{"id":25096,"date":"2026-02-27T14:05:13","date_gmt":"2026-02-27T17:05:13","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25096"},"modified":"2026-02-27T14:05:13","modified_gmt":"2026-02-27T17:05:13","slug":"as-lutas-no-chao-de-cidade-em-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2026\/02\/27\/as-lutas-no-chao-de-cidade-em-2026\/","title":{"rendered":"As lutas no \u201cch\u00e3o de cidade\u201d em 2026"},"content":{"rendered":"<p><strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong> &#8211; Renomada urbanista analisa os desafios do governo Lula nas pol\u00edticas urbanas. Cr\u00edtica uma esquerda que d\u00e1 as costas ao debate sobre o futuro das cidades, onde vivem 85% da popula\u00e7\u00e3o. E prop\u00f5e caminhos para unir as lutas sociais neste ano eleitoral.<\/p>\n<p>Este texto faz parte da newsletter\u00a0<strong>Outras Cidades<\/strong>, novo projeto do\u00a0<em>Outras Palavras<\/em>\u00a0que traz as principais informa\u00e7\u00f5es que andam rolando sobre os conflitos pol\u00edticos, econ\u00f4micos, sociais e culturais da vida urbana no Brasil e no mundo.\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrascidades\/\">Inscreva-se aqui e ajude a espalhar essa iniciativa.<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Uma pensadora inquieta. Talvez esta seja uma boa defini\u00e7\u00e3o da urbanista Erm\u00ednia Maricato. H\u00e1 mais de cinco d\u00e9cadas, ela acompanha\u00a0<em>de perto<\/em>\u00a0a pol\u00edtica urbana brasileira, em v\u00e1rias trincheiras: como pesquisadora em renomadas universidades; botando a m\u00e3o na massa ao lado dos ativismos urbanos; e em experi\u00eancias pioneiras no poder p\u00fablico. Hoje, Erm\u00ednia est\u00e1 \u00e0 frente do BrCidade, uma articula\u00e7\u00e3o nacional em torno de um projeto de Reforma Urbana Popular, presente em 19 estados.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, ela tra\u00e7a um diagn\u00f3stico contundente dos atuais desafios da pol\u00edtica urbana no Brasil \u2014 do desmonte institucional no per\u00edodo p\u00f3s-golpe, especialmente o estrangulamento de recursos de programas habitacionais, aos entraves da reconstru\u00e7\u00e3o nacional proposta pelo governo Lula. Um deles \u00e9 o \u201cn\u00f3 da terra\u201d e a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, o cerne da desigualdade urbana, aponta ela em sua cr\u00edtica aos modelos de pol\u00edtica habitacional que, mesmo ao construir milh\u00f5es de unidades \u2014 como nos governos Lula \u2014, muitas vezes reproduziu erros do passado.<\/p>\n<p>Erm\u00ednia fala com a autoridade de quem conhece, por dentro, as virtudes e os v\u00edcios da institucionalidade. N\u00e3o por acaso, participou ativamente da formula\u00e7\u00e3o das propostas para a \u00e1rea urbana das candidaturas de Lula \u00e0 Presid\u00eancia, de 1989 at\u00e9 a vit\u00f3ria em 2002. E, ent\u00e3o, ajudou a criar o primeiro Minist\u00e9rio das Cidades do Brasil, onde tornou-se secret\u00e1ria-executiva \u2014 por\u00e9m, entregou o cargo em 2005, quando, devido a arranjos pol\u00edticos, a pasta foi entregue ao Partido Progressista (PP). Quando Lula venceu as elei\u00e7\u00f5es, em 2022, ela integrou a equipe de transi\u00e7\u00e3o, quando foi produzido um levantamento do \u201clegado\u201d das pol\u00edticas urbanas do governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Com frequ\u00eancia, lamenta o abandono daquela efervesc\u00eancia de prefeituras democr\u00e1ticas nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, cujas pol\u00edticas foram replicadas em v\u00e1rias partes do mundo. Ela participou deste ciclo como secret\u00e1ria de Habita\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Urbano do governo Luiza Erundina em S\u00e3o Paulo, que fez hist\u00f3ria na cidade. Os antolhos da esquerda de hoje tamb\u00e9m s\u00e3o frustrantes, diz ela, pois em um Brasil 85% da popula\u00e7\u00e3o vivendo nas cidades, o escandaloso apartheid urbano \u00e9 sempre deixado de lado nos debates sobre a desigualdade. \u201cO mercado imobili\u00e1rio, como David Harvey j\u00e1 apontou, \u00e9 por excel\u00eancia no capitalismo global contempor\u00e2neo o espa\u00e7o do investimento e do sobrelucro\u201d, afirma. \u201cPor que nossos melhores economistas progressistas n\u00e3o mostram isso?