{"id":25341,"date":"2026-08-26T12:43:10","date_gmt":"2026-08-26T15:43:10","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25341"},"modified":"2026-08-24T14:48:34","modified_gmt":"2026-08-24T17:48:34","slug":"joao-adolfo-hansen-viagem-pelas-letras-brasileiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/08\/26\/joao-adolfo-hansen-viagem-pelas-letras-brasileiras\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Adolfo Hansen: Viagem pelas letras brasileiras"},"content":{"rendered":"<p><strong>L\u00e9o Ramos Chaves<\/strong> &#8211; Especialista trouxe importantes colabora\u00e7\u00f5es ao estudo da poesia colonial, sem, contudo, deixar de olhar para per\u00edodos como o modernismo.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, ao mergulhar na obra atribu\u00edda ao poeta baiano Greg\u00f3rio de Matos (1636-1696), o paulista Jo\u00e3o Adolfo Hansen contribuiu para iluminar a produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica do per\u00edodo colonial, aportando novas formas para sua compreens\u00e3o. Entre outros expedientes, lan\u00e7ou m\u00e3o da ret\u00f3rica e da hist\u00f3ria para tentar entender o que diziam aquelas vozes do passado. Tamb\u00e9m argumentou contra a ideia de que Matos, conhecido pela alcunha de \u201cBoca do Inferno\u201d, fosse revolucion\u00e1rio e libert\u00e1rio. De acordo com o estudioso, embora provocasse os poderosos da \u00e9poca com suas s\u00e1tiras obscenas, o poeta n\u00e3o buscava romper com o regime mon\u00e1rquico e a Igreja Cat\u00f3lica, pois, como integrante da elite, compartilhava de seus valores.<\/p>\n<p>Essas conclus\u00f5es est\u00e3o em\u00a0<em>A s\u00e1tira e o engenho: Greg\u00f3rio de Matos e a Bahia do s\u00e9culo XVII<\/em>, tese de doutorado em literatura brasileira defendida por Hansen em 1988 na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Publicada no ano seguinte pela Companhia das Letras, a obra hom\u00f4nima foi agraciada com o Pr\u00eamio Jabuti, na categoria Estudos Liter\u00e1rios, em 1990. Mais tarde, em 2004 foi relan\u00e7ada pela Editora Unicamp.<\/p>\n<p>Graduado em letras, Hansen foi professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP por quase tr\u00eas d\u00e9cadas, entre 1983 e 2012, quando se aposentou. Em 2021, tornou-se professor em\u00e9rito da FFLCH. Recentemente parte de sua produ\u00e7\u00e3o foi reunida em\u00a0<em>Agudezas seiscentistas e outros ensaios<\/em>\u00a0(Edusp, 2019), compila\u00e7\u00e3o de 14 artigos sobre as letras luso-brasileiras entre os s\u00e9culos XVI e XVIII. Os estudos de Hansen, por\u00e9m, n\u00e3o se at\u00eam ao per\u00edodo colonial. Prova disso est\u00e1 no segundo volume da colet\u00e2nea que vem sendo preparado pelas mesmas organizadoras do primeiro, Cilaine Alves Cunha, da FFLCH, e Mayra Laudanna, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP). Previsto para ser lan\u00e7ado no ano que vem, ter\u00e3o foco em seus escritos sobre a literatura brasileira dos s\u00e9culos XIX e XX autores como Machado de Assis (1839-1908) e Clarice Lispector (1920-1977).<\/p>\n<p>Com o bom humor que o caracteriza, Hansen recebeu a reportagem de\u00a0<em>Pesquisa FAPESP<\/em>\u00a0no apartamento onde vive no bairro de Pinheiros, em S\u00e3o Paulo, com a mulher, Marta Maria Chagas de Carvalho, professora aposentada da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP. Hansen tem quatro filhos e cinco netos. Na entrevista a seguir fala, entre outras coisas, do apre\u00e7o pela sala de aula, pela leitura e pela pesquisa.<\/p>\n<p><strong>Desde quando o senhor leciona?