{"id":24594,"date":"2025-04-21T12:22:19","date_gmt":"2025-04-21T15:22:19","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24594"},"modified":"2025-04-14T16:25:03","modified_gmt":"2025-04-14T19:25:03","slug":"como-karl-marx-se-tornou-comunista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/04\/21\/como-karl-marx-se-tornou-comunista\/","title":{"rendered":"Como Karl Marx se tornou comunista"},"content":{"rendered":"<p><strong>HUGO DE CAMPS MORA<\/strong> &#8211; Karl Marx estava comprometido com a no\u00e7\u00e3o republicana de liberdade.<\/p>\n<p>Em uma nova biografia de Karl Marx, Bruno Leipold contextualiza historicamente o grande pensador e revolucion\u00e1rio alem\u00e3o. Marx, ele conta \u00e0 Jacobina, estava engajado em uma luta pol\u00edtica contra comunistas ut\u00f3picos e republicanos incapazes de reconhecer a incompatibilidade entre liberdade e capitalismo.<\/p>\n<p>Tr\u00eas tradi\u00e7\u00f5es geralmente s\u00e3o consideradas como influenciadoras da obra de Karl Marx: a filosofia alem\u00e3, a economia pol\u00edtica brit\u00e2nica e o socialismo franc\u00eas. Talvez surpreendentemente, muito menos aten\u00e7\u00e3o tem sido dada \u00e0 influ\u00eancia do republicanismo, uma ideologia e orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que competiu com o socialismo pelo apoio da classe trabalhadora na \u00e9poca de Marx. Recentemente, no entanto, tem havido v\u00e1rios esfor\u00e7os para destacar o papel do republicanismo na forma\u00e7\u00e3o das ideias marxianas. Entre eles est\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/press.princeton.edu\/books\/hardcover\/9780691205236\/citizen-marx?srsltid=AfmBOopT29pCpG4U_0kXOpiSvX7eRvC9ctunjHix0gT2mRKJ6uY6x-zP\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">o livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado<\/a>\u00a0de Bruno Leipold,\u00a0<em>Citizen Marx: Republicanism and the Formation of Karl Marx\u2019s Social and Political Thought<\/em>\u00a0[Cidad\u00e3o Marx: Republicanismo e a Forma\u00e7\u00e3o do Pensamento Pol\u00edtico e Social de Karl Marx].<\/p>\n<p>Leipold argumenta que colocar Marx em seu contexto hist\u00f3rico \u00e9 essencial para entender a complexidade de seu pensamento e sua relev\u00e2ncia contempor\u00e2nea. Inicialmente, segundo Leipold, Marx estava comprometido com a no\u00e7\u00e3o republicana de liberdade, definida como a aus\u00eancia de poder arbitr\u00e1rio, e defendia uma rep\u00fablica democr\u00e1tica na qual os cidad\u00e3os exerciam uma soberania popular ativa. Com o tempo, no entanto, e apesar de reter elementos-chave de sua heran\u00e7a republicana, Marx aderiu ao comunismo.<\/p>\n<p>Leipold conversou com\u00a0<em>a Jacobin<\/em> para discutir esses desenvolvimentos no pensamento de Marx e seu significado mais amplo para a forma como os socialistas devem entender as lutas emancipat\u00f3rias em um mundo ainda moldado pela arbitrariedade da domina\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HUGO DE CAMPS MORA<\/p>\n<p><strong>Seu livro \u00e9 intitulado\u00a0<em>Citizen Marx: Republicanism and the Formation of Karl Marx\u2019s Social and Political Thought<\/em>. Antes de nos aprofundar em seu conte\u00fado, voc\u00ea poderia explicar por que escolheu esse t\u00edtulo?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BRUNO LEIPOLD<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, todos os radicais se referiam uns aos outros pelo t\u00edtulo \u201cCidad\u00e3o\u201d. E isso tem um fundo republicano que remonta \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. \u00c9 essencialmente uma substitui\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria para t\u00edtulos aristocr\u00e1ticos. S\u00f3 muito mais tarde no s\u00e9culo XIX \u201cCidad\u00e3o\u201d come\u00e7ou a ser substitu\u00eddo por \u201cCamarada\u201d. Todas as atas do Comit\u00ea Internacional dos Trabalhadores, por exemplo, se referem a ele como Cidad\u00e3o Marx. Para mim, isso demonstra como o socialismo tem essa influ\u00eancia republicana esquecida. