{"id":24759,"date":"2025-07-10T12:45:08","date_gmt":"2025-07-10T15:45:08","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24759"},"modified":"2025-06-30T20:48:50","modified_gmt":"2025-06-30T23:48:50","slug":"adoecimento-mental-no-trabalho-e-capitalismo-de-vigilancia-sofrimento-invisivel-e-solitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/07\/10\/adoecimento-mental-no-trabalho-e-capitalismo-de-vigilancia-sofrimento-invisivel-e-solitario\/","title":{"rendered":"Adoecimento mental no trabalho e capitalismo de vigil\u00e2ncia: sofrimento invis\u00edvel e solit\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><strong>Rog\u00e9rio Bezerra<\/strong> &#8211; O Brasil e, em especial, o estado de S\u00e3o Paulo vivem uma profunda, por\u00e9m silenciosa, crise de sa\u00fade p\u00fablica:\u00a0o crescente adoecimento mental relacionado ao trabalho. Com altos \u00edndices de afastamentos por transtornos como ansiedade, depress\u00e3o, burnout e estresse ocupacional, o problema afeta trabalhadores dos setores p\u00fablico e privado, e coloca em d\u00favida as atuais condi\u00e7\u00f5es laborais.<\/p>\n<p>Na busca por produtividade e efici\u00eancia, emergem sintomas de esgotamento emocional, sofrimento ps\u00edquico e desamparo institucional.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3352 c008 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/radardemocratico.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ChatGPT-Image-27-de-jun.-de-2025-22_28_18.jpg?resize=350%2C525&amp;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/radardemocratico.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ChatGPT-Image-27-de-jun.-de-2025-22_28_18.jpg?resize=200%2C300&amp;ssl=1 200w, https:\/\/i0.wp.com\/radardemocratico.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ChatGPT-Image-27-de-jun.-de-2025-22_28_18.jpg?resize=683%2C1024&amp;ssl=1 683w, https:\/\/i0.wp.com\/radardemocratico.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ChatGPT-Image-27-de-jun.-de-2025-22_28_18.jpg?resize=768%2C1152&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/radardemocratico.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ChatGPT-Image-27-de-jun.-de-2025-22_28_18.jpg?resize=150%2C225&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/radardemocratico.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ChatGPT-Image-27-de-jun.-de-2025-22_28_18.jpg?resize=300%2C450&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/radardemocratico.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ChatGPT-Image-27-de-jun.-de-2025-22_28_18.jpg?resize=696%2C1044&amp;ssl=1 696w, https:\/\/i0.wp.com\/radardemocratico.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ChatGPT-Image-27-de-jun.-de-2025-22_28_18.jpg?w=800&amp;ssl=1 800w, \" alt=\"\" width=\"573\" height=\"860\" \/><\/p>\n<p><strong>Adoecimento silencioso e solit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Dados do\u00a0Observat\u00f3rio de Seguran\u00e7a e Sa\u00fade no Trabalho, coordenado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) e pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, mostram que os afastamentos por\u00a0transtornos mentais relacionados ao trabalho saltaram de 201 mil para 472 mil casos, entre 2022 e 2024, um aumento de 134%.<\/p>\n<p>O\u00a0estado de S\u00e3o Paulo\u00a0registrou mais de 133 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2024,\u00a0um aumento de 67%\u00a0em rela\u00e7\u00e3o aos quase 80 mil casos de 2023.<\/p>\n<p>O tempo m\u00e9dio de afastamento por transtornos mentais supera 100 dias, impactando, de forma sem precedentes, a vida dos trabalhadores.