{"id":25323,"date":"2026-08-13T12:42:25","date_gmt":"2026-08-13T15:42:25","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25323"},"modified":"2026-08-10T14:45:53","modified_gmt":"2026-08-10T17:45:53","slug":"formacao-social-territorio-espaco-uma-leitura-gramsciana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/08\/13\/formacao-social-territorio-espaco-uma-leitura-gramsciana\/","title":{"rendered":"Forma\u00e7\u00e3o social, territ\u00f3rio, espa\u00e7o \u2013 uma leitura gramsciana"},"content":{"rendered":"<p><strong>JEFFERSON ADRIANO MAIER<span style=\"font-size: 16px;\">\u00a0&amp;\u00a0<\/span><\/strong><strong style=\"font-size: 16px;\">LEANDRO MORAES VIDAL* &#8211; <\/strong>Coment\u00e1rio sobre o livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado de\u00a0Marcos Aur\u00e9lio da Silva.<\/p>\n<h3><strong>1.<\/strong><\/h3>\n<p>O lan\u00e7amento de\u00a0<em>Forma\u00e7\u00e3o social, territ\u00f3rio, espa\u00e7o<\/em>, de Marcos Aur\u00e9lio da Silva \u00e9 um acontecimento aguardado por todos os que j\u00e1 est\u00e3o familiarizados com a trajet\u00f3ria coerente e inovadora de pesquisa que o autor desenvolve h\u00e1 d\u00e9cadas a partir da doc\u00eancia em geografia na Universidade Federal de Santa Catarina. Mas muito mais do que isso, \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o de grande relev\u00e2ncia para a Geografia brasileira e para os estudos gramscianos como um todo, raz\u00e3o pela qual se espera que a obra possa alcan\u00e7ar a mais ampla difus\u00e3o, para al\u00e9m do c\u00edrculo mais imediato dos leitores j\u00e1 familiarizados com a reflex\u00e3o desenvolvida por Marcos Aur\u00e9lio da Silva, no Brasil e na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Na obra, Marcos Aur\u00e9lio da Silva expande e aprofunda os resultados de seu est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado na Universidade de Urbino, desenvolvido no ano de 2015 em estreita colabora\u00e7\u00e3o com o grupo de pesquisadores vinculados a Domenico Losurdo, de cuja obra ele j\u00e1 era ent\u00e3o um dos mais aprofundados leitores e divulgadores no Brasil. Partindo dessa s\u00f3lida base filos\u00f3fica, de matriz hegelo-marxista e gramsciana, Marcos Aur\u00e9lio da Silva revisita as categorias que est\u00e3o no cerne da reflex\u00e3o geogr\u00e1fica, como territ\u00f3rio, Estado, espa\u00e7o e forma\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-espacial, desvelando de forma original, mas rigorosa, as afinidades epistemol\u00f3gicas e as possibilidades de pesquisa que se abrem quando tais categorias s\u00e3o entendidas a partir de tais fundamentos filos\u00f3ficos.<\/p>\n<p>Estamos, \u00e9 evidente aqui, a falar de um tipo de fazer geogr\u00e1fico que se inscreve na vertente cr\u00edtica que se interessou muito mais pelas \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d do que pelas \u201cformas\u201d<a href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fcopy-37%2F#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[i]<\/sup><\/a>\u00a0das coisas, e que para superar o apego tradicional dos ge\u00f3grafos aos fen\u00f4menos aparentes e sua descri\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, serviu-se da categoria marxista de forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social de forma consequente para construir uma teoria do espa\u00e7o. Aqui as aproxima\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas, ou at\u00e9 melhor dir\u00edamos a genealogia te\u00f3rica tra\u00e7ada por Silva, possui uma dimens\u00e3o pol\u00edtica que lhe \u00e9 insepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>O texto seminal de Milton Santos \u201cSociedade e espa\u00e7o: a forma\u00e7\u00e3o social como teoria e como m\u00e9todo\u201d \u2013 depois desenvolvido de forma mais sistem\u00e1tica no livro\u00a0<em>Por uma geografia nova\u00a0<\/em>\u2013 \u00e9 tanto fruto do mergulho do