{"id":24828,"date":"2025-08-19T12:48:53","date_gmt":"2025-08-19T15:48:53","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24828"},"modified":"2025-08-13T19:56:00","modified_gmt":"2025-08-13T22:56:00","slug":"o-brasileiro-e-ainda-mais-miscigenado-do-que-voce-pensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/08\/19\/o-brasileiro-e-ainda-mais-miscigenado-do-que-voce-pensa\/","title":{"rendered":"O brasileiro \u00e9 ainda mais miscigenado do que voc\u00ea pensa"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maria Guimar\u00e3es<\/strong> &#8211; Novos resultados de sequenciamento do material gen\u00e9tico de 2.723 pessoas revelam maior ancestralidade ind\u00edgena e africana e ressaltam as marcas de viol\u00eancia no processo que formou a popula\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 surpresa para ningu\u00e9m que o povo brasileiro \u00e9 miscigenado, mas os detalhes de como essa hist\u00f3ria se deu, e suas consequ\u00eancias, v\u00eam sendo revelados aos poucos por geneticistas, al\u00e9m dos historiadores. O mais recente estudo, publicado em maio na revista cient\u00edfica\u00a0<em>Science<\/em>, aprofunda e amplia o retrato do brasileiro a partir do sequenciamento do material gen\u00e9tico de 2.723 pessoas de todas as regi\u00f5es do pa\u00eds. Os resultados revelam uma forte ancestralidade africana e ind\u00edgena na linhagem materna, resultado de uma din\u00e2mica de viol\u00eancia contra as mulheres, e uma quantidade inesperada de variantes gen\u00e9ticas desconhecidas, com potenciais consequ\u00eancias na sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito bonito enxergar no DNA o que j\u00e1 sab\u00edamos dos livros de hist\u00f3ria\u201d, diz a geneticista Lygia da Veiga Pereira, do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (IB-USP) e idealizadora do projeto DNA do Brasil, que visa tra\u00e7ar um retrato gen\u00f4mico da popula\u00e7\u00e3o por meio do sequenciamento completo de amostras colhidas no pa\u00eds inteiro. Segundo ela, at\u00e9 cerca de 10 anos atr\u00e1s, a diversidade gen\u00e9tica amostrada em popula\u00e7\u00f5es humanas era muito baixa, com uma propor\u00e7\u00e3o em torno de 80% de ascend\u00eancia europeia. Isso porque a maior parte dos estudos era feita no hemisf\u00e9rio Norte. No Brasil, o foco era nas regi\u00f5es Sul e Sudeste, onde at\u00e9 agora foi encontrada menor presen\u00e7a de ancestralidade africana e ind\u00edgena. O investimento na amplia\u00e7\u00e3o desse retrato foi o pontap\u00e9 inicial do Programa Genomas Brasil do Departamento de Ci\u00eancia e Tecnologia (Decit), do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, e se iniciou no final de 2019 \u2013 embora o in\u00edcio da pandemia de Covid-19, poucos meses depois, tenha adiado as atividades por quase dois anos.<\/p>\n<p>Pereira come\u00e7ou a se interessar pela diversidade gen\u00e9tica da popula\u00e7\u00e3o quando percebeu, aproximadamente 20 anos atr\u00e1s, que os embri\u00f5es descartados em cl\u00ednicas paulistanas de reprodu\u00e7\u00e3o assistida, dispon\u00edveis para sua pesquisa com c\u00e9lulas-tronco, tinham ancestralidade 90% europeia. N\u00e3o parecia correto em termos de pa\u00eds, mas refletia o p\u00fablico daquele atendimento. Enquanto isso, o geneticista S\u00e9rgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), espiava o DNA de brasileiros de v\u00e1rias regi\u00f5es com as ferramentas dispon\u00edveis na \u00e9poca, muito mais limitadas do que as atuais. Em 2000, ele publicou \u2013 primeiro na revista <em>Ci\u00eancia Hoje<\/em>, de divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia, e depois no peri\u00f3dico acad\u00eamico\u00a0<em>American Journal of Human Genetics<\/em>\u00a0\u2013 o resultado da an\u00e1lise de 200 amostras de pessoas brancas. Tr\u00eas em cada cinco tinham heran\u00e7a materna ind\u00edgena ou africana, o que era mais do que se esperava, de acordo com ele. O estudo foi noticiado no segundo ano de atividade de\u00a0<em>Pesquisa FAPESP<\/em>\u00a0(<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/marcas-geneticas-da-miscigenacao\/\" rel=\"noopener\"><em>ver n\u00ba 52<\/em><\/a>).