{"id":25331,"date":"2026-08-17T16:09:39","date_gmt":"2026-08-17T19:09:39","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25331"},"modified":"2026-08-17T16:09:39","modified_gmt":"2026-08-17T19:09:39","slug":"as-raizes-vermelhas-do-neoliberalismo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/08\/17\/as-raizes-vermelhas-do-neoliberalismo-brasileiro\/","title":{"rendered":"As ra\u00edzes vermelhas do neoliberalismo brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>EDUARDO LUIZ ZEN*<\/strong> &#8211; Longe de ser uma trai\u00e7\u00e3o a um passado radical, a ades\u00e3o petista \u00e0 ordem neoliberal \u00e9 o resultado direto de suas matrizes fundadoras, que substitu\u00edram a transforma\u00e7\u00e3o estrutural pela gest\u00e3o de vulnerabilidades sociais.<\/p>\n<h3><strong>1.<\/strong><\/h3>\n<p>A hist\u00f3ria do PT costuma ser contada a partir de uma ruptura com suas origens. Para seus cr\u00edticos \u00e0 esquerda, essa ruptura teria sido uma trai\u00e7\u00e3o; para seu campo majorit\u00e1rio, um amadurecimento imposto pela democracia, pela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e pelas responsabilidades de governo. Em ambas as vers\u00f5es, o partido teria nascido socialista, oper\u00e1rio e radical e se transformado \u00e0 medida que se aproximava do poder. A Carta ao Povo Brasileiro seria o momento simb\u00f3lico dessa passagem: convers\u00e3o, para uns; realismo, para outros.<\/p>\n<p>As duas explica\u00e7\u00f5es preservam a pureza do passado, tra\u00edda em uma, superada na outra. Mas talvez seja mais correto inverter a pergunta. Em vez de procurar o momento em que o PT abandonou suas origens, \u00e9 preciso identificar o que havia nessas origens que j\u00e1 anunciava sua transforma\u00e7\u00e3o no bra\u00e7o esquerdo do neoliberalismo brasileiro. O papel do lulismo esteve longe de ser secund\u00e1rio. Afinal, ao longo de tr\u00eas d\u00e9cadas dessa ordem, ocupou a Presid\u00eancia por mais da metade do tempo.<\/p>\n<p>A literatura costuma apontar tr\u00eas matrizes principais na forma\u00e7\u00e3o do partido: o novo sindicalismo do ABC, a esquerda cat\u00f3lica ligada \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e a intelectualidade paulista. A elas se somaram estudantes radicalizados, egressos da luta armada, organiza\u00e7\u00f5es trotskistas, novos movimentos sociais e a corrente pragm\u00e1tica reunida em torno de Lula. A partir dos aportes dessas matrizes e dos demais componentes da forma\u00e7\u00e3o petista, \u00e9 poss\u00edvel identificar seis ra\u00edzes que ajudam a explicar sua pr\u00e1xis posterior. O neoliberalismo n\u00e3o foi posteriormente enxertado nessa \u00e1rvore. Seus germes j\u00e1 estavam nessa combina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira raiz foi o \u201coper\u00e1rio da multinacional\u201d. O novo sindicalismo rompeu com a tutela estatal, enfrentou o patronato e recolocou o trabalhador industrial no centro da pol\u00edtica. Mas sua combatividade se formou no interior das grandes montadoras estrangeiras do ABC, num ambiente em que a internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 aparecia como horizonte natural da economia. Lutava-se contra o patr\u00e3o dentro da multinacional; foi essa experi\u00eancia do conflito, e n\u00e3o uma cr\u00edtica \u00e0 inser\u00e7\u00e3o dependente do pa\u00eds, que o novo sindicalismo levou ao PT.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o internacional ocupava o lugar da quest\u00e3o nacional. A solidariedade entre trabalhadores, a circula\u00e7\u00e3o das empresas e a integra\u00e7\u00e3o produtiva eram percebidas em escala mundial, enquanto propriedade estrangeira, remessa de lucros, controle tecnol\u00f3gico, balan\u00e7o de pagamentos e soberania econ\u00f4mica permaneciam marginais. O capital podia ser combatido como rela\u00e7\u00e3o entre patr\u00e3o e empregado sem ser enfrentado como poder internacional organizado sobre uma economia dependente.