{"id":24871,"date":"2025-09-12T12:44:35","date_gmt":"2025-09-12T15:44:35","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24871"},"modified":"2025-09-05T11:48:21","modified_gmt":"2025-09-05T14:48:21","slug":"o-fascismo-eterno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/09\/12\/o-fascismo-eterno\/","title":{"rendered":"\u201cO Fascismo Eterno\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Umberto Eco &#8211; <\/strong><\/em><\/span>Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o pr\u00eamio nos\u00a0<em>Ludi Juveniles<\/em>\u00a0(um concurso com livre participa\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria para jovens\u00a0<a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/busca\/resultados?q=fascismo\" rel=\"noopener noreferrer\">fascistas\u00a0<\/a>italianos \u2014 o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo ret\u00f3rico sobre o tema:\u00a0<em>\u201cDevemos morrer pela gl\u00f3ria de\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/busca\/resultados?q=mussolini\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Mussolini<\/em><\/a><em>\u00a0e pelo destino imortal da It\u00e1lia?\u201d<\/em>\u00a0Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.<\/p>\n<p>Depois, em 1943, descobri o significado da palavra \u201cliberdade\u201d. Contarei esta hist\u00f3ria no fim do meu discurso. Naquele momento, \u201cliberdade\u201d ainda n\u00e3o significava \u201clibera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. N\u00e3o foi mal exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>Em abril de 1945, a Resist\u00eancia tomou Mil\u00e3o. Dois dias depois os resistentes chegaram \u00e0 pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria. A pra\u00e7a principal estava cheia de gente que cantava e desfraldava bandeirolas, invocando Mimo, o l\u00edder a resist\u00eancia na \u00e1rea, em alto brado. Mimo, ex-suboficial dos carabinieri, envolveu-se com os partid\u00e1rios do marechal Badoglio e perdeu uma perna nos primeiros confrontos. Apareceu no balc\u00e3o da Prefeitura, apoiado em muletas, p\u00e1lido; tentou acalmar a multid\u00e3o com uma m\u00e3o. Eu estava ali esperando seu discurso, j\u00e1 que toda a minha inf\u00e2ncia tinha sido marcada pelos grandes discursos hist\u00f3ricos de Mussolini, cujos passos mais significativos aprend\u00edamos de cor na escola. Sil\u00eancio. Mimo falo com voz rouca, quase n\u00e3o se ouvia. Disse: \u201cCidad\u00e3os, amigos. Depois de tantos sacrif\u00edcios dolorosos\u2026 aqui estamos. Gl\u00f3ria aos que ca\u00edram pela liberdade\u2026\u201d. E foi tudo. Ele voltou para dentro. A multid\u00e3o gritava, os membros da resist\u00eancia levantaram as armas e atiraram para o alto, festivamente. N\u00f3s, rapazes, nos precipitamos para recolher os cartuchos, preciosos objetos de cole\u00e7\u00e3o, mas eu tinha aprendido ent\u00e3o que liberdade de palavra significa tamb\u00e9m liberdade da ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>Alguns dias depois vi os primeiros soldados norte-americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou \u00e0s maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscap\u00e9. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.<\/p>\n<p>Um dos oficiais (o major ou capit\u00e3o Muddy) era h\u00f3spede na casa da fam\u00edlia de dois dos meus companheiros de escola. Sentia-me em casa naquele jardim em que alguns senhores amontoavam-se em torno ao capit\u00e3o Muddy, falando um franc\u00eas aproximativo. O capit\u00e3o Muddy tinha uma boa educa\u00e7\u00e3o superior e conhecia um pouco de franc\u00eas. Assim, minha primeira imagem dos libertadores norte-americanos, depois de tantos caras-p\u00e1lidas de camisa negra, era a de um negro culto em uniforme c\u00e1qui que dizia:\u00a0<em>\u201cOui, merci beaucoup Madame, moi aussi j&#8217;aime le champagne\u2026\u201d<\/em>\u00a0Infelizmente, faltava o champagne, mas ganhei do capit\u00e3o Muddy o meu primeiro chiclete e comecei mastigando o dia inteiro. De noite colocava o chiclete em um copo d&#8217;\u00e1gua para que ficasse fresco para o dia seguinte.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Hitler_and_Mussolini_in_Munich%2C_Germany%2C_circa_June_1940.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"O l\u00edder fascista italiano Benito Mussolini no banco de tr\u00e1s de um ve\u00edculo, acompanhado pelo l\u00edder nazista alem\u00e3o Adolf Hitler, em Munique, 1940\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><em>Hitler e Mussolini em Munique, em 1940 (Wikicommons)<\/em><\/p>\n<p>Em maio, ouvimos dizer que a guerra tinha acabado. A paz deu-me uma sensa\u00e7\u00e3o curiosa. Haviam me dito que a guerra permanente era a condi\u00e7\u00e3o normal de um jovem italiano. Nos meses seguintes descobri que a Resist\u00eancia n\u00e3o era apenas um fen\u00f4meno local, mas Europeu. Aprendi novas e excitantes palavras como\u00a0<em>\u201creseau\u201d, \u201cmaquis\u201d, \u201carm\u00e9e secr\u00e8te\u201d, \u201cRote Kapelle\u201d, \u201cgueto de Vars\u00f3via\u201d<\/em>. Vi as primeiras fotografias do Holocausto e assim compreendi seu significado antes mesmo de conhecer a palavra. Percebi que hav\u00edamos sido liberados.