{"id":25023,"date":"2025-12-11T12:53:48","date_gmt":"2025-12-11T15:53:48","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25023"},"modified":"2025-12-11T09:59:38","modified_gmt":"2025-12-11T12:59:38","slug":"insurreicoes-negras-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/12\/11\/insurreicoes-negras-no-brasil\/","title":{"rendered":"Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>M\u00c1RIO MAESTRI*<\/strong> &#8211; Um pequeno cl\u00e1ssico esquecido da historiografia marxista brasileira<\/p>\n<p>H\u00e1 90 anos, em in\u00edcios de 1935, Aderbal Jurema, de 23 anos, apenas egresso da Faculdade de Direito de Recife, publicou um livro, para a sua \u00e9poca, exc\u00eantrico \u00e0s leituras do passado escravista brasileiro \u2013\u00a0<em>Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil<\/em>. Em forma pioneira, desenvolvia a proposta da oposi\u00e7\u00e3o, entre escravizados e escravizadores, como express\u00e3o da luta de classes sob a escravid\u00e3o. Apesar de seu car\u00e1ter referencial, o livrinho permaneceu praticamente desconhecido pela historiografia brasileira.<\/p>\n<p>Entre as raz\u00f5es do tardio e frustrado reconhecimento da centralidade do trabalhador escravizado no devir da hist\u00f3ria do Brasil pr\u00e9-1888, destacam-se a longa vig\u00eancia da ordem negreira e de suas classes hegem\u00f4nicas; a g\u00eanese tardia e atomizada da moderna classe trabalhadora na rep\u00fablica federalizada de 1889 a 1930; a demorada chegada ao Brasil de um marxismo rapidamente abastardado; um partido comunista dirigido pelo colaboracionismo stalinista; o forte dinamismo do populismo burgu\u00eas. O resultado foi que, por um longo per\u00edodo, silenciou-se a contradi\u00e7\u00e3o entre o escravizado e o escravizador como o nexo central do passado pr\u00e9-Aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o fim do escravismo, sob o prest\u00edgio do dito \u201cracismo cient\u00edfico\u201d, reinou o an\u00e1tema lan\u00e7ado pelo maranhense Nina Rodrigues e seus seguidores sobre uma sociedade brasileira comprometida pela miscigena\u00e7\u00e3o. A partir de 1933, com\u00a0<em>Casa-Grande &amp; Senzala<\/em>, Gilberto Freyre, governou, como senhor de bara\u00e7o e cutelo, sobre as narrativas referentes ao passado escravista e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es raciais do pa\u00eds. O magn\u00edfico cabotino, prop\u00f4s colabora\u00e7\u00e3o hierarquizada de europeus, negros e \u00edndios como imprescind\u00edvel \u00e0 transposi\u00e7\u00e3o da cultura ocidental aos Tr\u00f3picos.<\/p>\n<p>Foram poderosos os apoios e as raz\u00f5es do longo silenciamento da centralidade da luta de classe na escravid\u00e3o brasileira, a mais longeva, acabada e impiedosa ordem negreira, que massacrou milh\u00f5es de trabalhadores escravizados. A nega\u00e7\u00e3o da determina\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira pela ordem escravista; a sua apresenta\u00e7\u00e3o, ontem e hoje, adocicada; as negativas de sua materialidade e organicidade e por a\u00ed vai, permitiram a apresenta\u00e7\u00e3o de fac\u00e7\u00e3o das classes exploradoras como os demiurgos do fim da escravid\u00e3o e da emancipa\u00e7\u00e3o capitalista do Brasil.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>O sil\u00eancio dos vencidos<\/strong><\/p>\n<p>Nessa reconstru\u00e7\u00e3o fantasmag\u00f3rica do passado escravista, vozes, mem\u00f3rias, leituras, interpreta\u00e7\u00f5es transgressoras, com ra\u00edzes ou inspiradas nos oprimidos, foram silenciadas pela marginaliza\u00e7\u00e3o, cancelamento e, mesmo, pela viol\u00eancia. Em sentido oposto, foram legitimadas, consagradas e financiadas, as apologias que interpretavam, consolidavam e modernizavam as narrativas tranquilizadoras do passado, desconhecendo e minimizando a luta dos trabalhadores escravizados, para melhor sufocar e combater a dos trabalhadores atuais. [GORENDER, 1990.]