{"id":25359,"date":"2026-09-05T12:41:00","date_gmt":"2026-09-05T15:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25359"},"modified":"2026-09-03T15:45:51","modified_gmt":"2026-09-03T18:45:51","slug":"um-fantasma-truculento-caotico-predador-ronda-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/09\/05\/um-fantasma-truculento-caotico-predador-ronda-o-mundo\/","title":{"rendered":"Um fantasma (truculento, ca\u00f3tico, predador) ronda o mundo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Cezar de Castro Rocha*<\/strong> &#8211; Leia trecho de &#8220;A era de Ricardo III&#8221;, de Jo\u00e3o Cezar de Castro Rocha, que trata do avan\u00e7o da extrema direita e do adoecimento que isso gera no planeta<\/p>\n<p>Um fantasma ronda n\u00e3o apenas a Europa, mas todo o mundo: o avan\u00e7o transnacional da extrema direita, cuja trucul\u00eancia, orgulhosa de sua explicitude, \u00e9 um desafio \u00e0 compreens\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo. A guerra cultural como m\u00e9todo e a desfa\u00e7atez como espelho: eis bem a defini\u00e7\u00e3o sucinta das mem\u00f3rias do subsolo do tempo presente. No segundo cap\u00edtulo, ampliarei o estudo da guerra cultural, mas, desde j\u00e1, ofere\u00e7o uma defini\u00e7\u00e3o deliberadamente telegr\u00e1fica: trata-se da mais poderosa m\u00e1quina de desinforma\u00e7\u00e3o jamais elaborada na hist\u00f3ria do Homo sapiens.<\/p>\n<p>(Paro por aqui: espero que tenha ficado curioso.)<\/p>\n<p>No Maio de 1968, os estudantes rebelados lan\u00e7avam m\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria para expressar seu descontentamento com os poderes estabelecidos. Numa explosiva mescla de marxismo e surrealismo, determinados mais uma vez a tomar o c\u00e9u de assalto, inscreviam nos muros de Paris, \u201cSoyez r\u00e9alistes, demandez l\u2019impossible\u201d [Sejam realistas, exijam o imposs\u00edvel]. Numa perversa invers\u00e3o de perspectiva, ali\u00e1s, uma das principais estrat\u00e9gias defendidas por Steve Bannon no seu exitoso receitu\u00e1rio do caos, a extrema direita adotou o lema, embora com os sinais invertidos.<\/p>\n<p>A sucess\u00e3o de silogismos improv\u00e1veis, que brota sem tr\u00e9gua de sua ret\u00f3rica vertiginosa, pretende forjar a realidade enquanto puro desassossego, como ocorre nas d\u00e9cadas iniciais do s\u00e9culo 21. Entropia como m\u00f3vel, destrui\u00e7\u00e3o como g\u00eanesis: o \u00f4mega literalmente se torna o alfa, o \u00faltimo desde sempre foi o primeiro \u2013 Apocalipse sem a justificativa do Anticristo, que n\u00e3o mais procura dissimular seus prop\u00f3sitos. A utopia de mundos outros e o desejo de formas in\u00e9ditas de subjetividade cederam lugar \u00e0 distopia da preda\u00e7\u00e3o suicida da natureza e da uberiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas do trabalho, mas tamb\u00e9m da vida, cuja precariza\u00e7\u00e3o mimetiza imprudentemente as condi\u00e7\u00f5es do planeta adoecido pela a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>(Antropoceno: conceito-sintoma da crise mais grave da forma-capitalismo, que discutiremos no primeiro cap\u00edtulo.)<\/p>\n<p><strong>A nega\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o (e da ruptura)<\/strong><\/p>\n<p>Num estudo cl\u00e1ssico sobre as vanguardas hist\u00f3ricas das d\u00e9cadas iniciais do s\u00e9culo 20, \u201cA teoria da vanguarda\u201d, Peter B\u00fcrger decodificou o procedimento que transformou a transgress\u00e3o em norma, num aut\u00eantico moto cont\u00ednuo acionado pela sucess\u00e3o de choques provocados como estrat\u00e9gia est\u00e9tica. Na express\u00e3o maliciosa de Octavio Paz, \u201cLa tradici\u00f3n de la ruptura implica no s\u00f3lo la negaci\u00f3n de la tradici\u00f3n sino tambi\u00e9n de la ruptura\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Entenda-se a ironia: se romper todas as regras vira a norma, j\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 um fundo est\u00e1vel contra o qual rebelar-se. B\u00fcrger identificou o paradoxo vingativo que selou a melancolia do futuro \u2013 justamente a dimens\u00e3o temporal em que se apostaram todas as fichas do movimento. O que as vanguardas conceberam como rebeldia, a ind\u00fastria cultural rapidamente converteu em mercadoria \u2013 a rima \u00e9 pobre, mas o resultado \u00e9 a mis\u00e9ria nossa de cada dia.