{"id":24539,"date":"2025-03-18T12:35:21","date_gmt":"2025-03-18T15:35:21","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24539"},"modified":"2025-04-01T17:08:43","modified_gmt":"2025-04-01T20:08:43","slug":"sobre-o-filme-o-brutalista-e-o-sonho-americano-que-nasceu-apodrecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/03\/18\/sobre-o-filme-o-brutalista-e-o-sonho-americano-que-nasceu-apodrecido\/","title":{"rendered":"Sobre o filme \u2018O Brutalista\u2019 e o sonho americano que nasceu apodrecido"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fabiane Albuquerque<\/strong> &#8211; Num pa\u00eds onde existem guetos, uma popula\u00e7\u00e3o enorme na mis\u00e9ria, fam\u00edlias vivendo em barracas e trailers, com um alto \u00edndice de letalidade policial, em que as v\u00edtimas s\u00e3o quase sempre negras, essa realidade n\u00e3o aparece no filme, embora a podrid\u00e3o da sociedade se insinue, sem jamais ser aprofundada.<\/p>\n<p>O sonho americano est\u00e1 apodrecido. L\u00e1szl\u00f3 Toth, um judeu da Hungria, sobrevivente de um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista, chega nos Estados Unidos depois da guerra, para morar com o primo.\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/O_Brutalista\">J\u00e1 no in\u00edcio do filme<\/a>\u00a0nos deparamos com uma sociedade altamente t\u00f3xica, que muda as pessoas para pior, embora elas n\u00e3o se deem conta disso, presente nos detalhes: o primo judeu que muda de nome, de religi\u00e3o, de h\u00e1bitos, batiza o neg\u00f3cio de m\u00f3veis de \u201cMiller and sons\u201d, pois, ali, a ideologia crist\u00e3 b\u00e9lica, as lojas familiares fazem sucesso. O lucro toma forma de desprezo por toda fraqueza e sofrimento humano. O casal jovem que acolhe L\u00e1szl\u00f3, jamais escuta as dores do homem que saiu vivo dos horrores da ideologia supremacista branca ariana. A superficialidade e a ignor\u00e2ncia cultural, art\u00edstica e hist\u00f3rica, mostra que o dinheiro n\u00e3o constr\u00f3i cultura. O sonho americano n\u00e3o suporta fraqueza.<\/p>\n<p>O primo percebe que pode aproveitar do rec\u00e9m-chegado lhe fazendo projetar os m\u00f3veis do seu neg\u00f3cio e, na primeira oportunidade, usa L\u00e1szl\u00f3, arquiteto renomado antes da Guerra, para ganhar dinheiro. O primeiro contato com o rica\u00e7o \u00e9 marcado pela explora\u00e7\u00e3o, o desprezo e o racismo. Depois de n\u00e3o receber pelo trabalho, expulso da casa do primo, como o jovem protagonista do romance de Kafka, Am\u00e9rica, ele vai parar nas ruas, nos alojamentos para a grande massa de gente que o sonho americano n\u00e3o contempla. Sonhar, naquele pa\u00eds, \u00e9 coisa de gente branca, que perdeu a empatia. O empres\u00e1rio, que n\u00e3o o pagou, s\u00f3 volta atr\u00e1s e o procura, depois que a foto da biblioteca que o judeu construiu, at\u00e9 ent\u00e3o apenas um desgra\u00e7ado, vai parar numa revista renomada. A \u00eanfase na pr\u00f3pria imagem \u00e9 o que motiva o homem rico e o seu interesse pelo arquiteto. A rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de trabalho, mas do ser: \u201cL\u00e1szl\u00f3, as conversas intelectuais com voc\u00ea s\u00e3o muito empolgantes\u201d, diz o burgu\u00eas. Nos Estados Unidos, ricos n\u00e3o amam cultura, usam a cultura, como, por exemplo, ter a arte de um arquiteto famoso que trabalhou na pr\u00f3pria casa, numa revista. \u00c9 tudo sobre si mesmo.