{"id":25000,"date":"2025-11-27T12:31:20","date_gmt":"2025-11-27T15:31:20","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=25000"},"modified":"2025-11-24T20:52:24","modified_gmt":"2025-11-24T23:52:24","slug":"quando-a-ditadura-empresarial-militar-assume-o-primeiro-plano-no-cinema-brasileiro-o-agente-secreto-de-kleber-mendonca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/11\/27\/quando-a-ditadura-empresarial-militar-assume-o-primeiro-plano-no-cinema-brasileiro-o-agente-secreto-de-kleber-mendonca\/","title":{"rendered":"Quando a ditadura empresarial-militar assume o primeiro plano no cinema brasileiro: \u201cO agente secreto\u201d, de Kleber Mendon\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>Erico Andrade e Thais Klein<\/strong> &#8211; Sobre o filme Agente Secreto.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-10.png?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-10.png?w=620 620w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-10.png?w=150 150w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-10.png?w=300 300w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-10.png?w=768 768w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-10.png 770w, \" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><strong>ALGUNS SPOILERS<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Embora o trabalho de mem\u00f3ria sobre o per\u00edodo ditatorial brasileiro j\u00e1 estivesse presente no cinema nacional, ao abordar a ditadura militar, concentrou-se majoritariamente na representa\u00e7\u00e3o dos agentes fardados \u2014 torturadores, perseguidores e assassinos de opositores pol\u00edticos \u2014, deixando \u00e0 sombra a participa\u00e7\u00e3o do empresariado. Pouco se explorou o papel das for\u00e7as econ\u00f4micas que sustentaram o regime e dele se beneficiaram. Em\u00a0<em>Ainda estou\u00a0aqui<\/em>, por exemplo, a origem da fortuna da fam\u00edlia Rubens Paiva permanece intocada: a circula\u00e7\u00e3o do capital aparece como dado natural, desprovido de contexto hist\u00f3rico. Em grande parte das produ\u00e7\u00f5es, os militares s\u00e3o isolados das empresas que financiaram o golpe, lucraram com o milagre econ\u00f4mico e ampliaram a concentra\u00e7\u00e3o de renda no pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">\u00c9 preciso reconhecer que a ditadura militar brasileira aprofundou a constru\u00e7\u00e3o racial da desigualdade. Tratava-se de uma ditadura empresarial-militar, cujo projeto visava manter e expandir a concentra\u00e7\u00e3o regional e racial da riqueza. No entanto, o cinema brasileiro raramente abordou com a devida \u00eanfase o papel dos empres\u00e1rios nesse processo hist\u00f3rico. Rompendo com esse pacto de sil\u00eancio,\u00a0<em>O agente secreto<\/em>\u00a0desloca o foco habitual da narrativa sobre o regime: ao inv\u00e9s de centrar-se na figura do militar, o filme coloca em cena a cumplicidade das elites econ\u00f4micas e sua atua\u00e7\u00e3o no gerenciamento da riqueza nacional \u2014 mostrando como as autoridades foram mobilizadas para a realiza\u00e7\u00e3o de seus interesses privados. O \u201cagente secreto\u201d do t\u00edtulo n\u00e3o \u00e9 um comunista nem um inimigo da p\u00e1tria infiltrado nas institui\u00e7\u00f5es estatais para destruir o pa\u00eds. O filme guarda apenas o ritmo de um\u00a0<em>thriller<\/em>\u00a0de investiga\u00e7\u00e3o e a alus\u00e3o metalingu\u00edstica ao pr\u00f3prio cinema, evocada nas frequentes refer\u00eancias \u00e0 s\u00e9tima arte, a trama central n\u00e3o gira em torno da espionagem ou da trai\u00e7\u00e3o, mas da cumplicidade entre o poder econ\u00f4mico, o aparato estatal e o capital estrangeiro, revelada nos bastidores da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-20.png?ssl=1\" rel=\"prettyPhoto\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-60397 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-20.png?