{"id":24677,"date":"2025-05-29T12:21:03","date_gmt":"2025-05-29T15:21:03","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24677"},"modified":"2025-05-19T20:24:03","modified_gmt":"2025-05-19T23:24:03","slug":"sem-anistia-o-corpo-do-pai-o-corpo-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/05\/29\/sem-anistia-o-corpo-do-pai-o-corpo-do-pais\/","title":{"rendered":"Sem anistia: o corpo do pai, o corpo do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\" class=\"header_container\">\n<div id=\"header_content_id\" class=\"header_content\">\n<p id=\"mainContentTitle\" class=\"__reading__mode__extracted__title c0011\"><span style=\"font-size: 16px;\"><strong>Eliane Brum<\/strong> &#8211; Depois de mais de meio s\u00e9culo, duas fam\u00edlias t\u00eam identificadas suas pessoas queridas desaparecidas pela ditadura. Grenaldo de Jesus Silva foi reconhecido gra\u00e7as \u00e0 gota de sangue do filho, numa hist\u00f3ria extraordin\u00e1ria de pesadelo e, finalmente, a repara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<div class=\"single-header\">\n<div class=\"single-content\">\n<div class=\"conteudo-repetidor grid-10\">\n<div class=\"conteudo_principal grid-span-6\">\n<p>Uma enormidade aconteceu neste 16 de abril de 2025. Deveria ter sido a manchete de toda a imprensa brasileira, porque este pa\u00eds precisa muito de mem\u00f3ria. N\u00e3o foi, o que explica muito sobre este pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) libertou um pedreiro e um marinheiro da lista de desaparecidos pol\u00edticos da\u00a0<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/tag\/ditadura-empresarial-militar\/\" rel=\"noopener\">ditadura empresarial-militar<\/a>\u00a0que por 21 anos oprimiu o Brasil, a ditadura que sequestrou, torturou e matou opositores sem que os assassinos do Estado jamais fossem punidos. A ditadura cujos crimes foram contados em\u00a0<em>Ainda Estou Aqui<\/em>, a primeira obra brasileira a ganhar o Oscar de melhor filme internacional. Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, diferentemente de Rubens Paiva, v\u00eam das camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, o que tornou a luta de suas fam\u00edlias por justi\u00e7a e por mem\u00f3ria muito mais penosa. E menos reconhecida. Como menos reconhecidos e lembrados\u00a0<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/precisamos-falar-sobre-os-militares-na-amazonia\/\" rel=\"noopener\">s\u00e3o os mais de 8,3 mil Ind\u00edgenas mortos e desaparecidos reconhecidos pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade<\/a>.<\/p>\n<p>Da Vala de Perus onde seus corpos foram jogados para apagar os crimes cometidos contra eles finalmente emergiram duas pessoas com hist\u00f3ria e com afetos. Depois de 50 anos, as fam\u00edlias de Denis Casemiro, pedreiro e agricultor de Votuporanga, em S\u00e3o Paulo, e Grenaldo de Jesus Silva, marinheiro do Maranh\u00e3o, t\u00eam um corpo para chorar.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que a ditadura tamb\u00e9m nos legou: fam\u00edlias em que o desejo mais profundo \u00e9 identificar pais, m\u00e3es, filhos, irm\u00e3os entre os restos emaranhados de corpos assassinados para ter um corpo para chorar. Percebam o alcance dessa dor imposta sobre brasileiras e brasileiros pela ditadura: j\u00e1 n\u00e3o bastava a dor pela morte violenta pelas m\u00e3os do Estado, j\u00e1 n\u00e3o bastava a dor da aus\u00eancia, essas fam\u00edlias foram condenadas a passar mais de meio s\u00e9culo buscando um corpo \u2013 para finalmente ter uma l\u00e1pide.