{"id":24639,"date":"2025-05-09T12:03:36","date_gmt":"2025-05-09T15:03:36","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24639"},"modified":"2025-04-25T11:06:54","modified_gmt":"2025-04-25T14:06:54","slug":"o-marxismo-neoliberal-da-usp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/05\/09\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/","title":{"rendered":"O marxismo neoliberal da USP"},"content":{"rendered":"<p><strong>LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA* &#8211; <\/strong>F\u00e1bio Mascaro Querido acaba de dar uma not\u00e1vel contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria intelectual do Brasil ao publicar \u201cLugar perif\u00e9rico, ideias modernas\u201d, no qual estuda o que ele denomina \u201cmarxismo acad\u00eamico da USP.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Mascaro Querido acaba de publicar\u00a0<em>Lugar perif\u00e9rico, ideias modernas<\/em>, no qual estuda o que ele denomina \u201cmarxismo acad\u00eamico da USP\u201d \u2013 um grupo de intelectuais que, nos anos 1960, se aproximou do marxismo, que surgira com for\u00e7a na Europa no ap\u00f3s-guerra e alcan\u00e7ara o Brasil. Esses intelectuais, principalmente soci\u00f3logos, criaram o \u201cSemin\u00e1rio Marx\u201d ou \u201cGrupo do Capital\u201d para estudar Marx, o qual, sob a lideran\u00e7a de Fernando Henrique Cardoso, teve duas vers\u00f5es, a primeira, em 1958, puramente acad\u00eamica, e a segunda, de car\u00e1ter mais pol\u00edtico, ap\u00f3s o golpe militar de 1964.<\/p>\n<p>Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 1995, o semin\u00e1rio se tornou c\u00e9lebre, sempre citado pela imprensa conservadora de maneira simp\u00e1tica, porque os autores envolvidos j\u00e1 haviam abandonado h\u00e1 tempo o marxismo. F\u00e1bio Mascaro Querido diz que esse foi o \u201cmito fundador\u201d do grupo.<\/p>\n<p>O n\u00facleo do grupo \u2013 aqueles que proponho chamar de \u201cmarxistas neoliberais\u201d \u2013 foi constitu\u00eddo por Fernando Henrique Cardoso, Jos\u00e9 Arthur Giannotti e Francisco Weffort. Trata-se de um oximoro que se aplica bem a eles, que se encantaram com o marxismo nos anos 1960, quando ainda estava viva a esperan\u00e7a na revolu\u00e7\u00e3o socialista. Tornaram esse marxismo menos contradit\u00f3rio e revolucion\u00e1rio, e definiram os dois mais importantes soci\u00f3logos dos anos 1950, Gilberto Freyre em Pernambuco e Guerreiro Ramos no Rio de Janeiro como seus advers\u00e1rios. Em 1963, Guerreiro Ramos manifestou seu \u201cestarrecimento ante o ins\u00f3lito fato de se ter constitu\u00eddo no Brasil uma \u2018esquerda\u2019 contrarrevolucion\u00e1ria, cujo suporte \u00e9 a metaf\u00edsica da revolu\u00e7\u00e3o\u201d (Guerreiro, 1963: 15). Ele se referia \u00e0 fase final do ISEB, mas aplicava-se tamb\u00e9m ao marxismo neoliberal da USP daquela \u00e9poca.<a id=\"_ednref1\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_edn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Um caso cl\u00e1ssico de competi\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Concentraram seu ataque em Guerreiro Ramos porque era desenvolvimentista, como, ali\u00e1s, tamb\u00e9m eram Celso Furtado, Helio Jaguaribe e Ignacio Rangel \u2013 todos do ISEB.<a id=\"_ednref2\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_edn2\">[2]<\/a>\u00a0Em 1963, Fernando Henrique Cardoso defendeu sua livre-doc\u00eancia \u2013 um livro escrito especialmente para demonstrar que no Brasil n\u00e3o havia uma burguesia nacional \u2013 uma tese central dos desenvolvimentistas que defendiam uma coaliz\u00e3o de classes associando empres\u00e1rios industriais nacionalistas, os trabalhadores urbanos e a burocracia p\u00fablica moderna.