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas uma refer\u00eancia a\u00a0<em>Cidad\u00e3o Kane<\/em>, mas na verdade uma pr\u00e1tica hist\u00f3rica real na \u00e9poca de Marx.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HCM<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea afirma que o republicanismo, e sua compreens\u00e3o particular de liberdade, \u00e9 essencial para entender a obra de Marx. O termo\u00a0<em>republicanismo<\/em>\u00a0tem sido usado de v\u00e1rias maneiras, como voc\u00ea o utiliza em sua argumenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BL<\/p>\n<p>De fato, a palavra \u201crepublicano\u201d tem sido usada de v\u00e1rias maneiras diferentes. Hoje, geralmente pensamos nela em termos contempor\u00e2neos: nos EUA, geralmente significa Partido Republicano; no Reino Unido, significa apenas antimonarquismo; na Fran\u00e7a, foi cooptado pela direita. Ent\u00e3o, tem essa enorme variedade de significados. Obviamente, todos eles est\u00e3o relacionados ao significado mais antigo do termo, mas assumiram sentidos bem diferentes ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Para mim, o que realmente importa \u00e9 voltar ao que o republicanismo significava na \u00e9poca em que Marx escrevia e era politicamente ativo. Isso significa republicanismo como uma forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica viva e uma ideologia, da mesma forma que agora existem conservadores, liberais e socialistas. O republicanismo, e isso \u00e9 t\u00e3o facilmente esquecido, era a principal concorrente de apoio \u00e0 classe trabalhadora na \u00e9poca de Marx. O que estou tentando recriar no livro s\u00e3o as maneiras pelas quais Marx extraiu e aprendeu, e tamb\u00e9m se op\u00f4s, a esse movimento pol\u00edtico.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HCM<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, o que o republicanismo do s\u00e9culo XIX defendia?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BL<\/p>\n<p>Mais especificamente, os republicanos mantinham uma compreens\u00e3o particular da ideia de democracia. Eles estavam tentando criar regimes democr\u00e1ticos comprometidos, certamente, com o sufr\u00e1gio universal masculino, mas tamb\u00e9m com muito mais do que isso. Eles queriam controle extensivo sobre os representantes, uma administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica cidad\u00e3, a fim de estabelecer uma soberania popular ativa real. E, a prop\u00f3sito, muitas vezes \u00e9 esquecido que os liberais no s\u00e9culo XIX n\u00e3o estavam comprometidos com a democracia da mesma forma; eles n\u00e3o apoiavam o sufr\u00e1gio universal, mas, em vez disso, favoreciam a posse de propriedade e as qualifica\u00e7\u00f5es educacionais como requisitos para votar.<\/p>\n<p>Outro elemento distintivo do republicanismo, e que une esses v\u00e1rios compromissos, \u00e9 sua compreens\u00e3o de liberdade. Os republicanos acreditavam que liberdade significa aus\u00eancia de poder arbitr\u00e1rio. Isso significa que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 livre sempre que tem um mestre acima com o poder de interferir em voc\u00ea e em sua vida como bem entender. Mesmo que esse mestre seja benevolente e deixe voc\u00ea fazer o que quiser, voc\u00ea ainda n\u00e3o \u00e9 livre porque eles ainda o dominam, ainda t\u00eam poder sobre voc\u00ea que n\u00e3o pode controlar. Na esfera pol\u00edtica, isso leva a uma cr\u00edtica \u00e0 monarquia absoluta, que \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o republicana tradicional. Mas os republicanos tamb\u00e9m usaram sua concep\u00e7\u00e3o de liberdade no s\u00e9culo XIX para criticar novas formas emergentes de poder ou domina\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria, incluindo o capitalismo.