ge\u00f3grafo baiano na categoria de forma\u00e7\u00e3o social, apresentando a contribui\u00e7\u00e3o fundamental de Emilio Sereni, quanto da sua preocupa\u00e7\u00e3o de intelectual engajado com o problema das crises e das transi\u00e7\u00f5es de modo de produ\u00e7\u00e3o em seu pr\u00f3prio tempo e lugar: seja as forma\u00e7\u00f5es sociais dependentes e em processo de descoloniza\u00e7\u00e3o na \u00c1frica ou a moderniza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e desigual do territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>De forma an\u00e1loga, o extraordin\u00e1rio desenvolvimento da categoria de forma\u00e7\u00e3o social levado adiante pelos expoentes e dirigentes da Terceira Internacional no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, Vlad\u00edmir L\u00eanin e Antonio Gramsci \u00e0 frente, \u00e9 insepar\u00e1vel do seu esfor\u00e7o por construir uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria coerente em condi\u00e7\u00f5es nacionais espec\u00edficas, articulando luta de classes, territ\u00f3rio e Estado.<\/p>\n<p>\u00c9 sobretudo em Antonio Gramsci, autor que Marcos Aur\u00e9lio da Silva levou muitos anos lendo com aten\u00e7\u00e3o e profundidade, que se concentra o livro em resenha para explicitar e desenvolver os pontos de contato entre essa geografia cr\u00edtica e sua reflex\u00e3o pol\u00edtica e filos\u00f3fica. Afinal, como n\u00e3o perceber que estamos diante de uma elevada express\u00e3o da ci\u00eancia geogr\u00e1fica quando se conhece a reflex\u00e3o sobre a forma\u00e7\u00e3o social italiana desenvolvida magistralmente em\u00a0<em>A quest\u00e3o meridional<\/em>\u00a0e nos\u00a0<em>Cadernos do c\u00e1rcere<\/em>?<\/p>\n<p>Parece-nos adequado afirmar que a leitura gramsciana da forma\u00e7\u00e3o social italiana e da quest\u00e3o da desigualdade norte-sul como chave a partir da qual se pode corretamente encarar as quest\u00f5es da luta de classes e da forma\u00e7\u00e3o do bloco hist\u00f3rico \u00e9 justamente a apresenta\u00e7\u00e3o da \u201cunidade e da descontinuidade do desenvolvimento hist\u00f3rico\u201d de que fala Emilio Sereni atrav\u00e9s de Milton Santos no artigo de 1977 que j\u00e1 citamos, texto fundante e verdadeiro manifesto da geografia cr\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>Esse esfor\u00e7o de Marcos Aur\u00e9lio da Silva por intimar os ge\u00f3grafos a se aproximarem mais do pensamento de Antonio Gramsci e da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica hegelo-marxista segue neste livro tr\u00eas grandes linhas, ou percursos: (i) a caracteriza\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o nacional e da forma\u00e7\u00e3o social; (ii) o debate cl\u00e1ssico das transi\u00e7\u00f5es e das vias de desenvolvimento do capitalismo em sua dimens\u00e3o territorial e (iii) o problema da transi\u00e7\u00e3o socialista. Vejamos como esses caminhos se desenvolvem.<\/p>\n<h3><strong>2.<\/strong><\/h3>\n<p>No primeiro cap\u00edtulo, Marcos Aur\u00e9lio da Silva aborda a categoria de \u201cforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social\u201d como uma categoria \u201cimanentemente territorial\u201d, que lida diretamente com \u201co problema das transi\u00e7\u00f5es e das crises\u201d (p. 43). A no\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social deve ser lida conectada com a quest\u00e3o do desenvolvimento desigual e combinado, de uma perspectiva que parte da totalidade atravessada pela dimens\u00e3o do Estado-na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acompanhando a leitura que Antonio Gramsci faz da categoria, Marcos Aur\u00e9lio da Silva diferencia sua interpreta\u00e7\u00e3o seja das leituras que d\u00e3o um excessivo peso \u00e0 totalidade abstrata e preterem a dimens\u00e3o hist\u00f3rico-concreta da categoria de totalidade, ou daquelas que se atam a vis\u00f5es esquem\u00e1ticas de sucess\u00e3o dos modos de produ\u00e7\u00e3o e perdem de vista os movimentos da realidade social.