{"id":24614,"date":"2025-04-27T12:40:54","date_gmt":"2025-04-27T15:40:54","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24614"},"modified":"2025-05-01T19:05:39","modified_gmt":"2025-05-01T22:05:39","slug":"paradigmas-para-uma-economia-de-francisco-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/04\/27\/paradigmas-para-uma-economia-de-francisco-3\/","title":{"rendered":"Paradigmas para uma Economia de Francisco (3)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ladislau Dowbor &#8211; <\/strong>No plano das ideias, supera\u00e7\u00e3o do neoliberalismo j\u00e1 come\u00e7ou. Vale conhecer tr\u00eas de seus aspectos: a revaloriza\u00e7\u00e3o do papel do Estado; a supera\u00e7\u00e3o do conceito de PIB, prec\u00e1rio e amb\u00edguo; e a no\u00e7\u00e3o de que a desigualdade tornou-se um c\u00e2ncer<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/controversia.com.br\/2025\/04\/23\/paradigmas-para-uma-economia-de-francisco-1\/\">Parte 1<\/a>:\u00a0<\/strong><em>Diante do mal-estar com a desigualdade e devasta\u00e7\u00e3o do planeta, Papa convoca encontro para pensar nova economia. Caminhos para constru\u00ed-la: Renda Cidad\u00e3, Bens Comuns, Controle das Finan\u00e7as, Democracia Real e mais<\/em><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/controversia.com.br\/2025\/04\/25\/paradigmas-para-uma-economia-de-francisco-2\/\">Parte 2<\/a>: <\/strong><em>Relat\u00f3rio do Roosevelt Institute demonstra: cr\u00edtica ao neoliberalismo j\u00e1 se espalha muito al\u00e9m da esquerda. Desmoraliza\u00e7\u00e3o do projeto no Equador e Chile, e sua pr\u00f3xima queda na Argentina, poder\u00e3o acordar a esquerda brasileira?<\/em><\/p>\n<p><strong>O papel do Estado <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/paradigmas-para-uma-economia-de-francisco-3\/about:reader?url=http%3A%2F%2Fdowbor.org%2F2019%2F10%2Fladislau-dowbor-a-economia-desgovernada-novos-paradigmas-14-de-outubro-de-2019.html%2F#_ftn6\">[6]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>O melhor ant\u00eddoto para a farsa da privatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a leitura do livro de Mariana Mazzucato, que mostra, no seu\u00a0<em>O Estado Empreendedor<\/em>, que o refor\u00e7o das capacidades de gest\u00e3o p\u00fablica constitui a melhor garantia de um desenvolvimento equilibrado. Primeiro temos de equilibrar o imenso deslumbramento com as estrelas mundiais dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos. Os imensos avan\u00e7os na biotecnologia, por exemplo, surgem sobre a base de d\u00e9cadas de pesquisa fundamental desenvolvida no quadro do setor p\u00fablico: \u201cEm biotecnologia, nanotecnologia e internet, o capital de risco chegou 15-20 anos\u00a0<em>depois<\/em>\u00a0que os investimentos mais importantes tivessem sido feitos com fundos do setor p\u00fablico.\u201d (29)<\/p>\n<p>Estamos muito acostumados a glorificar por exemplo a efici\u00eancia da Apple, sem levar em conta o processo global de avan\u00e7o cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico gerado por meio dos sistemas p\u00fablicos de ensino e pesquisa: \u201cA genialidade e \u2018loucura\u2019 de Steve Jobs levaram a lucros e sucesso massivos, em grande parte porque foi poss\u00edvel \u00e0 Apple navegar na onda que sustentou o iPhone e o iPad: a Internet, o GPS, a tela de toque e as tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o. Sem essas tecnologias financiadas pelo setor p\u00fablico, n\u00e3o teria havido onda para surfar loucamente (<em>foolishly)<\/em>.\u201d(94) Assim, a t\u00e3o importante inova\u00e7\u00e3o nos processos modernos de desenvolvimento depende vitalmente de um equil\u00edbrio entre pesquisa fundamental e aplica\u00e7\u00f5es diretamente comerciais, gerando o que Mazzucato chama de \u201cecosistema de inova\u00e7\u00e3o\u201d.