{"id":25316,"date":"2026-08-09T12:43:51","date_gmt":"2026-08-09T15:43:51","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25316"},"modified":"2026-08-05T17:46:36","modified_gmt":"2026-08-05T20:46:36","slug":"o-agro-e-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/08\/09\/o-agro-e-tudo\/","title":{"rendered":"O agro \u00e9 tudo?"},"content":{"rendered":"<p><strong>WESLEY LIMA<span style=\"font-size: 16px;\">\u00a0&amp;\u00a0<\/span><\/strong><strong style=\"font-size: 16px;\">FL\u00c1VIA MOURA* &#8211; <\/strong><em style=\"font-size: 16px;\">A<\/em>s pe\u00e7as publicit\u00e1rias sobre o Agro na rede Globo apresentam um campo sem gente, altamente produtivo e sem espa\u00e7o para outras experi\u00eancias. H\u00e1 um silenciamento sobre Quilombolas, camponeses, ind\u00edgenas, agricultores familiares. Esse silenciamento \u00e9 um mecanismo de controle epistemol\u00f3gico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p>Introduzimos esta pesquisa entendendo que a disputa em torno das representa\u00e7\u00f5es de campo constitui um elemento central para compreender os processos de legitima\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio na sociedade brasileira. Nessa perspectiva, buscamos analisar como a comunica\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria atua na produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de sentidos que sustentam determinadas concep\u00e7\u00f5es sobre o desenvolvimento rural, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e os sujeitos do campo.<\/p>\n<p>Para isso, realiza-se a an\u00e1lise das representa\u00e7\u00f5es (Hall, 2016) de dez pe\u00e7as publicit\u00e1rias da campanha Agro \u00e9 Tech, Agro \u00e9 Pop, Agro \u00e9 Tudo, constru\u00edda e difundida pela\u00a0<em>Rede Globo de Televis\u00e3o<\/em>, com o objetivo de identificar os principais elementos t\u00e9cnicos, pol\u00edticos e narrativos que estruturam seu discurso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos da agricultura familiar, camponesa e das \u00e1reas de Reforma Agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>De acordo com a reportagem \u201cAgroneg\u00f3cio \u00e9 valorizado em campanha da Rede Globo\u201d, do portal\u00a0<em>G1<\/em>\u00a0 a campanha publicit\u00e1ria teve in\u00edcio em junho de 2016, com a previs\u00e3o de lan\u00e7ar uma s\u00e9rie de v\u00eddeos curtos, a sua maioria de 50 segundos, abordando a rela\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio com o dia a dia do brasileiro. A campanha, logo no in\u00edcio, tinha a previs\u00e3o de dura\u00e7\u00e3o at\u00e9 junho de 2018, trazendo para o centro do conte\u00fado, temas como a produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9, frango, milho, arroz, laranja e flores, por meio da chamada \u201cAgro: a Ind\u00fastria-riqueza do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>A campanha teve seu prazo estendido, e de 2016 at\u00e9 2025 j\u00e1 passou por diversas adapta\u00e7\u00f5es, por\u00e9m sem perder seu objetivo principal, que segundo reportagem do\u00a0<em>G1<\/em>\u00a0\u00e9: \u201ctratar a import\u00e2ncia dos produtos agr\u00edcolas e das coisas do campo para a sociedade brasileira. Os produtos agr\u00edcolas est\u00e3o inseridos no dia-a-dia de todo cidad\u00e3o urbano. Procuramos tamb\u00e9m sempre citar quantos empregos aquela atividade agr\u00edcola gera e quanto ela movimenta na economia\u201d.<\/p>\n<p>As dez pe\u00e7as publicit\u00e1rias da campanha analisadas foram lan\u00e7adas em anos distintos. Nesse primeiro momento realiza-se a descri\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e pol\u00edtica, com o objetivo de identificar o discurso, entendido como aquilo que orienta as formas de falar, escrever ou se dirigir ao tema abordado.