{"id":24673,"date":"2025-05-27T12:11:02","date_gmt":"2025-05-27T15:11:02","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24673"},"modified":"2025-05-19T20:14:20","modified_gmt":"2025-05-19T23:14:20","slug":"marx-e-a-natureza-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/05\/27\/marx-e-a-natureza-humana\/","title":{"rendered":"Marx e a natureza humana"},"content":{"rendered":"<p><strong>Valerio Arcary<\/strong> &#8211;\u00a0<span style=\"font-size: 16px;\">Marx afirmava que n\u00e3o poderia haver liberdade entre desiguais.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<blockquote><p><em>A ess\u00eancia humana n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o inerente a cada indiv\u00edduo.\u00a0<\/em>\u00a0<em>\u00c9, em sua realidade, o conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais<\/em>.<br \/>\n(Karl Marx, VI Teses sobre Feurbach)<\/p><\/blockquote>\n<p>Cinco de maio \u00e9 o dia do anivers\u00e1rio de<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/05\/07\/marx-deixou-o-mapa-para-a-plena-felicidade-humana\/\">\u00a0Karl Marx<\/a>. N\u00e3o esquecemos. E uma maneira \u00fatil de honrar sua mem\u00f3ria \u00e9 divulgar suas ideias.<\/p>\n<p>O que diz o marxismo sobre a natureza, a ess\u00eancia, a condi\u00e7\u00e3o humana? Este tema nos remete a uma longa luta ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Os liberais alicer\u00e7aram sua argumenta\u00e7\u00e3o sobre a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunista\/antonio-manoel-mendonca-de-araujo\/2022\/04\/20\/marx-a-revolucao-russa-e-seus-ultimos-anos-de-vida\/\">condi\u00e7\u00e3o humana<\/a>\u00a0em uma ideia chave: somos, essencialmente, diferentes e desiguais. Alguns mais ativos e outros pregui\u00e7osos, inteligentes e covardes, corajosos e idiotas, esfor\u00e7ados e imprest\u00e1veis. As regras sociais devem premiar os mais capazes. Esses devem ter o direito de enriquecer, acumular capital e dirigir. Os ricos, e at\u00e9 mesmo os milion\u00e1rios, devem ser admirados e respeitados. Em resumo, a \u201cmeritocracia\u201d deve preservar para uma elite natural o direito de mandar e comandar.<\/p>\n<p>A premissa impl\u00edcita \u00e9 de que n\u00e3o haveria liberdade sem direito \u00e0 propriedade. Liberdade e propriedade seriam indivis\u00edveis. Sem propriedade ningu\u00e9m seria livre. Seriam direitos insepar\u00e1veis um do outro, intr\u00ednsecos, portanto, essenciais. A natureza humana se definiria pela busca ego\u00edsta do direito ao enriquecimento atrav\u00e9s da garantia da propriedade como forma de amor \u00e0 liberdade. Na Constitui\u00e7\u00e3o norte-americana foi resumido, um pouco, poeticamente, como direito \u00e0 busca da felicidade. Igualdade somente diante da lei, portanto, equidade.<\/p>\n<p>O marxismo nunca argumentou que as pessoas s\u00e3o iguais. N\u00e3o s\u00e3o. Mas n\u00e3o existem desigualdades porque temos aptid\u00f5es distintas. A propor\u00e7\u00e3o de pessoas mais ou menos brilhantes \u00e9 a mesma em todas as classes sociais, em todos os povos e em todos os pa\u00edses. A desigualdade est\u00e1 determinada pela condi\u00e7\u00e3o de classe. Quem nasce na mis\u00e9ria pode ter talentos extraordin\u00e1rios, mas vai competir pela sobreviv\u00eancia em condi\u00e7\u00f5es muito desfavor\u00e1veis. \u00c9 a injusti\u00e7a que explica a desigualdade.<\/p>\n<p>O fundamental \u00e9 que as necessidades humanas mais intensas s\u00e3o as mesmas. Marx afirmava que n\u00e3o poderia haver liberdade entre desiguais. O marxismo n\u00e3o afirmou que a condi\u00e7\u00e3o humana seria a generosidade ou a solidariedade. N\u00e3o desconhecia que h\u00e1 gente boa e gente ruim. Mas argumentou que o ego\u00edsmo n\u00e3o \u00e9 natural. Numa sociedade em que as regras favorecem o ego\u00edsmo, a inveja, a desconfian\u00e7a e a rivalidade, a maioria das pessoas aprendem que \u00e9 necess\u00e1rio ser assim para se defenderem dos outros. O que \u00e9 surpreendente e at\u00e9 incr\u00edvel \u00e9 que haja pessoas que, apesar de tudo, n\u00e3o s\u00e3o assim.