{"id":24597,"date":"2025-05-01T12:13:59","date_gmt":"2025-05-01T15:13:59","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24597"},"modified":"2025-04-22T20:54:25","modified_gmt":"2025-04-22T23:54:25","slug":"plataformas-digitais-sao-uma-velha-exploracao-do-trabalho-com-linguagem-e-discurso-do-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/05\/01\/plataformas-digitais-sao-uma-velha-exploracao-do-trabalho-com-linguagem-e-discurso-do-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"Plataformas digitais s\u00e3o \u200buma velha explora\u00e7\u00e3o do trabalho com linguagem e discurso do s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<p><strong>Elstor Hanzen &#8211; <\/strong>Entrevista especial com Luci Praun.<\/p>\n<p>Pesquisadora alerta que altera\u00e7\u00f5es na din\u00e2mica de trabalho buscam mudan\u00e7as nas formas de sociabilidade para acumular mais capital a longo prazo. Desregulamenta\u00e7\u00e3o do mercado, liberdade e flexibilidade na jornada sem garantia ao trabalhador favorecem \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Para as corpora\u00e7\u00f5es operarem livremente e obterem vantagens pol\u00edticas e econ\u00f4micas nos diferentes cantos do planeta, as barreiras de prote\u00e7\u00e3o social erguidas pela classe trabalhadora precisam ser derrubadas. Um exemplo \u00e9 a reforma na\u00a0legisla\u00e7\u00e3o trabalhista\u00a0brasileira pelo ent\u00e3o presidente\u00a0Michel Temer\u00a0em 2017. O cerne da reforma \u201csempre foi a garantia de seguran\u00e7a jur\u00eddica para o empresariado em detrimento \u00e0 seguran\u00e7a dos trabalhadores. Instituiu-se a preval\u00eancia do negociado sobre o\u00a0legislado, ampliou-se a flexibiliza\u00e7\u00e3o contratual, avan\u00e7ou-se, entre outras deformidades, na institui\u00e7\u00e3o do trabalho intermitente\u201d.<\/p>\n<p>Quem avalia \u00e9 professora da Universidade Federal do Acre (UFAC) e integrante do grupo de\u00a0Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses\u00a0da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nesta entrevista ao\u00a0Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU\u00a0por e-mail, a pesquisadora perpassa o trabalho\u00a0plataformizado, o \u201cpleno emprego\u201d no Brasil, o fim da\u00a0jornada 6&#215;1, a organiza\u00e7\u00e3o e o movimentos dos trabalhadores de aplicativo nos dias 30 de mar\u00e7o e 1\u00ba de abril e, especialmente, como a atual digitaliza\u00e7\u00e3o do trabalho est\u00e1 transformando a\u00a0subjetividade do trabalhador.<\/p>\n<p>\u201cAltera\u00e7\u00f5es na din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o de capital ensejam mudan\u00e7as nas formas prevalentes de sociabilidade\u201d, constata. Segunda a analista, os processos de reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, as mudan\u00e7as em curso no mundo do trabalho, desde as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, visam incidir de forma objetiva e subjetiva nas rela\u00e7\u00f5es laborais. \u201cA t\u00edtulo de exemplo, podemos observar como a dissemina\u00e7\u00e3o das bonifica\u00e7\u00f5es por alcance de metas e resultados, al\u00e9m da flexibiliza\u00e7\u00e3o de parte dos sal\u00e1rios. Tudo deslocou as aten\u00e7\u00f5es para a parcela flexibilizada, abriu caminho para que se institu\u00edssem formas de competi\u00e7\u00e3o entre equipes de trabalho e entre trabalhadores\/as para o alcance das metas\u201d, explica.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m ressalta que a express\u00e3o \u201cpleno emprego\u201d gera uma \u201cno\u00e7\u00e3o equivocada da realidade, j\u00e1 que, al\u00e9m de remeter \u00e0 no\u00e7\u00e3o de emprego (&#8230;), n\u00e3o revela as diversas formas precarizadas de inser\u00e7\u00e3o laboral\u201d. Al\u00e9m disso, em meio \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o do controle sobre o trabalho, ambiente que fortalece o discurso do m\u00e9rito individual, \u201cminou o senso de coletividade presente nas d\u00e9cadas anteriores, naturalizando sutilmente o pagamento por produ\u00e7\u00e3o\u201d, afirma a entrevistada.<\/p>\n<div class=\"news-image-credits\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2025\/04\/09_04_luci_praun_foto_arquivo_pessoal.