{"id":25376,"date":"2026-09-15T12:32:03","date_gmt":"2026-09-15T15:32:03","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25376"},"modified":"2026-09-14T18:34:39","modified_gmt":"2026-09-14T21:34:39","slug":"a-nova-questao-social-tem-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/09\/15\/a-nova-questao-social-tem-genero\/","title":{"rendered":"A nova quest\u00e3o social tem g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<p><strong>MARCIO POCHMANN* &#8211; <\/strong>A reconfigura\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica do trabalho dissolve as fronteiras entre produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o, exigindo que a prote\u00e7\u00e3o social incorpore a economia do cuidado e supere as exclus\u00f5es herdadas da industrializa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<h3>1.<\/h3>\n<p><em>\u00a0<\/em>A hist\u00f3ria do trabalho feminino costuma ser contada como uma longa marcha de entrada das mulheres no mercado de trabalho. As mulheres, por\u00e9m, nunca estiveram fora do trabalho. O que mudou foi a maneira pela qual produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida foram organizadas, separadas e reconhecidas pela economia, pelo Estado e pelos direitos sociais.<\/p>\n<p>Na sociedade agr\u00e1ria, produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o estavam amplamente entrela\u00e7adas. A casa, ro\u00e7a, cria\u00e7\u00e3o de animais, preparo dos alimentos, costura, pequeno com\u00e9rcio e cuidado das crian\u00e7as, idosos e doentes faziam parte de uma mesma unidade econ\u00f4mica. No Brasil escravista, essa integra\u00e7\u00e3o assumiu forma brutal, com as mulheres negras escravizadas trabalhando na agricultura, ruas, cozinhas e como quitandeiras, lavadeiras e amas de leite, entre outras atividades. Produziam mercadorias e sustentavam a reprodu\u00e7\u00e3o cotidiana da vida.<\/p>\n<p>Somente com o primeiro Censo Demogr\u00e1fico, realizado no ano de 1872, o registro de que as mulheres representavam 45,5% da for\u00e7a de trabalho, concentradas sobretudo na agricultura e nos servi\u00e7os dom\u00e9sticos. Cerca de 20% estavam em atividades ligadas \u00e0 costura e 5,3% na ind\u00fastria t\u00eaxtil. Em 1940, contudo, apareciam como apenas 15,9% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa. Parte dessa queda refletia mudan\u00e7as censit\u00e1rias que deixaram de contabilizar como economicamente ativas as mulheres dedicadas aos cuidados e trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado.<\/p>\n<h3>2.<\/h3>\n<p>A industrializa\u00e7\u00e3o introduziu uma ruptura hist\u00f3rica. A f\u00e1brica, o escrit\u00f3rio e o estabelecimento comercial concentraram a produ\u00e7\u00e3o mercantil. O domic\u00edlio foi reduzido \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o familiar de sociabilidade, cuidados e reprodu\u00e7\u00e3o humana. A sociedade industrial separou, portanto, produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o eram precisas no antigo e longevo agrarismo.<\/p>\n<p>A partir dessa separa\u00e7\u00e3o formal que se ergueu grande parte da cidadania trabalhista do s\u00e9culo XX. Trazida da europa, a pauta sindical e de partidos progressitas concentrou-se na defesa dos direitos sociais e trabalhistas como na defesa de jornada m\u00e1xima de trabalho, sal\u00e1rio m\u00ednimo, f\u00e9rias, previd\u00eancia circunscritos ao emprego assalariado realizado fora de casa.<\/p>\n<p>Inegavelmente, os sindicatos e partidos progressistas tiveram um papel decisivo nessa conquista civilizat\u00f3ria que foi incorporada \u00e0 agenda p\u00fablica com a legisla\u00e7\u00e3o social e trabalhista ao longod o s\u00e9culo XX. Como se tratou de uma importante agenda, por\u00e9m concentrada no trabalho da produ\u00e7\u00e3o, localizado fundamentalmente no estabelecimento, passou a simbolizar ocupa\u00e7\u00f5es predominantemente masculinas.