<\/strong><br \/>\nNa d\u00e9cada de 1960 cursei letras na PUC [Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica] de Campinas, mas morava em Americana. Ia e voltava todos os dias de \u00f4nibus. Durante a gradua\u00e7\u00e3o j\u00e1 era professor particular de l\u00edngua portuguesa no interior de S\u00e3o Paulo. Com o dinheiro que ganhava das aulas vinha \u00e0 capital umas duas vezes por m\u00eas. Ficava hospedado na \u201cRep\u00fablica da Bulg\u00e1ria\u201d, apelido do apartamento onde moravam uns amigos de Americana, localizado na avenida S\u00e3o Jo\u00e3o. Era uma bagun\u00e7a. Em S\u00e3o Paulo, adorava ir \u00e0s livrarias Parthenon e Francesa, na rua Bar\u00e3o de Itapetininga, e costumava voltar para Americana com a mala cheia de livros.<\/p>\n<p><strong>Sempre gostou de ler?<\/strong><br \/>\nSim. Meu pai, Jo\u00e3o Alfredo, era um grande leitor, embora tivesse apenas cursado o que hoje seria o ensino fundamental I. Eu nasci em Cosm\u00f3polis, interior de S\u00e3o Paulo, em 1942. Quando tinha 2 anos, minha fam\u00edlia mudou-se porque meu pai conseguiu trabalho como t\u00e9cnico de tecelagem na f\u00e1brica do irm\u00e3o mais velho, em Americana. Nas horas vagas ele gostava de pescar e comprar livros. Cresci lendo Carlos Drummond de Andrade [1902-1987], Machado de Assis, Clarice Lispector, Graciliano Ramos [1892-1953], Dostoi\u00e9vski [1821-1881]. Muita coisa era da biblioteca do meu pai. No meu caso, al\u00e9m dos livros, sempre adorei plantas e animais. Tanto que quase cursei agronomia, mas acabei desistindo por causa da biologia e da qu\u00edmica, disciplinas que at\u00e9 ia bem na escola, mas n\u00e3o despertavam meu interesse. Achava aquilo muito chato.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-439308 size-full c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/020-025_entrev-hansen_316-2-1140.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/020-025_entrev-hansen_316-2-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/020-025_entrev-hansen_316-2-1140-250x171.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/020-025_entrev-hansen_316-2-1140-700x478.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/020-025_entrev-hansen_316-2-1140-120x82.jpg 120w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><em>Com a historiadora francesa Anne-Marie Chartier em Paris, na d\u00e9cada de 1990<\/em><br \/>\n<strong>Retomando seu in\u00edcio de carreira: como foi o come\u00e7o de sua trajet\u00f3ria como professor?<\/strong><br \/>\nEm 1964 terminei o curso de letras anglo-germ\u00e2nicas decidido a trabalhar no ensino p\u00fablico. Achava que havia, e, claro, ainda h\u00e1, muito a se fazer pela educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica do pa\u00eds. Na \u00e9poca, minha professora de latim no ensino b\u00e1sico se aposentou. E eu, aos 22 anos, com a cara e a coragem, me candidatei para ser seu substituto no curso cl\u00e1ssico no Instituto de Educa\u00e7\u00e3o Presidente Kennedy, em Americana. Fui aceito e fiquei nessa escola p\u00fablica entre 1964 e 1966. No fim daquele ano prestei concurso e me tornei professor efetivo de portugu\u00eas da rede estadual paulista. A partir de mar\u00e7o de 1968, quando assumi o cargo, passei por Pindamonhangaba [1968-69], Po\u00e1 [1969] e Santo Andr\u00e9 [1970-1977], cidades do estado de S\u00e3o Paulo. Era o momento p\u00f3s-AI5, com agentes da pol\u00edcia infiltrados em sala de aula, disfar\u00e7ados de alunos. Caso dissesse algo que esses espi\u00f5es considerassem subversivo, o professor era denunciado e seguia para interrogat\u00f3rio no Dops [Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social].<\/p>\n<p><strong>O senhor chegou a ser preso durante a ditadura militar (1964-1985)?