\u201d<\/p>\n<p>A urbanista defende o resgate de iniciativas \u201csubversivas\u201d do passado recente com potenciais para transformar o Brasil. A constru\u00e7\u00e3o de CEUs (Centros Educacionais Unificados) e Cieps (Centros Integrados de Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica) que atendam a cada grupo de 20 mil habitantes pode ser um caminho. Se a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial para a justi\u00e7a social nas cidades, pode haver tamb\u00e9m um casamento feliz entre urbanismo e sa\u00fade. \u201cO povo sabe o que \u00e9 sa\u00fade; j\u00e1 o que \u00e9 urbanismo, muitas vezes, n\u00e3o\u201d. Saneamento b\u00e1sico, gest\u00e3o das \u00e1guas, ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de mananciais e crise clim\u00e1tica s\u00e3o temas, claro. Mas ela destaca uma escandalosa realidade em suas viagens pelo Brasil: casas com extrema insalubridade. \u201cSe eu te mostrar as fotos\u2026\u201d, comenta, com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o. Esta uni\u00e3o pode, tamb\u00e9m, ajudar a responder uma quest\u00e3o inc\u00f4moda \u00e0 milit\u00e2ncia por cidades mais justas: por que a Reforma Sanit\u00e1ria, que criou o SUS, deu certo e a Reforma Urbana n\u00e3o? Ela tem algumas pistas.<\/p>\n<p>A urbanista sustenta que, para as elei\u00e7\u00f5es deste ano, \u00e9 necess\u00e1rio \u201cbuscar o que nos une\u201d. As lutas identit\u00e1rias s\u00e3o important\u00edssimas, inclusive para a mobiliza\u00e7\u00e3o da milit\u00e2ncia, mas h\u00e1 duas pautas urgentes e catalisadoras: outros horizontes para o Or\u00e7amento P\u00fablico e botar press\u00e3o para o Brasil cumprir a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade, garantida pela Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">LULA E OS DESAFIOS AP\u00d3S A TERRA ARRASADA<\/p>\n<p><strong>O p\u00f3s-golpe foi um per\u00edodo de grande desmonte da institucionalidade e pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para o direito \u00e0 cidade. O Minist\u00e9rio das Cidades foi extinto. Assim como o Conselho Nacional das Cidades (Concidades). O programa Minha Casa Minha Vida, rebatizado de Casa Verde Amarela, teve o or\u00e7amento radicalmente estrangulado, a ponto de ser quase inexistente. Como voc\u00ea analisa a \u201creconstru\u00e7\u00e3o\u201d do governo Lula na quest\u00e3o das cidades brasileiras?<\/strong><\/p>\n<p>Quero comentar a dificuldade de termos uma pol\u00edtica urbana e habitacional interessante e progressista para mudar nossa realidade: as cidades brasileiras s\u00e3o as mais desiguais do mundo. Lula \u00e9 um her\u00f3i; n\u00e3o tenho d\u00favida. Uma pessoa que ficou mais de 500 dias presa injustamente, consegue ainda ter sa\u00fade e est\u00f4mago para chegar \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e fazer coisas importantes no combate \u00e0 desigualdade e \u00e0 fome \u00e9 algo excepcional.<\/p>\n<p>Agora, \u00e0s cr\u00edticas. Trago uma quest\u00e3o estrutural, a qual temos grande dificuldade de mudar: o\u00a0<em>n\u00f3 da terra<\/em>\u00a0\u2014 que tamb\u00e9m \u00e9 um n\u00f3 nas rela\u00e7\u00f5es sociais no Brasil. Esta frase \u00e9 de Jos\u00e9 de Souza Martins, professor da USP. Qualquer coisa que envolva a terra \u2014 no campo ou na cidade \u2014 e a renda da terra \u00e9 tolhida pela propriedade privada da terra e do im\u00f3vel, o cora\u00e7\u00e3o dos problemas do Brasil.