{"id":24648,"date":"2025-05-17T12:58:31","date_gmt":"2025-05-17T15:58:31","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24648"},"modified":"2025-05-12T18:44:24","modified_gmt":"2025-05-12T21:44:24","slug":"trump-e-trumpismo-uma-nova-direita-nos-estados-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/05\/17\/trump-e-trumpismo-uma-nova-direita-nos-estados-unidos\/","title":{"rendered":"Trump e trumpismo: uma nova direita nos Estados Unidos?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Camila Vidal <\/strong><i>&#8211; <\/i>O Projeto 2025, que incorpora a transi\u00e7\u00e3o da Presid\u00eancia de Joe Biden para o rec\u00e9m-eleito Donald Trump, trata, j\u00e1 no seu pre\u00e2mbulo, de uma \u201cpromessa conservadora\u201d. Nele, atenta que a \u201cAm\u00e9rica e o movimento conservador passam por uma era de divis\u00e3o e de perigo, assim como na d\u00e9cada de 1970\u201d (tradu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria). Boa parte da campanha eleitoral de Trump se voltou, justamente, para esse movimento conservador, ainda que com diferen\u00e7as importantes em rela\u00e7\u00e3o ao movimento mais antigo e tradicional de direita no pa\u00eds.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/proxy\/_nzFGBA1nD_kxr0r6QWeipg4cPFhifMYqTaiIiBwq9zVdke6GYvUagXiPb4mpKykI5sEGhbD2umlPgqYP-9LL4sEaBM7xil6nApjsGdxHX2RNhoXNJK-Q12d\" alt=\"List of New Deal Projects\" \/><br \/>\n<em>New Deal<\/em>: Eleanor Roosevelt conversa com superintendente de projeto em Des Moines, Iowa, em 8 jun. 1936. Patrocinado pela Works Progress Administration, o projeto planejava converter um lix\u00e3o da cidade em um parque \u00e0 beira-mar (<a href=\"http:\/\/www.fdrlibrary.marist.edu\/archives\/resources\/newdealprojects.html\" rel=\"noopener external noreferrer\">Fonte<\/a>: FDR Library)<\/p>\n<p>O movimento conservador \u201ctradicional\u201d nos Estados Unidos tem suas ra\u00edzes no contexto do P\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, em que, no plano dom\u00e9stico, as pol\u00edticas do\u00a0<i>New Deal<\/i>\u00a0rooseveltiano reinavam soberanas e, no internacional, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica passava a ser percebida como uma amea\u00e7a. Por \u00f3bvio, a agenda n\u00e3o \u00e9 mais a mesma, tampouco as estrat\u00e9gias e os mecanismos de atua\u00e7\u00e3o, o que nos faz pensar que esse \u201cconservadorismo trumpista\u201d \u00e9 relativamente singular na hist\u00f3ria recente dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, buscamos aqui fazer uma reflex\u00e3o acerca dos encontros e desencontros do movimento conservador da segunda metade do s\u00e9culo XX com o movimento conservador trumpista nos Estados Unidos atual, evidenciando suas poss\u00edveis similaridades e diferen\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>PRIMEIRA PARTE: O movimento conservador nos EUA em uma perspectiva hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n<p>O movimento conservador estadunidense da d\u00e9cada de 1950 ascende como uma rejei\u00e7\u00e3o ao comunismo e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS) por um lado; e \u00e0 Presid\u00eancia, pol\u00edticas de bem-estar social e grupos de base do governo Franklin Delano Roosevelt, por outro. Esse movimento nasce com tr\u00eas frentes: uma primeira intelectual; uma segunda que vai atuar diretamente na sociedade civil; e, por fim, uma terceira frente que visa a uma determinada condu\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica externa.