{"id":24579,"date":"2025-04-11T12:16:18","date_gmt":"2025-04-11T15:16:18","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24579"},"modified":"2025-04-09T20:18:22","modified_gmt":"2025-04-09T23:18:22","slug":"ideologias-mobilizadoras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/04\/11\/ideologias-mobilizadoras\/","title":{"rendered":"Ideologias mobilizadoras"},"content":{"rendered":"<p><strong>PERRY ANDERSON*<\/strong> &#8211; Hoje ainda estamos em uma situa\u00e7\u00e3o onde uma \u00fanica ideologia dominante governa a maior parte do mundo. Resist\u00eancia e dissid\u00eancia est\u00e3o longe de mortas, mas continuam a carecer de articula\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e intransigente.<\/p>\n<p>Qu\u00e3o importante \u00e9 o papel das ideias nas convuls\u00f5es pol\u00edticas que marcaram as grandes mudan\u00e7as hist\u00f3ricas? Seriam elas meros epifen\u00f4menos mentais de processos materiais e sociais muito mais profundos, ou possuiriam um poder aut\u00f4nomo decisivo como for\u00e7as de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica? Ao contr\u00e1rio do que parece, as respostas a essa quest\u00e3o n\u00e3o dividem nitidamente esquerda e direita.<\/p>\n<p>Muitos conservadores e liberais, \u00e9 claro, exaltaram o significado transcendente de ideais elevados e valores morais na hist\u00f3ria, denunciando como materialistas vulgares os radicais que insistem que as contradi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas s\u00e3o o motor da mudan\u00e7a hist\u00f3rica. Exemplos modernos famosos desse idealismo de direita incluem figuras como Friedrich Meinecke, Benedetto Croce ou Karl Popper.<\/p>\n<p>Para esses pensadores, nas palavras de Friedrich Meinecke: \u201cIdeias, carregadas e transformadas por personalidades vivas, constituem a trama da vida hist\u00f3rica.\u201d Mas podemos encontrar outras grandes figuras da Direita que atacam as ilus\u00f5es racionalistas na import\u00e2ncia de doutrinas artificiais, defendendo contra elas o significado muito mais duradouro dos costumes tradicionais ou dos instintos biol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Friedrich Nietzsche, Lewis Namier, Gary Becker foram todos \u2013 de diferentes perspectivas \u2013 te\u00f3ricos dos interesses materiais, empenhados em esvaziar sardonicamente as pretens\u00f5es dos valores \u00e9ticos ou pol\u00edticos. A teoria da escolha racional, hegem\u00f4nica em amplas \u00e1reas das ci\u00eancias sociais anglo-sax\u00e3s, \u00e9 o paradigma contempor\u00e2neo mais conhecido desse tipo.<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p>Essa mesma bifurca\u00e7\u00e3o, no entanto, pode ser encontrada na esquerda. Se observarmos os grandes historiadores modernos de esquerda, encontraremos completa indiferen\u00e7a ao papel das ideias em Fernand Braudel, em contraste com o apego apaixonado a elas em R. H. Tawney. Entre os pr\u00f3prios marxistas brit\u00e2nicos, ningu\u00e9m confundiria as posi\u00e7\u00f5es de Edward Thompson, cuja obra de uma vida foi uma pol\u00eamica contra o que ele via como reducionismo econ\u00f4mico, com as de Eric Hobsbawm, cuja hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX n\u00e3o cont\u00e9m se\u00e7\u00f5es separadas dedicadas \u00e0s ideias.<\/p>\n<p>Se olharmos para os l\u00edderes pol\u00edticos, a mesma oposi\u00e7\u00e3o se repete de forma ainda mais incisiva. O movimento \u00e9 tudo, o objetivo \u00e9 nada, proclamou Eduard Bernstein. Poderia haver uma desvaloriza\u00e7\u00e3o mais dr\u00e1stica dos princ\u00edpios ou ideias, em favor dos meros processos factuais? Eduard Bernstein acreditava estar sendo fiel a Marx ao pronunciar este ditame. No mesmo per\u00edodo, Vlad\u00edmir L\u00eanin declarou \u2013 em uma m\u00e1xima igualmente famosa, de efeito exatamente antit\u00e9tico \u2013 como algo que todo marxista deveria saber, que \u201csem teoria revolucion\u00e1ria, n\u00e3o pode haver movimento revolucion\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>O contraste aqui n\u00e3o era apenas entre reformista e revolucion\u00e1rio. Nas fileiras da pr\u00f3pria esquerda revolucion\u00e1ria, encontramos a mesma dualidade. Para Rosa Luxemburgo, como ela mesma disse, \u201cno princ\u00edpio era o ato\u201d \u2013 n\u00e3o qualquer ideia preconcebida, mas simplesmente a a\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea das massas era o ponto de partida para grandes mudan\u00e7as hist\u00f3ricas. Os anarquistas nunca deixaram de concordar com ela.<\/p>\n<p>Para Antonio Gramsci, por outro lado, o movimento oper\u00e1rio jamais poderia obter vit\u00f3rias duradouras sem alcan\u00e7ar uma ascend\u00eancia ideal \u2013 o que ele chamava de hegemonia cultural e pol\u00edtica \u2013 sobre a sociedade como um todo, incluindo seus inimigos. \u00c0 frente de seus respectivos Estados, Joseph Stalin relacionou a constru\u00e7\u00e3o do socialismo ao desenvolvimento material das for\u00e7as produtivas, e Mao Ts\u00e9-Tung a uma revolu\u00e7\u00e3o cultural capaz de transformar as mentalidades e a moral.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p>Como arbitrar essa antiga oposi\u00e7\u00e3o? As ideias v\u00eam em diferentes formas e tamanhos. Aquelas relevantes para grandes mudan\u00e7as hist\u00f3ricas s\u00e3o tipicamente ideologias sistem\u00e1ticas. G\u00f6ran Therborn ofereceu uma taxonomia penetrante e elegante dessas ideologias em um livro cujo pr\u00f3prio t\u00edtulo \u2013\u00a0<em>A ideologia do poder e o poder da ideologia<\/em>\u00a0(1980) \u2013 nos fornece um programa. Ele divide as ideologias em tipos existenciais e hist\u00f3ricos, inclusivos e posicionais. Dentre elas, aquelas com maior alcance espacial ou temporal foram caracterizadas por um tra\u00e7o talvez melhor captado pelo conservador ingl\u00eas T. S. Eliot em suas\u00a0<em>Notas para a defini\u00e7\u00e3o de cultura<\/em>\u00a0(1948).<\/p>\n<p>Podemos facilmente substituir sua no\u00e7\u00e3o de \u201ccultura\u201d pelo termo \u201cideologia\u201d. A observa\u00e7\u00e3o-chave de T. S. Eliot foi que qualquer sistema de cren\u00e7as importante constitui uma hierarquia de diferentes n\u00edveis de complexidade conceitual, indo desde constru\u00e7\u00f5es intelectuais altamente sofisticadas no topo \u2013 acess\u00edveis apenas a uma elite educada \u2013 passando por vers\u00f5es mais amplas e menos refinadas em n\u00edveis intermedi\u00e1rios, at\u00e9 as simplifica\u00e7\u00f5es mais cruas e elementares em um n\u00edvel popular: todas elas, no entanto, unificadas por um \u00fanico idioma e sustentadas por um conjunto correspondente de pr\u00e1ticas simb\u00f3licas. Apenas tal sistema totalizado, argumentou ele, seria digno do nome de uma cultura verdadeira e capaz de gerar grande arte\u201d.