<\/p>\n<p>A partir da leitura de Milton Santos, o espa\u00e7o geogr\u00e1fico \u00e9 tratado como um campo de for\u00e7as animado pela dial\u00e9tica hist\u00f3rica, dentro do qual a economia seria uma das dimens\u00f5es participantes. Uma no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o que se distancia daquelas leituras que privilegiam a dimens\u00e3o econ\u00f4mica e tamb\u00e9m se diferencia das defini\u00e7\u00f5es empiristas ou da geografia f\u00edsica, e se aproxima tanto de um espa\u00e7o enquanto \u201cproduto das rela\u00e7\u00f5es de hegemonia\u201d, quanto da ideia hegeliana de \u201crealidade em sentido forte\u201d, ou\u00a0<em>Wirklichkeit<\/em>\u00a0(p. 46-48).<\/p>\n<p>Partindo da leitura de Domenico Losurdo sobre o per\u00edodo iniciado pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa como uma \u00e9poca hist\u00f3rica que se abria para as liberdades e o fim do dom\u00ednio colonial e das guerras, Marcos Aur\u00e9lio da Silva explica a necessidade de ir al\u00e9m do conceito de Estado territorial de matriz ratzeliana. Contrariamente a Ratzel, a no\u00e7\u00e3o de Estado para Gramsci parte justamente da \u201ccr\u00edtica do culto naturalista do territ\u00f3rio p\u00e1trio\u201d \u2013 para usar a express\u00e3o citada que d\u00e1 nome a segunda se\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo \u2013, em linhas gerais, uma cr\u00edtica ao colonialismo e as guerras ligadas a ele.<\/p>\n<p>Para o fil\u00f3sofo sardo, o Estado e a quest\u00e3o nacional est\u00e3o relacionados \u00e0s lutas das classes subalternas pela hegemonia imbricada em \u201cuma elaborada dial\u00e9tica espacial\u201d (p. 55) entre as rela\u00e7\u00f5es internas e externas, conectando a dimens\u00e3o universal e particular. Da mesma forma seguiu Milton Santos, falando de um \u201cmesmo recorte geogr\u00e1fico\u201d, ou seja, de um contexto de imperialismo e colonialismo. Para o ge\u00f3grafo brasileiro, Estado-na\u00e7\u00e3o seria a forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social por excel\u00eancia que abarca desde as maiores at\u00e9 as menores coletividades.<\/p>\n<p>Aqui estamos diante de uma geografia cujas refer\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o o ponto cardeal ou a mera linha tra\u00e7ada no mapa, da mesma forma como Antonio Gramsci n\u00e3o confundia a quest\u00e3o nacional, em sua dimens\u00e3o popular e revolucion\u00e1ria, com o culto fetichista de uma unidade nacional realizada pelo alto e que servia aos prop\u00f3sitos da guerra inter-imperialista.<\/p>\n<p>Como percebeu Milton Santos, o Estado nacional comp\u00f5e a escala fundamental de estudo da geografia cr\u00edtica, mas existe apenas em sua articula\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica \u00e0s din\u00e2micas subnacionais e aos diferentes arranjos espa\u00e7o-temporais que comp\u00f5em uma totalidade que se apresenta de forma desigual e combinada. Aproximando essas reflex\u00f5es, Marcos Aur\u00e9lio da Silva conseguiu demonstrar com arg\u00facia um importante ponto de contato entre a geografia cr\u00edtica e a filosofia marxista de Antonio Gramsci.<\/p>\n<h3><strong>3.<\/strong><\/h3>\n<p>O segundo cap\u00edtulo revisa o debate sobre as transi\u00e7\u00f5es e vias de desenvolvimento iniciado por Mauricie Dobb, Paul Sweezy e outros marxistas ingleses no segundo p\u00f3s-guerra, na d\u00e9cada de 1950, que foi retomado por John Merrington e Robert Brenner nos anos 1970. Na primeira se\u00e7\u00e3o, o debate se concentra no papel que a luta de classes teve na dissolu\u00e7\u00e3o do feudalismo e transi\u00e7\u00e3o para o capitalismo a partir de Dobb, que havia relativizado a import\u00e2ncia dada ao com\u00e9rcio e \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o por Sweezy, herdeiro da leitura circulacionista da transi\u00e7\u00e3o que vinha desde a obra cl\u00e1ssica de Henri Pirenne.