{"id":24853,"date":"2025-08-31T12:46:25","date_gmt":"2025-08-31T15:46:25","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24853"},"modified":"2025-08-25T14:51:59","modified_gmt":"2025-08-25T17:51:59","slug":"foi-assim-que-cheguei-a-tese-do-comunismo-de-decrescimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/08\/31\/foi-assim-que-cheguei-a-tese-do-comunismo-de-decrescimento\/","title":{"rendered":"\u201cFoi assim que cheguei \u00e0 tese do comunismo de decrescimento"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<div class=\"container news-content\">\n<div class=\"col-3 hidden-mobile\">\n<div class=\"news-maislidos mostread\">\n<p><strong>Green European Journal &#8211; <\/strong>Kohei Saito, fil\u00f3sofo marxista japon\u00eas que se voltou para a\u00a0ecologia\u00a0motivado pela\u00a0cat\u00e1strofe de Fukushima, ganhou grande notoriedade internacional com o seu trabalho sobre o\u00a0comunismo de decrescimento. Nesta entrevista ao\u00a0Green European Journal,\u00a0Saito\u00a0explica o que o\u00a0socialismo\u00a0e o\u00a0ambientalismo\u00a0podem aprender um com o outro e o motivo pelo qual o\u00a0Jap\u00e3o, economicamente estagnado e devastado por uma pandemia, acabou sendo um territ\u00f3rio f\u00e9rtil para as\u00a0ideias decrescentistas.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-9 col-md-8 news-body\">\n<div class=\"news-body-content\">\n<p>O Capital no Antropoceno, publicado no Jap\u00e3o em 2020, alcan\u00e7ou um sucesso sem precedentes. A previs\u00e3o \u00e9 que\u00a0Slow Down: The Degrowth Manifesto\u00a0seja publicado em ingl\u00eas, em in\u00edcios de 2024.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como passou a se interessar por Marx e depois pelo comunismo de decrescimento?<\/strong><\/p>\n<p>Descobri as obras de\u00a0Marx\u00a0e\u00a0Engels\u00a0aos 18 anos, quando comecei meus estudos na\u00a0Universidade de T\u00f3quio, em grupos de estudantes que lutavam para proteger os\u00a0trabalhadores jovens. Inicialmente, fiquei mais interessado na\u00a0explora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora\u00a0e depois cada vez mais pela\u00a0desigualdade\u00a0em geral, depois que a crise de 2008 agravou a situa\u00e7\u00e3o no\u00a0Jap\u00e3o.\u00a0Marx\u00a0havia alertado justamente a respeito destes problemas, que s\u00f3 ganhariam mais import\u00e2ncia no futuro. Ent\u00e3o, decidi me mudar para a Alemanha para continuar estudando\u00a0Marx.<\/p>\n<p>Em 2011, depois do\u00a0terremoto no Jap\u00e3o\u00a0e da\u00a0cat\u00e1strofe nuclear de Fukushima, percebi que o\u00a0capitalismo\u00a0n\u00e3o se limita apenas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos seres humanos, mas tamb\u00e9m engloba essas tecnologias colossais que foram criadas em busca de lucros e que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, trouxeram consigo um verdadeiro desastre para a vida de muitas pessoas no\u00a0Jap\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, voc\u00ea chegou ao mundo da ecologia atrav\u00e9s da quest\u00e3o nuclear, em vez da clim\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p>Inicialmente, eu estava mais otimista em rela\u00e7\u00e3o ao\u00a0desenvolvimento da tecnologia, mas depois de\u00a0Fukushima, comecei a refletir sobre a\u00a0tecnologia\u00a0e o\u00a0capitalismo\u00a0e perdi parte desse otimismo. Tamb\u00e9m comecei a me interessar mais pela quest\u00e3o da\u00a0mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u00a0em 2014, ap\u00f3s ter lido\u00a0Tudo pode mudar, de\u00a0Naomi Klein.