{"id":25203,"date":"2026-06-03T12:40:39","date_gmt":"2026-06-03T15:40:39","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25203"},"modified":"2026-06-03T12:40:39","modified_gmt":"2026-06-03T15:40:39","slug":"brasil-europa-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/06\/03\/brasil-europa-china\/","title":{"rendered":"Brasil, Europa, China"},"content":{"rendered":"<p><strong>JOS\u00c9 LU\u00cdS FIORI* &#8211; <\/strong>Enquanto a Europa aceitava sua vassalagem, o Brasil resistia e a China anunciava uma nova ordem. O eixo do poder global desloca-se definitivamente, enterrando a era da hegemonia unilateral.<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois da retirada de Donald Trump da 51\u00aa. C\u00fapula do G7, em Kananaskis, no Canad\u00e1, e da aceita\u00e7\u00e3o europeia das exig\u00eancias americanas na 38\u00aa. C\u00fapula da OTAN, realizada na cidade Haia, na Holanda, o presidente norte-americano submeteu a Europa a mais um espet\u00e1culo vexaminoso no seu resort de Turnberry, na Esc\u00f3cia.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante um fim de semana de f\u00e9rias, e entre uma partida e outra de golfe, recebeu em sua casa particular, para uma cerim\u00f4nia de \u201cbeija-m\u00e3o\u201d quase medieval, o primeiro-ministro brit\u00e2nico, Sir Keir Starmer, ao qual negou o pedido de revis\u00e3o da tarifa de 50% que o pr\u00f3prio Donald Trump havia imposto \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es inglesas de a\u00e7o e o alum\u00ednio ingleses para o mercado norte-americano.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo em seguida, recebeu a Sra. Ursula von der Leyen, presidenta da Comiss\u00e3o Europeia, e lhe imp\u00f4s um \u201cacordo comercial\u201d escorchante, um verdadeiro \u201ctratado infame\u201d, do tipo que os europeus costumavam impor aos asi\u00e1ticos e \u00e0 China, em particular, no s\u00e9culo XIX. Pelo novo \u201cacordo\u201d, a Uni\u00e3o Europeia comprometeu-se a \u201czerar\u201d as tarifas alfandeg\u00e1rias de todas as importa\u00e7\u00f5es industriais dos EUA, e aceitou a imposi\u00e7\u00e3o de uma tarifa linear de 15% sobre todas suas exporta\u00e7\u00f5es para o mercado norte-americano.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, a Uni\u00e3o Europeia comprometeu-se a comprar U$ 750 bilh\u00f5es de g\u00e1s liquefeito, petr\u00f3leo e energia nuclear produzidos nos EUA, aceitando investir U$ 600 bilh\u00f5es, at\u00e9 2028, em setores estrat\u00e9gicos da economia estadunidense. Por fim, jurou n\u00e3o taxar as redes sociais americanas, um tema sobre o qual Donald Trump vem insistindo e amea\u00e7ando constantemente. E a clem\u00eancia pedida pelos europeus, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tarifa de 50% sobre seu a\u00e7o e alum\u00ednio, foi jogada para algum momento indeterminado do futuro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, se somarmos os termos desse \u201cacordo comercial\u201d ao compromisso assumido na reuni\u00e3o de Haia pelos pa\u00edses europeus da OTAN \u2013 de gastar 5% de seus or\u00e7amentos anuais em defesa, e a maior parte deste valor na compra de armamentos norte-americanos \u2013, podemos concluir, sem nenhum exagero, que a Europa acabou de aceitar e assumir plenamente, em 2025, sua condi\u00e7\u00e3o de \u201cvassala militar\u201d dos EUA, agregando-lhe sua nova condi\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>dominium<\/em>\u00a0econ\u00f4mico norte-americano \u2013 mesma posi\u00e7\u00e3o ocupada, no passado, por Canad\u00e1, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia com rela\u00e7\u00e3o ao antigo Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De forma paralela, e um pouco antes do seu passeio na Esc\u00f3cia, Donald Trump anunciou sua decis\u00e3o, absolutamente unilateral, de impor uma tarifa linear de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados para os EUA. Uma san\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sem nenhum motivo comercial, porque o Brasil \u00e9 deficit\u00e1rio no com\u00e9rcio com os EUA h\u00e1 muitos anos, como todos sabem e j\u00e1 disseram reiteradas vezes.