<\/p>\n<p>Analise-se pe\u00e7as veiculadas entre 2016 e 2024, com o objetivo de identificar as intera\u00e7\u00f5es discursivas ocorridas ao longo desse per\u00edodo. O recorte temporal compreende o lan\u00e7amento da campanha, em 2016, at\u00e9 a divulga\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a mais recente, em 2024. As pe\u00e7as foram escolhidas de forma n\u00e3o sistem\u00e1tica, compondo uma amostra que busca evidenciar como os discursos do agroneg\u00f3cio se reconfiguram ao longo do tempo.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p>Tabela 1 \u2013 Lista com informa\u00e7\u00f5es dos conte\u00fados analisados.<\/p>\n<div class=\"__reading_mode_table_and_collapse_button_container\">\n<div id=\"__reading_mode_collapsed_container_0\" class=\"__reading_mode_table_collapsed_class\">\n<table class=\"__reading_mode_data_table_class\" width=\"64%\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"9%\"><strong>Item<\/strong><\/td>\n<td width=\"22%\"><strong>T\u00edtulo<\/strong><\/td>\n<td width=\"21%\"><strong>Ano de lan\u00e7amento<\/strong><\/td>\n<td width=\"17%\"><strong>Dura\u00e7\u00e3o<\/strong><\/td>\n<td width=\"26%\"><strong>Link<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"9%\">01<\/td>\n<td width=\"22%\">Entenda a campanha \u201cAgro \u00e9 Tech, Agro \u00e9 Pop, Agro \u00e9 Tudo\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<td width=\"21%\">2016<\/td>\n<td width=\"17%\">50 segundos<\/td>\n<td width=\"26%\"><a href=\"https:\/\/globoplay.globo.com\/v\/5343997\/\">NESTE LINK<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"9%\">02<\/td>\n<td width=\"22%\">Brasil fatura R$ 69 bilh\u00f5es com produ\u00e7\u00e3o de madeira<\/td>\n<td width=\"21%\">2016<\/td>\n<td width=\"17%\">50 segundos<\/td>\n<td width=\"26%\"><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/agronegocios\/video\/brasil-fatura-r-69-bilhoes-com-producao-de-madeira-5402409.ghtml\">NESTE LINK<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"9%\">03<\/td>\n<td width=\"22%\">O agroneg\u00f3cio \u00e9 Caf\u00e9<\/td>\n<td width=\"21%\">2017<\/td>\n<td width=\"17%\">50 segundos<\/td>\n<td width=\"26%\"><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=itTkK7Ypb2E\">NESTE LINK<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"9%\">04<\/td>\n<td width=\"22%\">Agro: A Ind\u00fastria Riqueza do Brasil \u2013 Amendoim<\/td>\n<td width=\"21%\">2018<\/td>\n<td width=\"17%\">50 segundos<\/td>\n<td width=\"26%\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/vd-eeiok9VI?si=3bbw91uMdu5g78RW\">NESTE LINK<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"9%\">05<\/td>\n<td width=\"22%\">Agro \u00e9 Tech, Agro \u00e9 Pop, Agro \u00e9 Tudo<\/td>\n<td width=\"21%\">2019<\/td>\n<td width=\"17%\">50 segundos<\/td>\n<td width=\"26%\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/ZkNhSmE3Cis?si=gMrnrY2E0YZI4GlC\">NESTE LINK<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"9%\">06<\/td>\n<td width=\"22%\">Bem-estar animal \u00e9 agro<\/td>\n<td width=\"21%\">2020<\/td>\n<td width=\"17%\">50 segundos<\/td>\n<td width=\"26%\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/wkLoxeJ-FO8?si=t9Rqg8LYhYEEqf_x\">NESTE LINK<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"9%\">07<\/td>\n<td width=\"22%\">Agro \u2013 Carne Vegetal<\/td>\n<td width=\"21%\">2021<\/td>\n<td width=\"17%\">50 segundos<\/td>\n<td width=\"26%\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/t5CG-6Z7Qks?si=S_-wwe4xu_kJ-eJi\">NESTE LINK<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"9%\">08<\/td>\n<td width=\"22%\">O Agro est\u00e1 em tudo<\/td>\n<td width=\"21%\">2022<\/td>\n<td width=\"17%\">50 segundos<\/td>\n<td width=\"26%\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/Czpa5VLtoSw?si=iB5UrecAHsFOSppt\">NESTE LINK<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"9%\">09<\/td>\n<td width=\"22%\">Agro \u00e9 pop, agro \u00e9 tech, agro \u00e9 Paulo<\/td>\n<td width=\"21%\">2023<\/td>\n<td width=\"17%\">50 segundos<\/td>\n<td width=\"26%\"><a