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cNa an\u00e1lise de Marx, mesmo bons capitalistas, digamos, que s\u00e3o bondosos e querem pagar bem seus trabalhadores, s\u00e3o for\u00e7ados pelo mercado a n\u00e3o faz\u00ea-lo, porque ser\u00e3o levados \u00e0 fal\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Os republicanos eram, em geral, bastante cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo, e isso \u00e9 facilmente esquecido. Eles se opunham \u00e0 forma como os chefes capitalistas dominavam seus trabalhadores. Mas eles se distinguiram do socialismo em sua cr\u00edtica ao capitalismo, pois acreditavam na universaliza\u00e7\u00e3o da propriedade privada em vez de sua aboli\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, eles basicamente tinham uma economia pol\u00edtica que apoiava pequenos camponeses, pequenos artes\u00e3os e assim por diante. O quadro geral do republicanismo no s\u00e9culo XIX, ent\u00e3o, era o de uma ideologia comprometida com a democracia que sustentava uma economia pol\u00edtica popular, todas unidas por sua vis\u00e3o de liberdade.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HCM<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea menciona que, embora Marx concordasse com muitas partes do programa social republicano, ele decidiu defender uma economia pol\u00edtica socialista \u2014 em vez de republicana. Por que Marx n\u00e3o apoiou a universaliza\u00e7\u00e3o da propriedade privada de pequenos produtores independentes?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BL<\/p>\n<p>Marx inicialmente descarta a ideia de universalizar a propriedade privada de pequenos produtores independentes como um ideal pequeno-burgu\u00eas. No entanto, mais tarde, em\u00a0<em>O Capital<\/em>, e como William Clare Roberts argumentou, ele \u00e9 mais simp\u00e1tico \u00e0 ideia. Isso talvez se deva ao seu envolvimento direto com artes\u00e3os na\u00a0<em>International Working Men\u2019s Association<\/em>. Dada a popularidade do republicanismo na \u00e9poca, a estrat\u00e9gia ret\u00f3rica de Marx \u00e9 come\u00e7ar mostrando o qu\u00e3o atraente esse ideal \u00e9, pois fornece independ\u00eancia individual real.<\/p>\n<p>Ele ent\u00e3o muda e argumenta que, por mais atraente que esse ideal seja, ser\u00e1 arrasado pelo avan\u00e7o da ind\u00fastria capitalista. O argumento que Marx acaba fazendo contra a economia pol\u00edtica republicana \u00e9 que sua tentativa de estabelecer a liberdade ir\u00e1 colidir com as realidades dos imperativos do mercado \u2014 o imperativo de produzir o mais barato poss\u00edvel, o que os artes\u00e3os cada vez mais n\u00e3o conseguem fazer, pois s\u00e3o substitu\u00eddos pela efici\u00eancia da ind\u00fastria em larga escala e sua for\u00e7a de trabalho proletarizada. \u00c9 por isso que Marx acredita que a liberdade s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada por meio de uma economia pol\u00edtica diferente: uma que seja baseada na propriedade comum desses meios de produ\u00e7\u00e3o, por meio de cooperativas no local de trabalho e planejamento democr\u00e1tico da economia.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HCM<\/p>\n<p><strong>Ecoando relatos marxistas como o conceito de rela\u00e7\u00f5es \u201cverticais\u201d de [o soci\u00f3logo hist\u00f3rico americano] Robert Brenner ou a compuls\u00e3o muda de [o fil\u00f3sofo] Soren Mau, voc\u00ea argumenta que at\u00e9 mesmo os capitalistas s\u00e3o compelidos a obedecer \u00e0s for\u00e7as do mercado. Por que \u00e9 t\u00e3o crucial, na sua opini\u00e3o, enfatizar que as leis do mercado dominam a todos?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BL<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante para mim enfatizar isso como parte da cr\u00edtica de Marx \u00e0 economia pol\u00edtica. \u00c9 importante para n\u00f3s entendermos que n\u00e3o podemos limitar nossa cr\u00edtica ao capitalismo \u00e0 arbitrariedade individual. Certamente, Marx escreveu extensivamente sobre a ideia de que os empregadores capitalistas dominam os trabalhadores individualmente e os sujeitam a todos os tipos de interfer\u00eancia arbitr\u00e1ria terr\u00edvel no local de trabalho. Essa \u00e9 definitivamente uma maneira crucial de entender parte da hist\u00f3ria sobre por que os trabalhadores n\u00e3o s\u00e3o livres no capitalismo. E isso \u00e9 algo que Marx compartilha com os republicanos. Mas Marx tamb\u00e9m insistiu que precisamos ir al\u00e9m disso.