<\/p>\n<p>Hoje na It\u00e1lia existem algumas pessoas que se perguntam se a Resist\u00eancia teve algum impacto militar real no curso da guerra. Para a minha gera\u00e7\u00e3o a quest\u00e3o \u00e9 irrelevante: compreendo imediatamente o significado moral e psicol\u00f3gico da Resist\u00eancia. Era motivo de orgulho saber que n\u00f3s, europeus, n\u00e3o t\u00ednhamos esperado passivamente pela libera\u00e7\u00e3o. Penso que, tamb\u00e9m para os jovens norte-americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, n\u00e3o era irrelevante saber que atr\u00e1s das linhas havia europeus que j\u00e1 estavam pagando seu d\u00e9bito.<\/p>\n<p>Hoje na It\u00e1lia tem gente que diz que a Resist\u00eancia \u00e9 um mito comunista. \u00c9 verdade que os comunistas exploraram a Resist\u00eancia como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos resistentes com bandeiras de diversas cores.<\/p>\n<p>Grudado ao r\u00e1dio, passava as noites \u2014 as janelas fechadas e a escurid\u00e3o geral faziam do pequeno espa\u00e7o em torno ao aparelho o \u00fanico halo luminoso \u2014 escutando as mensagens que a R\u00e1dio Londres transmitia para a Resist\u00eancia. Eram, ao mesmo tempo, obscuras e po\u00e9ticas (\u201cAinda brilha o sol\u201d, \u201cAs rosas h\u00e3o de florir\u201d), mas a maior parte eram \u201cmensagens para Franchi\u201d. Algu\u00e9m soprou no meu ouvido que Franchi era o l\u00edder de um dos grupos clandestinos mais poderosos da It\u00e1lia do Norte, um homem de coragem legend\u00e1ria. Franchi tornou-se o meu her\u00f3i. Franchi (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista t\u00e3o anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi at\u00e9 acusado de ter participado de um golpe de Estado reacion\u00e1rio. Mas que importa? Sogno ainda \u00e9 o sonho da minha inf\u00e2ncia. A libera\u00e7\u00e3o foi um empreendimento comum de gente das mais diversas cores.<br \/>\n<\nHoje na It\u00e1lia tem gente que diz que a guerra de libera\u00e7\u00e3o foi um tr\u00e1gico per\u00edodo de divis\u00e3o, e que precisamos agora de uma reconcilia\u00e7\u00e3o nacional. A recorda\u00e7\u00e3o daqueles anos terr\u00edveis deveria ser reprimida. Mas a repress\u00e3o provoca neuroses. Se a reconcilia\u00e7\u00e3o significa compaix\u00e3o e respeito por todos aqueles que lutaram sua guerra de boa-f\u00e9, perdoar n\u00e3o significa esquecer. Posso at\u00e9 admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua miss\u00e3o, mas n\u00e3o posso dizer:\u00a0<em>\u201cOk, volte e fa\u00e7a tudo de novo\u201d<\/em>. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que \u201celes\u201d n\u00e3o podem repetir o que fizeram.<\/p>\n<p>Mas quem s\u00e3o \u201celes\u201d?<\/p>\n<p>Se pensamos ainda nos governos totalit\u00e1rios que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito dif\u00edcil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um l\u00edder carism\u00e1tico, no corporativismo, na utopia do \u201cdestino fatal de Roma\u201d, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma na\u00e7\u00e3o inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no anti-semitismo, ent\u00e3o n\u00e3o tenho dificuldade para admitir que a Alian\u00e7a Nacional, nascida do MSI (Movimento Social e Italiano), \u00e9 certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas raz\u00f5es, mesmo preocupado com os v\u00e1rios movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na R\u00fassia, n\u00e3o penso que o nazismo, e sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma na\u00e7\u00e3o inteira.<\/p>\n<p>Todavia, embora os regimes pol\u00edticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destitu\u00eddas de sua legitimidade, por tr\u00e1s de um regime e de sua ideologia h\u00e1 sempre um modo de pensar e de sentir, uma s\u00e9rie de h\u00e1bitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de puls\u00f5es insond\u00e1veis. H\u00e1, ent\u00e3o, um outro fantasma que ronda a Europa (para n\u00e3o falar de outras partes do mundo)?<\/p>\n<p>Ionesco disse certa vez que\u00a0<em>\u201csomente as palavras contam, o resto \u00e9 falat\u00f3rio\u201d<\/em>. Os h\u00e1bitos lingu\u00edsticos s\u00e3o muitas vezes sintomas importantes de sentimentos n\u00e3o expressos.<\/p>\n<p>Portanto, permitam-me perguntar por que n\u00e3o somente a Resist\u00eancia mas toda a Segunda Guerra Mundial foram definidas em todo o mundo com uma luta contra o fascismo. Se relerem\u00a0<em>\u201cPor quem os sinos dobram\u201d<\/em>, de Hemingway, v\u00e3o descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos com os fascistas, mesmo quando est\u00e1 pensando nos falangistas espanh\u00f3is.<\/p>\n<p>Permitam-me passar a palavra a\u00a0<strong>Franklin Delano Roosevelt<\/strong>:\u00a0<em>\u201cA vit\u00f3ria do povo americano e de seus aliados ser\u00e1 uma vit\u00f3ria contra o fascismo e o beco sem sa\u00edda que ele representa\u201d\u00a0<\/em>(23 de setembro de 1944).