{"id":25041,"date":"2025-12-26T12:03:34","date_gmt":"2025-12-26T15:03:34","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25041"},"modified":"2025-12-22T19:06:43","modified_gmt":"2025-12-22T22:06:43","slug":"alem-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/12\/26\/alem-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>AARON BENANAV*<\/strong> &#8211; O capitalismo, cujo dinamismo j\u00e1 elevou padr\u00f5es de vida, esgota-se na estagna\u00e7\u00e3o oligopolista e na crise ambiental, demandando uma ordem econ\u00f4mica orientada por m\u00faltiplos fins, n\u00e3o apenas pelo lucro.<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p>Poucos discordariam que existe, por tr\u00e1s da turbul\u00eancia pol\u00edtica atual, um profundo mal-estar econ\u00f4mico. As taxas de crescimento nas economias avan\u00e7adas s\u00e3o baixas. Quando s\u00e3o impulsionadas por gastos p\u00fablicos, os ganhos se concentram, desproporcionalmente, nas faixas de renda alta. Empresas oligopolistas ocupam o topo das cadeias globais de valor, mantendo direitos de propriedade sobre uma variada gama de produtos, ao mesmo tempo em que terceirizam os processos de produ\u00e7\u00e3o para licitantes com menores custos j\u00e1 que est\u00e3o for\u00e7ados a competirem entre si.<\/p>\n<p>Grandes parcelas dos lucros retidos das corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais investidos internamente, pois est\u00e3o sendo canalizadas para aplica\u00e7\u00f5es em ativos financeiros. Como tais, elas n\u00e3o podem quebrar, podendo por isso ser salvas por meio do resgate p\u00fablico. Enquanto isso, as decis\u00f5es de investimento, que moldar\u00e3o o futuro da vida na Terra \u2013 geoengenharia, intelig\u00eancia artificial, captura de carbono, energia nuclear \u2013, s\u00e3o tomadas por pequenos grupos privados. E eles n\u00e3o recuam nem mesmo diante de riscos muito grandes para a humanidade.<a id=\"_ednref1\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_edn1\">[i]<\/a><\/p>\n<p>Por tr\u00e1s dessa tend\u00eancia vertical para a consolida\u00e7\u00e3o oligopolista do poder econ\u00f4mico, ocorreu tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a secular e horizontal na atividade econ\u00f4mica, da ind\u00fastria para os servi\u00e7os \u2013 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, varejo, administra\u00e7\u00e3o \u2013 em que as taxas de crescimento da produtividade s\u00e3o menores e a lucratividade s\u00f3 pode ser mantida por meio de explora\u00e7\u00e3o intensificada ou de pre\u00e7os monopol\u00edsticos.<\/p>\n<p>A desindustrializa\u00e7\u00e3o vem ocorrendo h\u00e1 meio s\u00e9culo nas economias avan\u00e7adas. Sintomas de \u201cdesindustrializa\u00e7\u00e3o prematura\u201d est\u00e3o presentes nas economias do Brasil e da Coreia do Sul; ademais, eles est\u00e3o agora surgindo tamb\u00e9m na China. Em todos os lugares, a queda nas taxas de natalidade significa que haver\u00e1 menos trabalhadores jovens e consumidores para produzir e consumir as mercadorias capitalistas. Se os mercados futuros encolhem, se os incentivos para investimento privado se enfraquecem, a carga das atividades de cuidados, em contrapartida, aumenta sem cessar.