{"id":24922,"date":"2025-10-16T12:38:29","date_gmt":"2025-10-16T15:38:29","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24922"},"modified":"2025-10-15T20:41:19","modified_gmt":"2025-10-15T23:41:19","slug":"caricaturas-da-seguranca-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/10\/16\/caricaturas-da-seguranca-publica\/","title":{"rendered":"Caricaturas da Seguran\u00e7a P\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jacqueline Muniz<\/strong> &#8211; Do apocalipse da direita \u00e0 quimera da esquerda, motores do governo da inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Tristeza com o resultado da investiga\u00e7\u00e3o sobre a morte de Herus Guimar\u00e3es Mendes, no Morro do Santo Amaro. Ela ilustra com contund\u00eancia como a engrenagem da seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil tem operado pela dissolu\u00e7\u00e3o das responsabilidades. A Delegacia de Homic\u00eddios da Capital concluiu o caso como \u201cleg\u00edtima defesa putativa\u201d do policial do BOPE, amparada em laudos e imagens de c\u00e2meras corporais, e remeteu o inqu\u00e9rito ao Minist\u00e9rio P\u00fablico. Sorria, sua morte est\u00e1 sendo filmada e legalizada!<\/p>\n<p>O desfecho, at\u00e9 o momento, n\u00e3o trouxe respostas, n\u00e3o apontou responsabilidades concretas \u2014 dissolveu a morte matada no ar, como se a vida negra e favelada perdida n\u00e3o fosse pass\u00edvel de repara\u00e7\u00e3o nem de justi\u00e7a. O que se produz, assim, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o sentimento popular de impunidade, mas a confirma\u00e7\u00e3o de um modo de governar pelo medo e pela indetermina\u00e7\u00e3o: a morte virando um dado a mais, a v\u00edtima virando mais um caso, a viol\u00eancia virando mais um acidente inevit\u00e1vel. Pavimenta-se, desta forma, a avenida da pervers\u00e3o das pol\u00edcias em governos aut\u00f4nomos, autocr\u00e1ticos, acima do Estado e da Sociedade!<\/p>\n<p>Revela-se, aqui, o n\u00facleo da narrativa da seguran\u00e7a p\u00fablica: a inseguran\u00e7a como projeto autorit\u00e1rio de poder e as opera\u00e7\u00f5es policiais como o seu m\u00e9todo eleitoreiro. A morte de Herus, \u201cmais um na estat\u00edstica\u201d, \u00e9 traduzida como risco aceit\u00e1vel em nome de uma paz cuja seletividade a morte confirma. \u00c9 narrada como incidente rotineiro administr\u00e1vel quando se governa com o crime supostamente contra o crime. Mortes violentas, respostas imediatas e perform\u00e1ticas de autoridade, d\u00e3o votos quando o medo \u00e9 convertido em regra, a exce\u00e7\u00e3o em rotina.<\/p>\n<p>\u00c9 no terreno da irresponsabiliza\u00e7\u00e3o programada, que se combina \u00e0 captura dos afetos como a dor, a revolta, a indigna\u00e7\u00e3o diante do temor politicamente agravado \u2014 onde prosperam as caricaturas da seguran\u00e7a. \u00c9 em um cen\u00e1rio de inseguran\u00e7a fabricada em aten\u00e7\u00e3o aos c\u00e1lculos pol\u00edticos que emergem as caricaturas ret\u00f3ricas de pol\u00edticos-avatares \u2014 \u00e0 direita e \u00e0 esquerda \u2014 que t\u00eam buscado colonizar a narrativa da seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil. S\u00e3o clich\u00eas ambulantes que, com rumos ideol\u00f3gicos aparentemente distintos, acabam por legitimar viol\u00eancias estatais, promover a desqualifica\u00e7\u00e3o de boas pr\u00e1ticas, produzir a moraliza\u00e7\u00e3o dos direitos, incentivar a autonomiza\u00e7\u00e3o do poder de pol\u00edcia, fomentar a securitiza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais universais, refor\u00e7ar a tutelagem coercitiva da cidadania e, por tudo isso, administrar politicamente o crime. No varejo, convertem a seguran\u00e7a p\u00fablica em prote\u00e7\u00e3o particular, desigual e clientelizada, operando a troca perversa entre os direitos civis suspensos e os direitos sociais distribu\u00eddos como favores.