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-20.png?w=1024 1024w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-20.png?w=150 150w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-20.png?w=300 300w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-20.png?w=768 768w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-20.png 1080w, \" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Se essa not\u00e1vel inova\u00e7\u00e3o do cinema de Kleber Mendon\u00e7a Filho \u00e9 motivo de um primeiro destaque, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel obliterar o esmero est\u00e9tico atrav\u00e9s do qual o filme dialoga com a hist\u00f3ria do cinema nacional e internacional com maestria. A decis\u00e3o de promover esse di\u00e1logo tendo como pano de fundo um dos cinemas de rua em atividade mais antigos do Brasil, o Cinema S\u00e3o Luiz, em Recife, n\u00e3o poderia ter sido mais acertada. As fronteiras entre dentro e fora do cinema se tornam borradas n\u00e3o apenas para os espectadores: o pr\u00f3prio cinema atravessa a narrativa e a afeta. Um exemplo disso \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o entre a sensa\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia e medo vivida por Marcelo e o som do filme exibido na\u00a0sala de proje\u00e7\u00e3o, que vaza para a su\u00edte anexa onde ele conversa com sua rede de apoio, que tenta proteg\u00ea-lo da persegui\u00e7\u00e3o de um empres\u00e1rio de S\u00e3o Paulo. Em vez de recorrer a uma trilha sonora inscrita na pr\u00f3pria cena, o diretor faz uso de um \u00e1udio que pertence a outro espa\u00e7o \u2014 o interior do cinema \u2014, transformando-o em borda sens\u00edvel dos afetos que se mobilizam na sequ\u00eancia. Vale lembrar que Kleber Mendon\u00e7a Filho j\u00e1 havia explorado recurso semelhante em\u00a0<em>Aquarius<\/em>: ali, cenas de tempos distintos s\u00e3o costuradas pela mesma m\u00fasica \u2014 \u201cToda menina baiana\u201d \u2014, criando uma passagem em que a continuidade sonora suplanta a descontinuidade temporal. Assim como em\u00a0<em>O agente secreto<\/em>, o som opera como elo entre tempos e espa\u00e7os, produzindo um efeito de mem\u00f3ria que atravessa a narrativa e fica inicialmente clara quando o gravador \u00e9 acionado pela primeira vez para fazer um registro que seria escutado no futuro.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Com efeito, desta vez, a m\u00fasica religa quadros concomitantes num mesmo circuito afetivo onde a fic\u00e7\u00e3o e a realidade se confundem como acontece com a arte. O que as pessoas experimentavam na sala do cinema S\u00e3o Luiz por meio de uma fic\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual assistiam, era o que o personagem Marcelo (ou Armando) sentia na sala ao lado \u2014 e \u00e9 precisamente o que n\u00f3s, que assist\u00edamos ao filme, tamb\u00e9m sentimos. Com esse exemplo, procuramos apresentar como o filme\u00a0<em>O agente secreto<\/em>\u00a0\u00e9 feito de v\u00e1rias camadas numa esp\u00e9cie de metanarrativa cinematogr\u00e1fica que recorre aos recursos da s\u00e9tima arte para fazer o cinema. O ponto decisivo \u00e9 que n\u00e3o se trata simplesmente de um \u201cfilme dentro do filme\u201d \u2014 expediente relativamente comum \u2014, mas do cinema, tomado como um agente, que fornece contorno para a narrativa. O cinema S\u00e3o Luiz n\u00e3o \u00e9 um cen\u00e1rio em\u00a0<em>O agente secreto<\/em>, mas um personagem.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-21.png?ssl=1\" rel=\"prettyPhoto\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-60399 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-21.png?