<\/p>\n<p>O BNH\u00a0<em>[Banco Nacional da Habita\u00e7\u00e3o]\u00a0<\/em>construiu cerca de quatro milh\u00f5es de unidades habitacionais, em plena ditadura. No governo Lula, foram mais de oito milh\u00f5es. No entanto, houve um aumento do d\u00e9ficit habitacional, pois a moradia \u00e9 diferente de outras mercadorias: apesar de ser de consumo necess\u00e1rio, \u00e9 muito cara para a for\u00e7a de trabalho, al\u00e9m de ser uma mercadoria que exige um financiamento muito alto. Sem poupan\u00e7a ou n\u00edvel de renda adequado para comprar no mercado, ela torna-se inacess\u00edvel. \u00c9 uma mercadoria especial tamb\u00e9m porque depende de um peda\u00e7o de terra \u2014 e a elite brasileira se formou justamente a partir da captura da propriedade fundi\u00e1ria, praticamente impedindo que o acesso \u00e0 terra se democratizasse. Quanto \u00e0 pol\u00edtica habitacional, \u00e0s vezes se constr\u00f3i muito, como foi o caso do governo Lula, por\u00e9m n\u00e3o atinge toda a necessidade.<\/p>\n<p><strong>Poderia falar um pouco mais sobre a quest\u00e3o da moradia no governo Lula<\/strong><\/p>\n<p>O presidente repetiu muito do que se fazia no BNH: conjuntos habitacionais que parecem um \u201ccarimbo\u201d, sem qualidade arquitet\u00f4nica. E n\u00e3o \u00e9 porque a gente n\u00e3o saiba fazer \u2014 as prefeituras democr\u00e1ticas produziram projetos muito bons. O problema \u00e9 quando se adota um projeto pobre, sem uso misto, dificultando a presen\u00e7a de servi\u00e7os, com\u00e9rcio, tudo aquilo necess\u00e1rio para a popula\u00e7\u00e3o. E, muitas vezes, faz isso em \u00e1reas fora da cidade. Quando vi o n\u00famero de moradias constru\u00eddas na extrema periferia, nas muitas cidades por onde passei, percebi um movimento recorrente: a C\u00e2mara Municipal mudava a lei e \u00e1reas rurais passavam a integrar o per\u00edmetro urbano. Ou seja, amplia-se o per\u00edmetro urbano porque, do contr\u00e1rio, n\u00e3o se poderia implantar o conjunto habitacional, por\u00e9m fora da cidade consolidada. Com isso, altera-se o pre\u00e7o da terra em todo o munic\u00edpio \u2014 e, ao mudar o pre\u00e7o da terra, encarece-se a moradia.<\/p>\n<p>O que aconteceu foi a consolida\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica que vinha de um \u2014 vamos chamar assim, para todo mundo entender \u2014 um\u00a0<em>combo\u00a0<\/em>que reunia propriet\u00e1rios de terra, construtoras, incorporadoras e promotores imobili\u00e1rios. A habita\u00e7\u00e3o, como mercadoria especial, gera lucros, juros e rendas. N\u00e3o \u00e9 apenas a produ\u00e7\u00e3o pela construtora. Houve uma repeti\u00e7\u00e3o: esse\u00a0<em>combo<\/em>\u00a0voltou e passou a dominar o Minha Casa Minha Vida. Assim, o investimento do MCMV contribuiu, inclusive, para ampliar a desigualdade urbana \u2014 e o mesmo ocorreu com o PAC. Quando chega investimento em infraestrutura, o pre\u00e7o da terra numa favela aumenta. At\u00e9 ent\u00e3o, aquela terra n\u00e3o tinha grande valor de mercado e a favela podia permanecer ali. Com a nova infraestrutura, o pre\u00e7o sobe \u2014 e os moradores da favela s\u00e3o expulsos. \u00c9 fundamental aplicar a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade. O atual governo Lula, o Minist\u00e9rio da Cidade, tem propostas muito interessantes, como o Periferia Viva.<\/p>\n<p><strong>Por que no campo progressista apontam raramente a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e os milh\u00f5es de im\u00f3veis vazios como uma grande raiz dos dramas brasileiros?<\/strong><\/p>\n<p>Fico impressionada como economistas, inclusive marxistas, que pensam sobre o combate \u00e0 desigualdade e as pol\u00edticas progressistas, n\u00e3o enxergam, por exemplo, a atual distopia do mercado imobili\u00e1rio em nosso pa\u00eds. H\u00e1 pesquisas que demonstram que se est\u00e1 construindo mais do que o crescimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira. O aumento do n\u00famero de im\u00f3veis vazios \u00e9 exponencial. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, temos quase 600 mil im\u00f3veis vazios, de acordo com o IBGE, enquanto o d\u00e9ficit habitacional \u00e9 de 400 mil. Estes im\u00f3veis vazios est\u00e3o, principalmente, nos centros antigos das cidades, afinal, \u00e9 a regi\u00e3o mais servida de transporte, metr\u00f4, corredor de \u00f4nibus, hospitais, escolas, \u00e1gua e esgoto, coleta de lixo, drenagem, asfalto, cal\u00e7amento\u2026<\/p>\n<p>Brasil inteiro n\u00e3o cumpre a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade. E o mercado imobili\u00e1rio, como David Harvey j\u00e1 apontou, \u00e9 por excel\u00eancia no capitalismo global contempor\u00e2neo o espa\u00e7o do investimento e do sobrelucro. A especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria avan\u00e7a no mundo todo, assim como problemas de moradia. A terra tem a propriedade de capturar uma parte da riqueza social \u2014 David Harvey tamb\u00e9m aponta bem isso. E assim, nesse capitalismo financeirizado, a terra tem um papel muito importante. Por que nossos melhores economistas progressistas n\u00e3o mostram o quanto a terra segue sendo um mecanismo central de apropria\u00e7\u00e3o da renda fundi\u00e1ria por parte da elite? O Brasil tem 16 milh\u00f5es de pessoas morando em favelas. A escala da informalidade, da ilegalidade, da quantidade de pessoas que n\u00e3o conseguem uma casa, pois o sal\u00e1rio n\u00e3o permite, \u00e9 impressionante. Esta escala de exclus\u00e3o chega, em muitas cidades, a mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o. Pode-se at\u00e9 morar numa casa mais ou menos razo\u00e1vel, mas sem a propriedade da terra registrada em cart\u00f3rio. Esta \u00e9 uma realidade ainda pouco conhecida.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">PODER LOCAL: COMO RESGATAR A EFERVESC\u00caNCIA DEMOCR\u00c1TICA?<\/p>\n<p><strong>Como um governo progressista pode atuar relevantemente diante de cidades cuja maioria das prefeituras \u00e9 controlada pela direita e extrema direita?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um desafio. O poder Executivo n\u00e3o tem todo o poder. Veja o or\u00e7amento no Congresso, por exemplo. E se retom\u00e1ssemos o Or\u00e7amento Participativo das gest\u00f5es democr\u00e1ticas, com cada bairro debatendo as decis\u00f5es do conjunto do munic\u00edpio?<\/p>\n<p>Uma cr\u00edtica \u00e0 esquerda e ao nosso pr\u00f3prio governo \u00e9 a pouca import\u00e2ncia dada ao poder local nas cidades. Fico perplexa! O Partido dos Trabalhadores, que ajudei a criar, surgiu do movimento oper\u00e1rio, sim, mas tamb\u00e9m das prefeituras democr\u00e1ticas. Ficamos conhecidos no mundo todo: o or\u00e7amento participativo foi replicado no mundo inteiro, inclusive em Nova Iorque, veja s\u00f3.<\/p>\n<p>Hoje estamos voltando a copiar, infelizmente, as\u00a0<em>ideias fora do lugar<\/em>, como diz Roberto Schwarz. Mas, nesta \u00e9poca do or\u00e7amento participativo, de urbaniza\u00e7\u00e3o de favelas, constru\u00e7\u00e3o de moradias com assist\u00eancia t\u00e9cnica e participa\u00e7\u00e3o social, a chamada autogest\u00e3o, eu brigava muito. Dizia: n\u00e3o existe autogest\u00e3o social com dinheiro p\u00fablico; ele deve passar pela C\u00e2mara Municipal, pelas leis etc.<\/p>\n<p>Um dos projetos mais impressionantes, j\u00e1 no fim do ciclo de prefeituras democr\u00e1ticas, vem com Darcy Ribeiro durante o governo Leonel Brizola: os CEUs (Centros Educacionais Unificados) e os Cieps (Centros Integrados de Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica). \u00c9 pegar essa crian\u00e7ada de periferia e botar dentro de um pr\u00e9dio que seja, tamb\u00e9m, um patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico, como foram os primeiros projetados por Oscar Niemeyer. Botar a crian\u00e7a num lugar com refeit\u00f3rio, piscina, cozinha coletiva\u2026 E l\u00e1, eles passarem o dia inteiro, com caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o e jantar. Ter um \u00f3timo curso regular de educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m aulas de esporte, cultura e arte. Isso faz diferen\u00e7a. Isso salvaria o Brasil.