<\/p>\n<p>Domina\u00e7\u00e3o no capitalismo tamb\u00e9m \u00e9 uma ideia impessoal ou abstrata, que \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o de toda a sociedade pelos imperativos do mercado. E isso n\u00e3o pode ser reduzido a uma \u00fanica pessoa ou a um \u00fanico capitalista. E \u00e9 por isso que, na an\u00e1lise de Marx, mesmo bons capitalistas, digamos, que s\u00e3o bondosos e podem querer pagar bem seus trabalhadores, s\u00e3o for\u00e7ados pelo mercado a n\u00e3o faz\u00ea-lo porque, sen\u00e3o, ser\u00e3o colocados para fora do mercado. Essa ideia de domina\u00e7\u00e3o de mercado visa capturar um n\u00edvel mais profundo de domina\u00e7\u00e3o do que os relacionamentos meramente individuais em nosso local de trabalho. E sempre precisamos tentar entender a intera\u00e7\u00e3o entre as duas formas de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HCM<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea explica em seu livro, as biografias mais proeminentes de Marx d\u00e3o a impress\u00e3o de que coloc\u00e1-lo no s\u00e9culo XIX limita sua relev\u00e2ncia exclusivamente \u00e0quela era. Em contrapartida, voc\u00ea argumenta que seu livro \u00e9 escrito com a \u201cideia de que h\u00e1 muito a ganhar com o estudo do pensamento de Marx em seu contexto hist\u00f3rico\u201d. Por que voc\u00ea acha que pode ser esclarecedor estudar a obra de Marx sob uma perspectiva hist\u00f3rica?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BL<\/p>\n<p>Em geral, quando voc\u00ea realiza um trabalho de hist\u00f3ria do pensamento pol\u00edtico, acredito que \u00e9 muito importante colocar os pensadores em seu contexto. Na minha opini\u00e3o, isso significa reconstruir os debates pol\u00edticos em que eles estavam envolvidos na \u00e9poca e ver quais interven\u00e7\u00f5es tentavam fazer. E h\u00e1 um benef\u00edcio particular em fazer isso com Marx. Como sabemos, Marx foi submetido a tantas camadas de deturpa\u00e7\u00f5es tendenciosas, talvez mais do que qualquer outro dos chamados pensadores can\u00f4nicos. O que uma abordagem contextualista pode fazer no caso de Marx \u00e9 ajudar a descascar algumas dessas camadas de m\u00e1s interpreta\u00e7\u00f5es e tentar voltar ao que ele poderia estar tentando fazer na \u00e9poca em que escrevia.<\/p>\n<p>Infelizmente, algumas biografias recentes de Marx foram escritas da perspectiva de que contextualizar Marx \u00e9 uma forma de despolitiz\u00e1-lo. As biografias de Gareth Stedman Jones e Jonathan Sperber t\u00eam alguns m\u00e9ritos reais, mas eles parecem acreditar que se colocarmos Marx de volta em seu contexto, de alguma forma o colocamos de volta na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, acho que o contextualismo pode dar vida ao fato de que Marx n\u00e3o estava simplesmente envolvido em debates filos\u00f3ficos abstratos, mas que ele era um ator pol\u00edtico, que tinha oponentes pol\u00edticos, aliados pol\u00edticos e que tentava conquistar as pessoas para suas ideias com seus textos. N\u00e3o acho que podemos entender completamente o que Marx estava tentando fazer a menos que entendamos quem eram essas outras pessoas e o que elas estavam argumentando na \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HCM<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea afirma que a obra de Marx pode ser dividida em tr\u00eas fases diferentes, que se distinguem pela maneira como ele se envolveu com a tradi\u00e7\u00e3o republicana de seu tempo. Poderia explicar brevemente quais foram?