<\/p>\n<p><b>1) Frente intelectual<\/b><\/p>\n<p>Nesta primeira frente, podemos situar a obra de quatro autores que v\u00e3o servir de alicerce inicial: Richard Weaver, Robert Nisbet, Russell Kirk e William Buckley Jr. Em apenas cinco anos (entre 1948 e 1953), eles publicaram livros que retratavam o descontentamento com o rumo dom\u00e9stico que os Estados Unidos tomavam e, em espec\u00edfico, com a ideia de \u201cmodernidade\u201d e de progresso cient\u00edfico. Com duas guerras mundiais, armas qu\u00edmicas e nucleares, a entrada das mulheres no mercado de trabalho e as pol\u00edticas do\u00a0<i>New Deal<\/i>\u00a0representavam, para esses autores, que os valores \u201ctradicionais\u201d, seguros e \u201cmorais\u201d estavam sendo abandonados, enquanto o Estado e a ci\u00eancia tomavam o lugar da f\u00e9 e da \u201cmoralidade\u201d. Assim, tinham uma avers\u00e3o, no plano pol\u00edtico, ao socialismo; no plano econ\u00f4mico, ao keynesianismo e \u00e0s pol\u00edticas de bem-estar social; e, no plano social, \u00e0 primazia da ci\u00eancia e da modernidade que supostamente rompia com a f\u00e9, com a moralidade e com a fam\u00edlia tradicional.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"c008 alignnone\" src=\"https:\/\/m.media-amazon.com\/images\/I\/81xaik0nofL._AC_UF1000,1000_QL80_.jpg\" alt=\"As Ideias T\u00eam Consequ\u00eancias | Amazon.com.br\" \/><\/p>\n<p>No caso de Weaver, sua obra\u00a0<i>Ideias tem consequ\u00eancias<\/i>\u00a0(<a href=\"https:\/\/www.erealizacoes.com.br\/produto\/as-ideias-tem-consequencias\" rel=\"external noopener noreferrer\">\u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es, 2016<\/a>) critica a \u201ccultura da ci\u00eancia\u201d e o \u201chomem racional\u201d que estaria preocupado com os seus direitos, mas n\u00e3o com os seus deveres; estaria ainda preocupado com ele pr\u00f3prio, mas n\u00e3o com todo; e, por fim, com o material imediato, mas n\u00e3o com o espiritual de longo prazo. Para o autor, esse homem racional seria um \u201cego\u00edsta materialista c\u00e9tico\u201d. Nesse sentido, defende uma ordem social hier\u00e1rquica baseada no \u201cconhecimento\u201d e na \u201cvirtude\u201d. A obra de Buckley\u00a0<i>God and Man at Yale<\/i>\u00a0(<a href=\"https:\/\/www.skyhorsepublishing.com\/9781684512362\/god-and-man-at-yale\/\" rel=\"external noopener noreferrer\">Skyhorse Publishing, 2021<\/a>) versa sobre a universidade por ele frequentada (que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro) e que, naquele per\u00edodo, promovia uma maior abertura e liberdade acad\u00eamica para os seus professores. Para o autor, ao fazer isso, Yale estava priorizando a ci\u00eancia em detrimento da moralidade e da f\u00e9, portanto estava enfraquecendo propositadamente a f\u00e9 crist\u00e3 dos seus alunos, ao mesmo tempo em que promovia a \u201ccoletiviza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica\u201d. A cr\u00edtica, bom lembrar, n\u00e3o se restringia a Yale, mas \u00e0 sociedade em geral \u2013 cada vez mais secular, igualit\u00e1ria e \u201cmoderna\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 a obra\u00a0<i>The Conservative Mind<\/i>\u00a0(<a href=\"https:\/\/www.regnery.com\/9780895261717\/the-conservative-mind\/\" rel=\"external noopener noreferrer\">Regnery, 2001<\/a>), de Russel Kirk, elenca alguns princ\u00edpios conservadores. Dentre eles, a) a ideia de que o divino rege a sociedade, b) a convic\u00e7\u00e3o de que uma sociedade civilizada requer ordem e classes e que a \u00fanica igualdade \u00e9 a igualdade moral; e c) o entendimento de que propriedade e liberdade est\u00e3o sempre conectadas. De fato, Kirk critica o estado de bem-estar social e o \u201ccoletivismo\u201d a partir da religi\u00e3o. Nesse sentido, entende que as pessoas, criadas por Deus, s\u00e3o desiguais em todos os aspectos. Portanto, romper com essa desigualdade feria princ\u00edpios religiosos. Por fim, a obra\u00a0<i>Quest for