<\/p>\n<p>Pensemos na domestica\u00e7\u00e3o da proposta mais revolucion\u00e1ria: fundir a tal ponto arte e vida que a pr\u00f3pria arte enquanto institui\u00e7\u00e3o, separada do cotidiano pelos muros de museus e pelas salas de aula das Escolas de Belas Artes, perderia sua raz\u00e3o de ser. O projeto se cumpriu, mas de ponta-cabe\u00e7a: na vis\u00e3o vanguardista, a est\u00e9tica da exist\u00eancia levaria \u00e0 plenitude da experi\u00eancia vital, tornada um palco inesperado de estranhamentos em s\u00e9rie.<\/p>\n<p>No mundo das redes sociais, em narc\u00edseas linhas do tempo de uma tediosa civiliza\u00e7\u00e3o da selfie, quanto maior o n\u00famero de postagens, mais esvaziado se encontra qualquer conte\u00fado potencialmente perturbador \u2013 o rumor n\u00e3o \u00e9 inimigo, por\u00e9m apenas indistinto. Pior: indiferente.<\/p>\n<p><strong>Seria esse fantasma tamb\u00e9m fruto de um modernismo reacion\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>(O insucesso das vanguardas hist\u00f3ricas antecipou a crise contempor\u00e2nea? A extrema direita \u00e9 uma muta\u00e7\u00e3o inesperada de um modernismo reacion\u00e1rio, definidora da ideologia reacion\u00e1ria de um Steve Bannon?)<\/p>\n<p>O mais inquietante \u00e9 o m\u00e9todo empregado pela extrema direita para chegar ao poder. N\u00e3o se trata da orat\u00f3ria b\u00e9lica na l\u00edngua certeira dos fuzis ou de argumentos intolerantes apoiados por tanques nas ruas. Numa atualiza\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria de \u00c9tienne de La Bo\u00e9tie, no universo digital surgiu uma forma nova de submiss\u00e3o coletiva. Ensaio escrito em 1548, quando o autor contava apenas 18 anos, o \u201cDiscurso sobre a servid\u00e3o volunt\u00e1ria\u201d foi motivado pela derrota pol\u00edtica do povo franc\u00eas, que foi obrigado a aceitar novos impostos, considerados injustos e por isso contestados, por\u00e9m sem sucesso.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o se imp\u00f4s: se o povo \u00e9 muito mais numeroso do que eventuais tiranos, por que a servid\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel? N\u00e3o bastaria o mero paralelo num\u00e9rico para desfavorecer governos autorit\u00e1rios, que perderiam sua sustenta\u00e7\u00e3o, por assim dizer, aritmeticamente? A hist\u00f3ria demonstra exatamente o oposto, e os exemplos de tirania se multiplicam em \u00e9pocas distantes e em culturas as mais distintas \u2013 de Nero a Trump, de \u00c1tila a Bukele, de Cal\u00edgula a Milei. Haveria causas estruturais para dar conta dessa recorr\u00eancia? La Bo\u00e9tie identificou tr\u00eas motivos; concentro-me no terceiro, pois ele abre caminho para uma ponte inesperada entre o s\u00e9culo 16 e os dias atuais. A passagem-colagem que proponho \u00e9 iluminadora:<\/p>\n<p>Chego agora a um ponto que, na minha opini\u00e3o, \u00e9 a fonte principal e o segredo da domina\u00e7\u00e3o, o apoio e o fundamento de toda a tirania. [\u2026]<\/p>\n<p>[\u2026] n\u00e3o s\u00e3o as armas que defendem um tirano, mas sempre [\u2026] quatro ou cinco homens que o apoiam e que sujeitam o pa\u00eds inteiro. Sempre foi assim: cinco ou seis [\u2026].<\/p>\n<p>Os seis t\u00eam a seu servi\u00e7o seiscentos, que s\u00e3o corrompidos tanto quanto \u00e9 o tirano. Desses seiscentos dependem seis mil [\u2026].