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong><\/p>\n<p>T. S. Eliot pensava, \u00e9 claro, no cristianismo como o exemplo primordial desse sistema, unindo as mais arcanas especula\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas a prescri\u00e7\u00f5es \u00e9ticas familiares e supersti\u00e7\u00f5es populares ing\u00eanuas em uma \u00fanica f\u00e9 abrangente, sustentada por hist\u00f3rias e imagens sagradas de um repert\u00f3rio comum de fontes escritur\u00edsticas. As religi\u00f5es mundiais que emergiram na chamada \u201cEra Axial\u201d certamente oferecem um teste inicial impressionante para qualquer hip\u00f3tese sobre o papel das ideias em grandes mudan\u00e7as hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Poucos duvidariam do impacto enorme desses sistemas de cren\u00e7a sobre vastas \u00e1reas do mundo e ao longo de mil\u00eanios. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil identificar suas origens em convuls\u00f5es materiais ou sociais precedentes em qualquer escala compar\u00e1vel \u00e0 sua pr\u00f3pria influ\u00eancia transformadora e difus\u00e3o.<\/p>\n<p>No m\u00e1ximo, poder\u00edamos dizer que a unifica\u00e7\u00e3o do mundo mediterr\u00e2neo pelo Imp\u00e9rio Romano forneceu um cen\u00e1rio institucional favor\u00e1vel para a propaga\u00e7\u00e3o de um monote\u00edsmo universalista, como o cristianismo, ou que um nomadismo militarizado em um ambiente des\u00e9rtico sob press\u00e3o demogr\u00e1fica provavelmente encontraria, cedo ou tarde, uma express\u00e3o religiosa distinta, como o isl\u00e3. A despropor\u00e7\u00e3o entre causas imput\u00e1veis e consequ\u00eancias verific\u00e1veis parece ser um argumento forte a favor de conceder um poder aut\u00f4nomo not\u00e1vel \u2013 at\u00e9 mesmo extraordin\u00e1rio \u2013 \u00e0s ideias nas civiliza\u00e7\u00f5es daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>O impacto pol\u00edtico dessas religi\u00f5es n\u00e3o era, \u00e9 claro, estritamente compar\u00e1vel. O cristianismo converteu gradualmente um universo imperial existente a partir de dentro, sem qualquer altera\u00e7\u00e3o significativa de sua estrutura social. Mas, ao criar na Igreja um complexo institucional paralelo ao Estado, e que sobreviveu ao colapso final do imp\u00e9rio, garantiu continuidades culturais e pol\u00edticas m\u00ednimas para a subsequente emerg\u00eancia do feudalismo.<\/p>\n<p>O isl\u00e3, em contraste, redesenhou todo o mapa pol\u00edtico do Mediterr\u00e2neo e do Oriente M\u00e9dio de uma s\u00f3 vez, por meio de uma conquista militar rel\u00e2mpago. Ainda estamos na Antiguidade, no entanto. Em ambos os casos, os sistemas de cren\u00e7a que conquistaram a regi\u00e3o o fizeram sem o que mais tarde descrever\u00edamos como uma batalha de ideias. Nenhuma luta ideol\u00f3gica sustentada foi travada entre pag\u00e3os e crist\u00e3os, ou entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos, quando os termos da cren\u00e7a mudaram, em Roma ou no Cairo. A convers\u00e3o ocorreu essencialmente por osmose ou for\u00e7a, sem colis\u00e3o ideol\u00f3gica articulada.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong><\/p>\n<p>Ao passarmos para a \u00e9poca moderna, as coisas s\u00e3o diferentes. A Reforma Protestante, ao contr\u00e1rio dos ensinamentos de Cristo ou Maom\u00e9, foi desde o in\u00edcio um sistema doutrinal escrito \u2013 ou melhor, um conjunto deles \u2013 desenvolvido nos textos pol\u00eamicos de Lutero, Zw\u00ednglio e Calvino, antes de se tornar uma for\u00e7a maior ou poder institucional. Menos distante no tempo, \u00e9 mais f\u00e1cil rastrear as condi\u00e7\u00f5es sociais e materiais imediatas de seu surgimento: a corrup\u00e7\u00e3o do catolicismo renascentista, o surgimento do sentimento nacional, o acesso diferenciado dos Estados europeus ao Vaticano, a chegada da imprensa, e assim por diante.<\/p>\n<p>O que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 outra coisa: o surgimento da Contrarreforma dentro da Igreja Cat\u00f3lica e, com ela, uma batalha ideol\u00f3gica total entre os dois credos, sustentada nos mais altos n\u00edveis do debate metaf\u00edsico e intelectual, assim como por todos os meios conhecidos de \u201c<em>propaganda\u201d\u00a0<\/em>popular \u2013 devemos o termo a esta \u00e9poca \u2013 desencadeando uma s\u00e9rie tit\u00e2nica de rebeli\u00f5es, guerras e guerras civis por toda a Europa. Aqui, como nunca, as ideias parecem desencadear e moldar a mudan\u00e7a hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>De fato, nenhuma revolu\u00e7\u00e3o subsequente seria provocada t\u00e3o diretamente por quest\u00f5es de cren\u00e7a intelectual quanto os primeiros grandes levantes que levariam \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos Estados modernos na Europa: a Revolta dos Pa\u00edses Baixos contra a Espanha no s\u00e9culo XVI, e a Grande Rebeli\u00e3o e a Revolu\u00e7\u00e3o Gloriosa na Inglaterra no s\u00e9culo XVII. Em todos os tr\u00eas casos, o deflagrador imediato da revolu\u00e7\u00e3o foi um surto de paix\u00e3o teol\u00f3gica: a quebra de imagens sagradas em nome da pureza escritur\u00edstica nos Pa\u00edses Baixos, a imposi\u00e7\u00e3o de um novo livro de ora\u00e7\u00f5es na Esc\u00f3cia, a amea\u00e7a de toler\u00e2ncia cat\u00f3lica na Inglaterra.<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong><\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o, as eclos\u00f5es das Revolu\u00e7\u00f5es Americana e Francesa no s\u00e9culo XVIII foram muito mais materialmente determinados. Em nenhum dos casos um sistema desenvolvido de ideias motivou o ataque inicial \u00e0 antiga ordem \u2013 colonial ou real. Nas col\u00f4nias norte-americanas, um interesse econ\u00f4mico pr\u00f3prio do tipo mais estreito \u2013 a avers\u00e3o a impostos cobrados para custear a prote\u00e7\u00e3o contra os ind\u00edgenas e os franceses, temperada com teorias conspirat\u00f3rias \u2013 desencadeou a rebeli\u00e3o contra a monarquia brit\u00e2nica; enquanto na Fran\u00e7a, uma crise fiscal provocada pelo custo de aux\u00edlio aos rebeldes americanos for\u00e7ou a convoca\u00e7\u00e3o de uma institui\u00e7\u00e3o feudal tardia, os Estados Gerais, cujas reformas foram prontamente varridas pelo surgimento do descontentamento maci\u00e7o no campo e nas cidades, sob a press\u00e3o de uma m\u00e1 colheita e dos altos pre\u00e7os dos gr\u00e3os.