<\/p>\n<p>Nesse quadro, proliferam as necessidades sociais n\u00e3o atendidas; assim, crescem tamb\u00e9m as necessidades materiais associadas \u00e0 pobreza, fome, doen\u00e7as e habita\u00e7\u00e3o inadequada e elas se combinam com n\u00edveis crescentes de degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, aliena\u00e7\u00e3o social e estresse psicol\u00f3gico. Se algum dia houver uma ruptura \u00e0 esquerda, que supere o atual impasse pol\u00edtico \u2013 o liberalismo dominante, note-se, encontra-se agora abra\u00e7ado com uma extrema direita ultra capitalista \u2013 isso exigir\u00e1, em \u00faltima an\u00e1lise, a constru\u00e7\u00e3o de um sistema econ\u00f4mico que difira significativamente do pr\u00f3prio capitalismo.<a id=\"_ednref2\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_edn2\">[ii]<\/a><\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p>Historicamente, a defesa do capitalismo baseou-se nos resultados que alcan\u00e7a. O seu foco implac\u00e1vel na lucratividade nunca se cingiu a explorar trabalhadores ou a extrair recursos para enriquecer investidores que cortam cupons. Especialmente no s\u00e9culo XIX, a busca pelo lucro serviu tamb\u00e9m para atingir fins socialmente \u00fateis \u2013 principalmente por meio da busca de efici\u00eancia econ\u00f4mica, tanto em termos est\u00e1ticos (minimizando custos e maximizando receitas) quanto em termos din\u00e2micos (desenvolvendo m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o mais eficientes e produtos totalmente novos).<\/p>\n<p>A busca pelo lucro no capitalismo foi capaz de gerar saltos extraordin\u00e1rios nos padr\u00f5es de vida materiais \u2013 os quais se refletiram n\u00e3o apenas no aumento da renda monet\u00e1ria, mas tamb\u00e9m na prolifera\u00e7\u00e3o de inova\u00e7\u00f5es transformadoras em processos e produtos.<\/p>\n<p>As primeiras inclu\u00edram a linha de montagem, o transporte de cont\u00eaineres e o controle num\u00e9rico por computador; e elas afetaram os equipamentos el\u00e9tricos, as ferrovias, os carros, os avi\u00f5es, as m\u00e1quinas de lavar, os computadores, os produtos farmac\u00eauticos, as refei\u00e7\u00f5es prontas e a ind\u00fastria da moda. Nos pa\u00edses mais ricos, a renda real m\u00e9dia aumentou por um fator de vinte desde a d\u00e9cada de 1820 e, no mundo como um todo, por um fator superior a dez.<\/p>\n<p>O capitalismo \u00e9, portanto, mais do que meramente um sistema de mercado cuja produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 baseada na explora\u00e7\u00e3o do trabalho e na extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais. Trata-se, sim, de um tipo distinto de economia mercantil \u2013 baseada que est\u00e1 na propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e no trabalho assalariado \u2013 no qual as empresas precisam competir pela participa\u00e7\u00e3o no mercado e, portanto, pela obten\u00e7\u00e3o de lucro e sempre mais lucro.<\/p>\n<p>O lucro, ali\u00e1s, n\u00e3o adv\u00e9m apenas como recompensa nas atividades focadas em efici\u00eancia econ\u00f4mica, mas vem a ser tamb\u00e9m uma fonte de fundos de investimento que as empresas altamente eficientes utilizam para expandir as suas opera\u00e7\u00f5es.<a id=\"_ednref3\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_edn3\">[iii]<\/a>\u00a0A busca por retornos monet\u00e1rios sobre os investimentos gerou um dinamismo econ\u00f4mico sem qualquer paralelo na hist\u00f3ria mundial.