<\/p>\n<p>Se tiv\u00e9ssemos isso para cada 20 mil habitantes das periferias, como calculou o m\u00e9dico natalense Ion de Andrade, estar\u00edamos diante de uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural do Brasil. H\u00e1 um patrim\u00f4nio de mem\u00f3ria; n\u00f3s j\u00e1 fizemos, n\u00f3s sabemos fazer \u2014 e a democracia passa pelo poder local, pela capilaridade do territ\u00f3rio. Essa hist\u00f3ria de a nossa esquerda se concentrar nos espa\u00e7os institucionais, de prefer\u00eancia naqueles de alcance nacional, \u00e9 uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>Perde, ent\u00e3o, uma ferramenta fundamental: a participa\u00e7\u00e3o social\u2026\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Passei agora pelo munic\u00edpio de Conde, na Para\u00edba, e vi um programa que re\u00fane moradores para fazer o mapeamento do pr\u00f3prio bairro. Acho isso maravilhoso. Eles come\u00e7am a mapear o que o bairro precisa, o que j\u00e1 existe ali, como ele funciona. Porque h\u00e1 o que costumo chamar \u2014 e essa express\u00e3o j\u00e1 ficou conhecida \u2014 de analfabetismo urban\u00edstico no Brasil. As pessoas muitas vezes n\u00e3o sabem exatamente como \u00e9 o bairro onde moram, como \u00e9 a regi\u00e3o. No per\u00edodo das prefeituras democr\u00e1ticas, de 1986 at\u00e9 o fim dos anos 1990, havia uma capilaridade muito grande de participa\u00e7\u00e3o \u2014 mesmo sob a ditadura, o que \u00e9 interessante. Existiam comunidades eclesiais de base em cada bairro, movimentos sociais urbanos fortes, um movimento oper\u00e1rio atuante, intelectuais estudando as cidades.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">SA\u00daDE &amp; URBANISMO: ALIAN\u00c7A INADI\u00c1VEL<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 que voc\u00ea tocou no tema da Educa\u00e7\u00e3o, surge inevitavelmente outra quest\u00e3o: como pensar \u2014 e sobretudo agir \u2014 em rela\u00e7\u00e3o ao Direito \u00e0 Cidade e \u00e0 Sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p>O saneamento \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o mais \u00f3bvia com a sa\u00fade dentro do urbanismo. A quest\u00e3o das \u00e1guas, por exemplo, com a ocupa\u00e7\u00e3o por moradias ilegais das bacias e dos reservat\u00f3rios das cidades. Sem falar nas mortes por deslizamentos \u2014 j\u00e1 que muitas fam\u00edlias acabam ocupando \u00e1reas de grande inclina\u00e7\u00e3o \u2014 e nas mortes provocadas pelas enchentes. A popula\u00e7\u00e3o pobre, sem recurso para obter moradia via mercado imobili\u00e1rio ou pol\u00edticas p\u00fablicas, n\u00e3o tem alternativa a n\u00e3o ser \u2014 vou usar esta palavra \u2014 a\u00a0<em>invas\u00e3o<\/em>. S\u00e3o v\u00edtimas que, depois, se tornam r\u00e9s, invasoras. O pensamento n\u00e3o pode ser autom\u00e1tico: se mora ilegalmente, despeja! O despejo acontece quando a terra ganha valor de mercado; enquanto n\u00e3o tem, as fam\u00edlias podem ficar. O Judici\u00e1rio precisa compreender este fato. Vivemos num pa\u00eds que tem uma das maiores popula\u00e7\u00f5es do mundo com um sistema de \u00e1gua, esgoto e coleta de lixo prec\u00e1rios. Fala-se em meio ambiente sob uma vis\u00e3o do exterior, de cidades inteligentes, cidades-esponjas\u2026 N\u00e3o fazemos sequer o m\u00ednimo aqui. O SUS \u00e9 important\u00edssimo para atuar nestes problemas por ter grande capilaridade: nas favelas, onde ningu\u00e9m quer entrar, ou tem medo, ele est\u00e1 l\u00e1. Essa liga\u00e7\u00e3o estamos apenas come\u00e7ando a construir. Ali\u00e1s, como apontava S\u00e9rgio Arouca, grande lideran\u00e7a da sa\u00fade p\u00fablica, n\u00e3o h\u00e1 reforma sanit\u00e1ria sem reforma urbana.