Community<\/i>\u00a0(<a href=\"https:\/\/www.regnery.com\/9781935191506\/the-quest-for-community\/\" rel=\"external noopener noreferrer\">Regnery, 2010<\/a>), do soci\u00f3logo Robert Nisbet, defende um retorno \u00e0s comunidades e grupos comunais. Por ser social, o indiv\u00edduo precisa satisfazer sua necessidade de pertencimento de alguma forma. At\u00e9 o advento da sociedade moderna, ele satisfazia-as nas escalas locais de associa\u00e7\u00e3o: fam\u00edlia, igreja e vizinhan\u00e7a, por exemplo. Mas, com a \u201cmodernidade\u201d e a expans\u00e3o do estado de bem-estar social, essas institui\u00e7\u00f5es teriam perdido espa\u00e7o para a autoridade no Estado que, com tantos \u201cs\u00faditos servis\u201d, tornar-se-ia totalit\u00e1rio. Por tr\u00e1s desse v\u00e9u virtuoso, entretanto, a preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 com a perda dos seus espa\u00e7os privilegiados, como homens brancos ocidentais de uma classe social elevada.<\/p>\n<p><b>2) Frente ativista\/social<\/b><\/p>\n<p>A frente ativista, ou social, desempenhou um papel importante para capturar \u201ccora\u00e7\u00f5es e mentes\u201d na sociedade estadunidense. A atua\u00e7\u00e3o se organizava, sobretudo, em associa\u00e7\u00f5es locais no \u00e2mbito da igreja e, no \u00e2mbito trabalhista, nas empresas empregat\u00edcias.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950, o pastor James Fifield e o empres\u00e1rio Howard Pew lan\u00e7am a Spiritual Mobilization como uma tentativa de frear a ascens\u00e3o de pastores \u201cliberais\u201d em igrejas evang\u00e9licas a partir do \u201censino\u201d sobre os \u201cperigos\u201d do estado de bem-estar social \u2013 que atrelavam ao comunismo \u201cateu\u201d. Com recursos financeiros de grandes empres\u00e1rios, c\u00f3pias de livros de economistas da Escola Austr\u00edaca eram enviadas para os pastores junto com doa\u00e7\u00f5es para suas igrejas. O objetivo da Spiritual Mobilization, assim como de outras organiza\u00e7\u00f5es com esse perfil, n\u00e3o era necessariamente o de adentrar no aspecto religioso, ou de \u201csalvar almas\u201d efetivamente; mas uma tentativa de revitalizar o capitalismo, a partir da legitimidade da igreja e de princ\u00edpios religiosos. Ou seja, era uma tentativa de justificar o capitalismo que penalizava, punia e violentava a maior parte da popula\u00e7\u00e3o, a partir da religi\u00e3o. Outros empres\u00e1rios e pastores seguiriam esse mesmo caminho, a exemplo de Jerry Falwell (<em>foto abaixo<\/em>), na d\u00e9cada de 1970, com a cria\u00e7\u00e3o da Moral Majority, entre outros.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/thumb\/b\/b2\/President_Ronald_Reagan_and_Jerry_Falwell.jpg\/1280px-President_Ronald_Reagan_and_Jerry_Falwell.jpg\" alt=\"undefined\" \/><\/p>\n<p><em>(Arquivo) Reuni\u00e3o do ent\u00e3o presidente Ronald Reagan com Jerry Falwell no Sal\u00e3o Oval, na Casa Branca, em Washington, D.C., em 15 mar. 1983 (<a href=\"https:\/\/catalog.archives.gov\/id\/75852701\" rel=\"noopener external noreferrer\">Fonte<\/a>: National Archives)<\/em><\/p>\n<p>Al\u00e9m da frente religiosa, v\u00e1rias empresas participaram desse movimento conservador que buscava fazer frente a pol\u00edticas de bem-estar social. O motivo era \u00f3bvio: com o aumento e o fortalecimento dos sindicatos, maiores direitos trabalhistas, diminui\u00e7\u00e3o do desemprego e aumento do sal\u00e1rio m\u00e9dio, os empres\u00e1rios lucravam cada vez menos. Nesse sentido, algumas empresas inovaram. Ao perceberem seus empregados como importante p\u00fablico-eleitor, passaram a oferecer um programa de ensino para \u201creeduca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d. Esse foi o caso da General Electric (GE) em 