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o dessas caricaturas aqui, tomando seus exageros como relevo \u2014 ao gosto de Weber \u2014, serve para explicitar os elementos comuns e espec\u00edficos de suas narrativas. \u00c9 pela \u00eanfase nos excessos que se torna poss\u00edvel compreender como, de um lado, a seguran\u00e7a \u00e9 transformada em promessa quim\u00e9rica e, de outro, ela \u00e9 convertida em promessa apocal\u00edptica. Pelo holofote exagerado do real, explicita-se uma esquerda caricatural mission\u00e1ria refugiada na espera de um mundo melhor e praticante do absente\u00edsmo diante da inseguran\u00e7a cotidiana. Explicita-se, tamb\u00e9m, com zooms, uma direita caricatural prof\u00e9tica que conduz pelo imediato do medo, atuando como um showman da cat\u00e1strofe que terceiriza para justiceiros com matr\u00edcula o servi\u00e7o sujo da repress\u00e3o que apregoa.<\/p>\n<p><strong>A promessa suspensa.<\/strong><\/p>\n<p>Nas vers\u00f5es caricaturais, a seguran\u00e7a n\u00e3o se realiza como pol\u00edtica plena. Permanece como programa em suspens\u00e3o: anunciada, interrompida, executada pela metade ou deliberadamente sabotada para seguir como pauta e palanque permanentes. Desta forma, n\u00e3o se pode dizer que as palavras de ordem \u201cd\u00e3o certo\u201d ou \u201cd\u00e3o errado\u201d. O discurso sobrevive pela sua pr\u00f3pria incompletude, como futuro virtual preso ao seu formulador, aposta que se autorrenova ao n\u00e3o se cumprir.<strong>\u00a0<\/strong>Esse car\u00e1ter inconcluso a converte em futuro normativo: um horizonte sempre por vir, ancorado em exemplarismos do presente \u2014 casos tr\u00e1gicos, estat\u00edsticas manipul\u00e1veis, imagens espetaculares \u2014 que ilustram e catequizam a promessa. Essa expectativa \u00e9 atravessada por uma cruzada moralista, que outorga ao pol\u00edtico-arauto uma aura de virtude e inquestionabilidade \u201cporque executor\u201d persistente.<strong>\u00a0<\/strong>E aqui est\u00e1 o paradoxo central: n\u00e3o se pode avaliar o pol\u00edtico caricatural pela sua execu\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o precisa ter feito nada de concreto. Basta que tenha seguido pregando bolhas virtuais e palanques afora. Um pol\u00edtico impedido sempre de executar, suspenso de qualquer teste de aprova\u00e7\u00e3o popular, mant\u00e9m-se como proclamador. A repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 medida pela obra realizada, mas pela enuncia\u00e7\u00e3o insistida: o serm\u00e3o reiterado converte-se em evid\u00eancia, a palavra martelada em prova de verdade.<\/p>\n<p><strong>O mission\u00e1rio da esquerda caricatural: a espera ut\u00f3pica e o absente\u00edsmo do aqui vivido.<\/strong><\/p>\n<p>Na ret\u00f3rica da esquerda caricatural, a seguran\u00e7a surge como horizonte adiado, vinculada a projetos maiores de cidadania, igualdade, renda e democracia. \u00c9 a virtualidade programada, remetida ao \u201cainda n\u00e3o\u201d, a seguran\u00e7a da sua vida fica para depois. A figura que a enuncia \u00e9 o pol\u00edtico-mission\u00e1rio, um profeta do advento: convoca a sociedade a aguardar pelo fim das desigualdades como condi\u00e7\u00e3o para a cessa\u00e7\u00e3o das viol\u00eancias. Essa promessa instala uma esperan\u00e7a ut\u00f3pica: a quimera de um mundo sem conflito, onde a igualdade material dissolveria antagonismos. A viol\u00eancia \u00e9 reduzida a d\u00e9ficit de recursos materiais, quando deriva sobretudo de rela\u00e7\u00f5es de poder, das formas de seu exerc\u00edcio na resolu\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es, interesses e apetites divergentes.