{"id":24768,"date":"2025-07-14T23:52:25","date_gmt":"2025-07-15T02:52:25","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24768"},"modified":"2025-07-14T23:52:25","modified_gmt":"2025-07-15T02:52:25","slug":"dez-teses-sobre-os-limites-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/07\/14\/dez-teses-sobre-os-limites-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"Dez teses sobre os limites do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p>Val\u00e9rio Arcary &#8211; Em nossa \u00e9poca, os destinos pol\u00edticos e econ\u00f4micos da civiliza\u00e7\u00e3o se decidem na arena mundial, ainda que a luta pol\u00edtica se desenvolva em marcos nacionais<\/p>\n<p><b><i>\u201cA derrota s\u00f3 ser\u00e1 uma bebida amarga se concordarmos em trag\u00e1-la<\/i><\/b>.\u201d<br \/>\n<b><i>\u201cSem a oposi\u00e7\u00e3o do vento, a pipa n\u00e3o consegue subir.\u201d<br \/>\n<\/i><\/b>Prov\u00e9rbios populares chineses.<\/p>\n<p>A desacelera\u00e7\u00e3o da economia mundial na \u00faltima d\u00e9cada, com vi\u00e9s de estagna\u00e7\u00e3o e press\u00e3o inflacion\u00e1ria p\u00f3s-pand\u00eamica, apesar da excepcionalidade chinesa e, em menor medida da \u00cdndia, confirma que os limites hist\u00f3ricos do capitalismo est\u00e3o mais estreitos<i>.<\/i>\u00a0A divis\u00e3o da classe dominante, com o surgimento de uma extrema-direita com crescente peso de massas, que luta pelo poder para impor uma derrota hist\u00f3rica \u00e0 classe trabalhadora e povos oprimidos, sinaliza a gravidade m\u00e1xima da situa\u00e7\u00e3o. O neofascismo \u00e9 o sintoma do apodrecimento do sistema. Mas o capitalismo n\u00e3o tem \u201cprazo de validade\u201d. N\u00e3o tem crise sem sa\u00edda. N\u00e3o obstante, o sistema n\u00e3o \u00e9 nem eterno, nem invenc\u00edvel. Tudo se transforma. \u00c9 verdade que estes limites nunca foram fixos ou r\u00edgidos, mas o fato de serem m\u00f3veis n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o existam. Eles resultam de uma luta pol\u00edtica e social. Vivemos em uma \u00e9poca hist\u00f3rica em que os destinos pol\u00edticos e econ\u00f4micos da civiliza\u00e7\u00e3o se decidem na arena mundial, ainda que a luta pol\u00edtica se desenvolva em marcos nacionais. Do futuro da luta de classes internacional depender\u00e1 a longevidade do capitalismo. O que \u00e9 previs\u00edvel \u00e9 que a senilidade do sistema exigir\u00e1 mudan\u00e7as regressivas, historicamente reacion\u00e1rias e possivelmente, contrarrevolucion\u00e1rias. Mesmo em compara\u00e7\u00e3o ao passado do capitalismo. Regi\u00f5es inteiras do mundo est\u00e3o vendo as condi\u00e7\u00f5es de vida retrocederem, em alguns aspectos, ao s\u00e9culo XIX, com a destrui\u00e7\u00e3o de conquistas hist\u00f3ricas. O futuro deste passado ser\u00e1 cada vez mais pr\u00f3ximo ao progn\u00f3stico de barb\u00e1rie crescente.<\/p>\n<div id=\"attachment_220271\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"356\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-220271 size-jnews-1140x570 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/capitalismo-1024x570.webp?resize=640%2C356&#038;ssl=1\" alt=\"Manifesta\u00e7\u00e3o contra o G20 em Hamburgo, em 2017. (Foto: Montecruz Foto \/ Flickr)\" aria-describedby=\"caption-attachment-220271\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-220271\" class=\"wp-caption-text\"><em>Manifesta\u00e7\u00e3o contra o G20 em Hamburgo, em 2017. (Foto: Montecruz Foto \/ Flickr)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Em alguns per\u00edodos os horizontes hist\u00f3rico-sociais do capital se contra\u00edram. Depois da vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917; depois da crise de 1929; depois da revolu\u00e7\u00e3o chinesa de 1949; depois da revolu\u00e7\u00e3o cubana de 1959; depois do Maio 1968; depois da revolu\u00e7\u00e3o portuguesa de 1974. J\u00e1 em outros se expandiram. Depois do New Deal de Roosevelt em 1934; depois do acordo de Yalta\/Potsdam, ao final da II Guerra Mundial em 1945; depois de Reagan\/Thatcher em 1980. A pulsa\u00e7\u00e3o do capital n\u00e3o \u00e9 imune ao desenlace da luta de classes. No entanto, o capitalismo n\u00e3o ter\u00e1 \u201cmorte natural\u201d, o que n\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer que n\u00e3o se manifestou na hist\u00f3ria uma tend\u00eancia ao desmoronamento, isto \u00e9, uma tend\u00eancia a crises cada vez mais s\u00e9rias e destrutivas, que ficou conhecida na tradi\u00e7\u00e3o marxista como a teoria do colapso.[1] Mas os \u00faltimos cento e cinquenta anos j\u00e1 foram um intervalo hist\u00f3rico suficiente para se concluir que a hip\u00f3tese da crise final estava errada: as crises convulsivas, por mais terr\u00edveis, n\u00e3o resultam em processos revolucion\u00e1rios, a n\u00e3o ser quando surgem sujeitos sociais com disposi\u00e7\u00e3o de luta<i>.\u00a0<\/i>Os crit\u00e9rios \u201cobjetivistas\u201d que diminuem a centralidade do protagonismo do proletariado e das classes oprimidas foram refutados pela hist\u00f3ria. Os vatic\u00ednios pol\u00edticos catastrofistas neles inspirados se aproximaram, perigosamente, de uma vers\u00e3o marxista para um novo milenarismo.[2]<\/p>\n<div id=\"contr-1767782440\" class=\"contr-conteudo_2 custom_ads_opera post_ads\">\n<div id=\"banner-300x250-area-3\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Enquanto o capitalismo vivia sua \u00e9poca hist\u00f3rica de g\u00eanese e desenvolvimento, estas crises destrutivas eram, relativamente, mais r\u00e1pidas e suaves. O debate hist\u00f3rico mais grave da atualidade remete, portanto, a este desafio te\u00f3rico: a \u00e9poca em que o capitalismo ainda tinha um papel \u201cprogressivo\u201d ficou ou n\u00e3o para tr\u00e1s? O argumento deste texto \u00e9 que estamos diante de um per\u00edodo hist\u00f3rico de decad\u00eancia irrevers\u00edvel do sistema. Uma \u00e9poca em que reformas s\u00e3o muito mais dif\u00edceis, o perigo de derrotas hist\u00f3ricas \u00e9 iminente, mas, paradoxalmente, guerras e, portanto, tamb\u00e9m, revolu\u00e7\u00f5es, mais prov\u00e1veis, embora o desenlace da luta pelo socialismo permane\u00e7a muito incerta. Guerras e revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o desenlaces insepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>Todos os Estados, mesmo aqueles que t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o dominante no mercado mundial, est\u00e3o condicionados pela press\u00e3o do capital financeiro. Desde 2008, os m\u00e1gicos keynesianos substitu\u00edram os ilusionistas neoliberais \u00e0 frente de v\u00e1rios governos, mas enfrentaram dificuldades para \u201csalvar\u201d o capitalismo dos capitalistas. O QE (Quantitative Easing) ou relaxamento monet\u00e1rio projetou a financeiriza\u00e7\u00e3o a um novo patamar. A grande depress\u00e3o foi evitada \u00e0 custa de uma longa recess\u00e3o. O sistema ganhou tempo, mas n\u00e3o foi