<\/p>\n<h3><strong>2.<\/strong><\/h3>\n<p>Essa separa\u00e7\u00e3o seria decisiva. O novo sindicalismo ensinou o PT a disputar sal\u00e1rios, direitos e participa\u00e7\u00e3o nos resultados sem necessariamente disputar o controle nacional da produ\u00e7\u00e3o. A mesa de negocia\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica foi ampliada at\u00e9 se tornar uma teoria geral da pol\u00edtica: Lula conversa com trabalhadores, banqueiros, multinacionais e investidores estrangeiros, oferece garantias e procura distribuir parte dos ganhos sem alterar a estrutura que organiza o poder.<\/p>\n<p>Essa disposi\u00e7\u00e3o aproximava o partido de um dos fundamentos do neoliberalismo que se afirmaria nas d\u00e9cadas seguintes: a economia mundial tratada como campo inevit\u00e1vel, marcado pela livre circula\u00e7\u00e3o do capital, pelas cadeias internacionais e pela primazia dos fluxos financeiros, enquanto o Estado nacional perdia legitimidade como instrumento de dire\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. A integra\u00e7\u00e3o internacional era aceita como realidade; a depend\u00eancia deixava de ser formulada como problema pol\u00edtico central.<\/p>\n<p>A identidade atribu\u00edda ao operariado do ABC foi, assim, mais radical do que sua pr\u00e1xis. Por ocupar o cora\u00e7\u00e3o industrial do pa\u00eds, ele foi elevado a sujeito hist\u00f3rico e vanguarda revolucion\u00e1ria, embora sua a\u00e7\u00e3o permanecesse concentrada na negocia\u00e7\u00e3o dentro de uma estrutura produtiva estrangeirizada.<\/p>\n<p>Quando a desindustrializa\u00e7\u00e3o dissolveu essa base social, o lulismo preservou sua fotografia. O oper\u00e1rio desapareceu como for\u00e7a p\u00fablica organizada e retornou como mem\u00f3ria do partido e biografia de Lula. A classe deixou de organizar a pol\u00edtica; sua identidade passou a legitimar o l\u00edder.<\/p>\n<p>A segunda raiz foi \u201co pobrismo\u201d. As comunidades eclesiais de base contribu\u00edram para organizar os setores populares e resistir \u00e0 ditadura. Mas tamb\u00e9m ajudaram a transformar o pobre em fundamento moral da pol\u00edtica. A pobreza deixou de ser apenas uma condi\u00e7\u00e3o a superar e passou a conferir autenticidade, autoridade e pureza.<\/p>\n<p>O trabalhador remete \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, ao conflito entre capital e trabalho, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o coletiva e aos direitos universais. O pobre remete \u00e0 car\u00eancia, ao cadastro, ao benef\u00edcio e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o focalizada. A passagem de um sujeito ao outro antecipou a pol\u00edtica social do lulismo: financismo no comando da economia e pobrismo na administra\u00e7\u00e3o de suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>O pobrismo, como Mangabeira Unger denomina o complemento social do financismo brasileiro, n\u00e3o significa preocupar-se demais com os pobres, mas ambicionar pouco demais para eles e para o pa\u00eds. Em vez de reorganizar a produ\u00e7\u00e3o, universalizar o trabalho protegido e construir autonomia material, protege-se o pobre em sua condi\u00e7\u00e3o e formaliza-se a precariedade como empreendedorismo. O Microempreendedor Individual, criado em 2008, sintetiza essa racionalidade: em vez de reconhecer plenamente o trabalhador aut\u00f4nomo como trabalhador, constr\u00f3i juridicamente uma empresa ao redor dele.<\/p>\n<h3><strong>3.