<\/p>\n<p>A seguran\u00e7a se projeta no porvir, mas n\u00e3o se cumpre \u2014 permanece em estado de lat\u00eancia, que administra o presente pela expectativa infinda. Tudo pela cren\u00e7a de que se est\u00e1 criando uma sociedade melhor e mais justa. At\u00e9 l\u00e1, resta ao cidad\u00e3o atravessar o cotidiano exposto, tentando n\u00e3o morrer de bala achada num tiroteio, de uma viol\u00eancia sexual ou num assalto de cada esquina. Essa espera messi\u00e2nica \u2014 legitimada por discursos e cronogramas de reden\u00e7\u00e3o \u2014 pode produzir tutelas administrativas e controles que regulam destinos em nome de um futuro que, pelo medo aparelhado, projeta direitos j\u00e1 penhorados no presente.<\/p>\n<p>A promessa de igualdade de acesso aos bens da cidadania passa a funcionar como justificativa para conduzir popula\u00e7\u00f5es a uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica eterna que institui regimes diferenciados de tutela e adiamentos legitimados de acesso aos direitos. \u00a0Estes, em nome do bem vindouro, tendem a criar um conformismo com a precariedade, a inseguran\u00e7a existencial e material vividos, conduzindo a uma mobilidade social reversa.<\/p>\n<p>Instala-se o absente\u00edsmo da esquerda caricatural: ao postergar a seguran\u00e7a para a \u201cterra prometida\u201d, abandona o cidad\u00e3o ao desamparo imediato. Sua promessa de mundo melhor converte-se em desculpa para n\u00e3o lidar com a viol\u00eancia cotidiana, para suspender respostas concretas em nome do porvir.<\/p>\n<p><strong>O profeta do caos da direita caricatural: a ordem imposs\u00edvel e o animador de audit\u00f3rio.<\/strong><\/p>\n<p>Na caricatura de direita, a seguran\u00e7a se ancora na promessa de restaurar uma ordem imposs\u00edvel \u2014 porque nunca existiu ou que s\u00f3 sobrevive como mito fundador de um pensamento m\u00e1gico. O que se oferece n\u00e3o \u00e9 a concretiza\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a, mas a encena\u00e7\u00e3o permanente da volta a um passado idealizado e nost\u00e1lgico, a recupera\u00e7\u00e3o de um equil\u00edbrio fantasm\u00e1tico de uma idade de ouro, um ideal que jamais se cumpriu. Trata-se de uma promessa irrealiz\u00e1vel, sustentada por uma ordem idealizada que nunca se cumpre, mas que funciona como recurso pol\u00edtico inesgot\u00e1vel: porque nunca ser\u00e1 alcan\u00e7ada, nunca poder\u00e1 ser cobrada; porque \u00e9 mito, renova-se como amea\u00e7a, persegui\u00e7\u00e3o e cobran\u00e7a permanente.<\/p>\n<p>Aqui vigora o profeta do caos, pregador do colapso da moral e dos bons costumes, que dramatiza a derrocada iminente da sociedade para legitimar repress\u00f5es continuadas. Sua pol\u00edtica obedece ao tempo imediato: o agora do medo. Governa-se pelo medo manipulado que justifica a necessidade de dispositivos cotidianos de conten\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o. Tem-se um discurso que exige a subida de cercas e muralhas, a imposi\u00e7\u00e3o de passaportes e vistos entre grupos sociais com suas raz\u00f5es desiguais de ra\u00e7a\/cor, g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual, de classe, de renda e afilia\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o repressiva converte-se em um fim em si mesma, em uma pedagogia da san\u00e7\u00e3o antecipada como puni\u00e7\u00e3o pela desigualdade naturalizada. Perigos futuros conjecturados legitimam repress\u00f5es preventivas. Os \u201cexemplos de limpeza\u201d socioespacial rendem performance pol\u00edtica e produzem