href=\"https:\/\/youtu.be\/cBJzch3r7Bw?si=_iPOZSINJ0hH0ww8\">NESTE LINK<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"9%\">10<\/td>\n<td width=\"22%\">Agro \u00e9 pop, Agro \u00e9 Tech, agro \u00e9 Tonga<\/td>\n<td width=\"21%\">2024<\/td>\n<td width=\"17%\">50 minutos<\/td>\n<td width=\"26%\"><a href=\"https:\/\/globoplay.globo.com\/v\/12612547\/\">NESTE LINK<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Em 2016, in\u00edcio da campanha, a pe\u00e7a analisada \u201cBrasil fatura R$69 bilh\u00f5es com produ\u00e7\u00e3o de madeira\u201d chama aten\u00e7\u00e3o para a dimens\u00e3o econ\u00f4mica, destacando os n\u00fameros da produ\u00e7\u00e3o de madeira no Brasil, posicionando com relev\u00e2ncia o nosso pa\u00eds no cen\u00e1rio produtivo mundial. E para isso, um conjunto de elementos imag\u00e9ticos comp\u00f5em o quadro. A demarca\u00e7\u00e3o da monocultura, ilustrada por imagens a\u00e9reas e terrestres, apresenta o sentido de grandiosidade dessa produ\u00e7\u00e3o, e a organiza\u00e7\u00e3o em fileiras das \u00e1rvores, em sua maioria eucaliptos, constr\u00f3i a ideia de beleza no manejo monocultural.<\/p>\n<p>As imagens extinguem a exist\u00eancia humana e s\u00e3o acompanhadas pela derrubada das mesmas \u00e1rvores, como parte do processo produtivo, e em seguida a fabrica\u00e7\u00e3o de um conjunto de itens do dia a dia das pessoas, como o papel, papel\u00e3o, os m\u00f3veis, sua presen\u00e7a na produ\u00e7\u00e3o de alimentos, na constru\u00e7\u00e3o de casas. A pe\u00e7a \u00e9 narrada por uma voz masculina, possui um texto curto, din\u00e2mico e com um ritmo acelerado. As imagens acompanham o texto, ilustrando cada frase dita pelo narrador.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a de 2017 \u201cO agroneg\u00f3cio \u00e9 Caf\u00e9\u201d, segue reafirmando a import\u00e2ncia da produ\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio para economia brasileira, anunciando n\u00fameros que ganham grande destaque na pe\u00e7a. Desta vez, a campanha se aproxima das pessoas fomentando a ideia de que o agroneg\u00f3cio garante emprego, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso: \u201ccaf\u00e9 t\u00e1 na nossa cultura, t\u00e1 no nosso futuro\u201d, enfatiza o texto narrado com objetivo de aproximar as pessoas da produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9. Similar \u00e0 pe\u00e7a analisada em 2016, a monocultura segue sendo a imagem de destaque, com grandes m\u00e1quinas, mas, desta vez, com a presen\u00e7a maior de pessoas.<\/p>\n<p>Diferente das pe\u00e7as de 2016 e 2017, a de 2018 \u201cAgro: A Ind\u00fastria Riqueza do Brasil \u2013 Amendoim\u201d, conta a hist\u00f3ria do produto no continente latino-americano e destaca a tecnologia desenvolvida pelo agroneg\u00f3cio para fortalecer essa produ\u00e7\u00e3o no Brasil. Essa ideia \u00e9 narrada e, ao mesmo tempo, imagens de m\u00e1quinas, com foco no beneficiamento e industrializa\u00e7\u00e3o do amendoim ganha destaque na pe\u00e7a. Novamente a monocultura se destaque, assim como a presen\u00e7a do produto no dia das pessoas.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a de 2019 \u201cAgro \u00e9 Tech, Agro \u00e9 Pop, Agro \u00e9 Tudo\u201d apresenta um resumo do que o agroneg\u00f3cio entende enquanto tech, pop e tudo, destacando um conjunto de a\u00e7\u00f5es que foram constru\u00eddas pelo setor no Brasil. Se percebe que existe o objetivo de reposicionar a campanha junto \u00e0s pessoas, massificando a sua ideia central de que o agro \u00e9 componente estrat\u00e9gico para o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o mesmo, se encontra em tudo que est\u00e1 presente no nosso dia a dia. Para isso, a campanha n\u00e3o inova na constru\u00e7\u00e3o da imagem.