<\/p>\n<p>Os modos de produ\u00e7\u00e3o anteriores, mesmo aqueles que tinham mercados significativos, desenvolveram-se sempre num ritmo muito mais lento. Ademais, seguiam ciclos de expans\u00e3o e contra\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica que duravam s\u00e9culos; as pr\u00e1ticas agr\u00edcolas adotadas permaneciam estagnadas por gera\u00e7\u00f5es. O imperativo do lucro do capitalismo, diferentemente, obriga as empresas a buscarem inova\u00e7\u00f5es continuamente \u2013 tanto em processos que reduzem custos e libertam recursos, quanto em produtos que redirecionam os recursos para novas formas de gera\u00e7\u00e3o de receita. Juntas, essas din\u00e2micas produziram historicamente economias em que o crescimento foi capaz de se manter por d\u00e9cadas e d\u00e9cadas.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>3.<\/strong><\/p>\n<p>Contudo, o pr\u00f3prio sucesso do capitalismo gerou problemas formid\u00e1veis que a busca pelo lucro n\u00e3o \u00e9 capaz de resolver. A enorme expans\u00e3o da ind\u00fastria e do crescimento urbano, agravada pelo aumento do consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis, amea\u00e7a agora os sistemas ambientais e clim\u00e1ticos do planeta. A entrada de bilh\u00f5es de novos trabalhadores rurais na for\u00e7a de trabalho capitalista tem exercido press\u00e3o para baixo sobre os sal\u00e1rios, enquanto o excesso de capacidade produtiva acelera a fuga do capital para ativos financeiros.<\/p>\n<p>A crescente longevidade, devida ao avan\u00e7o da medicina e \u00e0 queda nas taxas de natalidade, \u00e0 medida que horizontes se abrem para as mulheres para al\u00e9m das atividades do lar, combinam-se para criar um peso demogr\u00e1fico associado mormente ao aumento da necessidade de cuidados.<a id=\"_ednref4\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_edn4\">[iv]<\/a>\u00a0Como os motores globais do crescimento est\u00e3o agora falhando, a defesa do capitalismo por seus resultados est\u00e1 se tornando cada vez mais dif\u00edcil de ser sustentada.<\/p>\n<p>Quando uma economia constru\u00edda em torno da efici\u00eancia econ\u00f4mica deixa de ter ganhos ou mesmo se torna ineficiente, ela entra em estado de estagna\u00e7\u00e3o. A desigualdade aumenta e a especula\u00e7\u00e3o se torna dominante, tendendo mesmo ao excesso. Estrat\u00e9gias socialmente destrutivas de busca de lucratividade \u2013 externalizar custos para o meio ambiente, suprimir sal\u00e1rios, consolidar o poder monopolista \u2013 est\u00e3o sempre presentes, mas agora elas se tornam mais e mais agressivas; o capital se volta para a explora\u00e7\u00e3o, a extra\u00e7\u00e3o e o cercamento sem limites.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o crescimento recua, as necessidades e aspira\u00e7\u00f5es humanas submetidas \u00e0 l\u00f3gica mercantil e enquadradas pela busca do lucro ficam bem expostas como problemas. Os defensores do sistema sempre argumentaram que o crescimento capitalista seria o melhor meio para lidar com desafios sociais mais amplos, sejam eles pol\u00edticos, culturais ou ambientais.<a id=\"_ednref5\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_edn5\">[v]<\/a>\u00a0De qualquer modo, as tentativas de incorporar outros princ\u00edpios nas opera\u00e7\u00f5es capitalistas \u2013 tais como consumo \u00e9tico, investimento verde, programas de responsabilidade social corporativa \u2013 permanecem limitadas e contidas pela l\u00f3gica do sistema que prioriza o lucro.<\/p>\n<p>Metas qualitativas s\u00e3o transformadas em metas quantitativas, o que tende a gerar falta de qualidade e, assim, pouco efeito tang\u00edvel. O mesmo ocorre com as reformas mais amplas apoiadas pelo Estado e que visam melhorar o sistema por meio da introdu\u00e7\u00e3o de objetivos secund\u00e1rios \u2013 prote\u00e7\u00f5es social-democratas, regula\u00e7\u00e3o ambiental etc. \u2013 j\u00e1 que a l\u00f3gica da \u201cotimiza\u00e7\u00e3o segundo um crit\u00e9rio \u00fanico\u201d \u2013 ou seja, produ\u00e7\u00e3o para lucro \u2013 permanece inalterada.