indolor. O \u201ccusto hist\u00f3rico\u201d foi o surgimento vertiginoso do neofascismo com um programa de choque contrarrevolucion\u00e1rio. Os impostos futuros, consumidos desde 2008 na forma de emiss\u00e3o de d\u00edvida tanto nos EUA, quanto na Europa e no Jap\u00e3o para a compra de participa\u00e7\u00e3o estatal em empresas e bancos privados amea\u00e7ados de fal\u00eancia, comprometer\u00e3o a possibilidade de emiss\u00e3o de novos t\u00edtulos amanh\u00e3, sob pena de uma desvaloriza\u00e7\u00e3o das moedas de entesouramento (d\u00f3lar norte-americano; libra inglesa, franco su\u00ed\u00e7o, euro; yen), ou seja, o perigo de infla\u00e7\u00e3o. A crise aberta em 2008 vem confirmando as an\u00e1lises que estimam que ela s\u00f3 pode ser comparada com a crise de 1929, e n\u00e3o deve ser considerada somente a forma da \u00faltima crise c\u00edclica, como em 2000\/2001, 1991\/92, 1987, ou 1981\/82.[3]<\/p>\n<p>A economia capitalista conheceu, ao longo dos \u00faltimos trinta anos, tr\u00eas ciclos de relativo crescimento econ\u00f4mico que dependeram muito da expans\u00e3o do consumo do mercado norte-americano, portanto, da financeiriza\u00e7\u00e3o. Investimento privado, ind\u00fastria armamentista e consumo das fam\u00edlias, explicaram o crescimento durante a etapa da guerra fria 1945\/89, mas desde os anos oitenta, a inova\u00e7\u00e3o foi a financeiriza\u00e7\u00e3o, ou o endividamento dos Estados. A alavancagem de capitais assumiu uma nova escala, totalmente diferente do passado<i>.<\/i>\u00a0Financeiriza\u00e7\u00e3o sempre existiu, porque o recurso ao cr\u00e9dito \u00e9 inerente \u00e0 opera\u00e7\u00e3o do capitalismo. O que mudou foi a\u00a0grandeza da fuga de capitais da produ\u00e7\u00e3o para o mercado financeiro, e a magnitude da explos\u00e3o de d\u00edvidas<i>.\u00a0<\/i>D\u00edvidas de consumo das fam\u00edlias nos pa\u00edses centrais, em especial, d\u00edvidas para aquisi\u00e7\u00e3o da casa pr\u00f3pria, d\u00edvidas empresariais, em especial para aquis\u00e7\u00f5es e fus\u00f5es e, sobretudo, d\u00edvidas p\u00fablicas, em propor\u00e7\u00f5es muito maiores que no passado. A financeiriza\u00e7\u00e3o permitiu ao capital ganhar tempo, na medida em que a dimens\u00e3o colossal do volume de capitais acumulados compensaram, transitoriamente, a lentid\u00e3o da valoriza\u00e7\u00e3o, ou seja, a queda da taxa m\u00e9dio de lucro. Assistimos agora \u00e0 crise gerada pela financeiriza\u00e7\u00e3o acelerada desde os anos oitenta com a cria\u00e7\u00e3o dos derivativos.[4]<\/p>\n<p>Foi a financeiriza\u00e7\u00e3o que facilitou a expans\u00e3o do cr\u00e9dito que impulsionou os mini-booms dos anos oitenta com Reagan, dos anos noventa com Clinton, e dos anos de 2001\/2008 com Bush. Operaram, com for\u00e7a de influ\u00eancia variada, os outros quatro fatores identificados por Marx como contra-tend\u00eancias de freio \u00e0 queda da taxa m\u00e9dia de lucro: o barateamento das mat\u00e9rias primas; a renova\u00e7\u00e3o de tecnologias; a internacionaliza\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 \u00faltima fronteira e, o mais importante, o aumento da explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Nos dois primeiros mini-booms verificaram-se quedas importantes nos pre\u00e7os do petr\u00f3leo e dos gr\u00e3os, embora n\u00e3o na \u00faltima, quando subiram, favorecendo as exporta\u00e7\u00f5es de comodities da Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica; o