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sumauma.com\/como-a-ideologia-dos-militares-moldou-a-amazonia-de-hoje\/\" rel=\"noopener\">A viola\u00e7\u00e3o dos corpos pela ditadura est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 escalada da Floresta Amaz\u00f4nica rumo ao ponto sem retorno<\/a>. Foi na ditadura que o projeto de viola\u00e7\u00e3o do corpo da\u00a0<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/tag\/floresta-amazonica\/\" rel=\"noopener\">Floresta<\/a>\u00a0para extra\u00e7\u00e3o de mercadorias inaugurou o momento em que um bioma criado ao longo de milh\u00f5es de anos passa a ser progressivamente destru\u00eddo, amea\u00e7ando a vida em todo o planeta. \u00c9 importante compreender que\u00a0<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/a-anistia-mais-obscena-se-chama-marco-temporal\/\" rel=\"noopener\">a viola\u00e7\u00e3o dos corpos dos opositores nas cidades e a viola\u00e7\u00e3o do corpo da Floresta e dos corpos dos povos-floresta n\u00e3o s\u00e3o dois projetos distintos, mas o mesmo projeto<\/a>. Por isso o n\u00famero de Ind\u00edgenas mortos e desaparecidos \u00e9 v\u00e1rias vezes maior do que o n\u00famero de n\u00e3o Ind\u00edgenas mortos e desaparecidos \u2013 e isso que at\u00e9 agora s\u00f3 foram investigados dez entre os mais de 300 povos origin\u00e1rios no Brasil.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sumauma.com\/precisamos-falar-sobre-os-militares-na-amazonia\/\" rel=\"noopener\">Precisamos falar<\/a>\u00a0\u2013 alto e amplamente \u2013 de cada corpo arrancado de Perus ou das entranhas da Floresta. A hist\u00f3ria de Denis Casemiro s\u00f3 conheci agora. Posso e devo contar a voc\u00eas de Grenaldo de Jesus Silva, porque parte dessa hist\u00f3ria eu testemunhei. N\u00e3o seu assassinato, mas o que esse crime fez ao seu filho. Essa tamb\u00e9m \u00e9 uma hist\u00f3ria de como o jornalismo tem um papel intransfer\u00edvel na recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria deste pa\u00eds, um papel que n\u00e3o pode deixar de ocupar, sob pena de pactuar com ditaduras e fascismos, sob pena de ter responsabilidade na ascens\u00e3o de perversos ao poder.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"sidebar grid-span-3\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"coluna_simples\">\n<div class=\"galeria-conteudo\">\n<div>\n<div class=\"img-conteudo-wrapper\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/02.grenaldo_retratos.webp?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div class=\"legendas font-12 font-space-grotesk color-dark_green\">\n<p><em>Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva: depois de 50 anos, as fam\u00edlias do pedreiro de Votuporanga e do marinheiro do Maranh\u00e3o t\u00eam um corpo para chorar. Fotos: reprodu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"conteudo-repetidor grid-10\">\n<div class=\"conteudo_principal grid-span-6\">\n<p>Ao contr\u00e1rio da maioria das fam\u00edlias enlutadas das v\u00edtimas da ditadura, Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut, o filho do marinheiro, n\u00e3o tinha mem\u00f3ria da repress\u00e3o. Como n\u00e3o t\u00eam mem\u00f3ria da repress\u00e3o muitas brasileiras e brasileiros porque se escolheu o apagamento. Grenaldo, o filho, nem sequer sabia o que era ditadura para al\u00e9m de um nome vago, uma hist\u00f3ria que n\u00e3o lhe dizia respeito. Mas, ele nos contaria depois, essa aus\u00eancia de mem\u00f3ria aniquila, \u00e9 um buraco que se pressente, mas n\u00e3o se sabe como apalpar.