<\/p>\n<p>Esses programas podem desempenhar um papel amortecedor, de mitiga\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o e dos danos ecol\u00f3gicos, mas nunca deixam de estar submetidos aos requisitos de lucratividade do capitalismo. Por isso, ser\u00e3o reduzidos por meio de cortes nos gastos p\u00fablicos sempre que as receitas estatais deixem de poder cobri-los sem aumento da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>4.<\/strong><\/p>\n<p>Logo, o problema mais profundo agora n\u00e3o \u00e9 apenas que o capitalismo est\u00e1 falhando em cumprir sua promessa de eleva\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de vida \u2013 a quest\u00e3o \u00e9 que o padr\u00e3o de vida continua a ser entendido de forma extremamente restrita: em termos de renda, medida pelo PIB per capita. Organizar uma sociedade em torno de um \u00fanico crit\u00e9rio sempre ser\u00e1 uma forma empobrecida de estruturar a vida coletiva.<\/p>\n<p>O mesmo padr\u00e3o de defici\u00eancia se aplicaria a qualquer economia organizada em torno de um \u00fanico princ\u00edpio orientador. Mesmo uma ordem social p\u00f3s-capitalista que abandonasse a maximiza\u00e7\u00e3o do lucro, mas mantivesse a maximiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o como objetivo organizativo, ainda operaria por meio de otimiza\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rio \u00fanico. N\u00e3o importa qual m\u00e9trica seja escolhida, o resultado ser\u00e1 sempre uma simplifica\u00e7\u00e3o radical dos problemas multidimensionais que a sociedade sempre enfrenta.<\/p>\n<p>O objetivo, portanto, deve ser criar um sistema econ\u00f4mico no qual a coordena\u00e7\u00e3o possa ser estruturada de acordo com m\u00faltiplos crit\u00e9rios. No sistema alternativo aqui proposto, as imensas capacidades t\u00e9cnicas e produtivas das economias modernas seriam direcionadas para atender a fins humanos mais amplos, os quais evoluiriam ao longo do tempo.<\/p>\n<p>O socialismo \u00e0s vezes foi pensado como busca pelo tempo livre, pelo equil\u00edbrio ambiental, pelo cuidado social em primeiro plano. Mas, como ele poderia perseguir todos esses objetivos \u2013 e, eventualmente, outros mais?<a id=\"_ednref6\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_edn6\">[vi]<\/a><\/p>\n<p>Ganhos e perdas compensat\u00f3rias (<em>trade-offs<\/em>) entre os objetivos est\u00e3o sempre presentes e, por isso, se mostrar\u00e3o inevit\u00e1veis; nenhuma sociedade pode maximizar todas as prioridades ao mesmo tempo. Ora, essas trocas poderiam ser negociadas coletivamente por meio do debate pol\u00edtico, em vez de serem ditadas por uma l\u00f3gica impessoal.<\/p>\n<p>A tarefa consiste em construir uma ordem econ\u00f4mica capaz de evoluir para acomodar novos valores e condi\u00e7\u00f5es em mudan\u00e7a, ajustando gradualmente a organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o para abrang\u00ea-los. Uma economia multicriterial exigiria, portanto, uma mudan\u00e7a fundamental na forma como a produ\u00e7\u00e3o vem a ser organizada e como as decis\u00f5es econ\u00f4micas s\u00e3o tomadas.