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><strong>Luci Praun<\/strong>\u00a0(foto: Arquivo pessoal)<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Luci Praun<\/strong>\u00a0\u00e9 professora da Universidade Federal do Acre (Ufac), no momento cedida \u00e0 Fundacentro. Integra o corpo de docentes permanentes do PPG em Economia Pol\u00edtica Mundial da Universidade Federal do ABC (Ufabc). Na Unicamp integra o Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses, vinculado ao IFCH. Ela comp\u00f5e o N\u00facleo Semente \u2013 Sa\u00fade Mental e Direitos Humanos Relacionados ao Trabalho, vinculado ao Instituto Sedes Sapientiae, de S\u00e3o Paulo. Pesquisadora de tem\u00e1ticas relacionadas ao mundo do trabalho, entre elas, trabalho e sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU\u00a0\u2013 Como enxerga e avalia o atual mundo do trabalho? Quais as principais metamorfoses?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luci Praun<\/strong>\u00a0<strong>\u2013<\/strong>\u00a0O atual mundo do trabalho \u00e9 mais complexo, multifacetado, disperso e global que aquele que conhecemos h\u00e1 algumas d\u00e9cadas. No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, essas mudan\u00e7as significativas, que j\u00e1 vinham se desenvolvendo desde as d\u00e9cadas de 1980-1990 com o avan\u00e7o do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/633148-neoliberalismo-tornou-a-vida-insalubre-o-estilo-de-vida-deve-ser-repensado-entrevista-com-vera-iaconelli\">neoliberalismo\u00a0<\/a>e dos processos de flexibiliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do trabalho,\u202faprofundaram-se.<\/p>\n<p>Um dos tra\u00e7os marcantes dessa trajet\u00f3ria de longo prazo p\u00f4de ser observado na crescente flexibiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, auxiliada pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/publicacoes\/188-noticias\/noticias-2018\/582649-o-trabalho-e-a-inteligencia-artificial-entre-o-temor-e-o-otimismo\">desenvolvimento tecnol\u00f3gico<\/a>. Com jornadas flexibilizadas, por exemplo, o tempo diretamente dedicado \u00e0 atividade laboral condensou-se, o trabalho foi intensificado. A essas medidas articularam-se outras, a exemplo da ado\u00e7\u00e3o de sistemas de metas e avalia\u00e7\u00f5es de desempenho que, al\u00e9m de operarem no mesmo sentido, de ampliar a produtividade e intensificar o trabalho, tamb\u00e9m trouxeram para o cotidiano de diferentes categorias e profiss\u00f5es mais controle, maior competi\u00e7\u00e3o entre trabalhadores e maior individua\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do fechamento de postos de trabalho.<\/p>\n<p>Com atua\u00e7\u00e3o em escala global, as grandes corpora\u00e7\u00f5es, apoiadas na expans\u00e3o do capital financeiro e no avan\u00e7o das diretrizes neoliberais incorporadas \u00e0s pol\u00edticas de\u00a0<strong>Estado<\/strong>, ampliaram o poder de descentraliza\u00e7\u00e3o de suas atividades em busca de menores custos, especialmente com a for\u00e7a de trabalho. Assim, um outro tra\u00e7o marcante das \u00faltimas d\u00e9cadas tem sido a crescente perda de direitos sociais e do trabalho. Para que as corpora\u00e7\u00f5es operem livremente e obtenham vantagens pol\u00edticas e econ\u00f4micas nos diferentes cantos do planeta, as barreiras de prote\u00e7\u00e3o social erguidas pela classe trabalhadora no per\u00edodo anterior t\u00eam sido constantemente derrubadas. No\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, esse movimento encontrou seu ponto alto em 2017, com \u201c<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/614538-reforma-trabalhista-completa-quatro-anos-e-enfrenta-informalidade-uberizacao-e-precarizacao-de-direitos\">reforma trabalhista<\/a>\u201d, mas mant\u00e9m-se ativo.<\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">Para que as corpora\u00e7\u00f5es operem livremente e obtenham vantagens pol\u00edticas e econ\u00f4micas nos diferentes cantos do planeta, as barreiras de prote\u00e7\u00e3o social erguidas pela classe trabalhadora no per\u00edodo anterior t\u00eam sido constantemente derrubadas \u2013 Luci Praun<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 neste cen\u00e1rio, em meio a um novo salto no desenvolvimento tecnol\u00f3gico, que corpora\u00e7\u00f5es como a\u00a0<strong>Uber<\/strong>,\u00a0<strong>Amazon<\/strong>,\u00a0<strong>Google<\/strong>,\u00a0<strong>IFood<\/strong>, entre outras, expandiram-se e passaram a arregimentar um contingente crescente de trabalhadores. Valeram-se