1950 \u2013 na \u00e9poca, a terceira maior empresa empregat\u00edcia dos EUA, com quase 200 mil funcion\u00e1rios. Sob a coordena\u00e7\u00e3o de Lemuel Boulware, a empresa passou a separar parte do hor\u00e1rio de trabalho para salas de aula improvisadas, onde um coordenador da empresa exercia o papel de professor. Distribu\u00eda para seus oper\u00e1rios obras de economistas da Escola Austr\u00edaca, artigos publicados por membros da Sociedade Mont P\u00e9lerin e uma esp\u00e9cie de jornal da empresa que traduzia aspectos mais t\u00e9cnicos de Economia em uma linguagem mais acess\u00edvel. Como o rosto desse programa, a GE contratou em 1954 um conhecido ator de cinema: Ronald Reagan. Reagan percorria as f\u00e1bricas da empresa, dando palestras para os funcion\u00e1rios acerca dos benef\u00edcios do livre-mercado e do capitalismo e os perigos do comunismo. Foi a partir das constantes palestras em ch\u00e3o de f\u00e1brica, que o ator de cinema passou para a pol\u00edtica, sendo eleito como representante desse mesmo movimento conservador que ele ajudou a orquestrar.<\/p>\n<p>Por fim, a frente ativista e empresarial se funde com a acad\u00eamica no \u00e2mbito dos\u00a0<i>think tanks<\/i>. Algumas dessas institui\u00e7\u00f5es \u2013 como o American Enterprise Institute, formado por empres\u00e1rios; a Young Americans for Freedom, criada em 1960 a partir de encontros de jovens estudantes na casa de William Buckley; e a Heritage Foundation, fundada para fazer\u00a0<i>lobby<\/i>\u00a0no Congresso e para a proposi\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas \u2013 se organizam em prol da divulga\u00e7\u00e3o de manifestos e de agendas pol\u00edticas espec\u00edficas. Nesse sentido, uma terceira frente mais aliada aos neoconservadores toma forma e vai atuar diretamente na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica.<\/p>\n<p><b>3) Frente pol\u00edtica a partir dos neoconservadores<\/b><\/p>\n<p>Atrelada a esses\u00a0<i>think tanks<\/i>, a frente pol\u00edtica se funde tamb\u00e9m com a acad\u00eamica. Os primeiros neoconservadores (Irving Kristol, Daniel Bell, Nathan Glazer, Seymour Lipset, Norman Podhoretz e Daniel Moynihan) eram estudantes e se consideravam trotskistas at\u00e9 a d\u00e9cada de 1950. Colocavam-se como \u201csocialistas n\u00e3o comunistas\u201d. Por serem trotskistas, tinham uma profunda avers\u00e3o pela condu\u00e7\u00e3o da URSS stalinista \u2013 motivo pelo qual passaram a defender pol\u00edticas anticomunistas. Esse grupo foi respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de revistas acad\u00eamicas e de\u00a0<i>think tanks<\/i>, assim como pela atua\u00e7\u00e3o direta na pol\u00edtica. O movimento cresceu e passou a integrar uma segunda gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 se percebia dentro do movimento conservador e dentro do Partido Republicano. Na pol\u00edtica, conduziam uma agenda que defendia um maior confronto com a URSS e, por conta disso, maior valoriza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas estadunidenses. Passaram a ocupar posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas estrat\u00e9gicas nas administra\u00e7\u00f5es republicanas, sobretudo, a partir da elei\u00e7\u00e3o de Reagan e de George W. Bush \u2013 a exemplo de Richard Perle, Jeane Kirkpatrick, Elliott Abrams, Paul Wolfowitz, Richard Allen, Robert Kagan (<em>foto abaixo<\/em>) e William Kristol.<\/p>\n<h5><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/live.staticflickr.com\/4788\/26937153018_e1ab5272aa_b.