<\/p>\n<p>O adoecimento mental relacionado ao trabalho \u00e9, frequentemente, um processo silencioso e solit\u00e1rio. De acordo com o professor\u00a0Christophe Dejours, do Conservatoire National des Arts et M\u00e9tiers (CNAM), em Paris,\u00a0o sofrimento ps\u00edquico tende a ser normalizado nas organiza\u00e7\u00f5es. Os trabalhadores, muitas vezes, internalizam a ideia de que o sofrimento \u00e9 parte \u201cnatural\u201d da produtividade e da vida laboral, o que contribui para o silenciamento dos sintomas iniciais de esgotamento, ansiedade ou depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Estudos como\u00a0\u201cAdoecimento mental e as rela\u00e7\u00f5es com o trabalho: estudo com trabalhadores portadores de transtorno mental\u201d,\u00a0de M\u00e1rcia Fernandes, Dinara Silva, Aline Ibiapina e Joyce Silva, mostram que o estigma social associado \u00e0s doen\u00e7as mentais desestimula o pedido de ajuda. O medo da desvaloriza\u00e7\u00e3o profissional, da perda do emprego ou de ser visto como fraco contribui para o isolamento do trabalhador que adoece psicologicamente.<\/p>\n<p>Sob a l\u00f3gica neoliberal que domina o mundo do trabalho, como apontado pelo professor\u00a0Ricardo Antunes, da Unicamp,\u00a0h\u00e1 uma tend\u00eancia \u00e0 individualiza\u00e7\u00e3o do fracasso e do sofrimento. As press\u00f5es por metas, produtividade e desempenho s\u00e3o internalizadas, e as consequ\u00eancias emocionais s\u00e3o vivenciadas de forma privada e isolada, como se fossem falhas individuais. N\u00e3o s\u00e3o percebidas, pelo trabalhador, como imposi\u00e7\u00f5es intencionais na organiza\u00e7\u00e3o do processo de trabalho.<\/p>\n<p>No sistema banc\u00e1rio, por exemplo, a pesquisadora e m\u00e9dica do trabalho\u00a0Maria Maeno\u00a0aponta que a forma como o trabalho \u00e9 organizado est\u00e1 no centro da crise de sa\u00fade mental enfrentada pelos trabalhadores.<\/p>\n<p>Com base na l\u00f3gica da m\u00e1xima produtividade e do lucro, os bancos imp\u00f5em metas abusivas, eliminam postos de trabalho, terceirizam fun\u00e7\u00f5es e adotam modelos de gest\u00e3o que naturalizam o controle e a humilha\u00e7\u00e3o. Nesse contexto,\u00a0a tecnologia n\u00e3o surge como aliada, mas como ferramenta de vigil\u00e2ncia e intensifica\u00e7\u00e3o da cobran\u00e7a.\u00a0Sistemas digitais que monitoram o desempenho em tempo real, mecanismos de avalia\u00e7\u00e3o por parte dos clientes e metas automatizadas acabam por subjetivar a culpa \u2014 o trabalhador internaliza o fracasso, ainda que este decorra de um modelo organizacional adoecedor.<\/p>\n<p>Esse adoecimento, com origem em estrat\u00e9gias empresariais, tem sido tratado como uma responsabilidade individual.\u00a0O custo humano \u00e9 alt\u00edssimo:\u00a0transtornos como ansiedade, depress\u00e3o e burnout se tornam cada vez mais comuns, ao passo que o custo social \u00e9 deslocado para o sistema p\u00fablico de sa\u00fade e previd\u00eancia, isentando as empresas de qualquer responsabiliza\u00e7\u00e3o concreta.<\/p>\n<p><strong>Servidores p\u00fablicos tamb\u00e9m adoecem mentalmente<\/strong><\/p>\n<p>Em\u00a0\u201cAbalos na sa\u00fade mental do servidor p\u00fablico: algumas evid\u00eancias encontradas nas tr\u00eas esferas federativas brasileiras\u201d, Ana Warpechowski analisou 24 pesquisas realizadas entre 2009 e 2019 em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas das tr\u00eas esferas federativas \u2014 federal, estadual e municipal \u2014 e revelou dados contundentes sobre o impacto dos transtornos mentais e comportamentais (TMC) na vida funcional dos servidores brasileiros.