demonstra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de poder. \u00c9 a puni\u00e7\u00e3o antecipada transformada em espet\u00e1culo, otimizada como encena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O que se instala \u00e9 uma sociedade defensiva em estado de alerta contra si mesma: o corpo pol\u00edtico deve ser protegido de seus pr\u00f3prios \u201celementos perigosos\u201d. A pol\u00edtica de seguran\u00e7a converte-se, assim, em tecnologia de separa\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o afirmativas, operada em estado permanente de defesa contra alguns dos seus desterrados de pertencimento e reconhecimento. No palco com esta performance atua o animador de audit\u00f3rio irrespons\u00e1vel: o pol\u00edtico da direita caricatural que inflama medos, converte bravatas em show permanente e incita os aparelhos repressivos \u00e0 brutalidade pr\u00e1tica, enquanto capitaliza os dividendos simb\u00f3licos da histeria e preda\u00e7\u00e3o do \u201cinimigo\u201d dos bons costumes que promove.<\/p>\n<p><strong>O falso endurecimento da direita caricatural.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 direita caricatural, soma-se o an\u00fancio de leis draconianas e estapaf\u00fardias, que servem apenas como encena\u00e7\u00e3o de austeridade anticrime. S\u00e3o dispositivos punitivos cenogr\u00e1ficos, que n\u00e3o s\u00e3o aplic\u00e1veis nem pass\u00edveis de funcionar. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 abrir-se a negociatas interpretativas no fio do bigode dos gabinetes, favorecendo esquemas escusos e espasmos legalistas de conveni\u00eancia. A austeridade proclamada \u00e9, no fundo, mera liturgia punitiva, uma demonstra\u00e7\u00e3o de virilidade repressiva que se dissolve em favores, exce\u00e7\u00f5es e acordos subterr\u00e2neos.<\/p>\n<p><strong>O abandono securit\u00e1rio da esquerda caricatural.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 esquerda caricatural, por sua vez, h\u00e1 o abandono das quest\u00f5es de seguran\u00e7a \u2014 reduzidas pela direita bravateira a espasmos viris de \u201clei e ordem\u201d abstratas. Em lugar de enfrentar a inseguran\u00e7a cotidiana, a agenda se desloca para \u00e1reas de emancipa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3: sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura, lazer. Mas esse movimento ocorre sob uma l\u00f3gica elitista e salvacionista, que novamente tutela e securitiza as pol\u00edticas universais. Os bens comuns acabam subordinados \u00e0s raz\u00f5es da seguran\u00e7a \u2014 raz\u00f5es que s\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, restritivas de liberdades e garantias individuais e coletivas.<\/p>\n<p>O paradoxo \u00e9 claro: ao pretender emancipar com a subordina\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais \u00e0s raz\u00f5es seletivas e invasivas da seguran\u00e7a p\u00fablica, a esquerda caricatural amplia indiretamente o poder de pol\u00edcia sobre a vida do cidad\u00e3o comum. Em vez de governar as burocracias armadas e o exerc\u00edcio de seu poder, acaba por alimentar a sua engrenagem coercitiva, deixando o indiv\u00edduo vulner\u00e1vel aos mandonismos dos cons\u00f3rcios entre estado e crime na gest\u00e3o do espa\u00e7o urbano.<\/p>\n<p><strong>Discursos cat\u00e1rticos: liturgias do fim e da reden\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Tanto \u00e0 direita quanto \u00e0 esquerda, nas suas vers\u00f5es pat\u00e9ticas, a seguran\u00e7a se reveste de discursos cat\u00e1rticos. \u00a0\u00c0 direita caricatural, a encena\u00e7\u00e3o \u00e9 o milenarismo da guerra contra o fim do mundo. Tem-se o discurso preditivo do colapso iminente, da dissolu\u00e7\u00e3o da moral e da ordem, que justifica a repress\u00e3o preventiva e a puni\u00e7\u00e3o exemplar. \u00c0 esquerda caricatural, \u00e9 o milenarismo do ju\u00edzo final em busca da terra prometida. Tem-se o discurso do futuro redentor, em que a igualdade dissolveria toda viol\u00eancia e conflito, como se fosse poss\u00edvel alcan\u00e7ar um mundo sem antagonismos.