<\/strong><\/h3>\n<p>O pobrismo tamb\u00e9m organiza um Estado de baixa ambi\u00e7\u00e3o. Diante de problemas estruturais, o governo cria um programa, uma linha de cr\u00e9dito, um edital, uma parceria. Financia sem comandar, fomenta sem organizar e contrata sem construir capacidade pr\u00f3pria. \u00c9 o Estado do puxadinho, cuja mediocridade n\u00e3o consiste em nada fazer, mas em fazer milhares de pequenas coisas sem produzir transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica de cultura, a pulveriza\u00e7\u00e3o dos recursos \u00e9 chamada de capilaridade. Cada territ\u00f3rio recebe um pouco, cada grupo executa um projeto, cada organiza\u00e7\u00e3o disputa seu edital. Universaliza-se o pequeno projeto prec\u00e1rio, n\u00e3o o acesso \u00e0s grandes institui\u00e7\u00f5es. O pobre recebe uma sala multifuncional, algumas oficinas e o dever de representar sua origem, n\u00e3o o melhor museu, a melhor biblioteca ou a melhor escola de artes que o pa\u00eds poderia construir.<\/p>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o permanente que o Estado n\u00e3o constr\u00f3i produziria hist\u00f3ria; o projeto que financia produz um evento.<\/p>\n<p>O mesmo pobrismo aparece na convers\u00e3o da favela em identidade cultural. A favela n\u00e3o \u00e9 uma cultura, mas uma forma urbana da desigualdade. Seus moradores podem produzir obras extraordin\u00e1rias, que valem por aquilo que s\u00e3o, n\u00e3o pelo r\u00f3tulo \u201cfavelado\u201d ou \u201cperif\u00e9rico\u201d.<\/p>\n<p>Transformar a priva\u00e7\u00e3o territorial em autenticidade, marca e nicho de financiamento n\u00e3o emancipa seus habitantes. \u201cA favela venceu\u201d \u00e9 a f\u00f3rmula perfeita de uma ordem que desistiu de fazer a favela acabar. Aquilo que uma reforma estrutural deveria superar, o pobrismo administra e o identitarismo celebra.<\/p>\n<p>A terceira raiz foi \u201ca nova locomotiva paulista\u201d. A intelectualidade ligada \u00e0 USP forneceu ao PT boa parte de seu vocabul\u00e1rio sobre autoritarismo, populismo, patrimonialismo, corporativismo e sociedade civil. Cr\u00edticas dirigidas a problemas reais acabaram compondo uma interpreta\u00e7\u00e3o na qual o Estado concentrava todas as patologias. O grande capital aparecia como poder concentrado, mas o mercado desaparecia como rela\u00e7\u00e3o social de poder.<\/p>\n<p>O Estado tinha interesses; o mercado parecia ter apenas mecanismos. O trabalhismo foi reduzido a populismo, tutela e concilia\u00e7\u00e3o de classes, enquanto o planejamento estatal e o nacional-desenvolvimentismo eram desqualificados como formas estatizantes, centralizadoras e autorit\u00e1rias de moderniza\u00e7\u00e3o pelo alto.<\/p>\n<p>O PT n\u00e3o apenas deixou de fazer da constru\u00e7\u00e3o de um projeto nacional o princ\u00edpio organizador de sua estrat\u00e9gia; constituiu-se em ruptura com as tradi\u00e7\u00f5es trabalhista e nacional-desenvolvimentista que haviam transformado a quest\u00e3o nacional em industrializa\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o do Estado e incorpora\u00e7\u00e3o social dos trabalhadores.<\/p>\n<h3><strong>4.<\/strong><\/h3>\n<p>H\u00e1 nisso uma homologia com 1932. Na antiga ideologia paulista, S\u00e3o Paulo era a locomotiva moderna diante de um Brasil atrasado, e o Estado nacional limitava seu dinamismo. Na tradu\u00e7\u00e3o petista, o sujeito portador da modernidade deixou de ser o bar\u00e3o do caf\u00e9 ou o industrial tradicional e passou a ser o oper\u00e1rio do ABC, acompanhado pelo intelectual da USP. S\u00e3o Paulo continuava a ser o centro din\u00e2mico do pa\u00eds e o palco decisivo da luta de classes: concentrava o grande capital, a vanguarda oper\u00e1ria e a interpreta\u00e7\u00e3o autorizada do conflito.