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, continuava otimista. Pensava que algumas\u00a0medidas pol\u00edticas socialistas, com um planejamento maior e trabalho garantido, poderiam alcan\u00e7ar a igualdade e, ao mesmo tempo, maior\u00a0sustentabilidade. Foi quando comecei a ler mais e me deparei com as obras de\u00a0Jason Hickel,\u00a0Giorgos Kallis\u00a0e a abordagem do\u00a0decrescimento\u00a0em geral.<\/p>\n<p>N\u00e3o restava d\u00favida de que havia certa tens\u00e3o entre\u00a0Marx\u00a0e o decrescimento e em torno de\u00a0Marx\u00a0e a\u00a0crise clim\u00e1tica, sendo assim, comecei a ler suas obras mais tardias. Passei a reinterpretar as suas ideias, em particular os seus estudos sobre as\u00a0sociedades pr\u00e9-capitalistas.<\/p>\n<p>Percebi que\u00a0Marx\u00a0havia se interessado por essas\u00a0sociedades pr\u00e9-capitalistas\u00a0porque s\u00e3o Estados essencialmente est\u00e1veis n\u00e3o orientados para o\u00a0crescimento. E, apesar disso, conseguiram garantir a\u00a0sustentabilidade\u00a0e a qualidade de vida para toda a popula\u00e7\u00e3o. Foi assim que cheguei \u00e0 tese do\u00a0comunismo de decrescimento.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea relaciona o decrescimento com o comunismo? O comunismo n\u00e3o quer mais e o decrescentismo menos?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a tens\u00e3o que existe na\u00a0tradi\u00e7\u00e3o marxista\u00a0e\u00a0ambientalista. A\u00a0corrente pol\u00edtica socialista\u00a0aposta no\u00a0desenvolvimento tecnol\u00f3gico\u00a0para conseguir mais para todos: \u00e9 necess\u00e1rio que haja mais\u00a0desenvolvimento, mais\u00a0progresso, mais efici\u00eancia. O\u00a0ambientalismo\u00a0ressalta que h\u00e1 um consumo excessivo e uma\u00a0superprodu\u00e7\u00e3o, por isso defende uma desacelera\u00e7\u00e3o para\u00a0proteger a natureza.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, acabei percebendo que\u00a0Marx\u00a0estava interessado em ambas as quest\u00f5es: proteger a vida de todas as pessoas e proteger a natureza. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de ter mais em um sentido\u00a0capitalista. Quando\u00a0Marx\u00a0fala em\u00a0abund\u00e2ncia, n\u00e3o se refere a termos jatos particulares ou mans\u00f5es. Pretende dizer que podemos viver de forma abundante, viver uma boa vida, tendo cuidado m\u00e9dico e transporte universais, com moradia, \u00e1gua, eletricidade e recursos b\u00e1sicos garantidos, sem a media\u00e7\u00e3o do dinheiro.<\/p>\n<p>Esse tipo de\u00a0abund\u00e2ncia\u00a0pode constituir a nova base para o\u00a0socialismo\u00a0e o\u00a0comunismo\u00a0porque se baseia na\u00a0igualdade. Contudo, se quisermos ter mais no sentido atual da palavra, o resultado ser\u00e1 uma\u00a0cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica. O caminho intermedi\u00e1rio passa pela\u00a0redefini\u00e7\u00e3o de abund\u00e2ncia\u00a0e, na linha de\u00a0Hickel, eu a denomino\u00a0abund\u00e2ncia radical. \u00c9 um tipo de\u00a0abund\u00e2ncia\u00a0muito diferente, na qual compartilhamos coisas, ajudamos uns aos outros e temos uma sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Levando em considera\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o do planeta, o ecossocialismo produtivista \u00e9 plaus\u00edvel? Ou \u00e9 necess\u00e1rio assumir que o velho sonho marxista chegou ao seu fim?<\/strong><\/p>\n<p>Sem o\u00a0ambientalismo, a\u00a0pol\u00edtica socialista\u00a0gira em torno de alcan\u00e7ar uma maior\u00a0igualdade\u00a0por meio do aumento da produ\u00e7\u00e3o e do consumo. Contudo, o mundo todo n\u00e3o pode viver como\u00a0Bill Gates, nem como a classe m\u00e9dia alta alem\u00e3. N\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel. Os socialistas criticam o\u00a0capitalismo, mas, ao mesmo tempo, permanecem presos aos\u00a0valores capitalistas.