<a id=\"_ednref7\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_edn7\">[vii]<\/a><\/p>\n<p>Um arcabou\u00e7o como esse teria de ir al\u00e9m da no\u00e7\u00e3o segundo a qual a economia deve servir \u00e0 maioria \u2013 ou seja, de que \u00e9 preciso realizar uma democracia econ\u00f4mica para o povo. Ele n\u00e3o deve apenas querer incluir os trabalhadores no processo da administra\u00e7\u00e3o por meio de uma democracia econ\u00f4mica feita pelo povo.<a id=\"_ednref8\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_edn8\">[viii]<\/a>\u00a0Ele tamb\u00e9m precisa desafiar as tradi\u00e7\u00f5es da esquerda que imaginam um mundo al\u00e9m do capitalismo como um mundo al\u00e9m da pol\u00edtica. August Bebel imaginava que os interesses pessoais e sociais, sob o socialismo, coincidiriam t\u00e3o plenamente que \u201ca satisfa\u00e7\u00e3o do ego\u00edsmo pessoal e o servi\u00e7o \u00e0 sociedade estariam harmonizados\u201d.<a id=\"_ednref9\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_edn9\">[ix]<\/a><\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>5.<\/strong><\/p>\n<p>A democratiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, segundo August Bebel, envolveria debate t\u00e9cnico \u2013 sobre capacidades produtivas, necessidades sociais, tempo de trabalho incorporados em cada produto \u2013, mas n\u00e3o discord\u00e2ncia pol\u00edtica substancial. No entanto, o c\u00e2none socialista herdado tamb\u00e9m cont\u00e9m concep\u00e7\u00f5es mais abertas que envolvem ag\u00eancia coletiva. Ecoando Karl Marx, Friedricha Engels escreveu que somente sob o socialismo \u201co pr\u00f3prio homem, com plena consci\u00eancia, faria sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria\u201d. Karl Kautsky tamb\u00e9m insistiu que um regime socialista \u201cdesde o in\u00edcio buscaria organizar a produ\u00e7\u00e3o democraticamente\u201d.<a id=\"_ednref10\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_edn10\">[x]<\/a><\/p>\n<p>O objetivo desde extenso artigo [aqui apenas introduzido] \u00e9 ampliar essa concep\u00e7\u00e3o herdada de democratiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u2013 ele ser\u00e1, assim, cr\u00edtico das formas limitadas de democratiza\u00e7\u00e3o tais como aquelas implementadas no passado. O que se segue oferecer\u00e1 uma ideia intrinsecamente multivalente de socialismo. Ao mesmo tempo, a crescente complexidade da sociedade capitalista moderna, desde os primeiros utopistas at\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique e al\u00e9m, ser\u00e1 devidamente enfrentada.<\/p>\n<p>O artigo examinar\u00e1 as tentativas significativas de pensadores heterodoxos de conceber formas de coordena\u00e7\u00e3o poss\u00edveis al\u00e9m daquela que se cinge ao motivo de lucro e daquela que se restringe ao plano central. Construir\u00e1 sobre os erros, avan\u00e7os e promessas do passado, visando lan\u00e7ar as bases para uma ordem econ\u00f4mica genuinamente multicriterial.<\/p>\n<p>Na segunda parte deste estudo, ser\u00e1 delineada a arquitetura institucional necess\u00e1ria para que tal ordem possa vir a existir. Para tanto, os passos de um programa de transi\u00e7\u00e3o que possa conectar as lutas imediatas atuais a uma transforma\u00e7\u00e3o social mais ampla ser\u00e1 tamb\u00e9m apresentado.<\/p>\n<p><strong>*Aaron Benanav<\/strong>\u00a0<em>\u00e9 professor do Departamento de Desenvolvimento Global da Universidade Cornell. Autor, entre outros livros, de<\/em>\u00a0Automa\u00e7\u00e3o e o futuro do trabalho, (Boitempo).<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<strong>Eleut\u00e9rio F. S. Prado<\/strong>.