<\/p>\n<p>No final dos anos 1960, Fernando Henrique Cardoso abandonou o marxismo e desenvolveu a \u201cteoria da depend\u00eancia associada\u201d, que defendia a subordina\u00e7\u00e3o do Brasil ao Imp\u00e9rio, embora n\u00e3o deixasse isto claro.<a id=\"_ednref3\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_edn3\">[3]<\/a>\u00a0Mas os americanos compreenderam muito bem, o que permitiu que a depend\u00eancia associada lograsse repercuss\u00e3o internacional, embora muitos dos que a divulgavam n\u00e3o compreendessem seu car\u00e1ter \u201cassociado\u201d. Em s\u00edntese, no final dos anos 1960, eles supunham ser marxistas mas j\u00e1 eram quase liberais, e nos anos 1990 tornaram-se de vez neoliberais.<\/p>\n<p>A denomina\u00e7\u00e3o marxismo neoliberal naturalmente n\u00e3o se aplica a Roberto Schwarz e Chico de Oliveira, que eram do grupo, nem a Oct\u00e1vio Ianni e Florestan Fernandes, que n\u00e3o eram realmente do grupo. Florestan Fernandes foi o mestre de todos; foi o maior soci\u00f3logo que a USP j\u00e1 teve; inicialmente associou-se \u00e0 sociologia da moderniza\u00e7\u00e3o, e depois, indignado com o que via no Brasil, tornou-se um marxista revolucion\u00e1rio. F\u00e1bio Mascaro Querido naturalmente n\u00e3o usa essa express\u00e3o porque ele era antes um admirador do que um cr\u00edtico do marxismo neoliberal.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Mascaro Querido distingue Roberto Schwarz dos demais, que permaneceu marxista atrav\u00e9s dos anos, e, como afirma ele, \u201cradicalizou a dimens\u00e3o \u2018negativa\u2019 da cr\u00edtica.\u201d Como cr\u00edtico liter\u00e1rio e escritor, ele n\u00e3o se preocupou em propor pol\u00edticas, nem fez concess\u00f5es para ser aceito no seu entorno. Ao contr\u00e1rio do n\u00facleo duro do grupo, Roberto Schwartz continuou nacionalista como fora antes dele seu grande mestre, Antonio Candido. E se associou a Paulo Arantes, um cr\u00edtico do marxismo neoliberal. Entre todos, \u00e9 o \u00fanico que, no plano te\u00f3rico, \u00e9 reconhecido internacionalmente.<a id=\"_ednref4\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_edn4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>F\u00e1bio Mascaro Querido usou o pensamento de Roberto Schwarz como uma refer\u00eancia ou fio condutor do livro e dedicou-lhe dois excelentes cap\u00edtulos. Salientou o amplo papel que teve Theodor Adorno em seu pensamento, como tamb\u00e9m a cr\u00edtica da moderniza\u00e7\u00e3o realizada por Robert Kurz em 1991, em um momento em que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica estava entrando em colapso.<a id=\"_ednref5\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_edn5\">[5]<\/a>\u00a0F\u00e1bio Mascaro Querido deu pouca import\u00e2ncia ao nacionalismo do cr\u00edtico que contradiz a sua perspectiva negativa, mas no final do segundo ensaio citou um texto significativo: \u201ca \u00faltima palavra n\u00e3o pertence \u00e0 na\u00e7\u00e3o, nem \u00e0 hegemonia ideol\u00f3gica internacional, mas pertence ao presente conflituado que as atravessa\u201d.<a id=\"_ednref6\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_edn6\">[6]<\/a>\u00a0Este presente conflituado \u00e9 o da luta de classes dos grupos de interesse espec\u00edficos para este ou aquele problema.