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, mas sofri amea\u00e7a. Havia um aluno do curso noturno do terceiro colegial, em Santo Andr\u00e9, que sempre se sentava no fundo da sala e anotava tudo. Um dia ele se apresentou como agente do Dops e disse algo assim: \u201cO senhor ensina muito bem, mas tamb\u00e9m diz coisas comprometedoras. Por muito menos, j\u00e1 prendi gente. Tenho um parceiro que quer denunci\u00e1-lo e o senhor pode ser preso a qualquer momento. Tome cuidado\u201d. Felizmente nada aconteceu comigo, mas colegas e amigos foram presos. Alguns desapareceram.<\/p>\n<p><strong>Quando entrou na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEm 1968 ingressei no mestrado em lingu\u00edstica na USP sob orienta\u00e7\u00e3o do professor Isaac Nicolau Salum [1913-1993]. Mas logo abandonei a pesquisa, que estava em uma fase muito embrion\u00e1ria, porque n\u00e3o consegui conciliar trabalho e estudo. Em 1975 retornei \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da USP, dessa vez para a \u00e1rea de literatura brasileira. Durante a disciplina do professor Jos\u00e9 Carlos Garbuglio sobre\u00a0<em>Grande sert\u00e3o: Veredas<\/em>\u00a0escolhi Guimar\u00e3es Rosa [1908-1967] como tema de pesquisa. Eu lia o Rosa desde a adolesc\u00eancia e sempre admirei sua generosidade com aqueles que n\u00e3o t\u00eam voz. Comecei a escrever a disserta\u00e7\u00e3o em 1977, mas a engavetei dois anos depois para trabalhar em cursinhos pr\u00e9-vestibulares e numa faculdade particular como professor de lingu\u00edstica e literatura brasileira. Por fim, em 1982 retomei a escrita. No ano seguinte defendi o trabalho, por press\u00e3o do meu orientador, prestei concurso e me tornei, aos 41 anos, professor de literatura brasileira na USP.<\/p>\n<p><strong>Na disserta\u00e7\u00e3o, o senhor defende que\u00a0<em>Grande sert\u00e3o: Veredas<\/em>\u00a0seria uma esp\u00e9cie de \u201c<em>Macuna\u00edma a s\u00e9rio<\/em>\u201d. O que quis dizer com isso?<\/strong><br \/>\nEm\u00a0<em>Macuna\u00edma<\/em>, M\u00e1rio de Andrade [1893-1945] discute de forma ir\u00f4nica, par\u00f3dica e at\u00e9 mesmo carnavalesca v\u00e1rias teorias sobre a forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter nacional. Obviamente, ele n\u00e3o se referia a \u201ccar\u00e1ter\u201d no sentido de \u201c\u00e9tica\u201d, como se\u00a0<em>Macuna\u00edma<\/em>\u00a0fosse um her\u00f3i sem nenhuma moral. M\u00e1rio est\u00e1 pensando em algo mais profundo, sobre qual seria o\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0cultural do her\u00f3i brasileiro, que \u00e9 africano, ind\u00edgena e europeu. Ele defende a cria\u00e7\u00e3o de uma literatura moderna e inventiva, mas sem o car\u00e1ter nacionalista. E Guimar\u00e3es Rosa radicaliza essa ideia. Seu projeto \u00e9 dar voz \u00e0s linguagens que constituem o Brasil desde o s\u00e9culo XVI, mas trata de dissolv\u00ea-las em um grande v\u00f3rtex, em um grande redemoinho, que nos sugere veredas, pequenos caminhos, rumo a formas que ainda v\u00e3o ser produzidas.\u00a0<em>Grande sert\u00e3o: Veredas<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um puro exerc\u00edcio metalingu\u00edstico p\u00f3s-moderno, concretista, formalista. \u00c9 uma coisa muito maior. Rosa tinha um projeto lingu\u00edstico-liter\u00e1rio e tamb\u00e9m metaf\u00edsico, que era a ideia de fundar uma literatura, fundar um povo, fundar um Brasil. Mas faz isso sem lan\u00e7ar m\u00e3o da par\u00f3dia presente em<em>\u00a0Macuna\u00edma<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Em seu doutorado o senhor estudou o poeta Greg\u00f3rio de Matos. Quem foi ele?