do ambiente de desregulamenta\u00e7\u00e3o de direitos, da disponibilidade de for\u00e7a de trabalho desocupada, mas tamb\u00e9m daquela que comp\u00f5e o contingente subocupado, submetido aos baixos sal\u00e1rios, \u00e0 perda crescente de direitos, aos ambientes de trabalho adoecedores. Distorcidamente, essas empresas-plataforma, apresentam-se como alternativa \u00e0s viv\u00eancias do avan\u00e7o da precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p><strong>IHU\u00a0\u2013 O Brasil vive quase o pleno emprego, mas os trabalhadores parecem n\u00e3o estar satisfeitos nem realizados. O que est\u00e1 acontecendo, como compreender este cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luci Praun<\/strong>\u00a0<strong>\u2013<\/strong>\u00a0Certamente a classe trabalhadora n\u00e3o tem com o que estar satisfeita. Apesar da taxa de desocupa\u00e7\u00e3o no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, conforme o\u00a0<strong>IBGE<\/strong>, se encontrar um pouco abaixo dos 7%, esse indicador por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 capaz de dar conta da complexidade das rela\u00e7\u00f5es de trabalho locais.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre bom lembrar que o grupo de ocupados \u00e9 constitu\u00eddo por todos aqueles que realizaram, na semana de aplica\u00e7\u00e3o da pesquisa, ao menos uma hora de trabalho remunerado. Essa remunera\u00e7\u00e3o, por sua vez, n\u00e3o precisa ser necessariamente em dinheiro, o que significa que tamb\u00e9m se considera o pagamento em forma mercadorias ou algum outro tipo de benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Ou seja, a express\u00e3o \u201c<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/publicacoes\/78-noticias\/586640-o-deficit-de-emprego-formal-e-a-lenta-recuperacao-do-mercado-de-trabalho\">pleno emprego<\/a>\u201d gera uma no\u00e7\u00e3o equivocada da realidade, j\u00e1 que, al\u00e9m de remeter \u00e0 no\u00e7\u00e3o de emprego (e n\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o), n\u00e3o revela as diversas formas precarizadas de inser\u00e7\u00e3o laboral. Por isso, para a maioria da classe trabalhadora ocupada, submetida ao baixo ou nenhum acesso a direitos, aos sal\u00e1rios que n\u00e3o chegam ao fim do m\u00eas, \u00e0 press\u00e3o constante das avalia\u00e7\u00f5es de desempenho e das metas a serem alcan\u00e7adas, \u00e0s jornadas exaustivas \u00e0 c\u00e9u aberto e em espa\u00e7os fechados de trabalho, \u00e0s viv\u00eancias de desgaste e adoecimentos relacionados ao trabalho, as coisas n\u00e3o t\u00eam como estar bem. N\u00e3o h\u00e1 como estar satisfeito ou realizado em um cen\u00e1rio como este.<\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">A express\u00e3o \u201cpleno emprego\u201d gera uma no\u00e7\u00e3o equivocada da realidade, j\u00e1 que, al\u00e9m de remeter \u00e0 no\u00e7\u00e3o de emprego (e n\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o), n\u00e3o revela as diversas formas precarizadas de inser\u00e7\u00e3o laboral \u2013 Luci Praun<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa a defesa do fim da escala\u00a0<strong>6&#215;1<\/strong>\u00a0tem conquistado ades\u00e3o. O mesmo se pode dizer da capacidade de organiza\u00e7\u00e3o demonstrada pelos trabalhadores de entrega por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/650336-breque-dos-apps-saiba-como-foi-a-greve-nacional-dos-motoboys-contra-precarizacao-do-trabalho\">aplicativos na greve\u00a0<\/a>que realizaram nos dias 31\/03 e 01\/04.<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 O\u202fmercado informal\u202fest\u00e1 migrando para as\u202fredes sociais\u202fe precarizando o trabalho com ar de \u201cmodernidade\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luci Praun<\/strong>\u00a0<strong>\u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o diria que est\u00e1 migrando, mas que as empresas-plataforma ampliaram e imprimiram um novo perfil \u00e0 informaliza\u00e7\u00e3o. Destaco dois aspectos que t\u00eam sido objeto de diferentes pesquisas em curso.