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-21.png?w=1024 1024w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-21.png?w=150 150w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-21.png?w=300 300w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-21.png?w=768 768w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-21.png?w=1440 1440w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-21.png 1920w, \" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Ademais, \u00e9 relevante notar que a estrat\u00e9gia difere daquela desenvolvida, por exemplo, em\u00a0<em>Cinema Paradiso<\/em>, no qual os filmes s\u00e3o rodados em um cinema com dificuldades financeiras enquanto\u00a0n\u00f3s assistimos, pelos olhos das personagens, a pel\u00edculas antigas. O cinema, aqui, \u00e9 um personagem ativo no filme, e o di\u00e1logo metalingu\u00edstico se expressa\u00a0tanto\u00a0na remiss\u00e3o a filmes em cartaz, sobretudo\u00a0<em>Tubar\u00e3o<\/em>,\u00a0quanto\u00a0na pr\u00f3pria escolha de fotos que abrem o longa, um\u00a0recurso recorrente nas obras\u00a0de Kleber Mendon\u00e7a Filho,\u00a0mas que neste contexto\u00a0re\u00fane\u00a0imagens de filmes do cinema novo. Essas imagens, inseridas nos cr\u00e9ditos iniciais de\u00a0<em>O agente secreto<\/em>, n\u00e3o s\u00e3o simples refer\u00eancias hist\u00f3ricas, mas ind\u00edcios de uma conversa entre tradi\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas e de uma reflex\u00e3o sobre o lugar pol\u00edtico da cria\u00e7\u00e3o\u00a0f\u00edlmica\u00a0no Brasil. Kleber Mendon\u00e7a Filho mobiliza refer\u00eancias t\u00e1citas a obras como\u00a0<em>Cabra marcado para morrer<\/em>, de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/sete-faces-de-eduardo-coutinho-152332\" rel=\"noreferrer noopener\">Eduardo Coutinho<\/a>, para construir a atmosfera de um crime pol\u00edtico cuja compreens\u00e3o se d\u00e1 por meio de uma an\u00e1lise retroativa. Assim como no document\u00e1rio, a narrativa de\u00a0<em>O agente secreto<\/em>\u00a0articula tempos distintos: a hist\u00f3ria da personagem principal se desenrola em paralelo a um outro tempo hist\u00f3rico, que retorna como fantasma e coment\u00e1rio sobre o presente. A atmosfera do filme, por sua vez, dialoga com\u00a0<em>Acossado<\/em>, de Jean-Luc Godard,\u00a0no sentido de que a tens\u00e3o se instaura menos por uma troca de tiros, que ocorre apenas pontualmente (a pr\u00f3pria morte do personagem principal s\u00f3 \u00e9 mostrada por um recorte de jornal), e mais por uma sensa\u00e7\u00e3o de persegui\u00e7\u00e3o disposta no olhar dos personagens, cuja desconfian\u00e7a do ambiente nos contamina \u2014 assistimos\u00a0\u00e0 cena como se estiv\u00e9ssemos na imin\u00eancia de uma a\u00e7\u00e3o vital ou derradeira. Passado, presente e futuro se entrela\u00e7am numa densidade em que o cinema opera como amarra e ponto de costura. Mais do que representar uma \u00e9poca,\u00a0<em>O agente secreto<\/em>\u00a0faz o tempo trabalhar:\u00a0convoca a mem\u00f3ria como mat\u00e9ria viva, reencenando feridas hist\u00f3ricas que seguem abertas como ocorre, por exemplo, numa das primeiras cenas do filme quando uma senhora de classe social alta faz um depoimento numa delegacia a respeito de sua neglig\u00eancia assassina,\u00a0causa da morte do\u00a0filho de sua empregada\u00a0por\u00a0atropelamento\u00a0(a refer\u00eancia \u00e0 fam\u00edlia Corte Real, respons\u00e1vel pela morte do menino Miguel, \u00e9 expl\u00edcita). O cinema, aqui, n\u00e3o \u00e9 mero registro: \u00e9 o pr\u00f3prio dispositivo que permite que os tempos se toquem.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">O tempo n\u00e3o cede \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o progressista rumo ao futuro e o ritmo fren\u00e9tico, mais palat\u00e1vel para o grande p\u00fablico, de Bacurau d\u00e1 lugar a um ritmo condizente com a d\u00e9cada de 1970. A velocidade da fala das personagens, o deslocamento delas em cenas de a\u00e7\u00e3o, os seus passos s\u00e3o acelerados, mas sem que elas estejam propriamente correndo (a cena de persegui\u00e7\u00e3o ao som do p\u00edfano \u00e9 genial). At\u00e9 o ritmo das palavras acompanha o tempo que o filme evoca. O movimento de c\u00e2mera, que segue os carros sobre as pontes, isola o olhar nas ruas e nos ve\u00edculos de \u00e9poca, criando uma moldura temporal que nos transporta para aquele passado sem recorrer a explica\u00e7\u00f5es ou anacronismos. Tudo \u00e9 minuciosamente pensado para produzir, em cada enquadramento, uma reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica precisa, \u00e0 qual contribuem os diversos cartazes de filmes marcantes da \u00e9poca, como o de\u00a0<em>Dona Flor e seus dois maridos<\/em>\u00a0\u2014 n\u00e3o por acaso, com Jos\u00e9 Wilker, cuja imagem j\u00e1 comparece nas fotografias iniciais.