<\/p>\n<p>Marx tampouco defendeu que seria imposs\u00edvel reconhecer as caracter\u00edsticas de uma ess\u00eancia humana. Mas a natureza humana n\u00e3o \u00e9 r\u00edgida e imut\u00e1vel. N\u00e3o somos somente instintos. Somos instintos e cultura. A cultura, ou seja, nossa capacidade de nos transformarmos a n\u00f3s mesmos, conscientemente, na luta pelo dom\u00ednio de um destino compartilhado, favorece a mudan\u00e7a. Uma sociedade mais civilizada premia comportamentos mais solid\u00e1rios e educa gente mais decente.<\/p>\n<p>Igualdade e liberdade seriam indivis\u00edveis. Seriam direitos complementares, portanto, um condicionaria o outro. A liberdade seria a consci\u00eancia da necessidade. Em outras palavras, aqueles que n\u00e3o sabem quais s\u00e3o os seus interesses n\u00e3o podem ser livres. Os marxistas defendiam a ideia de que aqueles que acumulam a riqueza concentram, invariavelmente, o poder. E os que controlam o poder t\u00eam melhores condi\u00e7\u00f5es de apropria\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A preserva\u00e7\u00e3o do capitalismo, apesar dos diferentes regimes pol\u00edticos de domina\u00e7\u00e3o \u2013 variadas solu\u00e7\u00f5es institucionais de tipo democr\u00e1tico-eleitorais ou bonapartistas-ditatoriais \u2013, seria a continuidade de um sistema de explora\u00e7\u00e3o do trabalho pelo capital. O programa do marxismo era a socializa\u00e7\u00e3o da propriedade privada e a regula\u00e7\u00e3o da aloca\u00e7\u00e3o de recursos pelo planejamento democr\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>O marxismo reconhece ou n\u00e3o a exist\u00eancia de uma natureza humana?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O que distinguiu o marxismo de outras tend\u00eancias igualitaristas foi a insist\u00eancia na ideia de a condi\u00e7\u00e3o humana s\u00f3 poderia ser compreendida como um processo de evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das rela\u00e7\u00f5es sociais. Rela\u00e7\u00f5es sociais imersas em um processo de mudan\u00e7a. Um processo que deixa em aberto muitas possibilidades. A humanidade transformou a sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza, e transformou-se a si pr\u00f3pria atrav\u00e9s do trabalho.<\/p>\n<p>Ao reconhecer que a natureza humana s\u00f3 poderia ser compreendida a partir das rela\u00e7\u00f5es sociais, ou seja, a partir das rela\u00e7\u00f5es que a humanidade estabelece em cada \u00e9poca hist\u00f3rica com a natureza, e dos homens e mulheres uns com os outros, concordou que existem determina\u00e7\u00f5es que se alteram, e outras que permanecem mais ou menos constantes por um per\u00edodo hist\u00f3rico, que pode ser mais ou menos longo, at\u00e9 que estas tamb\u00e9m, evoluem.<\/p>\n<p>Dizer que a ess\u00eancia humana est\u00e1 condicionada pela forma das rela\u00e7\u00f5es sociais dominantes significa reconhecer que, se estas favorecem a bo\u00e7alidade e viol\u00eancia, ent\u00e3o uma maioria dos seres humanos ter\u00e3o comportamentos gananciosos e brutos. Mas n\u00e3o quer dizer que essas a\u00e7\u00f5es respondam a impulsos inatos. Colabora\u00e7\u00e3o e conflito estiveram sempre presentes nas rela\u00e7\u00f5es sociais, em graus variados, ao longo do processo de evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. N\u00e3o s\u00f3 somos seres sociais, somos uma das formas de vida mais sociais. Se n\u00e3o existisse a capacidade de colabora\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter\u00edamos sobrevivido.