<\/p>\n<p>Em 2014, a jornalista Tatiana Merlino, ela tamb\u00e9m parente de um assassinado pela ditadura cuja fam\u00edlia luta at\u00e9 hoje por justi\u00e7a, coordenou um livro de leitura obrigat\u00f3ria. Lan\u00e7ado pela Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo \u201cRubens Paiva\u201d, se chama a<em>\u00a0Inf\u00e2ncia Roubada \u2013 Crian\u00e7as Atingidas pela Ditadura Militar no Brasil<\/em>. Entre elas, as crian\u00e7as torturadas. Sim, porque a ditadura torturou crian\u00e7as pequenas. Tatiana ent\u00e3o dizia, naquele momento: \u201cA ditadura deixou in\u00fameras marcas nos filhos das v\u00edtimas; dos desaparecidos, assassinados, presos: desde nascimento na pris\u00e3o, serem levados aos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, clandestinidade, ex\u00edlio, banimento, etc. H\u00e1 hist\u00f3rias de horror, de crian\u00e7as que viram os pais torturados, que foram sequestradas\u2026 Mas a hist\u00f3ria do Grenaldo me toca por uma brutalidade especial a qual ele foi submetido, que \u00e9 o desaparecimento, o apagamento, promovido pela ditadura, da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. A ele foi negado at\u00e9 o direito de vivenciar a dor da verdade de ser filho de um assassinado pelo regime. Para al\u00e9m da subtra\u00e7\u00e3o da vida, do corpo, a mentira, a subtra\u00e7\u00e3o da verdade. Quais s\u00e3o os impactos desse crime na constru\u00e7\u00e3o da identidade do Grenaldo? \u00c9 essa lacuna, que n\u00e3o se pode mensurar, que me toca profundamente\u201d.<\/p>\n<p>Como escrevi em um artigo no extinto\u00a0<em>El Pa\u00eds Brasil,<\/em>\u00a0que em parte reproduzo aqui, meu caminho se cruzou com o de Grenaldo de uma forma que s\u00f3 acontece na vida real. Se fosse fic\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria seria considerada t\u00e3o fantasiosa que soaria de m\u00e1 qualidade. Na campanha eleitoral de 2002, eu trabalhava na revista<em>\u00a0\u00c9poca\u00a0<\/em>e minha atribui\u00e7\u00e3o era contar o ent\u00e3o candidato Luiz In\u00e1cio Lula da Silva pela sua trajet\u00f3ria pessoal e familiar. Fiz v\u00e1rias reportagens e, no in\u00edcio do seu mandato como presidente, escrevi sobre a morte de sua primeira mulher, Maria de Lourdes, num parto em que ela e o beb\u00ea perderam a vida. Era mais uma das dores de Lula, dono de uma biografia que continha o DNA do Brasil, pa\u00eds que naquele momento ele come\u00e7ava a governar com a promessa de mudar o destino dos mais pobres e estat\u00edsticas como as da mortalidade materna.<\/p>\n<p>Durante a investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, descobri uma curiosa liga\u00e7\u00e3o. O m\u00e9dico que assinou o atestado de \u00f3bito de Maria de Lourdes era um dos legistas acusados de ter forjado laudos para a ditadura. S\u00e9rgio Belmiro Acquesta, absolvido pelo Conselho Regional de Medicina um ano antes de morrer, era ent\u00e3o gerente do departamento m\u00e9dico da Villares, metal\u00fargica em que Lula trabalhava como oper\u00e1rio, e tamb\u00e9m funcion\u00e1rio do Instituto M\u00e9dico-Legal de S\u00e3o Paulo. Numa das p\u00e1ginas da reportagem, havia a foto de dois casos em que ele teria atuado para apagar a responsabilidade da ditadura empresarial-militar. Um dos retratos, em tamanho 3X4, era de um marinheiro, Grenaldo de Jesus Silva, que em 1972 sequestrou sozinho um avi\u00e3o da Varig. Depois de ter liberado todos os passageiros e a maior parte da tripula\u00e7\u00e3o, ele foi detido, imobilizado e morto no Aeroporto de Congonhas, em S\u00e3o Paulo, aos 31 anos. No dia seguinte, jornais estamparam a vers\u00e3o da ditadura de que, encurralado, o terrorista se suicidou.