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, o motivo alegado por Donald Trump \u2013 em defesa do ex-presidente brasileiro que foi condenado pela tentativa de um golpe de Estado com assassinato de seus advers\u00e1rios \u2013 tamb\u00e9m parece ser muito artificial e for\u00e7ado, uma vez que a figura desse ex-presidente \u00e9 inteiramente irrelevante do ponto de vista do projeto global de Donald Trump.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste sentido, tudo indica que a verdadeira motiva\u00e7\u00e3o do ataque americano contra o Brasil seja uma retalia\u00e7\u00e3o contra a pol\u00edtica externa do governo brasileiro de aproxima\u00e7\u00e3o com a China e de lideran\u00e7a dentro do grupo do BRICS. E talvez, ainda mais de retalia\u00e7\u00e3o contra a posi\u00e7\u00e3o brasileira de den\u00fancia do genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o palestina da Faixa de Gaza, por parte do governo de Israel.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chama aten\u00e7\u00e3o, neste sentido, que o an\u00fancio de Donald Trump da san\u00e7\u00e3o contra o Brasil tenha sido feito no mesmo momento em que o presidente norte-americano recebia na Casa Branca o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para reafirmar seu apoio incondicional \u00e0 pol\u00edtica israelense de exterm\u00ednio e\/ou expuls\u00e3o dos palestinos da Faixa de Gaza. Ocasi\u00e3o em que o primeiro-ministro de Israel (acusado de \u201cgenoc\u00eddio\u201d no Tribunal Internacional de Haia) fez a pat\u00e9tica proposta de concess\u00e3o do Pr\u00eamio Nobel da Paz ao seu principal aliado e financiador deste mesmo massacre que vem sendo denunciado permanentemente pelo presidente brasileiro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Refor\u00e7ando esta hip\u00f3tese, ali\u00e1s, tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o o fato de que uma semana antes do an\u00fancio da visita de Benjamin Netanyahu a Washington e do \u201ctarifa\u00e7o punitivo\u201d de Donald Trump contra o Brasil, a revista\u00a0<em>The Economist<\/em>\u00a0tivesse publicado uma mat\u00e9ria \u2013 na edi\u00e7\u00e3o do dia 29 de junho \u2013 acusando a pol\u00edtica externa do governo Lula de ser \u201cincoerente\u201d e \u201chostil ao Ocidente\u201d, exatamente por sua den\u00fancia e condena\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio de Gaza e do ataque militar de Israel contra o Ir\u00e3.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a revista inglesa, essas posi\u00e7\u00f5es teriam colocado o Brasil numa condi\u00e7\u00e3o de isolamento dentro do \u201cmundo ocidental\u201d \u2013 ou seja, para bom entendedor, de \u201cisolamento\u201d com rela\u00e7\u00e3o a Israel, \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha e aos Estados Unidos. Quando se leem os acontecimentos desta forma, entende-se melhor a facilidade com que a\u00a0<em>The Economist<\/em>\u00a0mudou sua posi\u00e7\u00e3o frente ao Brasil, ao lado de v\u00e1rios outros jornais europeus e norte-americanos, incluindo o\u00a0<em>The New York Times<\/em>. Estes passaram a elogiar a resposta do governo brasileiro frente ao \u201ctarifa\u00e7o\u201d de Donald Trump, por sua corajosa resist\u00eancia ao ass\u00e9dio e \u00e0s amea\u00e7as comerciais norte-americanas, reconhecendo a lideran\u00e7a internacional do presidente Lula e sua altivez na defesa da soberania e da democracia brasileiras.