<\/p>\n<p>O primeiro diz respeito \u00e0 associa\u00e7\u00e3o que parte das pesquisas no<strong>\u00a0Brasil<\/strong>\u00a0sempre estabeleceu entre a maior incid\u00eancia de parte importante do trabalho informalizado e segmentos empresariais com menor capacidade de investimento. No geral, micro e pequenos neg\u00f3cios. Empresas como a\u00a0<strong>Uber<\/strong>,\u00a0<strong>IFood<\/strong>,\u00a0<strong>99<\/strong>,\u00a0<strong>Amazon<\/strong>,\u00a0<strong>Mercado Livre<\/strong>,\u00a0<strong>Meta<\/strong>\u00a0certamente n\u00e3o se enquadram nessa categoriza\u00e7\u00e3o. No entanto, est\u00e3o diretamente implicadas na expans\u00e3o do<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/643586-empresas-plataforma-o-brasil-na-retaguarda\">\u00a0trabalho informalizado<\/a>\u00a0no Brasil e em diversos cantos do mundo. Isso alterou significativamente a an\u00e1lise sobre os processos que est\u00e3o na base da informaliza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>O segundo, que tamb\u00e9m tem rela\u00e7\u00e3o direta com o avan\u00e7o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, refere-se ao uso de redes sociais para o desenvolvimento de diversos tipos de atividades laborais. Entre essas atividades, podem-se considerar os canais de intera\u00e7\u00e3o para tratar de demandas de trabalho, individualmente ou em grupo, a exemplo do uso que se faz do\u00a0<strong>WhatsApp<\/strong>. Esse tipo de pr\u00e1tica, bastante conhecida, mas dif\u00edcil de ser mensurada, espalhou-se entre trabalhadores com v\u00ednculo formal, mas tamb\u00e9m entre os informalizados. A rede tem inclusive uma ferramenta de transfer\u00eancia de valores e tem sido utilizada para divulga\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, comercializa\u00e7\u00e3o de produtos, entre outras atividades.<\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">Em meio \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o do controle sobre o trabalho, esse ambiente fortaleceu o discurso do m\u00e9rito individual, minou o senso de coletividade presente nas d\u00e9cadas anteriores, naturalizou sutilmente o pagamento por produ\u00e7\u00e3o \u2013 Luci Praun<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Observa-se tamb\u00e9m, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, o uso de perfis p\u00fablicos em redes como\u00a0<strong>Facebook<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Instagram<\/strong>\u00a0para desenvolvimento de atividades laborais de diversos tipos. Recentemente foram divulgados os primeiros resultados de pesquisa sobre o uso do Instagram para atividades remuneradas, coordenada pela antrop\u00f3loga\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/644705-o-novo-perfil-da-extrema-direita-tem-mais-cara-de-mercado-do-que-de-ditadura-entrevista-com-rosana-pinheiro-machado\">Rosana Pinheiro-Machado<\/a>.<\/p>\n<p>A pesquisa destaca, entre outros aspectos, a atividade de um amplo segmento da popula\u00e7\u00e3o de comunidades pobres nesta rede social em busca de formas de remunera\u00e7\u00e3o. Mas ainda h\u00e1 muito o que se pesquisar sobre esse universo e sobre o perfil diversificado das atividades nele desenvolvidas, os trabalhadores envolvidos, as rela\u00e7\u00f5es de trabalho ensejadas, os v\u00ednculos diretos e indiretos entre essas atividades e corpora\u00e7\u00f5es de diferentes segmentos.<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 As plataformas digitais est\u00e3o produzindo uma nova subjetividade do trabalho?\u202fEm que sentido<\/strong>?<\/p>\n<p><strong>Luci Praun<\/strong>\u00a0<strong>\u2013<\/strong>\u00a0Sem d\u00favida. Mas essa hist\u00f3ria n\u00e3o come\u00e7a com a expans\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/626697-as-empresas-plataformas-sao-o-que-capital-financeiro-capital-produtivo-rentistas-comercio-ou-produtoras-de-valor-a-maioria-delas-e-tudo-isso-ao-mesmo-tempo-entrevista-especial-com-ricardo-festi\">empresas-plataforma<\/a>, mas nas mudan\u00e7as no padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o de capital que observamos a partir da d\u00e9cada de 1970-1980. Altera\u00e7\u00f5es na din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o de capital ensejam mudan\u00e7as nas formas prevalentes de sociabilidade. \u00c9 o que temos vivenciado nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de nossa conversa, mencionei os processos de reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva, as mudan\u00e7as em curso no mundo do trabalho desde as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado. Essas altera\u00e7\u00f5es visaram incidir objetiva e subjetivamente nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho. A t\u00edtulo de exemplo, podemos observar como a dissemina\u00e7\u00e3o das bonifica\u00e7\u00f5es por alcance de metas e resultados, al\u00e9m de flexibilizar parte dos sal\u00e1rios, deslocou as aten\u00e7\u00f5es para a parcela flexibilizada, abriu caminho para que se institu\u00edssem formas de competi\u00e7\u00e3o entre equipes de trabalho e entre os\/as trabalhadores\/as de uma mesma equipe com vistas ao alcance das metas.