desenvolvimento da micro-eletr\u00f4nica e da telem\u00e1tica foram significativas para o impulso da restrutura\u00e7\u00e3o produtiva, sobretudo, nas duas \u00faltimas duas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX; o crescimento chin\u00eas e, em menor medida, da \u00cdndia, foi um fator de impulso nos \u00faltimos vinte e cinco anos; a estagna\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00e9dio nos EUA e a restaura\u00e7\u00e3o capitalista, incorporando centenas de milh\u00f5es \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de mais valia, e ao mercado mundial, pressionou para baixar o sal\u00e1rio m\u00e9dio nos EUA, Europa e Jap\u00e3o.[5]<\/p>\n<div id=\"contr-1538291675\" class=\"contr-conteudo_3 custom_ads_opera post_ads\">\n<div id=\"banner-300x250-area-4\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o da taxa m\u00e9dia de lucro com a economia de guerra depois da invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o e Iraque foi um dos fatores que voltou a favorecer o investimento, mas em uma escala inferior \u00e0 etapa pol\u00edtica do p\u00f3s-guerra (1945\/89). O barateamento do cr\u00e9dito foi, tamb\u00e9m, um fator das recupera\u00e7\u00e3o. A montanha de derivativos cresceu at\u00e9 atingir o pico de US$ 600 trilh\u00f5es em 2008, segundo o Banco de Compensa\u00e7\u00f5es Internacionais de Basil\u00e9ia, e transformou-se em um obst\u00e1culo, porque o movimento de rota\u00e7\u00e3o de capital n\u00e3o foi mais poss\u00edvel nesta escala. Deixou de ser pol\u00edtica e socialmente razo\u00e1vel a valoriza\u00e7\u00e3o de capital, mesmo que muito lenta, quando o volume de capitais fict\u00edcios atingiu esta dimens\u00e3o estratosf\u00e9rica.[6]\u00a0Uma parte importante desta massa de capitais fict\u00edcios foi destru\u00edda pela desvaloriza\u00e7\u00e3o desde 2008.<\/p>\n<p>O mesmo problema est\u00e1 na raiz da crise dos endividamentos p\u00fablicos acima dos 100% dos PIB\u2019s nos pa\u00edses centrais. O endividamento do Estado n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a antecipa\u00e7\u00e3o para o presente de receitas fiscais futuras, os impostos que ser\u00e3o pagos nos anos por vir e, em prazo mais longo, pelas futuras gera\u00e7\u00f5es. Ao contr\u00e1rio de empresas, Estados n\u00e3o podem falir, mas podem cair em situa\u00e7\u00e3o de inadimpl\u00eancia por incapacidade de rolagem dos juros, com morat\u00f3ria das d\u00edvidas. Foi o que aconteceu com o Brasil durante o governo Juscelino Kubitschek, nos anos cinquenta, e Jos\u00e9 Sarney, nos anos oitenta. Isso significa que Estados, mesmo os Estados centrais, n\u00e3o conseguem se endividar al\u00e9m de sua capacidade de pagamento, porque os investidores perder\u00e3o a confian\u00e7a nos t\u00edtulos, e exigir\u00e3o em contrapartida juros mais elevados para renova\u00e7\u00e3o dos empr\u00e9stimos. N\u00e3o h\u00e1 uma propor\u00e7\u00e3o fixa \u201cm\u00e1gica\u201d para a rela\u00e7\u00e3o entre PIB\/D\u00edvida p\u00fablica. Mas h\u00e1 um limite de capacidade de rolagem dos juros.<\/p>\n<p>Trump e seus aliados t\u00eam um projeto. Ambicionam preservar a qualquer pre\u00e7o a supremacia mundial dos EUA e seus aliados sobre a China. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem uma nova etapa de crescimento. O programa dos neofascistas \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o dos sistema p\u00fablicos de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e previd\u00eancia para garantir a rentabilidade do investimento e a blindagem do capital. Essa estrat\u00e9gia exige a imposi\u00e7\u00e3o de uma derrota hist\u00f3rica \u00e0 classe trabalhadora. Mas um maior endividamento se traduzir\u00e1 em um comprometimento de despesas que impedir\u00e1 investimentos futuros. O destino do capitalismo \u00e9 estagna\u00e7\u00e3o na longa dura\u00e7\u00e3o. Esta combina\u00e7\u00e3o de fatores provocar\u00e1 uma recess\u00e3o cr\u00f4nica, ou desestabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pelos cortes nas despesas dos servi\u00e7os p\u00fablicos com sequelas sociais imprevis\u00edveis.[7] A expectativa dos rentistas condicionou, historicamente, o volume de estoque das d\u00edvidas p\u00fablicas e o custo de rolagem dos empr\u00e9stimos.[8]A financeiriza\u00e7\u00e3o transformou os t\u00edtulos p\u00fablicos de qualquer Estado \u2013 inclusive, no limite, os dos EUA \u2013 em pap\u00e9is que podem, tamb\u00e9m, apodrecer, desde que os investidores percam a confian\u00e7a de que o Estado poder\u00e1 honrar seus compromissos. N\u00e3o h\u00e1 qualquer garantia, a priori, de que os t\u00edtulos p\u00fablicos n\u00e3o virem t\u00f3xicos, ou seja, inegoci\u00e1veis pelo valor de face.[9]<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 que os marxistas afirmam que o limite do capital \u00e9 o pr\u00f3prio capital. Quando a valoriza\u00e7\u00e3o encontra obst\u00e1culos intranspon\u00edveis come\u00e7a a destrui\u00e7\u00e3o de capital. Essa destrui\u00e7\u00e3o assumiu em outras crises, inicialmente, a forma de desvaloriza\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a forma leve, ainda que a escala da destrui\u00e7\u00e3o seja terr\u00edvel, superando as centenas de trilh\u00f5es de d\u00f3lares. Mas, quando o p\u00e2nico se precipitar \u2013 e o p\u00e2nico poder\u00e1 se instalar a qualquer momento, porque isso j\u00e1 aconteceu no passado-, quando os governantes perderem a credibilidade, a fuga dos ativos ser\u00e1 a antessala de uma ru\u00edna nunca vista. A longevidade do capitalismo s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com crescente barb\u00e1rie. Uma derrota da classe trabalhadora diante da ofensiva neofascista ter\u00e1 o custo de uma regress\u00e3o econ\u00f4mica social imensa \u2013 a latinoamericaniza\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de vida na Europa, a asiatiza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina \u2013 reatualizando o progn\u00f3stico marxista de socialismo ou barb\u00e1rie.[10]As lutas decisivas est\u00e3o \u00e0 nossa frente, n\u00e3o aquelas que ficaram para tr\u00e1s.<\/p>\n<div id=\"contr-1372544397\" class=\"contr-conteudo_4 custom_ads_opera post_ads\">\n<div id=\"banner-300x250-area-5\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-3a925c7 elementor-widget elementor-widget-jnews_archive_title_elementor\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<div class=\"jeg_archive_title_wrapper jnews_module_59219_0_655f9ca9a5034 normal \">\n<div class=\"autor-info-wrapper\">\n<div class=\"autor-info-wrapper__right\"><em><strong>(*) Val\u00e9rio Arcary<\/strong>\u00a0\u00e9 historiador e professor titular aposentado do Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Paulo.