<\/strong><br \/>\nGreg\u00f3rio de Matos nasceu na primeira metade do s\u00e9culo XVII, em Salvador, ent\u00e3o centro da vida administrativa e jur\u00eddica da Col\u00f4nia. Era filho de m\u00e3e brasileira e de um fidalgo portugu\u00eas que se tornou senhor de engenho no Rec\u00f4ncavo Baiano. Sua fam\u00edlia era influente e pr\u00f3xima da fam\u00edlia do padre Ant\u00f4nio Vieira [1608-1697]. Por volta dos 14 anos ele foi enviado para Portugal e, como todo menino rico da \u00e9poca, se formou em direito can\u00f4nico na Universidade de Coimbra, em 1661. Por sinal, o \u00fanico local em que se pode ver sua assinatura \u00e9 no livro de matr\u00edculas dessa institui\u00e7\u00e3o. Embora n\u00e3o se saiba muito sobre sua vida, acredita-se que ele tenha chegado a se casar e trabalhar como juiz de direito em Portugal. H\u00e1 quem diga que ditava as senten\u00e7as dos processos em versos.<\/p>\n<blockquote><p>Fui ser professor da rede estadual paulista no momento p\u00f3s-AI5, com agentes da pol\u00edcia infiltrados em sala de aula<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Quando voltou ao Brasil?<\/strong><br \/>\nEm 1682 Greg\u00f3rio foi nomeado pelo rei portugu\u00eas para ocupar um cargo eclesi\u00e1stico em uma igreja de Salvador, mas, ao descobrir que precisaria fazer voto de castidade, desistiu. Abriu uma banca de advocacia em Salvador, casou-se pela segunda vez e teve um filho, Gon\u00e7alo. N\u00e3o se sabe por que, em 1684, ele se despiu das roupas de fidalgo, vestiu um camisol\u00e3o e passou a andar pelo Rec\u00f4ncavo Baiano acompanhado de um grupo de saltimbancos e prostitutas. Tocando uma viola de caba\u00e7a, passou a apresentar nos engenhos poesia sat\u00edrica, muito obscena, pornogr\u00e1fica, o que lhe rendeu o apelido Boca do Inferno. Em 1694 ele foi degredado para Angola. Dois anos depois, de volta ao Brasil, fixou-se em Recife, onde morreu em 26 de novembro de 1696, sendo enterrado em um convento que foi demolido no s\u00e9culo XVIII. Nada sobrou dele, al\u00e9m de sua poesia.<\/p>\n<p><strong>E como era sua poesia? Sobre o que ele escreveu?<\/strong><br \/>\n\u00c9 atribu\u00eddo a Greg\u00f3rio um conjunto muito grande de manuscritos de poesia, tanto l\u00edrica, com tem\u00e1tica amorosa ou religiosa, quanto c\u00f4mica na variante da s\u00e1tira. A s\u00e1tira \u00e9 um g\u00eanero nascido na Roma Antiga que se caracteriza pelo vitup\u00e9rio, pelo xingamento, pela desqualifica\u00e7\u00e3o do tipo que se ataca. Para tanto, lan\u00e7a m\u00e3o de uma linguagem obscena, mas \u00e9 extremamente moralista. Como dizia o pr\u00f3prio Greg\u00f3rio de Matos, ela fere para curar. Essa vertente da produ\u00e7\u00e3o dele, que \u00e9, por sinal, muito sarc\u00e1stica, foi o foco da minha pesquisa. Como um todo, a obra atribu\u00edda a Greg\u00f3rio d\u00e1 conta de temas do estado da Bahia. Simultaneamente, ele p\u00f5e em circula\u00e7\u00e3o v\u00e1rias refer\u00eancias culturais europeias contempor\u00e2neas do s\u00e9culo XVII, que cita o tempo todo, bem como utiliza padr\u00f5es po\u00e9ticos antigos, tanto l\u00edricos quanto c\u00f4micos.<\/p>\n<p><strong>O senhor usou o termo \u201catribu\u00eddo\u201d. Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nGreg\u00f3rio de Matos n\u00e3o publicou nada em vida, de forma impressa. No s\u00e9culo XVII, al\u00e9m de a circula\u00e7\u00e3o de material impresso ser proibida na Col\u00f4nia, a maior parte da popula\u00e7\u00e3o era analfabeta. A s\u00e1tira era escrita em folhas avulsas de papel de tamanhos diversos, que costumavam ser pregadas de madrugada, com cola de mandioca, na porta das igrejas. Depois, algu\u00e9m que sabia ler declamava os versos em voz alta para um p\u00fablico iletrado e, como eram facilmente memoriz\u00e1veis, acabavam inspirando outros poemas de terceiros. Na \u00e9poca, essa pr\u00e1tica produziu uma grande quantidade de poemas que circulava de forma an\u00f4nima. Havia quem colecionasse esses manuscritos, que eram ent\u00e3o costurados e formavam cadernos, chamados de c\u00f3dices. Vale dizer que essa produ\u00e7\u00e3o, reunida sem crit\u00e9rios normativos, inclui textos de autoria duvidosa, e, no caso de Greg\u00f3rio, n\u00e3o se encontra nenhum poema que seja id\u00eantico nos diferentes c\u00f3dices existentes produzidos entre os s\u00e9culos XVII e XVIII. Esses c\u00f3dices est\u00e3o no Brasil, mas tamb\u00e9m nos Estados Unidos, Espanha, Fran\u00e7a, Portugal. Em raz\u00e3o da grande quantidade de poemas, mais de 700, \u00e9 dif\u00edcil supor que todos foram escritos por ele.