<\/p>\n<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas depois, minha reportagem de capa foi publicada e essa pequena foto, mais do que toda a hist\u00f3ria de Lula e Lourdes, moveu lembran\u00e7as insepultas. Dias depois, um homem que se apresentou como ex-sargento especialista da Aeron\u00e1utica, Jos\u00e9 Barazal Alvarez, ent\u00e3o com 63 anos, procurou a revista. Quando o sequestro acabou, ele tinha sido o encarregado de fazer o relat\u00f3rio e recolher os pertences do morto. Ao examinar o corpo de Grenaldo, contou ter encontrado no peito uma carta ensanguentada e um segundo tiro. Nessa esp\u00e9cie de carta-testamento, Grenaldo explicava as raz\u00f5es do sequestro para o filho e prometia buscar a fam\u00edlia t\u00e3o logo chegasse ao Uruguai.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 manteve segredo do que viu por 30 anos, n\u00e3o mencionou nada, nem mesmo \u00e0 pr\u00f3pria mulher. Mas era assombrado pela carta, porque sabia que em algum lugar havia um filho que nunca recebera a palavra do pai, um gesto que, por ter sido interrompido, teria de ter causado aniquila\u00e7\u00e3o. Era desse pesadelo que Jos\u00e9 queria se libertar quando conversamos pela primeira vez. Ao ver a foto do marinheiro \u201csuicidado\u201d na reportagem, ele decidiu buscar o filho sem pai \u2013 e a sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu comecei a procurar esse filho. Mas mesmo entre as organiza\u00e7\u00f5es de mortos e desaparecidos pol\u00edticos da ditadura, a trajet\u00f3ria, as circunst\u00e2ncias e a inten\u00e7\u00e3o do marinheiro que sequestrou um avi\u00e3o sozinho tinham muitas lacunas. Grenaldo foi um dos 1.509 marinheiros expulsos em 1964 por se alinhar com o presidente deposto Jo\u00e3o Goulart. Destes, 414 foram condenados \u00e0 pris\u00e3o. Grenaldo recebeu a pena mais alta: cinco anos e dois meses. Fugiu e iniciou uma vida na clandestinidade. Dele era tudo o que se sabia, at\u00e9 ressurgir num avi\u00e3o da Varig.<\/p>\n<p>Tentei v\u00e1rios caminhos para encontrar seu filho, e ainda n\u00e3o tinha conseguido nenhuma pista s\u00f3lida quando o telefone da minha mesa na reda\u00e7\u00e3o tocou. No outro lado, uma mulher me disse que o filho do marinheiro queria conversar comigo. As linhas finalmente se cruzavam e, por um breve instante, esqueci de respirar. O que tinha se passado era algo muito cotidiano, e por isso ainda mais assombroso. Uma mulher folheava distra\u00edda uma revista velha no consult\u00f3rio do dentista quando se deparou com o nome bastante incomum. De imediato ligou para a irm\u00e3: \u201cLeila, tem um homem aqui com o mesmo nome do seu marido. Ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 o pai dele?\u201d.<\/p>\n<p>O marido de Leila n\u00e3o falava do pai. Ele era sobrevivente de uma inf\u00e2ncia arruinada, na qual o legado do pai era um \u201csangue ruim\u201d. Sua m\u00e3e nunca soube das a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do marido e, quando ele sumiu e reapareceu na capa dos jornais como \u201cterrorista\u201d, ela n\u00e3o p\u00f4de entender. S\u00f3 conseguiu aceitar.<\/p>\n<p>M\u00f4nica Mesut j\u00e1 conhecera o marido na clandestinidade, na cidade paulista de Guarulhos, sem jamais ter sido informada de que ele tivera outra vida. Enquanto esteve com ela, Grenaldo foi vigia da construtora Camargo Corr\u00eaa e teve pelo menos dois neg\u00f3cios fracassados. Em 1971, come\u00e7ou a receber cartas que o deixavam muito nervoso. Um dia saiu de casa prometendo voltar \u201cpara dar \u00e0 fam\u00edlia uma vida melhor\u201d e s\u00f3 apareceu novamente num avi\u00e3o da Varig. O filho tinha 4 anos.