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds onde existem guetos, uma popula\u00e7\u00e3o enorme na mis\u00e9ria, fam\u00edlias vivendo em barracas e trailers, com um alto \u00edndice de letalidade policial, em que as v\u00edtimas s\u00e3o quase sempre negras, essa realidade n\u00e3o aparece no filme, embora a podrid\u00e3o da sociedade se insinue, sem jamais ser aprofundada. O sonho americano \u00e9 branco e perverso. O sonho \u00e9 dinheiro, obtido \u00e0 custa de n\u00e3o pagar um trabalhador, de aloj\u00e1-lo em um quartinho, de ostentar uma constru\u00e7\u00e3o milion\u00e1ria. A rela\u00e7\u00e3o com o dinheiro \u00e9 um fetiche total, nos termos de Karl Marx. Torna-se um fim em si mesmo, n\u00e3o um meio para viver melhor, para o \u201cbem viver\u201d. \u00c9 poss\u00edvel dispensar trabalhadores e, ao mesmo tempo, viajar para a It\u00e1lia com o \u00fanico objetivo de comprar m\u00e1rmore de Carrara.<\/p>\n<p>O capitalismo \u00e9 o sistema econ\u00f4mico que transformou o homem branco e rico em predador. Predador em todos os sentidos: nos buracos da montanha de Carrara, que sangra, mutilada, para oferecer \u00e0 burguesia do mundo inteiro um peda\u00e7o de sua carne; predador sexual, na cena de estupro; predador afetivo e emocional, quando oferece trabalho at\u00e9 mesmo \u00e0 esposa de L\u00e1szl\u00f3, tamb\u00e9m sobrevivente do nazismo, tornando todos dependentes e gratos a ele.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia tem uma cena representativa da perda de si mesmo e busca de algo, como uma vis\u00e3o on\u00edrica, um tanto superficial, digna da narrativa hollywoodiana; a figura do an\u00e1rquico. Ela aparece, mas se perde no vazio do curto di\u00e1logo entre L\u00e1szl\u00f3 e o amigo. Parece a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o sincera, aut\u00eantica, mas, numa descri\u00e7\u00e3o simplista: \u201cN\u00f3s somos an\u00e1rquicos\u201d. De um lado, o italiano que vende ao rico, do outro, o arquiteto que se adaptou ao rico. E a anarquia? E, termina ali. Sobre rela\u00e7\u00f5es sinceras, as \u00fanicas s\u00e3o aquelas estabelecidas entre os condenados da Terra, de gente \u00e0 margem, como Gordom, pai negro, que cria o filho sozinho, encontrado pelo protagonista na fila de emprego, com quem dividiu os alojamentos coletivos para miser\u00e1veis na cidade. Depois de cinco anos na \u201cAm\u00e9rica\u201d, sua esposa cadeirante e sua sobrinha \u00f3rf\u00e3 re\u00fanem-se a ele. S\u00e3o essas pessoas a parte mais sens\u00edvel da exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p>O filme est\u00e1 dentro de uma l\u00f3gica narrativa que n\u00e3o convence, porque dentro de uma l\u00f3gica hollywoodiana, onde algumas coisas s\u00e3o colocadas sem aprofundamento: a figura do rico, que lucra com navios de guerra, o seu advogado e a esposa judia, amigos do\u00a0<em>establishment<\/em>, que ajuda L\u00e1szl\u00f3 com os documentos para trazer o que sobrou da fam\u00edlia, e, em simult\u00e2neo, convivem e aceitam as regras da sociedade estadunidense. O protagonista, em sofrimento, n\u00e3o se rebela, parece esperar a sua vez, o sonho americano.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o do diretor, no final, foi apontar uma sa\u00edda sionista: \u201cvamos para o Estado de Israel, rec\u00e9m-criado, l\u00e1, sim, nos sentiremos em casa. L\u00e1 sim, seremos gente.\u201d Sem enfatizar o que comportou a forma\u00e7\u00e3o do Estado de Israel: expuls\u00e3o dos palestinos de suas terras, segrega\u00e7\u00e3o de um grupo de pessoas, rebaixadas, por sua vez, a menos dignas que os judeus.\u00a0 A \u00fanica coisa inesperada no filme foi esta, a falta de cr\u00edtica sobre a forma\u00e7\u00e3o deste Estado e o que comportou.