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, o colapso da antiga ordem foi um processo n\u00e3o premeditado, no qual predominaram queixas de natureza material em vez de ideol\u00f3gica. No entanto, em segundo plano, estava a cultura cr\u00edtica cumulativa do Iluminismo \u2013 um vasto repert\u00f3rio de ideias e discursos potencialmente explosivos \u2013 \u00e0 espera, por assim dizer, de ser ativado exatamente em tais condi\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Foi esse arsenal de iconoclastia preexistente que transformou a desintegra\u00e7\u00e3o da ordem estabelecida na cria\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de uma nova ordem e na forja de um imagin\u00e1rio ideol\u00f3gico com o qual ainda vivemos hoje. Os ideais das Revolu\u00e7\u00f5es Americana e \u2013 sobretudo \u2013 Francesa permaneceram como inspira\u00e7\u00f5es ativas para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito depois que as institui\u00e7\u00f5es que cada uma delas gerou se fossilizaram ou foram esquecidas.<\/p>\n<p><strong>6.<\/strong><\/p>\n<p>Se o principal legado das religi\u00f5es mundiais foi a introdu\u00e7\u00e3o de uma ideia metaf\u00edsica de universalismo, e o da Reforma o individualismo, o patrim\u00f4nio ideol\u00f3gico deixado pelas revolu\u00e7\u00f5es no S\u00e9culo das Luzes residia essencialmente nas no\u00e7\u00f5es de soberania popular e direitos civis. Estes ainda eram apenas os meios formais para a livre determina\u00e7\u00e3o da forma de uma sociedade.<\/p>\n<p>Como deveria ser essa forma \u2013 a subst\u00e2ncia de um bem-estar coletivo? Essa foi a quest\u00e3o que o advento da revolu\u00e7\u00e3o industrial colocou ao s\u00e9culo XIX. Tr\u00eas tipos diferentes de respostas foram oferecidos. Em 1848, os grandes campos de batalha da \u00e9poca j\u00e1 estavam definidos. Com o\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>, a Europa se viu confrontada com a escolha que mais tarde se apresentaria em todo o planeta: capitalismo ou socialismo? Pela primeira vez, a humanidade se deparava com princ\u00edpios claros e radicalmente antit\u00e9ticos de organiza\u00e7\u00e3o social. Mas havia uma assimetria em sua formula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O socialismo recebeu uma teoriza\u00e7\u00e3o extensa, variada e autodeclarada, tanto como movimento pol\u00edtico quanto como objetivo hist\u00f3rico. O capitalismo, ao contr\u00e1rio de pren\u00fancios como a \u201csociedade comercial\u201d de Adam Smith, raramente \u2013 ou nunca \u2013 falou em seu pr\u00f3prio nome no s\u00e9culo XIX e na maior parte do s\u00e9culo XX; o pr\u00f3prio termo foi uma inven\u00e7\u00e3o de seus oponentes. Defensores da propriedade privada, mantenedores do\u00a0<em>status quo<\/em>, apelavam para concep\u00e7\u00f5es mais parciais ou tradicionais \u2014 invocando princ\u00edpios conservadores ou liberais em vez de propor qualquer ideologia expressamente capitalista. Estes estavam longe de ser um substituto confi\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram poucos os pensadores conservadores \u2013 Carlyle ou Maurras \u2013 que expressaram forte antipatia pelo capitalismo; enquanto v\u00e1rios te\u00f3ricos liberais \u2013 Mill ou Walras \u2013 viam com favor as vers\u00f5es mais brandas do socialismo. Se considerarmos o papel das ideias no s\u00e9culo XIX, \u00e9 claro que o socialismo \u2013 sobretudo em sua vers\u00e3o marxista e, portanto, mais intransigentemente materialista \u2013 demonstrou capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito maior que a de seu oponente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que ningu\u00e9m falava de um movimento capitalista. O poder da ordem estabelecida ainda repousava em muito maior grau na tradi\u00e7\u00e3o, no costume e na for\u00e7a do que em qualquer conjunto de ideias te\u00f3ricas. Em meados do s\u00e9culo XX, por outro lado, o socialismo como ideia havia alcan\u00e7ado uma abrang\u00eancia geogr\u00e1fica e de adeptos maior do que qualquer religi\u00e3o mundial jamais conseguira.<\/p>\n<p><strong>7.<\/strong><\/p>\n<p>Contudo, o universo ideol\u00f3gico n\u00e3o se esgotava nesses opostos. Havia outra grande for\u00e7a motriz em a\u00e7\u00e3o nessa \u00e9poca, diferente em natureza de ambos. J\u00e1 em 1848, o nacionalismo mostrou ser um movimento mobilizador ainda mais poderoso que o socialismo na Europa. Duas peculiaridades o definiam como ideia pol\u00edtica, muito antes de se espalhar triunfantemente pelo resto do mundo. Por um lado, produziu muito poucos pensadores significativos ou originais, com raras exce\u00e7\u00f5es ocasionais como Fichte. Como doutrina articulada, era incomparavelmente mais pobre e superficial que seus dois contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Por outro lado, justamente por sua relativa vacuidade conceitual, era eminentemente pl\u00e1stico e podia entrar numa grande variedade de combina\u00e7\u00f5es \u2013 tanto com o capitalismo quanto com o socialismo \u2013 gerando tanto o chauvinismo que alimentou a guerra inter-imperialista de 1914 quanto o fascismo que desencadeou sua sequ\u00eancia em 1939, de um lado; e os movimentos revolucion\u00e1rios de liberta\u00e7\u00e3o nacional no Terceiro Mundo, de outro.<\/p>\n<p>O triunfo do ideal nacional pelo globo demonstrou a aus\u00eancia de qualquer correspond\u00eancia necess\u00e1ria entre sistema e impacto, entre a profundidade intelectual e o alcance de uma ideologia e seu poder mobilizador no mundo moderno.<\/p>\n<p><strong>8.<\/strong><\/p>\n<p>O in\u00edcio do s\u00e9culo XX testemunhou uma s\u00e9rie de grandes revolu\u00e7\u00f5es em Estados-chave da periferia do mundo imperialista: em ordem cronol\u00f3gica, M\u00e9xico, China, R\u00fassia, Turquia. Elas formam um conjunto significativo de contrastes. O papel das ideias na moldagem do curso e do resultado do processo revolucion\u00e1rio foi maior na R\u00fassia e na China, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular mais forte no M\u00e9xico e na R\u00fassia, e o apelo nacionalista mais poderoso na Turquia.