<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/RPF-genetica-2025-06-info1-1140-1.png?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>Pena continuou a aprofundar os estudos e juntou for\u00e7as com outro grupo pioneiro no estudo do DNA brasileiro \u2013 o do geneticista Francisco Salzano (1928-2018), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em parceria com o grupo mineiro, os geneticistas ga\u00fachos perceberam, em trabalho liderado por Maria C\u00e1tira Bortolini que incluiu o mestrado de T\u00e1bita H\u00fcnemeier, que a contribui\u00e7\u00e3o africana era bem mais ampla do que apontavam os registros hist\u00f3ricos sobre a escraviza\u00e7\u00e3o, que seria muito concentrada em Angola, no centro-oeste do continente. A regi\u00e3o ocidental, onde ficam Senegal e Nig\u00e9ria, tamb\u00e9m revelou um aporte expressivo no material gen\u00e9tico \u2013 mais em S\u00e3o Paulo do que no Rio de Janeiro, apontando assimetrias no com\u00e9rcio de pessoas, de acordo com artigo publicado em 2007 na revista cient\u00edfica <em>American Journal of Biological Anthropology<\/em>\u00a0(<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/a-africa-nos-genes-do-povo-brasileiro\/\" rel=\"noopener\"><em>ver\u00a0<\/em>Pesquisa FAPESP\u00a0<em>n\u00ba 134<\/em><\/a>). \u201cN\u00e3o h\u00e1 outro pa\u00eds no mundo com tanta miscigena\u00e7\u00e3o quanto o Brasil\u201d, afirmou Pena em entrevista concedida em 2021 (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/sergio-pena-sob-a-pele\/\" rel=\"noopener\"><em>ver<\/em>\u00a0Pesquisa FAPESP\u00a0<em>n\u00ba 306<\/em><\/a>).<\/p>\n<p>&gt;Agora os meios s\u00e3o muito distintos daquela \u00e9poca, o que permitiu o estudo publicado na <em>Science<\/em>. Nele, a heran\u00e7a europeia caiu para cerca de 60%, enquanto a ancestralidade africana aparece com 27% da contribui\u00e7\u00e3o e a ind\u00edgena 13%, com a assimetria sexual apontada por Pena: a linhagem paterna, expressa no cromossomo Y, presente apenas nos homens, \u00e9 predominantemente (71%) europeia. Enquanto isso, o DNA das mitoc\u00f4ndrias \u2013 parte das c\u00e9lulas transmitida apenas da m\u00e3e para os filhos \u2013 carrega 42% de ancestralidade africana e 35% ind\u00edgena. \u201cA \u00fanica explica\u00e7\u00e3o s\u00e3o quatro s\u00e9culos de viol\u00eancia em diversos sentidos\u201d, resume H\u00fcnemeier, atualmente professora no IB-USP e uma das coordenadoras do trabalho. Ela ressalta que n\u00e3o \u00e9 incomum ouvir de pessoas mais velhas relatos do tipo \u201cminha av\u00f3 foi pega no la\u00e7o\u201d, sem aten\u00e7\u00e3o ao que isso significa. Em gera\u00e7\u00f5es mais recentes, o caracter\u00edstico passou a ser o casamento entre ancestralidades parecidas. Para a pesquisadora, os resultados ajudam a derrubar a farsa da democracia racial que comp\u00f5e a identidade nacional, j\u00e1 que a miscigena\u00e7\u00e3o, em grande medida, n\u00e3o foi consentida.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil precisa fazer uma exegese sobre sua hist\u00f3ria e parar de dizer que somos um pa\u00eds de mesti\u00e7agem volunt\u00e1ria\u201d, completa a historiadora Maria Helena Machado, da USP, que n\u00e3o participou do trabalho. \u201cNossa m\u00e3e \u00e9 africana, nossa av\u00f3 \u00e9 ind\u00edgena e nosso av\u00f4 \u00e9 um europeu que n\u00e3o se casou com ela e teve filhos ileg\u00edtimos.\u201d Ela \u00e9 especialista em g\u00eanero e maternidade na escravid\u00e3o, sistema que atravessou todo o per\u00edodo colonial e o Imp\u00e9rio. Entre outros trabalhos, em 2024 ela publicou, em parceria com o historiador Antonio Alexandre Cardoso, da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, o livro\u00a0<em>Geminiana e seus filhos: Escravid\u00e3o, maternidade e morte no Brasil do s\u00e9culo XIX\u00a0<\/em>(Bazar do Tempo). \u201cA mulher escravizada \u2013 ind\u00edgena ou africana \u2013 estava a servi\u00e7o do escravizador, tornando corriqueiros os ass\u00e9dios e estupros\u201d, afirma.