<\/p>\n<p>Lula completa essa narrativa: o retirante nordestino torna-se sujeito pol\u00edtico quando ingressa no mundo industrial paulista. O Nordeste fornece o pobre; S\u00e3o Paulo o transforma em trabalhador moderno. A velha locomotiva ganhou uma tripula\u00e7\u00e3o vermelha.<\/p>\n<p>Essa intelectualidade tamb\u00e9m legou uma rela\u00e7\u00e3o profundamente negativa com a hist\u00f3ria brasileira. O passado nacional foi reduzido a uma sucess\u00e3o de escravid\u00e3o, oligarquia, racismo, autoritarismo, patrimonialismo e barb\u00e1rie. Quem n\u00e3o encontra na hist\u00f3ria nenhuma heran\u00e7a utiliz\u00e1vel dificilmente imagina algo grandioso para construir em nome do pa\u00eds. A cr\u00edtica necess\u00e1ria ao passado converteu-se em desprezo pela hist\u00f3ria comum e incapacidade de projetar o futuro.<\/p>\n<p>A quarta raiz foi \u201ca revolu\u00e7\u00e3o contra as reformas\u201d. Estudantes, antigos militantes da luta armada, marxistas revolucion\u00e1rios e correntes trotskistas trouxeram ao PT a cultura da ruptura e a rejei\u00e7\u00e3o do reformismo. As reivindica\u00e7\u00f5es imediatas podiam ser apoiadas, mas as transforma\u00e7\u00f5es estruturais verdadeiras eram remetidas \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>O PT n\u00e3o foi uma social-democracia que posteriormente abandonou as reformas. Nasceu denunciando o reformismo e colocando-se \u00e0 esquerda dele. O problema apareceu quando a revolu\u00e7\u00e3o deixou de existir como estrat\u00e9gia concreta. As reformas haviam sido concebidas sobretudo como ac\u00famulo para a ruptura, n\u00e3o como um projeto hist\u00f3rico aut\u00f4nomo capaz de ocupar seu lugar.<\/p>\n<p>Quem considera as reformas imposs\u00edveis sem a revolu\u00e7\u00e3o acaba, enquanto a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega, administrando aquilo que existe. O socialismo permaneceu no horizonte e nos s\u00edmbolos. No presente, restaram a administra\u00e7\u00e3o das vulnerabilidades e a aceita\u00e7\u00e3o da estrutura econ\u00f4mica: radicalismo no discurso, melhorismo na pol\u00edtica social e neoliberalismo na organiza\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n<h3><strong>5.<\/strong><\/h3>\n<p>O radicalismo n\u00e3o contradiz materialmente essa pr\u00e1xis. Ele a legitima. Preserva a identidade da esquerda, mant\u00e9m a milit\u00e2ncia vinculada e apresenta cada concess\u00e3o como t\u00e1tica tempor\u00e1ria de uma transforma\u00e7\u00e3o sempre futura. O socialismo inalcan\u00e7\u00e1vel permite ao partido ser absolutamente realista no presente.<\/p>\n<p>A quinta raiz foi \u201ca autonomia contra o Estado\u201d. Autonomia sindical, autonomia das bases, autonomia dos movimentos, descentraliza\u00e7\u00e3o, sociedade civil e \u00f3rg\u00e3os independentes respondiam inicialmente \u00e0 ditadura, \u00e0 tutela e ao centralismo burocr\u00e1tico. Transformadas em princ\u00edpio geral, por\u00e9m, fragmentaram a soberania e corroeram a capacidade de dire\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Uma das vertentes dessa cultura autonomista j\u00e1 apontava diretamente para a futura ordem neoliberal. Na Constituinte de 1988, petistas propuseram um Banco Central aut\u00f4nomo e mandatos fixos para seus dirigentes.<\/p>\n<p>O PT nasceu desconfiando do Estado como centro de dire\u00e7\u00e3o e celebrando a autonomia das partes. O neoliberalismo fez dessa desconfian\u00e7a uma arquitetura de governo.<\/p>\n<p>Surge da\u00ed um estatismo teleol\u00f3gico e um antiestatismo pr\u00e1tico. O Estado forte est\u00e1 reservado ao socialismo futuro; o Estado realmente existente \u00e9 considerado patrimonial, burocr\u00e1tico, cooptador e suspeito. Ele pode gastar muito sem construir capacidade p\u00fablica, limitando-se a financiar, regular, contratar e repassar recursos para empresas, associa\u00e7\u00f5es, funda\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>O privado empresarial aparece como interesse; o privado associativo, como participa\u00e7\u00e3o. A sociedade civil petista n\u00e3o superou a privatiza\u00e7\u00e3o. Ofereceu-lhe uma linguagem moralmente aceit\u00e1vel para a esquerda.