(194)<\/p>\n<p>Mas esta complementariedade se deforma radicalmente quando se constata que as grandes corpora\u00e7\u00f5es aproveitam-se das inova\u00e7\u00f5es desenvolvidas com fundos p\u00fablicos, mas se recusam a pagar impostos. Com a globaliza\u00e7\u00e3o, as amplas facilidades geradas pelos para\u00edsos fiscais, o fato de os recursos financeiros circularem como sinais magn\u00e9ticos \u2013 tornando portanto o dinheiro imaterial \u2013 e a guerra fiscal entre pa\u00edses ou at\u00e9 Estados de um mesmo pa\u00eds, o fato \u00e9 que as grandes corpora\u00e7\u00f5es com os maiores lucros simplesmente n\u00e3o pagam impostos, ou pagam valores simb\u00f3licos. A constata\u00e7\u00e3o que a Apple pagou na Europa 0,05% de impostos sobre os seus lucros acendeu um sinal vermelho no mundo, e hoje a OCDE perepara um conjunto de medidas no quadro do programa BEPS (<em>Base Erosion and Profit Shifting<\/em>). Mazzucato traz dados sobre \u201cos esquemas globais de remanejamento de impostos\u00a0<em>(tax-shuffrling schemes)<\/em>, \u201cque certamente n\u00e3o concernem apenas a Apple. Na realidade, outras empresas de tecnologia como Google, Oracle e Amazon tamb\u00e9m se beneficiam da ado\u00e7\u00e3o de esquemas de impostos semelhantes\u201d. (189) A General Electric tamb\u00e9m \u00e9 um dos campe\u00f5es de evas\u00e3o fiscal, pagando apenas 1,8% sobre os seus lucros entre 2002 e 2011.<\/p>\n<p>O estudo mostra o papel fundamental desempenhado pelo sistema p\u00fablico na pesquisa de base que permite a inova\u00e7\u00e3o em medicamentos, que por sua vez frequentemente s\u00e3o vendidos a pre\u00e7os exorbitantes, aproveitando infind\u00e1veis patentes renovadas sobre a base de pequenas inova\u00e7\u00f5es cosm\u00e9ticas. Mostra tamb\u00e9m o papel fundamental do financiamento p\u00fablico, em setores n\u00e3o imediatamente rent\u00e1veis, como infraestruturas, mas que s\u00e3o essenciais para a produtividade empresarial e a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o, enquanto os bancos privados desenvolveram um sistema basicamente extrativo, e n\u00e3o multiplicador de riqueza.<\/p>\n<p>No conjunto, o resgate do papel do Estado, e em particular a sua melhor compreens\u00e3o, s\u00e3o essenciais para pensarmos para o futuro um desenvolvimento sustent\u00e1vel. Temos aqui uma an\u00e1lise muito convergente com as propostas do Roosevelt Institute.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Corrigir as contas da economia<\/strong><\/p>\n<p>Kate Raworth \u00e9 uma das participantes diretas da\u00a0<em>Economia da Francesco.\u00a0<\/em>O aporte fundamental dela \u00e9 uma revis\u00e3o radical de como fazemos as contas na economia, ultrapassando as profundas deforma\u00e7\u00f5es do c\u00e1lculo do PIB, que calcula apenas a velocidade dos fluxos econ\u00f4micos, mas n\u00e3o nos informa sobre os resultados para a sociedade, que \u00e9 precisamente o que queremos de uma economia que funcione. George Monbiot, do Guardian, n\u00e3o exagera: \u201cEu li este livro com a excita\u00e7\u00e3o com que as pessoas do seu dia devem ter lido a\u00a0<em>Teoria Geral<\/em>\u00a0de John Maynard Keynes. \u00c9 brilhante, entusiasmante e revolucion\u00e1rio. Com um po\u00e7o profundo de aprendizagem, sabedoria, e pensamento profundo, Kate Raworth redesenhou e redefiniu os marcos da teoria econ\u00f4mica. \u00c9 completamente acess\u00edvel, mesmo para pessoas sem conhecimento do assunto. Eu acredito que\u00a0<em>Doughnut Economics\u00a0<\/em>vai mudar o mundo\u201d.\u00a0 Coment\u00e1rio\u00a0 forte, mas perfeitamente adequado.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/paradigmas-para-uma-economia-de-francisco-3\/about:reader?url=http%3A%2F%2Fdowbor.org%2F2019%2F10%2Fladislau-dowbor-a-economia-desgovernada-novos-paradigmas-14-de-outubro-de-2019.html%2F#_ftn7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>De forma simples e direta, Raworth faz um tipo de \u201creset\u201d de como vemos o mundo econ\u00f4mico, e a nova vis\u00e3o faz todo sentido. Consciente de que precisamos hoje, mais do que do detalhe, de uma imagem de refer\u00eancia sobre o que queremos da economia, a autora substitui os nossos tradicionais gr\u00e1ficos de fluxos por uma imagem, o\u00a0<em>doughnut,\u00a0<\/em>a nossa familiar rosquinha. Vale a pena se apropriar de uma ideia b\u00e1sica, de que estamos produzindo algumas coisas em excesso, como polui\u00e7\u00e3o do ar, e outras de forma insuficiente, como educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Os excessos aparecem explodindo para al\u00e9m da rosca, e as insufici\u00eancias como que n\u00e3o chegam \u00e0 rosca, ficam no vazio interno.