<\/p>\n<p>Enquanto as lutas sociais disputavam sal\u00e1rio, jornada e prote\u00e7\u00e3o no mundo vis\u00edvel da produ\u00e7\u00e3o, permanecia menos reconhecido o trabalho que assegurava a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Quem cozinhava? Quem limpava? Quem cuidava das crian\u00e7as, idosos e doentes? Majoritariamente, as mulheres.<\/p>\n<p>Com isso, constituiu-se uma cidadania laboral de duas velocidades. De um lado, os direitos sociais e trabalhistas concentrados sobre a produ\u00e7\u00e3o remunerada e reconhecida pelo Estado, fortemente concentrada na popula\u00e7\u00e3o adulta masculina, De outro, a grande parte do trabalho de reprodu\u00e7\u00e3o da vida permanecia visto como gratuito, invis\u00edvel e fora da representa\u00e7\u00e3o coletiva, basicamente assentada na popula\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<h3>3.<\/h3>\n<p>Embora a desigualdade de g\u00eanero n\u00e3o tenha nascido da\u00ed, n\u00e3o se pode deixar de reconhecer que a arquitetura institucional da sociedade industrial contribuiu para consolid\u00e1-la. Heleieth Saffioti percebeu cedo essa contradi\u00e7\u00e3o. O desenvolvimento capitalista n\u00e3o levaria automaticamente \u00e0 igualdade entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>No capitalismo perif\u00e9rico brasileiro, a incorpora\u00e7\u00e3o feminina ocorreu de forma desigual e subordinada, concentrada nas ocupa\u00e7\u00f5es mais prec\u00e1rias e mal remuneradas. A partir dos anos 1970, urbaniza\u00e7\u00e3o, queda da fecundidade, escolariza\u00e7\u00e3o, acesso \u00e0s universidades e mobiliza\u00e7\u00e3o feminista ampliaram a presen\u00e7a feminina no trabalho remunerado. Entre 1980 e 2010, por exempo, o n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o das mulheres passou de 25,9% para 43,9%.<\/p>\n<p>Mas o aumento do emprego feminino n\u00e3o foi acompanhado por redistribui\u00e7\u00e3o equivalente das responsabilidades dom\u00e9sticas e de cuidado. Consolidou-se, assim, a dupla jornada e com isso, a desigualdade permanecida. Em 2025, por exemplo, a taxa de participa\u00e7\u00e3o feminina situava-se em torno de 52,8%, enquanto a masculina ultrapassava 72%. Cerca de 47,2 milh\u00f5es de mulheres estavam fora da for\u00e7a de trabalho. Entre as que haviam interrompido a busca por emprego, 32% apontavam responsabilidades dom\u00e9sticas e de cuidado como motivo principal. Para as mulheres com filhos de zero a tr\u00eas anos, a propor\u00e7\u00e3o chegava a 87%. A taxa de desemprego feminino permanecia em torno de 6,2%, contra 4,2% entre os homens, alcan\u00e7ando 7,5% entre mulheres negras.<\/p>\n<p>Neste primeiro ter\u00e7o do s\u00e9culo XXI nota-se como a sociedade de servi\u00e7os hiperconectada da era digital vem desfazendo parcialmente a separa\u00e7\u00e3o espacial criada pela industrializa\u00e7\u00e3o. A digitaliza\u00e7\u00e3o desloca novamente parte da produ\u00e7\u00e3o para dentro do domic\u00edlio. O trabalho remoto leva o escrit\u00f3rio para casa. Em 2026, cerca de 24% dos servidores federais estavam em alguma modalidade de teletrabalho, sendo 68,4% no modelo h\u00edbrido, 31,1% em teletrabalho integral e 0,5% trabalhando no exterior. Ao mesmo tempo, psic\u00f3logos, professores, consultores e programadores prestam servi\u00e7os digitalmente, enquanto pequenos produtores transformam cozinhas em unidades conectadas a plataformas de entrega e vendedores atuam pelas redes sociais com y<em>outubers<\/em> e criadores de conte\u00fado transformando quartos e salas em locais de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>4.