<\/p>\n<p>At\u00e9 a vida adulta, do pai ele s\u00f3 sabia que era \u201cladr\u00e3o\u201d e \u201cterrorista\u201d. A fam\u00edlia era muito pobre, sem nenhuma forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e prec\u00e1ria educa\u00e7\u00e3o. Grenaldo, o filho, cresceu num cen\u00e1rio em que tudo faltava, entre uma m\u00e3e alco\u00f3latra, um tio violento e uma av\u00f3 devastada. Christina, a av\u00f3, e M\u00f4nica, a m\u00e3e, j\u00e1 eram elas mesmas sobreviventes de uma outra guerra, v\u00edtimas dos fascismos, no caso delas os da primeira metade do s\u00e9culo 20. Ao fugir da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, Christina encontrou um beb\u00ea nos bra\u00e7os de uma mulher morta. Sem leite nem comida, rasgou o pulso e alimentou-o com sangue. Era M\u00f4nica, a m\u00e3e de Grenaldo, que em 1972 n\u00e3o suportou ver o marido e pai do seu filho como terrorista e suicida nas capas dos jornais. Acreditou na ditadura e na imprensa. Em uma fam\u00edlia na qual o passado j\u00e1 era trevas, o apagamento n\u00e3o encontrava resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando Grenaldo ainda era crian\u00e7a, M\u00f4nica literalizou a destrui\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria ao sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) que a reduziu \u00e0s aus\u00eancias. Morreria s\u00f3 anos depois. Enquanto viveu, Grenaldo e a m\u00e3e eram espancados primeiro pelo padrasto, depois pelo tio. O nome do pai s\u00f3 emergia pelo \u00f3dio, na boca de todos, por qualquer motivo e antes de cada surra: \u201cSeu filho de ladr\u00e3o!\u201d. E ent\u00e3o, quando ele tinha 35 anos, j\u00e1 professor de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e pai de fam\u00edlia, apareceu aquele nome numa reportagem, com uma hist\u00f3ria muito diferente. Na mesma p\u00e1gina de revista em que Jos\u00e9 reencontrou o rosto que o assombrava, Grenaldo encarou a face desconhecida do pr\u00f3prio pai.<\/p>\n<p>O filho do marinheiro marcou um encontro comigo numa pizzaria de S\u00e3o Paulo. Eu carregava v\u00e1rios livros sobre a ditadura para dar a ele \u2013 e muita apreens\u00e3o. Como contar a um filho quem era seu pai? Como dar a um filho not\u00edcias do pai? E desse pai, com essa hist\u00f3ria, desse pai cuja trajet\u00f3ria era uma lacuna? Como se faz algo assim t\u00e3o enorme? Com que palavras?<\/p>\n<p>Me senti t\u00e3o insuficiente. Cheguei mais cedo \u00e0 pizzaria, como fa\u00e7o sempre como rep\u00f3rter, e esperei. Vi aquele homem enorme chegar, com o rosto transtornado por algo que era medo e era expectativa e era, me parecia, um pedido de compaix\u00e3o. Era como se ele suplicasse com aqueles olhos arregalados, quase infantis, que eu tivesse cuidado, que eu possu\u00eda ali o poder de acabar com o delicado equil\u00edbrio que ele havia alcan\u00e7ado com um esfor\u00e7o imposs\u00edvel de mensurar.<\/p>\n<p>Percebi que ele n\u00e3o tinha a menor ideia do que iria escutar.<\/p>\n<p>Naquele momento, Grenaldo come\u00e7ou uma travessia em busca de um pai e de um pa\u00eds. Os dois, ao mesmo tempo. Quando voltei desse encontro, lembro de ter deitado vestida na minha cama, sobre a colcha, e ficado ali de olhos estalados olhando para o teto at\u00e9 o dia amanhecer, porque era t\u00e3o grande aquilo.<\/p>\n<p>Dias depois, marquei um encontro entre Grenaldo, o filho, e Jos\u00e9, o ex-militar. A cena foi impressionante. Grenaldo caiu de joelhos diante de Jos\u00e9. E Jos\u00e9 libertou-se de um pesadelo de 30 anos. Todos naquela sala choravam. Naquele momento, a vida n\u00e3o cabia em n\u00f3s, porque \u00e9 esse o efeito da mem\u00f3ria, desta mem\u00f3ria que segue negada a tantos.