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o do controle sobre o trabalho, esse ambiente fortaleceu o discurso do m\u00e9rito individual, minou o senso de coletividade presente nas d\u00e9cadas anteriores, naturalizou sutilmente o pagamento por produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses e outros recursos da gest\u00e3o flex\u00edvel foram atualizados e exacerbados no contexto do que temos denominado de<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/591102-uberizacao-nos-leva-para-a-servidao-diz-pesquisador\">\u202fuberiza\u00e7\u00e3o do trabalho<\/a>. Trata-se agora da flexibiliza\u00e7\u00e3o levada ao limite, do trabalho sem a parcela de remunera\u00e7\u00e3o fixa, sem nenhum direito, sem garantia de descanso, mas com as chefias e o patr\u00e3o invisibilizados, o que fornece a falsa impress\u00e3o de autonomia do trabalhador frente \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de seu pr\u00f3prio trabalho.<\/p>\n<p><strong>Plataformiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica, que visa garantir o engajamento no trabalho, e que encontra na\u00a0<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/617846-os-algoritmos-multiplicam-os-empregos-precarios-a-entrevista-e-de-matteo-pasquinelli\">gest\u00e3o algor\u00edtmica<\/a>\u00a0seu ponto de apoio fundamental, extrapola o universo do trabalho. Almeja organizar a vida social como um todo, incidir na forma como as pessoas se relacionam cotidianamente como trabalhadoras e consumidoras, no tempo de trabalho e de n\u00e3o trabalho. Tenho insistido na ideia de que em parte o engajamento obtido por essas empresas ancora-se nos sistemas de avalia\u00e7\u00e3o e metas, no medo do desemprego, nas press\u00f5es e ass\u00e9dios vivenciados nos locais tradicionais de trabalho, mas se sustenta tamb\u00e9m na manipula\u00e7\u00e3o, por parte dessas corpora\u00e7\u00f5es, da experi\u00eancia pregressa desses trabalhadores com o trabalho.<\/p>\n<p>Entre os mais os jovens, essa experi\u00eancia pregressa remete \u00e0 viv\u00eancia do desemprego de longa dura\u00e7\u00e3o e da inser\u00e7\u00e3o, quando alcan\u00e7ada, em postos de trabalho com baix\u00edssimas remunera\u00e7\u00f5es, exig\u00eancia de jornadas longas, fixas e extenuantes.<\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">Plataformas: almejam associar a dificuldade de acesso ao emprego, a repulsa ao trabalho explorado e precarizado, \u00e0 suposta experi\u00eancia de conquista e realiza\u00e7\u00e3o pessoal por elas oferecida, fundada em uma suposta liberdade de escolha e no m\u00e9rito individual \u2013 Luci Praun<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Sobre os mais velhos, pesam a idade, o fim do posto de trabalho, a impossibilidade de recolocar-se em empregos com a remunera\u00e7\u00e3o e direitos que um dia acessaram. Entram em jogo tamb\u00e9m as experi\u00eancias com os processos de reestrutura\u00e7\u00e3o das empresas em que trabalhavam, quando o tempo e a produtividade do trabalho se tornaram ainda mais controlados e adoecedores, quando a press\u00e3o das avalia\u00e7\u00f5es de desempenho e o medo do desemprego tornaram-se parte da rotina.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa viv\u00eancia e mem\u00f3ria recentes da classe trabalhadora, constituidoras de percep\u00e7\u00f5es negativas da inser\u00e7\u00e3o laboral formalizada, que se apoia a manipula\u00e7\u00e3o. \u00c9 nelas que se apoiam os apelos ideol\u00f3gicos e as estrat\u00e9gias de envolvimento utilizadas por empresas como\u00a0<strong>Uber<\/strong>,\u00a0<strong>99<\/strong>,\u00a0<strong>IFood<\/strong>. Almejam associar a dificuldade de acesso ao emprego, a repulsa ao trabalho explorado e precarizado, \u00e0 suposta experi\u00eancia de conquista e realiza\u00e7\u00e3o pessoal por elas oferecida, fundada em uma suposta liberdade de escolha e no m\u00e9rito individual. H\u00e1, nesse sentido, uma manipula\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia laboral na busca por convert\u00ea-la em suporte para ades\u00e3o a formas de trabalho que prometem estar no m\u00e9rito individual a f\u00f3rmula para se dar bem.