<\/p>\n<p>Nesse movimento de oculta\u00e7\u00e3o, destacou-se a marginaliza\u00e7\u00e3o do livro germinal de Cl\u00f3vis Moura, nos anos 1950,\u00a0<em>Rebeli\u00f5es da senzala:\u00a0<\/em>quilombos, insurrei\u00e7\u00f5es, guerrilhas, torpedeado, por Caio Prado J\u00fanior e \u00c9dison Carneiro, intelectuais reconhecidos e camaradas do jovem autor, que os consultou em procura de apoio para o desenvolvimento e para publica\u00e7\u00e3o de sua investiga\u00e7\u00e3o. (MAESTRI, 2022, p.280.) Em forma concomitante, o ensaio de Benjamin P\u00e9ret, \u201c<em>Que foi o quilombo de Palmares?<\/em>\u201d, de 1956, conheceu igual conspira\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio que, neste caso, se arrasta at\u00e9 hoje. [P\u00c9RET, 1956.]<\/p>\n<p>Ambos, Cl\u00f3vis Moura e Benjamin P\u00e9ret, nos limites da informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da \u00e9poca, assinalaram o car\u00e1ter escravista dominante da escravid\u00e3o e o confronto entre o escravizador e o escravizado como express\u00e3o central da luta de classes no Brasil da \u00e9poca. O jovem intelectual piauiense, pouco conhecido, militante de partido stalinista, e o franc\u00eas, consagrado intelectual e combatente trotskista, propunham que o avan\u00e7o da sociedade brasileira dependera da destrui\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Benjamin P\u00e9ret morreu, em 18 de setembro de 1959, em Paris, na Fran\u00e7a. A seguir, se fez sil\u00eancio, quase total, sobre a dessacraliza\u00e7\u00e3o do trotskista e surrealista franc\u00eas das vis\u00f5es oficiais e oficiosas sobre a escravid\u00e3o brasileira. No Brasil, seus dois artigos foram apresentados, contextualizados e comentados, sob forma de livro, passados 45 anos, pela Editora da UFRGS. [P\u00c9RET, 2002.] Apesar de esgotada, a edi\u00e7\u00e3o foi raramente citada. Uma reedi\u00e7\u00e3o, revista, prevista para o fim deste ano, ser\u00e1 lan\u00e7ada por iniciativa do economista Nildo Ourique, diretor da Editora da Universidade de Santa Catarina.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Inventando a hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Em 1952, por carta,Caio Prado J\u00fanior negou-se a publicar, na prestigiosa Brasiliense,\u00a0<em>Rebeli\u00f5es da Senzala<\/em>, sob desculpa p\u00edfia. O livro terminou sendo lan\u00e7ado, apenas em 1959, pela Edi\u00e7\u00f5es Zumbi, pequena editora, de curta vida, fundada para divulgar livros rejeitados pela editora Vit\u00f3ria, do PCB, segundo me confessou Cl\u00f3vis Moura, amargurado, em 30 de janeiro de 1999, ao me entregar c\u00f3pia da correspond\u00eancia com Caio Prado e \u00c9dison Carneiro, quando eu preparava artigo sobre a import\u00e2ncia de seu livro. [MAESTRI, 2022.]<\/p>\n<p>Nos anos 1950, o comunismo \u201cmarxista-leninista\u201d colocava a luta pelo socialismo no congelador e entregava a sorte do movimento social \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da espectral \u201cburguesia anti-imperialista e anti-latifundi\u00e1ria\u201d, aquela que deu o golpe em 1964. Reconstruindo a hist\u00f3ria segundo suas necessidades pol\u00edticas, os intelectuais org\u00e2nicos pecebistas propunham, como o conflito central do passado escravista, o choque entre os latifundi\u00e1rios e um campesinato constru\u00eddo \u201cad hoc\u201d, invisibilizando os cativos e suas lutas.<\/p>\n<p>Cl\u00f3vis Moura pretendeu dar um passo \u00e0 esquerda, rompendo com o PCB, ao ingressar no PCdoB, em 1962, poucos anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Rebeli\u00f5es da Senzala.