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina cinematogr\u00e1fica \u00e9 de grande qualidade, assim como a inten\u00e7\u00e3o de prender o expectador por 3 horas e 35 min.<\/p>\n<p>Sobre o termo \u201cbrutalismo\u201d, trata-se \u00e9 um estilo arquitet\u00f4nico, com obras escuras, imponentes, de concreto bruto, como o convento Sainte-Marie-de-la-Tourette de Le Corbusier, em Lyon. A constru\u00e7\u00e3o realizada por L\u00e1szl\u00f3, sob pedido do homem rico e o seu sentido, s\u00f3 fora revelada no final. A luta pelo projeto inicial, entre o arquiteto e a fam\u00edlia rica, a comunidade local e outros arquitetos, ao longo da obra, \u00e9 reveladora dos valores contrastantes: criatividade e originalidade, de um lado e lucro, superficialidade, mentiras e sabotagens, de outro. O sonho americano n\u00e3o admite fidelidade a si e aos pr\u00f3prios princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Olhando como brasileira negra, de um pa\u00eds cuja coloniza\u00e7\u00e3o e embranquecimento da cultura, por parte da burguesia, ainda eugenista, a cena em que o diretor quis enfatizar a arquitetura europeia, a cidade de Veneza, enquadrando, sobretudo, a Bas\u00edlica San Pedro e a sua c\u00fapula, sugere uma exalta\u00e7\u00e3o. Lembrei-me de uma amiga, muito euroc\u00eantrica, que veio visitar-me em Lyon. A sua frase preferida, sempre que lhe mostrava um ponto tur\u00edstico era: \u201c\u00c9 outro n\u00edvel\u201d. At\u00e9 que chegamos na pra\u00e7a Terreaux, em Lyon, onde, bem no meio, tem uma escultura imponente chamada Fontaine Bartholdi, criada pelo escultor Fr\u00e9d\u00e9ric Auguste Bartholdi e inaugurada em 1892 com o nome original de Char triomphal de la Garonne ou Les fleuves et les sources allant \u00e0 l\u2019oc\u00e9an. A mulher, ao centro, representa a Fran\u00e7a, e os quatro cavalos, de onde jorra \u00e1gua, os rios franceses. A minha amiga, extasiada, disse: \u201cNossa, que lindo! Isso aqui n\u00e3o tem no Brasil.\u201d Retruquei ironicamente: \u201cAh, claro! No Brasil precisamos mesmo de uma est\u00e1tua de quatro cavalos\u201d. A arquitetura de um povo, n\u00e3o necessariamente serve a outro, sobretudo se for na l\u00f3gica da superioridade e domina\u00e7\u00e3o e, no Brasil, se a burguesia tivesse o m\u00ednimo de esp\u00edrito nacionalista, n\u00e3o importaria o sonho americano e a classe m\u00e9dia rejeitaria sonh\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Fabiane Albuquerque<\/strong>\u00a0\u00e9 doutora em sociologia, feminista negra e escritora. Autora dos livros\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.editoramale.com.br\/product-page\/cartas-a-um-homem-negro-que-eu-amei\">Cartas a um homem negro que amei<\/a>\u00a0<\/em>(Editora Mal\u00ea) e\u00a0<em>Ensaio sobre a raiva\u00a0<\/em>(Editora Patu\u00e1)<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Sobre o filme \u2018O Brutalista\u2019 e o sonho americano que nasceu apodrecido &#8211; Le Monde Diplomatique &#8211; https:\/\/diplomatique.org.br\/sobre-o-filme-o-brutalista-e-o-sonho-americano-que-nasceu-apodrecido\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabiane Albuquerque &#8211; Num pa\u00eds onde existem guetos, uma popula\u00e7\u00e3o enorme na mis\u00e9ria, fam\u00edlias vivendo em barracas e trailers, com um alto \u00edndice de letalidade policial, em que as v\u00edtimas s\u00e3o quase sempre negras, essa realidade n\u00e3o aparece no filme, embora a podrid\u00e3o da sociedade se insinue, sem jamais ser aprofundada. 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