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o republicana de 1911 fracassou na China, mas o intenso fermento intelectual por tr\u00e1s dela persistiu, com seus afluentes acabando por desembocar na revolu\u00e7\u00e3o comunista bem-sucedida em 1949. A recupera\u00e7\u00e3o kemalista na Turquia envolveu muito poucas ideias, al\u00e9m da salva\u00e7\u00e3o nacional, antes de importar uma variedade ecl\u00e9tica uma vez estabelecido o novo regime.<\/p>\n<p>S\u00e3o as Revolu\u00e7\u00f5es Mexicana e Russa \u2013 de longe as maiores convuls\u00f5es desse per\u00edodo \u2013 que oferecem o contraste mais marcante. No M\u00e9xico, uma enorme convuls\u00e3o social foi desencadeada e percorreu uma trajet\u00f3ria de dez anos sem qualquer sistema importante de ideias que a iniciasse ou dela emergisse. Em termos puramente doutrin\u00e1rios, a \u00fanica ideologia desenvolvida do per\u00edodo pertencia n\u00e3o aos revolucion\u00e1rios, mas ao regime que eles derrubaram \u2013 o positivismo cient\u00edfico do Porfiriato tardio.<\/p>\n<p>Aqui, como em nenhum outro lugar, atos pol\u00edticos em escala tit\u00e2nica foram realizados com nada mais do que no\u00e7\u00f5es elementares de justi\u00e7a institucional ou social: uma li\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel para qualquer vis\u00e3o demasiado intelectualista da mudan\u00e7a hist\u00f3rica dram\u00e1tica. S\u00f3 os mexicanos podem dizer qual pre\u00e7o foi finalmente pago pela factualidade da Revolu\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que o Estado priista tomava forma a partir de Obreg\u00f3n.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa seguiu um padr\u00e3o muito diferente. O czarismo foi derrubado por um descontentamento massivo espont\u00e2neo, provocado pela fome e pelos horrores da guerra \u2013 um in\u00edcio muito mais desprovido de ideias do que a revolta de Madero no M\u00e9xico. Em poucos meses, os bolcheviques chegaram ao poder atrav\u00e9s de uma agita\u00e7\u00e3o popular baseada em temas n\u00e3o menos elementares do que aqueles que moveram Zapata ou Villa: p\u00e3o, terra e paz.<\/p>\n<p>Uma vez no poder, por\u00e9m, L\u00eanin e seu partido tinham \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o a ideologia pol\u00edtica mais sistem\u00e1tica e abrangente da \u00e9poca. Aqui, a rela\u00e7\u00e3o entre as causas e o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o \u2013 a tens\u00e3o entre origens materiais e objetivos ideais \u2013 n\u00e3o era diferente daquela que produziu o regime jacobino do Ano Dois na Fran\u00e7a, mas era muito mais extrema. Tanto os feitos quanto os crimes do Estado sovi\u00e9tico criado pelos bolcheviques eclipsaram os do Estado priista, terminando sete d\u00e9cadas depois em um desaparecimento muito mais apocal\u00edptico \u2013 o pre\u00e7o, por sua vez, de um voluntarismo ideol\u00f3gico hom\u00e9rico.<\/p>\n<p><strong>\u00a09.<\/strong><\/p>\n<p>Os efeitos da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, \u00e9 claro, n\u00e3o se limitaram \u00e0 R\u00fassia. No final de sua vida, Karl Marx havia vislumbrado a possibilidade de a R\u00fassia contornar a necessidade de pleno desenvolvimento capitalista, por meio de uma convuls\u00e3o popular que desencadearia uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia revolucion\u00e1ria na Europa. Essa era essencialmente a concep\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s da estrat\u00e9gia de Vlad\u00edmir L\u00eanin: nenhuma cren\u00e7a na possibilidade de construir o socialismo em um Estado isolado e atrasado como a R\u00fassia, mas a esperan\u00e7a de que o exemplo sovi\u00e9tico detonasse revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias por toda a Europa, em sociedades onde existiam as condi\u00e7\u00f5es materiais para uma livre associa\u00e7\u00e3o dos produtores, em um alto n\u00edvel de produtividade industrial.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria seguiu o curso oposto: bloqueio de qualquer chance de revolu\u00e7\u00e3o no Ocidente avan\u00e7ado, dissemina\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o em sociedades ainda mais atrasadas do Oriente. Com isso, o enorme sucesso pol\u00edtico do marxismo parecia ser a melhor refuta\u00e7\u00e3o de seus pressupostos te\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Longe de as superestruturas seguirem a determina\u00e7\u00e3o das infraestruturas econ\u00f4micas \u2013 sistemas ideais refletindo pr\u00e1ticas materiais \u2013, a ideologia do marxismo-leninismo, em sua forma mais ou menos estalinizada, mostrou-se capaz de gerar, em contextos sem capitalismo, sociedades al\u00e9m dele. Isso deu origem, dentro do pr\u00f3prio marxismo, \u00e0 no\u00e7\u00e3o popular nos anos 1960 e 1970, de que as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o na verdade tinham primazia sobre as for\u00e7as produtivas, chegando mesmo a defini-las.<\/p>\n<p>Mas as intui\u00e7\u00f5es de Marx n\u00e3o seriam t\u00e3o facilmente invertidas. No fim, as for\u00e7as produtivas tiveram sua revanche, com o colapso da pr\u00f3pria URSS, quando a maior produtividade econ\u00f4mica das terras onde a revolu\u00e7\u00e3o deveria ter ocorrido acabou por sobrepujar a daquelas onde ela de fato ocorreu.<\/p>\n<p>Qual era o lugar das ideias no outro lado da luta? O d\u00e9ficit ideol\u00f3gico do capitalismo como ordem declarada nunca foi realmente sanado em sua batalha contra o comunismo. O pr\u00f3prio termo continuou a pertencer essencialmente ao inimigo, como uma arma contra o sistema, e n\u00e3o como sua autodescri\u00e7\u00e3o. Em meados do s\u00e9culo, por\u00e9m, o in\u00edcio da Guerra Fria, que significava uma luta total entre dois blocos antag\u00f4nicos, exigiu um aprimoramento ideol\u00f3gico do capital a um n\u00edvel de efic\u00e1cia e intensidade totalmente novo.<\/p>\n<p>O resultado foi a convers\u00e3o ocidental padr\u00e3o dos termos do conflito: n\u00e3o capitalismo versus socialismo, mas democracia contra totalitarismo, o Mundo livre contra o mundo de\u00a0<em>1984<\/em>. Apesar das hipocrisias mais amplas dessa constru\u00e7\u00e3o \u2013 o chamado \u201cMundo livre\u201d inclu\u00eda, \u00e9 claro, muitas ditaduras militares e policiais \u2013, ela correspondia a vantagens reais do oeste do Atl\u00e2ntico Norte sobre o Leste estalinizado.