<\/p>\n<p>Nos anos 1960 e 1970, o n\u00facleo neoliberal-marxista e, mais amplamente, a esquerda antivarguista combateram o desenvolvimentismo nacionalista porque pretendiam ser revolucion\u00e1rios, enquanto o desenvolvimentismo implicava um compromisso da classe trabalhadora e da esquerda social-democr\u00e1tica com a burguesia. O n\u00facleo acad\u00eamico neoliberal-marxista seguiu o mesmo caminho; ao contr\u00e1rio da vis\u00e3o desenvolvimentista, pretendia n\u00e3o fazer concess\u00f5es; acabou concedendo tudo anos 1990, quando se tornou neoliberal. E a esquerda antivarguista combateu-o porque ela definiu um \u201cculpado interno\u201d pela derrota: haviam sido os desenvolvimentistas, que ao inv\u00e9s de serem revolucion\u00e1rios, haviam apostado em um acordo da classe trabalhadora com a burguesia industrial intermediado pela burocracia p\u00fablica.<\/p>\n<p>O n\u00facleo s\u00f3 passou a ter alguma relev\u00e2ncia a partir do golpe militar de 1964 \u2013 da grande derrota da social-democracia desenvolvimentista que aconteceu ent\u00e3o. Derrotados os advers\u00e1rios gra\u00e7as ao golpe, estava agora na hora dos soci\u00f3logos da USP assumirem o comando intelectual da esquerda. Coisa que fizeram, embora estivessem caminhando para deixar de ser de esquerda. No cap\u00edtulo 2 \u201cA Revanche dos Paulistas\u201d, F\u00e1bio Mascaro Querido relata a nova fase. Na partida anterior, os desenvolvimentistas estavam no poder, os marxistas neoliberais estavam simplesmente fora do jogo. Em 1964, entraram no jogo, tornaram bem conhecidos, lideraram grande parte da esquerda, e esta deixou de ser nacionalista. \u00c9 preciso, por\u00e9m, considerar que a esquerda sempre teve dificuldade de adotar posi\u00e7\u00f5es nacionalistas ou desenvolvimentistas, pois acreditava na possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista no curto prazo.<\/p>\n<p>Eles estavam fora do jogo, mas desesperados para entrar, especialmente para derrotar os dois mais importantes soci\u00f3logos dos anos 1950, Guerreiro Ramos e Gilberto Freyre. O golpe militar encarregou-se de derrotar Guerreiro ao cassar seu mandato de deputado federal e por dez anos, seu direito de se recanditar. Enquanto Celso Furtado foi exilado, ele e seus companheiros do ISEB, Jaguaribe e Rangel, foram submetidos a intenso ataque pela esquerda alienada para qual o nacional-desenvolvimentismo associado a Get\u00falio Vargas era inaceit\u00e1vel. Isto, al\u00e9m do ataque pela direita.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo foi o livro de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto,\u00a0<em>Depend\u00eancia e desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina<\/em>\u00a0(1969),<a id=\"_ednref7\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_edn7\">[7]<\/a>\u00a0no qual a depend\u00eancia se torna a causa do desenvolvimento ao inv\u00e9s do obst\u00e1culo. Era a \u201cteoria da depend\u00eancia associada\u201d que surgia. A nova verdade, que se espalhou rapidamente por toda a esquerda intelectual, afirmava taxativamente que uma coaliz\u00e3o de classes desenvolvimentista associando os empres\u00e1rios industriais \u00e0s esquerdas e \u00e0 classe trabalhadora era imposs\u00edvel. A burguesia n\u00e3o existia nem poderia existir. (Na verdade, a burguesia industrial desenvolvimentista existiu no Brasil em dois breves per\u00edodos [1950-1964 e 1967-1980]).