<\/p>\n<p><strong>IHU\u00a0\u2013 Como avalia a pauta\u202fpela\u202fmudan\u00e7a na jornada de trabalho, o fim da escala 6&#215;1?\u202fQuais as possibilidades de avan\u00e7armos neste debate no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luci Praun<\/strong>\u00a0<strong>\u2013<\/strong>\u00a0A\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/650611-reducao-da-jornada-de-trabalho-65-dos-brasileiros-apoiam-a-mudanca\">redu\u00e7\u00e3o da jornada<\/a>\u00a0de trabalho e o fim da\u00a0<strong>escala 6&#215;1<\/strong>\u00a0s\u00e3o reivindica\u00e7\u00f5es justas e necess\u00e1rias. Uma n\u00e3o pode caminhar sem a outra. N\u00e3o se trata de estabelecer uma\u00a0<strong>escala 5&#215;2<\/strong>, por exemplo, mantendo jornadas que facilmente superam as j\u00e1 extensas 44 horas semanais previstas na legisla\u00e7\u00e3o. O fim da escala 6&#215;1 \u00e9 parte, portanto, da luta pela redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho. E a redu\u00e7\u00e3o da jornada n\u00e3o pode ser acompanhada de redu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre bom lembrar que a inser\u00e7\u00e3o de tecnologias digitais e o avan\u00e7o da organiza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o flex\u00edvel do trabalho, que observamos nas \u00faltimas d\u00e9cadas, cortaram postos de trabalho ao mesmo tempo em que intensificaram a atividade laboral, ampliando tamb\u00e9m sua produtividade. Essas transforma\u00e7\u00f5es se fizeram acompanhadas do amplo uso da terceiriza\u00e7\u00e3o e de um ambiente de crescente inseguran\u00e7a e instabilidade para a classe trabalhadora.<\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">No caso do trabalho plataformizado e por aplicativo, com remunera\u00e7\u00e3o por demanda atendida, as jornadas tendem a se estender sem limites, o que est\u00e1 longe de ser uma op\u00e7\u00e3o \u2013 Luci Praun<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A luta pelo fim da\u00a0<strong>jornada 6&#215;1<\/strong>\u00a0e pela redu\u00e7\u00e3o da jornada \u00e9, portanto, tamb\u00e9m parte da luta contra o avan\u00e7o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho. O que falta para essa pauta ser incorporada pelo conjunto das representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sindicais dos trabalhadores? Por um lado, chama a aten\u00e7\u00e3o que parte importante dessa luta esteja sendo organizada para al\u00e9m das estruturas sindicais, o que sugere certo distanciamento das representa\u00e7\u00f5es sindicais de quest\u00f5es cruciais das categorias que representam.<\/p>\n<p>Por outro, indica que uma ampla campanha em torno dessas reivindica\u00e7\u00f5es tem um enorme potencial de mobiliza\u00e7\u00e3o, pois dialogam diretamente com as viv\u00eancias daqueles\/as que acordam todos os dias para trabalhar duro e j\u00e1 n\u00e3o suportam mais ver a vida reduzida ao trabalho.<\/p>\n<p><strong>IHU\u00a0\u2013 Qual o impacto da atual jornada na sa\u00fade do trabalhador e no sistema de sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luci Praun<\/strong>\u00a0<strong>\u2013<\/strong>\u00a0A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (<strong>OMS<\/strong>) e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Trabalho (<strong>OIT<\/strong>), analisando dados de diferentes pa\u00edses, de 2016, constataram a rela\u00e7\u00e3o entre longas jornadas laborais e maior incid\u00eancia de mortes por acidente vascular cerebral (<strong>AVC<\/strong>) e doen\u00e7as card\u00edacas. O estudo identificou que as longas jornadas contribuem para \u201cum ter\u00e7o da carga total estimada de doen\u00e7as relacionadas ao trabalho\u201d.<br \/>\nPesquisas realizadas no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0tamb\u00e9m constataram que jornadas longas potencializam acidentes de trabalho. Queixas de esgotamento f\u00edsico e mental t\u00eam sido cada vez mais comuns e est\u00e3o presentes em qualquer roda de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/624128-trabalhar-menos-para-viver-melhor-eles-fizeram-isso\">conversa de trabalhadores<\/a>.