<\/p>\n<p>A pesquisa apontou que os TMC est\u00e3o entre as principais causas de afastamentos tempor\u00e1rios e aposentadorias por invalidez entre servidores estatut\u00e1rios. Transtornos de humor, como depress\u00e3o e bipolaridade, al\u00e9m de ansiedade, estresse e uso abusivo de subst\u00e2ncias psicoativas, figuram entre os diagn\u00f3sticos mais frequentes.\u00a0Em alguns \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, esses transtornos representaram at\u00e9 50% dos motivos de licen\u00e7as m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m destaca que os ambientes de trabalho p\u00fablicos frequentemente operam sob condi\u00e7\u00f5es estressoras: excesso de demanda, precariedade estrutural, mudan\u00e7as administrativas constantes, press\u00e3o por metas, rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas r\u00edgidas e baixa valoriza\u00e7\u00e3o profissional. Esses fatores, somados \u00e0 invisibilidade hist\u00f3rica do sofrimento ps\u00edquico no setor p\u00fablico, contribuem para o agravamento do quadro.<\/p>\n<p>Dados do\u00a0Sistema Integrado de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Sa\u00fade do Servidor (SIASS),\u00a0refor\u00e7am esse estudo, ao mostrarem que, entre 2013 e 2023, uma m\u00e9dia de 215 servidores p\u00fablicos federais foram afastados do trabalho por ano para cuidar da sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Nas universidades p\u00fablicas brasileiras, o estudo\u00a0\u201cTrabalho docente em universidades p\u00fablicas brasileiras e adoecimento mental\u201d,\u00a0de Ta\u00eds Campos, Renata V\u00e9ras e T\u00e2nia Ara\u00fajo, evidencia que a intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho, a precariza\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos empregat\u00edcios e a press\u00e3o por desempenho t\u00eam configurado um cen\u00e1rio alarmante de desgaste ps\u00edquico dos docentes. Al\u00e9m disso, o modelo de gest\u00e3o baseado em avalia\u00e7\u00f5es constantes, metas de produtividade e exig\u00eancia por publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas em peri\u00f3dicos de alto impacto tem contribu\u00eddo para um processo de controle institucional intensificado.<\/p>\n<p>O livro\u00a0\u201cTrabalho e sa\u00fade dos professores: precariza\u00e7\u00e3o, adoecimento e caminhos para a mudan\u00e7a\u201d, organizado por Cleiton Lima, Cristiane Reimberg, Jefferson Silva e Ricardo Lorenzi, publicado em 2023, mostra que, em 2015, houve um total de 136 mil afastamentos m\u00e9dicos de professores na rede estadual de S\u00e3o Paulo. Desse total,\u00a028% estavam relacionados a transtornos mentais e comportamentais.<\/p>\n<p>Nos primeiros seis meses de 2023, a rede estadual de ensino de S\u00e3o Paulo registrou mais de 20 mil afastamentos de professores por motivos de sa\u00fade mental,\u00a0o equivalente a cerca de 110 casos por dia, representando um aumento de 15% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2022. Os afastamentos se devem a transtornos como depress\u00e3o, ansiedade e crises de p\u00e2nico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos docentes, os diretores escolares tamb\u00e9m v\u00eam sendo afetados, com um\u00a0aumento de 35% nos afastamentos por sa\u00fade mental\u00a0no mesmo per\u00edodo. Os dados foram obtidos pela TV Globo por meio da Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Capitalismo de vigil\u00e2ncia no ambiente de trabalho<\/strong><\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o das tecnologias digitais,\u00a0o monitoramento no ambiente laboral tornou-se mais sofisticado, intrusivo e invis\u00edvel. Sistemas informatizados, prolifera\u00e7\u00e3o