<\/p>\n<p>Devemos tamb\u00e9m levar considerar que se continuarmos consumindo mais energia e recursos, continuaremos explorando recursos, energia e m\u00e3o de obra dos\u00a0pa\u00edses do sul global. Portanto, se verdadeiramente queremos considerar a\u00a0igualdade\u00a0e a\u00a0sustentabilidade\u00a0em\u00a0escala planet\u00e1ria, n\u00e3o basta nos basearmos somente na\u00a0tecnologia. Tamb\u00e9m precisamos pensar na forma como vivemos, na maneira como produzimos as coisas.<\/p>\n<p>A\u00a0pol\u00edtica socialista\u00a0se torna novamente muito importante neste sentido, porque s\u00e3o justamente as pessoas ricas as respons\u00e1veis por esta produ\u00e7\u00e3o e consumo excessivos. \u00c9 preciso\u00a0taxar a riqueza\u00a0e\u00a0proibir bens como os jatos privados, os cruzeiros e as grandes mans\u00f5es.<\/p>\n<p>Isto nos permitir\u00e1\u00a0reduzir a produ\u00e7\u00e3o e o consumo, mas tamb\u00e9m ter mais tempo livre, aumentar o nosso bem-estar e garantir certo espa\u00e7o para o\u00a0desenvolvimento do sul global. Feito isto, devemos pensar em maneiras de reduzir o nosso consumo material, sobretudo nos pa\u00edses do\u00a0norte global. O\u00a0excesso de confian\u00e7a na tecnologia\u00a0nos impede de ver que o nosso modo de vida n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 quem diga: \u201cEu quero um ambiente saud\u00e1vel e um clima est\u00e1vel, mas n\u00e3o esta agenda ideol\u00f3gica\u201d. De fato, \u00e9 necess\u00e1rio que o ambientalismo seja anticapitalista?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, \u00e9. Os\u00a0ambientalistas\u00a0devem estar conscientes de que \u00e9 necess\u00e1rio questionar o\u00a0capitalismo. Hoje, acreditar que um\u00a0imposto sobre o carbono\u00a0pode resolver o problema \u00e9 ser otimista. Precisamos de medidas mais agressivas, como\u00a0proibir as ind\u00fastrias poluentes e reduzir a publicidade. Estas medidas s\u00e3o contr\u00e1rias \u00e0\u00a0l\u00f3gica do capitalismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o resta d\u00favida de que precisamos de grandes investimentos em novas tecnologias, como as\u00a0energias renov\u00e1veis. Agora, no\u00a0capitalismo, mesmo que desenvolvamos tecnologias, continuaremos trabalhando jornadas muito longas e consumindo cada vez mais.<\/p>\n<p>No\u00a0capitalismo, embora a tecnologia nos permita aumentar a efici\u00eancia, \u00e9 utilizada com um \u00fanico fim: produzir cada vez mais. E \u00e9 precisamente por esta mesma raz\u00e3o que tamb\u00e9m temos que trabalhar cada vez mais para ganhar dinheiro e recome\u00e7ar.<\/p>\n<p>Quanto maior a efici\u00eancia, maior a produ\u00e7\u00e3o e, portanto, maior o consumo de recursos e energia. Deste modo, n\u00e3o poderemos resolver a\u00a0crise clim\u00e1tica. A \u00fanica forma de alcan\u00e7ar uma nova forma de entender a sociedade \u00e9 juntando estes dois conceitos:\u00a0ambientalismo\u00a0ou\u00a0decrescimento\u00a0e\u00a0socialismo\u00a0ou\u00a0comunismo.<\/p>\n<p><strong>Por que o seu livro \u2018O Capital no Antropoceno\u2019 se tornou t\u00e3o popular no Jap\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Foi uma grande surpresa.\u00a0Marx\u00a0e o\u00a0decrescimento\u00a0n\u00e3o costumam ser temas muito populares no\u00a0Jap\u00e3o, mas foram vendidos cerca de meio milh\u00e3o de exemplares. A tradu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 j\u00e1 esteve entre os 10 livros mais vendidos na\u00a0Der Spiegel. Ent\u00e3o, algo est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>O livro foi colocado \u00e0 venda no\u00a0Jap\u00e3o\u00a0em plena pandemia. Naquele momento, tivemos que\u00a0desacelerar o nosso estilo de vida. Os restaurantes estavam fechados, as pessoas trabalhavam de casa e n\u00e3o sa\u00edam. Dedicavam mais tempo \u00e0 fam\u00edlia e cozinhavam em casa.