<\/p>\n<p>Segundo Marcos Aur\u00e9lio da Silva, Robert Brenner compartilha da cr\u00edtica \u00e0 vis\u00e3o de Paul Sweezy e de outros autores que participaram do debate, mas avan\u00e7a de forma muito interessante na sua argumenta\u00e7\u00e3o. Enquanto Dobb enfatiza a diferencia\u00e7\u00e3o de classe entre os camponeses como origem da agricultura capitalista, Brenner recusa essa tese de \u201cuma profunda invers\u00e3o social a partir do s\u00e9culo XV\u201d (p. 63), advogando que a mudan\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o foi estimulada em parte pela pr\u00f3pria classe senhorial. Um percurso hist\u00f3rico que, como veremos adiante, se relaciona com a via de revolu\u00e7\u00e3o passiva.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o de Robert Brenner \u201cencerra uma diferencia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-geogr\u00e1fica decisiva na leitura dos processos de transi\u00e7\u00e3o\u201d (p. 64), levando adiante e complexificando as ideias de Vlad\u00edmir L\u00eanin em torno das vias de desenvolvimento. \u00c9 isso que temos na segunda se\u00e7\u00e3o deste cap\u00edtulo, a partir da apresenta\u00e7\u00e3o de tr\u00eas tipos de forma\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais da Europa pr\u00e9-industrial, a forma\u00e7\u00e3o social brit\u00e2nica, a forma\u00e7\u00e3o social francesa e as forma\u00e7\u00f5es sociais a leste do rio Elba. Assim, a segunda se\u00e7\u00e3o conclui que a interpreta\u00e7\u00e3o de Brenner, mais do que apenas hist\u00f3rica, \u00e9 \u201crigorosamente hist\u00f3rico-espacial\u201d (p. 67).<\/p>\n<p>Na terceira se\u00e7\u00e3o, Marcos Aur\u00e9lio da Silva explica que a rela\u00e7\u00e3o entre uma forma\u00e7\u00e3o e seu contexto externo j\u00e1 aparecia em Dobb, com a divis\u00e3o territorial do trabalho intra-europeia entre a Europa Ocidental e Oriental, que v\u00ea um recrudescimento do feudalismo no s\u00e9culo XV com uma segunda servid\u00e3o. Mas \u00e9 nos estudos das rela\u00e7\u00f5es entre Fran\u00e7a e Gr\u00e3-Bretanha que aparece a \u201cgrande novidade\u201d de Brenner (p. 69), que diferencia as duas forma\u00e7\u00f5es a partir de conflitos entre a classe dos senhores feudais na primeira, contra uma maior \u201csolidariedade no seio da aristocracia\u201d, na \u00faltima. A conclus\u00e3o aqui apresentada \u00e9 de que o desenvolvimento do capitalismo em sua g\u00eanese n\u00e3o \u00e9 apenas desigual, mas combinado, ou \u201cespacial ou territorialmente combinado\u201d (Idem).<\/p>\n<h3><strong>4.<\/strong><\/h3>\n<p>E qual seria a participa\u00e7\u00e3o de Antonio Gramsci neste debate? O terceiro cap\u00edtulo traz o intelectual sardo como um \u201cprecursor de Dobb e Brenner\u201d (p. 71), para quem o problema das transi\u00e7\u00f5es j\u00e1 interessava antes mesmo do c\u00e1rcere, e sublinha que suas posi\u00e7\u00f5es se aproximam mais daquelas dos dois economistas ingleses do que de Sweezy. Principalmente na insist\u00eancia na \u201cdistin\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cconcreticidade \u2018individual\u2019 de cada momento do desenvolvimento hist\u00f3rico\u201d (p. 72), que nos permite entender este \u201calgo novo\u201d, que s\u00f3 pode ser captado com a \u00eanfase nas \u201crela\u00e7\u00f5es sociais e nas lutas de classe que dela emergem\u201d (p. 72).<\/p>\n<p>Seguindo o racioc\u00ednio de Giuliano Procacci, Marcos Aur\u00e9lio da Silva aprofunda dois pontos em que os textos de Antonio Gramsci participam do debate da d\u00e9cada de 1970 na segunda se\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo. A saber, os textos \u201cAlguns temas da quest\u00e3o meridional\u201d e as chamadas \u201cTeses de Lyon\u201d escritas com Palmiro Togliatti, nos quais Gramsci reinterpreta aquela dualidade campo-cidade com o contexto da unifica\u00e7\u00e3o italiana, onde o sul e as ilhas faziam de campo para o norte, cidade, que se industrializava e hegemonizou todo o pa\u00eds, n\u00e3o apenas pela for\u00e7a mas tamb\u00e9m como dire\u00e7\u00e3o intelectual e moral. E discute tamb\u00e9m o tema da alian\u00e7a oper\u00e1rio-camponesa, um tema relacionado com a quest\u00e3o dos intelectuais e o que viria a ser o conceito de \u201cbloco hist\u00f3rico\u201d, uni\u00e3o da estrutura e superestrutura.