<\/p>\n<p>Mas a falta de uma burguesia nacionalista n\u00e3o era problema, porque o chamado Imp\u00e9rio era na verdade apenas um hegemon benevolente, suas empresas multinacionais estavam contribuindo para o desenvolvimento do pa\u00eds, e bastava que o Brasil se associasse a ele que se desenvolveria. N\u00e3o foi isto que aconteceu: em 1990 a submiss\u00e3o aconteceu, em 1995, se aprofundou, e o pa\u00eds entrou em quase-estagna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o se imagine, por\u00e9m, que os intelectuais nacionalistas e desenvolvimentistas escaparam do ataque de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, ainda que esse ataque n\u00e3o fosse perfeitamente claro. Em um primeiro momento, a CEPAL de Ra\u00fal Prebisch e Celso Furtado percebeu que estava sob ataque, e n\u00e3o quis publicar o livro atrav\u00e9s do ILPES; mais tarde, por\u00e9m, ela se adaptou \u00e0 cr\u00edtica, acomodou-se ao Imp\u00e9rio e perdeu qualquer relev\u00e2ncia no plano das ideias. A CEPAL somente existiu como uma ideia \u2013 a do desenvolvimentismo estruturalista cl\u00e1ssico voltado para a industrializa\u00e7\u00e3o \u2013 entre 1949 e 1960 sob o comando de Ra\u00fal Prebisch. Em 1964, os desenvolvimentistas foram derrotados e obrigados a ficar silenciosos. No come\u00e7o dos anos 1970 a CEPAL abandonou o desenvolvimentismo.<\/p>\n<p>Nos anos 1970, essa mesma esquerda, desprevenida, deixou-se envolver pelas ideias propostas por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto. No plano econ\u00f4mico, essas ideias foram aceitas, provavelmente porque a ideia de associa\u00e7\u00e3o ao Imp\u00e9rio n\u00e3o estava clara no livro e nos trabalhos que seguiram. E porque a esquerda estava ressentida com o golpe de 1964.<\/p>\n<p>Por outro lado, a vers\u00e3o realmente marxista da teoria da depend\u00eancia, de Andr\u00e9 Gunder Frank, Ruy Mauro Marini e Theot\u00f4nio dos Santos tamb\u00e9m equivocada porque contava com a revolu\u00e7\u00e3o socialista na Am\u00e9rica Latina no curto prazo. Essa vers\u00e3o sofreu um ataque violento e injusto em artigo assinado por Jos\u00e9 Serra e o pr\u00f3prio Fernando Henrique Cardoso.<a id=\"_ednref8\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_edn8\">[8]<\/a>\u00a0Creio que a iniciativa tenha sido mais de Jos\u00e9 Serra do que de Fernando Henrique, porque este \u00e9 um homem da melhor qualidade cuja personalidade \u00e9 incompat\u00edvel com uma atitude como aquela.<\/p>\n<p>Em 1970, sob a lideran\u00e7a de Fernando Henrique Cardoso, e com apoio da\u00a0<em>Ford Foundation<\/em>, o Cebrap foi criado. Logo ele se torna o grande centro de estudos em defesa da democracia e de cr\u00edtica \u00e0 desigualdade. \u00c9 nessa \u00e9poca que sou convidado a ser membro do Conselho da nova entidade de pesquisa, e me junto a eles. Eu estava isolado na Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas e precisava de di\u00e1logo. Percebia que minhas ideias desenvolvimentistas n\u00e3o eram ali bem vistas, mas fui muito bem recebido, comunguei com eles a luta contra a ditadura e pela diminui\u00e7\u00e3o da desigualdade, e me senti bem no Cebrap, onde al\u00e9m dos intelectuais j\u00e1 citados, estavam figuras not\u00e1veis como Chico de Oliveira e Paul Singer. Lut\u00e1vamos todos contra o regime militar.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, por\u00e9m, muitas das coisas que eu estou aqui narrando n\u00e3o estavam claras para mim. Entre 1995 e 1999, eu participei do governo Fernando Henrique Cardoso, fui ministro da Administra\u00e7\u00e3o Federal e Reforma do Estado e da Ci\u00eancia e da Tecnologia e, sob influ\u00eancia das ideias que me envolviam, minhas convic\u00e7\u00f5es desenvolvimentistas e meu interesse pelo marxismo perderam for\u00e7a (mas apenas por algum tempo).