<\/p>\n<p>Durante os anos de McCarthy, os norte-americanos que tinham participado da guerra civil espanhola eram chamados de \u201cfascistas prematuros\u201d \u2014 entendendo com isso que combater Hitler nos anos 1940 era um dever moral de todo bom norte-americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 1930, era suspeito. Por que uma express\u00e3o como\u00a0<em>\u201cfascist pig\u201d<\/em>\u00a0era usada pelos radicais norte-americanos at\u00e9 para indicar um policial que n\u00e3o aprovava os que fumavam? Por que n\u00e3o diziam:\u00a0<em>\u201cPorco Caugolard\u201d, \u201cPorco Falangista\u201d, \u201cPorco Quisling\u201d, \u201cPorco croata\u201d, \u201cPorco Ante Pavelic\u201d, \u201cPorco nazista\u201d?<\/em><\/p>\n<p><em>Mein Kampf\u00a0<\/em>\u00e9 o manifesto completo de um programa pol\u00edtico. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma no\u00e7\u00e3o precisa de\u00a0<em>entartete Kunst<\/em>, a \u201carte degenerada\u201d, uma filosofia da vontade de pot\u00eancia e da\u00a0<em>\u00dcbermensch<\/em>. O nazismo era decididamente anticrist\u00e3o e neopag\u00e3o, da mesma maneira que o\u00a0<em>Diamat<\/em>\u00a0(vers\u00e3o oficial do marxismo sovi\u00e9tico) de Stalin era claramente materialista e ateu. Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, ent\u00e3o nazismo e estalinismo eram regimes totalit\u00e1rios.<\/p>\n<p>O fascismo foi certamente uma ditadura, mas n\u00e3o era completamente totalit\u00e1rio, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filos\u00f3fica de sua ideologia. Ao contr\u00e1rio do que se pensa comumente, o fascismo italiano n\u00e3o tinha uma filosofia pr\u00f3pria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclop\u00e9dia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma no\u00e7\u00e3o hegeliana tardia do \u201cEstado \u00e9tico absoluto\u201d, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini n\u00e3o tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Em seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plaus\u00edvel, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar sua exist\u00eancia. Deus estava, evidentemente, distra\u00eddo. Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e n\u00e3o desdenhava o ep\u00edteto: \u201chomem da Provid\u00eancia\u201d. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um pa\u00eds europeu e que, em seguida, todos os movimentos an\u00e1logos encontraram uma esp\u00e9cie de arqu\u00e9tipo comum no regime de Mussolini.<\/p>\n<p>O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e at\u00e9 mesmo um modo de vestir-se \u2014 conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 1930 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Let\u00f4nia, Est\u00f4nia, Litu\u00e2nia, Pol\u00f4nia, Hungria, Rom\u00eania, Bulg\u00e1ria, Gr\u00e9cia, Iugosl\u00e1via, Espanha, Portugal, Noruega e at\u00e9 na Am\u00e9rica do Sul, para n\u00e3o falar da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu muitos l\u00edderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucion\u00e1ria \u00e0 amea\u00e7a comunista.<\/p>\n<p>Todavia, a prioridade hist\u00f3rica n\u00e3o me parece ser uma raz\u00e3o suficiente para explicar por que a palavra \u201cfascismo\u201d tornou-se uma sin\u00e9doque, uma denomina\u00e7\u00e3o\u00a0<em>pars pro toto<\/em>\u00a0para movimentos totalit\u00e1rios diversos. N\u00e3o adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em \u201cestado quintessencial\u201d. Ao contr\u00e1rio, o fascismo n\u00e3o possu\u00eda nenhuma quintess\u00eancia e sequer uma s\u00f3 ess\u00eancia. O fascismo era um\u00a0<em>totalitarismo fuzzy<a title=\"\" href=\"read:\/\/https_operamundi.uol.com.br\/?url=https%3A%2F%2Foperamundi.uol.com.br%2Fpolitica-e-economia%2Fumberto-eco-14-licoes-para-identificar-o-neofascismo-e-o-fascismo-eterno%2F#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>. O fascismo n\u00e3o era uma ideologia monol\u00edtica, mas antes uma colagem de diversas ideais pol\u00edticas e filos\u00f3ficas, uma colmeia de contradi\u00e7\u00f5es. \u00c9 poss\u00edvel conceber um movimento totalit\u00e1rio que consiga juntar monarquia e revolu\u00e7\u00e3o, ex\u00e9rcito real e mil\u00edcia pessoal de Mussolini, os privil\u00e9gios concedidos \u00e0 Igreja e uma educa\u00e7\u00e3o estatal que exaltava a viol\u00eancia e o livre mercado?<\/p>\n<p>O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucion\u00e1ria, mas era financiado pelos propriet\u00e1rios de terras mais conservadores, que esperavam uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o. O fascismo do come\u00e7o era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade \u00e0 fam\u00edlia real, permitindo que um\u00a0<em>\u201cduce\u201d<\/em>\u00a0puxasse as cordinhas de um \u201crei\u201d, a quem ofereceu at\u00e9 o t\u00edtulo de \u201cimperador\u201d. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alem\u00e3es, sob a bandeira de uma rep\u00fablica \u201csocial\u201d, reciclando sua velha partitura revolucion\u00e1ria, enriquecida de acentua\u00e7\u00f5es quase jacobinas.<\/p>\n<p>Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, n\u00e3o havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha raz\u00e3o, n\u00e3o havia lugar para Darwin. Ao contr\u00e1rio, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram tamb\u00e9m os novos edif\u00edcios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve um Zdanov fascista. Na It\u00e1lia existiam dois importantes pr\u00eamios art\u00edsticos: o Pr\u00eamio Cremona era controlado por um fascista inculto e fan\u00e1tico como Farinacci, que encorajava uma arte propagandista (recordo-me de quadros intitulados Ascoltando all radio un discorso del Duce ou Stati mentali creati dal Fascismo); e o Pr\u00eamio Bergamo, patrocinado por um fascista culto e razoavelmente tolerante como Bottai, que protegia a arte pela arte e as novas experi\u00eancias da arte de vanguarda que, na Alemanha, haviam sido banidas como corruptas, criptocomunistas, contr\u00e1rias ao Kitsch nibel\u00fangico, o \u00fanico aceito.<\/p>\n<p>O poeta nacional era D&#8217;Annunzio, um d\u00e2ndi que na Alemanha ou na R\u00fassia teria sido colocado diante de um pelot\u00e3o de fuzilamento. Foi al\u00e7ado \u00e0 categoria de vate do regime pro seu nacionalismo e seu culto do hero\u00edsmo \u2014 com o acr\u00e9scimo de grandes doses de decadentismo franc\u00eas.<\/p>\n<p>Tomemos o futurismo. Deveria ter sido considerado um exemplo de entartete Kunst, assim como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo. Mas os primeiros futuristas italianos eram nacionalistas, favoreciam por motivos est\u00e9ticos a participa\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia na Primeira Guerra Mundial, celebravam a velocidade, a viol\u00eancia, o risco e, de certa maneira, estes aspectos pareciam pr\u00f3ximos ao culto fascista da juventude. Quando o fascismo identificou-se com o imp\u00e9rio romano e redescobriu as tradi\u00e7\u00f5es rurais, Marinetti (que proclamava que um autom\u00f3vel era mais belo que a Vit\u00f3ria de Samotr\u00e1cia e queria inclusive matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d&#8217;Italia, que tratava o luar com grande respeito.<\/p>\n<p>Muitos dos futuros membros da Resist\u00eancia, e dos futuros intelectuais do futuro Partido Comunista, foram educados no GUF, a associa\u00e7\u00e3o fascista dos estudantes universit\u00e1rios, que deveria ser o ber\u00e7o da nova cultura fascista. Esses clubes tornaram-se uma esp\u00e9cie de caldeir\u00e3o intelectual em que circulavam novas ideias sem nenhum controle ideol\u00f3gico real, n\u00e3o tanto porque os homens de partido fossem tolerantes, mas porque poucos entre eles possu\u00edam os instrumentos intelectuais para control\u00e1-los.<\/p>\n<p>No curso daqueles vinte anos, a poesia dos herm\u00e9ticos representou uma rea\u00e7\u00e3o ao estilo pomposo do regime: a estes poetas era permitido elaborar seus protestos liter\u00e1rios dentro da torre de marfim. O sentimento dos herm\u00e9ticos era exatamente o contr\u00e1rio do culto fascista do otimismo e do hero\u00edsmo. O regime tolerava esta distens\u00e3o evidente, embora socialmente impercept\u00edvel, porque n\u00e3o prestava aten\u00e7\u00e3o suficiente ao um jarg\u00e3o t\u00e3o obscuro.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o significa que o fascismo italiano fosse tolerante. Gramsci foi mantido na pris\u00e3o at\u00e9 a morte, Matteotti e os irm\u00e3os Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes pol\u00edticos confinados em ilhas remotas, o poder legislativo tornou-se pura fic\u00e7\u00e3o e o executivo (que controlava o judici\u00e1rio, assim como a m\u00eddia) emanava diretamente as novas leis, entre as quais a da defesa da ra\u00e7a (apoio formal italiano ao Holocausto).<\/p>\n<p>A imagem incoerente que descrevi n\u00e3o era devida \u00e0 toler\u00e2ncia: era um exemplo de desconjuntamento pol\u00edtico e ideol\u00f3gico. Mas era um \u201cdesconjuntamento ordenado\u201d, uma confus\u00e3o estruturada. O fascismo n\u00e3o tinha bases filos\u00f3ficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arqu\u00e9tipos.<\/p>\n<p>Chegamos agora ao segundo ponto de minha tese. Existiu apenas um nazismo, e n\u00e3o podemos chamar de \u201cnazismo\u201d o falangismo hipercat\u00f3lico de Franco, pois o nazismo \u00e9 fundamentalmente pag\u00e3o, polite\u00edsta e anticrist\u00e3o, ou n\u00e3o \u00e9 nazismo. Ao contr\u00e1rio, pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo n\u00e3o muda. Acontece com a no\u00e7\u00e3o de \u201cfascismo\u201d aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a no\u00e7\u00e3o de \u201cjogo\u201d. Um jogo pode ser ou n\u00e3o competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou n\u00e3o. Os jogos s\u00e3o uma s\u00e9rie de atividades diversas que apresentam apenas alguma \u201csemelhan\u00e7a de fam\u00edlia\u201d:<\/p>\n<p><em>1 \u2013 2 \u2013 3 \u2013 4<\/em><br \/>\n<em>abc bcd cde def<\/em><\/p>\n<p>Suponhamos que exista uma s\u00e9rie de grupos pol\u00edticos. O grupo 1 \u00e9 caracterizado pelos aspectos abc, o grupo 2, pelos aspectos bcd e assim por diante. 