<\/p>\n<p>Na competi\u00e7\u00e3o entre os blocos, a bandeira da democracia foi um trunfo decisivo onde era menos necess\u00e1ria: entre as popula\u00e7\u00f5es das pr\u00f3prias sociedades capitalistas avan\u00e7adas, que precisavam de pouca persuas\u00e3o sobre a preferibilidade das condi\u00e7\u00f5es em que viviam. Teve muito menos efeito, por raz\u00f5es \u00f3bvias, no mundo ex-colonial ou semicolonial at\u00e9 pouco antes dominado pelas pr\u00f3prias democracias ocidentais.<\/p>\n<p>Mas na Europa oriental e \u2013 em menor medida \u2013 na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, as imagens orwellianas tiveram mais resson\u00e2ncia, e as transmiss\u00f5es da\u00a0<em>R\u00e1dio Europa Livre<\/em>\u00a0ou da\u00a0<em>R\u00e1dio Liberdade<\/em>, pregando os m\u00e9ritos da democracia norte-americana, certamente contribu\u00edram para a vit\u00f3ria final na Guerra Fria. No entanto, a raz\u00e3o central do triunfo do capitalismo sobre o comunismo estava mais pr\u00f3xima: no magnetismo de n\u00edveis muito mais altos de consumo material, que no fim atra\u00edram irresistivelmente, para a \u00f3rbita do Ocidente, n\u00e3o apenas as massas privadas, mas tamb\u00e9m as elites burocr\u00e1ticas do bloco sovi\u00e9tico \u2013 os privilegiados, tanto quanto ou talvez mais do que os empobrecidos. Simplificando, a vantagem comparativa do Mundo livre que decidiu o resultado do conflito estava na esfera das compras, e n\u00e3o na do voto.<\/p>\n<p><strong>10.<\/strong><\/p>\n<p>O fim da Guerra Fria trouxe uma configura\u00e7\u00e3o totalmente nova. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, o capitalismo se proclamou como tal, em uma ideologia que anunciava a chegada de um ponto final no desenvolvimento social, com a constru\u00e7\u00e3o de uma ordem ideal baseada no livre mercado, al\u00e9m da qual nenhum avan\u00e7o substancial poderia ser imaginado. Essa \u00e9 a mensagem central do neoliberalismo, o sistema de cren\u00e7as hegem\u00f4nico que governa o globo h\u00e1 quase meio s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Suas origens remontam ao per\u00edodo imediatamente p\u00f3s-guerra. Naquele momento, a ordem estabelecida no Ocidente ainda estava assombrada pelo choque da Grande Depress\u00e3o e enfrentava movimentos trabalhistas rec\u00e9m-fortalecidos decorrentes da Segunda Guerra Mundial. Para afastar o perigo de qualquer retorno ao primeiro e integrar as press\u00f5es do segundo, os governos em toda parte adotaram pol\u00edticas econ\u00f4micas e sociais destinadas a controlar o ciclo de neg\u00f3cios, manter o emprego e oferecer alguma seguran\u00e7a material aos menos favorecidos.<\/p>\n<p>O gerenciamento keynesiano da demanda e o bem-estar social-democrata foram as marcas da \u00e9poca, garantindo juntos n\u00edveis mais altos de interven\u00e7\u00e3o estatal e de redistribui\u00e7\u00e3o fiscal do que jamais se vira antes no mundo capitalista. Protestando contra essa ortodoxia dominante, uma pequena minoria de pensadores radicais denunciou todo esse dirigismo como, a longo prazo, fatal para o dinamismo econ\u00f4mico e a liberdade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Friedrich von Hayek foi a mente que liderou esta dissid\u00eancia neoliberal, e seu organizador principal, reunindo esp\u00edritos afins de todo o mundo em uma rede de influ\u00eancia semiclandestina, a Sociedade Mont Pelerin. Por um quarto de s\u00e9culo, esse grupo permaneceu \u00e0 margem da opini\u00e3o respeit\u00e1vel, suas opini\u00f5es ignoradas ou ridicularizadas.<\/p>\n<p>Com o surgimento da crise estagflacion\u00e1ria do in\u00edcio dos anos 1970, e o decl\u00ednio da economia capitalista mundial na longa recess\u00e3o das d\u00e9cadas seguintes, essa doutrina rigorosa e intransigente finalmente encontrou seu momento. Nos anos 1980, a direita radical assumira o poder nos Estados Unidos e na Gr\u00e3-Bretanha, e governos por toda parte adotavam as prescri\u00e7\u00f5es neoliberais para lidar com a crise: cortando impostos diretos, desregulamentando os mercados financeiros e de trabalho, enfraquecendo sindicatos, privatizando servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Um profeta sem honrarias em suas pr\u00f3prias terras durante os anos 1950 e 1960, Friedrich von Hayek foi ent\u00e3o consagrado por Ronald Reagan, Margaret Thatcher e outros chefes de Estado como o vision\u00e1rio pr\u00e1tico da \u00e9poca. O colapso do comunismo sovi\u00e9tico no final da d\u00e9cada pareceu a justificativa perfeita para sua cren\u00e7a de longa data de que o socialismo n\u00e3o passava de um \u201carrojo fatal\u201d.<\/p>\n<p>Mas foi nos anos 1990, quando a URSS j\u00e1 n\u00e3o existia e Ronald Reagan e Margaret Thatcher haviam sa\u00eddo de cena, que a ascens\u00e3o neoliberal atingiu seu \u00e1pice. Agora, sem o campo de for\u00e7as amigo-inimigo da Guerra Fria, e sem qualquer necessidade de que a direita radical estivesse no poder, foram governos de centro-esquerda no mundo capitalista avan\u00e7ado que perseguiram imperturbavelmente as pol\u00edticas neoliberais de seus predecessores, com um suavizar da ret\u00f3rica e a concess\u00e3o de benef\u00edcios acess\u00f3rios, mas com uma deriva pol\u00edtica consistente tanto na Europa quanto na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>O teste de uma verdadeira hegemonia \u2013 em oposi\u00e7\u00e3o a uma mera domina\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 sua capacidade de moldar as ideias e a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o tanto de seus defensores declarados, mas de seus advers\u00e1rios nominais. Ostensivamente, os governos de Clinton e Blair, de Schr\u00f6der e D\u2019Alema, para n\u00e3o mencionar Cardoso e de la R\u00faa, chegaram ao poder repudiando as duras doutrinas de acumula\u00e7\u00e3o e desigualdade que prevaleceram nos anos 1980. Na pr\u00e1tica, em geral as preservaram ou ampliaram.<\/p>\n<p><strong>11.