de portarias e normas de controle institucional, softwares de produtividade, rastreadores de tempo, controle de cliques, reconhecimento facial, sensores e webcams tornaram-se ferramentas de gest\u00e3o baseadas em dados. Mas seu uso vai al\u00e9m da simples busca por efici\u00eancia. Trata-se de um componente central do que a pesquisadora norte-americana\u00a0Shoshana Zuboff\u00a0denominou capitalismo de vigil\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Zuboff, autora de \u201cThe Age of Surveillance Capitalism\u201d, define esse fen\u00f4meno como uma\u00a0nova l\u00f3gica econ\u00f4mica que transforma a experi\u00eancia humana em mat\u00e9ria-prima gratuita para pr\u00e1ticas comerciais ocultas de extra\u00e7\u00e3o, previs\u00e3o e venda. No ambiente de trabalho, isso se traduz na coleta massiva de dados sobre desempenho, comportamento, emo\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es dos empregados, muitas vezes sem transpar\u00eancia, consentimento informado ou controle por parte dos trabalhadores. Como alerta a autora:\u00a0o poder do capitalismo de vigil\u00e2ncia \u00e9 alicer\u00e7ado em assimetrias radicais de conhecimento.\u00a0Os empregadores sabem tudo sobre os trabalhadores, enquanto o saber dos trabalhadores sobre o que fazem os gestores \u00e9 limitado.<\/p>\n<p>Em\u00a0\u201cAlgorithmic versus human surveillance leads to lower perceptions of autonomy and increased resistance\u201d, as pesquisadoras Rachel Schlund e Emily Zitek indicaram que a supervis\u00e3o algor\u00edtmica \u00e9 percebida como mais intrusiva, reduz a percep\u00e7\u00e3o de autonomia e aumenta a resist\u00eancia dos trabalhadores \u2014 manifestada por comportamentos de resist\u00eancia, cr\u00edticas ao sistema e menor produtividade.<\/p>\n<p>Outro estudo importante,\u00a0\u201cAI in Contact Centers\u201d, de Virg\u00ednia Doellgast, Sean O\u2019Brady e Jeonghun Kim, revelou que a intensifica\u00e7\u00e3o da vigil\u00e2ncia digital ap\u00f3s 2020, com ferramentas capazes de analisar em tempo real chamadas, comportamento, pausas e at\u00e9 entona\u00e7\u00e3o vocal, gerou sensa\u00e7\u00e3o constante de press\u00e3o e inseguran\u00e7a. Muitos trabalhadores relataram preocupa\u00e7\u00e3o com a falta de transpar\u00eancia sobre os crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o dos sistemas, o que contribui para o desgaste emocional.<\/p>\n<p>Em\u00a0S\u00e3o Paulo, sindicatos de categorias como banc\u00e1rios, operadores de telemarketing e professores\u00a0t\u00eam registrado den\u00fancias frequentes de monitoramento excessivo, que incluem vigil\u00e2ncia por webcam, pausas cronometradas e avalia\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica de produtividade.<\/p>\n<p>O\u00a0Sindicato dos Banc\u00e1rios de S\u00e3o Paulo\u00a0relatou que o Ita\u00fa Unibanco implementou uma ferramenta de intelig\u00eancia artificial conhecida internamente como \u201cRob\u00f4 do PIC\u201d, usada para monitorar liga\u00e7\u00f5es de banc\u00e1rios, especialmente em atendimentos sobre t\u00edtulos de capitaliza\u00e7\u00e3o, na regi\u00e3o de Campinas. O sistema detecta palavras-chave como \u201cresgate\u201d, \u201cinvestimento\u201d ou \u201cpoupan\u00e7a\u201d e sinaliza supostas irregularidades em vendas \u2014 sem fornecer explica\u00e7\u00f5es claras sobre o que motivou a advert\u00eancia.