<\/p>\n<p>Esses discursos operam com determinismos prosaicos: \u00e0 direita, um atavismo individual, a cren\u00e7a num car\u00e1ter imut\u00e1vel, uma sobrenatureza do mal que condena certos indiv\u00edduos a bandidagem. \u00c0 esquerda, um atavismo social, a cren\u00e7a num ambiente deformante, uma supernatureza social que estraga a inoc\u00eancia original dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Nos dois casos, o efeito \u00e9 o mesmo: os sujeitos s\u00e3o esvaziados de escolhas, tratados como incapazes pol\u00edticos, submetidos \u00e0 tutela e infantiliza\u00e7\u00e3o que os converte em exist\u00eancias dirigidas de fora, de cima para baixo. Seja pela marca do \u201cmau car\u00e1ter\u201d ou pela pecha de \u201cv\u00edtimas do meio social\u201d, amea\u00e7adores e amea\u00e7ados terminam enquadrados como figuras sem autonomia, perpetradores de viol\u00eancias. Essas liturgias organizam o mesmo circuito afetivo que alimenta a escalada autorit\u00e1ria: do medo \u00e0 intoler\u00e2ncia, da intoler\u00e2ncia ao pensamento \u00fanico e do pensamento \u00fanico a exclus\u00e3o. Esse jogo de liturgias e promessas cat\u00e1rticas se fecha em um c\u00edrculo vicioso, que impede a consolida\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica efetiva de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>O c\u00edrculo vicioso da promessa e da prega\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Tanto \u00e0 esquerda quanto \u00e0 direita, nas suas formas caricaturais, a seguran\u00e7a se torna cruzada moral: uma agenda intermin\u00e1vel, sustentada por exemplifica\u00e7\u00f5es do presente e conduzida pelo pol\u00edtico-arauto \u2014 seja o mission\u00e1rio, seja o profeta do caos.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, ela n\u00e3o se consolida como pol\u00edtica efetiva, mas como depend\u00eancia do pol\u00edtico-influencer e como agenda eterna. A autoridade n\u00e3o vem do que se realiza, mas da palavra reiterada, que se apresenta como verdade por sua repeti\u00e7\u00e3o. O mission\u00e1rio ganha cr\u00e9dito pelo futuro que anuncia; o profeta do caos, pela cat\u00e1strofe que dramatiza.<\/p>\n<p>E quanto mais cega \u00e9 a f\u00e9 aparelhada pelo medo, mais amoladas se tornam as facas que sangram direitos e cortam vidas. Por meio da captura dos afetos, instala-se uma trilogia perversa: a maximiza\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a, que produz a intoler\u00e2ncia, que por sua vez substitui o pensamento comum pelo pensamento \u00fanico. \u00c9 esse pensamento \u00fanico que autoriza e viabiliza exclus\u00f5es, que ergue cercas, que fazem crescer a inseguran\u00e7a que, por sua vez, amola ainda mais a sua faca \u2014 e assim por diante, em ciclo vicioso de medo, intoler\u00e2ncia e exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A inseguran\u00e7a p\u00fablica como projeto de poder.