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"responsive-img c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/rpf-capa-genetica-siteb-1140.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div>\n<p><em>Fotos: Luiz Braga<\/em><\/p>\n<p>As mulheres eram, assim, duplamente escravizadas: funcionavam como trabalhadoras e reprodutoras. \u201cNo corpo da mulher escravizada se deu a coloniza\u00e7\u00e3o.\u201d Machado explica que as pol\u00edticas coloniais portuguesas e do pa\u00eds independente, a partir de 1822, foram sempre de est\u00edmulo \u00e0 mesti\u00e7agem e ao branqueamento. Um exemplo: Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva (1763\u00ad\u20111838), como deputado da Assembleia Constituinte em 1823, apresentava propostas para contribuir com a forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro por meio de casamentos entre mulheres afrodescendentes e ind\u00edgenas com homens brancos. Era parte de um projeto \u201ccivilizat\u00f3rio\u201d em que a popula\u00e7\u00e3o negra seria integrada \u00e0 europeia. A continuidade da escravid\u00e3o at\u00e9 1888, por\u00e9m, manteve as mulheres escravizadas sujeitas aos que detinham o controle de seus corpos. \u201cTudo isso leva \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que os geneticistas agora descrevem\u201d, conclui Machado.<\/p>\n<p>Interessante tamb\u00e9m \u00e9 a ampla diversidade de etnias africanas, como H\u00fcnemeier j\u00e1 vinha percebendo desde o in\u00edcio da carreira cient\u00edfica. Gente que nunca se encontraria na \u00c1frica, por viver em pa\u00edses e comunidades distantes, foi posta \u00e0 for\u00e7a nos mesmos navios negreiros e agrupada nos contextos de trabalho escravizado. A ideia era reunir pessoas de culturas diferentes, que nem falavam a mesma l\u00edngua, para minimizar o risco de elas se organizarem para combater seus \u201csenhores\u201d. O resultado \u00e9 um am\u00e1lgama de todo um continente, que s\u00f3 se encontra em terras brasileiras. \u201c\u00c9 o pa\u00eds com mais ancestralidade africana fora da \u00c1frica\u201d, afirma a geneticista.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do afluxo inicial de portugueses a partir do s\u00e9culo XVI, a diversidade europeia tamb\u00e9m se revela alta, com o grande aporte de imigrantes da Alemanha e da It\u00e1lia nos s\u00e9culos XIX e XX, al\u00e9m de uma amostragem mais esparsa de outros pa\u00edses. Um dado curioso foram 10 descendentes de japoneses amostrados em S\u00e3o Paulo, que n\u00e3o apresentaram sinais de miscigena\u00e7\u00e3o \u2013 e assim revelaram uma contribui\u00e7\u00e3o muito restrita e recente para a composi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica da popula\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"responsive-img c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/rpf-capa-genetica-siteh-1140.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>O artigo define a coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica como o maior deslocamento populacional na hist\u00f3ria humana. No Brasil, foram por volta de 5 milh\u00f5es de europeus e 5 milh\u00f5es de africanos transplantados para a regi\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o povoada por cerca de 10 milh\u00f5es de ind\u00edgenas que falavam mais de mil idiomas. Esses povos foram dizimados, com um decl\u00ednio populacional de 83% no interior do pa\u00eds e 98% no litoral de 1500 at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>\u201cEsper\u00e1vamos encontrar variantes gen\u00e9ticas novas, mas os resultados foram muito al\u00e9m\u201d, afirma a geneticista Kelly Nunes, que se empenhou na an\u00e1lise dos dados durante o est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado no IB-USP no laborat\u00f3rio de H\u00fcnemeier, ao lado de tr\u00eas outros colegas com quem divide o posto de primeiros autores do artigo: Marcos Castro e Silva, Maira Ribeiro e Renan Lemes. As variantes s\u00e3o diferen\u00e7as na sequ\u00eancia de uma pessoa em rela\u00e7\u00e3o ao genoma de refer\u00eancia. \u201cDetectamos 78 milh\u00f5es de variantes, dos quais quase 9 milh\u00f5es n\u00e3o tinham registro em nenhum outro banco de dados.