<\/p>\n<p><strong>Essa incerteza em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoria n\u00e3o o incomodou na hora de fazer a pesquisa?<\/strong><br \/>\nAcredito que podemos ler esses res\u00edduos como documentos de pr\u00e1ticas simb\u00f3licas de uma sociedade colonial e n\u00e3o apenas de um indiv\u00edduo. Ou seja, meu foco sempre foi a produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a pessoa Greg\u00f3rio de Matos. Quando comecei a pesquisa deixei de lado tudo o que se falava sobre ele, que era tarado, alco\u00f3latra, doente mental, revolucion\u00e1rio, libert\u00e1rio, por exemplo. Essas hist\u00f3rias come\u00e7aram a ser contadas no s\u00e9culo XVIII e ao longo desse tempo chegou-se, inclusive, a criar uma rela\u00e7\u00e3o entre a biografia e a obra, o que \u00e9 uma bobagem.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-439304 size-full c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/020-025_entrev-hansen_316-1-1140.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/020-025_entrev-hansen_316-1-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/020-025_entrev-hansen_316-1-1140-250x169.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/020-025_entrev-hansen_316-1-1140-700x474.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/020-025_entrev-hansen_316-1-1140-120x81.jpg 120w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><em>Ao lado do historiador brit\u00e2nico Peter Burke, de quem se tornou amigo nos anos 1980<\/em><br \/>\n<strong>Quais desafios enfrentou durante a pesquisa?<\/strong><br \/>\nQuando comecei o trabalho, tamb\u00e9m orientado pelo professor Garbuglio, sabia muito pouco sobre a produ\u00e7\u00e3o atribu\u00edda a Greg\u00f3rio de Matos. Na tese, investigo basicamente a rela\u00e7\u00e3o entre sua poesia sat\u00edrica e a sociedade baiana e portuguesa no mundo colonial da cana-de-a\u00e7\u00facar. E busquei fazer isso ao cotejar essa produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica com tratados de ret\u00f3rica da \u00e9poca e documentos hist\u00f3ricos. Entre eles, est\u00e3o as dela\u00e7\u00f5es de pecados e heresias ao Santo Of\u00edcio, bra\u00e7o da Inquisi\u00e7\u00e3o que atuou na Bahia nos s\u00e9culos XVI e XVII. Como mostro na tese, a s\u00e1tira seiscentista tem muita afinidade com as t\u00e9cnicas inquisitoriais cat\u00f3licas, sobretudo ao acusar pecados. A s\u00e1tira pressup\u00f5e um sistema de virtudes que est\u00e3o sendo corrompidas por pr\u00e1ticas viciosas. No caso, a ideia \u00e9 censurar o v\u00edcio para reafirmar a virtude. Outros documentos decisivos para a an\u00e1lise da s\u00e1tira foram as atas da C\u00e2mara e Cartas do Senado, que localizei no Arquivo Municipal de Salvador, pois tratam de personagens e eventos que, em geral, aparecem nos poemas. Levantar essa documenta\u00e7\u00e3o foi um desafio, bem como encontrar no Brasil bibliografia que desse conta do escopo da pesquisa. N\u00e3o podemos esquecer que fiz a pesquisa em um mundo anal\u00f3gico. Hoje, textos de \u00e9poca sobre ret\u00f3rica como\u00a0<em>Arte dello stile, ove nel cercarsi l\u2019idea dello scrivere insegnativo<\/em>\u00a0[1647], de Sforza Pallavicino [1607-1667], est\u00e3o dispon\u00edveis na internet, mas na d\u00e9cada de 1980 consegui ter acesso a apenas alguns trechos numa antologia italiana.