<\/p>\n<p>Estamos diante de um cen\u00e1rio no qual o problema territorial \u00e9 insepar\u00e1vel da luta pela hegemonia. A unifica\u00e7\u00e3o italiana \u00e9 interpretada como um processo de revolu\u00e7\u00e3o-restaura\u00e7\u00e3o, uma forma de transi\u00e7\u00e3o para o capitalismo pelo alto, na qual o velho e o novo se fundem e, a partir de algumas concess\u00f5es, as classes dominantes mant\u00eam o poder. Em resumo: \u201cuma via de desenvolvimento marcada pelo rentismo das classes dominantes\u201d (p. 79).<\/p>\n<p>O esquema fica mais claro quando Marcos Aur\u00e9lio da Silva comenta o papel subalterno da It\u00e1lia (e, em especial da Sardenha dentro da It\u00e1lia) no quadro do desenvolvimento desigual europeu no final do s\u00e9culo XIX, que sintetiza o ch\u00e3o hist\u00f3rico por qual percorreu o pensamento de Gramsci e tamb\u00e9m o papel dos intelectuais positivistas, das interpreta\u00e7\u00f5es naturalistas sobre o atraso (econ\u00f4mico e social) das ilhas, e que ao cabo, guiaram as massas italianas para o fascismo ap\u00f3s a unifica\u00e7\u00e3o \u2013 um processo de revolu\u00e7\u00e3o passiva atrasado.<\/p>\n<p>Na terceira se\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo, Silva aproxima a ideia gramsciana de revolu\u00e7\u00e3o passiva daquela de \u201cin\u00e9rcia din\u00e2mica\u201d, adotada pelo ge\u00f3grafo Milton Santos. Uma dial\u00e9tica s\u00f3cio-espacial que ocorre \u201cquando a a\u00e7\u00e3o do mercado \u00e9 livre\u201d, que acaba por refor\u00e7ar a posi\u00e7\u00e3o dos atores hegem\u00f4nicos, acentuando rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o, como o fluxo de capitais para as metr\u00f3poles. Uma dial\u00e9tica que n\u00e3o \u00e9 apenas hist\u00f3rica, mas tamb\u00e9m espacial, expressa territorialmente e associada ao desenvolvimento desigual, representativa das rela\u00e7\u00f5es imperialistas.<\/p>\n<p>Ainda, ao fim da se\u00e7\u00e3o, Marcos Aur\u00e9lio da Silva comenta duas pol\u00eamicas ao redor do conceito gramsciano de revolu\u00e7\u00e3o passiva: a primeira, aberta por Giorgio Baratta, de que a no\u00e7\u00e3o seria derivada de um deslize da dial\u00e9tica hist\u00f3rica ao contraponto geogr\u00e1fico, a qual \u00e9 rapidamente refutada com o pr\u00f3prio Gramsci, refor\u00e7ando a ideia de uma dial\u00e9tica \u201cde claro registro territorial ou socioespacial\u201d (Idem). A segunda relativiza a influ\u00eancia da passagem de Antonio Gramsci pela URSS e de Leon Trotsky na teoriza\u00e7\u00e3o sobre o desenvolvimento desigual e combinado, a partir da interpreta\u00e7\u00e3o de Gianni Fresu de que essa no\u00e7\u00e3o j\u00e1 se encontrava presente no pensamento de Gramsci em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o camponesa na Sardenha.<\/p>\n<h3><strong>5.<\/strong><\/h3>\n<p>Antes de qualquer conclus\u00e3o, o \u00faltimo cap\u00edtulo abre um debate sobre o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, especialmente sobre a d\u00e9cada 1920, explorando os temas do Americanismo e do Fordismo, e tamb\u00e9m da revolu\u00e7\u00e3o de outubro de 1917. No ocidente, trata-se do nascedouro de uma nova \u00e9poca hist\u00f3rica de revolu\u00e7\u00f5es passivas, na qual ocorre um redimensionamento do papel do Estado, aonde a hegemonia das classes dirigentes \u2013 como persuas\u00e3o e coer\u00e7\u00e3o \u2013 passa a nascer diretamente nas f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>Muitas vezes isso ocorreu