\u00a0<\/em>Por\u00e9m, o partido dos futuros mao\u00edstas brasileiros, onde militou por longos anos, seguiu, com uma ret\u00f3rica esquerdista, a mesma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e interpreta\u00e7\u00e3o colaboracionista da forma\u00e7\u00e3o social brasileira do partido-m\u00e3e com o qual rompera. Cl\u00f3vis Moura viveu sob aquela cultura, sem poder aprofundar o salto epistemol\u00f3gico que dera, para o qual, lhe faltou, igualmente, recursos para avan\u00e7ar essa sua investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em meados dos anos 1950, a chamada \u201cEscola Paulista\u201d, conformada, sobretudo, por Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Oct\u00e1vio Ianni, iniciou investiga\u00e7\u00e3o sobre a escravid\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es raciais no Brasil. Ela impugnou as teses da escravid\u00e3o patriarcal e da democracia racial, enfatizando o despotismo escravista e suas sequelas p\u00f3s-1888, com destaque para o racismo. Por\u00e9m, apresentou o cativo como um \u201cfigurante mudo\u201d, objeto e jamais sujeito do devir da hist\u00f3ria do Brasil. A Aboli\u00e7\u00e3o foi proposta como um \u201cneg\u00f3cio de branco\u201d, nascido do anacronismo da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Saltos de qualidade<\/strong><\/p>\n<p>A retomada da vis\u00e3o sobre um Brasil escravista e da import\u00e2ncia da oposi\u00e7\u00e3o entre escravizados e escravizadores deu-se, em forma crescente, nos anos 1960, com importantes trabalhos, produzidos por, entre outros, J. Stanley Stein [1961], Em\u00edlia Viotti da Costa [1966], Luiz Luna [1968], Jos\u00e9 Al\u00edpio Goulart [1971], D\u00e9cio Freitas [1973]. Movimento muito logo reprimido, em 1964, pelo Golpe Militar, que demitiu, prendeu, torturou e assassinou intelectuais progressistas, esquerdistas, marxistas.<\/p>\n<p>O salto de qualidade, nessa leitura, ocorreria, a seguir, com a interpreta\u00e7\u00e3o do passado escravista a partir da categoria modo de produ\u00e7\u00e3o escravista colonial. Em 1973, Ciro Flamari\u00f3n Cardoso publicou, no exterior, artigo exemplar sobre a escravid\u00e3o colonial. Anos mais tarde, ele retrocedeu nesse avan\u00e7o epistemol\u00f3gico. [CARDOSO, 1973, 1987.] Em 1978, Jacob Gorender apresentou sua obra generativa\u00a0<em>O escravismo colonial.<\/em>\u00a0[GORENDER, 2016.] Em fins dos anos 1970, o avan\u00e7o das lutas sociais no Brasil impulsionava as leituras do passado e do presente a partir da \u00f3tica do mundo do trabalho.<\/p>\n<p>A refunda\u00e7\u00e3o da historiografia da escravid\u00e3o a partir do trabalhador feitorizado foi submetida, quase de imediato, a um esfor\u00e7o acad\u00eamico de deslegitima\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s, n\u00e3o raro, da proposta de cativos que comiam bem, trabalhavam pouco, apanhavam ainda menos; impunham suas vontades negociando com os escravizadores; libertavam-se aos borbot\u00f5es, atrav\u00e9s de alforrias; constitu\u00edam habitualmente fam\u00edlias est\u00e1veis; exploravam com enorme sucesso pequenas parcelas agr\u00edcolas; defendiam a escravid\u00e3o. [MAESTRI, 2015.] O esfor\u00e7o restauracionista tornou-se hegem\u00f4nico quando a noite caiu sobre o mundo social, com a vit\u00f3ria mundial da contra-revolu\u00e7\u00e3o liberal, assinalada pela derrota da URSS, em 1991.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 90 anos<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 90 anos, em in\u00edcios de 1935, Aderbal Jurema publicou seu pioneiro livro\u00a0<em>Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil.\u00a0<\/em>O jovem paraibano apresentara, no ano anterior, no I Congresso Afro-Brasileiro, de Recife (11-15 de novembro), organizado por Gilberto Freyre, a comunica\u00e7\u00e3o \u201cO potencial revolucion\u00e1rio do negro brasileiro\u201d, resumindo as propostas que desenvolveria no seu livrinho, do ano seguinte. Sua comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi publicada nos anais do Congresso.<\/p>\n<p>Ao escrever\u00a0<em>Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil<\/em>, Aderbal Jurema era um jovem militante comunista, galvanizado pela reorienta\u00e7\u00e3o esquerdista do comunismo internacional, quando dos chamados \u201cTerceiro Per\u00edodo\u201d e \u201csocial-fascismo\u201d. Em 1928, sob a dire\u00e7\u00e3o de Joseph Stalin, a Internacional Comunista prop\u00f4s que o nazifascismo era um fen\u00f4meno transit\u00f3rio e o principal inimigo da revolu\u00e7\u00e3o seria a social-democracia. Superado o primeiro e vencida a segunda, o mundo ingressaria em era de vit\u00f3rias da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. O barco revolucion\u00e1rio devia ser lan\u00e7ado ao mar, n\u00e3o importando o tempo que fizesse.<\/p>\n<p>Em 1933, devido aos enormes desastres que produzira, o ultraesquerdismo do \u201cTerceiro Per\u00edodo\u201d foi abandonado pela III Internacional. Em agosto de 1935, ele seria substitu\u00eddo pela orienta\u00e7\u00e3o direitista e colaboracionista das Frentes Populares, que defendia o combate ao fascismo abra\u00e7ado com a burguesia proposta como democr\u00e1tica. Entre outros desastres, a nova orienta\u00e7\u00e3o enterrou o impulso revolucion\u00e1rio franc\u00eas, quando do\u00a0<em>Front Populaire<\/em>\u00a0(1936-1938), e a Revolu\u00e7\u00e3o Espanhola (1936-1939).<\/p>\n<p>Ao apagar das luzes do \u201cTerceiro Per\u00edodo\u201d, sua aplica\u00e7\u00e3o no Brasil resultou no desastroso\u00a0<em>putch<\/em>\u00a0vanguardista do PCB, de novembro de 1935. Realizado \u00e0 margem e sob o desconhecimento dos trabalhadores, at\u00e9 a sua eclos\u00e3o, ele apoiou-se essencialmente nos oficiais e nos soldados comunistas e antifascistas da Alian\u00e7a Nacional Libertadora. O movimento facilitou o golpe de Get\u00falio Vargas, de novembro de 1937, e o longo per\u00edodo ditatorial que se prolongou at\u00e9 1945. [FREITAS, 1998.]<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Pouca ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Pesou sobre o ensaio de Aderbal Jurema o seu limitado conhecimento da hist\u00f3ria do Brasil, comum \u00e0 enorme parte da intelectualidade comunista de sua \u00e9poca. Nenhum intelectual de peso aderiu ao PCB, imediatamente ap\u00f3s sua funda\u00e7\u00e3o. A literatura marxista foi traduzida de forma demorada e limitada ao portugu\u00eas. De 1937 a 1945, o pa\u00eds viveu sob a ditadura burguesa, o mesmo ocorrendo em Portugal, de 1933 a 1977.<\/p>\n<p>Compreende-se que Aderbal Jurema se apoie em\u00a0<em>Casa Grande &amp; Senzala,\u00a0<\/em>de Freyre, ao explicar, em uma falsa l\u00f3gica culturalista, a prefer\u00eancia, do africano ao nativo, como trabalhador escravizado, j\u00e1 que, segundo o soci\u00f3logo pernambucano, o americano pouco praticaria e pouco se adaptaria \u00e0 cultura agr\u00edcola. Interpreta\u00e7\u00e3o que segue viva nos dias de hoje.<\/p>\n<p>O jovem comunista abra\u00e7ou igualmente as propostas de redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edtas nascidas da cobi\u00e7a clerical pela for\u00e7a de trabalho nativa \u2013 \u201cN\u00e3o era talvez menor a tirania do religioso, na miss\u00e3o, que a do lavrador, na fazenda.\u201d Uma interpreta\u00e7\u00e3o retomada, por Freyre, em seu trabalho referencial, dos\u00a0<em>encomenderos<\/em>\u00a0e escravistas sul-americanos que desejavam feitorizar os nativos.