<\/p>\n<p>O tema j\u00e1 foi, por\u00e9m, muito pol\u00eamico. Nos anos sessenta, as correntes mais importantes do marxismo, tanto no movimento oper\u00e1rio quanto na academia, ainda eram o estalinismo e a socialdemocracia. Na sequ\u00eancia do impacto do relat\u00f3rio Kruschev e das den\u00fancias dos crimes de Stalin, o marxismo acad\u00eamico europeu sofreu duas fortes press\u00f5es. De um lado, a influ\u00eancia do que ficou conhecido como humanismo marxista que buscava inspira\u00e7\u00e3o nos Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos, ent\u00e3o publicados (MARX, 2004). De outro lado, a influ\u00eancia do estruturalismo, em particular da corrente althusseriana francesa, que realizou uma vigorosa nega\u00e7\u00e3o da possibilidade de compatibilizar a no\u00e7\u00e3o de natureza humana com a obra do Marx maduro. O argumento foi a defesa de um corte epistemol\u00f3gico cient\u00edfico na obra do Marx d\u2019O Capital com as obras de juventude. Uma resposta instigante \u00e0 cr\u00edtica althusseriana pode ser encontrada na obra de Norman Geras, Marx and human nature, refutation of a legend (GERAS, 1983). O contexto da discuss\u00e3o sobre a natureza humana estava determinado pelo que passou \u00e0 hist\u00f3ria como a deriva de socialdemocratiza\u00e7\u00e3o dos partidos comunistas conhecida como eurocomunismo.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Liberdade e propriedade n\u00e3o s\u00e3o indivis\u00edveis, mas contradit\u00f3rios<\/h4>\n<p>Os liberais admitiam que o direito \u00e0 liberdade era relativo. Reconheceram que o direito de cada um acabava onde come\u00e7ava o direito \u00e0 liberdade do outro. Os liberais responderam ao desafio socialista asseverando que a luta pela igualdade destruiria, inexoravelmente, a liberdade. Argumentavam que aquilo que contraria a natureza humana n\u00e3o pode ser realizado sen\u00e3o pela for\u00e7a. Denunciaram a ambi\u00e7\u00e3o coletivista do igualitarismo como incompat\u00edvel com o direito \u00e0 busca individual da felicidade, ou seja, da propriedade que protege o enriquecimento, incentiva o progresso, e favorece a inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A premissa da desigualdade natural, inata ou adquirida, ou de uma natureza humana inflex\u00edvel, r\u00edgida e inalter\u00e1vel condenava logo de sa\u00edda qualquer projeto igualitarista ao uso da viol\u00eancia contra os mais tenazes ou arrojados. Sendo as pessoas desiguais, toda tentativa de construir a igualdade social seria artificial, e s\u00f3 poderia ser erguida recorrendo \u00e0 for\u00e7a do Estado. Esta argumenta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, embora tenha coer\u00eancia interna, n\u00e3o \u00e9 verdadeira. N\u00e3o resiste \u00e0 confronta\u00e7\u00e3o com a realidade. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de ser refutada.<\/p>\n<p>O programa socialista inscreveu na hist\u00f3ria a necessidade da luta contra a propriedade privada para defender o direito \u00e0 vida, a primeira e mais decisiva das liberdades humanas. Afirmava que o direito indefinido de alguns \u00e0 propriedade privada e ao direito de heran\u00e7a ilimitada, ou seja, a fortaleza jur\u00eddica que defende o capital, seria incompat\u00edvel com o direito \u00e0 vida de todos.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? A vida estaria em perigo? Sim, a vida de quem nasce na mis\u00e9ria sempre esteve em perigo ao longo da hist\u00f3ria da humanidade, e permanece assim. O direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, ao abrigo, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade e at\u00e9 ao trabalho, entre outros, definem o que significa o direito \u00e0 vida, e deveriam ser direitos inalien\u00e1veis de todos. N\u00e3o s\u00e3o. Poderiam ser? Ou reivindicar essas garantias elementares seria ut\u00f3pico? Defender que a satisfa\u00e7\u00e3o destas necessidades universais seria ut\u00f3pico n\u00e3o faz sentido. A capacidade produtiva presente \u00e9 mais do que suficiente para erradicar a mis\u00e9ria. O obst\u00e1culo que nos impede de realizar a maior fa\u00e7anha da hist\u00f3ria da humanidade n\u00e3o \u00e9 a escassez, a pen\u00faria, mas o capitalismo.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A liberdade s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades<\/h4>\n<p>O socialismo elevou o direito ao trabalho, a moradia, transporte e lazer, enfim, o direito \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas mais sentidas, como a miss\u00e3o fundamental da vida civilizada, e o sentido da hist\u00f3ria pelo qual vale a pena lutar. Ao longo do s\u00e9culo XIX, o marxismo precisou lutar contra outras tradi\u00e7\u00f5es igualitaristas antes de conquistar a posi\u00e7\u00e3o de corrente mais influente nos movimentos oper\u00e1rios europeus.