<\/em><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><b>Notas:<\/b><\/p>\n<p>[1]\u00a0\u00a0H\u00e1 um debate interessante sobre o tema\u00a0conhecido como a discuss\u00e3o sobre a<i>\u00a0Zusammenbruchstheorie,\u00a0<\/i>ou teoria do colapso ou desmoronamento. Uma refer\u00eancia \u00fatil pode ser encontrada no livro organizado por Lucio Colletti:\u00a0<b>El marxismo y el \u201cderrumbe\u201d del capitalismo<\/b>. 3\u00aa\u00a0ed. M\u00e9xico, Siglo Veintiuno Editores, 1985.<\/p>\n<p>[2]\u00a0 S\u00e3o caracterizados por uma parte da historiografia como milenaristas alguns movimentos populares europeus de inspira\u00e7\u00e3o m\u00edstica e, algumas vezes, messi\u00e2nicas, da Idade M\u00e9dia e Moderna que acreditavam no advento de um novo mundo com a inaugura\u00e7\u00e3o de um novo mil\u00eanio. O livro de Norman Cohn \u00e9 uma das refer\u00eancias para este tema.\u00a0<b>Na senda do Mil\u00eanio: milenaristas revolucion\u00e1rios e anarquistas m\u00edsticos da Idade M\u00e9dia<\/b>. Lisboa: Editorial Presen\u00e7a, 1970.<\/p>\n<p>[3]\u00a0 O livro de Robert Brenner\u00a0<b>O boom e a bolha<\/b>, publicado em portugu\u00eas pela Record em 2003 \u00e9 uma apresenta\u00e7\u00e3o do tema da crise que explodiu ao final dos anos noventa.<\/p>\n<p>[4]\u00a0 Derivativos s\u00e3o ativos financeiros que derivam do valor de outro ativo, que pode ser tamb\u00e9m, financeiro (moedas, t\u00edtulos de d\u00edvidas p\u00fablicas, a\u00e7\u00f5es) ou uma mercadoria (ouro, im\u00f3veis, commodities). Podem ser, tamb\u00e9m, opera\u00e7\u00f5es financeiras que tenham como base de negocia\u00e7\u00e3o o pre\u00e7o de um ativo negociado nos mercados futuros. De todos os derivativos, os mais perigosos parecem ser os swaps (em ingl\u00eas, credit default swaps, CDS). Os swaps s\u00e3o uma cobertura de risco, algo parecido a uma ap\u00f3lice de seguro para cobrir (em ingl\u00eas, fazer hedge) uma poss\u00edvel morat\u00f3ria de uma d\u00edvida. Mas h\u00e1 grandes diferen\u00e7as com os seguros. Por exemplo, estas opera\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o reguladas. As institui\u00e7\u00f5es que oferecem este tipo de contratos n\u00e3o est\u00e3o obrigadas a manter reservas relacionadas com as opera\u00e7\u00f5es que realizam. Os CDS foram inventados pelos bancos precisamente para evitar as exig\u00eancias de fiscaliza\u00e7\u00e3o sobre as suas reservas. Se outra institui\u00e7\u00e3o absorvia o risco (em troca de um pr\u00eamio), o banco podia liberar suas reservas. A alavancagem disparou para o espa\u00e7o, e o volume dos derivativos passou a ser incalcul\u00e1vel. Os CDS foram usados, tamb\u00e9m, para contornar as restri\u00e7\u00f5es que os fundos de pens\u00e3o tinham para emprestar recursos a empresas com uma qualifica\u00e7\u00e3o de risco insuficiente por parte das ag\u00eancias. A crise de 2008 se manifestou como crise financeira quando ocorreu a desvaloriza\u00e7\u00e3o destes pap\u00e9is, ou seja, quando come\u00e7aram a derreter estes capitais fict\u00edcios<\/p>\n<p>[5]\u00a0 O debate sobre a situa\u00e7\u00e3o internacional nos remete \u00e0 crise da lideran\u00e7a norte-americana, tanto na esfera do mercado mundial, quanto no plano pol\u00edtico, como pot\u00eancia dominante. A lideran\u00e7a norte-americana \u00e0 frente da defesa da ordem mundial foi uma das constantes mais est\u00e1veis desde o final da Segunda Guerra Mundial. A hip\u00f3tese da crise irrevers\u00edvel da supremacia norte-americana, apresentada de forma pioneira e apaixonada por Andr\u00e9 Gunder-Frank em seu livro\u00a0<i>Reorient<\/i>,\u00a0<i>Global Economy in the Asian Age,<\/i>\u00a0 S\u00e3o