<\/h3>\n<p>Outros trabalhadores permanecem nas ruas, mas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o organizados pela f\u00e1brica. Motoristas, entregadores e prestadores de servi\u00e7os s\u00e3o conectados, avaliados e muitas vezes comandados por plataformas e algoritmos. N\u00e3o se trata de retornar \u00e0 sociedade agr\u00e1ria, mas a urg\u00eancia de reconhecer o surgimento de algo novo, com a produ\u00e7\u00e3o e a reprodu\u00e7\u00e3o humana voltando a compartilhar espa\u00e7os e tempos, cada vez mais articuladas por redes digitais, plataformas, dados e algoritmos.<\/p>\n<p>A f\u00e1brica concentrava trabalhadores. A plataforma os dispersa. A f\u00e1brica tornava vis\u00edvel quem comandava o trabalho. O algoritmo pode ocultar esse comando. A f\u00e1brica delimitava com maior clareza a jornada. A conectividade pode faz\u00ea-la atravessar o dia inteiro. E a casa, que a industrializa\u00e7\u00e3o colocou fora do centro da cidadania laboral, volta a ser espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o mercantil.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XX, a for\u00e7a dos sindicatos e partidos progressistas nasceu da capacidade de compreender a sociedade industrial e transformar o trabalhador concentrado na f\u00e1brica em sujeito coletivo de direitos. No s\u00e9culo XXI, sua renova\u00e7\u00e3o depender\u00e1 de compreender para onde o trabalho se deslocou. Ele est\u00e1 na casa, na rua, na tela, na plataforma, na nuvem e no algoritmo.<\/p>\n<p>Se sindicatos e partidos progressistas permanecerem estruturados apenas em torno do emprego formal, do estabelecimento fixo e do empregador claramente identificado, poder\u00e3o defender conquistas indispens\u00e1veis do passado, mas ter\u00e3o dificuldade crescente para representar o trabalho do presente. A nova agenda precisa partir de outro princ\u00edpio, os direitos devem acompanhar quem trabalha, n\u00e3o permanecendo presos ao local onde o trabalho \u00e9 realizado.<\/p>\n<p>Isso significa representa\u00e7\u00e3o coletiva para trabalhadores de plataformas e aut\u00f4nomos economicamente dependentes, com direito \u00e0 desconex\u00e3o, a transpar\u00eancia dos algoritmos que distribuem tarefas, avaliam desempenho e determinam remunera\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m o direito social e trabalhista da prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria para trajet\u00f3rias descont\u00ednuas,portabilidade de direitos,\u00a0 negocia\u00e7\u00e3o coletiva nas plataformas e direitos sobre os dados produzidos pela pr\u00f3pria atividade laboral.<\/p>\n<h3>5.<\/h3>\n<p>Mas essa renova\u00e7\u00e3o ser\u00e1 incompleta se repetir o erro hist\u00f3rico da sociedade industrial e deixar o cuidado fora da quest\u00e3o trabalhista. Creches, escolas em tempo integral, atendimento \u00e0s pessoas idosas e com defici\u00eancia, sa\u00fade e servi\u00e7os comunit\u00e1rios precisam ser tratados tamb\u00e9m como infraestrutura econ\u00f4mica da sociedade de servi\u00e7os. Combater a desigualdade de g\u00eanero deixa de ser pauta lateral e passa ao centro da nova quest\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Durante s\u00e9culos, as mulheres viveram justamente na fronteira entre produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o, mercado e casa, trabalho pago e n\u00e3o pago. Por isso, sua experi\u00eancia hist\u00f3rica oferece uma chave privilegiada para compreender o futuro. H\u00e1 aqui, sobretudo, uma oportunidade de renova\u00e7\u00e3o para sindicatos e partidos progressistas. A desigualdade de g\u00eanero n\u00e3o pode continuar sendo tratada como cap\u00edtulo complementar da agenda trabalhista. Ela precisa participar da reconstru\u00e7\u00e3o dessa pr\u00f3pria agenda.