<\/p>\n<p>Grande \u00e9 o que vem depois. E quem quiser desenrolar o fio ver\u00e1 que, n\u00e3o seis mil, mas cem mil, e milh\u00f5es se apegam ao tirano por essa corrente ininterrupta que o solda e prende.<\/p>\n<p>Esquema Ponzi muito avant la lettre, a tirania \u00e9 um mecanismo que aciona o cont\u00e1gio mim\u00e9tico do poder pelos benef\u00edcios prometidos a seus c\u00famplices \u2013 como o Ricardo III shakespeariano fez com o Duque de Buckingham; como os l\u00edderes autocr\u00e1ticos da extrema direita repetem com a comercializa\u00e7\u00e3o infinita da ret\u00f3rica do \u00f3dio. Pir\u00e2mide autorit\u00e1ria que recorda o modelo de monetiza\u00e7\u00e3o de um produto de nicho que domina as redes sociais: a radicaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O alcance in\u00e9dito proporcionado pelo universo digital dessa corrente ininterrupta \u00e9 potencializado ao m\u00e1ximo pelas grandes plataformas que descobriram no ressentimento a forma de uma mercadoria que literalmente solda e prende centenas de milh\u00f5es de pessoas ao redor do globo. A explora\u00e7\u00e3o do v\u00edcio em dopamina barata, propiciada pela escalada aos extremos da viol\u00eancia simb\u00f3lica, foi importada da economia digital para o terreno da pol\u00edtica, e seus efeitos s\u00e3o desastrosos para a ordem democr\u00e1tica em todo o mundo.<\/p>\n<p>Panorama sombrio que exige reformular o c\u00e1lculo do qual partimos. Nessa cadeia de interesses, \u201caqueles a quem a tirania parece proveitosa s\u00e3o quase t\u00e3o numerosos quanto aqueles a quem a liberdade agradaria\u201d.<\/p>\n<p>Os exemplos s\u00e3o legi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Monetiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Donald J. Trump realizou a proeza de transformar sua derrota eleitoral em 2020 numa m\u00e1quina de fazer dinheiro: um pouco mais de 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares em aproximadamente 60 dias! O artif\u00edcio foi simpl\u00f3rio: o presidente derrotado iniciou uma campanha de arrecada\u00e7\u00e3o de fundos para melhor contestar o resultado das urnas; afinal, sem recursos, como insuflar a milit\u00e2ncia \u201cto fight like hell\u201d [a lutar com todas as for\u00e7as]? No Brasil, em chave modesta, quase ao r\u00e9s do ch\u00e3o, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro recebeu 17,2 milh\u00f5es de reais em doa\u00e7\u00f5es ap\u00f3s seu insucesso eleitoral. N\u00e3o satisfeito, lan\u00e7ou uma s\u00e9rie de produtos da \u201cFranquia Bolsonaro\u201d, incluindo um calend\u00e1rio com fotos do ex-presidente.<\/p>\n<p>(Meton\u00edmia involunt\u00e1ria: assim funcionam as pir\u00e2mides financeiras: o tempo da malandragem sempre se esgota e adv\u00e9m o colapso.)<\/p>\n<p>Na Argentina, em fevereiro de 2025, o presidente em exerc\u00edcio, Javier Milei, envolveu-se num neg\u00f3cio nebuloso no lan\u00e7amento de uma criptomoeda, $LIBRA, que se revelou uma fraude grosseira. Crime financeiro que estampa as digitais de um presidente, numa met\u00e1fora selvagem da \u201cservid\u00e3o volunt\u00e1ria\u201d dos milh\u00f5es de apoiadores da extrema direita. Em Nova York, iniciou-se um processo judicial que inclui o nome de Milei num caso de estelionato envolvendo a criptomoeda que promoveu em suas redes sociais.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera de assumir seu novo mandato, Donald e Melania Trump tamb\u00e9m lan\u00e7aram suas criptomoedas, como se n\u00e3o fosse poss\u00edvel resistir \u00e0s afinidades eletivas entre a forma-capitalismo e as pir\u00e2mides financeiras.