<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o a dois ensaios (<a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/issues\/ii153\/articles\/aaron-benanav-beyond-capitalism-1.pdf\" rel=\"noreferrer noopener\">um est\u00e1 aqui e o\u00a0<\/a><a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/issues\/ii154\/articles\/aaron-benanav-beyond-capitalism-2\" rel=\"noreferrer noopener\">outro aqui<\/a>) publicados nos n\u00fameros 153 e 154, maio-junho de 2025 e julho-agosto de 2025, na revista\u00a0<em>New Left Review<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p><a id=\"_edn1\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_ednref1\">[i]<\/a>\u00a0Sobre a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mundial, veja-se, entre outros escritos eventualmente importantes, os seguintes: Summers, Lawrence, Reflections on the \u201cnew secular stagnation hypothesis\u201d, em Coen Teulings e Richard Baldwin, eds,\u00a0<em>Secular stagnation: facts, causes and cures<\/em>, Londres, 2014; Robert Gordon,\u00a0<em>The rise and fall of American growth: the\u00a0<\/em>US\u00a0<em>standard of living since the Civil War<\/em>, Princeton, 2016; Dietrich Vollrath,\u00a0<em>Fully grown: why a stagnant economy Is a sign of success<\/em>,Chicago 2020.<\/p>\n<p><a id=\"_edn2\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_ednref2\">[ii]<\/a>\u00a0Uma obra fundamental nessa tem\u00e1tica \u00e9 Democracy\u00a0<em>and economic planning: the political economy of a self-governing society, de Pat Devine<\/em>, Boulder CO ,1988. Nos \u00faltimos anos, houve um bem-vindo ressurgimento de trabalhos sobre futuros p\u00f3s-capitalistas; nota-se o aparecimento de importantes estudos como Information t<em>echnology and socialist construction,\u00a0<\/em>Abingdon 2014, de Daniel Saros, e Digital socialism? de Evgeny Morozov<a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/issues\/ii116\/articles\/evgeny-morozov-digital-socialism\">,<\/a>\u00a0NLR, n\u00ba 116\u2013117, mar\u00e7o\u2013junho de 2019. Esses trabalhos integram a revolu\u00e7\u00e3o na infraestrutura digital com propostas de coordena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o mercantis. Leigh Phillips e Michal Rozworski deram uma reviravolta radical na concep\u00e7\u00e3o de planejamento com o livro\u00a0<em>The people\u2019s republic of Walmart<\/em>, Londres e Nova York 2019. Note-se tamb\u00e9m os livros\u00a0<em>Inventing the future: post-capitalism and a world without work<\/em>, Londres e New York, 2015, Anitra Nelson\u2019s\u00a0<em>Beyond money: a post-capitalist strategy,\u00a0<\/em>London 2022, e Simon Sutterl\u00fctti e Stefan Meretz\u2019s\u00a0<em>Make capitalism history: a practical framework for utopia and the transformation of Society<\/em>, Basingstoke 2023. Como todos esses livros e artigos t\u00eam-se bons exemplos de pensamentos novos e imaginativos sobre a tem\u00e1tica do p\u00f3s-capitalismo. Embora se baseie nas realiza\u00e7\u00f5es desse rico e variado corpo de trabalho, a presente contribui\u00e7\u00e3o destaca a necessidade de uma arquitetura robustamente institucionalizada de democracia econ\u00f4mica multicriterial como base de uma ordem p\u00f3s-capitalista.