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jornal espanhol\u00a0<em>El pa\u00eds<\/em>\u00a0chegou a classificar Lula como o \u00fanico governante de um pa\u00eds ocidental que foi capaz de resistir aos del\u00edrios imperiais de Donald Trump, ao declarar em alto e bom som, que \u201cTrump havia sido eleito para governar os EUA, e n\u00e3o para ser o imperador do mundo\u201d. E a pr\u00f3pria\u00a0<em>The Economist<\/em>, na edi\u00e7\u00e3o seguinte, em 28 de agosto, afirmou na sua mat\u00e9ria de capa que \u201co Brasil estava oferecendo aos Estados Unidos uma li\u00e7\u00e3o de maturidade democr\u00e1tica\u201d.<sup>[1]<\/sup><\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>3.<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, tudo parece confirmar que o verdadeiro motivo do ataque ao Brasil n\u00e3o foi o com\u00e9rcio nem a defesa da \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d, mas sua pol\u00edtica externa ao lado da China e do BRICS, e em particular, contra o genoc\u00eddio praticado pelo governo israelense de Benjamin Netanyahu. Os EUA s\u00e3o a maior pot\u00eancia econ\u00f4mica, financeira e militar do mundo e, portanto, sua rela\u00e7\u00e3o com o Brasil, deste ponto de vista, ser\u00e1 assim\u00e9trica ainda por muito tempo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso limita a possibilidade de o Brasil retaliar economicamente os EUA, como fizeram os chineses, obrigando os norte-americanos a recuarem depois do seu ataque inicial. Mesmo assim o presidente brasileiro n\u00e3o se deixou achincalhar, como aconteceu com os l\u00edderes europeus, e se prop\u00f4s a negociar, colocando-se aberto ao di\u00e1logo, mas sem se humilhar frente ao presidente americano.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais do que isso, na sua condi\u00e7\u00e3o de atual presidente do grupo dos BRICS, vem promovendo uma mobiliza\u00e7\u00e3o de suas principais lideran\u00e7as, buscando coordenar uma resposta coletiva que impe\u00e7a que Donald Trump separe seus Estados membros, jogando uns contra os outros e negociando com cada um em separado, usufruindo de sua assimetria de poder.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, cabe observar que, neste momento, ap\u00f3s a rendi\u00e7\u00e3o incondicional aos EUA, v\u00e1rios governos europeus enfrentam uma impopularidade crescente, enquanto a economia europeia afunda cada vez mais na recess\u00e3o ou estagna\u00e7\u00e3o prolongada, e a economia brasileira segue crescendo. E em agosto, um m\u00eas depois do tarifa\u00e7o de Donald Trump, o Brasil viu suas exporta\u00e7\u00f5es para os EUA terem uma queda natural de 18,5%, mas o com\u00e9rcio exterior brasileiro, como um todo, registrou um super\u00e1vit de U$ 6,1 bilh\u00f5es \u2013 um aumento de 35,8% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2024 \u2013 e as pr\u00f3prias exporta\u00e7\u00f5es cresceram 3,9%, totalizando U$ 29,86 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma extraordin\u00e1ria vit\u00f3ria da coragem e altivez frente a covardia e humilha\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as europeias atuais, talvez a gera\u00e7\u00e3o mais med\u00edocre da hist\u00f3ria pol\u00edtica da Europa desde a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, no campo diplom\u00e1tico e geopol\u00edtico, a diplomacia brasileira (e o presidente Lula, em particular) obtiveram uma grande vit\u00f3ria ao promover a reuni\u00e3o extraordin\u00e1ria dos pa\u00edses membros do BRICS do dia 8 de setembro, com a participa\u00e7\u00e3o virtual dos l\u00edderes de China, R\u00fassia, \u00c1frica do Sul, Egito, Ir\u00e3, e Indon\u00e9sia, al\u00e9m do chanceler da \u00cdndia, do Vice-Ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de Eti\u00f3pia e do pr\u00edncipe herdeiro dos Emirados \u00c1rabes Unidos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0Ocasi\u00e3o em que reafirmaram sua cr\u00edtica conjunta ao tarifa\u00e7o de Donald Trump e a todo tipo de san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas unilaterais aplicadas pelos EUA e pela Uni\u00e3o Europeia contra os demais pa\u00edses e economias do sistema internacional. Mais um ponto a favor da resist\u00eancia e da diplomacia brasileira.