<\/p>\n<p>O edital tornou-se a unidade administrativa desse antiestatismo: o Estado pulveriza recursos, terceiriza a execu\u00e7\u00e3o e dispersa a responsabilidade. Na participa\u00e7\u00e3o social, a l\u00f3gica \u00e9 semelhante. Conselhos e confer\u00eancias discutem pol\u00edticas setoriais, enquanto juros, moeda, propriedade e estrutura produtiva permanecem protegidos no topo. A participa\u00e7\u00e3o desce aos conselhos enquanto o poder sobe para a macroeconomia.<\/p>\n<p>A sexta raiz foi \u201co partido das bases e o poder do chefe\u201d. O PT nasceu exaltando a democracia interna, a pluralidade de tend\u00eancias e a organiza\u00e7\u00e3o popular. Tornou-se concentrado numa lideran\u00e7a pessoal cuja origem social vale mais do que sua pr\u00e1xis.<\/p>\n<p>Lula tornou-se simultaneamente oper\u00e1rio, pobre, retirante, mediador entre classes, patrim\u00f4nio eleitoral e encarna\u00e7\u00e3o da esquerda. Sua biografia passou a funcionar como programa. N\u00e3o importa apenas o que faz, mas quem foi. O identitarismo come\u00e7a em casa.<\/p>\n<p>Essa centralidade produziu um monop\u00f3lio do pragmatismo. Alian\u00e7as e concess\u00f5es condenadas em outras for\u00e7as transformam-se, em Lula, em genialidade pol\u00edtica. Ao mesmo tempo, o partido desenvolveu uma pedagogia de desmobiliza\u00e7\u00e3o: o povo vota, os movimentos apoiam e o l\u00edder negocia. Pressionar o governo pode ajudar a direita; construir for\u00e7a aut\u00f4noma pode amea\u00e7ar a unidade.<\/p>\n<p>Se o capital calcula, os pobres sofrem e Lula negocia, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular torna-se dispens\u00e1vel. O partido que nasceu para devolver a pol\u00edtica \u00e0s bases terminou ensinando \u00e0s bases que deveriam esperar o chefe negociar por elas.<\/p>\n<h3><strong>6.<\/strong><\/h3>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o dessas seis ra\u00edzes encontra sua forma cultural mais acabada no \u201cidentitarismo\u201d. N\u00e3o se trata da luta contra o racismo, o machismo ou a homofobia, mas da ideologia que reorganiza as lutas em torno da ess\u00eancia identit\u00e1ria, da autoridade da experi\u00eancia, da representa\u00e7\u00e3o e da superioridade moral atribu\u00edda \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima.<\/p>\n<p>O identitarismo n\u00e3o \u00e9 uma distra\u00e7\u00e3o externa ao neoliberalismo. \u00c9 sua cultura progressista. A igualdade cede lugar \u00e0 diversidade, a transforma\u00e7\u00e3o \u00e0 representa\u00e7\u00e3o e a universaliza\u00e7\u00e3o ao reconhecimento. A pir\u00e2mide n\u00e3o \u00e9 derrubada; passa a ser julgada pela diversidade de quem consegue subir.<\/p>\n<p>A elite paulista participou da difus\u00e3o do identitarismo por seus diferentes bra\u00e7os. Funcionou como antena das agendas produzidas sobretudo nos Estados Unidos e no circuito acad\u00eamico e cultural anglo-sax\u00e3o, importando-as e reproduzindo-as no Brasil sem submet\u00ea-las ao crivo da hist\u00f3ria e das estruturas nacionais.