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BL<\/p>\n<p>Sim, ent\u00e3o a primeira fase representa o primeiro engajamento pol\u00edtico de Marx. Isso \u00e9 quando ele \u00e9 editor de jornal na Ren\u00e2nia, uma parte da Pr\u00fassia. Embora ele tenha sido frequentemente interpretado como um liberal nesse per\u00edodo, eu argumento que isso se deve em parte ao fato de alguns int\u00e9rpretes n\u00e3o terem se envolvido adequadamente com o contexto hist\u00f3rico que os capacitaria a distinguir claramente liberais de republicanos. Tamb\u00e9m \u00e9 porque eles n\u00e3o entendem que ele tinha uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica bastante complicada naquele momento.<\/p>\n<p>Como resultado da repress\u00e3o pol\u00edtica que existia naquela \u00e9poca, Marx n\u00e3o p\u00f4de externalizar seu republicanismo e radicalismo e teve que se limitar ao que podia ser dito em p\u00fablico. No entanto, os compromissos republicanos brilham em seu jornalismo p\u00fablico (e especialmente em seus escritos privados n\u00e3o publicados). Isso inclui uma preocupa\u00e7\u00e3o geral com o poder arbitr\u00e1rio, seja o monarca prussiano, burocratas prussianos de elite ou os censores da imprensa.<\/p>\n<p>Eu ent\u00e3o olho para a maneira como ele lentamente se converte daquela posi\u00e7\u00e3o republicana para o comunismo por volta de 1844. Para mim, \u00e9 importante enfatizar que a convers\u00e3o de Marx ao comunismo n\u00e3o \u00e9 uma convers\u00e3o ao comunismo vigente, porque o comunismo \u00e9 incrivelmente antipol\u00edtico na \u00e9poca. O que Marx faz \u00e9 trazer sua heran\u00e7a republicana \u2014 isto \u00e9, seu comprometimento com a pol\u00edtica e a democracia \u2014 para seu comunismo. Ele ent\u00e3o estabelece o que eu diria que j\u00e1 \u00e9 uma forma de comunismo republicano. No entanto, ao mesmo tempo, eu tamb\u00e9m argumentaria que, durante esse per\u00edodo, algumas de suas ideias pol\u00edticas mais radicais caem por terra \u2014 basicamente, algumas de suas primeiras cr\u00edticas \u00e0 representa\u00e7\u00e3o e \u00e0 administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o \u00f3bvias quanto em seus primeiros escritos.<\/p>\n<p>\u00c9 somente no terceiro per\u00edodo, que acontece em resposta \u00e0 Comuna de Paris, que eu acho que aqueles compromissos republicanos radicais muito antigos retornam e viram partes cruciais do que Marx chama\u00a0<em>de rep\u00fablica social<\/em>. E essa \u00e9 uma rep\u00fablica na qual as pessoas t\u00eam amplo controle e participa\u00e7\u00e3o sobre seu governo e a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Marx acha que essas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o absolutamente essenciais para a transforma\u00e7\u00e3o social. Na minha opini\u00e3o, essa fase final \u00e9 uma s\u00edntese mais completa de seu republicanismo e socialismo.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HCM<\/p>\n<p><strong>Embora voc\u00ea insista em ressaltar a import\u00e2ncia da pol\u00edtica e das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na obra de Marx, ele tamb\u00e9m foi muitas vezes apresentado como um pensador \u201cantipol\u00edtico\u201d.<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BL<\/p>\n<p>Essa cr\u00edtica de que Marx n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtico \u00e9 uma das que mais me frustram porque \u00e9 baseada em um engajamento muito limitado com a obra de Marx, ou apenas uma falta de qualquer compreens\u00e3o de seu contexto. \u00c9 t\u00e3o patentemente \u00f3bvio que o que Marx estava tentando fazer na prepara\u00e7\u00e3o para, por exemplo, as revolu\u00e7\u00f5es de 1848, era combater as formas antipol\u00edticas de socialismo dominantes em seu tempo.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cFicou claro para mim, depois de termos feito essa reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de sua obra, que Marx n\u00e3o pode ser considerado um pensador antipol\u00edtico.