<\/p>\n<p><strong>Como driblou o problema?<\/strong><br \/>\nFoi um trabalho minucioso. Garimpei livros em sebos e bibliotecas p\u00fablicas de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife. Encomendei a amigos que viajavam ao exterior os principais tratados de ret\u00f3rica antiga escritos por preceptistas como Lodovico Castelvetro [c. 1505-1571], Baltasar Graci\u00e1n [1601-1658] e Francisco Leit\u00e3o Ferreira [1667-1735] que circularam na pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e nas col\u00f4nias portuguesas e espanholas nos s\u00e9culos XVII e XVIII. Essa produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia sido editada e estava dispon\u00edvel em livrarias na Europa. Em 1987, quando come\u00e7ava a reda\u00e7\u00e3o da tese, localizei na se\u00e7\u00e3o de livros raros da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, uma edi\u00e7\u00e3o de Il cannocchiale aristotelico, ou, em livre tradu\u00e7\u00e3o,\u00a0<em>Telesc\u00f3pio aristot\u00e9lico<\/em>, escrito em 1654 pelo jesu\u00edta e conde Emanuele Tesauro [1592-1675]. O exemplar que pesquisei era de 1685 e pertenceu ao acad\u00eamico portugu\u00eas Francisco Leit\u00e3o Ferreira [1667-1735] e tamb\u00e9m integrou o acervo da biblioteca de dom Jo\u00e3o VI [1767-1826]. Essa obra, que sistematizou conceitos ret\u00f3ricos, foi fundamental para que eu entendesse a s\u00e1tira daquele per\u00edodo. Lembro que os funcion\u00e1rios da biblioteca me emprestaram uma lupa para que pudesse ler aquele catatau com mais de 900 p\u00e1ginas. Se n\u00e3o bastasse a dificuldade de decifrar o italiano arcaico, parte do miolo havia sido comido por tra\u00e7as. Como o estado prec\u00e1rio do livro impedia a reprodu\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica, copiei \u00e0 m\u00e3o todo o 12\u00b0 cap\u00edtulo, \u201cTrattato de\u2019 ridicoli\u201d, ou \u201cTratado dos rid\u00edculos\u201d, que era o que mais interessava \u00e0 minha pesquisa.<\/p>\n<p><strong>O senhor trabalhou com um grande volume de informa\u00e7\u00e3o. De que forma o organizou?<\/strong><br \/>\nPara obter uma vis\u00e3o espacial e sist\u00eamica da estrutura da mitologia narrada por ind\u00edgenas sul-americanos, o antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss [1908-2009] anotou tudo em cartolinas e as pendurou em dois varais paralelos em uma grande sala do Museu do Homem, em Paris. Como eu n\u00e3o tinha computador na \u00e9poca, resolvi fazer algo parecido. Comprei folhas avulsas e montei 12 cadernos. Cada um deles ficou com cerca de 300 p\u00e1ginas. Neles escrevi \u00e0 m\u00e3o uma esp\u00e9cie de gloss\u00e1rio com termos recorrentes na obra atribu\u00edda a Greg\u00f3rio e na s\u00e1tira da \u00e9poca. Come\u00e7ava com Abaet\u00e9, a lagoa em Salvador, e chegava a zoilo, que significa louco, est\u00fapido. Visualizar esses elementos me ajudou a entender aquele universo que estava pesquisando. Eu me sentia uma esp\u00e9cie de arque\u00f3logo.<\/p>\n<p><strong>O trabalho deve ter sido imenso.<\/strong><br \/>\nNem me fale. Entre outras coisas fichei as\u00a0<em>Obras completas de Greg\u00f3rio de Matos<\/em>\u00a0[1968], edi\u00e7\u00e3o em sete volumes organizada pelo soci\u00f3logo James Amado [1922-2013]. Na d\u00e9cada de 1960, James, que era irm\u00e3o do escritor Jorge Amado [1912-2001], e a poeta Maria da Concei\u00e7\u00e3o da Cruz Paranhos foram at\u00e9 a Biblioteca Nacional e fizeram esse levantamento no c\u00f3dice de Manuel Pereira Rabelo, do s\u00e9culo XVIII, apontado como o primeiro bi\u00f3grafo de Greg\u00f3rio. Mais tarde, em 2013, eu e Marcello Moreira, que foi meu aluno na USP, editamos e analisamos poemas atribu\u00eddos a Greg\u00f3rio reunidos no c\u00f3dice Asensio-Cunha. Trata-se de um documento do s\u00e9culo XVIII, que hoje pertence \u00e0 Universidade Federal do Rio de Janeiro. A obra em cinco volumes foi lan\u00e7ada pela editora Aut\u00eantica, em 2014. Marcello, hoje professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, \u00e9, e em minha opini\u00e3o tamb\u00e9m, um dos maiores especialistas em codicologia no mundo.