\u201d Ficou claro que o DNA que comp\u00f5e a popula\u00e7\u00e3o brasileira inclui uma amostragem de popula\u00e7\u00f5es negligenciadas do ponto de vista gen\u00f4mico, especialmente africanas e ind\u00edgenas da Am\u00e9rica do Sul. Nos pr\u00f3ximos tempos, com mais amostragem, ser\u00e1 poss\u00edvel refinar a dimens\u00e3o desse manancial de novidades gen\u00e9ticas. \u201cEstabelecemos parcerias com colaboradores para conseguir amostras das cinco regi\u00f5es brasileiras, o que permitiu maior acesso \u00e0 ancestralidade africana e ind\u00edgena\u201d, detalha a pesquisadora.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"responsive-img c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/rpf-capa-genetica-siteg-1140.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>Aproximadamente 36 mil entre os quase 9 milh\u00f5es de novas variantes descritas aparentam ter efeitos nocivos por gerarem anomalias nas respectivas prote\u00ednas \u2013 com perda de sua fun\u00e7\u00e3o, por exemplo \u2013 e podem estar associadas a doen\u00e7as como c\u00e2ncer, disfun\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas ou doen\u00e7as infecciosas. \u201cO que descobrirmos sobre essas variantes pode vir a ser extrapolado para povos que n\u00e3o foram amostrados, como no continente africano\u201d, prop\u00f5e Nunes. O conhecimento da ancestralidade, e de como as propens\u00f5es a doen\u00e7as est\u00e3o distribu\u00eddas no genoma e nas popula\u00e7\u00f5es do mundo, pode ajudar a democratizar o acesso \u00e0 sa\u00fade de precis\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao analisar genes com sinais de terem sido favorecidos pela sele\u00e7\u00e3o natural, geralmente um aumento de frequ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao que se esperaria aleatoriamente, destacaram-se aqueles ligados \u00e0 fertilidade, ou ao n\u00famero de filhos gerados, com origem na ancestralidade europeia. \u00c9 um tra\u00e7o que certamente trouxe benef\u00edcios durante o processo de coloniza\u00e7\u00e3o, em que os portugueses que aqui se instalaram rapidamente ampliaram sua presen\u00e7a. Al\u00e9m disso, genes de resposta imunol\u00f3gica de origem africana apresentam sinais de sele\u00e7\u00e3o, refletindo o hist\u00f3rico de um amplo card\u00e1pio de agentes patog\u00eanicos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/RPF-genetica-2025-06-info2-1140-1.png?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p><em><span class=\"embed media-credits-inline\">Alexandre Affonso \/ Revista Pesquisa FAPESP<\/span><\/em><\/p>\n<p>Os resultados levantam, ainda, pistas gen\u00e9ticas para doen\u00e7as metab\u00f3licas concentradas na ancestralidade ind\u00edgena, aparentemente ligadas ao contexto gradual de mudan\u00e7a nos h\u00e1bitos alimentares. \u201cPassamos a consumir alimentos industrializados, o que gera um ambiente de sele\u00e7\u00e3o natural para certos genes\u201d, explica Nunes.<\/p>\n<p>Um desafio do estudo foi a an\u00e1lise dos dados, que contou com infraestrutura de computa\u00e7\u00e3o em nuvem cedida pelo Google. \u201cNo Brasil n\u00e3o havia profissionais qualificados para lidar com esse volume de informa\u00e7\u00f5es\u201d, conta a geneticista, que afirma ter aprendido muito no projeto, que tamb\u00e9m qualificou muitas outras pessoas. Outros 7 mil genomas j\u00e1 est\u00e3o sequenciados, ampliando a busca por representatividade. As autoras prometem novos resultados em breve.