<\/p>\n<p><strong>E a quest\u00e3o da moradia prec\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>Sabe onde descobri que est\u00e1 o maior problema de sa\u00fade, para al\u00e9m das pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es urbanas? Naquelas casas sem ventila\u00e7\u00e3o, insalubres. Casas de tr\u00eas, quatro andares, separadas por um metro \u2014 ou por nenhum \u2014 de dist\u00e2ncia. N\u00e3o h\u00e1 insola\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 aera\u00e7\u00e3o. Janelas dos quartos fechadas. Muitas n\u00e3o t\u00eam revestimento na fachada; a \u00e1gua penetra nos tijolos furados e tudo fica excessivamente \u00famido. A realidade \u00e9 que, das constru\u00e7\u00f5es brasileiras, apenas 17% t\u00eam participa\u00e7\u00e3o de arquitetos, algo que \u00e9 tratado como se fosse um luxo dispens\u00e1vel \u2014 e n\u00e3o \u00e9. Arquitetura e urbanismo est\u00e3o diretamente ligados \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. Todas as favelas brasileiras t\u00eam um adensamento que impacta diretamente a sa\u00fade p\u00fablica. Onde est\u00e1 a maior incid\u00eancia de tuberculose no Rio de Janeiro? Na Rocinha. Isso provoca problemas respirat\u00f3rios em crian\u00e7as e idosos, numa escala enorme. N\u00e3o \u00e9 detalhe: \u00e9 um problema de grandes propor\u00e7\u00f5es que, como eu disse, atinge mais da metade das pessoas que vivem nas cidades.<\/p>\n<p><strong>Por que a Sa\u00fade P\u00fablica, com a constru\u00e7\u00e3o do SUS, teve grande \u00eaxito e a Reforma Urbana n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Um ponto interessante \u00e9 perceber como os profissionais da sa\u00fade, desde o come\u00e7o do s\u00e9culo XX, tiveram um protagonismo muito forte, muito ligado \u00e0s reformas sanit\u00e1rias impulsionadas pelas epidemias. H\u00e1 toda uma hist\u00f3ria da sa\u00fade associada \u00e0 atua\u00e7\u00e3o desses profissionais. Eles n\u00e3o conseguiram fazer a reforma urbana, mas fizeram a reforma sanit\u00e1ria e constru\u00edram o maior sistema p\u00fablico de sa\u00fade do mundo.<\/p>\n<p>Veja: o SUS foi criado ao mesmo tempo em que a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 instituiu a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e reconheceu o direito \u00e0 moradia, ao transporte e \u00e0 sa\u00fade. Ent\u00e3o, por que eles avan\u00e7aram tanto e n\u00f3s n\u00e3o? Uma das minhas hip\u00f3teses \u00e9 o\u00a0<em>n\u00f3 da terra<\/em>. A sa\u00fade n\u00e3o est\u00e1 diretamente implicada na propriedade privada da terra. O SUS, muitas vezes, resolve a quest\u00e3o instalando uma unidade em determinado lugar. J\u00e1 a reforma urbana exige uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural. Se olharmos a hist\u00f3ria do Brasil, vemos uma elite patrimonialista que ainda permanece e um capitalismo que passou a tratar a terra como ativo financeiro.<\/p>\n<p>Agora, entre n\u00f3s, urbanistas, \u00e9 preciso reconhecer: fomos fracos em assumir essa bandeira ligada \u00e0 sa\u00fade. Defendemos a reforma urbana desde 1963, constru\u00edmos o movimento nacional pela reforma urbana, participamos da Assembleia Nacional Constituinte \u2014 mas n\u00e3o tivemos a percep\u00e7\u00e3o clara de que era necess\u00e1rio construir essa ponte com a sa\u00fade. O povo sabe o que \u00e9 sa\u00fade; j\u00e1 o que \u00e9 urbanismo, muitas vezes, n\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">MOBILIDADE: A LUTA PASSA TAMB\u00c9M PELO DIREITO \u00c0 MORADIA<\/p>\n<p><strong>Ano passado, Lula demonstrou interesse na pauta da Tarifa Zero Nacional. Encomendou estudo ao Minist\u00e9rio da Fazenda. E circulam outros estudos e propostas de universidades e movimentos sociais. Voc\u00ea v\u00ea esta pauta como uma possibilidade concreta para a campanha deste ano?