<\/p>\n<p>Polemizou com o cooperativismo franc\u00eas inspirado em Proudhon, com o estatismo reformista alem\u00e3o da corrente de Lassale e com o anarquismo russo antipol\u00edtico de Bakunin. Argumentou contra Proudhon que as cooperativas poderiam ser uma escola pol\u00edtica de constru\u00e7\u00e3o da solidariedade, mas n\u00e3o haveria como impedir sua ru\u00edna econ\u00f4mica ou sua absor\u00e7\u00e3o pelo mercado. Respondeu ao estatismo de Lassale recordando que o capitalismo poderia conviver com um estado intervencionista, diferenciando socializa\u00e7\u00e3o de estatiza\u00e7\u00e3o. Uma empresa estatal pode ser t\u00e3o capitalista quanto uma empresa privada. Socializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 somente propriedade estatal, mas propriedade social, ou seja, submetida ao controle democr\u00e1tico dos trabalhadores por interm\u00e9dio de um planejamento submetido \u00e0s suas necessidades. Contestou Bakunin afirmando a necessidade da pol\u00edtica e da luta pelo controle do Estado, embora reconhecendo a necessidade de uma transi\u00e7\u00e3o em que, gradualmente, iriam se dissolvendo as estruturas estatais.<\/p>\n<p>O socialismo dos marxistas defendia a posi\u00e7\u00e3o de que, enquanto alguns poucos possu\u00edssem o capital \u2013 portanto, as melhores terras, as f\u00e1bricas, os bancos \u2013, n\u00e3o haveria forma de construir a igualdade social, e que era necess\u00e1ria uma<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunista\/antonio-manoel-mendonca-de-araujo\/2022\/04\/20\/marx-a-revolucao-russa-e-seus-ultimos-anos-de-vida\/\">\u00a0estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria<\/a>\u00a0para deslocar o Estado capitalista, aparentemente invis\u00edvel atr\u00e1s dos diferentes regimes pol\u00edticos.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Liberdade e democracia<\/h4>\n<p>O liberalismo diminuiu a liberdade reduzindo-a ao direito \u00e0 propriedade privada e amesquinhando-a como a luta pelo enriquecimento individual. Locke, um liberal que viveu em uma \u00e9poca hist\u00f3rica em que a luta contra a tirania absolutista era um horizonte revolucion\u00e1rio, confessou, h\u00e1 mais de 250 anos, a legitimidade da luta armada pela defesa da propriedade privada da minoria contra o Estado:<\/p>\n<p><em>Mas se qualquer desses atos ilegais se estendeu \u00e0 maior parte do povo \u2013 ou se o malef\u00edcio e a opress\u00e3o atingiram somente a alguns, mas em casos tais que os precedentes e as consequ\u00eancias pare\u00e7am a todos amea\u00e7ar, estando eles persuadidos intimamente de que as leis e com elas as propriedades, liberdades e vidas est\u00e3o em perigo, e talvez at\u00e9 mesmo a religi\u00e3o \u2013, n\u00e3o estou em condi\u00e7\u00f5es de dizer como se poder\u00e1 impedi-los de resistir \u00e0 for\u00e7a ilegal de que se faz uso contra eles<\/em>. (LOCKE, 1989, p. 91)<\/p>\n<p>Se as leis que protegem a propriedade estivessem em perigo, seria leg\u00edtimo resistir \u00e0 for\u00e7a. A defesa do direito de insurg\u00eancia contra o Estado, ainda quando este fosse a express\u00e3o da vontade da maioria despojada contra a minoria privilegiada, estabeleceu o cerne do projeto liberal. Para os liberais, igualdade e liberdade seriam direitos n\u00e3o s\u00f3 contradit\u00f3rios, mas antag\u00f4nicos.<\/p>\n<p>No af\u00e3 da pol\u00eamica hist\u00f3rica os liberais tiveram amn\u00e9sias convenientes, esquecendo que a luta democr\u00e1tica foi protagonizada pelo movimento oper\u00e1rio e pelos socialistas. O direito ao voto universal, o direito de liberdade de imprensa, o direito de organiza\u00e7\u00e3o sindical e popular foram conquistados em lutas heroicas encabe\u00e7adas pelos socialistas. O liberalismo \u2013 mesmo admitindo-se a variedade ampla de liberalismos segundo a \u00e9poca e os pa\u00edses \u2013 nunca teve um compromisso irredut\u00edvel com as liberdades democr\u00e1ticas. No Brasil, por exemplo, a maioria dos liberais apoiaram o golpe de 1964 e a ditadura militar.