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>4.<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos oito primeiros meses de 2025, Donald Trump ocupou a primeira p\u00e1gina dos principais jornais do mundo, praticamente todos os dias e semanas, com seu hiperativismo midi\u00e1tico e todo o tipo de decis\u00f5es e iniciativas surpreendentes, unilaterais e arbitr\u00e1rias na maioria dos casos. Muitas delas, inclusive, n\u00e3o foram implementadas ou nunca existiram.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E outras tantas criaram enorme barulho, mas depois ficaram pelo meio do caminho. \u00c9 o caso de seu an\u00fancio da anexa\u00e7\u00e3o do Canad\u00e1 e da Groenl\u00e2ndia ao territ\u00f3rio dos EUA, ou suas bravatas pacifistas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s guerras da Ucr\u00e2nia e de Gaza. E ainda, sua recente decis\u00e3o de marcar data e convocar os presidentes da R\u00fassia e da Ucr\u00e2nia para uma reuni\u00e3o promovida por ele, mas que foi rejeitada pelo presidente ucraniano e solenemente ignorada pelo presidente Vladimir Putin\u2026<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, o que aconteceu na China entre os dias 31 de agosto e 3 de setembro de 2025 foi algo completamente diferente, n\u00e3o passou pela vontade ou decis\u00e3o dos EUA e deixou Donald Trump inteiramente marginalizado, paralisado e sem capacidade de resposta frente ao gigantesco espet\u00e1culo promovido pelos chineses.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante esses quatro dias, o mundo teve a certeza de que algo novo acabara de acontecer, sacramentando o decl\u00ednio de uma \u201cera euroc\u00eantrica\u201d e de uma ordem mundial \u201cunipolar\u201d, junto com o nascimento de um novo polo de poder mundial, com capacidade suficiente e projeto pr\u00f3prio de reorganiza\u00e7\u00e3o do mundo e das rela\u00e7\u00f5es entre suas v\u00e1rias civiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A 24\u00aa. C\u00fapula da Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai, realizada na cidade de Tianjin nos dias 31 de agosto e 1\u00ba de setembro, e o grandioso desfile militar realizado em Pequim no dia 3 de setembro, em comemora\u00e7\u00e3o aos 80 Anos da Vit\u00f3ria da China contra o Jap\u00e3o, e contra o fascismo na II Guerra Mundial, foram antes que nada dois espet\u00e1culos programados e coreografados nos mais m\u00ednimos detalhes \u2013 como na tradi\u00e7\u00e3o milenar dos grandes rituais chineses, com seus s\u00edmbolos e significados que refletem a vis\u00e3o de seu povo a respeito da ordem social e c\u00f3smica, e que cont\u00eam mensagens que s\u00e3o praticamente inacess\u00edveis para quem n\u00e3o possui a chave para decifr\u00e1-las.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, do ponto de vista da crise contempor\u00e2nea da ordem internacional e do caos geopol\u00edtico instalado pelo decl\u00ednio da Europa, da desconstru\u00e7\u00e3o da hegemonia americana e do mandonismo arbitr\u00e1rio de Donald Trump, esses dois eventos emitiram alguns sinais muito claros, atrav\u00e9s de gestos e palavras, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s do sil\u00eancio imponente das novas armas produzidas e apresentadas ao mundo no desfile da Pra\u00e7a da Paz Celestial.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>5.<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em primeiro lugar, destacam-se a dura\u00e7\u00e3o da visita e o calor da recep\u00e7\u00e3o dada por Xi Jinping ao presidente russo, Vladimir Putin, deixando claro que sua amizade \u00e9 indestrut\u00edvel e que a alian\u00e7a estrat\u00e9gica entre R\u00fassia e China n\u00e3o foi, nem ser\u00e1 abalada pela reaproxima\u00e7\u00e3o entre a R\u00fassia e os EUA de Donald Trump. Vladimir Putin e Xi Jinping defenderam as mesmas posi\u00e7\u00f5es na C\u00fapula da OCX e estiveram lado a lado no desfile militar, al\u00e9m de terem mantido v\u00e1rias conversas privadas e amistosas durante os cinco dias da visita do presidente russo \u00e0 China.