<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, as horas dedicadas ao descanso e ao lazer t\u00eam diminu\u00eddo. O avan\u00e7o do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/634444-brasil-tem-1-5-milhao-de-trabalhadores-de-aplicativos-35-7-contribui-para-a-previdencia-entrevista-especial-com-gustavo-fontes\">trabalho plataformizado<\/a>, por exemplo, tem contribu\u00eddo para que o ambiente dom\u00e9stico esteja sendo cada vez mais tomado pelas atividades remuneradas, ampliando, no caso das mulheres, a sobreposi\u00e7\u00e3o entre atividades remuneradas e n\u00e3o remuneradas de cuidado dos filhos, de idosos, da manuten\u00e7\u00e3o da casa.<\/p>\n<p><strong>Ilus\u00e3o digital<\/strong><\/p>\n<p>No caso do trabalho\u00a0<strong>plataformizado<\/strong>\u00a0<strong>e por aplicativo<\/strong>, com remunera\u00e7\u00e3o por demanda atendida, as jornadas tendem a se estender sem limites, o que est\u00e1 longe de ser uma op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar disso, os n\u00fameros oficiais sobre acidentes e adoecimentos relacionados ao trabalho captam apenas uma pequena parcela dessas ocorr\u00eancias, resultante de parte das ocorr\u00eancias envolvendo o segmento formalizado da classe trabalhadora. Do ponto de vista das empresas, reina tanto a oculta\u00e7\u00e3o de acidentes como o n\u00e3o reconhecimento dos adoecimentos relacionados ao trabalho, o que as isenta das responsabilidades com a sa\u00fade do\/a trabalhador\/a e com os custos de seu tratamento, transferido para o\u00a0<strong>Sistema \u00danico de Sa\u00fade<\/strong>.<\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">A greve \u00e9 tamb\u00e9m vitoriosa porque resulta da experi\u00eancia cotidiana com o trabalho uberizado. D\u00e1 visibilidade \u00e0 explora\u00e7\u00e3o praticada por essas plataformas de trabalho. Coloca em xeque a falsa promessa de \u201cequil\u00edbrio entre trabalho e vida pessoal\u201d \u2013 Luci Praun<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A precariza\u00e7\u00e3o do trabalho caminha no sentido oposto ao da garantia do direito \u00e0 sa\u00fade. Garantir remunera\u00e7\u00e3o adequada e limitar as horas de dedica\u00e7\u00e3o ao trabalho \u00e9 parte de um conjunto de medidas capazes de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/628497-semana-de-quatro-dias-e-o-futuro-do-mundo-do-trabalho\">proteger a sa\u00fade<\/a>\u00a0dos\/as trabalhadores\/as.<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Como analisa a luta dos movimentos dos trabalhadores de aplicativo, qual o centro da reivindica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luci Praun<\/strong>\u00a0<strong>\u2013<\/strong>\u00a0Considero, por raz\u00f5es diversas, um movimento desde j\u00e1 vitorioso, mesmo que ainda n\u00e3o tenha resultado no atendimento das reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma raz\u00e3o diz respeito \u00e0 capacidade das lideran\u00e7as da categoria de articularem uma greve nacional, mais expressiva que o breque de 2020 e com uma pauta cuidadosamente constru\u00edda a partir do di\u00e1logo com a categoria.<\/p>\n<p>Reivindica-se a taxa m\u00ednima de entrega, proposta em\u00a0<strong>R$10,00<\/strong>, o adicional de\u00a0<strong>R$2,50<\/strong>\u00a0por quil\u00f4metro rodado, o limite de quil\u00f4metros para entrega por bicicletas, al\u00e9m do pagamento integral nas entregas agrupadas em uma mesma rota. Mas as reivindica\u00e7\u00f5es extrapolam a dimens\u00e3o salarial, pois repercutem no n\u00famero de entregas que os entregadores precisam fazer por dia para garantir a sobreviv\u00eancia, no ritmo alucinante das entregas. E, em decorr\u00eancia, o alt\u00edssimo n\u00famero de acidentes de trabalho no tr\u00e2nsito que tem gerado um contingente crescente de trabalhadores mutilados e mortos.