2 \u00e9 semelhante a 1 na medida em que t\u00eam dois aspectos em comum. 3 \u00e9 semelhante a 2 e 4 e \u00e9 semelhante a 1 (t\u00eam em comum o aspecto c). O caso mais curioso \u00e9 dado pelo 4, obviamente semelhante a 3 e a 2, mas sem nenhuma caracter\u00edstica em comum com 1. Contudo, em virtude da ininterrupta s\u00e9rie de decrescentes similaridades entre 1 e 4, permanece, por uma esp\u00e9cie de transitoriedade ilus\u00f3ria, um ar de fam\u00edlia entre 4 e 1.<\/p>\n<p>O termo \u201cfascismo\u201d adapta-se a tudo porque \u00e9 poss\u00edvel eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuar\u00e1 sempre a ser reconhecido como fascista. Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balc\u00e2nico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia c\u00e9ltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julios Evola.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/d0f68e9d-7ea2-4cf1-bcaf-6840586997f1.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Intelectual italiano, romancista e fil\u00f3sofo, autor de &quot;O p\u00eandulo de Foucault&quot; e &quot;O Nome da Rosa&quot;, morreu em 2016, aos 84 anos; &quot;O fascismo eterno ainda est\u00e1 ao nosso redor, \u00e0s vezes em trajes civis&quot;, diz Eco\" \/><br \/>\nAg\u00eancia Efe &#8211;\u00a0<em>Umberto Eco morreu em 2016 aos 84 anos, em sua casa, em Roma<\/em><\/p>\n<p>A despeito dessa confus\u00e3o, considero poss\u00edvel indicar uma lista de caracter\u00edsticas t\u00edpicas daquilo que eu gostaria de chamar de \u201cUr-Fascismo\u201d, ou \u201cfascismo eterno\u201d. Tais caracter\u00edsticas n\u00e3o podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e s\u00e3o t\u00edpicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas \u00e9 suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.<\/p>\n<p><strong>1.\u00a0\u00a0<\/strong>\u00a0A primeira caracter\u00edstica de um Ur-Fascismo \u00e9 o culto da tradi\u00e7\u00e3o. O tradicionalismo \u00e9 mais velho que o fascismo. N\u00e3o somente foi t\u00edpico do pensamento contra reformista cat\u00f3lico depois da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, mas nasceu no final da idade helen\u00edstica como uma rea\u00e7\u00e3o ao racionalismo grego cl\u00e1ssico.<br \/>\nNa bacia do Mediterr\u00e2neo, povos de religi\u00f5es diversas (todas aceitas com indulg\u00eancia pelo Panteon romano) come\u00e7aram a sonhar com uma revela\u00e7\u00e3o recebida na aurora da hist\u00f3ria humana. Essa revela\u00e7\u00e3o permaneceu longo tempo escondida sob o v\u00e9u de l\u00ednguas ent\u00e3o esquecidas. Havia sido confiada aos hier\u00f3glifos eg\u00edpcios, \u00e0s runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religi\u00f5es asi\u00e1ticas.<br \/>\nEssa nova cultura tinha que ser sincretista. \u201cSincretismo\u201d n\u00e3o \u00e9 somente, como indicam os dicion\u00e1rios, a combina\u00e7\u00e3o de formas diversas de cren\u00e7as ou pr\u00e1ticas. Uma combina\u00e7\u00e3o assim deve tolerar contradi\u00e7\u00f5es. Todas as mensagens originais cont\u00eam um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompat\u00edveis, \u00e9 apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.<br \/>\nComo consequ\u00eancia, n\u00e3o pode existir avan\u00e7o do saber. A verdade j\u00e1 foi anunciada de uma vez por todas, e s\u00f3 podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. \u00c9 suficiente observar o ide\u00e1rio de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos. A mais importante fonte te\u00f3rica da nova direita italiana Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos S\u00e1bios de Si\u00e3o, a alquimia com o Sacro Imp\u00e9rio Romano. O pr\u00f3prio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ide\u00e1rio juntando De Maistre, Guenon e Gramsci \u00e9 uma prova evidente de sincretismo.<br \/>\nSe remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indica\u00e7\u00e3o \u201cNew Age\u201d, ir\u00e3o encontrar at\u00e9 mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele n\u00e3o era fascista. Mas o pr\u00f3prio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto \u00e9 um sintoma de Ur-Fascismo.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong>\u00a0O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como nega\u00e7\u00e3o dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no \u201csangue\u201d e na \u201cterra\u201d (<em>Blut und Boden<\/em>). A recusa do mundo moderno era camuflada como condena\u00e7\u00e3o do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Raz\u00e3o eram vistos como o in\u00edcio da deprava\u00e7\u00e3o moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como \u201cirracionalismo\u201d.<\/p>\n<p><strong>3.