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos falando de uma parcela enorme da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, da classe trabalhadora, de empregadas dom\u00e9sticas e diaristas que t\u00eam filhos e cuidam de duas casas. Fico impressionada com o tempo que as pessoas perdem no transporte p\u00fablico, especialmente as m\u00e3es solo. \u00c9 um sofrimento gigantesco para essas mulheres. E o transporte \u00e9 muito caro\u2026 Como algu\u00e9m pode ganhar um sal\u00e1rio m\u00ednimo e sustentar uma fam\u00edlia? Por isso, \u00e9 fundamental articular o tema da mobilidade e do transporte p\u00fablico com o uso do solo \u2014 com o modo como a cidade \u00e9 produzida e com a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade.<\/p>\n<p>A luta precisa se dar tamb\u00e9m no lugar onde se mora. O fato de viver na periferia, o peso do aluguel \u2014 tudo isso importa. Os sal\u00e1rios podem at\u00e9 aumentar, mas o transporte tamb\u00e9m encarece. Essas quest\u00f5es est\u00e3o interligadas. No entanto, as for\u00e7as progressistas acabaram desconectando uma coisa da outra. E, mesmo dentro da cidade, os problemas de moradia, transporte, saneamento, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade se fragmentam: cada setor defende o seu. Buscar o que nos une \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">ENCRUZILHADAS URBANAS EM TEMPOS DE CRISE CLIM\u00c1TICA<\/p>\n<p><strong>A trag\u00e9dia no Rio Grande do Sul colocou ainda mais em destaque a necessidade de repensar nosso modelo de cidades a partir da crise clim\u00e1tica. Houve avan\u00e7os nesta \u00e1rea? Quais s\u00e3o os passos a serem dados?<\/strong><\/p>\n<p>Tivemos avan\u00e7os muito importantes com as prefeituras democr\u00e1ticas. Por exemplo, no enfrentamento das \u00e1reas de risco. Fizemos um programa na cidade de S\u00e3o Paulo que ficou conhecido. Logo no in\u00edcio do governo, Lu\u00edsa Erundina soube de algumas mortes numa favela e disse querer todo mundo fora de \u00e1rea de risco \u2014 que n\u00e3o admitiria ningu\u00e9m vivendo em \u00e1rea de risco. Vou resumir a hist\u00f3ria: cheguei a pensar em entregar o cargo. Eu dizia: \u201cGente, como vamos saber exatamente quem est\u00e1 em \u00e1rea de risco numa cidade que hoje tem 12 milh\u00f5es de habitantes? E para onde vamos levar essas pessoas?\u201d Mas fiquei, enfrentei, porque tamb\u00e9m havia uma equipe e todas as condi\u00e7\u00f5es para agir. Contratamos gente muito qualificada para fazer o levantamento. Eles classificaram as \u00e1reas de risco e identificaram cerca de 5 mil pessoas nessas condi\u00e7\u00f5es. E n\u00f3s retiramos essas cinco mil pessoas. Levamos para escolas \u2014 era per\u00edodo de f\u00e9rias, o que facilitou.<\/p>\n<p>Foi muito dif\u00edcil, n\u00e3o esque\u00e7o. Quando as aulas iam come\u00e7ar, vimos que n\u00e3o dava para construir moradia para essa quantidade de pessoas em um m\u00eas, nem em um ano; precis\u00e1vamos de tempo. Ent\u00e3o, criamos um programa de loca\u00e7\u00e3o social: a prefeitura pagava o aluguel, as pessoas ficavam cadastradas, e n\u00f3s construir\u00edamos as moradias. E, de fato, at\u00e9 o fim do governo, tiramos todas do aluguel social. Veja: v\u00e1rias prefeituras no Brasil tamb\u00e9m desenvolveram programas voltados \u00e0s moradias em \u00e1reas de risco. Se voc\u00ea me perguntar, mais recentemente, o que houve de avan\u00e7o, eu vou dizer: nos \u00faltimos anos, sinceramente, eu n\u00e3o enxergo avan\u00e7o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">ELEI\u00c7\u00d5ES 2026: DUAS BANDEIRAS NA LUTA PELO DIREITO \u00c0 CIDADE<\/p>\n<p><strong>Quais devem ser as principais bandeiras de luta pelo Direito \u00e0 Cidade dos movimentos neste ano? Onde, taticamente, \u201cbotar press\u00e3o\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma fragmenta\u00e7\u00e3o muito forte nos movimentos e nos partidos. E o identitarismo passa a ser, em muitos lugares, mais forte do que uma luta pelo Comum. N\u00e3o que a luta feminista, LGBT, antirracista e pela Cultura n\u00e3o sejam importantes. Mas perdemos a unidade.