<\/p>\n<div class=\"news-citacao-right\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<blockquote>\n<p class=\"tweet-quote\">\u00c9 sempre bom lembrar que a inser\u00e7\u00e3o de tecnologias digitais e o avan\u00e7o da organiza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o flex\u00edvel do trabalho, que observamos nas \u00faltimas d\u00e9cadas, cortaram postos de trabalho ao mesmo tempo em que intensificaram a atividade laboral, ampliando tamb\u00e9m sua produtividade \u2013 Luci Praun<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A greve \u00e9 tamb\u00e9m vitoriosa porque resulta da experi\u00eancia cotidiana com o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/629015-vinculo-empregaticio-entre-trabalhadores-de-plataformas-e-empresas-e-basico-para-avanco-na-protecao-da-categoria-entrevista-especial-com-felipe-moda\">trabalho uberizado<\/a>. D\u00e1 visibilidade \u00e0 explora\u00e7\u00e3o praticada por essas plataformas de trabalho. Coloca em xeque a falsa promessa de \u201cequil\u00edbrio entre trabalho e vida pessoal\u201d, sempre presente nas propagandas de empresas como a\u00a0<strong>Uber<\/strong>. Resgata o sentido e for\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o coletiva, apontando o caminho da luta para outras categorias.<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Trabalhadores que atuam em outras \u00e1reas que envolvem o uso de tecnologias t\u00eam aderido \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es?\u202f<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luci Praun \u2013<\/strong>\u00a0Temos acompanhado um crescente descontentamento entre diferentes segmentos da classe trabalhadora. A luta desencadeada pelos entregadores de aplicativos e as mobiliza\u00e7\u00f5es contra a escala 6&#215;1 s\u00e3o as express\u00f5es mais vis\u00edveis dessa onda de mobiliza\u00e7\u00f5es que t\u00eam \u00e0 sua frente um segmento da classe trabalhadora que Ricardo Antunes tem denominado como \u201cnovo proletariado de servi\u00e7os\u201d, fortemente atingido pelo avan\u00e7o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p><strong>IHU\u00a0\u2013 Como avalia a reforma trabalhista de 2017 quanto \u00e0 expectativa e \u00e0 realidade agora?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Luci Praun<\/strong>\u00a0<strong>\u2013<\/strong>\u00a0Os argumentos favor\u00e1veis \u00e0s altera\u00e7\u00f5es realizadas na\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/612090-radiografia-da-nova-contrarreforma-trabalhista\">legisla\u00e7\u00e3o trabalhista brasileira<\/a>, em 2017, nunca tiveram compromisso com a verdade. O cerne da \u201creforma\u201d sempre foi a garantia de seguran\u00e7a jur\u00eddica para o empresariado em detrimento da seguran\u00e7a jur\u00eddica para os\/as trabalhadores\/as. O objetivo, conhecido dos defensores das medidas, sempre foi o de abrir o caminho para o avan\u00e7o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho. Assim, instituiu-se a preval\u00eancia do negociado sobre o legislado, ampliou-se a flexibiliza\u00e7\u00e3o contratual, avan\u00e7ou-se, entre outras deformidades, na institui\u00e7\u00e3o do trabalho intermitente.<\/p>\n<p>Essas altera\u00e7\u00f5es foram realizadas em converg\u00eancia com movimentos similares em outros pa\u00edses. Mas \u00e9 interessante notar que a pretens\u00e3o nunca foi a de criar condi\u00e7\u00f5es de trabalho homog\u00eaneas em escala global. Ao contr\u00e1rio. Com a acentua\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/620947-senado-confirma-mais-flexibilizacao-trabalhista-agora-em-calamidades-tudo-a-criterio-do-empregador\">flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho<\/a>\u00a0pela via da legisla\u00e7\u00e3o, a garantia de seguran\u00e7a jur\u00eddica para os setores corporativos fez-se acompanhada da possibilidade de conjugar o recrutamento de um pequeno n\u00facleo de trabalhadores\/as formais precarizados, com contratos por tempo indeterminado, com o de uma franja crescente de trabalhadores terceirizados, tempor\u00e1rios, intermitentes. E estes \u00faltimos, por sua vez, a tantos outros que comp\u00f5em o heterog\u00eaneo contingente informalizado.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: \u200bPlataformas digitais s\u00e3o \u200buma velha explora\u00e7\u00e3o do trabalho com linguagem e discurso do s\u00e9culo XXI. Entrevista especial com Luci Praun &#8211; Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU &#8211; https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/650584-plataformas-digitais-sao-uma-velha-exploracao-do-trabalho-com-linguagem-e-discurso-do-seculo-xxi-entrevista-especial-com-luci-praun<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elstor Hanzen &#8211; Entrevista especial com Luci Praun. Pesquisadora alerta que altera\u00e7\u00f5es na din\u00e2mica de trabalho buscam mudan\u00e7as nas formas de sociabilidade para acumular mais capital a longo prazo. 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