<\/p>\n<p><a id=\"_edn3\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_ednref3\">[iii]<\/a>\u00a0H\u00e1, como se sabe, diferentes perspectivas sobre esse t\u00f3pico; veja-se: Karl Marx, O c<em>apital \u2013 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica, volume III, Boitempo 2017<\/em>, Cap. 15; John Maynard Keynes,\u00a0<em>A Teoria Geral do Emprego, Juros e Dinheiro<\/em>, Abril Cultural, 1983, especialmente Cap. 11; Josef Steindl,\u00a0<em>Maturity and Stagnation in American Capitalism<\/em>, Oxford, 1952; Hyman Minsky,\u00a0<em>Stabilizing an Unstable Economy<\/em>, New Haven 1986, Chap. 8; Anwar Shaikh,\u00a0<em>Capitalism: Competition, Conflict, Crises<\/em>, Oxford 2016, Chap. 7 e 13. Para uma vis\u00e3o nova sobre finan\u00e7as, veja-se tamb\u00e9m: Richard Brealey, Stewart Myers e Franklin Allen,\u00a0<em>Principles of corporate finance<\/em>, New York, 2017.<\/p>\n<p><a id=\"_edn4\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_ednref4\">[iv]<\/a>\u00a0Discuto essas quest\u00f5es com mais detalhes em\u00a0<em>A Dissipating Glut<\/em>? NLR, n\u00ba 140\u2013141, mar\u00e7o-junho de 2023.<\/p>\n<p><a id=\"_edn5\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_ednref5\">[v]<\/a>\u00a0Para uma apresenta\u00e7\u00e3o completa sobre essa tem\u00e1tica, veja-se Martin Wolf,\u00a0<em>Why globalization works<\/em>, New Haven, 2004. O argumento foi parcialmente repudiado pelo autor em seu livro mais recente,\u00a0<em>The crisis of democratic capitalism<\/em>, Londres, 2023.<\/p>\n<p><a id=\"_edn6\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_ednref6\">[vi]<\/a>\u00a0Sobre o tempo livre no socialismo, veja-se Andr\u00e9 Gorz,\u00a0<em>Critique of economic reason<\/em>, Londres e Nova York 1989; Kathi Weeks,\u00a0<em>The problem with work<\/em>, Durham, 2011; Srnicek and Williams,\u00a0<em>Inventing the future<\/em>; Martin H\u00e4gglund,\u00a0<em>This fife: secular faith and spiritual freedom<\/em>, Nova York, 2019; Helen Hester and Will Stronge,\u00a0<em>Post-work: what it is, why It matters and how we get there<\/em>, Londres, 2025. Sobre a quest\u00e3o da sustentabilidade no socialismo, veja-se Barry Commoner,\u00a0<em>Making peace with the planet<\/em>, Nova York, 1990; Paul Burkett,\u00a0<em>Marx and nature: a red and green perspective<\/em>, Nova York,1999; e Kohei Saito,\u00a0<em>O ecossocialismo de Karl Marx: capitalismo, natureza e a cr\u00edtica Inacabada \u00e0 Economia Pol\u00edtica, Boitempo Editorial, 2021.\u00a0<\/em><em>Sobre a quest\u00e3o do cuidado no\u00a0<\/em>socialism, veja-se Nancy Fraser,\u00a0<em>Fortunes of feminism: from state-managed capitalism to neoliberal crisis<\/em>, Londres e Nova York 2013; Emma Dowling,\u00a0<em>The care crisis: what caused it and how can we end it?<\/em>, Londres e Nova York, 2021; e The care collective,\u00a0<em>The Care manifesto<\/em>, Londres e Nova York, 2020.<\/p>\n<p><a id=\"_edn7\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_ednref7\">[vii]<\/a>\u00a0A ideia de multicrit\u00e9rio \u201ch\u00e1 muito faz parte da tradi\u00e7\u00e3o da economia ecol\u00f3gica\u201d, tal como observou Joan Martinez Alier nas p\u00e1ginas da NLR h\u00e1 trinta anos: \u201cIncomensurabilidade significa que n\u00e3o existe uma unidade comum de medida, mas n\u00e3o significa que n\u00e3o possamos comparar decis\u00f5es alternativas em base racional, em diferentes escalas de valor, como em avalia\u00e7\u00e3o multicrit\u00e9rio. Veja-se J. Martinez-Alier,\u00a0<em>Political ecology, distributional conflicts and economic incommensurability<\/em>, NLR, n\u00ba 211, maio-junho de 1995, p. 75. Para o argumento de que os valores evoluem por meio da experi\u00eancia, reflex\u00e3o e aprendizado social, veja John Dewey,\u00a0<em>Human nature and conduct<\/em>, Nova York, 1922. Sobre a