<\/p>\n<p>Baseado em uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica de 15 artigos cient\u00edficos publicados a partir de 2010, o estudo\u00a0\u201cCondi\u00e7\u00f5es de trabalho em Call Centers e seus impactos na sa\u00fade mental do trabalhador\u201d,\u00a0de Rodrigo Teixeira e Suelen Moreira, mostra que o setor \u00e9 marcado por intensa utiliza\u00e7\u00e3o de sistemas tecnol\u00f3gicos de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, os quais s\u00e3o empregados n\u00e3o apenas como suporte \u00e0s atividades operacionais, mas tamb\u00e9m como instrumentos de vigil\u00e2ncia e controle r\u00edgido sobre os operadores.<\/p>\n<p>A\u00a0APEOESP (Sindicato dos Professores Estaduais de S\u00e3o Paulo)\u00a0vem alertando para o aumento significativo de den\u00fancias de ass\u00e9dio moral, coa\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as e abuso de poder nas escolas p\u00fablicas estaduais desde a ado\u00e7\u00e3o de plataformas digitais que monitoram a produtividade de docentes e alunos. A ferramenta de Business Intelligence imp\u00f5e metas autom\u00e1ticas \u2014 tanto em tarefas dos alunos quanto em uso obrigat\u00f3rio pelos professores \u2014 gerando clima de press\u00e3o, medo de demiss\u00e3o ou transfer\u00eancia, adoecimento da categoria e restri\u00e7\u00e3o da liberdade did\u00e1tica e criatividade no ambiente escolar.<\/p>\n<p>Estudo recente de Shreya\u202fChowdhary, Anna\u202fKawakami, Mary Gray, Jina\u202fSuh, Alexandra\u202fOlteanu e Koustuv\u202fSaha,\u00a0\u201cCan Workers Meaningfully Consent to Workplace Wellbeing Technologies?\u201d, argumenta que o consentimento ao monitoramento em contextos laborais \u00e9 frequentemente viciado ou coercitivo, pois o trabalhador se v\u00ea obrigado a aceitar tais condi\u00e7\u00f5es sob pena de retalia\u00e7\u00e3o ou desemprego.<\/p>\n<p>Zuboff adverte que essa l\u00f3gica n\u00e3o apenas altera o funcionamento das organiza\u00e7\u00f5es, mas\u00a0reconfigura as rela\u00e7\u00f5es sociais e os limites \u00e9ticos da atua\u00e7\u00e3o empresarial, criando uma nova arquitetura de poder\u00a0baseada na predi\u00e7\u00e3o e modula\u00e7\u00e3o do comportamento humano.<\/p>\n<p><strong>Consequ\u00eancias psicossociais<\/strong><\/p>\n<p>A presen\u00e7a constante de dispositivos de controle digital no cotidiano de trabalho tem sido associada a quadros de ansiedade cr\u00f4nica, dist\u00farbios do sono, perda de autoestima e epis\u00f3dios depressivos. A press\u00e3o por metas, somada \u00e0 falta de espa\u00e7o para expressar ang\u00fastias e ao medo de puni\u00e7\u00f5es, contribui para o silenciamento do sofrimento.<\/p>\n<p>Estudos como\u00a0\u201cIntensifica\u00e7\u00e3o do trabalho e sa\u00fade do trabalhador: uma abordagem te\u00f3rica\u201d, de Jos\u00e9 Pina e Eduardo Stotz, publicado na Revista Brasileira de Sa\u00fade Ocupacional, e \u201cTrabalhando o tempo todo em qualquer lugar \u2013 como lidar com os desafios para a sa\u00fade dos trabalhadores na sociedade contempor\u00e2nea\u201d, de L\u00facia Rotenberg, publicado na Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, sustentam que h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o direta entre organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, intensifica\u00e7\u00e3o do controle e adoecimento mental.<\/p>\n<p>A dissolu\u00e7\u00e3o das fronteiras entre tempo de trabalho e tempo livre agrava quadros de exaust\u00e3o mental, ansiedade e dist\u00farbios do sono, sobretudo quando o trabalhador permanece continuamente dispon\u00edvel para responder a demandas, mensagens e reuni\u00f5es, sem pausas claras para descanso ou desligamento.<\/p>\n<p>A hiperconectividade, longe de ser apenas uma caracter\u00edstica t\u00e9cnica do trabalho digitalizado, assume um papel central no controle subjetivo do tempo e do comportamento, gerando uma autovigil\u00e2ncia constante.