<\/p>\n<p>Em tal horizonte, que constrange pela expans\u00e3o do cont\u00e1gio mim\u00e9tico, pol\u00edticos como Viktor Orb\u00e1n, Donald J. Trump, Giorgia Meloni, Jair Messias Bolsonaro, Javier Milei, Marine Le Pen e Nayib Bukele aprenderam a conquistar cora\u00e7\u00f5es e mentes, sobretudo das gera\u00e7\u00f5es mais jovens \u2013 os deserdados de futuro do neoliberalismo predador do s\u00e9culo 21. Desse modo, vencem elei\u00e7\u00f5es livres e democr\u00e1ticas e, uma vez empossados, tornam-se arquitetos de uma engenharia institucional monotem\u00e1tica, cujo objetivo \u00e9 a corros\u00e3o interna da democracia que os elegeu. Bem-sucedidos, perpetuam-se no cargo e, passo a passo, convertem seus pa\u00edses em maldisfar\u00e7adas autocracias.<\/p>\n<p>(Numa manh\u00e3, ao despertarmos de sonhos intranquilos, nos demos conta de que deixamos de viver numa democracia. E nem \u00e9 preciso que tenhamos sido caluniados, pois o ritmo desse processo \u00e9 definido por m\u00faltiplas metamorfoses.)<\/p>\n<p>Um personagem shakespeariano permite decifrar a Esfinge da extrema direita, que, embora vencida, segue devorando seus advers\u00e1rios. Entra em cena uma inova\u00e7\u00e3o ousada do teatro elisabetano, o Duque de Gloucester. No papel in\u00e9dito do vil\u00e3o que n\u00e3o oculta seus prop\u00f3sitos, antes ostenta seu repert\u00f3rio de vilanias com destemor, o futuro rei Ricardo III anuncia orgulhosamente o papel que assumir\u00e1 em sua ascens\u00e3o mete\u00f3rica: \u201cI am determined to prove a villain\u201d [Estou decidido a provar-me um vil\u00e3o]. Fala emblem\u00e1tica da primeira cena do primeiro ato \u2013 momento inaugural. Cena de origem do s\u00e9culo 21? Arqueologia impensada do presente?<\/p>\n<p>Em seu caminho ao centro do poder, o homem \u201ccheated of feature by dissembling nature, \/ Deformed, unfinished, sent before my time\u201d anuncia as desfa\u00e7atezes de que ser\u00e1 capaz e, ainda assim, triunfa. Estamos longe da forma-Iago, ou seja, do vil\u00e3o dissimulado, pois, at\u00e9 o final da pe\u00e7a, Iago \u00e9 visto por todos como virtuoso e leal. O equ\u00edvoco do outro \u00e9 urdido no ardil e na sutileza do prestidigitador da boa-f\u00e9 alheia. No mundo contempor\u00e2neo, um tipo oposto virou protagonista do espet\u00e1culo da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Estamos no universo da forma-Ricardo III, que se regozija com as maldades que planeja, goza com a perspectiva da anarquia que precisa instaurar para sentar-se no trono. Arquiteta crueldades e assassinatos como quem participa de banquete em sua homenagem. Mais ou menos como se tornar senhor da guerra para sequestrar o Pr\u00eamio Nobel da Paz.<\/p>\n<p>(E nem assim o vil\u00e3o deixa de abrir seu meticuloso livro do desassossego, embora permane\u00e7a pouco tempo no poder. Pelo menos o Ricardo III shakespeariano. S\u00f3 ele?)<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o Duque de Gloucester vence pelo a\u00e7o de sua espada. A seguir, conquista pela promessa de poder que associa a suas a\u00e7\u00f5es violentas. Recusar o papel de c\u00famplice poderia levar \u00e0 escrita precoce do pr\u00f3prio epit\u00e1fio. Com base nessa ret\u00f3rica particularmente persuasiva, o futuro rei pavimenta o acidentado rumo que o conduzir\u00e1 ao trono. No entanto, o que dizer de Trump e tutti quanti que, embora adeptos da vilania-ostenta\u00e7\u00e3o \u201cbiltre\u201d precisamente para sublinhar a novidade do texto shakespeariano de Ricardo III, dependem do apoio indispens\u00e1vel de futuras v\u00edtimas, os eleitores, inegavelmente seduzidos pela revela\u00e7\u00e3o de prop\u00f3sitos que costumavam permanecer ocultos?<\/p>\n<p>(Voc\u00ea se recorda: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada encoberto que n\u00e3o venha a ser revelado, nem oculto que n\u00e3o venha a ser conhecido\u201d.17)<\/p>\n<p>Entra em jogo a atra\u00e7\u00e3o fatal da servid\u00e3o volunt\u00e1ria, aprofundada pelo narrador an\u00f4nimo de \u201cMem\u00f3rias do subsolo\u201d. Ressentido no limite da insensatez, ele desenvolve aqui e ali reflex\u00f5es de lucidez desconcertante. Uma quest\u00e3o move sua escrita: como entender que, na maior parte das vezes, escolhemos o que nos prejudicar\u00e1? Como aceitar que milh\u00f5es de eleitores optem por caminhos que se bifurcam, mas que convergem nos malef\u00edcios que lhes causar\u00e3o? Como calcular essa aritm\u00e9tica pouco precisa que apreende o movimento da sociedade com a arg\u00facia que parece faltar \u00e0s explica\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas e filos\u00f3ficas?