<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da transfigura\u00e7\u00e3o da centro-esquerda na zona do Atl\u00e2ntico Norte, a hegemonia neoliberal se espalhou no mesmo per\u00edodo para os cantos mais distantes do planeta. Admiradores fervorosos de Hayek ou Friedman podiam ser encontrados em minist\u00e9rios da Fazenda por toda parte, de La Paz a Pequim, Auckland a Nova D\u00e9lhi, Moscou a Pret\u00f3ria, Helsinque a Kingston. O livro\u00a0<em>The commanding heights<\/em>\u00a0(1998), de Daniel Yergin e Joseph Stanislaw, ofereceu um\u00a0<em>tour<\/em>\u00a0panor\u00e2mico da \u201cgrande transforma\u00e7\u00e3o\u201d da \u00e9poca, t\u00e3o radical e infinitamente mais abrangente do que aquela que Karl Polanyi descreveu, ao escrever sobre o advento do liberalismo cl\u00e1ssico na era vitoriana.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da narrativa de Karl Polanyi, o relato de Yergin e Stanislaw sobre a vit\u00f3ria global do neoliberalismo transbordava entusiasmo pelas mudan\u00e7as libertadoras que os mercados livres supostamente trazem. Paralelamente a isso, surgiu o segundo grande desenvolvimento da \u00e9poca: a cruzada pelos direitos humanos liderada pelos Estados Unidos e pela Uni\u00e3o Europeia. Pois nem todo intervencionismo era malvisto pela ordem neoliberal. Embora o tipo econ\u00f4mico fosse reprovado \u2013 se redistributivo \u2013, o tipo militar era praticado e aplaudido como nunca.<\/p>\n<p>Se a Guerra do Golfo, manifestamente travada para proteger os interesses petrol\u00edferos do Ocidente, ainda pertencia a um padr\u00e3o antigo, seus desdobramentos estabeleceram novos par\u00e2metros. O bloqueio ao Iraque, com uma intensifica\u00e7\u00e3o acentuada dos bombardeios por Clinton e Blair, foi uma empreitada \u201chumanit\u00e1ria\u201d puramente punitiva. O desencadeamento de uma guerra em grande escala nos B\u00e1lc\u00e3s, com um bombardeio a\u00e9reo \u00e0 Iugosl\u00e1via, n\u00e3o precisava mais nem mesmo da ONU como folha de figueira para a a\u00e7\u00e3o da Otan, at\u00e9 depois do ocorrido. Em nome dos direitos humanos, o direito internacional foi redefinido unilateralmente para sobrepor-se \u00e0 soberania de qualquer Estado menor que incorresse na desaprova\u00e7\u00e3o de Washington ou Bruxelas.<\/p>\n<p>Se foi a vers\u00e3o de centro-esquerda do neoliberalismo que colocou em movimento essa escalada de prepot\u00eancia militar, a vis\u00e3o essencial do poder imperial j\u00e1 estava presente na doutrina original. Hayek, afinal, foi pioneiro na ideia de bombardear pa\u00edses recalcitrantes \u00e0 vontade anglo-americana, defendendo ataques a\u00e9reos rel\u00e2mpago contra o Ir\u00e3 em 1979 e a Argentina em 1982.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de hegemonia de Gramsci enfatizava o consentimento que ela buscava assegurar \u2013 sua defini\u00e7\u00e3o como um poder de persuas\u00e3o ideol\u00f3gica. Mas nunca foi sua inten\u00e7\u00e3o minimizar, muito menos esquecer, seu respaldo na repress\u00e3o armada. \u201cConsentimento mais coer\u00e7\u00e3o\u201d era a f\u00f3rmula completa de uma ordem hegem\u00f4nica, a seus olhos.<\/p>\n<p>O universo neoliberal sobre o qual o\u00a0<em>hegemon<\/em>\u00a0da \u00e9poca ainda preside cumpriu amplamente ambos os requisitos. Hoje ele est\u00e1 em certo questionamento, n\u00e3o tanto pela forma como a crise de Wall Street em 2008 e suas consequ\u00eancias tiveram que ser gerenciadas, com novos e enormes aumentos da d\u00edvida global que a provocou, mas porque a amea\u00e7a da concorr\u00eancia chinesa for\u00e7ou um recuo do livre com\u00e9rcio e a ado\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios estatais no Ocidente, em meio a um aumento ainda maior da montanha de d\u00edvida total mundial. No entanto, ainda n\u00e3o h\u00e1 uma alternativa consistente ao neoliberalismo como sistema governante de ideias de alcance planet\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>12.<\/strong><\/p>\n<p>As raz\u00f5es de sua for\u00e7a n\u00e3o residem apenas em seu dom\u00ednio econ\u00f4mico. Pois sob o neoliberalismo est\u00e1 um conjunto muito mais antigo de ideias e valores que veio a adquirir o termo \u201cliberal\u201d no s\u00e9culo XIX, e a rela\u00e7\u00e3o entre os dois \u00e9 uma das quest\u00f5es mais centrais, por\u00e9m menos discutidas, levantadas pela domin\u00e2ncia do primeiro.<\/p>\n<p>Em seu n\u00facleo, o neoliberalismo contempor\u00e2neo \u00e9 essencialmente uma doutrina econ\u00f4mica, enquanto o liberalismo propriamente dito era um conjunto de doutrinas pol\u00edticas que primeiro tomou forma sistem\u00e1tica como uma perspectiva autodeclarada n\u00e3o na Gr\u00e3-Bretanha, mas na Fran\u00e7a, no pensamento de Constant, Guizot e Royer-Collard, antes de gerar teoremas econ\u00f4micos nos trabalhos de Bastiat. Na gera\u00e7\u00e3o seguinte, viria Tocqueville; na Gr\u00e3-Bretanha, seu amigo e contempor\u00e2neo John Stuart Mill, igualmente produtivo em argumentos pol\u00edticos e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Os princ\u00edpios-chave desse liberalismo cl\u00e1ssico, junto com a prote\u00e7\u00e3o da propriedade privada, eram restri\u00e7\u00f5es constitucionais contra o governo arbitr\u00e1rio, governo representativo com sufr\u00e1gio limitado e garantia das liberdades individuais \u2013 na f\u00f3rmula de Benjamin Constant, a liberdade moderna, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 antiga, que se baseava na participa\u00e7\u00e3o ativa dos cidad\u00e3os nos assuntos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>At\u00e9 o final do s\u00e9culo, a industrializa\u00e7\u00e3o havia produzido uma popula\u00e7\u00e3o trabalhadora que exigia integra\u00e7\u00e3o de alguma forma no Estado para ser pacificada, ent\u00e3o o sufr\u00e1gio foi ampliado; e no curso do s\u00e9culo seguinte, ap\u00f3s uma longa luta, os direitos de voto foram estendidos n\u00e3o apenas aos trabalhadores homens, mas \u00e0s mulheres, no que acabou sendo chamado de democracias liberais. A esses sistemas pol\u00edticos as massas no Ocidente se afei\u00e7oaram, ainda que, na pr\u00e1tica, mais pelas liberdades civis que garantiam do que pela autodetermina\u00e7\u00e3o popular que propagandeavam, fornecendo uma base sociol\u00f3gica robusta para a afirma\u00e7\u00e3o oficial de que este era o Mundo Livre, e qualquer outra coisa era despotismo.