<\/p>\n<p>Reduzimos o nosso ritmo de vida e, gra\u00e7as a isso, tivemos tempo para refletir sobre o nosso estilo de vida anterior. Por que pass\u00e1vamos mais de uma hora por dia indo para o trabalho? Por que compramos tantas roupas? Percebemos que esse estilo de vida n\u00e3o nos trazia nenhum tipo de felicidade, simplesmente est\u00e1vamos acostumados a ele. Contudo, pod\u00edamos mudar.<\/p>\n<p>Paralelamente, durante a pandemia, houve pessoas que passaram a ser chamadas de \u201ctrabalhadores essenciais\u201d, pessoas que estavam expostas aos riscos da\u00a0Covid 19, mas que tinham sal\u00e1rios muito baixos e jornadas exaustivas. Enquanto isso, as pessoas que ganham um bom sal\u00e1rio trabalhavam de casa, com muito mais seguran\u00e7a. E durante a pandemia ganhavam ainda mais dinheiro.<\/p>\n<p>Essa desigualdade econ\u00f4mica significou um esc\u00e2ndalo social no\u00a0Jap\u00e3o. Eu fiz uma cr\u00edtica \u00e0 quest\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o de esquerda e a popula\u00e7\u00e3o aceitou que o\u00a0capitalismo\u00a0\u00e9 um problema.<\/p>\n<p><strong>Parece que a economia japonesa est\u00e1 voltando aos n\u00edveis anteriores \u00e0 pandemia, mas h\u00e1 d\u00e9cadas se sabe que o pa\u00eds enfrenta um crescimento lento e uma estagna\u00e7\u00e3o do crescimento populacional. Isso tamb\u00e9m \u00e9 um fator de atra\u00e7\u00e3o pelo seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0recess\u00e3o\u00a0e o\u00a0decrescimento\u00a0s\u00e3o duas coisas muito diferentes. O que o\u00a0Jap\u00e3o\u00a0viveu nas \u00faltimas d\u00e9cadas n\u00e3o \u00e9 o\u00a0decrescimento, e a falta de crescimento sustentado em uma\u00a0sociedade capitalista\u00a0gera enormes problemas. Precisamos de uma transi\u00e7\u00e3o consciente para uma\u00a0sociedade p\u00f3s-crescimento.<\/p>\n<p>Os\u00a0millenials\u00a0e a\u00a0gera\u00e7\u00e3o Z\u00a0n\u00e3o se lembram dos dias de gl\u00f3ria dos anos 1980 e n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o otimistas em rela\u00e7\u00e3o ao progresso futuro do\u00a0Jap\u00e3o. Portanto, reivindicamos uma nova sociedade que n\u00e3o assuma o\u00a0crescimento. Isto \u00e9 o que proponho com o\u00a0comunismo decrescentista.<\/p>\n<p><strong>Como podemos avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a esse objetivo? \u00c9 necess\u00e1rio que haja uma revolu\u00e7\u00e3o para alcan\u00e7ar o comunismo de decrescimento, como ocorre com o comunismo cl\u00e1ssico?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o fa\u00e7o um chamado a uma revolu\u00e7\u00e3o como a russa. N\u00e3o acredito que possamos acabar com este sistema por meio da tomada do poder. Mesmo que tom\u00e1ssemos o poder no parlamento nacional, isso n\u00e3o mudaria o sistema econ\u00f4mico. O mais realista \u00e9 a ideia de\u00a0Rosa Luxemburgo\u00a0de uma\u00a0realpolitik\u00a0revolucion\u00e1ria\u00a0por meio de reformas; taxando a riqueza para introduzir uma renda m\u00e1xima, por exemplo.<\/p>\n<p>As reformas e as medidas pol\u00edticas podem gerar muitas mudan\u00e7as em nossa forma de perceber as coisas e de agir em nosso dia a dia, mesmo que n\u00e3o consigam acabar com o\u00a0capitalismo\u00a0de modo imediato. Contudo, uma transforma\u00e7\u00e3o de nossa consci\u00eancia e de nossos comportamentos cotidianos nos permite ampliar o espa\u00e7o para exigir mudan\u00e7as mais radicais.