\u201d<\/p>\n<p>Elas argumentavam literalmente que, em uma revolu\u00e7\u00e3o, os trabalhadores n\u00e3o deveriam apoiar uma rep\u00fablica. E, a prop\u00f3sito, eu realmente gostaria de enfatizar este ponto: hoje, n\u00f3s realmente n\u00e3o sabemos o qu\u00e3o antipol\u00edtico o socialismo era na \u00e9poca de Marx. Muitos socialistas na \u00e9poca pensavam que uma rep\u00fablica era t\u00e3o in\u00fatil quanto uma monarquia, e que dever\u00edamos realizar v\u00e1rios experimentos comunit\u00e1rios que de alguma forma inspirariam as pessoas a difundir o socialismo pacificamente. Marx achava que isso era uma maluquice perigosa, e uma de suas grandes contribui\u00e7\u00f5es \u00e9 lutar contra esses elementos antipol\u00edticos. \u00c9 por isso que est\u00e1 claro para mim, uma vez que realizamos essa reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de sua obra, que Marx n\u00e3o pode ser considerado um pensador antipol\u00edtico.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HCM<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m foi argumentado que Marx acreditava que em uma sociedade comunista o papel da pol\u00edtica terminaria.<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BL<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma complica\u00e7\u00e3o com a qual lido no final do livro. Acho que o melhor argumento que voc\u00ea pode usar para Marx ser antipol\u00edtico \u00e9 a ideia de que a pol\u00edtica e o Estado desaparecem em uma futura sociedade comunista. E embora eu ache que seja o melhor caso, ainda est\u00e1 errado na minha opini\u00e3o. Acho que est\u00e1 errado porque precisamos distinguir entre o desaparecimento do Estado e da pol\u00edtica. Acho que, obviamente, Marx diz que o Estado desaparece, mas isso n\u00e3o significa necessariamente que a pol\u00edtica desapare\u00e7a tamb\u00e9m, o que poder\u00edamos definir amplamente como tomadas de decis\u00e3o autorit\u00e1rias sobre quest\u00f5es de interesse comum. Realmente n\u00e3o vejo nenhuma evid\u00eancia para pensar que Marx pensou que isso desapareceria.<\/p>\n<p>Em todo caso, seria algo bastante absurdo de se acreditar. H\u00e1 raz\u00f5es republicanas muito fortes para acreditar que a pol\u00edtica continuaria a existir, e deveria continuar existindo, em uma sociedade comunista. Entre elas est\u00e1 um ceticismo republicano sobre a no\u00e7\u00e3o de que poder\u00edamos eliminar completamente o impulso olig\u00e1rquico de restabelecer uma sociedade de classes. Por essa raz\u00e3o, acredito que institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas radicais s\u00e3o necess\u00e1rias para proteger a sociedade dessas amea\u00e7as olig\u00e1rquicas.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HCM<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea explicou, perto do fim de sua vida, e particularmente depois da Comuna de Paris, Marx se envolveu seriamente com a quest\u00e3o de quais institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas eram necess\u00e1rias para estabelecer o socialismo. Como a rep\u00fablica social imaginada por Marx difere de uma rep\u00fablica burguesa?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BL<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, podemos falar sobre as institui\u00e7\u00f5es que uma rep\u00fablica burguesa compartilha com o tipo de rep\u00fablica social que Marx estava pensando. Elas se sobrep\u00f5em em termos de um compromisso com o sufr\u00e1gio universal e com direitos c\u00edvicos iguais. Embora Marx pense que essas institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito importantes, ele acredita que a maneira como a representa\u00e7\u00e3o funciona nas rep\u00fablicas burguesas realmente deturpa o povo, que acaba sendo governado por uma classe de elite. Marx, portanto, defende uma rep\u00fablica que esteja verdadeiramente sob o controle do povo, com o que ele quer dizer uma rep\u00fablica que esteja focada na import\u00e2ncia de controlar seus representantes. Ele defende especificamente o que \u00e9 chamado de mandato imperativo, que \u00e9 onde voc\u00ea d\u00e1 instru\u00e7\u00f5es vinculativas aos seus representantes; que os mandatos dos representantes podem ser revogados; e que haja elei\u00e7\u00f5es muito mais frequentes.