<\/p>\n<p>A modernidade de\u00a0<em>Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil\u00a0<\/em>n\u00e3o se deve apenas \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o da proposta do confronto entre escravizados e escravizadores como luta de classes, que se expressaria nas fugas, na forma\u00e7\u00e3o de quilombos, nas insurrei\u00e7\u00f5es, formas diuturnas de oposi\u00e7\u00e3o do cativo \u00e0 sua explora\u00e7\u00e3o e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds tendo como \u201cargamassa\u201d o seu \u201csuor\u201d, \u201csangue\u201d e \u201ccarne\u201d.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Dupla domina\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Aderbal Jurema vai mais longe, ao definir que, nas Am\u00e9ricas, a escravid\u00e3o ensejara uma dupla domina\u00e7\u00e3o e \u201c\u00f3dio\u201d, de \u201cclasse\u201d e de \u201cra\u00e7a\u201d. A partir dessa vis\u00e3o, em breve cap\u00edtulo dedicado ao \u201cNegro nos Estados Unidos\u201d, no qual, se apoiando em uma restrita bibliografia sobre o tema, avan\u00e7a reflex\u00f5es comparativas, n\u00e3o despidas de interesse, para a sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>O autor dedica um cap\u00edtulo ao \u201cEstado Negro dos Palmares\u201d e outro \u00e0s \u201cPrincipais insurrei\u00e7\u00f5es negras\u201d. Quanto \u00e0 confedera\u00e7\u00e3o de Palmares, repete algumas vis\u00f5es gerais ent\u00e3o em curso, definindo-a como um \u201cverdadeiro Estado africano\u201d, \u201cuma transposi\u00e7\u00e3o da cultura africana para as terras das Alagoas\u201d. Enfatiza, com arg\u00facia, que Palmares n\u00e3o fora isento da \u201cinflu\u00eancia das senzalas\u201d.<\/p>\n<p>Em sua leitura sobre a confedera\u00e7\u00e3o dos quilombos de Palmares, Aderbal Jurema apoiou-se em Nina Rodrigues, na expedi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Blaer, em documenta\u00e7\u00e3o editada e em autores nacionais, ou que escreveram sobre o Brasil colonial, como Oliveira Lima, Jaime Altavila, o ingl\u00easRobert Southey, o alem\u00e3o H. Handelmann. Sobre a \u00c1frica Negra Pr\u00e9-Colonial, o autor sabia quase nada, comungando n\u00e3o raro com as fantasmagorias de origem colonial ou imperialista.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>As principais insurrei\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>O jovem revolucion\u00e1rio dedicou um cap\u00edtulo, tamb\u00e9m breve, \u00e0s \u201cPrincipais insurrei\u00e7\u00f5es negras\u201d, nas quais destaca os movimentos baianos. \u201cDe 1807 a 1835, as classes dominantes da Ba\u00eda viveram em constantes sobressaltos por causa das peri\u00f3dicas insurrei\u00e7\u00f5es de escravos\u201d. Para o marxismo revolucion\u00e1rio, a insurrei\u00e7\u00e3o dos trabalhadores \u00e9 o principal caminho do assalto ao poder. Em 1928, para orientar as insurrei\u00e7\u00f5es que seriam abertas pelo \u201cTerceiro Per\u00edodo\u201d<strong>,<\/strong>\u00a0a III Internacional publicou, em alem\u00e3o, sob o pseud\u00f4nimo de A. Neuberg, o manual\u00a0<em>A Insurrei\u00e7\u00e3o armada<\/em>.<\/p>\n<p>O quinto cap\u00edtulo \u00e9 dedicado aos \u201cNegros nos movimentos populares\u201d. Nele, Aderbal Jurema avan\u00e7a que os \u201cescravos negros\u201d \u201cderam o seu forte contingente de rebeldia aos grandes movimentos populares que agitaram o governo colonial, imperial e republicano no Brasil\u201d. Refere-se \u00e0 forte ades\u00e3o de cativos ao levante em Recife, em fevereiro de 1823; a escravizados que reivindicaram a liberdade, em Campo Grande, na Para\u00edba, quando dos Quebra-quilos; \u00e0 revolta da marinhagem negra da armada, em 1910, sob a dire\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o C\u00e2ndido, encarna\u00e7\u00e3o das \u201cenergias revolucion\u00e1rias do negro brasileiro\u201d.