<\/p>\n<p>Em minha opini\u00e3o, \u00e9 assim que avan\u00e7aremos gradualmente para uma sociedade baseada no\u00a0decrescimento. H\u00e1 pessoas (sobretudo jovens) na\u00a0Alemanha, na\u00a0Fran\u00e7a\u00a0e at\u00e9 nos\u00a0Estados Unidos\u00a0que est\u00e3o exigindo esse tipo de transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 um processo progressivo, mas penso que nos anos 2030 veremos esse tipo de mudan\u00e7a transformadora que provocar\u00e1 uma\u00a0mudan\u00e7a sist\u00eamica\u00a0em todo o mundo.<\/p>\n<p><strong>Os pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados, como Jap\u00e3o e Alemanha, est\u00e3o mais preparados para o comunismo de decrescimento?<\/strong><\/p>\n<p>Algumas cidades como\u00a0Amsterd\u00e3,\u00a0Barcelona,\u00a0Paris\u00a0e\u00a0Nova York\u00a0t\u00eam um potencial extraordin\u00e1rio. Em n\u00edvel local, est\u00e3o sendo introduzidas novas ideias, como a\u00a0economia da rosquinha. N\u00e3o espero que ocorra uma mudan\u00e7a de cima para baixo, como na\u00a0Revolu\u00e7\u00e3o Russa, mas de baixo para cima; e as cidades oferecem mais oportunidades para intervir na esfera pol\u00edtica e fomentar a mudan\u00e7a. As cidades s\u00e3o alguns dos lugares onde devemos lutar mais e tomara que isso se estenda \u00e0 esfera nacional.<\/p>\n<p><strong>\u201cComunismo decrescentista\u201d n\u00e3o \u00e9 um termo desnecessariamente assustador? Para algumas pessoas, o decrescimento j\u00e1 \u00e9 algo alarmante e voc\u00ea acrescenta a ele o comunismo e toda a bagagem que carrega.<\/strong><\/p>\n<p>Pela mesma raz\u00e3o, n\u00e3o esperava que\u00a0O Capital no Antropoceno\u00a0fosse um best-seller. O\u00a0Jap\u00e3o\u00a0tem\u00a0tradi\u00e7\u00e3o marxista, mas fora das universidades n\u00e3o \u00e9 um termo muito positivo. O\u00a0Jap\u00e3o\u00a0\u00e9 bastante capitalista e a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o acredita no\u00a0marxismo, nem no\u00a0socialismo. No entanto, as pessoas est\u00e3o cansadas do\u00a0capitalismo\u00a0e, h\u00e1 muitos anos, a\u00a0economia japonesa\u00a0est\u00e1 em crise.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito interesse em ideias mais radicais, mas o livro recebeu muitas cr\u00edticas e admito que o conceito de\u00a0comunismo decrescentista\u00a0\u00e9 muito incisivo. N\u00e3o obstante, utilizo estes termos como uma esp\u00e9cie de provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que pretendo dizer \u00e9 que o\u00a0capitalismo\u00a0n\u00e3o funciona e que n\u00e3o basta consert\u00e1-lo. Precisamos de ideias como o\u00a0decrescimento\u00a0e o\u00a0comunismo\u00a0para, pelo menos, explorar novas possibilidades. Se as pessoas come\u00e7arem a falar sobre novas ideias fora do\u00a0capitalismo, ent\u00e3o, acredito que o meu livro j\u00e1 teve sucesso.<\/p>\n<p><strong>Os Estados comunistas eram conhecidos pelo seu planejamento central. \u00c9 necess\u00e1rio recuperar a ideia de planejamento econ\u00f4mico, ou seja, de que o Estado tenha mais peso nas decis\u00f5es econ\u00f4micas, como a respeito do volume de produ\u00e7\u00e3o de bens, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 necess\u00e1rio. Por isso, o\u00a0decrescimento\u00a0deve aprender do\u00a0comunismo\u00a0ou, ao menos, do\u00a0socialismo. A\u00a0corrente socialista\u00a0tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o de\u00a0planejamento econ\u00f4mico. Existem planejamentos muito ruins, como o\u00a0planejamento burocr\u00e1tico extremamente centralizado da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico. Poder\u00edamos explorar formas de planejamento diferentes e mais democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Os que defendem o\u00a0decrescimento\u00a0n\u00e3o costumam gostar de falar sobre isso porque associam qualquer tipo de planejamento ao\u00a0stalinismo\u00a0e prop\u00f5em a introdu\u00e7\u00e3o de pequenas mudan\u00e7as e reformas pontuais. Parece-me que isto n\u00e3o \u00e9 o suficiente: tamb\u00e9m \u00e9 preciso falar e planejar quais tipos de ind\u00fastrias precisamos e quais n\u00e3o.