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Robert Kagan, senior fellow in the Foriegn Policy program \u2026 | Flickr\" \/><\/h5>\n<p><em>(Arquivo) Robert Kagan, na Brookings Institution, em Washington, D.C., em 12 mar. 2018 (<a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/96739999@N05\/26937153018\" rel=\"noopener external noreferrer\">Cr\u00e9dito<\/a>: Paul Morigi\/Flickr)<\/em><\/p>\n<p>Podemos entender que esse movimento conservador atrelado \u00e0 segunda metade do s\u00e9culo XX fora organizado em diversas frentes (como acad\u00eamica, social, trabalhista e pol\u00edtica) com tem\u00e1ticas espec\u00edficas, mas da perspectiva de um inimigo muito claro: a amea\u00e7a comunista no \u00e2mbito global e, nos Estados Unidos, o estado de bem-estar social. Nesse sentido, podemos sintetizar que o movimento conservador durante a segunda metade do s\u00e9culo XX se pautava pela\u00a0<b>a)<\/b>\u00a0retomada de valores tradicionais \u201cmorais\u201d e religiosos;\u00a0<b>b)<\/b>\u00a0defesa do capitalismo em contraposi\u00e7\u00e3o ao comunismo; e\u00a0<b>c)<\/b>\u00a0valoriza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas e de pol\u00edtica intervencionista no exterior. Para isso, utilizavam-se de t\u00e9cnicas educativas e acad\u00eamicas \u2013 seja pelo envio de livros, pela cria\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>think tanks<\/i>\u00a0ou pelo estabelecimento de programas educacionais tanto nas empresas quanto nas igrejas. Nesse sentido, apresentava um car\u00e1ter que pode ser considerado elitista e acad\u00eamico e organizado para adentrar nos canais institucionais tradicionais da pol\u00edtica estadunidense.<\/p>\n<p><b>SEGUNDA PARTE: Trump e trumpismo<\/b><\/p>\n<p>A partir de 2009 e, em espec\u00edfico em 2016, com a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump pelo Partido Republicano, a percep\u00e7\u00e3o de um movimento trumpista de direita (ou de extrema direita) ganha for\u00e7a. Representando o movimento, o ent\u00e3o candidato \u00e0 Presid\u00eancia n\u00e3o fazia parte do quadro da pol\u00edtica tradicional. Considerado\u00a0<i>outsider<\/i>, averso a quest\u00f5es religiosas, o empres\u00e1rio era figura conhecida de\u00a0<i>reality show<\/i>\u00a0e, como eleitor, chegou a ser registrado no Partido Democrata. Al\u00e7ou candidatura como independente, mas galvanizou apoio popular para ocupar o cargo de presidente dos EUA pelo Partido Republicano em 2016, 2020 e 2024. Nesse sentido, vejamos alguns fatores importantes para se levar em considera\u00e7\u00e3o e entender a vit\u00f3ria do Trump e do trumpismo:<\/p>\n<p><b>a)<\/b>\u00a0O contexto em que disputa a elei\u00e7\u00e3o de 2016 contra o governo Obama representava uma crescente polariza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica;<\/p>\n<p><b>b)<\/b>\u00a0O surgimento de movimentos supostamente populares no \u00e2mbito conservador (e, por vezes reacion\u00e1rios) que tomam as ruas, que demandam mudan\u00e7as e que se organizam localmente. A maior express\u00e3o desses movimentos \u00e9 o Tea Party, a partir de 2009;<\/p>\n<p><b>c)<\/b>\u00a0O uso de\u00a0<i>Big Data<\/i>\u00a0durante as campanhas que, mesmo com menos recurso que o Partido Democrata, galvanizou apoio eleitoral ao focar em determinados setores eleitorais. Assim, direcionou esfor\u00e7os e recursos para setores espec\u00edficos da popula\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>e\u00a0<b>d)<\/b>\u00a0O voto de protesto que foi capturado por Trump. Nesse sentido, ganha voto de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 insatisfeita com a pol\u00edtica tradicional \u2013\u00a0considerada corrupta, elitizada\u00a0e longe da realidade de grande parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trump fez um movimento distinto dos candidatos tradicionais na pol\u00edtica estadunidense. Seu discurso tratava dos anseios de parte importante da popula\u00e7\u00e3o