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Saltos l\u00f3gicos, trope\u00e7os hist\u00f3ricos<\/strong><\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cMaus tratos na senzala e na ro\u00e7a\u201d, a menos de cinquenta anos do fim da escravid\u00e3o, com ex-cativos ainda vivos, Aderbal Jurema descreveu cen\u00e1rios do quotidiano dos escravizados, de \u201cnegros fugidos trabalhavam com gargaleiras ao pesco\u00e7o e peias de ferro com manoplas bem pesadas, trancadas a cadeado\u201d. Fala de cativos labutando com apenas \u201ctanga de baeta encarnada amarrada \u00e0 cintura com cip\u00f3 caruru\u201d. Refere-se a \u201csenzalas\u201d nordestinas que eram \u201cverdadeiros chiqueiros\u201d.<\/p>\n<p>Ao comparar o \u201cNegro escravizado e o negro assalariado\u201d, em contradi\u00e7\u00e3o com o que propusera, retoma a defesa de Gilberto Freyre da escravid\u00e3o. Segundo ela, o assalariado vivia pior do que o cativo, j\u00e1 que o escravizador devia, em teoria, cuidar de seu investimento, e o capitalista, ao contr\u00e1rio, contratava e despedia os trabalhadores ao bel-prazer.<\/p>\n<p>Sua explica\u00e7\u00e3o \u2013 que abstra\u00eda um tr\u00e1fico negreiro despejando infelizes, aos borbot\u00f5es e baixo pre\u00e7o, nos portos do Brasil \u2013 nascia, por\u00e9m, da vontade de enfatizar a situa\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o do trabalhador negro contempor\u00e2neo. Sobre ele, afirma que conhecia a \u201cescravid\u00e3o dos sal\u00e1rios miser\u00e1veis\u201d. Realidade que se mant\u00e9m, em forma substancial, em nosso pa\u00eds, neste fim de 2025.<\/p>\n<p>Em breve conclus\u00e3o, \u201cO problema da liberdade\u201d, refere-se a um cen\u00e1rio futuro, que acreditava estar em gesta\u00e7\u00e3o no Brasil e nas Am\u00e9ricas. Nele, a eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia e da uni\u00e3o dos novos escravizados negros, pardos e brancos, os faria avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a um mundo de autonomia, sem preconceitos e desigualdade. Ele n\u00e3o define este mundo futuro como socialista ou comunista, certamente, para n\u00e3o espantar os propostos aliados \u201ccapitalistas democratas e anti-imperialistas\u201d de burguesia progressista.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Burguesia revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Projetando essa vis\u00e3o para o passado, Aderbal Jurema afirmou que, quando da escravid\u00e3o, fora uma \u201cjovem burguesia brasileira\u201d, \u201canti-escravocrata\u201d, que n\u00e3o define, que golpeara o \u201cfeudalismo luso-brasileiro\u201d , procurando, na Aboli\u00e7\u00e3o, \u201cenfraquecer o sistema feudal de explora\u00e7\u00e3o e fortalecer a economia liberal do sal\u00e1rio\u201d. Tudo, segundo o abeced\u00e1rio moscovita, que definia o Brasil como forma\u00e7\u00e3o semi-feudal e propunha uma revolu\u00e7\u00e3o burguesa, antes de partir para a luta pelo socialismo.<\/p>\n<p>Em uma latente tens\u00e3o interna \u00e0 sua narrativa, Aderbal Jurema apresentou, por um lado, a contradi\u00e7\u00e3o, entre escravizados e escravizadores, como luta de classes, e sugeriu, pelo outro, a supera\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o impulsionada pela a\u00e7\u00e3o de burgueses progressistas fantasmag\u00f3rica. Em explicita\u00e7\u00e3o dessa tens\u00e3o anal\u00edtica, reclama que Caio Prado J\u00fanior, em\u00a0<em>Evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil,\u00a0<\/em>de 1933,livro que define como \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria\u201d brasileira, \u201ctenha subestimado os movimentos dos negros, silenciando por completo sobre Palmares\u201d,.