<\/p>\n<p>Ao estudar a revolu\u00e7\u00e3o inglesa do s\u00e9culo XVII, os liberais defenderam o direito de rebeli\u00e3o do Parlamento liderado por Cromwell contra o Estado absolutista ingl\u00eas. A revolu\u00e7\u00e3o puritana foi feita sob uma bandeira: n\u00e3o poderia haver taxa\u00e7\u00e3o sem aprova\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o, ou seja, sem a legitima\u00e7\u00e3o dos impostos pelo Parlamento. Argumentaram que impostos que n\u00e3o haviam sido votados pelo Parlamento n\u00e3o tinham legitimidade, e a insurg\u00eancia e guerra civil estariam justificadas. N\u00e3o reconheceram aos socialistas no s\u00e9culo XX, contudo, o mesmo direito de insurg\u00eancia contra ditaduras terr\u00edveis, sempre e quando os interesses do capital estavam assegurados.<\/p>\n<p>Durante os dois s\u00e9culos seguintes \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o inglesa, at\u00e9 meados do XIX, os liberais identificaram a liberdade com o direito individual de autodefesa contra o Estado, de onde surgiu sua m\u00e1xima: n\u00e3o se devem aceitar impostos sem que sejam votados pela representa\u00e7\u00e3o do Parlamento, e n\u00e3o devem votar representantes sen\u00e3o os que pagam impostos.<\/p>\n<p>A democracia liberal na Europa nasceu censit\u00e1ria, excluindo a maioria pobre que n\u00e3o pagava imposto. Eram exclu\u00eddos, tamb\u00e9m, as mulheres, os jovens, os analfabetos e os estrangeiros. Nos Estados Unidos, exclu\u00edam-se os escravos. A liberdade dos liberais n\u00e3o era igual para todos. Os liberais preferiam reconhecer que os homens deveriam ser iguais diante de Deus e, no m\u00e1ximo, diante da lei cuja interpreta\u00e7\u00e3o ficava reservada a uma justi\u00e7a de classe que eles se reservavam o direito de controlar.<\/p>\n<p>O voto censit\u00e1rio, porque limitado aos cidad\u00e3os ativos \u2013 identificando como passivos a maioria pobre que, no final o s\u00e9culo XVIII, ainda n\u00e3o pagava impostos \u2013, foi inscrito na Constitui\u00e7\u00e3o francesa de 1791. Foi por interm\u00e9dio de longas lutas pol\u00edticas \u2013 cartistas na Inglaterra, a revolu\u00e7\u00e3o de 1848 na Fran\u00e7a \u2013 encabe\u00e7adas pelos socialistas que o direito de voto se universalizou. Os liberais temiam que, com a extens\u00e3o do direito de voto aos n\u00e3o-propriet\u00e1rios, se fosse eleita uma maioria de deputados que respondiam aos interesses dos trabalhadores, seria uma quest\u00e3o de tempo para que a ousadia de desafiar a propriedade privada vencesse.<\/p>\n<p>Essa resist\u00eancia pol\u00edtica ao voto universal, durante o s\u00e9culo XIX, express\u00e3o do horror social burgu\u00eas \u00e0 massa subalterna, demonstrou-se, entretanto, historicamente infundada. Os liberais descobriram que poderiam disputar a hegemonia ideol\u00f3gica sobre as massas populares. Mas n\u00e3o indefinidamente, por isso tamb\u00e9m, sugiram os movimentos fascistas nos anos trinta e neofascistas nos \u00faltimos dez anos.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Liberdade e igualdade s\u00e3o indivis\u00edveis<\/h4>\n<p>O movimento oper\u00e1rio nos \u00faltimos 150 anos foi o protagonista social da mais decisiva transforma\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria humana: a aventura \u00e9pica por um controle consciente sobre os destinos da sociedade, levando at\u00e9 o fim a promessa inscrita na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de liberdade, igualdade e fraternidade.