<\/p>\n<p>O adoecimento mental dos trabalhadores n\u00e3o pode ser entendido como um fen\u00f4meno isolado ou meramente individual, mas como express\u00e3o direta das formas de organiza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o do trabalho que se tornaram hegem\u00f4nicas nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><strong>Caminhos para a preven\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O enfrentamento do adoecimento mental no trabalho exige muito mais do que iniciativas pontuais ou solu\u00e7\u00f5es individuais: trata-se de um desafio estrutural, que demanda a\u00e7\u00e3o coletiva e transforma\u00e7\u00e3o institucional.<\/p>\n<p>A crise atual est\u00e1 diretamente relacionada ao modelo produtivo hegem\u00f4nico, centrado na competitividade extrema, na precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es laborais e na vigil\u00e2ncia digital. Nesse contexto, entidades sindicais, movimentos sociais, organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e representantes dos trabalhadores t\u00eam um papel decisivo na constru\u00e7\u00e3o de uma agenda pol\u00edtica e institucional de enfrentamento.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental que essas entidades exijam de empresas e governos:<\/p>\n<p>\u2022 Regula\u00e7\u00e3o clara, transparente e democr\u00e1tica sobre o uso de tecnologias de monitoramento no trabalho, com limites \u00e9ticos e legais que impe\u00e7am abusos e garantam o consentimento livre e informado dos trabalhadores;<\/p>\n<p>\u2022 Elabora\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade mental no trabalho, constru\u00eddas com participa\u00e7\u00e3o efetiva dos trabalhadores e fundamentadas em abordagens preventivas, coletivas e intersetoriais;<\/p>\n<p>\u2022 Mudan\u00e7as nos modelos de gest\u00e3o e nas formas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, priorizando rela\u00e7\u00f5es laborais mais humanizadas, cooperativas e inclusivas, que valorizem o bem-estar, a escuta e o reconhecimento profissional.<\/p>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o do controle digital sobre corpos e mentes \u2014 caracter\u00edstica central do capitalismo de vigil\u00e2ncia \u2014 n\u00e3o pode ser naturalizada. Ao contr\u00e1rio, exige novas formas de resist\u00eancia e regula\u00e7\u00e3o. Invisibilizar o sofrimento ps\u00edquico \u00e9 refor\u00e7ar um sistema que adoece e descarta. Visibilizar essa crise \u00e9 o primeiro passo para transform\u00e1-la.<\/p>\n<p>Restituir a dignidade no trabalho, criar espa\u00e7os de cuidado e reconstruir v\u00ednculos de solidariedade entre os trabalhadores s\u00e3o atos pol\u00edticos fundamentais para enfrentar um sistema que, em nome da efici\u00eancia, compromete vidas. Em tempos de metas, m\u00e9tricas e algoritmos, resistir tamb\u00e9m \u00e9 cuidar.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Adoecimento mental no trabalho e capitalismo de vigil\u00e2ncia: sofrimento invis\u00edvel e solit\u00e1rio | Radar Democr\u00e1tico &#8211; https:\/\/radardemocratico.com.br\/2025\/06\/adoecimento-mental-no-trabalho-e-capitalismo-de-vigilancia-sofrimento-invisivel-e-solitario\/?utm_source=whatsapp&amp;utm_medium=newsletter&amp;utm_campaign=sa7idoe-mental-no&amp;utm_content=card_noticia7o7ooi<\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\"><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rog\u00e9rio Bezerra &#8211; O Brasil e, em especial, o estado de S\u00e3o Paulo vivem uma profunda, por\u00e9m silenciosa, crise de sa\u00fade p\u00fablica:\u00a0o crescente adoecimento mental relacionado ao trabalho. 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