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seguida, cabe destacar a entrada na confer\u00eancia, de m\u00e3os dadas, de Vladimir Putin e do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, at\u00e9 se encontrarem com o primeiro-ministro chin\u00eas, com quem se deram as m\u00e3os, formando um c\u00edrculo inimagin\u00e1vel alguns anos ou meses atr\u00e1s \u2013 tr\u00eas dos maiores e mais populosos pa\u00edses do mundo unificados pelo ataque econ\u00f4mico desastroso de Donald Trump contra a economia indiana.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, como n\u00e3o ver a import\u00e2ncia da chegada ao desfile militar do dia 3 de setembro, lado a lado, de Xi Jinping, Vladimir Putin e Kim-Jong-Un, representando os tr\u00eas pa\u00edses que lutaram juntos contra os EUA na Guerra da Coreia entre 1950 e 1953, logo depois do fim da II Guerra Mundial. Passaram uma imagem e decis\u00e3o de retorno e releitura de uma hist\u00f3ria que eles consideram ter sido interrompida ou distorcida pala narrativa das pot\u00eancias ocidentais lideradas pelos EUA.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na abertura da C\u00fapula da OCX, e frente aos seus convidados da Pra\u00e7a Celestial, o primeiro-ministro Xi Jinping fez dois pronunciamentos que dever\u00e3o passar para a hist\u00f3ria, propondo a cria\u00e7\u00e3o de uma nova ordem mundial baseada na igualdade, na consulta m\u00fatua, no respeito pela diversidade das civiliza\u00e7\u00f5es e na busca do desenvolvimento econ\u00f4mico e na luta conjunta por um futuro compartilhado.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Criticou veementemente todo tipo de \u201chegemonismo\u201d e \u201cpol\u00edtica de for\u00e7a\u201d, numa refer\u00eancia velada ao \u201csupremacismo europeu\u201d e \u00e0 linguagem utilizada constantemente por Donald Trump e seu grupo de governo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Xi Jinping foi mais al\u00e9m e prop\u00f4s diretamente a \u201ciniciativa de uma nova governan\u00e7a mundial\u201d, baseada em cinco princ\u00edpios fundamentais: (i) o respeito pela soberania de todos os Estados, independentemente de sua for\u00e7a; (ii) o respeito ao direito internacional; (iii) a pr\u00e1tica igualit\u00e1ria de um multilateralismo renovado; (iv) a cria\u00e7\u00e3o de uma ordem voltada para a prote\u00e7\u00e3o e desenvolvimento das pessoas, na sua condi\u00e7\u00e3o universal de seres humanos, e n\u00e3o apenas de indiv\u00edduos; e por fim, (v) a ado\u00e7\u00e3o de medidas concretas e imediatas, com o objetivo \u00faltimo de obter a paz entre os povos baseada no desenvolvimento conjunto e cooperativo de todos, sem nenhum tipo de domina\u00e7\u00e3o e colonialismo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A C\u00fapula da OCX reuniu cerca de 20 chefes de Estados membros do maior bloco regional do mundo \u2013 entre os quais Turquia, Egito, Ir\u00e3 e outros \u2013, com cerca de 42% da popula\u00e7\u00e3o mundial e 24% da \u00e1rea territorial global.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>6.<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desfile militar, por sua vez, apresentou ao mundo as novas armas chinesas, que podem projetar seu poder ao redor do globo em caso de guerra, incluindo o m\u00edssil nuclear Dogfeng 5, capaz de atingir seus alvos a 20 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia \u2013 ou seja, qualquer ponto da Eur\u00e1sia ou do \u201chemisf\u00e9rio ocidental\u201d \u2013 ao lado de seus novos drones submarinos de grande porte e m\u00edsseis anti-navio, capazes de desbloquear em conjunto o cerco mar\u00edtimo do Sul do Pac\u00edfico, sustentado pelas for\u00e7as navais de EUA e Gr\u00e3-Bretanha junto com Austr\u00e1lia, Jap\u00e3o e Coreia do Sul.