suposi\u00e7\u00e3o dominante de prefer\u00eancias fixas e ex\u00f3genas em economia, veja-se Paul Samuelson,\u00a0<em>Fundamentos da an\u00e1lise econ\u00f4mica<\/em>, Abril Cultural, 1983; Milton Friedman, A Metodologia da Economia Positiva, Edi\u00e7\u00f5es Multiplic, v. 1, n.3, fevereiro, 1981. Para uma cr\u00edtica fundamental do\u00a0<em>homo oeconomicus<\/em>, veja-se Amartya Sen, Rational fools: a critique of the behavioural foundations of economic theory,\u00a0<em>Philosophy and Public Affairs<\/em>, vol. 6, n\u00ba 4, 1977.<\/p>\n<p><a id=\"_edn8\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_ednref8\">[viii]<\/a>\u00a0Sobre a ideia de democracia econ\u00f4mica em que os trabalhadores administram o sistema econ\u00f4mico, veja-se Karl Marx,\u00a0<em>A guerra civil na Fran\u00e7a<\/em>, Boitempo, 2011; Vladimir Lenin,\u00a0<em>O Estado e a revolu\u00e7\u00e3o: doutrina do marxismo sobre o Estado e as tarefas do proletariado na revolu\u00e7\u00e3o, Boimtempo, 2017;\u00a0<\/em>Nikolai Bukharin e Yevgeni Preobrazhensky,\u00a0<a><em>O\u00a0<\/em>abc\u00a0<em>do comunismo<\/em><\/a>, Edipro, 2018.<\/p>\n<p><a id=\"_edn9\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_ednref9\">[ix]<\/a>\u00a0August Bebel,\u00a0<em>Women and Socialism<\/em>, Nova York 1910 [1879]. Veja tamb\u00e9m o Programa de Erfurt de 1891, que ecoa esse tema frequente na literatura socialista, ou seja, a cren\u00e7a de que, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o, tanto a sociedade quanto a economia se tornar\u00e3o harmoniosas \u2014 n\u00e3o apenas pela resolu\u00e7\u00e3o dos antagonismos de classe, mas tamb\u00e9m pela elimina\u00e7\u00e3o planejada das crises de superprodu\u00e7\u00e3o e subprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a id=\"_edn10\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Falem-do-capitalismo%2F#_ednref10\">[x]<\/a>\u00a0Veja-se, em primeiro lugar,\u00a0<em>Anti-D\u00fchring<\/em>\u00a0(op. cit.) de Friedrich Engels. A quest\u00e3o aparece, claro, em o\u00a0<em>Estado e a revolu\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>(op. cit.)de Lenin e no livro de Karl Kautsky, The social Revolution, Chicago, 1903 [1902]. No contexto do discurso pol\u00edtico geral, Kautsky tendia a recair na compreens\u00e3o de Bebel que, como j\u00e1 se indicou acima, reduzia a delibera\u00e7\u00e3o sobre a produ\u00e7\u00e3o democratizada a um debate puramente t\u00e9cnico. Em contraste,\u00a0<em>Red Star<\/em>, de Alexander Bogdanov, Bloomington,1984 [1908], no qual cientistas marcianos discutem sobre invadir a Terra ou V\u00eanus em resposta ao esgotamento dos recursos em seu pr\u00f3prio planeta. Esse escrito representa um raro momento de verdadeiro debate pol\u00edtico sobre uma utopia socialista, pois, como se sabe, esse tema, notavelmente, permane\u00e7e restrito a especialistas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do capitalismo &#8211; Publicado em: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/alem-do-capitalismo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AARON BENANAV* &#8211; O capitalismo, cujo dinamismo j\u00e1 elevou padr\u00f5es de vida, esgota-se na estagna\u00e7\u00e3o oligopolista e na crise ambiental, demandando uma ordem econ\u00f4mica orientada por m\u00faltiplos fins, n\u00e3o apenas pelo lucro. 1. Poucos discordariam que existe, por tr\u00e1s da turbul\u00eancia pol\u00edtica atual, um profundo mal-estar econ\u00f4mico. 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