<\/strong><\/p>\n<p>A inseguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 acidente nem desvio. \u00c9 projeto deliberado de poder, sustentado pela arquitetura pol\u00edtica do medo. N\u00e3o se trata de falha, mas de engrenagem cuidadosamente mantida: a viol\u00eancia e o risco n\u00e3o s\u00e3o eliminados porque funcionam como instrumentos de governo. A normaliza\u00e7\u00e3o da exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o mecanismo central dessa engrenagem. O medo \u00e9 cultivado, administrado, distribu\u00eddo em doses controladas que produzem resigna\u00e7\u00e3o ou aplauso. Ele organiza campanhas eleitorais, constr\u00f3i palanques e legitima governos que se alimentam de sua reprodu\u00e7\u00e3o. O efeito \u00e9 a dissolu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica em favor da administra\u00e7\u00e3o da amea\u00e7a difusa e continuada. O c\u00e1lculo da inseguran\u00e7a substitui o debate de direitos; a ret\u00f3rica da urg\u00eancia apaga projetos coletivos. O medo n\u00e3o \u00e9 res\u00edduo, mas m\u00e9todo de governo: ele sustenta a autoridade, fabrica consensos e perpetua a exce\u00e7\u00e3o como horizonte pol\u00edtico permanente.<\/p>\n<p>No mundo globalizado, translocal em escala e multilateral nas exig\u00eancias de coopera\u00e7\u00e3o, sob a ordem neoliberal, o Estado j\u00e1 n\u00e3o consegue explicitar sozinho sua capacidade de governo em v\u00e1rias \u00e1reas: na economia, nas pol\u00edticas sociais, nos programas estruturais de m\u00e9dio e longo prazos, depende de pactos com mercados, organismos internacionais e redes de atores n\u00e3o estatais. Do rito ao m\u00e9todo, a encena\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a se converte em tecnologia de governo.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um campo em que o Estado segue soberano, exclusivo e sem precisar dividir protagonismo: o universo do controle coercitivo. \u00c9 na defesa nacional, na seguran\u00e7a p\u00fablica e nas fronteiras que o Estado pode, por excel\u00eancia, exibir de forma direta sua for\u00e7a, sem media\u00e7\u00f5es, e com isso reafirmar sua autoridade. Aqui, o governo em exerc\u00edcio, independente de orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, pode explorar amea\u00e7as difusas, manipular p\u00e2nicos morais, erguer cercas, impor cercos e produzir espet\u00e1culo de soberania.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse registro que o combate ritualizado \u00e9 trazido para o palco das cidades; que fronteiras s\u00e3o fechadas; que imigrantes s\u00e3o presos e expulsos; que territ\u00f3rios urbanos s\u00e3o cercados sob a justificativa do enfrentamento ao crime; que complexos prisionais e arrendamento de cust\u00f3dias s\u00e3o operacionalizados, que manobras militares se tornam exerc\u00edcios de afirma\u00e7\u00e3o soberana para os eleitores. Aqui o Estado n\u00e3o depende de ningu\u00e9m al\u00e9m de si mesmo: \u00e9 com a for\u00e7a coercitiva que o governo da vez pode mostrar utilidade, capacidade de resposta e entrega imediata de elevada visibilidade.<\/p>\n<p>Esse rendimento \u00e9 potencializado pela explora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos \u00f3dios e temores. A inseguran\u00e7a \u00e9 modulada como ferramenta para acionar ressentimentos \u00e9tnico-raciais, fobias de g\u00eanero, preconceitos contra estrangeiros e imigrantes, rejei\u00e7\u00e3o ao diferente e ao deslocado. O Estado, ao encenar seguran\u00e7a para si, legitima fronteiras sociais r\u00edgidas, refor\u00e7a exclus\u00f5es e fomenta persegui\u00e7\u00f5es internas. Essa pol\u00edtica do medo n\u00e3o \u00e9 apenas punitiva, mas identit\u00e1ria: oferece pertencimento ao \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d pela nega\u00e7\u00e3o do outro, pelo sacrif\u00edcio do diverso e do indesejado.<\/p>\n<p>E a seguran\u00e7a se presta a esse papel porque \u00e9 antes de tudo existencial e material: ela toca diretamente os sentidos de pertencimento, de reconhecimento e de organiza\u00e7\u00e3o concreta da vida, no ir e vir, na manuten\u00e7\u00e3o da rotina, no status quo das rela\u00e7\u00f5es sociais. Espet\u00e1culos repressivos funcionam como prova de governo, porque dobram vontades e produzem efeitos vis\u00edveis em curto prazo, diferentemente das pol\u00edticas econ\u00f4micas, sociais e culturais, que s\u00f3 rendem resultados em horizontes mais longos.