<\/p>\n<p>Naquele livro,Caio Prado fizera pior do que ignorar a luta de classes na escravid\u00e3o, o que era coerente com seu estranhamento ao m\u00e9todo marxista. Ele desqualificou, como grosseira, e ironizou a lideran\u00e7a de\u00a0<em>dom<\/em>\u00a0Cosme Bento das Chagas, o Negro Cosme, \u201cdefensor e protetor das liberdades Bem-Te-Vis\u201d (liberais), o principal l\u00edder quilombola da Balaiada, no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Ignorando a centralidade da luta de classes na escravid\u00e3o, Caio Prado podia apresentar, com maior coer\u00eancia interna, mas em contradi\u00e7\u00e3o com a realidade hist\u00f3rica, sua leitura da supera\u00e7\u00e3o do escravismo como obra das press\u00f5es externas e dos impulsos modernizadores da sociedade do Brasil. Forma\u00e7\u00e3o social que ele via com uma natureza capitalista, desde suas origens, em vis\u00e3o de inspira\u00e7\u00e3o weberiana e estranha ao marxismo.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Dupla opress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Ainda que em forma sum\u00e1ria, destaca-se, em\u00a0<em>Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil,\u00a0<\/em>a assinalada proposta de que o trabalhador negro, na escravid\u00e3o e ap\u00f3s ela, sofrera uma dupla opress\u00e3o, de \u201cclasse e de ra\u00e7a\u201d. Aderbal Jurema lembra, com acuidade, a domin\u00e2ncia e determina\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o de classe sobre a de ra\u00e7a. Rejeita os \u201cmuitos dos nossos historiadores que querem dar ao sentido revolucion\u00e1rio do negro um car\u00e1ter profundamente religioso\u201d. Avan\u00e7a que esse impulso nascia, comumente, de tens\u00f5es da luta contra a explora\u00e7\u00e3o, pela terra, pela liberdade.<\/p>\n<p>Em forma correta, mas em vi\u00e9s mecanicista, lembra que, nos confrontos do passado, a \u201ccultura maometana e cultura cat\u00f3lica agiam como superestruturas de subestruturas econ\u00f4micas em antagonismos irreconcili\u00e1veis\u201d. Recorda que as Cruzadas n\u00e3o \u201cforam motivadas unicamente\u201d pela vontade de reconquistar o \u201csanto sepulcro\u201d. Cinco anos mais tarde, o historiador marxista Christopher Hill, no cl\u00e1ssico\u00a0<em>A revolu\u00e7\u00e3o inglesa de 1640,\u00a0<\/em>descreveualuta de classes, que abrira o caminho na grande ilha para a ordem capitalista, galvanizada por interpreta\u00e7\u00f5es opostas sobre a B\u00edblia.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Mudando de trincheira<\/strong><\/p>\n<p>O germinal livrinho, de 1935, foi praticamente esquecido. Poucos meses ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o, comunistas, socialistas, antifascistas foram perseguidos, presos, torturados, mortos, quando da repress\u00e3o ao movimento de novembro daquele ano. E, ap\u00f3s o golpe getulista de 1937, conheceram a longa persegui\u00e7\u00e3o, da qual sa\u00edram, apenas, ap\u00f3s a \u201credemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d, em 1945.<\/p>\n<p>Sobreviveram a tudo isso raros exemplares da edi\u00e7\u00e3o original de\u00a0<em>Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil,\u00a0<\/em>publicada em in\u00edcios de 1935, pelas Edi\u00e7\u00f5es da Casa Mozart, de Recife. Apesar do avan\u00e7o anal\u00edtico, o livrinho teve apenas uma reedi\u00e7\u00e3o, com \u201cfei\u00e7\u00e3o fac-similar\u201d, na administra\u00e7\u00e3o do governador pernambucano Gustavo Kruse [1986-87], do PDS, para homenagear o autor, convertido ao conservadorismo. Havia muito, Aderbal Jurema mudara de trincheira, uma outra raz\u00e3o para o olvido-rejei\u00e7\u00e3o do trabalho, pela esquerda e, possivelmente, pelo pr\u00f3prio autor.