\u00a0<\/strong>O irracionalismo depende tamb\u00e9m do culto da a\u00e7\u00e3o pela a\u00e7\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o \u00e9 bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflex\u00e3o. Pensar \u00e9 uma forma de castra\u00e7\u00e3o. Por isso, a cultura \u00e9 suspeita na medida em que \u00e9 identificada com atitudes cr\u00edticas. Da declara\u00e7\u00e3o atribu\u00edda a Goebbels (\u201cQuando ou\u00e7o falar em cultura, pego logo a pistola\u201d) ao uso frequente de express\u00f5es como \u201cPorcos intelectuais\u201d, \u201cCabe\u00e7as ocas\u201d, \u201cEsnobes radicais\u201d, \u201cAs universidades s\u00e3o um ninho de comunistas\u201d, a suspeita em rela\u00e7\u00e3o ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a intelig\u00eancia liberal de abandono dos valores tradicionais.<\/p>\n<p><strong>4.\u00a0<\/strong>Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar cr\u00edticas. O esp\u00edrito cr\u00edtico opera distin\u00e7\u00f5es, e distinguir \u00e9 um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade cient\u00edfica percebe o desacordo como instrumento de avan\u00e7o dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo \u00e9 trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>5.\u00a0<\/strong>O desacordo \u00e9, al\u00e9m disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferen\u00e7a. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que est\u00e1 se tornando fascista \u00e9 contra os intrusos. O Ur-Fascismo \u00e9, portanto, racista por defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>6.\u00a0<\/strong>O Ur-Fascismo prov\u00e9m da frustra\u00e7\u00e3o individual ou social. O que explica por que uma das caracter\u00edsticas dos fascismos hist\u00f3ricos tem sido o apelo \u00e0s classes m\u00e9dias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econ\u00f4mica ou humilha\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, assustadas pela press\u00e3o dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos \u201cprolet\u00e1rios\u201d est\u00e3o se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena pol\u00edtica), o fascismo encontrar\u00e1 nessa nova maioria seu audit\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>7.\u00a0<\/strong>Para os que se v\u00eaem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu \u00fanico privil\u00e9gio \u00e9 o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo pa\u00eds. Esta \u00e9 a origem do \u201cnacionalismo\u201d. Al\u00e9m disso, os \u00fanicos que podem fornecer uma identidade \u00e0s na\u00e7\u00f5es s\u00e3o os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista est\u00e1 a obsess\u00e3o do compl\u00f4, possivelmente internacional. Os seguidores t\u00eam que se sentir sitiados. O modo mais f\u00e1cil de fazer emergir um compl\u00f4 \u00e9 fazer apelo \u00e0 xenofobia. Mas o compl\u00f4 tem que vir tamb\u00e9m do interior: os judeus s\u00e3o, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Na Am\u00e9rica, o \u00faltimo exemplo de obsess\u00e3o pelo compl\u00f4 foi o livro\u00a0<em>The New World Order<\/em>, de Pat Robertson.<\/p>\n<p><strong>8.\u00a0<\/strong>Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela for\u00e7a do inimigo. Quando eu era crian\u00e7a ensinavam-me que os ingleses eram o \u201cpovo das cinco refei\u00e7\u00f5es\u201d: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres mas s\u00f3brios. Os judeus s\u00e3o ricos e ajudam-se uns aos outros gra\u00e7as a uma rede secreta de m\u00fatua assist\u00eancia. Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, gra\u00e7as a um cont\u00ednuo deslocamento de registro ret\u00f3rico, os inimigos s\u00e3o, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos est\u00e3o condenados a perder suas guerras, pois s\u00e3o constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a for\u00e7a do inimigo.<\/p>\n<p><strong>9.\u00a0<\/strong>Para o Ur-Fascismo n\u00e3o h\u00e1 luta pela vida, mas antes \u201cvida para a luta\u201d. Logo, o pacifismo \u00e9 conluio com o inimigo; o pacifismo \u00e9 mau porque a vida \u00e9 uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumir\u00e1 o controle do mundo. Uma solu\u00e7\u00e3o final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princ\u00edpio da guerra permanente. Nenhum l\u00edder fascista conseguiu resolver essa contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>10.\u00a0<\/strong>O elitismo \u00e9 um aspecto t\u00edpico de qualquer ideologia reacion\u00e1ria, enquanto fundamentalmente aristocr\u00e1tica. No curso da hist\u00f3ria, todos os elitismos aristocr\u00e1ticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo n\u00e3o pode deixar de pregar um \u201celitismo popular\u201d. Todos os cidad\u00e3os pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido s\u00e3o os melhores cidad\u00e3os, todo cidad\u00e3o pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patr\u00edcios n\u00e3o podem existir sem plebeus. O l\u00edder, que sabem muito em que seu poder n\u00e3o foi obtido por delega\u00e7\u00e3o, mas conquistado pela for\u00e7a, sabe tamb\u00e9m que sua for\u00e7a baseia-se na debilidade das massas, t\u00e3o fracas que t\u00eam necessidade e merecem um \u201cdominador\u201d. No momento em que o grupo \u00e9 organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer l\u00edder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso refor\u00e7a o sentido de elitismo de massa.