<\/p>\n<p><strong>O que sua pesquisa de doutorado apontou quanto \u00e0 s\u00e1tira atribu\u00edda a Greg\u00f3rio de Matos?<\/strong><br \/>\nA imagem do Greg\u00f3rio de Matos libert\u00e1rio, subversivo, foi criada por cr\u00edticos e historiadores do s\u00e9culo XIX, e, de certa forma, se mant\u00e9m at\u00e9 hoje. Na tese mostro que, ao contr\u00e1rio do que algumas interpreta\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas propunham, a s\u00e1tira atribu\u00edda a Greg\u00f3rio n\u00e3o se opunha aos poderes constitu\u00eddos. Embora fa\u00e7a uma cr\u00edtica de costumes, que n\u00e3o poupa os poderosos da \u00e9poca, sua meta \u00e9 apontar excessos e desvios, mas sem, contudo, criticar as normas e hierarquias sociais. O eu-l\u00edrico \u00e9 de um homem branco, nobre, letrado, cat\u00f3lico, que compartilha dos valores da elite da \u00e9poca \u2013 que, entre outras coisas, escravizava negros e assassinava ind\u00edgenas para ocupar suas terras. Trata-se de uma sociedade aristocr\u00e1tica extremamente desigual e com profundo desprezo pelo trabalho manual. Tamb\u00e9m mostro na tese que a poesia de Greg\u00f3rio seguia um modelo que no s\u00e9culo XVII era ensinado e sistematizado nos col\u00e9gios da Companhia de Jesus, onde, inclusive, ele foi aluno.<\/p>\n<blockquote><p>Durante a pesquisa de doutorado sobre o poeta Greg\u00f3rio de Matos eu me senti uma esp\u00e9cie de arque\u00f3logo<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Como chegou a essa conclus\u00e3o?<\/strong><br \/>\nQuem me chamou a aten\u00e7\u00e3o para esse ponto foi o historiador ingl\u00eas Peter Burke, de quem me tornei muito amigo. Na d\u00e9cada de 1980 ele veio ministrar um curso na USP e fui convocado para fazer a tradu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea. Uma das aulas foi sobre insultos na It\u00e1lia do s\u00e9culo XVII, g\u00eanero comum naquele per\u00edodo, que eram extremamente obscenos e me remeteram aos escritos de Greg\u00f3rio de Matos. Peter n\u00e3o conhecia a obra de Greg\u00f3rio, mas levantou a hip\u00f3tese de que essa produ\u00e7\u00e3o poderia estar inserida em um circuito internacional de modelos culturais. Na \u00e9poca, ele havia levantado uma grande documenta\u00e7\u00e3o sobre a Companhia de Jesus. Como se sabe, os jesu\u00edtas formaram uma esp\u00e9cie de ag\u00eancia cultural transnacional, estavam em v\u00e1rios lugares do mundo. Ent\u00e3o, letrados na Fran\u00e7a, Espanha, Portugal e It\u00e1lia, e depois no M\u00e9xico, Argentina e Brasil, por exemplo, compartilhavam das mesmas refer\u00eancias, do mesmo repert\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Por que ler Greg\u00f3rio de Matos?<\/strong><br \/>\nTrata-se de um poeta extremamente culto, com amplo dom\u00ednio de todos os c\u00f3digos. E sua produ\u00e7\u00e3o sinaliza que n\u00e3o precisamos esperar pelos autores do s\u00e9culo XVIII e XIX, como preconizam obras como\u00a0<em>Forma\u00e7\u00e3o da literatura brasileira<\/em>\u00a0[1959], de Antonio Candido [1918-2017], para come\u00e7ar a pensar sobre pr\u00e1ticas culturais no Brasil. Candido afirma que n\u00e3o existia na Col\u00f4nia condi\u00e7\u00f5es materiais para a dissemina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, mas hoje sabemos que havia sim um sistema cultural absolutamente consistente no s\u00e9culo XVII, que n\u00e3o pode ser ignorado. Ou seja, existiam outras formas de ler e escrever no Brasil da \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Essa tem\u00e1tica ainda o interessa?