<\/p>\n<p>Assim, a seguran\u00e7a p\u00fablica se converte em instrumento privilegiado para a antecipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: com recursos coercitivos ad hoc, o Estado se mostra operante antes que o tempo lento da pactua\u00e7\u00e3o, da negocia\u00e7\u00e3o e da constru\u00e7\u00e3o de consensos tenha se completado. O tempo pol\u00edtico estendido cede lugar ao tempo t\u00e1tico-operacional. \u00c9 nesse tempo acelerado \u2014 de opera\u00e7\u00f5es, cercos, pris\u00f5es e manobras espetaculares \u2014 que o Estado \u201cmostra servi\u00e7o\u201d, respondendo ao medo presente com a\u00e7\u00f5es imediatas e com promessas de futuro, sempre com uma paz permanentemente prometida e adiada.<\/p>\n<p>\u00c9 dessa l\u00f3gica que se alimentam as caricaturas.<\/p>\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>\u00c0 direita<\/strong>, o profeta do caos se apoia no espet\u00e1culo repressivo como promessa de entrega imediata: bravatas, leis draconianas, cercos midi\u00e1ticos, mortes transformadas em dividendos pol\u00edticos. O medo imediato se converte em capital eleitoral, e a repress\u00e3o encenada em prova de autoridade.<\/li>\n<li><strong>\u00c0 esquerda<\/strong>, o mission\u00e1rio da espera se beneficia do pr\u00f3prio espet\u00e1culo repressivo ao se manter absente\u00edsta. A cada cena de viol\u00eancia, reafirma que \u201ctem as m\u00e3os limpas do sangue\u201d, embora atadas na espera purificante de um mundo melhor. A desgra\u00e7a vivida no presente vira insumo para slogans antigos e palavras de ordem reanimadas, refor\u00e7ando que a promessa sempre est\u00e1 adiante do caos vivido. A paralisia decis\u00f3ria se converte em posi\u00e7\u00e3o moral: o purgat\u00f3rio atual \u00e9 apresentado como passagem necess\u00e1ria para a reden\u00e7\u00e3o futura.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Dessa maneira, direita e esquerda caricaturais convergem: ambas fazem da inseguran\u00e7a um ativo pol\u00edtico. A direita explora o presente pelo medo; a esquerda administra o futuro pela espera. Uma se afirma na brutalidade imediata, outra na promessa purificada. Mas ambas vivem do mesmo c\u00e1lculo: transformar a inseguran\u00e7a em engrenagem de hegemonia eleitoral, espet\u00e1culo de soberania e t\u00e9cnica de governo que se perpetua no curto prazo vis\u00edvel e se renova indefinidamente no longo prazo prometido. Na longa e assustadora noite das crises inventadas da inseguran\u00e7a, os profetas da direita e da esquerda se tornam pardos, indistintos, podendo trocar de lado j\u00e1 que partilham do mesmo campo narrativo.<\/p>\n<p><strong>Sob o pacto de irresponsabilidade.<\/strong><\/p>\n<p>As caricaturas, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, convergem na mesma engrenagem: a evas\u00e3o organizada de responsabilidades. A seguran\u00e7a p\u00fablica torna-se campo sem donos, territ\u00f3rio de ningu\u00e9m, em que nem o Estado, nem a sociedade, nem a pol\u00edtica se reconhecem como sujeitos da a\u00e7\u00e3o. Erige o monop\u00f3lio pol\u00edtico das burocracias armadas que ambicionam governar no lugar de governos e fazem da pol\u00edtica, a sua pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de indetermina\u00e7\u00e3o: mortos sem culpados, v\u00edtimas sem reconhecimento, viol\u00eancias sem autores identific\u00e1veis. A morte se dissolve em estat\u00edstica, o sofrimento em ret\u00f3rica, o crime em rotina administrativa. O que se estabelece \u00e9 uma cumplicidade estrutural, um acordo t\u00e1cito entre bravateiros e gestores: um pacto que sustenta a exce\u00e7\u00e3o e administra a inseguran\u00e7a como se fosse destino inevit\u00e1vel, e n\u00e3o escolha pol\u00edtica deliberada.