\u00a0 Fiquei, por\u00e9m, decepcionado pelo car\u00e1ter neoliberal que assumiu a dire\u00e7\u00e3o da economia, e afinal em 2003, afinal revi minha posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a meu amigo Fernando Henrique, voltei a ler seu livro com Enzo Faletto, compreendi seu car\u00e1ter anti-nacional, e escrevi o ensaio \u201cDo ISEB e da CEPAL \u00e0 teoria da depend\u00eancia\u201d, publicado em 2005, cuja primeira c\u00f3pia eu entreguei a ele. N\u00e3o era um rompimento pessoal, mas intelectual; afinal eu havia compreendido o sentido de sua obra e de seu pensamento.<\/p>\n<p>Estimulado pelo excelente livro de F\u00e1bio Mascaro Querido, decidi nesta resenha voltar agora ao tema da hist\u00f3ria intelectual. Uma resenha mais cr\u00edtica do que fora o artigo de 2005 \u2013 uma cr\u00edtica ao marxismo neoliberal. Afinal, eu me pergunto, qual foi a contribui\u00e7\u00e3o ao Brasil desse grupo de soci\u00f3logos, cientistas pol\u00edticos e fil\u00f3sofos? Como compar\u00e1-lo com a contribui\u00e7\u00e3o dos desenvolvimentistas social-democr\u00e1ticos? Os desenvolvimentistas associaram-se a Vargas, ainda que ele tenha sido um ditador entre 1937 e 1945; associaram-se porque ele foi o grande estadista que promoveu a industrializa\u00e7\u00e3o e o grande desenvolvimento econ\u00f4mico do Brasil.<\/p>\n<p>Os principais desenvolvimentistas tiveram uma influ\u00eancia significativa na realiza\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o capitalista brasileira, que aconteceu entre 1930 e 1980. Alguns deles eram socialistas, mas sabiam que a revolu\u00e7\u00e3o socialista n\u00e3o era uma possibilidade realista. Enquanto isso, nossos marxistas neoliberais flertaram com a revolu\u00e7\u00e3o sem muito empenho, e mais tarde se associaram ao Imp\u00e9rio e se tornaram neoliberais.<\/p>\n<p>Na conclus\u00e3o do livro, F\u00e1bio Mascaro Querido afirma que enquanto os intelectuais do ciclo nacional-desenvolvimentista-popular das d\u00e9cadas de 1950 e 1960 estavam interessados em um projeto de moderniza\u00e7\u00e3o nacional (anti-imperialista, eu acrescentaria), \u201cos acad\u00eamicos paulistas expressavam a redefini\u00e7\u00e3o entre intelectuais e pol\u00edtica ocorrida na esteira das transforma\u00e7\u00f5es pelas quais passaram tanto a sociedade quanto a universidade brasileira, a partir dos anos 1970 (p. 261)\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja, eles lograram se adaptar \u00e0 realidade social e pol\u00edtica que os circundava, ao inv\u00e9s de tentar mud\u00e1-la. Algumas vezes eu vi Fernando Henrique, enquanto Presidente da Rep\u00fablica, agir procurando se adaptar ao que estava acontecendo ao inv\u00e9s procurar mold\u00e1-lo. Ele e seus companheiros eram mais soci\u00f3logos do que agentes republicanos. O livro de F\u00e1bio Mascaro Querido \u00e9 uma not\u00e1vel contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria intelectual do Brasil.<\/p>\n<p><strong>*Luiz Carlos Bresser-Pereira<\/strong><em>\u00a0\u00e9 professor Em\u00e9rito da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV-SP). Autor, entre outros livros, de<\/em>\u00a0Em busca do desenvolvimento perdido: um projeto novo-desenvolvimentista para o Brasil\u00a0<em>(Editora FGV)<\/em>\u00a0[<a href=\"https:\/\/amzn.to\/4c1Nadj\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/amzn.to\/4c1Nadj<\/a>]<\/p>\n<p>Vers\u00e3o ampliada de artigo publicado no jornal\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2025\/03\/fhc-supunha-ser-marxista-nos-anos-60-mas-ja-era-liberal.shtml\">Folha de S. Paulo<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Mascaro Querido.