<\/p>\n<p>Com esse desenho simples estamos saindo da s\u00edntese quantitativa do PIB, em que a destrui\u00e7\u00e3o ambiental como desmatamento ou vazamentos de petr\u00f3leo aparecem como positivos, pois aumentam as atividades e logo o PIB. Evoluimos para uma conta completa, permitindo identificar o que tem de ser controlado \u2014 por exemplo, a contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica \u2014 e o que tem de ser expandido \u2014 por exemplo, o acesso aos alimentos. Entramos assim na economia do bom senso. S\u00f3 lembrando a t\u00e3o bela frase que encontrei num\u00a0<em>banner\u00a0<\/em>de estudantes de economia: \u201cCrescer por crescer \u00e9 a filosofia da c\u00e9lula cancerosa\u201d. Portanto, temos aqui um ponto de partida sobre o qual podemos construir as pol\u00edticas, organizar est\u00edmulos ou regula\u00e7\u00e3o, e repensar as nossas teorias.<\/p>\n<p>O bom do\u00a0<em>Donut,\u00a0<\/em>como todos sabem, \u00e9 o concreto, aquela rodinha onde tem a massa e o a\u00e7\u00facar em cima. No limite interno da rosca, para dentro do vazio, ficam as insufici\u00eancias, que devem ser sanadas: 12 itens como alimento, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, emprego e renda, paz e justi\u00e7a, voz pol\u00edtica, equidade social, igualdade de g\u00eanero, habita\u00e7\u00e3o, redes, energia e \u00e1gua. No corpo da rosca, \u00e9 o espa\u00e7o onde devemos nos situar, dimens\u00e3o justa e segura para a humanidade. No limite externo da rosca, fica o teto ecol\u00f3gico que n\u00e3o dever\u00edamos ter ultrapassado: s\u00e3o 9 itens, envolvendo mudan\u00e7a clim\u00e1tica, acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos, polui\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, sobrecarga de nitrog\u00eanio e de f\u00f3sforo, extra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua doce, convers\u00e3o do solo, perda de biodiversidade, polui\u00e7\u00e3o do ar, e destrui\u00e7\u00e3o da camada de oz\u00f4nio.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3018975 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/191023-ladis1.jpg?resize=640%2C625&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/191023-ladis1.jpg 999w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/191023-ladis1-300x293.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/191023-ladis1-768x750.jpg 768w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"625\" \/><\/p>\n<p>Ou seja, no vazio interno da rosca, temos as insufici\u00eancias,\u00a0<em>shortfall,\u00a0<\/em>o que tem de melhorar para entrar no espa\u00e7o seguro da pr\u00f3pria\u00a0<em>donut.\u00a0<\/em>E no vazio externo, temos os excessos, o\u00a0<em>overshooting,\u00a0<\/em>que temos de reduzir. N\u00e3o muito diferente de como cuidamos da casa, em que temos de complementar as insufici\u00eancias, e controlar os excessos. A economia deixa de ser um mist\u00e9rio para amadores de modelos matem\u00e1ticos, e passa a fazer sentido para os comuns dos mortais. Ao mesmo tempo, temos uma imagem simples e desafios que s\u00e3o coerentes com o que foi decidido nas grandes confer\u00eancias de 2015, com o Acordo de Paris e os Objetivos do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, a Agenda 2030, em Nova Iorque. (38-39)<\/p>\n<p>A simplicidade e facilidade de leitura, inclusive de visualiza\u00e7\u00e3o mental, dos desafios econ\u00f4micos, \u00e9 essencial, pois enquanto a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o entender a l\u00f3gica de como usamos os nossos recursos, as farsas ir\u00e3o continuar. Inclusive a farsa maior, de que precisamos dos ricos pois eles investem e geram empregos, e de que