dos EUA atrelado, sobretudo, \u00e0 classe trabalhadora e pobre; e de uma maneira que chamava a aten\u00e7\u00e3o. O uso dos esc\u00e2ndalos, dos palavr\u00f5es e das teorias da conspira\u00e7\u00e3o dava publicidade e servia de chamariz para sua candidatura, mobilizavando o clima de insatisfa\u00e7\u00e3o dessa parcela da popula\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica. De fato, a mensagem era uma que dialogava fortemente com a classe trabalhadora e pobre que n\u00e3o se sentia representada nem pelos democratas nem pelos republicanos, tampouco pelo movimento conservador tradicional.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o Cintur\u00e3o da Ferrugem (<i>Rust Belt<\/i>) \u2013 local que compreende os Grandes Lagos e que foi o ber\u00e7o da manufatura pesada nos EUA. Base industrial e motivo de orgulho dos estadunidenses que viveram o \u201cSonho Americano\u201d durante boa parte da segunda metade do s\u00e9culo passado, seus eleitores tradicionalmente votavam nos democratas. Com a sa\u00edda das ind\u00fastrias que ali operavam para a \u00c1sia e mesmo para o M\u00e9xico e, portanto, com o aumento do desemprego, da decad\u00eancia econ\u00f4mica e da criminalidade, essa parcela da popula\u00e7\u00e3o, tradicionalmente operariada, sem educa\u00e7\u00e3o superior e que se viu desempregada, passa a votar no Partido Republicano por conta da candidatura de Donald Trump. Na elei\u00e7\u00e3o de 2024, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de Illinois, todos os outros estados do\u00a0<i>Rust Belt<\/i>\u00a0escolheram Trump.<\/p>\n<h5><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/live.staticflickr.com\/65535\/49947491217_a5e5179d4b_b.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Remains of the Rust Belt 4 (DSC_3861-2) | tmac ohio | Flickr\" \/><\/h5>\n<p><em>(Arquivo)\u00a0Rust Belt: um registro de Ohio, em 25 de maio de 2020 (<a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/tmac_ohio\/49947491217\/\" rel=\"noopener external noreferrer\">Cr\u00e9dito<\/a>: tmac_ohio\/Flickr)<\/em><\/p>\n<p>A figura de Trump traz uma esp\u00e9cie de atualiza\u00e7\u00e3o conservadora, n\u00e3o \u00e0 toa chamada de trumpismo. Tratando diretamente com essa parcela da popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 ressentida e desesperan\u00e7osa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica e aos partidos pol\u00edticos tradicionais, Trump se coloca como algo distinto que rompe com uma estrutura considerada elitizada e oferece o retorno do Sonho Americano \u2013 o\u00a0<i>Make America Great Again<\/i>.\u00a0Nesse sentido, seu discurso busca a retomada dos empregos nacionais, a volta das empresas e ind\u00fastrias estadunidenses e mesmo o fim de acordos multilaterais. Por um lado, temos um discurso baseado na valoriza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria nacional com empregos locais, portanto um certo protecionismo; ao mesmo tempo que um certo isolacionismo no exterior. O foco passa a ser mais material e menos abstrato e mais centrado no dom\u00e9stico e menos no exterior. Ele fala diretamente com os anseios dessa classe social. Trump \u00e9, assim, o grande respons\u00e1vel por retirar do Partido Democrata a base trabalhadora operariada.<\/p>\n<p>Trump e o trumpismo representam profundas diferen\u00e7as em compara\u00e7\u00e3o com o movimento conservador tradicional nos EUA. No \u00e2mbito da agenda pol\u00edtica, ainda que mantenha a busca pela retomada de valores \u201cmorais\u201d, h\u00e1 menos apelo \u00e0 religi\u00e3o. Diferentemente do movimento conservador que ascendia na d\u00e9cada de 1950, o discurso n\u00e3o se pauta pela defesa do capitalismo, ou do livre-mercado, em oposi\u00e7\u00e3o ao comunismo. A \u00eanfase agora passa a ser a retomada de investimentos para o retorno de empresas e ind\u00fastrias nacionais em um estado relativamente protecionista. Tampouco se mant\u00e9m a defesa do complexo industrial-militar, a partir da conten\u00e7\u00e3o de amea\u00e7as externas. Pelo contr\u00e1rio, a pol\u00edtica externa trumpista \u00e9 bastante seletiva no seu engajamento internacional.