<\/p>\n<p>Segue na utiliza\u00e7\u00e3o do monocultivo e grandes extens\u00f5es de terra como base para apresentar o agroneg\u00f3cio e sua grandeza. A utiliza\u00e7\u00e3o de grandes m\u00e1quinas para colheita e irriga\u00e7\u00e3o, sem a presen\u00e7a humana no manejo dessas m\u00e1quinas. O uso de cores vibrantes como no ano anterior \u00e9 replicado, da mesma forma que a estrutura do texto e narra\u00e7\u00e3o constru\u00edda at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong><\/p>\n<p>Na pe\u00e7a do ano seguinte, \u201cBem-estar animal \u00e9 agro\u201d, a campanha chama aten\u00e7\u00e3o para a tem\u00e1tica da cria\u00e7\u00e3o e cuidado com os animais criados nas fazendas. O texto narrado explica que a cria\u00e7\u00e3o de animais \u00e9 realizada em um ambiente sem viol\u00eancia, sem estresse, iluminado, com ventila\u00e7\u00e3o, novas estruturas e destaca: \u201co bem-estar animal \u00e9 uma exig\u00eancia do consumidor, faz bem para cria\u00e7\u00e3o e para o neg\u00f3cio. Bem-estar \u00e9 agro!\u201d. Diferente das outras pe\u00e7as, a campanha n\u00e3o mostra um agroneg\u00f3cio grandioso, com grandes extens\u00f5es de terra, com monocultura. Ela destaca a cria\u00e7\u00e3o de animais de pequeno porte em um quintal de casa, poucos animais em cada quadro do v\u00eddeo, instala\u00e7\u00f5es organizadas.<\/p>\n<p>Em 2021, a pe\u00e7a \u201cAgro \u2013 Carne Vegetal\u201d \u00e9 quase uma receita explicando os ingredientes para o preparo de uma carne vegetal. Para isso, se utilizou do plano detalhe de itens produzidos pelo agroneg\u00f3cio que podem ser utilizados na produ\u00e7\u00e3o, como a soja, a beterraba e o gr\u00e3o de bico. O texto narrado chama aten\u00e7\u00e3o para os nutrientes e relaciona o consumo de carne vegetal com o bem-estar e a sa\u00fade. Al\u00e9m disso, sinaliza que o investimento na produ\u00e7\u00e3o da base para comercializa\u00e7\u00e3o da carne vegetal \u00e9 um investimento para o futuro.<\/p>\n<p>No geral, as imagens que ilustram o campo aparecem bem menos e tem uma preocupa\u00e7\u00e3o em apresentar os ingredientes da carne vegetal. H\u00e1 uma mudan\u00e7a na identidade visual da campanha, desta vez, apresentando frutas, legumes e verduras como plano de fundo da mensagem \u201cagro \u00e9 tech, agro \u00e9 pop, agro \u00e9 tudo\u201d e durante todo o v\u00eddeo um QR Code direciona as pessoas para o editorial da\u00a0<em>rede Globo<\/em>\u00a0com os principais conte\u00fados relacionados ao agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>No ano seguinte, a pe\u00e7a analisada, \u201cO Agro est\u00e1 em tudo\u201d, \u00e9 uma s\u00edntese da ideia de que o agroneg\u00f3cio est\u00e1 em tudo, em todo lugar e \u00e9 indispens\u00e1vel para o desenvolvimento humano, por estar presente em todos os momentos da vida. Para isso, a pe\u00e7a se estrutura fazendo um paralelo com imagens do campo e imagens do dia a dia de pessoas. \u201cO agro est\u00e1 na vida gente\u201d, narra o texto.<\/p>\n<p>2023 marca o in\u00edcio de uma nova fase da campanha. A pe\u00e7a, com elementos novos da identidade visual e um tratamento de cor rom\u00e2ntico, por meio da chamada \u201cAgro \u00e9 pop, agro \u00e9 tech, agro \u00e9 Paulo\u201d, chama aten\u00e7\u00e3o para a hist\u00f3ria do produtor de palma, da cidade de Ch\u00e3 Grande, em Pernambuco, Paulo Suassuna. Aqui a campanha deixa de utilizar com centralidade a chamada \u201cAgro \u00e9 tech, agro \u00e9 pop, agro \u00e9 tudo\u201d para \u201cAgro: de gente pra gente\u201d e explora a hist\u00f3ria do Paulo, mostrando simplicidade, abrindo m\u00e3o dos grandes artif\u00edcios imag\u00e9ticos que apresentam o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Na pe\u00e7a, o narrador \u00e9 um elemento do roteiro que introduz, mas, percebe-se, que o centro do discurso est\u00e1 na fala do Paulo, que conta sobre o seu processo produtivo de maneira breve, tendo ao fundo sua planta\u00e7\u00e3o de palma. Novas perspectivas entram em cena, como a valoriza\u00e7\u00e3o de imagens que retratam a policultura, a aus\u00eancia de grandes m\u00e1quinas, substitu\u00edda pela carro\u00e7a, e no texto a frase \u201cpara o pequeno produtor rural\u201d aparece pelo menos duas vezes, demarcando o p\u00fablico alvo da pe\u00e7a.