<\/p>\n<p>Nas palavras do narrador: \u201cE se acontecer que, em certos casos, o lucro para o ser humano n\u00e3o apenas pode como at\u00e9 deve consistir, justamente, alguma vez, em desejar para si algo ruim e n\u00e3o vantajoso?\u201d. A resposta para essa quest\u00e3o articula dois fatores que lan\u00e7am luz sobre os desafios do presente.<\/p>\n<p>O personagem que emerge daquele prazer masoquista \u00e9 antes de tudo um personagem coletivo, fruto do cont\u00e1gio que molda a psicologia das massas e conforma o tem\u00edvel eu-n\u00f3s-mesmos, sempre disposto a combater a promessa do eu-n\u00f3s-outros. Ao mesmo tempo, esse personagem-legi\u00e3o, visto sob um prisma positivo, recusa a redu\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo a um simples logaritmo. Sim, essa \u00e9 a palavra a que Dostoi\u00e9vski recorre, e, ao ler a novela, a leitora talvez acredite ter lido algoritmo.<\/p>\n<p>(Numa cr\u00f4nica de Machado de Assis sobre o censo de 1872, um enigm\u00e1tico \u201csenhor algarismo\u201d assume papel decisivo. Viva o anacronismo!)<\/p>\n<p><strong>A imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria como alternativa<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 se deu conta do que proponho neste ensaio. Diante da perplexidade causada pelos dilemas contempor\u00e2neos, arrisco a hip\u00f3tese que nos ocupar\u00e1 nas pr\u00f3ximas p\u00e1ginas: a imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria oferece uma alternativa \u00fanica para inteligirmos o que de outra forma nos escapa. No fundo, estamos todos convocados ao papel de pequenos \u00c9dipos do cotidiano que desentendemos.<\/p>\n<p>De Corinto a Tebas a travessia \u00e9 perigosa, por\u00e9m promissora: abra\u00e7a o planeta. O dilema da Esfinge tornou-se nosso presente, cifrado nos arcanos da guerra cultural, cuja insensatez parece ser a raz\u00e3o direta de seu \u00eaxito perturbador.<\/p>\n<p>(Como cogitar o xeque-mate sem antes montar todas as pe\u00e7as no tabuleiro?)<\/p>\n<p>*Cap\u00edtulo de apresenta\u00e7\u00e3o de \u201cA era de Ricardo III \u2013 Guerra cultural como m\u00e9todo\u201d, mais recente livro do historiador, ensa\u00edsta e professor de literatura comparada da Uerj Jo\u00e3o Cezar de Castro Rocha, que acaba de ser publicado pela editora Aut\u00eantica. Aqui, o texto foi levemente adaptado para se adequar aos padr\u00f5es do Amado Mundo, com, por exemplo, intert\u00edtulos que n\u00e3o constam da edi\u00e7\u00e3o nas livrarias e pequenas altera\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>Fonte: Um fantasma (truculento, ca\u00f3tico, predador) ronda o mundo &#8211; Link da mat\u00e9ria: https:\/\/amadomundo.com\/ricardo-iii-joao-cezar-guerra-cultural-fantasma\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Cezar de Castro Rocha* &#8211; Leia trecho de &#8220;A era de Ricardo III&#8221;, de Jo\u00e3o Cezar de Castro Rocha, que trata do avan\u00e7o da extrema direita e do adoecimento que isso gera no planeta Um fantasma ronda n\u00e3o apenas a Europa, mas todo o mundo: o avan\u00e7o transnacional da extrema direita, cuja trucul\u00eancia, orgulhosa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":25360,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1,3],"tags":[71,17],"class_list":["post-25359","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geografia","category-internacional","tag-geopolitica","tag-trump"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.4 - 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