u00e9 a prova da dial\u00e9tica?<\/li>\n<li>Qual a relev\u00e2ncia do Materialismo Dial\u00e9tico na compreens\u00e3o do futuro?<\/li>\n<li>Quando o universo come\u00e7ou?<\/li>\n<li>Por que os marxistas s\u00e3o deterministas?<\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<p><strong>Lista de leituras sugeridas<\/strong><\/p>\n<p>A pobreza da filosofia, Marx.<\/p>\n<p>Manuscritos econ\u00f4micos e filos\u00f3ficos, Marx.<\/p>\n<p>Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3, Engels.<\/p>\n<p>A ideologia alem\u00e3, Marx.<\/p>\n<p>Anti-D\u00fcring, Engels.<\/p>\n<p>Dial\u00e9tica da natureza, Engels.<\/p>\n<p>Do socialismo ut\u00f3pico ao socialismo cient\u00edfico, Engels.<\/p>\n<p>Materialismo e cr\u00edtica emp\u00edrica (Trabalhos selecionados, vol. 17), Lenin.<\/p>\n<p>Cadernos filos\u00f3ficos (Trabalhos selecionados, vol. 38), Lenin.<\/p>\n<p>Sobre Marx e Engels, Lenin.<\/p>\n<p>As tr\u00eas fontes e as tr\u00eas partes constitutivas do Marxismo, por Lenin.<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica do Marxismo, Novack.<\/p>\n<p>Reason in Revolt, Woods e Grant<\/p>\n<p>Os problemas fundamentais do Marxismo, Plekhanov.<\/p>\n<p>O desenvolvimento da vis\u00e3o monista da hist\u00f3ria, Plekhanov.<\/p>\n<p>In Defence of Marxism, Trotsky.<\/p>\n<p>Radio, Science, Technology and Society, Trotsky.<a id=\"_ftnref3\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.marxismo.org.br\/content\/o-que-e-materialismo-dialetico#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[1]<\/a><\/p>\n<div>\n<div id=\"ftn3\">\n<p><em><a id=\"_ftn3\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.marxismo.org.br\/content\/o-que-e-materialismo-dialetico#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[1]<\/a> INT \u2013 N\u00e3o h\u00e1 edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas.<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.marxist.com\/2016-12-01-14-38-20.htm<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rob Sewell &#8211;\u00a0As teorias de Marx fornecem ao pensador iniciante uma compreens\u00e3o de forma global. \u00c9 a tarefa de cada trabalhador e estudante conquistar para si as teorias de Marx e Engels, como um pr\u00e9-requisito para a conquista da sociedade pelos trabalhadores. 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