<\/p>\n<p>Outra institui\u00e7\u00e3o que ele defende \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o da burocracia estatal. Em vez de ter esse corpo profissional de elite que existe separado do povo, ele acha que esse aparato fica, em algum sentido, adequadamente sob seu controle ao eleger uma grande parcela dessa burocracia, que seria similarmente submetida a esses mecanismos de controle de revoga\u00e7\u00e3o. Isso, eu acho, d\u00e1 uma ideia de qu\u00e3o diferente ele achava que uma rep\u00fablica social seria de uma rep\u00fablica burguesa.<\/p>\n<p>O argumento de Marx mostra que, de certa forma, o que chamamos de democracia hoje \u00e9, na verdade, a vit\u00f3ria de uma vers\u00e3o muito mais liberal do que a democracia seria: uma que, em certo sentido, \u00e9 uma fus\u00e3o da cren\u00e7a republicana no sufr\u00e1gio universal com uma arquitetura que permanece amplamente liberal, onde o Estado e seus representantes est\u00e3o fora do nosso controle.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HCM<\/p>\n<p><strong>Seu livro termina com um posf\u00e1cio que sugere v\u00e1rios recursos que podem ser extra\u00eddos de seu estudo. Com isso em mente, como um estudo de Marx e do republicanismo no s\u00e9culo XIX pode contribuir para formular uma vis\u00e3o do socialismo adaptada aos desafios de hoje?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">BL<\/p>\n<p>Certamente tem sido um problema para o socialismo que a pol\u00edtica \u00e0s vezes tenha sido pensada em um sentido bastante instrumental, como se o design das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o fosse importante ou que as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que desenvolvemos para atingir o socialismo n\u00e3o importassem realmente depois. Um recurso que espero que esse olhar para Marx atrav\u00e9s do republicanismo forne\u00e7a \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edtica \u00e9 de fato central para a emancipa\u00e7\u00e3o social. A segunda coisa que espero que forne\u00e7a em termos de recursos \u00e9 que temos uma compreens\u00e3o bastante estreita do que liberdade significa hoje. Muitas vezes pensamos em liberdade como o que \u00e9 chamado de liberdade como n\u00e3o interfer\u00eancia, onde somos livres sempre que o Estado ou qualquer outra pessoa n\u00e3o interfere em nossos interesses \u2014 uma ideia que torna f\u00e1cil acreditar que somos livres no trabalho simplesmente porque supostamente ningu\u00e9m nos for\u00e7ou a essas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Acho que h\u00e1 uma vers\u00e3o mais interessante de liberdade que podemos pegar para mostrar por que o capitalismo torna as pessoas n\u00e3o-livres. Acho que a liberdade republicana captura algo importante sobre o que entendemos por liberdade, que n\u00e3o somos livres quando algu\u00e9m tem esse poder arbitr\u00e1rio sobre voc\u00ea, que eles podem ent\u00e3o te degradar, trat\u00e1-lo como quiserem, e que mesmo que n\u00e3o o fa\u00e7am, o mero fato de que eles t\u00eam esse poder \u2014 e essa \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o republicana realmente crucial \u2014 torna voc\u00ea n\u00e3o-livre.<\/p>\n<p>Acho que isso \u00e9 parte da vis\u00e3o de Marx sobre a liberdade, que tem sido amplamente negligenciada. De certa forma, permitimos que conservadores e liberais hoje dominem os debates sobre o valor da liberdade. Acho que \u00e9 um valor que dever\u00edamos reivindicar como socialistas. E se fiz\u00e9ssemos isso, acho que a liberdade republicana seria parte do que dever\u00edamos entender por liberdade.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Como Karl Marx se tornou comunista &#8211; https:\/\/jacobin.com.br\/2024\/12\/como-karl-marx-se-tornou-comunista\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HUGO DE CAMPS MORA &#8211; Karl Marx estava comprometido com a no\u00e7\u00e3o republicana de liberdade. Em uma nova biografia de Karl Marx, Bruno Leipold contextualiza historicamente o grande pensador e revolucion\u00e1rio alem\u00e3o. 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