<\/p>\n<p>Assim como a agenda, as t\u00e9cnicas usadas tamb\u00e9m diferem do movimento conservador tradicional. Faz-se uso agora de ferramentas informacionais (ainda que n\u00e3o seja pass\u00edvel de compara\u00e7\u00e3o, visto que n\u00e3o havia esse recurso na \u00e9poca) que se dirigem a determinados setores sociais espec\u00edficos; e de um discurso simplista com bord\u00f5es, falas curtas e teorias da conspira\u00e7\u00e3o. Pouco se assemelha e se relaciona com um discurso acad\u00eamico ou elitizado. Por fim, atua n\u00e3o a partir dos canais institucionais, como foi o caso do movimento conservador do s\u00e9culo XX. O trumpismo se assenta na ideia de ruptura com a pol\u00edtica e com os canais institucionais, entendendo-os como corruptos e elitizados.<\/p>\n<p>Dito isso, fica claro que s\u00e3o importantes as diferen\u00e7as entre o movimento conservador do s\u00e9culo XX e o trumpismo do s\u00e9culo XXI. E, se vamos tratar Trump e seu movimento como conservador, \u00e9 preciso, primeiramente, qualificar melhor o termo. Ao fim, Trump ocupa um v\u00e1cuo deixado pela falta de uma esquerda politicamente competitiva nos EUA e nos faz refletir acerca dos nossos desafios no Brasil.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ineu.org.br\/pesquisadores\/?pesquisador=camila-vidal\" rel=\"external noopener noreferrer\">Camila Feix Vidal<\/a>\u00a0\u00e9 professora no Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e faz parte do Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), do Grupo de Pesquisa em Estudos Estrat\u00e9gicos e Pol\u00edtica Internacional Contempor\u00e2nea (GEPPIC), do Instituto de Estudos para Am\u00e9rica Latina (IELA\/UFSC) e do Instituto Mem\u00f3ria e Direitos Humanos (IMDH\/UFSC). Contato:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.opeu.org.br\/2025\/01\/08\/trump-e-trumpismo-uma-nova-direita-nos-estados-unidos\/mailto:camila.vidal@ufsc.br\">camila.vidal@ufsc.br<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.opeu.org.br\/2025\/01\/08\/trump-e-trumpismo-uma-nova-direita-nos-estados-unidos\/mailto:camilafeixvidal@gmail.com\">camilafeixvidal@gmail.com<\/a>.<\/p>\n<p>** Revis\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o final:\u00a0<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9976432688826486\" rel=\"external noopener noreferrer\">Tatiana Teixeira<\/a>. Primeira vers\u00e3o recebida em 23 dez. 2024. Este conte\u00fado n\u00e3o reflete, necessariamente, a opini\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.opeu.org.br\/\">OPEU<\/a>, ou do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ineu.org.br\/\" rel=\"external noopener noreferrer\">INCT-INEU<\/a>.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Trump e trumpismo: uma nova direita nos Estados Unidos?\u00a0 &#8211; OPEU &#8211; https:\/\/www.opeu.org.br\/2025\/01\/08\/trump-e-trumpismo-uma-nova-direita-nos-estados-unidos\/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=trump-e-trumpismo-uma-nova-direita-nos-estados-unidos<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Vidal &#8211; O Projeto 2025, que incorpora a transi\u00e7\u00e3o da Presid\u00eancia de Joe Biden para o rec\u00e9m-eleito Donald Trump, trata, j\u00e1 no seu pre\u00e2mbulo, de uma \u201cpromessa conservadora\u201d. 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