<\/p>\n<p><em>Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil<\/em>\u00a0teria inspirado Cl\u00f3vis Moura, que o citou, retomando e ampliando, de forma significativa, qualitativa e quantitativamente, as teses de 1935, em seu livro referencial, publicado vinte anos mais tarde. Eugene Genovese, destacado historiador estadunidense da escravid\u00e3o, ao abordar a historiografia dos levantes dos escravizados nas Am\u00e9ricas, citou, em\u00a0<em>Front Rebellion to Revolution,\u00a0<\/em>de 1979, o trabalho de Aderbal Jurema, assim como o de Luiz Luna, de 1968,\u00a0<em>O negro na luta contra a escravid\u00e3<\/em><em>o<\/em>.<\/p>\n<p><strong>*M\u00e1rio Maestri<\/strong><em>\u00a0\u00e9 historiador. Autor, entre outros livros, de<\/em>\u00a0Filhos de C\u00e3, filhos do c\u00e3o. O trabalhador escravizado na historiografia brasileira (<em>FCM Editora<\/em>).<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-58165 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1.webp?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1.webp 768w, https:\/\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1-225x300.webp 225w, https:\/\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1-113x150.webp 113w, \" alt=\"\" \/><\/figure>\n<p>Aderbal Jurema.\u00a0<em>Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil<\/em>. Recife, Edi\u00e7\u00f5es da Casa Mozart, 1935.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<p>CARDOSO, Ciro Flamarion. El modo de producci\u00f3n esclavista colonial en Am\u00e9rica. Assadourian et al. C.S. et al.\u00a0<em>Modos de producci\u00f3<\/em><em>n en Am<\/em><em>\u00e9<\/em><em>rica Latina<\/em>. Buenos Aires: Siglo XXI, 1973.<\/p>\n<p>CARDOSO, Ciro Flamariam S. E<em>scravo ou campon<\/em><em>\u00ea<\/em><em>s.\u00a0<\/em>O protocampesinato negro nas Am\u00e9ricas. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1987.<\/p>\n<p>FREITAS, Valter de Almeida.\u00a0<em>ANL e PCB:\u00a0<\/em>mitos e realidade. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1998.<\/p>\n<p>GORENDER, Jacob.\u00a0<em>A escravid\u00e3o reabilitada<\/em>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1990.<\/p>\n<p>GORENDER, Jacob.\u00a0<em>O escravismo colonial<\/em>. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular\/Perseu Abramo, 2016.<\/p>\n<p>MAESTRI, M. Como era Gostoso ser Escravo no Brasil: A Apologia da Servid\u00e3o Volunt\u00e1ria de K\u00e1tia de Queir\u00f3s Mattoso.\u00a0<em>Revista Cr\u00ed<\/em><em>tica Hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>rica<\/em>, 2015.\u00a0<em>6<\/em>(12). https:\/\/doi.org\/10.28998\/rchvl6n12.2015.0010.<\/p>\n<p>MAESTRI, M\u00e1rio.\u00a0<em>Filhos de C\u00e3, Filhos do C\u00e3<\/em><em>o<\/em>. O trabalhador escravizado na historiografia brasileira. Porto Alegre: FCM Editora, 2022.<\/p>\n<p>MOURA, Cl\u00f3vis.\u00a0<em>Rebeli<\/em><em>\u00f5<\/em><em>es da senzala<\/em>: quilombos, insurrei\u00e7\u00f5es, guerrilhas. S\u00e3o Paulo: Zumbi, 1959<\/p>\n<p>P\u00c9RET, Benjamin. \u201cQue foi o quilombo de Palmares?\u201d Revista Anhembi, S\u00e3o Paulo, abril e maio, 1956.<\/p>\n<p>P\u00c9RET, Benjamin.\u00a0<em>O quilombos dos Palmares<\/em>. Organizada e apresentada por M\u00e1rio Maestri e Robert Ponge. Porto Alegre: EdUFRGS, 2002.<\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\">Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil &#8211; Publicado em: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/insurreicoes-negras-no-brasil\/<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00c1RIO MAESTRI* &#8211; Um pequeno cl\u00e1ssico esquecido da historiografia marxista brasileira H\u00e1 90 anos, em in\u00edcios de 1935, Aderbal Jurema, de 23 anos, apenas egresso da Faculdade de Direito de Recife, publicou um livro, para a sua \u00e9poca, exc\u00eantrico \u00e0s leituras do passado escravista brasileiro \u2013\u00a0Insurrei\u00e7\u00f5es negras no Brasil. 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