precisamos de pobres pois a pobreza os leva a trabalhar. Na realidade os ricos hoje fazem aplica\u00e7\u00f5es financeiras em vez de investir, colocam os recursos em para\u00edsos fiscais e, portanto, pouco investem, e mal pagam os seus impostos. Num mundo que funcione, impostos sobre o capital improdutivo levar\u00e3o os rentistas a buscar fazer algo de \u00fatil com os seus capitais. E como constatamos em qualquer iniciativa que assegurou mais recursos para a popula\u00e7\u00e3o, o resultado \u00e9 maior demanda, multiplica\u00e7\u00e3o de pequenas e m\u00e9dias empresas e expans\u00e3o do emprego. O que ali\u00e1s gera maior massa de impostos e equil\u00edbrio de contas p\u00fablicas. Veja-se o sucesso do New Deal, do Welfare State, da fase din\u00e2mica da economia brasileira entre 2003 e 2013, e at\u00e9 mais recentemente da \u201cgeringon\u00e7a\u201d portuguesa.<\/p>\n<p>Aqui, ao vermos em que setores e com que atividades estamos por um lado dilapidando os recursos naturais do planeta por excessos de uso, e por outro que insufici\u00eancias existem em diversas partes da popula\u00e7\u00e3o, podemos, setor por setor, canalizar os esfor\u00e7os e recursos financeiros para onde ir\u00e3o gerar maior equil\u00edbrio.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3018976 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/191023-ladis2.png?resize=640%2C619&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/191023-ladis2.png 621w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/191023-ladis2-300x290.png 300w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"619\" \/><\/p>\n<p>Ou seja, podemos calcular onde devemos nos restringir, onde podemos expandir, em que setores h\u00e1 prioridade e assegurar o b\u00e1sico para a popula\u00e7\u00e3o. A economia passa a fazer sentido. Tim Jackson, que comenta o livro, lembra o absurdo de termos sido \u201cpersuadidos a gastar dinheiro que n\u00e3o temos em coisas que n\u00e3o precisamos para causar impress\u00f5es que n\u00e3o ir\u00e3o durar sobre pessoas que n\u00e3o nos importam.\u201d J\u00e1 era tempo que algu\u00e9m d\u00easse um pouco de sentido na vis\u00e3o geral da economia realmente existente. No centro das respostas, n\u00e3o est\u00e3o modelos complicados, e sim a \u201ccapacidade do s\u00e9culo 21 de criar formas muito mais efetivas de governan\u00e7a, em cada escala, do que as que t\u00eam sido vistas anteriormente. \u201d(51) E corrigir as contas, em economia, \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Resgatar a utilidade dos recursos financeiros<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0As boas inten\u00e7\u00f5es, proclama\u00e7\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es de elevados princ\u00edpios \u00e9ticos n\u00e3o ir\u00e3o resolver se n\u00e3o enfrentarmos o problema central do dinheiro para financiar o que devemos priorizar. \u00c9 essencial lembrar, como vimos acima, que a confer\u00eancia de Paris em 2015, que com pompa e circunst\u00e2ncia firmou o compromisso mundial de levantar 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ao ano para enfrentar o desastre ambiental, \u00e9 uma soma rid\u00edcula quando comparada aos 20 trilh\u00f5es de d\u00f3lares que se escondem em para\u00edsos fiscais, 200 vezes mais. Lembrando ainda que praticamente todas as grandes corpora\u00e7\u00f5es e grandes fortunas hoje t\u00eam filiais ou contas em para\u00edsos fiscais, essencialmente fruto de evas\u00e3o fiscal, corrup\u00e7\u00e3o e lavagem de dinheiro. O sistema econ\u00f4mico realmente existente est\u00e1 atolado em ilegalidades. E s\u00e3o recursos em gigantescos volumes.<\/p>\n<p>Um segundo ponto essencial \u00e9 que o mundo n\u00e3o \u00e9 pobre. Como vimos, o PIB mundial, atualmente da ordem de 85 trilh\u00f5es de d\u00f3lares. Este volume de bens e servi\u00e7os produzidos no mundo representa 3700 d\u00f3lares por m\u00eas por fam\u00edlia de 4 pessoas, cerca de 15 mil reais. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma justificativa para termos 820 milh\u00f5es de pessoas passando fome, das quais mais de 150 milh\u00f5es de crian\u00e7as. Nosso problema n\u00e3o \u00e9 econ\u00f4mico, \u00e9 essencialmente \u00e9tico e pol\u00edtico. No caso do Brasil, estamos exatamente na m\u00e9dia mundial em termos de PIB por pessoa. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o econ\u00f4mica para a pobreza.<\/p>\n<p>Um terceiro ponto \u00e9 que as fortunas que hoje se acumulam s\u00e3o essencialmente baseadas em remunera\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is financeiros. A partir de estudos de Thomas Piketty, Joseph Stiglitz, Paul Krugman, Ellen Brown, Michael Hudson, Fran\u00e7ois Chesnais, Marjorie Kelly, Paul Dembinski e tantos outros, formou-se hoje uma s\u00f3lida base te\u00f3rica e clara explicita\u00e7\u00e3o dos mecanismos especulativos que multiplicam fortunas e extraem os recursos que s\u00e3o indispens\u00e1veis para evitar os desastres que temos pela frente.<\/p>\n<p>Lembremos o mecanismo b\u00e1sico do enriquecimento especulativo: um bilion\u00e1rio que aplica um bilh\u00e3o em pap\u00e9is que rendam modestos 5% ao ano est\u00e1 ganhando 137 mil d\u00f3lares ao dia. No dia seguinte a fortuna dele ir\u00e1 render sobre um bilh\u00e3o mais o ganho do dia anterior e assim por diante, sem precisar produzir nada. O mecanismo, conhecido como\u00a0<em>snowball effect,\u00a0<\/em>efeito bola de neve, levou ao absurdo de 1% mais ricos que disp\u00f5em de mais patrim\u00f4nio do que os outros 99%. Sem produzir. No Brasil, seis fam\u00edlias t\u00eam mais riqueza acumulada do que o patrim\u00f4nio da metade mais pobre da popula\u00e7\u00e3o. Isso, evidentemente, n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>Jared Bernstein, que foi conselheiro econ\u00f4mico do vice-presidente dos EUA, Joe Biden, constata hoje este deslocamento geral das an\u00e1lises econ\u00f4micas, com o t\u00edtulo expressivo do seu estudo: \u201cNova economia \u2013 Uma gera\u00e7\u00e3o de economistas ajudou a nos colocar nesta bagun\u00e7a (<em>mess<\/em>): uma nova gera\u00e7\u00e3o pode nos tirar<em>\u201d.<\/em>\u00a0Segundo autor, \u201cQualquer forma de an\u00e1lise social que vise ser \u00fatil para a sociedade precisa evoluir de maneira a estimular o bem-estar social, a equidade, a justi\u00e7a racial e de g\u00eanero, e a sustentabilidade ambiental. Durante demasiado tempo, grande parte da ci\u00eancia econ\u00f4mica foi reprovada neste teste \u2013 e, no entanto, a sua intera\u00e7\u00e3o com a classe dirigente a elevou para o n\u00edvel do poder\u2026O mal causado de maneira penetrante por esta intera\u00e7\u00e3o abriu caminho para um n\u00famero crescente de economistas que est\u00e3o derrubando a velha escola do seu patamar privilegiado. Frente a que eu digo: j\u00e1 era tempo. \u201d<\/p>\n<p>A revista Forbes, na sua edi\u00e7\u00e3o brasileira, lan\u00e7ou em 2019 uma lista detalhada dos 206 bilhon\u00e1rios do pa\u00eds. Jorge Lemann est\u00e1 em primeiro lugar, com patrim\u00f4nio de 104 bilh\u00f5es de reais. Atividade banc\u00e1ria, naturalmente, dinheiro ganho intermediando dinheiro dos outros. Em segundo lugar Joseph Safra, tamb\u00e9m dono de banco, com 95 bilh\u00f5es, sendo que entre 2018 e 2019 aumentou a sua fortuna em 19,31 bilh\u00f5es, numa fase de paralisia geral da economia brasileira. A fam\u00edlia Marinho, com fortuna de 34 bilh\u00f5es, teve um aumento de 9,3 bilh\u00f5es no mesmo per\u00edodo. C\u00e2ndido Pinheiro Koren de Lima, dos servi\u00e7os de sa\u00fade Hapvida, tem um patrim\u00f4nio de 13,82 bilh\u00f5es, fortuna que no \u00faltimo ano aumentou em 6,22 bilh\u00f5es. Especular com sa\u00fade rende muito.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso buscar muito na lista para encontrar algu\u00e9m que efetivamente produza algo. Preferem deter a gest\u00e3o dos recursos financeiros, ou gerir fundos de a\u00e7\u00f5es. No conjunto, em oito anos de descontrole do sistema financeiro, passamos no Brasil de 74 bilion\u00e1rios em 2012 para 206 bilion\u00e1rios em 2019. As fortunas aucumuladas passaram de 346 bilh\u00f5es de reais para 1205,8 bilh\u00f5es no mesmo per\u00edodo. (p.108) A tentativa da Dilma freiar a especula\u00e7\u00e3o reduzindo juros, em 2012\/2013, aparece hoje com toda sua fragilidade. E o travamento da economia torna-se \u00f3bvio. Trata-se do cora\u00e7\u00e3o do poder.