n\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o, mas em resposta ao bolchevismo na URSS. Gramsci captou a \u201cespecificidade social e pol\u00edtica das forma\u00e7\u00f5es sociais t\u00edpicas do Ocidente\u201d (p. 91) e a dial\u00e9tica entre sociedade civil e sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade pol\u00edtica, componentes do que chamou de Estado ampliado. A rigor, a amplia\u00e7\u00e3o do Estado Moderno para al\u00e9m da sua forma cl\u00e1ssica, abstrata-representativa, a um processo que caminha para uma territorializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, como Marcos Aur\u00e9lio da Silva interpreta a partir da leitura de Francesca Izzo, aproximando o conceito de Estado ampliado daquela defini\u00e7\u00e3o hegeliana de Estado \u00e9tico.<\/p>\n<p>Nisso, ganha import\u00e2ncia o problema da tradutibilidade, como a possibilidade de traduzir linguagens filos\u00f3ficas em linguagens pol\u00edticas entre duas forma\u00e7\u00f5es sociais distintas, que \u00e9 recuperado a partir da rela\u00e7\u00e3o entre o jacobinismo franc\u00eas e a filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3 descrita no caderno 11 e instrumentalizado para pensar a revolu\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria It\u00e1lia. Evidenciando a aten\u00e7\u00e3o de Gramsci \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a nacionais e internacionais, \u00e0 especificidade de cada forma\u00e7\u00e3o social e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica dos Estados.<\/p>\n<p>Como conclus\u00e3o da obra, Marcos Aur\u00e9lio da Silva argumenta que trata-se de uma tradutibilidade espacial, que opera em diferentes escalas: \u201cdo micro espa\u00e7o da f\u00e1brica ao territ\u00f3rio, do espa\u00e7o internacional ao nacional e vice-versa\u201d (p. 102), como foi o caso dos conselhos de f\u00e1brica do\u00a0<em>Bienio Rosso<\/em>\u00a0em rela\u00e7\u00e3o aos\u00a0<em>Sovietes<\/em>\u00a0bolcheviques. E aproxima a territorializa\u00e7\u00e3o no pensamento de Gramsci \u2013 de maneira indireta \u2013 \u00e0quela de Milton Santos, poder\u00edamos at\u00e9 dizer que principalmente daquela dimens\u00e3o ativa forte do espa\u00e7o (que \u00e9, inclusive, pouco teorizada pelo ge\u00f3grafo brasileiro), de um espa\u00e7o aberto \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o social, a partir da territorializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. Em suma, uma cr\u00edtica \u00e0s \u201cvelhas concep\u00e7\u00f5es imobilistas do territ\u00f3rio\u201d, dos la\u00e7os de sangue, das \u201cfronteiras e delimita\u00e7\u00f5es\u201d \u201cperigosamente enaltecidas\u201d (p. 103) na contemporaneidade.<\/p>\n<p>Como se observa pela quantidade e complexidade dos debates expostos neste resumo que fizemos da obra, n\u00e3o s\u00e3o pequenas as tarefas a que se prop\u00f4s esse autor com\u00a0<em>Forma\u00e7\u00e3o social, territ\u00f3rio, espa\u00e7o.<\/em>\u00a0E o fato de que Marcos Aur\u00e9lio da Silva tenha sido capaz de aprofund\u00e1-los, e de at\u00e9 mesmo trazer uma perspectiva inovadora a alguns deles em pouco menos de uma centena de p\u00e1ginas, \u00e9 digno de nota.<\/p>\n<p>Para os ge\u00f3grafos, a obra oferece uma rigorosa chave interpretativa para a categoria marxista de \u201cforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico social\u201d, hoje t\u00e3o abandonada ou fragmentada na nossa \u00e1rea. Mais ainda, a obra pode aproximar leitores de diferentes disciplinas, como filosofia e ci\u00eancia pol\u00edtica (nas quais os estudos gramscianos possuem maior difus\u00e3o em nosso pa\u00eds), de uma melhor compreens\u00e3o da dimens\u00e3o espa\u00e7o-temporal atrav\u00e9s da mesma categoria.