<\/strong><br \/>\nSim. H\u00e1 tr\u00eas anos desenvolvo o projeto \u201cT\u00e9cnicas do g\u00eanero retrato nos s\u00e9culos XVI, XVII e XVIII\u201d, com apoio do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico], em que busco mostrar por meio de tratados de ret\u00f3rica a rela\u00e7\u00e3o entre escultura, pintura e poesia daquele per\u00edodo. Venho escrevendo bastante a respeito e pretendo publicar essa produ\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o t\u00e9rmino do projeto, no ano que vem. Mas, claro, tenho outros interesses. Acabei de entregar a tradu\u00e7\u00e3o de \u201cE\u00f3lo\u201d, s\u00e9timo cap\u00edtulo de\u00a0<em>Ulisses<\/em>, de James Joyce, que vai integrar o livro\u00a0<em>Ulisses<\/em>\u00a0\u2013 A dezoito vozes, organizado por Henrique Piccinato Xavier. Sem contar que no momento, apesar de aposentado, oriento trabalhos na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da USP. Os temas s\u00e3o diversos, v\u00e3o das cartas do padre Ant\u00f4nio Vieira \u00e0 literatura de Clarice Lispector e Hilda Hilst [1930-2004]. Gosto dessa multiplicidade, o que pode parecer ex\u00f3tico em um mundo cada vez mais especializado.<\/p>\n<p><strong>No livro A arte da aula, o senhor relata: \u201cNa USP, me aconteceu algo rar\u00edssimo: a convers\u00e3o de um homem pela poesia\u201d. Como foi essa hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nFoi no final dos anos 1990, quando ministrei uma disciplina sobre modernismo na gradua\u00e7\u00e3o de letras. Tratei sobretudo de Drummond, mas tamb\u00e9m de Murilo Mendes [1901-1975], Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto [1920-1999], Graciliano Ramos, Guimar\u00e3es Rosa, Clarice Lispector. Desde 1983, ano em que me tornei docente da USP, at\u00e9 2012, quando me aposentei, fui professor do curso noturno. Grande parte dos alunos trabalhava o dia inteiro, como era o caso desse aluno, sempre de terno e gravata, todo certinho. No final do curso apareceu de cal\u00e7a jeans, camiseta, t\u00eanis. De yuppie virou hippie. Me contou que era executivo de uma grande empresa e que a poesia de Drummond tinha mexido de tal forma com ele que havia decidido mudar de vida. Por causa disso, pedira demiss\u00e3o para ser professor na periferia. E recitou um trecho do poema \u201cElegias\u201d: \u201cTrabalhas sem alegria para um mundo caduco\u201d. Na \u00e9poca, eu lhe disse que estava maluco. Reencontrei esse aluno cerca de dois anos depois e ele estava firme em sua decis\u00e3o. \u00c9 por isso que adoro sala de aula. Essa troca com os alunos \u00e9 muito rica. Como diz Riobaldo, em\u00a0<em>Grande sert\u00e3o: Veredas<\/em>, mestre n\u00e3o \u00e9 o que ensina, mas o que aprende.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel da literatura hoje?<\/strong><br \/>\nInfelizmente, \u00e9 cada vez menor. Desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 ela n\u00e3o tem mais o car\u00e1ter de forma\u00e7\u00e3o que teve, por exemplo, para minha gera\u00e7\u00e3o. Aprendi muito com a literatura, acho que muito mais do que no gin\u00e1sio, no curso cl\u00e1ssico e na universidade.<\/p>\n<p>Fonte: Jo\u00e3o Adolfo Hansen: Viagem pelas letras brasileiras : Revista Pesquisa Fapesp &#8211; Link da mat\u00e9ria: https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/joao-adolfo-hansen-viagem-pelas-letras-brasileiras\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e9o Ramos Chaves &#8211; Especialista trouxe importantes colabora\u00e7\u00f5es ao estudo da poesia colonial, sem, contudo, deixar de olhar para per\u00edodos como o modernismo. 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