<\/p>\n<p>Jos\u00e9, o ex-militar, encerrava ali tr\u00eas d\u00e9cadas de um pesadelo recorrente, o de um homem assassinado, amontoado como um saco de lixo, num Opala preto da repress\u00e3o. E Grenaldo iniciava uma s\u00e9rie de noites agitadas, em que sonhava ser um detetive em busca de pistas.<\/p>\n<p>Com a ajuda de um advogado, Grenaldo e eu passamos semanas, meses, buscando a carta que era sua. Numa noite, lembro de outra cena: as fotos do inqu\u00e9rito militar espalhadas pelo ch\u00e3o da sala da casa de Grenaldo. As imagens do pai morto, sangue, e n\u00f3s dois tentando desvendar aquele quebra-cabe\u00e7a macabro. Eu pensava: como ele vai suportar esse destino transtornado de um dia para o outro?<\/p>\n<p>Grenaldo tinha \u2013 espero que ainda tenha \u2013 algo que poderia ser definido como uma pureza resistente, algo que ele manteve intacto mesmo no inferno que foi sua inf\u00e2ncia, algo que eu j\u00e1 vi em outros sobreviventes, e algo que naquele momento o salvava de novo.<\/p>\n<p>A granada que supostamente o marinheiro portava durante o sequestro era, segundo Jos\u00e9, um carretel de pescaria enrolado com fita-crepe. Consegui localizar a \u00faltima pessoa a encontrar Grenaldo com vida no avi\u00e3o e provar que ele foi assassinado. Testemunhas lembravam do estranho caso do homem \u201csuicidado com um tiro na nuca\u201d \u2013 e finalmente havia uma prova.<\/p>\n<p>Grenaldo, o pai, foi reconhecido como um dos executados pela ditadura, e o filho p\u00f4de receber uma indeniza\u00e7\u00e3o do Estado. Meses depois, ele reencontrou a av\u00f3 paterna no Maranh\u00e3o e resgatou os la\u00e7os perdidos com uma fam\u00edlia que n\u00e3o sabia que tinha. Soube ent\u00e3o que, depois de deixar a casa de Guarulhos e antes de sequestrar o avi\u00e3o, o marinheiro perseguido pela repress\u00e3o tinha visitado a m\u00e3e, para dar a not\u00edcia de que ela tinha um neto e lhe deixar uma foto do menino. Atr\u00e1s do retrato estava escrito: \u201cS\u00e3o tr\u00eas anos que completo, sou um menin\u00e3o. Um dia vou crescer, visitar o Maranh\u00e3o. Naldinho. 9\/6\/71\u201d. Passaram-se mais de tr\u00eas d\u00e9cadas at\u00e9 ele desembarcar no aeroporto de S\u00e3o Lu\u00eds, onde a av\u00f3 o esperava. Viveram uma rela\u00e7\u00e3o de afeto pungente at\u00e9 a morte dela, buscando recuperar 30 anos roubados de ambos.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguimos encontrar a carta, e o gesto do pai n\u00e3o foi completado. \u00c9 sempre tr\u00e1gica uma carta que n\u00e3o encontra seu destinat\u00e1rio. Essa letra perdida ser\u00e1 sempre um buraco que Grenaldo ter\u00e1 de sustentar, mas um buraco que ele vai preenchendo com a tessitura da mem\u00f3ria. Grenaldo hoje tem uma hist\u00f3ria para transmitir a seus filhos. Tem um pai \u2013 e tem um pa\u00eds. E \u00e9 com os peda\u00e7os faltantes de ambos que precisa lidar.<\/p>\n<p>Desde 16 de abril, Grenaldo tem tamb\u00e9m um corpo para chorar. Isso s\u00f3 foi poss\u00edvel porque a democracia resiste no Brasil, apesar das tentativas de golpe de Estado, apesar da ascens\u00e3o da extrema direita, apesar dos gritos obscenos por anistia \u00e0queles que em 8 de janeiro de 2023 tentaram impor uma nova ditadura ao Brasil.