<\/p>\n<p>Por outro lado, pelo fato de ser um livro bastante sint\u00e9tico e por vezes denso, ao leitor brasileiro talvez seja dif\u00edcil em algumas passagens acompanhar com maior aprofundamento alguns debates, como as querelas entre interpreta\u00e7\u00f5es diferentes dos\u00a0<em>Quaderni,\u00a0<\/em>que muitas vezes n\u00e3o encontram tradu\u00e7\u00f5es em nossas publica\u00e7\u00f5es em portugu\u00eas. Espera-se que Marcos Aur\u00e9lio da Silva possa desenvolver e apresentar melhor essas e outras quest\u00f5es em outras obras, talvez de forma mais dilu\u00edda e acess\u00edvel a um p\u00fablico mais amplo. O que n\u00e3o se espera, contudo, \u00e9 que o autor abandone o rigor filol\u00f3gico, aspecto marcante da obra que sinaliza n\u00e3o somente a necessidade instrumental, metodol\u00f3gica, de um engajamento cuidadoso com os textos, como tamb\u00e9m um imperativo \u00e9tico de exatid\u00e3o e honestidade intelectual.<\/p>\n<p>Ainda que este livro possa parecer num primeiro olhar um exerc\u00edcio te\u00f3rico com maior tend\u00eancia ao abstrato, uma leitura mais atenta revela as preocupa\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e bastante atuais por tr\u00e1s da obra. Numa \u00e9poca em que a palavra de ordem da direita neofascista brasileira \u00e9 a \u201cescola sem partido\u201d, Marcos Aur\u00e9lio da Silva demonstra ser um \u201cprofessor com partido\u201d, um intelectual engajado com os problemas da luta pol\u00edtica de nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p>Entre eles, no \u00e2mbito da geografia, a disputa pelo car\u00e1ter emancipat\u00f3rio do legado de Milton Santos. Afinal, \u00e9 esta leitura rigorosa, atenta \u00e0s filia\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de cada conceito proposta por Marcos Aur\u00e9lio da Silva o que permite invalidar qualquer aproxima\u00e7\u00e3o da obra de Milton Santos a extravag\u00e2ncias filos\u00f3ficas de extra\u00e7\u00e3o heideggeriana e anti-iluminista. E sabe-se que n\u00e3o foram poucos os esfor\u00e7os nas \u00faltimas d\u00e9cadas, no meio da geografia brasileira, em conduzir as reflex\u00f5es do genial pensador baiano por estas vias.<\/p>\n<p><em>Forma\u00e7\u00e3o social, territ\u00f3rio, espa\u00e7o<\/em>\u00a0\u00e9 um livro que faz jus a trajet\u00f3ria do professor Marcos Aur\u00e9lio da Silva, intelectual que se insurge contra a tese do \u201cfim das grandes narrativas\u201d e se dedica a uma ci\u00eancia emancipat\u00f3ria, que promove o ideal pol\u00edtico, que lhe \u00e9 t\u00e3o caro, de unidade do g\u00eanero humano. Uma formula\u00e7\u00e3o elementar para qualquer humanista, mas cuja enuncia\u00e7\u00e3o se tornou exerc\u00edcio de ousadia e dissenso numa universidade dominada pela hegemonia do pensamento p\u00f3s-moderno e por seu labor de fragmenta\u00e7\u00e3o e particulariza\u00e7\u00e3o de toda experi\u00eancia social.<\/p>\n<p><strong>*Jefferson Adriano Maier<\/strong>\u00a0<em>\u00e9 d<\/em><em>outorando em geografia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)<\/em>.<\/p>\n<p><strong>*Leandro Moraes Vidal<\/strong>\u00a0<em>\u00e9 m<\/em><em>estre em geografia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n<p>Marcos Aur\u00e9lio da Silva.\u00a0<em>Forma\u00e7\u00e3o social, territ\u00f3rio, espa\u00e7o: uma leitura gramsciana<\/em>. Florian\u00f3polis, Editora Insular, 2025, 116 p\u00e1gs. [<strong><a href=\"https:\/\/l1nq.com\/1fPpuNp\" rel=\"noopener\">https:\/\/l1nq.com\/1fPpuNp<\/a><\/strong>]<\/p>\n<p><strong>Nota<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fcopy-37%2F#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[i]<\/sup><\/a>\u00a0Santos, M. Sociedade e espa\u00e7o: a forma\u00e7\u00e3o social como teoria e como m\u00e9todo.\u00a0<em>Boletim Paulista de Geografia<\/em>, n<sup>o<\/sup>. 54, 1977.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JEFFERSON ADRIANO MAIER\u00a0&amp;\u00a0LEANDRO MORAES VIDAL* &#8211; Coment\u00e1rio sobre o livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado de\u00a0Marcos Aur\u00e9lio da Silva. 1. 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