<\/p>\n<p>O socialismo foi o programa que inspirou a epopeia das revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX. Os marxistas argumentaram que o sentido da luta dos trabalhadores consistiu, historicamente, em levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias a luta pela igualdade e liberdade como valores indissoci\u00e1veis, portanto, que se definem um ao outro. Afirmaram que n\u00e3o poderia haver igualdade sem liberdade e vice-versa. Uma condicionaria a outra. Essa \u00e9 tamb\u00e9m a opini\u00e3o de Wallerstein:<\/p>\n<p><em>Que significa realmente o slogan \u2018liberdade, igualdade, fraternidade\u2019? O slogan da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa \u00e9 familiar a todo mundo. Ele parece fazer refer\u00eancia a tr\u00eas fen\u00f4menos diferentes, cada um situado em tr\u00eas dom\u00ednios entre os quais estamos acostumados a dividir nossas an\u00e1lises sociais: a liberdade no campo pol\u00edtico, a igualdade no campo econ\u00f4mico e a fraternidade no campo sociocultural. E estamos igualmente habituados a debater a respeito de sua import\u00e2ncia relativa, em particular entre a liberdade e a igualdade. A antinomia da liberdade e da igualdade parece-me absurda. Tenho dificuldades em ver como podemos ser \u201clivres\u201d se h\u00e1 desigualdade, j\u00e1 que aqueles que t\u00eam mais t\u00eam sempre mais op\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis \u00e0queles que t\u00eam menos e, por conseq\u00fc\u00eancia, estes \u00faltimos s\u00e3o menos livres. E, do mesmo modo, tenho dificuldades em ver como a igualdade pode existir sem a liberdade uma vez que, na aus\u00eancia de liberdade, alguns t\u00eam mais poder pol\u00edtico que outros, donde se segue que h\u00e1 desigualdade. N\u00e3o estou sugerindo nenhum jogo de palavras aqui, mas a rejei\u00e7\u00e3o da distin\u00e7\u00e3o entre liberdade-igualdade. Liberdade-igualdade \u00e9 um \u00fanico e mesmo conceito<\/em>. (WALLERSTEIN, 1989.)<\/p>\n<p>Os revolucion\u00e1rios pequeno-burgueses mais radicais do final do s\u00e9culo XVIII colocaram-se como desafio a conquista da liberdade pol\u00edtica e da igualdade jur\u00eddica de todos os cidad\u00e3os. O horizonte social da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica era a eq\u00fcidade, porque ela seria o fundamento da fraternidade. O programa pol\u00edtico da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica era a cidadania. Mas, liberdade e igualdade s\u00e3o indivis\u00edveis. Em uma sociedade baseada na explora\u00e7\u00e3o do trabalho, ningu\u00e9m \u00e9 livre. N\u00e3o h\u00e1 liberdade poss\u00edvel entre desiguais. A liberdade humana s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com o fim da explora\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>GERAS, Norman. Marx and human Nature, refutation of a legend. Londres. Verso. 1983<\/p>\n<p>LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo civil. In: WEFFORT, Francisco C. (Org.). Os cl\u00e1ssicos da pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1989.<\/p>\n<p>LOSURDO, Domenico. Democracia ou bonapartismo, triunfo e decad\u00eancia do sufr\u00e1gio universal. Rio de Janeiro: EdUFRJ: Edunesp, 2004.<\/p>\n<p>MARX, Karl. Teses sobre Feurbach. S\u00e3o Paulo, Editora Alfa-Omega. Obras Escolhidas, volume 3, p.209, s\/data.<\/p>\n<p>MARX, Karl. Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos. S\u00e3o Paulo, Boitempo Editorial, 2004.<\/p>\n<p>WALLERSTEIN, Immanuel. R\u00e9volution dans le sist\u00e8me mondial. Paris, Le Temps Modernes, n\u00ba 514-515, p. 173-174, maio\/jun. 1989.<\/p>\n<p>Editado por: Nathallia Fonseca<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Marx e a natureza humana \u2013 Brasil de Fato &#8211; https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunista\/valerio-arcary\/2025\/05\/06\/marx-e-a-natureza-humana\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Valerio Arcary &#8211;\u00a0Marx afirmava que n\u00e3o poderia haver liberdade entre desiguais. A ess\u00eancia humana n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o inerente a cada indiv\u00edduo.\u00a0\u00a0\u00c9, em sua realidade, o conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais. 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