<\/p>\n<p><strong>11.\u00a0<\/strong>Nesta perspectiva, cada um \u00e9 educado para tornar-se um her\u00f3i. Em qualquer mitologia, o \u201cher\u00f3i\u201d \u00e9 um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o hero\u00edsmo \u00e9 a norma. Este culto do hero\u00edsmo \u00e9 estreitamente ligado ao culto da morte: n\u00e3o \u00e9 por acaso que o mote dos falangistas era:\u00a0<em>\u201cViva la muerte!\u201d<\/em>\u00a0\u00c0 gente normal diz-se que a morte \u00e9 desagrad\u00e1vel, mas \u00e9 preciso enfrent\u00e1-la com dignidade; aos crentes, diz-se que \u00e9 um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O her\u00f3i Ur-Fascista, ao contr\u00e1rio, aspira \u00e0 morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heroica. O her\u00f3i Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaci\u00eancia, \u00e9 preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros \u00e0 morte.<\/p>\n<p><strong>12.\u00a0<\/strong>Como tanto a guerra permanente como o hero\u00edsmo s\u00e3o jogos dif\u00edceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para quest\u00f5es sexuais. Esta \u00e9 a origem do machismo (que implica desd\u00e9m pelas mulheres e uma condena\u00e7\u00e3o intolerante de h\u00e1bitos sexuais n\u00e3o-conformistas, da castidade \u00e0 homossexualidade). Como o sexo tamb\u00e9m \u00e9 um jogo dif\u00edcil de jogar, o her\u00f3i Ur-Fascista joga com as armas, que s\u00e3o seu Ersatz f\u00e1lico: seus jogos de guerra s\u00e3o devidos a uma inveja p\u00eanis permanente.<\/p>\n<p><strong>13.\u00a0<\/strong>O Ur-Fascismo baseia-se em um \u201cpopulismo qualitativo\u201d. Em uma democracia, os cidad\u00e3os gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidad\u00e3os s\u00f3 \u00e9 dotado de impacto pol\u00edtico do ponto de vista quantitativo (as decis\u00f5es da maioria s\u00e3o acatadas). Para o Ur-Fascismo os indiv\u00edduos enquanto indiv\u00edduos n\u00e3o t\u00eam direitos e \u201co povo\u201d \u00e9 concebido como uma qualidade, uma entidade monol\u00edtica que exprime \u201ca vontade comum\u201d. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o l\u00edder apresenta-se como seu int\u00e9rprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidad\u00e3os n\u00e3o agem, s\u00e3o chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo \u00e9, assim, apenas uma fic\u00e7\u00e3o teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, n\u00e3o precisamos mais da Piazza Venezia ou do est\u00e1dio de Nuremberg.<br \/>\nEm nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidad\u00e3os pode ser apresentada e aceita como a \u201cvoz do povo\u201d. Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos \u201cp\u00fatridos\u201d governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no Parlamento italiano foi:<em>\u201cEu poderia ter transformado esta assembleia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos\u201d<\/em>. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o Parlamento. Cada vez que um pol\u00edtico p\u00f5e em d\u00favida a legitimidade do Parlamento por n\u00e3o representar mais a \u201cvoz do povo\u201d, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.<\/p>\n<p><strong>14.\u00a0<\/strong>O Ur-Fascismo fala a \u201cnovil\u00edngua\u201d. A \u201cnovil\u00edngua\u201d foi inventada por Orwell em 1984, como l\u00edngua oficial do Ingsoc, o Socialismo Ingl\u00eas, mas certos elementos de Ur-Fascismo s\u00e3o comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um l\u00e9xico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um racioc\u00ednio complexo e cr\u00edtico. Devemos, por\u00e9m estar prontos a identificar outras formas de novil\u00edngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.<\/p>\n<p>Depois de indicar os arqu\u00e9tipos poss\u00edveis do Ur-Fascismo, permitam-me concluir. Na manh\u00e3 de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informa\u00e7\u00f5es lidas na r\u00e1dio, o fascismo havia ca\u00eddo e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha m\u00e3e mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais pr\u00f3ximo e vi que os jornais estavam l\u00e1, mas os nomes eram diferentes. Al\u00e9m disso, depois de uma breve olhada nos t\u00edtulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira p\u00e1gina, assinada por cinco ou seis partidos pol\u00edticos como Democracia Crist\u00e3, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de A\u00e7\u00e3o, Partido Liberal. At\u00e9 aquele momento pensei que s\u00f3 existisse um partido em todas as cidades e que na It\u00e1lia s\u00f3 existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista.<\/p>\n<p>Eu estava descobrindo que, no meu pa\u00eds, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E n\u00e3o s\u00f3 isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era imposs\u00edvel que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles j\u00e1 existiam como organiza\u00e7\u00f5es clandestinas.<\/p>\n<p>A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno \u00e0 liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Estas palavras, \u201cliberdade\u201d, \u201cditadura\u201d \u2014 Deus meu \u2014, era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental.<\/p>\n<p>Devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras n\u00e3o seja esquecido de novo. O Ur-Fascismo ainda est\u00e1 ao nosso redor, \u00e0s vezes em trajes civis. Seria muito confort\u00e1vel para n\u00f3s se algu\u00e9m surgisse na boca de cena do mundo para dizer:\u00a0<em>\u201cQuero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas pra\u00e7as italianas!\u201d<\/em>. Ai de mim, a vida n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever \u00e9 desmascar\u00e1-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas \u2014 a cada dia, em cada lugar do mundo. Cito ainda as palavras de Roosevelt:\u00a0<em>\u201cOuso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma for\u00e7a viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pac\u00edficos, as condi\u00e7\u00f5es de nossos cidad\u00e3os, a for\u00e7a do fascismo cresceria em nosso pa\u00eds\u201d<\/em>\u00a0(4 de novembro de 1938). Liberdade, libera\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma tarefa que n\u00e3o acaba nunca. Que seja este o nosso mote: \u201cN\u00e3o esque\u00e7am\u201d.<\/p>\n<p>E permitam-me acabar com uma poesia de Franco Fortini:<\/p>\n<div class=\"__reading_mode_table_and_collapse_button_container\">\n<div id=\"__reading_mode_collapsed_container_0\" class=\"__reading_mode_table_collapsed_class\">\n<table class=\"__reading_mode_data_table_class\" border=\"0\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"1\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><em>Sulla spalletta del ponte<br \/>\nLe teste degli impiccati<br \/>\nNell\u2019acqua della fonte<br \/>\nLa bava degli impiccati<br \/>\nSul lastrico del mercato<br \/>\nLe unghie dei fucilati<br \/>\nSull\u2019erba secca del prato<br \/>\nI denti dei fucilati<\/em><em>Mordere l\u2019aria mordere i sassi<br \/>\nLa nostra carne non \u00e0 pi\u00f9 d\u2019uomini<br \/>\nMordere l\u2019aria mordere i sassi<br \/>\nIl nostro cuore non \u00e0 pi\u00f9 d\u2019uomini.<\/em><\/p>\n<p><em>Ma noi s\u2019\u00e8 letto negli occhi dei morti<br \/>\nE sulla terra faremo libert\u00e0<br \/>\nMa l\u2019hanno stretta i pugni dei morti<br \/>\nLa giustizia che si far\u00e0.<\/em><\/td>\n<td><em>Na amurada da ponte<br \/>\nA cabe\u00e7a dos enforcados<br \/>\nNa \u00e1gua da fonte<br \/>\nA baba dos enforcados<br \/>\nNo cal\u00e7amento do mercado<br \/>\nAs unhas dos fuzilados<br \/>\nSobre a grama seca do prado<br \/>\nOs dentes dos fuzilados<\/em><em>Morder o ar morder as pedras<br \/>\nNossa carne n\u00e3o \u00e9 mais de homens<br \/>\nMorder o ar morder as pedras<br \/>\nNosso cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais de homens<\/em><\/p>\n<p><em>Mas lemos nos olhos dos mortos<br \/>\nE sobre a terra a liberdade havemos de fazer<br \/>\nMas estreitaram-na nos punhos os mortos<br \/>\nA justi\u00e7a que se h\u00e1 de fazer.<\/em><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><em>Umberto Eco, O Fascismo Eterno, in: Cinco Escritos Morais,\u00a0<\/em><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Eliana Aguiar, Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.<\/em><\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div id=\"ftn1\">\n<p><a href=\"read:\/\/https_operamundi.uol.com.br\/?url=https%3A%2F%2Foperamundi.uol.com.br%2Fpolitica-e-economia%2Fumberto-eco-14-licoes-para-identificar-o-neofascismo-e-o-fascismo-eterno%2F#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Usado atualmente em l\u00f3gica para designar conjuntos \u201cesfumados\u201d, de contornos imprecisos, o termo fuzzy poderia ser traduzido como \u201cesfumado\u201d, \u201cconfuso\u201d, \u201cimpreciso\u201d, \u201cdesfocado\u201d.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Umberto Eco: 14 li\u00e7\u00f5es para identificar o neofascismo e o fascismo eterno &#8211; Opera Mundi &#8211; Opera Mundi &#8211; https:\/\/operamundi.uol.com.br\/politica-e-economia\/umberto-eco-14-licoes-para-identificar-o-neofascismo-e-o-fascismo-eterno\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Umberto Eco &#8211; Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o pr\u00eamio nos\u00a0Ludi Juveniles\u00a0(um concurso com livre participa\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria para jovens\u00a0fascistas\u00a0italianos \u2014 o que vale dizer, para todos os jovens italianos). 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