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a analisada em 2024, \u201cAgro \u00e9 pop, agro \u00e9 tech, agro \u00e9 Tonga\u201d, utiliza as mesmas perspectivas imag\u00e9ticas de 2023, construindo assim um padr\u00e3o para essa nova fase da campanha. A pe\u00e7a conta, brevemente, a hist\u00f3ria de Tonga Gouveia, criador de b\u00fafalos na Ilha do Maraj\u00f3, localizada no estado do Par\u00e1. O roteiro segue a mesma estrutura e elementos analisados no ano anterior, por\u00e9m, chamando aten\u00e7\u00e3o para o bioma amaz\u00f4nico e apresentando curiosidades sobre a cria\u00e7\u00e3o de b\u00fafalos, relacionando o agroneg\u00f3cio tamb\u00e9m com o \u201cturismo sustent\u00e1vel\u201d. Novamente a voz do narrador introduz o tema, mas o centro do v\u00eddeo \u00e9 o depoimento do produtor.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong><\/p>\n<p>As dez pe\u00e7as analisadas possuem um formato padr\u00e3o e apresentam a import\u00e2ncia dos produtos agr\u00edcolas vindos do campo para consumo da sociedade brasileira. Ano ap\u00f3s ano, percebe-se que a campanha foi se adaptando. Em primeiro momento, nos anos de 2016 e 2017, h\u00e1 uma necessidade de posicionar a import\u00e2ncia do setor na economia e no desenvolvimento social. Al\u00e9m disso, as imagens utilizadas apresentam um agroneg\u00f3cio mecanizado, tecnol\u00f3gico. As imagens a\u00e9reas constroem um sentido de imensid\u00e3o, que acompanhada por um padr\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o produtiva, como as \u00e1rvores enfileiradas e as colheitadeiras em linha reta, v\u00e3o gerando unidade e um cen\u00e1rio agrad\u00e1vel de se ver.<\/p>\n<p>Observa-se que a propaganda, dentro da campanha, busca criar uma imagem moderna e positiva do sistema capitalista no campo, ao mesmo tempo em que oculta as desigualdades presentes no Brasil rural, valorizando a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, entendida por Pompeia (2020) como um fundamento pol\u00edtico do agro. Nesse sentido, h\u00e1 ainda a oculta\u00e7\u00e3o proposital das contradi\u00e7\u00f5es do modelo de produ\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio, como as doen\u00e7as causadas pelo uso intensivo de agrot\u00f3xicos, as rela\u00e7\u00f5es de superexplora\u00e7\u00e3o no trabalho e os impactos no meio ambiente, por exemplo.<\/p>\n<p>Em 2018, 2019 e 2020, h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o maior da campanha de conectar a produ\u00e7\u00e3o do agro com o dia a dia das pessoas, para isso, \u00e9 escolhido um produto e relaciona-o com as pessoas, sinalizando as fases da produ\u00e7\u00e3o (plantio, colheita, industrializa\u00e7\u00e3o\u2026) ou a import\u00e2ncia nutricional e cultural de determinado produto. Isso segue sendo uma linha da campanha nos anos seguintes, pois focam no di\u00e1logo com um p\u00fablico preocupado com o bem-estar animal, com a qualidade da produ\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, com o uso de agrot\u00f3xicos. Agatha Azevedo (2019), explica que essa preocupa\u00e7\u00e3o da campanha \u00e9 uma estrat\u00e9gia para aproximar um p\u00fablico engajado nas pautas ambientais, mas tem pouca ader\u00eancia na pr\u00e1tica produtiva do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, pode-se afirmar que o caminho proposto pela campanha at\u00e9 aqui apresenta um campo sem gente, altamente produtivo e sem espa\u00e7o para outras experi\u00eancias de produ\u00e7\u00e3o de alimentos. H\u00e1 um silenciamento (Amorim, 2004) de outras exist\u00eancias sociais, culturais e pol\u00edticas. Quilombolas, camponeses, ind\u00edgenas, agricultores familiares s\u00e3o exclu\u00eddos da campanha. Esse silenciamento, segundo Mar\u00edlia Amorim (2004) n\u00e3o se d\u00e1 apenas pela aus\u00eancia de fala, mas pela deslegitima\u00e7\u00e3o do que \u00e9 dito ou constru\u00eddo, quando a linguagem \u00e9 ignorada, rebaixada ou considerada inv\u00e1lida nos espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o do saber e do poder. Ela prop\u00f5e pensar o silenciamento como um mecanismo de controle epistemol\u00f3gico e pol\u00edtico, especialmente sobre os grupos historicamente marginalizados.