<\/p>\n<p><strong>O governo pela inseguran\u00e7a: reflex\u00f5es sem um fim.<\/strong><\/p>\n<p>As caricaturas da seguran\u00e7a \u2014 de direita e de esquerda \u2014 n\u00e3o s\u00e3o desvios ret\u00f3ricos, mas engrenagens pol\u00edticas. Elas se alimentam do medo e da exce\u00e7\u00e3o para legitimar projetos autorit\u00e1rios, sustentando um pacto de irresponsabilidade que dissolve culpados, v\u00edtimas e autores na n\u00e9voa da indetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 esquerda, a promessa suspensa e o absente\u00edsmo mant\u00eam a seguran\u00e7a como utopia diferida, administrando o presente pela espera. \u00c0 direita, o profeta do caos convoca a restaura\u00e7\u00e3o de uma ordem m\u00edtica inexistente, encenada como espet\u00e1culo de bravatas e delegada \u00e0 brutalidade repressiva.<\/p>\n<p>De um lado e de outro, o efeito converge: normalizar a exce\u00e7\u00e3o, cultivar a inseguran\u00e7a como m\u00e9todo de governo e transformar a pol\u00edtica em liturgia do medo. O resultado \u00e9 a convers\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica em mercadoria, espet\u00e1culo de poder e justificativa para a suspens\u00e3o ou permuta de direitos. O governo pela inseguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 falha a corrigir, mas c\u00e1lculo deliberado: uma t\u00e9cnica de domina\u00e7\u00e3o que perpetua a viol\u00eancia como destino e a exce\u00e7\u00e3o como regra.<\/p>\n<p>Romper com essas caricaturas exige devolver a seguran\u00e7a ao espa\u00e7o da pol\u00edtica democr\u00e1tica: governar as pol\u00edcias, responsabilizar o poder armado com transpar\u00eancia e tratar a seguran\u00e7a como direito p\u00fablico. Seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 marketing do medo nem mercadoria eleitoral: \u00e9 abund\u00e2ncia de futuro, porque sustenta a infraestrutura da esperan\u00e7a, o caminhar do agora para o daqui a pouco do presente e poder amanhecer recriando o amanh\u00e3. \u00c9 ela que garante a rotina que permite viver e sonhar, assegura regularidade e previsibilidade. \u00c9 o que oportuniza o ir e vir, a mobilidade socioespacial que reduz desigualdades, que empodera sujeitos e abre o acesso continuado a direitos e aos bens urbanos para todos. S\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel romper com a narrativa do medo que faz da guerra contra o crime o cotidiano das sujei\u00e7\u00f5es, das perdas e destitui\u00e7\u00f5es irrepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>Jacqueline Muniz \u2013 Antrop\u00f3loga e cientista pol\u00edtica. Professora do bacharelado de Seguran\u00e7a P\u00fablica da UFF. Gestora de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/p>\n<p>Caricaturas da Seguran\u00e7a P\u00fablica, por Jacqueline Muniz Publicado em: https:\/\/jornalggn.com.br\/seguranca-publica\/caricaturas-da-seguranca-publica-por-jacqueline-muniz\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jacqueline Muniz &#8211; Do apocalipse da direita \u00e0 quimera da esquerda, motores do governo da inseguran\u00e7a. Tristeza com o resultado da investiga\u00e7\u00e3o sobre a morte de Herus Guimar\u00e3es Mendes, no Morro do Santo Amaro. Ela ilustra com contund\u00eancia como a engrenagem da seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil tem operado pela dissolu\u00e7\u00e3o das responsabilidades. 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