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-22.png?ssl=1\" rel=\"prettyPhoto\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-60401\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-22.png?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-22.png 750w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-22.png?w=150 150w, https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/image-22.png?w=300 300w, \" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por fim, as refer\u00eancias aos demais filmes de Kleber Mendon\u00e7a Filho surgem com sutileza e precis\u00e3o. Os sudestinos s\u00e3o mortos, como em\u00a0<em>Bacurau<\/em>, mas aqui por desprezarem um homem negro, reduzindo-o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o animal. As lendas urbanas do Recife \u2014 como a da perna cabeluda \u2014 reaparecem para expor as contradi\u00e7\u00f5es de uma cidade atravessada por um\u00a0<em>\u00e9lan<\/em>\u00a0revolucion\u00e1rio e, ao mesmo tempo, profundamente conservador. O empres\u00e1rio que corrige com vaidade a pron\u00fancia italiana do pr\u00f3prio sobrenome \u00e9 escorra\u00e7ado de um restaurante ao som firme e estridente do sotaque pernambucano, enquanto a Universidade Federal de Pernambuco \u00e9 mostrada como um centro de excel\u00eancia cient\u00edfica e de di\u00e1logo internacional.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Entretanto, \u00e9 na cena final \u2014 quando os dois tempos da narrativa finalmente se tocam \u2014 que\u00a0<em>Retratos Fantasmas<\/em>\u00a0ressurge, agora como lembran\u00e7a do filho de Marcelo. Ap\u00f3s resistir em conhecer a hist\u00f3ria de sua fam\u00edlia, dizimada pela ditadura e marcada pelas viol\u00eancias coloniais \u2014 fruto da rela\u00e7\u00e3o for\u00e7ada entre o senhor de engenho e a bisav\u00f3 ind\u00edgena \u2014, Fernando, interpretado pelo mesmo Wagner Moura, confidencia \u00e0 jovem pesquisadora que a maior coincid\u00eancia n\u00e3o estava no conte\u00fado do\u00a0<em>pendrive<\/em>\u00a0que ela acabava de lhe dar, mas no espa\u00e7o onde ele trabalhava: ali havia sido o cinema Boa Vista. Mesmo quando \u00e9 destru\u00eddo, o cinema persiste \u2014 acompanha-nos como um fantasma que se recusa a desaparecer.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">***<br \/>\n<strong>\u00c9rico Andrade<\/strong>\u00a0\u00e9 psicanalista, fil\u00f3sofo e professor de Filosofia da UPFE\/ CNPq. Comp\u00f5e o coletivo Pontes da Psican\u00e1lise.\u00a0Autor de\u00a0<em>Negritude sem Identidade.<\/em><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>Thais Klein<\/strong> \u00e9 psicanalista, doutora em Sa\u00fade Coletiva (IMS-UERJ) e doutora em Teoria Psicanal\u00edtica (PPGTP-UFRJ). Professora adjunta da Universidade Federal Fluminense (UFF-CURO) e professora do programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Teoria Psicanal\u00edtica (UFRJ). Coordenadora do NEPECC (UFRJ-IPUB).<\/p>\n<p>Quando a ditadura empresarial-militar assume o primeiro plano no cinema brasileiro: \u201cO agente secreto\u201d, de Kleber Mendon\u00e7a Filho \u2013 Blog da Boitempo Publicado em: https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2025\/11\/22\/quando-a-ditadura-empresarial-militar-assume-o-primeiro-plano-no-cinema-brasileiro-o-agente-secreto-de-kleber-mendonca-filho\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Erico Andrade e Thais Klein &#8211; Sobre o filme Agente Secreto. 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