Francisco, UC Press, 1998. A hip\u00f3tese Gunder-Frank se apoia em premissas econ\u00f4micas e demogr\u00e1ficas que procuram sustentar a ideia de que existiriam ciclos realmente muito longos, na escala de dois s\u00e9culos e meio, para cada fase A, de crescimento, e uma fase B sim\u00e9trica de contra\u00e7\u00e3o. Defende que a lideran\u00e7a norte-americana ser\u00e1 substitu\u00edda, irremediavelmente, pela chinesa. O lugar de cada imperialismo no Sistema Internacional de Estados dependeu, historicamente, de um conjunto de vari\u00e1veis que poderiam ser resumidos na f\u00f3rmula riqueza e poder, ou em cinco grandes quest\u00f5es: (a) as dimens\u00f5es de suas economias, ou seja, os estoques de capital, os recursos naturais \u2013 como o territ\u00f3rio, as reservas de terras, os recursos minerais, a autossufici\u00eancia energ\u00e9tica etc. \u2013 e humanos \u2013 entre estes, o peso demogr\u00e1fico e o est\u00e1gio cultural da na\u00e7\u00e3o \u2013 assim como a din\u00e2mica, maior ou menor, de desenvolvimento da ind\u00fastria (b) a estabilidade pol\u00edtica e social, maior ou menor, dentro de cada pa\u00eds, ou seja, a capacidade de cada burguesia imperialista para defender o seu regime pol\u00edtico de domina\u00e7\u00e3o diante de seu proletariado, e das classes populares, ou seja, a coes\u00e3o social interna e o grau de identifica\u00e7\u00e3o nacionalista que ofere\u00e7a sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es imperialistas; (c) o n\u00edvel de sua superioridade econ\u00f4mica, influ\u00eancia cultural e ideol\u00f3gica, ou as dimens\u00f5es e capacidade de cada um destes imp\u00e9rios em manter o controle de suas col\u00f4nias ou semicol\u00f4nias, ou seja, \u00e1reas de influ\u00eancia; (d) a for\u00e7a militar de cada Estado, que dependia n\u00e3o s\u00f3 do dom\u00ednio da t\u00e9cnica militar ou da qualidade das For\u00e7as Armadas, mas do, maior ou menor, grau de coes\u00e3o social da sociedade, portanto, da capacidade do Estado de convencer a maioria do povo da necessidade da guerra; (e) as alian\u00e7as de longa dura\u00e7\u00e3o dos Estados imperialistas, uns com os outros, e o equil\u00edbrio de for\u00e7as que resultavam dos blocos formais e informais etc.<\/p>\n<p>[6]\u00a0 Desde 2010 o BIS de Basil\u00e9ia passou a fiscalizar um acordo que prev\u00ea a exig\u00eancia de aumento das reservas banc\u00e1rias de 4,5% para 6% do valor doa ativos banc\u00e1rios, o que n\u00e3o resolve o problema dos bancos\u00a0<i>too big to fail.<\/i>\u00a0A informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.swissinfo.ch\/por\/specials\/crise_financeira\/Novas_regras_para_reforcar_os_bancos.html?cid=28321876\">http:\/\/www.swissinfo.ch\/por\/specials\/crise_financeira\/Novas_regras_para_reforcar_os_bancos.html?cid=28321876<\/a>\u00a0Consulta em Julho 2014.<\/p>\n<p>[7]\u00a0 Uma refer\u00eancia indispens\u00e1vel para contextualizar este tema tem sido o trabalho de Cla\u00fadio Katz que pode ser consultado no site:\u00a0<a href=\"http:\/\/lahaine.org\/katz\/\">http:\/\/lahaine.org\/katz\/<\/a><\/p>\n<p>[8]\u00a0 A parasitagem das d\u00edvidas p\u00fablicas foi um dos neg\u00f3cios mais rent\u00e1veis da expans\u00e3o mundial da liquidez das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. Os credores dos t\u00edtulos p\u00fablicos se entesouram nestes pap\u00e9is, buscando a m\u00e1xima rentabilidade e a m\u00e1xima seguran\u00e7a. O aumento da d\u00edvida do Estado em