\u00a0<em>Lugar perif\u00e9rico, ideias modernas<\/em><em>\u00a0\u2013 aos intelectuais paulistas as batatas<\/em>. S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2024, 288 p\u00e1gs. [<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3CtWtX9\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/amzn.to\/3CtWtX9<\/a>]<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<p><a id=\"_edn1\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_ednref1\">[1]<\/a>\u00a0Guerreiro Ramos (1963) Mito e Verdade sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira, Rio de Janeiro: Zahar Editores.<\/p>\n<p><a id=\"_edn2\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_ednref2\">[2]<\/a>\u00a0Furtado era associado ao ISEB; os tr\u00eas outros parte do ISEB \u2013 o instituto que reuniu os principais intelectuais nacionalistas dos anos 1950.<\/p>\n<p><a id=\"_edn3\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_ednref3\">[3]<\/a>\u00a0N\u00e3o confundir a teoria da depend\u00eancia associada da teoria da depend\u00eancia de Andre Gunder Frank e Ruy Mauro Marini, que era realmente marxista.<\/p>\n<p><a id=\"_edn4\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_ednref4\">[4]<\/a>\u00a0A teoria da depend\u00eancia associada teve repercuss\u00e3o internacional, mas al\u00e9m de ser equivocada, n\u00e3o pode ser considerada uma teoria \u2013 \u00e9 apenas uma sofisticada (e pouco clara) justifica\u00e7\u00e3o de uma subordina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a id=\"_edn5\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_ednref5\">[5]<\/a>\u00a0Robert Kurz (1991 [1992])\u00a0<em>O Colapso da Moderniza\u00e7\u00e3o<\/em>, S\u00e3o Paulo: Paz e Terra. Original alem\u00e3o, 1991.<\/p>\n<p><a id=\"_edn6\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_ednref6\">[6]<\/a>\u00a0Querido, p. 246. Retirado de \u201cLeituras em competi\u00e7\u00e3o\u201d,\u00a0<em>Novos Estudos Cebrap<\/em>, 75, julho.<\/p>\n<p><a id=\"_edn7\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_ednref7\">[7]<\/a>\u00a0Cardoso, Fernando Henrique e Enzo Faletto (1969 [1970])\u00a0<em>Depend\u00eancia e Desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina<\/em>, S\u00e3o Paulo: Difus\u00e3o Europeia do Livro. Original em espanhol, 1969.<\/p>\n<p><a id=\"_edn8\" href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-marxismo-neoliberal-da-usp\/#_ednref8\">[8]<\/a>\u00a0Jos\u00e9 Serra e Fernando Henrique Cardoso (1979) \u201cAs desventuras da dial\u00e9tica da depend\u00eancia\u201d,\u00a0<em>Estudos CEBRAP<\/em>, n\u00b0. 23.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-50150\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/51OTZ4PHBXL._SY425_.jpg?resize=258%2C425&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 258px) 100vw, 258px\" srcset=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/51OTZ4PHBXL._SY425_.jpg 258w, https:\/\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/51OTZ4PHBXL._SY425_-182x300.jpg 182w, https:\/\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/51OTZ4PHBXL._SY425_-91x150.jpg 91w\" alt=\"\" width=\"258\" height=\"425\" \/><\/figure>\n<p>F\u00e1bio Mascaro Querido.\u00a0<em>Lugar perif\u00e9rico, ideias modernas \u2013 aos intelectuais paulistas as batatas<\/em>. 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