<\/p>\n<p>Demorou mais de meio s\u00e9culo para o Estado brasileiro devolver aos familiares de Grenaldo e Denis um corpo para velar. Demorou tanto porque a tentativa de apagamento \u00e9 persistente, raz\u00e3o pela qual o Brasil elegeu em 2018 um perverso que j\u00e1 disse que \u201ca ditadura deveria ter fuzilado uns 30 mil corruptos\u201d, confort\u00e1vel e desenvolto em dizer que as que hoje choram s\u00e3o poucas, deveria ter 30 mil fam\u00edlias buscando corpos, lidando com o fato de que o Estado torturou seus filhos e filhas, m\u00e3es, pais e irm\u00e3os, que o Estado os matou. Elegeu um perverso que afirma que seu her\u00f3i \u00e9 um dos mais s\u00e1dicos torturadores da ditadura. E segue fortalecendo o perverso hoje ineleg\u00edvel e finalmente r\u00e9u, assim como outros perversos que irrompem a todo momento, porque o Brasil n\u00e3o julgou e puniu os criminosos de Estado.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o de Grenaldo e Denis s\u00f3 foi poss\u00edvel porque o atual governo tem um Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e da Cidadania e tem uma Comiss\u00e3o Especial sobre Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos. Queremos muito mais do terceiro mandato de Lula, mas n\u00e3o podemos jamais esquecer da diferen\u00e7a entre um presidente fascista e um presidente democrata.<\/p>\n<p>Com a identifica\u00e7\u00e3o de Denis e Grenaldo, temos mais dois corpos para ampliar nossa mem\u00f3ria. Lembrar \u00e9 preciso, lembrar \u00e9 movimento de vida. Quando jornalistas perguntaram a Grenaldo, na cerim\u00f4nia de 16 de abril, o que ele gostaria de dizer, ele apenas respondeu: \u201cAinda estou buscando o ch\u00e3o\u201d. O Brasil tamb\u00e9m, Grenaldo, ainda est\u00e1 buscando o ch\u00e3o. E, por isso, temos que gritar juntos: sem anistia para os golpistas de ontem e de hoje.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"sidebar grid-span-3\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"coluna_simples\">\n<div class=\"galeria-conteudo\">\n<div>\n<div class=\"img-conteudo-wrapper\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/03.grenaldo_vala_fim.webp?w=640&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div class=\"legendas font-12 font-space-grotesk color-dark_green\">\n<p><em>Vala clandestina de Perus: cavada em cemit\u00e9rio paulistano, foi descoberta h\u00e1 mais de 30 anos para esconder os corpos de v\u00edtimas da ditadura empresarial-militar. Foto: Marcelo Vigneron<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"conteudo-repetidor grid-10\">\n<div class=\"conteudo_principal grid-span-6\">\n<div class=\"font-14\">\n<hr \/>\n<p><strong>Texto:\u00a0<\/strong>Eliane Brum<br \/>\n<strong>Edi\u00e7\u00e3o de arte:<\/strong>\u00a0Cacao Souza<br \/>\n<strong>Edi\u00e7\u00e3o de fotografia:<\/strong>\u00a0Lela Beltr\u00e3o<br \/>\n<strong>Checagem:<\/strong>\u00a0Pl\u00ednio Lopes<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o ortogr\u00e1fica (portugu\u00eas):<\/strong>\u00a0Valqu\u00edria Della Pozza<br \/>\n<strong>Montagem de p\u00e1gina e acabamento:<\/strong>\u00a0Nat\u00e1lia Chagas<br \/>\n<strong>Coordena\u00e7\u00e3o de fluxo editorial:<\/strong>\u00a0Viviane Zandonadi<br \/>\n<strong>Editora-chefa:<\/strong>\u00a0Talita Bedinelli<br \/>\n<strong>Diretora de Reda\u00e7\u00e3o:<\/strong> Eliane Brum<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Sem anistia: o corpo do pai, o corpo do pa\u00eds &#8211; SUMA\u00daMA &#8211; https:\/\/sumauma.com\/sem-anistia-o-corpo-do-pai-o-corpo-do-pais\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eliane Brum &#8211; Depois de mais de meio s\u00e9culo, duas fam\u00edlias t\u00eam identificadas suas pessoas queridas desaparecidas pela ditadura. 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