<\/p>\n<p>N\u00f3s, do BrCidades, estamos debatendo atualmente a unidade em torno de algumas palavras de ordem acima de toda essa diversidade, o que, claro, n\u00e3o queremos eliminar, por trazer muita milit\u00e2ncia para o movimento. Mas h\u00e1 outras quest\u00f5es que nos unem e s\u00e3o estrat\u00e9gicas. Lutas hist\u00f3ricas, al\u00e9m de discutir outras que mexem conosco aqui e agora. Uma delas \u00e9 o Or\u00e7amento P\u00fablico, um tema que precisa alcan\u00e7ar toda a sociedade. Apesar dos desvios e corrup\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso orientar o Or\u00e7amento P\u00fablico para aquilo que \u00e9 mais urgente; ele deve ser discutido em cada bairro e em cada munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Outra \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade. Temos leis muito importantes, festejadas no Brasil inteiro, como o Estatuto da Cidade e os Planos Diretores. Mas \u00e9 preciso definir n\u00e3o somente o uso e a ocupa\u00e7\u00e3o do solo na cidade, uma tarefa dif\u00edcil considerando o n\u00f3 da terra, mas tamb\u00e9m onde ser\u00e3o feitos os investimentos nos planos diretores. Falo isso porque a implementa\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade passa pelo Plano Diretor. Em vez de expandir horizontalmente as cidades, devemos colocar a popula\u00e7\u00e3o dentro da cidade, n\u00e3o em periferias extensas, ocupando, muitas vezes, morros sujeitos a deslizamentos, desmatando e avan\u00e7ando sobre as margens dos c\u00f3rregos. Estas duas propostas s\u00e3o centrais. Mas, sem d\u00favida, o saneamento e a mobilidade s\u00e3o importantes tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Por que muitos do campo progressista s\u00e3o renitentes em abra\u00e7ar pautas como estas?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o consigo aceitar que a esquerda n\u00e3o enxergue a import\u00e2ncia das cidades. \u00c9 nelas que se d\u00e1 a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho \u2014 85% da for\u00e7a de trabalho brasileira est\u00e1 nas cidades, vive o cotidiano urbano. Eu dizia muito isso na \u00e9poca em que a classe oper\u00e1ria era forte no Brasil \u2014 antes da desindustrializa\u00e7\u00e3o intensa desses anos: \u201cn\u00e3o basta a luta na f\u00e1brica\u201d.<\/p>\n<p>Se olharmos para a evolu\u00e7\u00e3o das periferias, da exclus\u00e3o e da desigualdade, \u00e9 dif\u00edcil dizer que tivemos avan\u00e7o; em v\u00e1rios aspectos, houve regress\u00e3o. E n\u00e3o me parece apenas uma quest\u00e3o nacional, mas tamb\u00e9m global. H\u00e1 uma mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica \u2014 sobretudo na comunica\u00e7\u00e3o \u2014 que atua sobre as consci\u00eancias, com negacionismo e um individualismo impressionante, cada um por si. Aquele sentimento agregador, associativo, cooperativo, solid\u00e1rio, que existia na \u00e9poca das comunidades eclesiais de base, praticamente desapareceu. J\u00e1 n\u00e3o se v\u00ea a mesma religiosidade ligada ao amor ao pr\u00f3ximo. Mas h\u00e1 uma boa not\u00edcia: neste ano, a Campanha da Fraternidade ter\u00e1 como tema o Direito \u00e0 Moradia, coordenada pelo Frei Marcelo, em Santo Andr\u00e9, com 30 n\u00facleos estaduais. Resgata-se ali algo do esp\u00edrito das comunidades de base, um trabalho de base do qual a esquerda se afastou \u2014 enquanto uma religiosidade conservadora acabou ocupando esse espa\u00e7o.<\/p>\n<p>T\u00edtulo: Erm\u00ednia Maricato: As lutas no \u201cch\u00e3o de cidade\u201d em 2026\u00a0 | Outras Palavras &#8211; Fonte: https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/erminia-maricato-as-lutas-no-chao-de-cidade-em-2026\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>R\u00f4ney Rodrigues &#8211; Renomada urbanista analisa os desafios do governo Lula nas pol\u00edticas urbanas. Cr\u00edtica uma esquerda que d\u00e1 as costas ao debate sobre o futuro das cidades, onde vivem 85% da popula\u00e7\u00e3o. E prop\u00f5e caminhos para unir as lutas sociais neste ano eleitoral. 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