<\/p>\n<p>A universidade forneceu conceitos e especialistas; as ONGs, militantes e projetos; os meios culturais, prest\u00edgio e visibilidade; o capital financeiro, funda\u00e7\u00f5es, editais e recursos. N\u00e3o se tratou de uma insurg\u00eancia externa contra o poder econ\u00f4mico, mas da forma\u00e7\u00e3o de uma cultura progressista perfeitamente assimil\u00e1vel e ativamente promovida por ele. A velha locomotiva, que nunca oferecera ao Brasil um projeto nacional, passou a financiar os vocabul\u00e1rios pelos quais a fragmenta\u00e7\u00e3o neoliberal podia ser apresentada como emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O identitarismo tamb\u00e9m aprofunda a desmobiliza\u00e7\u00e3o. Seu horizonte deixa de ser abolir as rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o e passa a mudar quem ocupa seus polos: trocam-se os ocupantes; preserva-se a estrutura. Em vez de organizar interesses comuns, distribui posi\u00e7\u00f5es de fala, fiscaliza pertencimentos e decomp\u00f5e a sociedade em sujeitos que competem por reconhecimento, recursos e autoridade de v\u00edtima.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda pela busca intermin\u00e1vel de uma representatividade reparadora, e a fragmenta\u00e7\u00e3o social produzida pelo neoliberalismo retorna como princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o da esquerda.<\/p>\n<p>No campo lulista, o identitarismo \u00e9 a pol\u00edtica simb\u00f3lica das reformas estruturais que nunca viriam. O partido incorporou os sujeitos das reformas mais profundamente do que incorporou as pr\u00f3prias reformas: os sem-terra sem reforma agr\u00e1ria, os moradores das periferias sem reforma urbana, os sindicatos sem universaliza\u00e7\u00e3o do trabalho protegido e os grupos discriminados sem democratiza\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A classe oper\u00e1ria, esvaziada como for\u00e7a material pela desindustrializa\u00e7\u00e3o, retorna como mem\u00f3ria e vanguarda imagin\u00e1ria. As reformas ausentes retornam como reconhecimento. Os movimentos incorporados sem seus projetos retornam como identidades.<\/p>\n<p>O resultado pode ser resumido em quatro termos: financismo no comando, pobrismo na pol\u00edtica social, editalismo na execu\u00e7\u00e3o e identitarismo na legitima\u00e7\u00e3o. O financismo protege o topo, o pobrismo administra a base, o editalismo pulveriza a a\u00e7\u00e3o estatal e o identitarismo rebatiza a fragmenta\u00e7\u00e3o e a precariedade como diversidade.<\/p>\n<p>O PT n\u00e3o foi uma esquerda reformista que simplesmente se tornou neoliberal. Foi uma esquerda anti-reformista que, sem revolu\u00e7\u00e3o, encontrou no neoliberalismo a forma de governar o presente e no identitarismo a forma de conservar sua radicalidade simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>A for\u00e7a e a perenidade do neoliberalismo brasileiro n\u00e3o se explicam apesar do PT: explicam-se tamb\u00e9m por meio dele. O partido n\u00e3o apenas administrou uma ordem recebida, mas ajudou a constru\u00ed-la, reproduzi-la e revesti-la de legitimidade popular. A bandeira permaneceu vermelha porque o vermelho n\u00e3o era apenas uma m\u00e1scara, mas parte do mecanismo que permitia ao neoliberalismo governar pela esquerda sem ser reconhecido como neoliberal.<\/p>\n<p>O lulismo n\u00e3o traiu simplesmente suas ra\u00edzes. Foi a s\u00edntese delas.<\/p>\n<p><strong>*Eduardo Luiz Zen<\/strong>\u00a0<em>\u00e9 doutor em sociologia pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB).<\/em><\/p>\n<p>Fonte: As ra\u00edzes vermelhas do neoliberalismo brasileiro &#8211; &#8211; Link da mat\u00e9ria: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/as-raizes-vermelhas-do-neoliberalismo-brasileiro\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>EDUARDO LUIZ ZEN* &#8211; Longe de ser uma trai\u00e7\u00e3o a um passado radical, a ades\u00e3o petista \u00e0 ordem neoliberal \u00e9 o resultado direto de suas matrizes fundadoras, que substitu\u00edram a transforma\u00e7\u00e3o estrutural pela gest\u00e3o de vulnerabilidades sociais. 1. 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