<\/p>\n<p>A ideologia neoliberal que varreu o tabuleiro econ\u00f4mico nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, portanto, sobrep\u00f4s-se a um sistema de cren\u00e7as anterior, do qual derivava mas ao qual n\u00e3o podia ser reduzido um sistema que n\u00e3o apenas era mais antigo nos pa\u00edses avan\u00e7ados do Ocidente, mas em subst\u00e2ncia mais rico e diverso \u2013 permitindo, no limite (embora sempre marginais no panorama do liberalismo como um todo), liberais que rejeitavam n\u00e3o apenas o\u00a0<em>laissez-faire<\/em>\u00a0cl\u00e1ssico, mas at\u00e9 mesmo a propriedade privada capitalista em si, como nos casos de Russell ou Dewey, em diferentes fases de suas carreiras.<\/p>\n<p>O neoliberalismo era um corpo de pensamento inerentemente mais ralo, com menos apelo popular do que o liberalismo em seu sentido cl\u00e1ssico. N\u00e3o muito diferente do capitalismo em si, do qual era a express\u00e3o e teoriza\u00e7\u00e3o mais radicais, era por isso um termo que seus expoentes mais h\u00e1beis preferiam repudiar, como se fosse uma cal\u00fania inventada por descontentes. Tipicamente, nas colunas do\u00a0<em>Financial Times<\/em>\u00a0ou do\u00a0<em>The Economist<\/em>, \u201cneoliberal\u201d aparecer\u00e1 apenas entre aspas de ressalva, ou ser\u00e1 banido completamente.<\/p>\n<p>Deve-se ter ainda mais cuidado para neg\u00e1-lo ou evit\u00e1-lo, dado que os te\u00f3ricos pioneiros do neoliberalismo costumavam ser constrangedoramente francos em sua vis\u00e3o desfavor\u00e1vel da democracia, o ba\u00fa de tesouros dos valores liberais como entendido pelos expoentes de vers\u00f5es anteriores ou menos radicais. Mises, afinal, saudou o fascismo como uma salva\u00e7\u00e3o contra o socialismo na It\u00e1lia; Hayek defendia abertamente peneirar o sufr\u00e1gio universal. Para ambos, o Estado de Direito era um valor superior \u00e0 democracia, que poderia ser uma amea\u00e7a a ele e precisava ser contida se necess\u00e1rio: n\u00e3o se trata de uma ideia facilmente confessada por peri\u00f3dicos ou pol\u00edticos que os ecoam, e que dependem de tiragens significativas ou n\u00fameros de eleitores.<\/p>\n<p>Por que ent\u00e3o, se suas doutrinas s\u00e3o mais rasas e seus arautos menos numerosos, o neoliberalismo tornou-se uma ideologia muito mais poderosa e difundida do que o liberalismo no qual se baseia? A resposta, familiar a qualquer marxista, \u00e9 que a infraestrutura material de qualquer sociedade desenvolvida \u00e9 aquela da qual todo o resto depende \u2013 sem ela n\u00e3o pode haver burocracia, ex\u00e9rcito, parlamentos, m\u00eddia, hospitais ou escolas, pris\u00f5es, cultura erudita ou popular: tudo requer uma economia funcional para operar.<\/p>\n<p>Assim, onde n\u00e3o desejados, Constitui\u00e7\u00f5es ou parlamentos liberais, jornais ou podcasts liberais, artes ou cren\u00e7as liberais, podem ser dispensados, ao contr\u00e1rio de um sistema econ\u00f4mico funcional. Esse \u00e9 o\u00a0<em>sine qua non<\/em>\u00a0de qualquer ordem pol\u00edtica ou cultural. A isso, a afirma\u00e7\u00e3o central do neoliberalismo acrescenta que apenas um sistema agora existe \u2013 \u201cN\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d, na senten\u00e7a irremedi\u00e1vel de Thatcher.<\/p>\n<p>A aprova\u00e7\u00e3o de seus princ\u00edpios como desej\u00e1veis n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria: a resigna\u00e7\u00e3o negativa a eles como inevit\u00e1veis basta. N\u00e3o por acaso, a primeira implementa\u00e7\u00e3o radical \u2013 e por muito tempo bem-sucedida \u2013 de um programa neoliberal por qualquer governo ocorreu sob a brutal ditadura de Pinochet na Am\u00e9rica Latina. O neoliberalismo p\u00f4de crescer de forma quase universal no antigo Terceiro e Segundo Mundos, sem necessidade do subsolo liberal que o nutrira no Primeiro. Meio s\u00e9culo depois, continuamos a enfrentar a ideologia pol\u00edtica mais bem-sucedida da hist\u00f3ria mundial.<\/p>\n<p><strong>13.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 os que contestariam apaixonadamente tal veredito. Nos pa\u00edses avan\u00e7ados, as obje\u00e7\u00f5es alegadas contra ele come\u00e7aram cedo e corriam mais ou menos da seguinte forma. Devemos estar alertas, argumentam os cr\u00edticos, contra os perigos de superestimar a influ\u00eancia das doutrinas neoliberais em si. Certamente, os tempos mudaram desde os anos 1950 ou 60; os mercados ganharam mais poder \u00e0s custas dos Estados, e a classe trabalhadora n\u00e3o era mais a for\u00e7a que j\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Mas tomando as d\u00e9cadas desde o marco da vit\u00f3ria de Margaret Thatcher em 1979 como uma \u00e9poca, pelo menos nos pa\u00edses avan\u00e7ados a despesa p\u00fablica permaneceu alta e os sistemas de bem-estar mais ou menos intactos. Muito menos alterados do que poderia parecer na superf\u00edcie. Era um erro pensar que as ideias neoliberais fizeram uma diferen\u00e7a significativa para eles: constantes sociol\u00f3gicas mais profundas mantiveram o consenso do p\u00f3s-guerra no lugar.<\/p>\n<p>Mesmo no reino das ideias em si, muito mais pol\u00edticos repudiaram do que endossaram o rem\u00e9dio amargo do neoliberalismo, cujo raio real de atra\u00e7\u00e3o era muito estreito. Afinal, n\u00e3o deixaram claro Clinton e Blair que defendiam uma Terceira Via, expressamente equidistante tanto do neoliberalismo quanto do estatismo? Da mesma forma, o firme compromisso de Schr\u00f6der com uma\u00a0<em>Neue Mitte<\/em>\u00a0\u2013 um novo centro \u2013 ou a declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios de Jospin a favor de uma economia de mercado, mas n\u00e3o (enfaticamente n\u00e3o) de uma sociedade de mercado?<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, vimos o conservadorismo compassivo de Bush com \u201cnenhuma crian\u00e7a deixada para tr\u00e1s\u201d, a intrepidez de Barack Obama com \u201caud\u00e1cia da esperan\u00e7a\u201d, a sobriedade do \u201cfreio da d\u00edvida\u201d de Angela Merkel e do \u201cpacto de responsabilidade\u2019 de Fran\u00e7ois Hollande\u201d o dinamismo das \u201ctr\u00eas flechas\u201d de Abe, a \u201credu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o\u201d de Joe Biden e o \u201ccontrato com a na\u00e7\u00e3o\u201d de Emmanuel Macron, ou o mais simples e vazio de todos como palavra de ordem para seu oposto, a \u201cmudan\u00e7a\u201d de Karl Starmer (<em>plus \u00e7a change<\/em>\u2026).