<\/p>\n<p>Iniciativas semelhantes em outros pa\u00edses da regi\u00e3o tamb\u00e9m poder\u00e3o contribuir para o entendimento da hist\u00f3ria sul-americana. \u201cDetectamos um componente espec\u00edfico de ascend\u00eancia gen\u00e9tica pr\u00e9-colombiana, presente principalmente no centro-oeste da Argentina\u201d, contou a\u00a0<em>Pesquisa FAPESP<\/em>, por e-mail, o geneticista argentino Rolando Gonz\u00e1lez-Jos\u00e9, pesquisador do Centro Nacional Patag\u00f4nico (Cenpat) e coordenador do Programa de Refer\u00eancia e Biobanco Gen\u00f4mico da Popula\u00e7\u00e3o Argentina (PoblAr), que n\u00e3o participa do projeto da USP. \u201cAs suposi\u00e7\u00f5es de longa data sobre a din\u00e2mica da popula\u00e7\u00e3o no per\u00edodo p\u00f3s-contato com os colonizadores s\u00e3o insuficientes para explicar a hist\u00f3ria evolutiva subjacente \u00e0 diversidade gen\u00e9tica nas popula\u00e7\u00f5es argentinas modernas.\u201d As colabora\u00e7\u00f5es com pesquisadores brasileiros, a seu ver, podem render frutos.<\/p>\n<p class=\"bibliografia separador-bibliografia\">Um ensaio de retratos do fot\u00f3grafo paraense Luiz Braga ilustra esta reportagem, assim como a capa da edi\u00e7\u00e3o. Uma retrospectiva de seu trabalho ao longo de 50 anos registrando os rostos da regi\u00e3o amaz\u00f4nica est\u00e1 em cartaz at\u00e9 7\/9\/2025 no Instituto Moreira Salles de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YIzp7XXOFBo?si=9VKMRfrOFPIDg7IN\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"bibliografia\">A reportagem acima foi publicada com o t\u00edtulo \u201c<strong>Pai europeu, m\u00e3e africana ou ind\u00edgena<\/strong>\u201d na edi\u00e7\u00e3o impressa n\u00ba 352 de junho de 2025.<\/p>\n<p class=\"bibliografia\"><strong>Projeto<br \/>\n<\/strong>Rastreando mudan\u00e7as evolutivas na Am\u00e9rica pr\u00e9 e p\u00f3s-contato usando dados gen\u00f4micos de s\u00e9ries temporais (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/109326\/rastreando-mudancas-evolutivas-na-america-pre-e-pos-contato-usando-dados-genomicos-de-series-tempora\/?q=21\/06860-8\">n\u00ba 21\/06860-8<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade<\/strong>\u00a0Jovem Pesquisador \u2013 Fase 2;\u00a0<strong>Pesquisadora respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0T\u00e1bita H\u00fcnemeier (USP);\u00a0<strong>Investimento<\/strong>\u00a0R$ 1.358.298,83.<\/p>\n<p class=\"bibliografia\"><strong>Artigos cient\u00edficos<br \/>\n<\/strong>NUNES, K.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.adl3564\">Admixture\u2019s impact on Brazilian population evolution and health<\/a>.\u00a0<strong>Science<\/strong>. 15 maio 2025.<br \/>\nH\u00dcNEMEIER, T.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/6086e145cf02adfd\/%C3%81rea%20de%20Trabalho\/Revista\/352\/2%20Ci%C3%AAncia%20-%20MG\/Niger-Congo%20speaking%20populations%20and%20the%20formation%20of%20the%20Brazilian%20gene%20pool:%20mtDNA%20and%20Y-chromosome%20data\">Niger-Congo speaking populations and the formation of the Brazilian gene pool: mtDNA and Y-chromosome data<\/a>.\u00a0<strong>American Journal of Biological Anthropology<\/strong>. v. 133, n. 2, p. 854-67. jun. 2007.<br \/>\nALVES-SILVA, J.\u00a0<a href=\"https:\/\/linkinghub.elsevier.com\/retrieve\/pii\/S0002-9297(07)62654-8\">The ancestry of Brazilian mtDNA lineages<\/a>.\u00a0<strong>American Journal of Human Genetics<\/strong>. v. 67, n. 2, p. 444-61. ago. 2000.<\/p>\n<p class=\"bibliografia\"><strong>Livro<br \/>\n<\/strong>MACHADO, M. H. P. T. e CARDOSO, A. A. I.\u00a0<strong>Geminiana e seus filhos: Escravid\u00e3o, maternidade e morte no Brasil do s\u00e9culo XIX<\/strong>. Bazar do Tempo. 2024.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O brasileiro \u00e9 ainda mais miscigenado do que voc\u00ea pensa : Revista Pesquisa Fapesp &#8211; https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/o-brasileiro-e-ainda-mais-miscigenado-do-que-voce-pensa\/<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Guimar\u00e3es &#8211; Novos resultados de sequenciamento do material gen\u00e9tico de 2.723 pessoas revelam maior ancestralidade ind\u00edgena e africana e ressaltam as marcas de viol\u00eancia no processo que formou a popula\u00e7\u00e3o nacional. 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