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de iniciar-se o desfile desses armamentos e de mais alguns milhares de soldados, do alto do pr\u00e9dio da entrada da Cidade Proibida \u2013 no mesmo lugar em que Mao Tse Tung anunciou ao mundo, em 1949, a funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Popular da China \u2013, Xi Jinping tamb\u00e9m anunciou ao mundo que a China se colocava naquele momento ao lado da paz e da civiliza\u00e7\u00e3o, e se propunha a liderar, junto com os demais povos do Oriente e do Ocidente, uma nova ordem global.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, a China de Xi Jinping prop\u00f5e que seja feita uma releitura do papel chin\u00eas na Segunda Guerra Mundial e na derrota do fascismo, papel que foi literalmente negado ou cancelado depois da exclus\u00e3o da China de Mao Tse Tung do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, em 1949 \u2013 exclus\u00e3o que foi feita de forma absolutamente arbitr\u00e1ria e autorit\u00e1ria pelas chamadas \u201cpot\u00eancias ocidentais\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E agora, ao lado desta releitura, Xi Jinping est\u00e1 reivindicando liderar a reorganiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas, sem destru\u00ed-lo \u2013 pelo contr\u00e1rio, com a participa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria e proporcional de todos os povos, e com o fim definitivo da pretens\u00e3o hegem\u00f4nica das antigas pot\u00eancias europeias e dos Estados Unidos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, se fosse necess\u00e1rio identificar a mensagem principal desses tr\u00eas dias em que a China iluminou o mundo, \u00e9 que ela e seus grandes aliados est\u00e3o dispostos a reorganizar e sustentar uma nova ordem mundial pac\u00edfica e igualit\u00e1ria, que respeite as v\u00e1rias civiliza\u00e7\u00f5es que coexistem na face da Terra.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma ordem ancorada na estabilidade, na credibilidade dos valores, institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas historicamente comprovadas do pacifismo e da estabilidade chinesas. Por isso talvez a China tenha decidido fazer sua grande demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a militar exatamente na majestosa Pra\u00e7a da Paz Celestial.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>*Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori<\/strong><em>\u00a0\u00e9 professor em\u00e9rito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de<\/em>\u00a0Uma teoria do poder global (<em>Vozes<\/em>) [<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3YBLfHb\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>https:\/\/amzn.to\/3YBLfHb<\/strong><\/a>]<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado originalmente no Boletim n<sup>o<\/sup>. 13, setembro de 2025, do\u00a0<em><a href=\"https:\/\/nubea.ufrj.br\/images\/Observatorio\/Boletim_13_Setembro_2025.pdf\" rel=\"noreferrer noopener\">Observat\u00f3rio internacional do s\u00e9culo XXI<\/a><\/em>.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nota<\/strong><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[1] Braun, J. \u201cO que o Brasil pode ensinar \u00e0 Am\u00e9rica\u201d,\u00a0<em>The Economist<\/em>, 28 ago. 2025.<\/p>\n<p>Fonte: Brasil, Europa, China &#8211; &#8211; Link da mat\u00e9ria: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/brasil-europa-china\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOS\u00c9 LU\u00cdS FIORI* &#8211; Enquanto a Europa aceitava sua vassalagem, o Brasil resistia e a China anunciava uma nova ordem. 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