<\/p>\n<p>Algumas das obje\u00e7\u00f5es convencionais t\u00eam mais peso do que outras. \u00c9 perfeitamente verdade, \u00e9 claro, que as ideias neoliberais n\u00e3o devem ser vistas com poderes m\u00e1gicos de persuas\u00e3o pol\u00edtica por si s\u00f3s. Como todas as grandes ideologias, esta tamb\u00e9m sempre exigiu suplementos afetivos \u2013 tipicamente o nacionalismo \u2013 e pr\u00e1ticas materiais \u2013 instrumentais ou rituais \u2013 para manter sua influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a base pr\u00e1tica da hegemonia neoliberal encontra-se na primazia do consumo privado \u2013 de bens e servi\u00e7os mercantilizados \u2013 na vida cotidiana das sociedades capitalistas contempor\u00e2neas, atingindo novos n\u00edveis de intensidade nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas; e na ascens\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o como um eixo central da atividade econ\u00f4mica nos mercados financeiros mundiais, penetrando nos poros do tecido social com o marketing maci\u00e7o de fundos m\u00fatuos e de pens\u00e3o. \u00c9 um desenvolvimento do qual estamos testemunhando apenas o in\u00edcio, \u00e0 medida que se espalha da Am\u00e9rica do Norte para a Europa e para o hemisf\u00e9rio sul.<\/p>\n<p>Se a despesa p\u00fablica nos Estados capitalistas avan\u00e7ados permanece alta, ela \u00e9 agora cada vez mais h\u00edbrida e dilu\u00edda por infus\u00f5es de capital privado que se estendem a todo tipo de servi\u00e7o \u2013 de hospitais a pris\u00f5es \u00e0 arrecada\u00e7\u00e3o de impostos \u2013 que antes seriam considerados dom\u00ednios inviol\u00e1veis da autoridade p\u00fablica ou do provimento coletivo. A hegemonia neoliberal n\u00e3o prescreve tanto uma agenda espec\u00edfica de inova\u00e7\u00f5es, que pode variar significativamente de uma sociedade para outra, mas determina os limites do que \u00e9 poss\u00edvel em qualquer uma delas.<\/p>\n<p>Uma boa medida de sua influ\u00eancia geral \u00e9 a conformidade de todos os governos do Norte, independentemente de sua cor pol\u00edtica nominal, aos imperativos de bloqueio militar, ocupa\u00e7\u00e3o ou interven\u00e7\u00e3o fora da zona atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Os regimes social-democratas da Escandin\u00e1via, por exemplo, que antes tinham reputa\u00e7\u00e3o de certa independ\u00eancia na pol\u00edtica externa, regularmente agem como chacais correndo ao lado dos maiores predadores ocidentais \u2013 a Noruega ajudando a selar o dom\u00ednio israelense na Palestina, a Finl\u00e2ndia intermediando o bombardeio da Iugosl\u00e1via, a Su\u00e9cia auxiliando extradi\u00e7\u00f5es na Guerra ao Terror, todos os quatro se juntando \u00e0 matilha na Ucr\u00e2nia. A vacuidade da ret\u00f3rica da Terceira Via como uma alternativa aparente a ele foi sempre a prova mais segura da ascend\u00eancia duradoura do neoliberalismo.<\/p>\n<p><strong>\u00a014<\/strong>.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o as li\u00e7\u00f5es dessa hist\u00f3ria para a esquerda? Em primeiro lugar, que as ideias contam no balan\u00e7o da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e no resultado da mudan\u00e7a hist\u00f3rica. Em todos os tr\u00eas grandes casos de impacto ideol\u00f3gico moderno, o padr\u00e3o foi o mesmo. Iluminismo, marxismo, neoliberalismo: em cada caso, um sistema de ideias foi desenvolvido, em alto grau de sofistica\u00e7\u00e3o, em condi\u00e7\u00f5es de isolamento inicial e tens\u00e3o com o ambiente pol\u00edtico circundante \u2013 com pouca ou nenhuma esperan\u00e7a de influ\u00eancia imediata.<\/p>\n<p>Foi apenas quando uma grande crise objetiva, pela qual estas ideias n\u00e3o eram de forma alguma respons\u00e1vel, eclodiu, que os recursos intelectuais subjetivos, acumulando-se gradualmente nas margens de condi\u00e7\u00f5es calmas, de repente adquiriram for\u00e7a avassaladora como ideologias mobilizadoras com controle direto sobre o curso dos eventos. Tal foi o padr\u00e3o nos anos 1790, 1910 e 1980. Quanto mais radical e intransigente o corpo de ideias, mais abrangente seu efeito, uma vez desencadeado em condi\u00e7\u00f5es turbulentas.<\/p>\n<p>Hoje ainda estamos em uma situa\u00e7\u00e3o onde uma \u00fanica ideologia dominante governa a maior parte do mundo. Resist\u00eancia e dissid\u00eancia est\u00e3o longe de mortas, mas continuam a carecer de articula\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e intransigente.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o vir\u00e1, sugere a experi\u00eancia, de ajustes d\u00e9beis ou acomoda\u00e7\u00f5es eufem\u00edsticas \u00e0 ordem existente das coisas. O que \u00e9 necess\u00e1rio em vez disso (e n\u00e3o chegar\u00e1 da noite para o dia), \u00e9 um esp\u00edrito totalmente diferente \u2013 uma an\u00e1lise incans\u00e1vel e, quando necess\u00e1rio, c\u00e1ustica do mundo como ele \u00e9, sem concess\u00f5es \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es arrogantes da direita, aos mitos conformistas do centro ou \u00e0s piedades bem-pensantes de grande parte do que se passa por esquerda. Ideias incapazes de chocar o mundo s\u00e3o incapazes de abal\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>*Perry Anderson<\/strong>,<em>\u00a0historiador, fil\u00f3sofo pol\u00edtico e ensa\u00edsta, \u00e9 professor de hist\u00f3ria e sociologia na Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles e fundador da New Left Review. Autor, entre outros livros, de<\/em>\u00a0Afinidades Seletivas (<em>Boitempo<\/em>).<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<strong>Antonio Martins<\/strong>\u00a0para o site\u00a0<em><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/em-busca-de-ideias-forca-para-mudar-o-mundo\/\" rel=\"noreferrer noopener\">Outras palavras<\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Publicado originalmente na\u00a0<a href=\"https:\/\/newleftreview.org\/issues\/ii151\/articles\/perry-anderson-idees-forces\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>New Left Review<\/em><\/a>.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Ideologias mobilizadoras &#8211; &#8211; https:\/\/aterraeredonda.com.br\/ideologias-mobilizadoras\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PERRY ANDERSON* &#8211; Hoje ainda estamos em uma situa\u00e7\u00e3o onde uma \u00fanica ideologia dominante governa a maior parte do mundo. 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