<\/p>\n<p>O\u00a0capitalismo\u00a0n\u00e3o investir\u00e1 na\u00a0prote\u00e7\u00e3o da natureza, nem na constru\u00e7\u00e3o de\u00a0grandes projetos de infraestruturas. Simplesmente, n\u00e3o \u00e9 rent\u00e1vel. Se quisermos proteger o planeta, precisamos de um planejamento cuidadoso e da\u00a0interven\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Talvez a\u00a0intelig\u00eancia artificial\u00a0desempenhe um papel neste processo, ou talvez recorramos \u00e0\u00a0democracia local. Ainda n\u00e3o temos a solu\u00e7\u00e3o, mas temos de resolver a quest\u00e3o sobre como planejaremos a transi\u00e7\u00e3o para a sociedade que desejamos.<\/p>\n<p><strong>Descreva um dia normal para um cidad\u00e3o normal, em uma sociedade comunista decrescentista.<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 agora, podemos\u00a0reduzir a jornada de trabalho para quatro dias\u00a0e acredito que, com a ajuda da\u00a0tecnologia, no futuro poder\u00edamos reduzi-la para tr\u00eas. Ou seja, trabalhar 25 horas por semana. O que faremos com todo esse tempo livre? Passaremos mais tempo com a fam\u00edlia. Vamos nos dedicar \u00e0 jardinagem, talvez praticar esportes.<\/p>\n<p>Faremos algum voluntariado e participaremos, a n\u00edvel pol\u00edtico, do planejamento de nossa produ\u00e7\u00e3o e na atua\u00e7\u00e3o de nosso governo local. N\u00e3o iremos para o trabalho de carro, mas, sim, de \u00f4nibus e metr\u00f4, e a organiza\u00e7\u00e3o de nosso local de trabalho ser\u00e1 mais horizontal.<\/p>\n<p>Dever\u00edamos ter maior rotatividade no trabalho. As\u00a0novas tecnologias\u00a0nos permitem compartilhar mais e um maior rod\u00edzio nas tarefas. Eu, por exemplo, que sou professor universit\u00e1rio, tamb\u00e9m poderia lecionar em comunidades locais ou na pris\u00e3o. Al\u00e9m disso, podemos usar as nossas habilidades, capacidades e tempo n\u00e3o s\u00f3 para ganhar dinheiro, mas tamb\u00e9m para\u00a0formar comunidades\u00a0e\u00a0educar as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No mais, as coisas b\u00e1sicas s\u00e3o muito parecidas com as de agora. Quando voc\u00ea chega em casa, pode tomar uma cerveja ou talvez ir \u00e0 sauna. N\u00e3o passaremos muito tempo em centros comerciais, nem visitaremos a\u00a0Coreia\u00a0ou\u00a0Taiwan, no fim de semana.<\/p>\n<p>Passaremos mais tempo na natureza e em lugares onde possamos relaxar, mas n\u00e3o voltaremos ao estilo de vida de 120 anos atr\u00e1s. Continuaremos utilizando a\u00a0tecnologia e desfrutando boas refei\u00e7\u00f5es com amigos e familiares.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: \u201cFoi assim que cheguei \u00e0 tese do comunismo de decrescimento\u201d. Entrevista com Kohei Saito &#8211; read:\/\/https_www.ihu.unisinos.br\/?url=https%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2Fcategorias%2F634197-o-decrescimento-deve-aprender-do-comunismo-ou-ao-menos-do-socialismo-entrevista-com-kohei-saito<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Green European Journal &#8211; Kohei Saito, fil\u00f3sofo marxista japon\u00eas que se voltou para a\u00a0ecologia\u00a0motivado pela\u00a0cat\u00e1strofe de Fukushima, ganhou grande notoriedade internacional com o seu trabalho sobre o\u00a0comunismo de decrescimento. 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