<\/p>\n<p>As fortunas mencionadas, evidentemente, n\u00e3o pagam impostos, j\u00e1 que lucros e dividendos distribu\u00eddos s\u00e3o isentos, por lei, desde 1995. N\u00e3o \u00e9 novo o processo, a express\u00e3o\u00a0<em>pecunia pecuniam parit\u00a0<\/em>nos vem dos antigos. Mas com o dinheiro hoje imaterial, essencialmente emitido pelos pr\u00f3prios bancos, e surfando no planeta com pouco controle, o resultado \u00e9 o desastre planet\u00e1rio. No Brasil, \u00e9 o sexto ano em que estamos parados, drenados por lucros exorbitantes e improdutivos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o dos para\u00edsos fiscais aparece regularmente na agenda das \u00faltimas reuni\u00f5es do G20, bem como a evas\u00e3o fiscal generalizada por parte dos grandes grupos e grandes fortunas mundiais. A OCDE prepara uma primeira proposta de regula\u00e7\u00e3o financeira internacional, no quadro do BEPS (Base Erosion and Profit Shifting), que deve ver a luz em 2020. Mas a inoper\u00e2ncia dos governos e a lentid\u00e3o dos processos justificam plenamente a indigna\u00e7\u00e3o de tantos jovens pelo planeta afora, e a perda de paci\u00eancia de bilh\u00f5es de pobres que hoje s\u00e3o privados do essencial, enquanto os recursos s\u00e3o desviados da sua utiliza\u00e7\u00e3o produtiva, constituindo o que Marjorie Kelly e Ted Howard qualificam adequadamente de \u201ccapitalismo extrativo\u201d. Uma mudan\u00e7a sist\u00eamica em como vemos a economia est\u00e1 na ordem do dia.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">* * *<\/p>\n<p>At\u00e9 o tradicional distanciamento e frieza das an\u00e1lises cient\u00edficas est\u00e1 perdendo espa\u00e7o. N\u00e3o podemos sen\u00e3o concordar com esta declara\u00e7\u00e3o de Joseph Stiglitz: \u201cO experimento neoliberal \u2014 impostos mais baixos para os ricos, desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados de trabalho e de produtos, financeiriza\u00e7\u00e3o e globaliza\u00e7\u00e3o \u2014 tem sido um fracasso espetacular. O crescimento \u00e9 menor do que era no quarto de s\u00e9culo ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, e a maior parte acumulou-se no topo da escala de renda. Depois de d\u00e9cadas de renda estagnada ou mesmo em queda para aqueles abaixo dos mais ricos, o neoliberalismo deve ser declarado morto e enterrado. \u201d<\/p>\n<p>Uma evid\u00eancia come\u00e7a a chegar at\u00e9 as pessoas mais desinformadas ou ideologicamente mais deformadas: as imensas fortunas especulativas t\u00eam de passar a pagar impostos, e o resultado desses impostos deve ser investido no resgate da sustentabilidade do planeta e na redu\u00e7\u00e3o da desigualdade. E o b\u00e1sico para a sobreviv\u00eancia dos mais pobres deve ser garantido desde j\u00e1. Hoje enfrentamos o absurdo de conhecermos os desafios, de sabermos o que deve ser feito, e de termos os recursos financeiros e tecnol\u00f3gicos correspondentes, ao mesmo tempo que simplesmente adiamos as a\u00e7\u00f5es a serem tomadas.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[6] Mariana Mazzucato \u2013 The Entrepreneurial State \u2013 Public Affairs, New York, 2015<\/p>\n<p>[7] Para a resenha feita pelo pr\u00f3prio Monbiot, no Guardian, veja\u00a0<a href=\"http:\/\/www.monbiot.com\/2017\/04\/13\/circle-of-life\/\">http:\/\/www.monbiot.com\/2017\/04\/13\/circle-of-life\/<\/a><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Paradigmas para uma Economia de Francisco (3) &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/paradigmas-para-uma-economia-de-francisco-3\/<\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ladislau Dowbor &#8211; No plano das ideias, supera\u00e7\u00e3o do neoliberalismo j\u00e1 come\u00e7ou. 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