<\/p>\n<p>Para o agroneg\u00f3cio, o silenciamento de outras perspectivas produtivas no campo \u00e9 estrat\u00e9gica para a manuten\u00e7\u00e3o de sua hegemonia, construindo discursos e sentidos poss\u00edveis. Pensando nisso, os estudos de Hall (2016a, 2016b) afirmam que todo discurso \u00e9 composto por dimens\u00f5es pol\u00edticas e sociais, que se implicam na vida cotidiana a partir de rela\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, de poder, constituindo padr\u00f5es hegem\u00f4nicos de representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong><\/p>\n<p>Assim como o discurso \u2018rege\u2019 certas formas de falar sobre um assunto, definindo um modo de falar, escrever ou se dirigir a esse tema de forma aceit\u00e1vel e intelig\u00edvel, ent\u00e3o tamb\u00e9m, por defini\u00e7\u00e3o, ele \u2018exclui\u2019, limita e restringe outros modos. (Hall, 2016a, p. 80)<\/p>\n<p>Azevedo (2019), ao pesquisar as pe\u00e7as publicit\u00e1rias do agroneg\u00f3cio \u201cTodo Brasileiro tem o p\u00e9 na terra\u201d e \u201cO Brasil acredita no agroneg\u00f3cio\u201d, chama aten\u00e7\u00e3o para o fato dos v\u00eddeos convocarem para um debate interseccional pela aus\u00eancia de mulheres, jovens, LGBTQIA+ e pessoas negras. Esse fator tamb\u00e9m aparece nas pe\u00e7as analisadas aqui.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 objeto da nossa pesquisa aprofundar esse debate, mas \u00e9 importante destacar que a campanha reafirma a ideia de um campo hegemonizado por homens, brancos e cisg\u00eaneros. Marcadores patriarcais que violentam outras express\u00f5es e exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Nos anos 2023 e 2024, a campanha ganha uma nova roupagem. Existem similaridades na constru\u00e7\u00e3o da imagem e do cen\u00e1rio com os anos anteriores, mas podemos afirmar que apresenta novas perspectivas acerca da campanha. Desta vez, o agro abre espa\u00e7o para narrar hist\u00f3rias de vida; apresentar um campo mais diverso, com gente e policultural; fala de experi\u00eancias de mecaniza\u00e7\u00e3o de menor porte; e cita a agricultura familiar como parte do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Se anteriormente, o silenciamento (Amorim, 2004) de vozes se posicionava como estrat\u00e9gia de atua\u00e7\u00e3o do agro para sua hegemonia, desta vez, o objetivo \u00e9 sinalizar que o pequeno agricultor, com suas experi\u00eancias produtivas tamb\u00e9m fazem parte do agroneg\u00f3cio. Mas, \u00e9 todo agricultor familiar? N\u00e3o. As pe\u00e7as analisadas dos dois \u00faltimos anos apresentam hist\u00f3rias que focam numa ideia de empreendedorismo, com vistas para o desenvolvimento individual de sua propriedade. Vale destacar ainda, que os recursos t\u00e9cnicos utilizados na primeira fase da campanha continuam. Imagens a\u00e9reas, mostrando uma imensid\u00e3o de terra cultivada, demarcam unidade com os anos anteriores.<\/p>\n<p>Dito isso, entende-se que esse novo momento da campanha \u00e9 composto por um discurso que opera a partir de dimens\u00f5es pol\u00edticas e sociais (Hall, 2016a), com o objetivo de apresentar um novo agroneg\u00f3cio. Desta vez, n\u00e3o altamente tecnol\u00f3gico e grandioso, mas que opera tamb\u00e9m a partir das pequenas produ\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias empreendedoras no campo brasileiro. Esse discurso pode aproximar a agricultura familiar, camponesa ou de reforma agr\u00e1ria, das ideias defendidas pelo agroneg\u00f3cio e do seu projeto, construindo uma identidade agro.