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XX, a agenda progressista levou direitos ao mundo da produ\u00e7\u00e3o, com os sindicatos e partidos progressistas ajudando dissemin\u00e1-los para dentro da f\u00e1brica. No s\u00e9culo XXI, ele precisam faz\u00ea-los atravessar seus port\u00f5es e alcan\u00e7ar a casa, a rua, a plataforma, a nuvem e o algoritmo para incorpor\u00e1-los tamb\u00e9m \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>A sociedade industrial construiu direitos ao redor do emprego. A sociedade de servi\u00e7os hiperconectada precisa constru\u00ed-los ao redor de quem trabalha e de quem sustenta a vida. Essa parece ser a nova fronteira da igualdade de g\u00eanero, a nova quest\u00e3o social do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p><strong>*Marcio Pochmann<\/strong>,<em> professor titular de economia na Unicamp, \u00e9 o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica). Autor entre outros livros de<\/em> Novo sujeito coletivo: a governan\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es em tr\u00eas tempos do capitalismo no Brasil (<em>Editora da Unicamp<\/em>). [<a href=\"https:\/\/amzn.to\/40lMNWU\">https:\/\/amzn.to\/40lMNWU<\/a>]<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BRUSCHINI, Maria Cristina. <em>Trabalho das mulheres no Brasil: continuidades e mudan\u00e7as no per\u00edodo 1985-1995<\/em>. S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Carlos Chagas, 1998. (Textos FCC, n. 17).<\/p>\n<p>CAMPOS, F\u00e1bio; TEIXEIRA, Marilane Oliveira; CORDOVANO, Carlos. <em>As quest\u00f5es hist\u00f3ricas e estruturais do Brasil<\/em>. Campinas: Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, 2026. (Texto para Discuss\u00e3o, n. 501).<\/p>\n<p>FEDERICI, Silvia. <em>O ponto zero da revolu\u00e7\u00e3o: trabalho dom\u00e9stico, reprodu\u00e7\u00e3o e luta feminista<\/em>. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2019.<\/p>\n<p>GOLDIN, Claudia. <em>The U-shaped female labor force function in economic development and economic history. In<\/em>: SCHULTZ, T. Paul (ed.). <em><u>Investment in women\u2019s human capital and economic development<\/u><\/em><u>.<\/u> Chicago: University of Chicago Press, 1995. p. 61-90.<\/p>\n<p>ORGANIZA\u00c7\u00c3O INTERNACIONAL DO TRABALHO. <em>Working from home: from invisibility to decent work<\/em>. Geneva: International Labour Office, 2021.<\/p>\n<p>ORGANIZA\u00c7\u00c3O INTERNACIONAL DO TRABALHO. <em>World Employment and Social Outlook 2021: the role of digital labour platforms in transforming the world of work<\/em>. Geneva: International Labour Office, 2021.<\/p>\n<p>SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. <em>A mulher na sociedade de classes: mito e realidade<\/em>. 2. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1976.<\/p>\n<p>SOUZA-LOBO, Elisabeth. <em>A classe oper\u00e1ria tem dois sexos: trabalho, domina\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1991.<\/p>\n<p>Fonte: A nova quest\u00e3o social tem g\u00eanero &#8211; &#8211; Link da mat\u00e9ria: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-nova-questao-social-tem-genero\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARCIO POCHMANN* &#8211; A reconfigura\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica do trabalho dissolve as fronteiras entre produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o, exigindo que a prote\u00e7\u00e3o social incorpore a economia do cuidado e supere as exclus\u00f5es herdadas da industrializa\u00e7\u00e3o 1. \u00a0A hist\u00f3ria do trabalho feminino costuma ser contada como uma longa marcha de entrada das mulheres no mercado de trabalho. 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