rela\u00e7\u00e3o ao PIB eleva, contudo, o custo da rolagem da d\u00edvida. O que se revelou, no passado, incompat\u00edvel com a preserva\u00e7\u00e3o dos gastos p\u00fablicos, e traz como amea\u00e7a um agravamento da recess\u00e3o. Desde que Washington renunciou \u00e0 convertibilidade fixa do d\u00f3lar, em 1971, e preferiu que ela flutuasse livremente, em fun\u00e7\u00e3o da oferta e procura, o Estado aumentou as possibilidades de endividamento. Foi uma resposta fiscal de tipo keynesiano \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento do p\u00f3s-guerra nos anos setenta, permitindo a redu\u00e7\u00e3o dos custos produtivos dentro dos EUA, comparativamente \u00e0 Alemanha e ao Jap\u00e3o, com a redu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00e9dio. A moeda norte-americana desvalorizou-se, por\u00e9m, preservou o seu papel de moeda de reserva mundial. A pol\u00edtica de Obama para evitar a depress\u00e3o ap\u00f3s 2008 foi, portanto, uma reedi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de Nixon no in\u00edcio dos anos setenta, mas diante de uma amea\u00e7a imensamente mais grave: os custos da \u201cfuga em frente\u201d s\u00e3o imprevis\u00edveis. Seus limites ficam claros com a crise da d\u00edvida da Argentina.<\/p>\n<p>[9]\u00a0 Uma boa refer\u00eancia sobre o tema \u00e9 o economista marxista Anwar Shaik, estudioso da tend\u00eancia hist\u00f3rica \u00e0 queda da taxa m\u00e9dia de lucro. Uma confer\u00eancia est\u00e1 dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/radicalnotes.com\/journal\/2009\/06\/13\/anwar-shaikh-on-marx-and-the-global-economic-crisis\/\">http:\/\/radicalnotes.com\/journal\/2009\/06\/13\/anwar-shaikh-on-marx-and-the-global-economic-crisis\/<\/a><\/p>\n<p>[10]\u00a0 Mudan\u00e7as desta magnitude s\u00f3 foram poss\u00edveis depois de bruscos deslocamentos da rela\u00e7\u00e3o social de for\u00e7as entre as classes em cada pa\u00eds, e uma altera\u00e7\u00e3o do posicionamento dos Estados no sistema mundial. Essas gigantescas transfer\u00eancias de riqueza e poder entre classes, entre monop\u00f3lios, e entre Estados nunca puderam ser feitas sem enfrentar resist\u00eancias. Quando a rea\u00e7\u00e3o fracassa, e a possibilidade de concess\u00f5es parciais, por variados fatores, fica diminu\u00edda ou \u00e9 mais restrita, a probabilidade de situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias aumenta. O que est\u00e1 em disputa \u00e9 uma reconfigura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica do mundo tal como o conhecemos. Um novo New Deal, como nos anos trinta, \u00e9 impens\u00e1vel. Um novo Bretton Woods, como em 1944, \u00e9 implaus\u00edvel. Um novo big boom, como no p\u00f3s-guerra, \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Dez teses sobre os limites do capitalismo &#8211; Opera Mundi &#8211; Opera Mundi &#8211; https:\/\/operamundi.uol.com.br\/opiniao\/dez-teses-sobre-os-limites-do-capitalismo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Val\u00e9rio Arcary &#8211; Em nossa \u00e9poca, os destinos pol\u00edticos e econ\u00f4micos da civiliza\u00e7\u00e3o se decidem na arena mundial, ainda que a luta pol\u00edtica se desenvolva em marcos nacionais \u201cA derrota s\u00f3 ser\u00e1 uma bebida amarga se concordarmos em trag\u00e1-la.\u201d \u201cSem a oposi\u00e7\u00e3o do vento, a pipa n\u00e3o consegue subir.\u201d Prov\u00e9rbios populares chineses. 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