<\/p>\n<p><strong>6.<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria brasileira, o agroneg\u00f3cio tem se consolidado como um setor produtivo hegem\u00f4nico atuando em duas dimens\u00f5es estrat\u00e9gicas: fomentando a coer\u00e7\u00e3o contra os seus inimigos de classe e construindo consensos, por meio de uma incid\u00eancia pol\u00edtica e discursiva atrav\u00e9s de aparelhos culturais, educacionais e de comunica\u00e7\u00e3o (Ch\u00e3, 2018).<\/p>\n<p>Na comunica\u00e7\u00e3o, a campanha da\u00a0<em>Rede Globo<\/em>\u00a0\u201cAgro \u00e9 tech, agro \u00e9 pop, agro \u00e9 tudo\u201d, estruturada a favor do projeto defendido pelo agroneg\u00f3cio para o campo brasileiro, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, que ocupa os comerciais da emissora de maneira expl\u00edcita h\u00e1 oito anos. A an\u00e1lise dessas propagandas contribui para pensar na ressignifica\u00e7\u00e3o dos sentidos de campo, a constru\u00e7\u00e3o de uma representa\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o e da defesa do agroneg\u00f3cio ao longo do tempo, conectando a sua atua\u00e7\u00e3o com o todo da vida e projetando-o no campo brasileiro.<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 central destacar que o agroneg\u00f3cio no Brasil, a partir do campo das ideias, tem produzido sentidos, discursos e representa\u00e7\u00f5es, ou seja, uma constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, social e ideol\u00f3gica que define como \u00e9 o rural (Carniglia, 2021).<\/p>\n<p>Para isso, identifica-se que nas dez pe\u00e7as analisadas existe uma generaliza\u00e7\u00e3o da agricultura, apagando suas regionalidades e diversidades, tanto na produ\u00e7\u00e3o quanto na linguagem. O campo \u00e9 retratado como altamente produtivo, mas vazio de pessoas e de outras formas de cultivo. Esse processo gera um silenciamento (Amorim, 2004) de experi\u00eancias sociais, culturais e pol\u00edticas de outros atores, excluindo quilombolas, camponeses, ind\u00edgenas e agricultores familiares.<\/p>\n<p>Para Mar\u00edlia Amorim (2004), esse silenciamento \u00e9 um mecanismo de controle pol\u00edtico. Entende-se esse silenciamento como um aspecto fundamental para a constru\u00e7\u00e3o de hegemonia, a partir de uma representa\u00e7\u00e3o de campo (Hall, 2016b) conectado aos interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos do setor.<\/p>\n<p>\u00c9 relevante sinalizar ainda que a campanha se altera ao longo dos anos, apresentando novas perspectivas discursivas. Nos \u00faltimos dois anos, o objetivo \u00e9 apresentar o pequeno agricultor e como suas experi\u00eancias produtivas tamb\u00e9m fazem parte do agroneg\u00f3cio, com foco em um discurso meritocr\u00e1tico e individualista. No lugar das fam\u00edlias camponesas est\u00e1 a figura hegem\u00f4nica do homem branco de camisa xadrez, simbolizando o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p><strong>*Wesley Lima<\/strong>,\u00a0<em>jornalista, pesquisador e educador popular, \u00e9 mestrando em comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Maranh\u00e3o (UFMA)<\/em>.<\/p>\n<p><strong>*Fl\u00e1via Moura<\/strong>\u00a0<em>\u00e9 professora do Curso de R\u00e1dio e TV\/Audiovisual da Universidade Federal do Maranh\u00e3o (UFMA)<\/em>.<\/p>\n<p>Fonte: O agro \u00e9 tudo? &#8211; &#8211; Link da mat\u00e9ria: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-agro-e-tudo\/?utm_source=newsletter&amp;utm_medium=email&amp;utm_campaign=novas_publicacoes&amp;utm_term=2026-07-29<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>WESLEY LIMA\u00a0&amp;\u00a0FL\u00c1VIA MOURA* &#8211; As pe\u00e7as publicit\u00e1rias sobre o Agro na rede Globo apresentam um campo sem gente, altamente produtivo e sem espa\u00e7o para outras experi\u00eancias. 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